Um pouco de Tipos Psicológicos

 

(Este texto foi publicado originalmente em 4 partes, nos dias 17, 28 de setembro e 04 e 27 de outubro de 2010)

Pensando a Teoria dos tipos

A teoria dos Tipos psicológicos ocupa um lugar especial na teoria junguiana. A partir dela podemos vislumbrar aspectos importantes concernentes tanto a epistemologia junguiana quanto a clinica junguiana.

De imediato devemos ressaltar que a teoria dos tipos não tem como objetivo “classificar” as pessoas. Muito pelo contrario, ela é um instrumento para compreendermos como os indivíduos se relacionam conscientemente com a realidade. Em entrevista a Dr. Evans, Jung diz

Todo o meu plano tipológico consiste, meramente, numa espécie de orientação. Existe um fator, a introversão; existe outro fator, a extroversão. A classificação de indivíduos nada significa. Trata-se apenas de um instrumento, ou aquilo a que chamo ”psicologia” prática, usada para explicar, por exemplo, o marido a uma esposa ou vice versa. (EVANS, Entrevistas com Jung e as Reações de Ernest Jones, p. 92)

A teoria dos “Tipos Psicológicos” foi publicada em 1921, no livro homônimo, e desde então lançou conceitos (que se tornaram simplesmente termos) comuns a toda população como “introversão” e “extroversão”. Antes de falarmos acerca da descrição dos tipos, é importante considerar um ponto central, que antecede a aplicação prática.

Devemos considerar que a teoria dos tipos psicológicos nos propõe questões acerca da possibilidade do conhecimento. Isto é, podemos dizer as questões que fundamentam a caracterização dos tipos são:

a) É possível conhecer um objeto ou a coisa em si?

b) Como se daria o processo de conhecimento?

Através da Teoria dos “Tipos Psicológicos” Jung responde ou indica que não é possível conhecermos as coisas em si mesmas, nós conhecemos apenas aquilo que se manifesta a nossa percepção – ou o que apreendemos do objeto por nossa percepção. Dessa forma, o processo de conhecer é limitado por nossos sentidos, ao espaço e tempo. O processo de conhecimento seria filtrado por algumas categorias subjetivas, essas categorias seriam as atitudes e funções psicológicas

Nosso modo de ser condiciona nosso modo de ver. Outras pessoas tendo outra psicologia vêem e exprimem outras coisas e de outro modo. Isto o demonstrou logo um dos primeiros discípulos de Freud: Alfred Adler. Ele apresentava o mesmo material empírico de um ponto de vista bem diferente, e sua maneira de ver é, no mínimo, tão convincente quanto a de Freud, porque também Adler representa um tipo de psicologia que encontramos com freqüência. Sei que os seguidores de ambas as escolas me consideram, sem mais, no caminho errado, mas a história e os pensadores imparciais me darão razão. Não posso deixar de criticar as duas escolas por interpretarem as pessoas demasiadamente pelo lado patológico e por seus defeitos. Exemplo convincente disso é a impossibilidade de Freud de entender a vivência religiosa. (JUNG, Freud e a Psicanálise, p.324-5 )

A divergência entre Adler e Freud é um exemplo interessante citado por Jung, pois, um mesmo caso clinico era analisado por duas óticas bem distintas – e ambos indicavam caminhos coerentes para se compreender o caso. Deste modo, Jung compreendia que a percepção de Freud e de Adler eram verdadeiras, pois, eles partiam de ângulos distintos, do mesmo modo que ele próprio, Jung, partia de um ângulo distinto dos demais. Isso não implica em erro ou acerto, isso quer dizer apenas que cada teoria (seja de Jung, Freud ou Adler) compreendia um aspecto parcial da experiência ou do fenômeno psíquico. Do mesmo modo, quando trabalhamos na clinica devemos considerar o que o nosso cliente nos diz como fruto de sua forma de perceber a realidade, isto é, sua realidade. Devemos compreender seu modo de se relacionar com o mundo, para assim intervir de forma clara e eficaz.

A teoria dos tipos se apresenta como um instrumento para compreender a dinâmica da consciência (isto é, do Ego) em relação ao mundo dos objetos. De certa forma, podemos dizer, que a a tipologia psicológica de um individuo é a forma principal de adaptação que ele utiliza.

Quando nos referimos a um tipo psicológico nos deparamos com duas categorias a atitude da libido e a função psicológica.

Atitude da Libido : Extroversão e Introversão

Entende-se por “atitude da libido” o movimento da libido ou da energia psíquica em relação ao objeto.

Dessa forma, a extroversão significa que a tendência primária da libido é se voltar ou direcionar ao objeto, o individuo conscientemente “se lança” em busca de conhecer, compreender ou assimilar o objeto, se sente naturalmente “atraída” pelo objeto . Por outro lado, a atitude compensatória do inconsciente é retirar a libido do objeto. Conforme, o quadro abaixo

clip_image001

Pessoas do tipo extrovertido são pessoas que naturalmente tendem a ocupar os espaços, são expansivas, se sentem instigadas a interagir com o meio, possuindo uma facilidade um pouco maior para se adaptar a situações externas.

Por outro lado, a introversão significa que a tendência primaria da libido é de regredir frente ao objeto, isto é, ao retornar ao sujeito. É como se o objeto fosse algo ameaçador e o individuo tenta se esquivar, o objeto é algo com o qual se deve ter cautela. As impressões apreendidas do objeto são mais marcantes que o objeto em si.

clip_image002

Devemos compreender que não existe uma atitude “pura”, isto é, ninguém é introvertido ou extrovertido o tempo todo. São tendências naturais, ou seja, quando falamos que um individuo é extrovertido, isso significa que a maior parte do tempo sua atitude natural é assim, em outros momentos ele pode se portar de forma introvertida – nessas horas as pessoas podem pensar que o extrovertido está triste ou deprimido, mas, ele está apenas “quieto” (isto é, num momento de introversão).

Do mesmo modo, uma pessoa introvertida em determinadas situações pode parecer ansiosa,  “quieta demais”, se sentir desconfortável (mesmo em situações corriqueiras como supermercado cheio),  em outras, com amigos (por exemplo), pode ser falante e expansiva. 

O ideal é compreendermos qual nossa atitude natural para não sermos “dominados” por ela, de modo, a perdermos oportunidades.  É importante equilibrarmos as atitudes para termos uma melhor adaptação a realidade. Pois, não há tipo melhor ou pior que o outro. Temos provérbios e ditos populares que nos alertam para os perigos da radicalização das atitudes:

“Quem não chora, não mama”

Ou

“A curiosidade matou o gato”

Na clínica, é importante o psicoterapeuta  perceber a atitude natural do cliente para acolhe-lo da forma que permita que ele se sinta o mais confortável possível. Por exemplo, um terapeuta introvertido pode parecer “frio”, “distante” ou “indiferente” a um cliente extrovertido.

