Um Novo Ano: Tempo de Recomeçar

 

25 de dezembro de 2010

Estamos chegando a mais um final de ano. Em toda parte vemos preparativos para saudar a chegada do próximo ano. É uma época interessante, pois, são feitas reflexões(retrospectivas) do ano que passou e planejamentos/desejos para o ano que se inicia. O “dia de ano”, “ano novo” ou “