As funções Psiquicas

Como dissemos no post anterior acerca dos Tipos Psicológicos, a tipologia psicológica proposta por Jung se caracteriza pelo movimento da libido, que pode ser introvertido ou extrovertido, e pelas funções psicológicas que descreveremos nesse post.

Jung compreendia como função psicológica uma “certa forma psíquica de atividade que, em principio, permanece idêntica sob condições diversas” (JUNG, 1991, p.412) Assim, uma função psicológica é um dinamismo comum a todos os indivíduos, que caracteriza o funcionamento da consciência, ou seja, a forma como o individuo se relacionaria ou apreenderia o meio externo.

Em seu trabalho, Jung, identificou 4 funções psicológicas, as quais designou como pensamento, sentimento, sensação(que também encontraremos como percepção) e intuição. Devemos tomar cuidado com os termos utilizados por Jung. A denominação dada a função, significa uma forma de possibilitar a melhor compreensão dessa dinâmica, ou seja, p. ex, quando falarmos de “função pensamento” não estamos definindo ou conceituando o “pensar”, mas, dizendo que essa dinâmica psíquica está mais associada aos processos reflexivos/cognitivos relacionados ao pensamento ou pensar – o individuo se orienta na relação com o meio sobretudo através das categorias cognitivas.

Desse modo, quando vemos “função pensamento” devemos compreender que o pensamento adjetiva essa função, não a conceitua. É a principal característica e, assim,  não devemos confundir “função pensamento” com “ato de pensar” ou com o “pensamento em si”, do mesmo modo que não devemos confundir “função sentimento” com “ato de sentir” ou com um “sentimento em si” como alegria.

As quatro funções são divididas em duas categorias: racionais e irracionais.

As funções racionais seriam as funções relacionadas aos processos de conhecimento, julgamento, avaliação,  interpretação e atribuição de valor a realidade. Nesta categoria estariam as funções pensamento e sentimento.

A função pensamento se caracteriza pela interpretação da realidade, isto é, seu direcionamento está em identificar, analisar, categorizar e definir a realidade/objeto. Esta função tem como principio a distinção racional e logica dos fenômenos.

Por outro lado, a função sentimento se caracteriza pela avaliação ou valoração da realidade, isto é, esta função tem como principio avaliar os elementos de valor, importância e significado do objeto. O afeto produzido na relação do sujeito com o objeto, “torna-se, então, efetivamente, não a expressão de algo, de uma atividade interna a um sujeito, mas uma episteme, um modo legítimo para o conhecimento.” (DAMIÃO, 2003, p. 90)

Essas funções são racionais por partirem do mesmo principio de conhecimento. Mas, seu foco, é bem distinto, fazendo que essas funções sejam opostas.

(…) O que pode acontecer com aquelas funções que ela não utiliza diariamente de modo consciente e, portanto, não desenvolve pelo exercício? Permanecem em situação mais ou menos primitivo-infantil, apenas meio-consciente ou totalmente inconscientes. E constituem, assim, para cada tipo, uma inferioridade característica que é a parte integrante de seu caráter geral. Ênfase unilateral no pensamento vem sempre acompanhada de inferioridade do sentimento; sensação diferenciada perturba a faculdade intuitiva e vice-versa.

Se uma função é diferenciada ou não, é fácil de perceber por sua força, estabilidade, consistência, confiabilidade e ajustamento. Mas sua inferioridade nem sempre é tão fácil de reconhecer e descrever. Um critério bastante seguro é sua falta de autonomia e, portanto, sua dependência das pessoas e das circunstâncias, sua caprichosa suscetibilidade, sua falta de confiabilidade no uso, sua sugestionabilidade e seu caráter nebuloso. Na função inferior, estamos sempre por baixo; não podemos comanda-la, mas somos inclusive suas vitimas (JUNG, 1991,p. 497)

As funções irracionais serias as funções estariam relacionadas com a apreensão da realidade, onde foco não é a interpretação, mas, sim o contexto ou situação objetiva. Estando nessa categoria a sensação e a intuição.

A Sensação se caracteriza pelo reconhecimento da realidade, esta função localiza o individuo de forma precisa na realidade, através de uma consideração precisa do que se apresenta a percepção.

Por outro lado, a intuição é designado por jung, como uma percepção por via inconsciente. O prof. Dr. Maddi Damião Jr, nos dá uma metáfora bem interessante para pensarmos a compreensão da intuição

Poderíamos utilizar de uma metáfora – digo metáfora, pois não pretendo aqui fazer nenhuma comparação entre teorias psicológicas – para a Gestalt Theorie: toda forma é apreendida sempre a partir de um conjunto de relações e estas se organizam segundo um princípio nomeado “relação figura-fundo”, ou seja, quando apreendemos ou percebemos um determinado aspecto da realidade, apreendemos um conjunto de relações significativas, escapando, assim, uma série de outras possíveis. O todo deste conjunto de relações seria aquilo que permite que uma determinada configuração de forma se dê, se constitua; aquilo que não percebemos é o que sustenta a figura, ou seja, na figura, o que vigora com maior intensidade, como uma forma organizada, somente tem sua possibilidade de configuração porque existe um fundo, que o mantém, um conjunto de relações que possuem, para o observador, ou para com a relação do olhar que constitui o campo intencional, uma baixa valência, pouca pregnância. A intuição, ao nos utilizarmos desta metáfora, seria a capacidade de percepção do fundo, em sua totalidade. (DAMIÃO, 2003, p. 91-2 )

Assim, a intuição indica tendências para o futuro, a partir de insights derivados da compreensão da totalidade.

As funções racionais são opostas entre si, assim como as funções irracionais são opostas entre si. Se tomarmos por exemplo, uma pessoa que desenvolveu a função pensamento prioritariamente, as funções irracionais seriam funções auxiliares, e a função sentimento, conforme o esquema.

clip_image003

É importante compreendermos que as funções racionais e irracionais se complementam. Assim, quando uma função racional (pensamento ou sentimento) se diferencia, como função principal, está é auxiliada por uma função secundaria ou terciaria (de acordo com o grau de desenvolvimento) que sera sensação ou intuição. Por mais que tenhamos uma função principal, ao longo da vida temos que desenvolver as outras funções para termos uma relação mais equilibrada com a realidade.

Assim, quando nos referimos a um tipo psicológico, três elementos são necessários para compreendermos um tipo psicológico :

Atitude da libido : Se é introvertido ou extrovertido.

Função Psicológica Principal: o modo preferencial como se relaciona com a realidade

Função Psicológica Secundaria: que complementa a função principal.

Assim teríamos como as 16  as possibilidades possibilidades de combinação da tipologia psicológica.:

Tipo introvertido pensamento – intuição

Tipo Introvertido pensamento – sensação

Tipo Introvertido sentimento – intuição

Tipo Introvertido sentimento – sensação

Tipo Introvertido sensação – pensamento

Tipo Introvertido sensação – sentimento

Tipo Introvertido intuição – pensamento

Tipo Introvertido intuição – Sentimento

Tipo Extrovertido pensamento – intuição

Tipo Extrovertido pensamento – sensação

Tipo Extrovertido sentimento – intuição

Tipo Extrovertido sentimento – sensação

Tipo Extrovertido sensação – pensamento

Tipo Extrovertido sensação – sentimento

Tipo Extrovertido intuição – pensamento

Tipo Extrovertido intuição – Sentimento

Nos próximos posts, discutiremos os tipos básicos (atitude e função principal).

Apresentarei algumas características gerais dos tipos, mas, em hipótese alguma devemos compreender essas características como rótulos, são apenas elementos comuns a esses indivíduos. Vamos começar pelos quatro tipos extrovertidos.

Tipos Extrovertidos

Os tipos extrovertidos se caracterizam por uma peculiar relação com o mundo externo. São como que atraídos pelos objetos, sua energia flui para o objeto.

Tipo pensamento extrovertido

O tipo pensamento extrovertido ou pensativo extrovertido tem como característica fundamental a necessidade de identificar, classificar e ordenar a realidade que o cerca, busca fatos.  Tomam como referência os padrões coletivos de racionalidade e lógica.O pensamento abstrato, subjetivo não são atraentes a esses indivíduos, uma vez que não lógicos, se tornam entediantes, para eles. Sobre esse tipo, von Franz nos diz que esses tipos

Limpam toda a poeira das velhas bibliotecas e  acabam com os fatores que inibem a ciência e que são causados pela desordem,  pela preguiça ou pela falta de clareza na linguagem. O tipo pensativo extrovertido  estabelece a ordem tomando uma posição definida e dizendo: “Quando digo isto  quero dizer isto”. Eles põem ordem clara nas situações exteriores. Num encontro de negócios, o indivíduo dirá que o certo é ater-se aos fatos básicos e depois decidir  como proceder. Um advogado que precisa ouvir todos os relatórios caóticos das partes é capaz de ver, com sua função superior pensamento, quais são os conflitos reais e quais as falsas alegações, conseguindo então uma solução satisfatória para todos. A ênfase será sempre colocada no objeto e não na idéia. (FRANZ, 2002, p. 61)

O tipo pensamento extrovertido  tendem a ser muito exatos, precisos, racionais. Por estarem muito relacionados com os fatos e ordenação dos mesmos eles tendem a parecer autoritários, secos e pedantes. Sua enfâse na racionalidade e no mundo exterior faz com que tenham dificuldades por serem mal compreendidos nos relacionamentos pessoais.

Eu me recordo de um colega de faculdade, que tinha uma característica fortemente marcada pelo pensamento extrovertido, toda apresentação de trabalhos, ele atravessava a fala dos demais dizendo “O que fulano quer dizer é….” isso era constante, era algo que incomodava a todos, para mim, como introvertido que sou, deixava ele falar, já que ele tinha essa necessidade. Até que um dia, outro de nossos colegas, este com um tipo mais prático, que acredito ser sensação introvertido, virou para ele antes do trabalho e disse “se você interromper dizendo ‘o que ele quer dizer é…’ eu juro pra você que eu te encho de porrada lá mesmo, por que ‘não quero dizer’ e ‘estou dizendo’”. Isso foi suficiente para esse amigo pensamento extrovertido  entender que seu habito era incomodo, por mais que suas intenções fossem as melhores possíveis.

O tipo pensamento extrovertido tem uma certa dificuldade tanto para identificar quanto para lidar  com os afetos, que não conseguem muitas vezes expressar, parecendo assim que são frios e indiferentes. O fundamental é compreendermos que apesar de parecerem frios, distantes, o sentimento ocupa um lugar especial que os mobiliza de forma que eles não se dão conta. Mas, falaremos disso em outro momento quando falarmos acerca da função inferior.

Tipo sentimento extrovertido

O tipo sentimento extrovertido é orientado pela avaliação do valor, mérito, importância dos objetos/pessoas. Isso propicia que ele atribua um sentido ou laço afetivo muito claro com a realidade. Segundo von Franz

O tipo sentimental extrovertido caracteriza-se pelo fato de que a sua principal  adaptação é conduzida por uma adequada avaliação dos objetos exteriores e por uma relação apropriada com eles. Por essa razão, esse tipo fará amizades muito facilmente, terá poucas ilusões sobre as pessoas, mas será capaz de avaliar os seus lados positivos e negativos de maneira adequada. São pessoas bem ajustadas, muito razoáveis, que se envolvem amavelmente com o mundo, conseguem o que querem muito facilmente e também conseguem, de alguma forma, levar todos a lhes darem o que elas querem. Elas suavizam o ambiente tão maravilhosamente que a vida transcorre com muita facilidade. Esse tipo é muito  freqüentemente encontrado entre mulheres que de maneira geral têm uma vida familiar muito feliz, entre muitos amigos. Contudo, se de alguma forma estão dissociados neuroticamente, eles agem de maneira um tanto teatral, um tanto mecânica e calculista. Se se vai a um almoço festivo com um tipo sentimental extrovertido, ele dirá coisas como: “Que lindo dia está hoje”; “Estou feliz por vê-lo de novo”: “Não o via há muito”. E ele realmente quer dizer isso! Com essa atitude o ambiente fica cheio de calor e a festa vai em frente. As pessoas se sentem felizes e entusiasmadas.(FRANZ, 2002, p. 69)

Os tipos sentimento extrovertido são muito gentis e afetuosos e fazem questão de expressar o valor, reconhecimento ou  afeto que tem pelas pessoas, o que faz que se preocupem muito com os relacionamentos e circunstâncias sociais. Geralmente, os tipos introvertidos ficam meio sem saber como lidar com essa expressão afetuosa. Muitas vezes, o tipo sentimento extrovertido é taxado como “histérico” ou “histérica” pelo seu modo de agir, o que é um erro enorme, nem todo tipo sentimento é histérico (categoria patológica). Pois, o reconhecimento afetivo expressado pelo tipo sentimento é uma demonstração de algo constatado, não uma tentativa de sedução.

A capacidade do tipo sentimento em avaliar as pessoas, faz com que, muitas vezes, sejam bem claros em suas relações: quando gostam de alguém são como mães protegendo seus filhotes; quando são indiferentes, o são de forma pura e objetiva; quando odeiam alguém, declaram guerra por muitas “gerações”.

Tipo sensação extrovertida

O tipo sensação se caracteriza por uma relação objetiva e prática com o meio circundante. Sua função principal está relacionada com o reconhecimento do espaço imediatamente colocado ao individuo, assim, possuem uma percepção espacial/situacional peculiar. A relação com afetiva ou interpretativa com o meio é segundaria. Esse contato diferenciado com o meio, faz com que ele tenha não só um senso “quase fotográfico” mas, uma habilidade pratica muito diferenciada. Pessoas com a tipologia sensação tem capacidade de resolução de problemas práticos e objetivos muito diferenciada, isto pois, ele não se perde em abstrações, divagações teóricas, é bom ou não fazer, o que importa realmente para ele é identificar : qual é o problema e qual é sua solução. Segundo von Franz,

tipo perceptivo extrovertido é representado por alguém cujo dom e função especializada é sentir e relacionar-se com os objetos externos de uma forma concreta  e prática. Esses indivíduos observam todas as coisas, cheiram tudo e, ao entrarem  num ambiente, percebem quase que imediatamente quantas pessoas estão presentes.  Além disso, eles notam se a sra. fulano de tal estava lá e o que estava vestindo. (…) O tipo perceptivo extrovertido é um mestre em perceber detalhes(FRANZ, 2002, p. 39)

Esse tipo se entedia facilmente com assuntos relacionados a abstratos, contudo, sua percepção diferenciada lhe permite um senso estético muito particular. 

A praticidade e objetividade do tipo sensação faz com que ele pareça não se importar com os outros. Mas, não devemos nos ater as aparências. Pois, os suas ações e como ele as executa demonstram a consideração e o afeto que muitas vezes não percebemos de imediato.

Tipo intuição extrovertida

O tipo intuição extrovertido possui uma observação muito peculiar, cujo foco não está na realidade objetiva, mas, na possibilidade inerente a realidade que se apresenta. O tipo intuitivo está sempre aberto para as possibilidades futuras, para as tendências. Isso não quer dizer que ele “adivinhe” as coisas, mas, que ele está atendo para a configuração da realidade – não seus detalhes; assim, ele tem como um “flash” ou um “insight” das possibilidades objetivas.

Para funcionar, a intuição precisa olhar as coisas de longe ou de modo vago, a fim de captar um certo pressentimento vindo do inconsciente, semicerrar os olhos e não olhar os fatos muito de perto. Se se olhar com muita precisão para as coisas, o foco serão os fatos e o pressentimento não surgirá. É por isso que os intuitivos tendem a ser imprecisos e vagos. A desvantagem de ter a intuição como função principal é que o tipo intuitivo semeia, mas raramente colhe. Assim, por exemplo, se alguém inicia um negócio, surgem geralmente dificuldades iniciais, as coisas não funcionam bem  imediatamente, é preciso esperar um certo tempo para que se torne lucrativo. (FRANZ, 2002, 51-2)

Por estarem mais relacionados com as possibilidades futuras, sua capacidade de se relacionar com o mundo objetivo tende a gerar situações de constrangimento ou parecer que ele é uma pessoa muito desatenta ou desleixada. Tenho um bom amigo com essas características  intuitivas bem acentuadas, ele era capaz de ir para a universidade de carro e simplesmente voltar de ônibus para casa (e somente se recordar que foi de carro, perto de casa) – fato que se repetiu algumas vezes; situações que acabam se tornando folclóricas. A relação com o espaço é algo bem interessante do tipo intuitivo, eu tive o prazer de ter aula com uma professora intuição extrovertida, era como se ela captasse os anseios da turma, fazendo da aula um show, por outro lado, quando ela passava, era como se um furacão passasse, pois, ela derrubava tudo, esbarrava em tudo, teve uma cena engraçada, pois o data show não funcionava, depois de algum tempo tentando resolver a situação,  eu notei o problema – a tomada não estava ligada.  Um detalhe objetivo e pratico, mas, para o intuitivo não é muito atrativo.

Poderíamos dizer, que enquanto o tipo sensação desloca-se no espaço objetivo, o tipo intuitivo extrovertido desloca-se no tempo. São criativos, visionários, mas, não se atém ao aspecto prático da realidade, muitas vezes não se dão conta do próprio corpo.

Tipos introvertidos

Os tipos introvertidos se caracterizam por evitar meio externo, isto é, a energia recua diante dos objetos, como se, o individuo se sentisse ameaçado pelo meio. De forma geral, a impressão ou representação que têm dos objetos lhes são mais importantes do que os objetos em si. Falar dos tipos introvertidos é mais complicado, pois, no geral, eles se voltam para seu mundo interior se expondo pouco, leva mais tempo para identificar a função de um tipo introvertido

Tipo pensamento introvertido

O tipo pensamento introvertido se caracteriza por valorizar sobre tudo as ideias. Os fatos são sempre menos importantes que as ideias, estão sempre buscando os conceitos e os fundamentos das ideias. Marie-Louise que também pertencia a essa categoria, nos descreve bem esse tipo,

Pertence ao tipo pensativo introvertido alguém que diria que não se parte dos fatos, mas, primeiramente, se esclarecem as ideias. O seu desejo de ordenar a vida se exterioriza pela ideia de que, se alguém começar errado, jamais chegará a lugar algum. Primeiro é necessário conhecer as ideias a serem seguidas e de onde elas vêm; é preciso eliminar a estupidez, cavando nas profundidades do pensamento. Toda a filosofia está preocupada com os processos lógicos da mente humana, com a construção de idéias. Esse é o domínio em que o pensamento introvertido mais atua. Na ciência, são essas pessoas que permanentemente estão tentando evitar que os seus colegas se percam em experimentos e que, de vez em quando, tentam voltar aos conceitos básicos e perguntam o que de fato estamos fazendo mentalmente. (Franz, 2002,p)

O tipo pensamento visa a logica das ideias e dos conceitos. Muitas vezes, no meio de uma discussão é o que se volta para os “princípios fundamentais”, questiona se os dois estão “falando do mesmo assunto”, dá muito valor as palavras, não pela forma estética, mas, pela idéia que elas representam.  Geralmente produzem “teorias” sobre tudo, muitas vezes ignorando os fatos concretos.

Tipo sentimento introvertido

O tipo sentimento introvertido caracteriza-se por seu julgamento diferenciado de pessoas e valores. Contudo, não há uma expressão formal desses julgamentos. Seu caráter introvertido faz parecer ser apáticas, um pouco mornas, distantes. Em suas relações, as pessoas não conseguem perceber o quanto significam para pessoas dessa tipologia. Essas pessoas são percebidas como corretas, éticas, bem quistas, fiéis, mas, muitas vezes deslocam-se pela vida sem deixar grandes impressões. Quando se permitem se destacar na vida, elas são pessoas admiradas, respeitadas pela forma quase que impecável de de lidar com outros, mas, são sempre vistas como enigmáticas.

Sobre esse tipo, von Franz nos fala,

É um tipo muito difícil de ser entendido. Jung, nos Psychological Types, afirma que a expressão “as águas paradas correm no fundo” se aplica a esse tipo. Pessoas desse tipo têm uma escala altamente diferenciada de valores, mas não os expressam exteriormente; são afetadas por eles no íntimo. É freqüente achar-se o tipo sentimental introvertido nos bastidores de acontecimentos importantes e valiosos, como se o seu sentimento introvertido lhes tivesse dito “o importante está aqui”. Com uma espécie de lealdade silenciosa e sem nenhuma explicação, eles surgem em lugares onde valiosos e importantes fatos interiores, constelações arquetípicas, são encontrados. Exercem também uma secreta influência positiva à sua volta, estabelecendo padrões. Os outros os observam e, embora não digam nada porque são muito introvertidos para se expressarem muito, eles estabelecem padrões. Assim, por exemplo, o tipo sentimental introvertido muito freqüentemente forma a base ética de um grupo: Sem irritar os outros com a pregação de preceitos morais ou éticos, ele próprio tem padrões éticos tão corretos que emanam secretamente uma influência positiva sobre aqueles que estão à sua volta; as pessoas têm de se comportar corretamente porque o tipo sentimental introvertido possui a espécie correta de padrão de valores, o que, sugestivamente, sempre força as pessoas a serem decentes se eles estão presentes. O seu sentimento introvertido diferenciado sente interiormente qual o fator de real importância. (FRANZ, 2002, p.75-6)

Tipo sensação introvertida

O tipo sensação introvertido se caracteriza por uma relação diferenciada com o meio, ele e impactado pelo meio. É como se o meio o invadisse os sons, odores, cores, formas. Mas, esse tipo fica como que impassível, não transborda ou expressa claramente essa relação com o meio. Esse tipo, é tão enigmático e quase insondável quanto o sentimento introvertido. Sobre esse tipo, von Franz nos diz

Há muitos anos, no Psychological Club, tivemos uma reunião na qual os membros, em lugar de apenas citarem o livro de Jung sobre os tipos, foram instados a descreverem os seus tipos com as suas próprias palavras. Eles deviam descrever a sua experiência da própria função superior. Nunca esquecerei o depoimento dado pela Sra. Jung. Somente após tê-la ouvido é que senti haver entendido o tipo perceptivo introvertido. Fazendo a descrição de si mesma, ela disse que o tipo perceptivo introvertido era como uma chapa fotográfica, altamente sensível. Esse tipo, quando alguém entra numa sala, percebe o modo como a pessoa entra, o cabelo, a expressão do rosto, as roupas e a maneira de caminhar. Tudo isso dá uma impressão muito precisa do tipo perceptivo introvertido; cada detalhe é absorvido. A impressão vem do objeto para o sujeito; é como se uma pedra caísse em águas profundas — a impressão cai mais fundo, mais fundo, e afunda. Por fora, esse tipo mostra-se totalmente estúpido. Ele apenas se senta e olha, e não se sabe o que está
acontecendo dentro dele. Fica parecido com um pedaço de madeira, sem nenhuma reação — a não ser que reaja através de uma das funções auxiliares: pensamento ou sentimento. Porém, interiormente, a impressão está sendo absorvida.

O tipo perceptivo introvertido, portanto, dá a impressão de ser muito lento, o que não é verdade. O que acontece é que a reação interna, que é rápida, caminha por baixo, e a reação externa se exterioriza de maneira atrasada. Assim é o jeito dessas pessoas; se lhes contamos uma piada pela manhã, provavelmente só irão rir à meia noite. Esse tipo muitas vezes é mal interpretado e mal entendido pelos outros, porque não se compreende o que acontece com ele. Se conseguir expressar as suas impressões fotográficas artisticamente, eles poderão reproduzi-las através de pinturas ou por escrito. Tenho uma forte suspeita de que Thomas Mann era um tipo perceptivo introvertido. Ele descreve todos os detalhes de uma cena e nas suas descrições expressa plenamente a atmosfera de um ambiente ou de uma personalidade. Essa é uma espécie de sensibilidade que absorve os menores matizes e os mais íntimos detalhes. (Franz, 2002, p.46-7)

Para mim falar do tipo sensação introvertido me remete a várias lembranças, pois, minha esposa é sensação introvertido. E assim, eu pude aprender melhor essas peculiaridades. Eu me recordo de dois momentos onde o traço sensação se colocou muito presente. Num desses momentos foi quando fizemos especialização juntos, em algumas aulas foi no intervalo quando ela me falava de como estava irritada com as murmurinhos de conversas paralelas que a atrapalhavam prestar atenção (isto porque, sua atenção é guiada pela função principal, que prioritariamente mapeia o meio, como um radar)– depois, que ela me chamou atenção para isso, que no retorno do intervalo, eu percebi que realmente havia alguns alunos que não paravam de falar no fundo. Eu não havia percebido nada. Isso porque sou tipo pensamento com função auxiliar intuição. Com os anos de convívio, eu me apercebi do quanto minha percepção com o meio era(ou é) deficiente.

Outra cena que me deixou me chamou a atenção para essas características do tipo sensação, foi durante uma aula de terapia de casal, onde fomos convidados a um exercício onde um deveria “imitar” o outro, em suas ações, falas, trejeitos etc… quando ela começou a me imitar, foi absurdamente estranho, foi como me olhar no espelho. Ninguém conseguia segurar a gargalhada, pois, ela reproduziu com exatidão meu jeito de sentar, falar, vícios de linguagem, enfim, era meu espelho. Não tivemos muito tempo para preparar nada, era improviso, mas, ela me reproduzia em detalhes que nem eu mesmo percebia. Nem preciso dizer o fiasco que foi a imitação, eu reles e  tipo pensamento – intuição introvertido, me vi incapaz desse tipo de reprodução da realidade.

Tipo intuição introvertida

A função intuição introvertida possui como característica uma capacidade de apreensão da realidade intimamente relacionada com tendências futuras. Sua característica introvertida faz com que sua intuição se volte para um campo subjetivo que muitas vezes identificamos como “espiritual”. São pessoas que passam pela vida sem se apegar ao concreto, percebendo a tendências como “vontade divina”.  O tipo intuitivo é encontrado frequentemente em pessoas que vivem de modo excêntrico, que aderem a uma realidade simbólica que se distancia da realidade prática e concreta dos fatos. Os “sinais” são mais importantes que os fatos. Seu caráter introvertido, faz com que não tenhamos clareza dos significados atribuídos inconscientemente aos fenômenos, fatos e pessoas.

Segundo von Franz,

O tipo intuitivo introvertido tem a mesma capacidade do intuitivo extrovertido no sentido de pressentir o futuro, fazendo as conjeturas ou as premonições certas sobre as possibilidades futuras, ainda não vistas, de uma situação. Contudo, a sua intuição é voltada para dentro e ele é primariamente o tipo do profeta religioso, o tipo do vidente. Num nível primitivo, ele é o xamã que sabe o que os deuses, os espectros e os espíritos ancestrais estão planejando e que transmite as suas mensagens à tribo. Na linguagem psicológica, poderíamos dizer que ele conhece os lentos processos que ocorrem no inconsciente coletivo, as mudanças arquetípicas, e que os comunica à sociedade.(…)(FRANZ, 2002, 54-55)

O intuitivo introvertido freqüentemente é tão inconsciente no que diz respeito a fatos externos que os seus relatos têm de ser tratados com o maior cuidado. Assim, embora não minta conscientemente, ele pode contar as mais espantosas mentiras simplesmente porque não percebe o que está bem à sua frente. Muitas vezes desconfio dos relatos sobre fantasmas, por exemplo, ou parapsicológicos, por essa razão. Os intuitivos introvertidos se interessam muito por esses campos, mas por causa da sua fraqueza em observar os fatos e da sua falta de concentração nas situações externas podem contar os maiores disparates e jurar que são verdadeiros. Eles passam por um número absolutamente espantoso de fatos externos e não os
assimilam.(Ibid, p.56-7)

O tipo intuição introvertido são pessoas tem um contato com o mundo dos arquétipos (muitas vezes, expressos na religiosidade), isso possibilita que eles tenham abertura ao mistério da vida, sendo promotores de reavivamentos espirituais em suas comunidades.

Neste post apresentamos de forma breve uma compreensão básica dos tipos psicológicos, devemos considerar falamos sobretudo da função principal, quando lidamos na realidade associar elementos da função principal e da função segundaria para percebermos é a tendência geral de relação desse individuo.

outubro 27, 2010 4:09 pm por Fabricio | Editar

Ao longo desses posts acerca dos tipos psicológicos discutimos acerca do papel da tipologia junguiana para um perspectiva epistemológica; acerca das atitudes (introversão e extroversão) e das funções psicológicas (pensamento, sensação, sentimento e intuição).  Nesse post, nosso foco será função inferior.

Jung chamou de “função inferior” a função psíquica menos desenvolvida, isto é, a que ao longo do desenvolvimento foi menos utilizada, por ser oposta a função principal. Devido a isto, a função inferior ocupa um espaço menor na consciência, na maioria das vezes, a atitude e funcionamento do Ego ignora a função inferior, deixando-a num estado quase bruto ou primitivo, ficando assim muito mais próxima do inconsciente.

“Nossa esfera consciente é como uma sala com quatro portas, e a quarta porta será aquela através da qual entrarão a sombra, o animus, a anima e a personificação do Si-mesmo. Não entrarão com tanta freqüência pelas outras portas, o que é, de certa maneira, evidente, porque a função inferior está tão próxima do inconsciente, e permanece tão selvagem e inferior, que ela é naturalmente o ponto fraco da consciência através do qual as figuras do inconsciente podem forçar a penetração. Na consciência ela é vivenciada como um ponto fraco, como aquela coisa desagradável que nunca nos deixa em paz, mas que sempre causa problemas, porque todas as vezes que sentimos que adquirimos certo equilíbrio ou ponto de vista interior, alguma coisa dentro ou fora de nós acontece, que nos desequilibra novamente, e isso sempre se á através da quarta porta, a que não conseguimos fechar. Podemos manter fechadas as três portas do aposento interno, mas, na quarta porta a chave não funciona, e ali, quando menos esperamos, o inesperado mais uma vez se manifesta.  Graças a Deus, podemos dizer, caso contrário todo o processo da vida se petrificaria e estagnaria em um tipo errado de consciência. Ela é a ferida da personalidade  consciente que nunca fecha, mas através dela o inconsciente pode entrar, expandir a consciência e produzir nova experiência”. (FRANZ,1999, 136-7)

Desse modo, devemos compreender que a função inferior é considerada um  risco para o individuo na medida em que não a controlamos, já que em grande parte estamos inconscientes dela. Por outro lado, é justamente o nosso ponto fraco que se torna nossa possibilidade de desenvolvimento, pois, ao lidarmos com a função inferior, estamos nos abrindo movimento do inconsciente em nós mesmos.

Von Franz nos chama atenção para o fato que é através da quarta função ou função inferior, que o inconsciente penetra no mundo da consciência. Isso significa uma tendência das figurações do inconsciente(sombra, self, anima e animus) se associar a função inferior, assumindo assim o aspecto desta ultima. Isso se torna claro quando o inconsciente se projeta, seja pela sombra ou pela anima/us, pois, no caso da sombra a pessoa sobre a qual se recai a projeção, será julgada não só pelos atributos da sombra(lembrando que a tendência natural é que a sombra se projete em pessoas do mesmo sexo), mas, pelo preconceito consciente. Por ex., um tipo pensamento introvertido, terá uma forte tendência a julgar uma pessoa sentimento extrovertido como uma pessoa superficial, desprovido raciocínio, imatura, dado a “ataques emotivos”, ou cheio de “estrelismos”, isso devido a incapacidade de compreender o funcionamento do tipo oposto, por outro lado, quando falamos da anima ou do animusassociada a função inferior, podemos compreender alguns casais “incomuns” que se foram aparentemente opostos, mas, que se completam.

É importante a gente entender, que nesses casos, apesar desses relacionamentos permitir um relacionamento com a anima/função inferior, eles são “desejáveis”, pois, se pautam numa inconsciência, na projeção do inconsciente. Mais cedo ou mais tarde esta projeção deve ser assimilada, ou seja, deve ser incorporada, pois é necessária ao desenvolvimento do Si-mesmo. Quando ela está projetada, o individuo muitas vezes não se confronta com esses aspectos em si mesmos, se tornando de certo modo dependente dessa outra pessoa.

Compreender a dinâmica da função inferior não significa “controla-la” mas, sim respeita-la. Isto é, quando compreendermos nossa função inferior e a dos outros poderemos ser mais tolerantes com os outros e ficarmos atentos as nossas projeções. Nos possibilita o exercício de humildade de reconhecermos que em nós há aspectos que não somos hábeis e que nos incomodamos com pessoas que têm desenvolvida a nossa função inferior, justamente, por ser nosso calcanhar de Aquiles.

Assim, devemos fazer uma breve descrição da função inferior:

Função inferior dos tipos Racionais

Pensamento Extrovertido Inferior (do tipo sentimento introvertido). A função pensamento se caracteriza por avaliar e identificar os objetos e situações.  O pensamento extrovertido inferior do tipo sentimento introvertido, tende a ligado com a variedade dos fatos que acontecem no mundo exterior. Apesar do tipo sentimento introvertido ser “silencioso”, “quieto” ou “na dele” tende a apresentar uma série de interesses diversificados. Pelo pensamento não ser bem desenvolvido, a tendência é ter uma certa dificuldade a lidar com essa variedade de opções, isto é, tendo uma certa dificuldade para estabelecer prioridades, por outro lado, o pensamento extrovertido, pode se caracterizar ao que von Franz chamava de “monomania”, isto é, eles apresentem ou possuem poucas idéias básicas (como premissas) e com as quais são capazes de produzir um grande volume de material.

Pensamento Introvertido Inferior (do tipo sentimento extrovertido) –  O pensamento introvertido inferior se manifesta muitas vezes através de pensamentos que invadem a consciência do tipo sentimento extrovertido. Esses pensamentos tendem a ser negativos/depreciativos geralmente relacionados a si mesmos, achando-se incapazes, errados, incompetentes. Muitas vezes, esse tipo tende a evitar ficar sozinho, para não ser tomado ou invadido pelos pensamentos inferiores.

Sentimento Introvertido Inferior (do tipo pensamento extrovertido) – O tipo sentimento introvertido possui uma manifestação muito discreta, no geral, aparece como uma fidelidade (quase devocional), apesar desse tipo não expressar seus sentimentos, quando ele avalia algo como justo ou bom, essa avaliação o guia de modo quase infantil. Na maioria das vezes, o individuo não se dá conta.  Quando ama, esse individuo ama de forma profunda e verdadeira, mas, o mais provável é que a pessoa amada perceba esse amor, pois, esse amor não encontra vias de expressão.

Sentimento extrovertido Inferior (do tipo pensamento introvertido) –  “O sentimento extrovertido, sua função compensatória, atormentará os casos extremos desse tipo [pensamento introvertido] com reações emocionais bizarras e inadequadas, e com avaliações errôneas e ingênuas  em relação as pessoas. Podem ser egoístas sentimentais que ignoram de modo desumano os sentimentos daqueles próximos a eles, em nome do amor pela humanidade ou a serviço de uma grande idéia” (WHITMONT, 1995, p.135)

O tipo pensamento introvertido é tomado por ondas de emoções que o levam a reações inadequadas ou excessivas ou infantis. Por ser extrovertida, sempre será direcionada a uma situação ou objeto externo, geralmente tem dificuldades para avalia-los. 

Função inferior dos tipos irracionais

Intuição Introvertida Inferior (do tipo sensação extrovertido) – “esse tipo está cheio de intuições negativas sobre si próprio e normalmente projeta sobre os outros. Ele vivencia então as intuições projetadas sob a forma de vagos ciúmes, ansiedades e medos, superstições e pressentimentos.  (WHITMONT, 1995, p. 135)

Assim, a intuição introvertida inferior se caracteriza por intuições negativas e muitas vezes equivocadas. Por outro lado, quando se manifesta de uma forma produtiva, podemos notar nesses indivíduos sensação extrovertidos, no geral tão pragmáticos, um interesse incomum por assuntos como o sobrenatural, histórias de fantasmas, ficção e seitas esotéricas. Quando guiados pela função inferior, são convincentes acerca desses assuntos. Quando retornam, a função principal, eles riem e fazem como se não fosse importante, se atendo a realidade objetiva. No geral, o mundo arquetípico penetra em sua realidade através dessas crenças religiosas, esotéricas ou superstições, as quais ele não pode ignorar.

Intuição extrovertida inferior (do tipo sensação introvertido) – A intuição extrovertida inferior do tipo sensação está direcionada para a relação objetiva com o mundo exterior. Isso significa, que os acontecimentos relacionados ao mundo exterior dispararão essa intuição.  Por ser inferior, essa intuição tende a ser negativa e, quando o individuo é muito inconsciente desse caráter, pode se tornar  pessimista em relação a realidade exterior. Criando muitas vezes expectativas que fogem um pouco a realidade.

Sensação Introvertida Inferior (do tipo Intuição Extrovertido) – a sensação introvertida inferior do tipo intuição extrovertida, se caracteriza por uma dificuldade na auto-percepção. Isto é, não conseguem perceber as sensações do próprio corpo, como se estivessem desconectados. A tendência é não se atentar para os cuidados básicos do corpo ou em perceber seus limites corporais, seja com alimentação, cansaço. A sensação inferior implica uma dificuldade de perceber e se relacionar tanto com os movimentos do inconsciente quanto com  a relação com o corpo.

Sensação  extrovertida Inferior ( do tipo Intuição introvertido) –  A sensação inferior se caracteriza por uma relação inadequada com o campo relacional próximo, imediato, podendo ser interior ou exterior. No caso da sensação extrovertida, há uma tendência há um contato inadequado com a realidade o individuo não percebe o que está próximo, derrubando as coisas, no geral, o individuo é visto como distraído, desatento, pois sua relação objetiva é pouco desenvolvida.

Algumas Considerações Finais

É importante termos atenção para alguns aspectos básicos que podem comprometer a aplicação dos tipos psicológicos na pratica do dia a dia :

1-Não existe “tipo puro”, por isso, quando descrevemos a tipologia nos referimos a uma tendência prioritária. Mesmo um individuo muito “unilateral”, possui uma função auxiliar que complementa sua atitude. Ou seja, é tão importante saber qual é a função secundária quanto a função principal. Pois, são dois aspectos complementares : como o individuo avalia ou julga a realidade (função racional)  e como ele percebe a realidade(função irracional).

2 – Quando a função terciaria é pouco desenvolvida ela pode possuir as mesmas características da função inferior. Assim, não podemos ter uma visão rígida acerca da tipologia, não é uma classificação, mas, uma compreensão dinâmica do funcionamento da consciência.

3 – A tipologia pode “mudar” na medida em que o individuo se empenhe em desenvolver da função secundária e terciária. O individuo poderá ter uma capacidade mais ampliada de lidar com a realidade.

4  – A função inferior está sempre fora do domínio do Ego e da consciência. O que podemos fazer é justamente dar espaço para experimentarmos o inconsciente através da função inferior (para não sermos tomados de assalto por ela), por exemplo, um tipo pensamento pode dar espaço a função inferior através  de filmes (comédias românticas, dramas),ou um tipo intuição através de trabalhos manuais (como argila), a tipo sensação se permitir o contato com o sagrado das religiões,  são possibilidades de dar espaço a função inferior, pois, no geral, a tendência é a negação dessa função.

5 – Percebemos a função principal de uma pessoa é importante para não atacarmos a sua função inferior. Pois, é o ponto fraco de uma pessoa, onde ele se defenderá  com unhas e dentes. A forma mais prática (e mais adequada) quando percebemos uma excessiva unilateralidade da função principal é usar as funções auxiliares(secundárias ou terciarias), pois, no geral, possibilitam um reavaliação de uma dada situação sem que o individuo se sinta tão inseguro.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS,

FRANZ, Marie-Louise von, Psicoterapia. .São Paulo: Paulus, 1999.

WHITMONT, Edward C. A busca do símbolo. Cultrix; São Paulo, 1995

SILVEIRA, Nise. Jung Vida e Obra. 19.ed., São Paulo: Editora Paz e Terra S.A., 2003.

JUNG, C.G. Tipos Psicológicos Petrópolis, RJ: Vozes, 1991

SHARP, D. Léxico junguiano. São Paulo: Cultrix, 1997.

JUNG, C.G. Freud e a Psicanálise. Petrópolis: Vozes, 1989.

EVANS,R.Entrevistas com Jung e as Reações de Ernest Jones.Rio de janeiro:eldorado,1973.

JUNG, C.G. Tipos Psicológicos. Petrópolis: Vozes, 1991.

FRANZ, Marie-Louise von, A Função Inferior, in  FRANZ, Marie-Louise von et HILLMAN, James. A Tipologia de Jung . 3ª ed.São Paulo: Cultrix, 2002.

DAMIÃO, Maddi, Jr. A Psicologia da Matemática e a Matemática da Psicologia. Tese (Doutorado em Psicologia) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, 2003.

——————————————————–

Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

www.psicologiaanalitica.com

mandala

Algumas palavras sobre símbolos e função transcendente

 

11 de setembro de 2010

O símbolo é o conceito que melhor representa a compreensão da psicologia junguiana acerca da psique. Etimologicamente, símbolo vem da palavra grega symbolon, do verbo symballein que seria lançar com, arremessar ao mesmo tempo, também sendo usado para exprimir um acordo ou uma senha que possibilitaria o reconhecimento de iguais que se separaram.

A função psíquica do símbolo é semelhante à expressa historicamente na cultura: reconhecer e unir. Os símbolos “[…] são tentativas naturais de lançar uma ponte sobre o abismo muitas vezes profundo entre os opostos, e de equilibrar as diferenças que manifestam” (JUNG, 2000, p. 259). Assim o símbolo é como uma ponte que aproxima o inconsciente e a consciência. E, como uma ponte, o símbolo possui uma face que é apreendida pela consciência e outra que é inconsciente, dessa forma o símbolo nunca é totalmente apreendido pela razão, isto é, pela consciência.

Assim, por possuírem um aspecto inconsciente os símbolos possibilitam o trânsito da energia psíquica entre a consciência e o inconsciente, além de possibilitar a transformação da energia de uma forma de manifestação para a outra, disponibilizando energia para a atuação da vontade consciente.

Os símbolos expressam uma totalidade psíquica que é simultaneamente pessoal, cultural e arquetípica. Isso confere ao símbolo uma riqueza de significados que não permitem sua delimitação. Quando se tenta demarcar o sentido do símbolo, este torna-se um sinal.

Um sinal sempre aponta para uma idéia consciente […] Um sinal é sempre menos do que a coisa que quer significar, e um símbolo é sempre mais do que podemos entender a primeira vista. Por isso não nos detemos diante de um sinal, mas vamos até o objetivo para o qual aponta; no caso do símbolo, porém, nós paramos porque ele promete sempre mais do que revela (JUNG, 2000, p.215).

Os símbolos coletivos são expressos por meio da cultura unindo a consciência coletiva ao inconsciente coletivo. Esses símbolos expressam o espírito da época (zeitgeist), nos possibilitando compreender a dinâmica das massas e das nações. Por outro lado, os símbolos pessoais nos falam da dinâmica do indivíduo, mesmo que esse símbolo tenha uma moldura marcadamente cultural.

Quando um símbolo se manifesta à consciência, abre a possibilidade de uma mudança da atitude desta, por exemplo, um indivíduo que sonha que sofreu acidente de carro e ao acordar repensa a forma como conduz sua vida, ou minimamente, passa a dirigir com mais cautela, por ter a imagem do acidente em sua mente. O conteúdo simbólico do sonho possibilitou uma mudança nesse indivíduo.

Os símbolos, como os sonhos, são produtos da natureza, mas eles não aparecem só nos sonhos; podem s urgir em qualquer forma de manifestação psíquica: existem pensamentos, sentimentos, ações e situações simbólicos, e muitas vezes parece que não só o inconsciente mas também objetos inanimados se arranjam de acordo com os modelos simbólicos (JUNG, 2000 , p. 214).

Os símbolos podem surgir no contexto de um conflito neurótico, se opondo à atitude da consciência. Não que o símbolo seja patológico ou mesmo patogênico, mas sim a atitude da consciência. Para haver mudança é necessário que haja um símbolo constelado. Dessa forma, a psicoterapia só é eficaz se possibilitar a relação simbólica do indivíduo com consigo mesmo. Em outras palavras, é necessário que a psicoterapia seja simbólica para o cliente, de modo que favoreça seu processo de individuação.

Neste contexto, é que podemos falar da função transcendente.

Jung define a função transcendente, assim, como a “união de conteúdos conscientes e inconscientes”, “a reconciliação” dos pares de opostos e a partir desta reconciliação uma nova coisa é sempre criada , uma nova coisa é realizada. Este processo não lida somente com “conteúdos” mas como se depreende é a interação e integração em um todo, múltiplo e dinâmico, do inconsciente com o consciente. Isto é a função transcendente, que “nasce da união dos opostos”.

O símbolo como se verá desfaz a dicotomia entre externo e interno, pois este passa a ser uma “incarnação”(sic) do psiquismo como uma totalidade não fragmentada, ou seja, o símbolo reúne em sua constituição todas as possibilidades de compreensão e reúne os opostos em uma unidade não fragmentada. (DAMIÃO, 2003, p.42)

Dessa forma, falar em símbolo é necessariamente falar em função transcendente, pois símbolo e função transcendente exprimem a mesma dinâmica, em proporções diferentes. O símbolo está diretamente relacionado a uma dinâmica energética basal – necessária para a manutenção do psiquismo, já a função transcendente está relacionada ao processo de desenvolvimento do psiquismo, que exige uma ação da consciência.

(…)A “confrontação do eu com o inconsciente” é um processo de estabelecimento de uma atitude e não apenas de entendimento, pois o Ego torna-se a partir de então fruto deste “confronto”.

Quando se consegue formular o conteúdo inconsciente e entender o sentido da formulação, surge a questão de saber como o Ego se comporta diante desta situação. Tem, assim, início a confrontação entre o Ego e o inconsciente. Esta é a segunda e a mais importante etapa do procedimento, isto é, a aproximação dos opostos, da qual resulta o aparecimento de um terceiro elemento que é a “… a função transcendente que é o resultado da união dos opostos”, ou seja, o próprio símbolo. (DAMIÃO, 2003, p. 52)

A função transcendente é um símbolo que marca o confronto e a união de opostos, seu objetivo não é a transformação de energia, mas a unidade psíquica, ou seja, a função transcendente é um símbolo unificador, que intimamente relacionado com o processo de individuação.

Referencias

JUNG, Carl Gustav, A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes, 5. Ed. 2000.

DAMIÃO, Maddi, Jr. A Psicologia da Matemática e a Matemática da Psicologia. Tese (Doutorado em Psicologia) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, 2003.

——————————————————–

Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

www.psicologiaanalitica.com

mandala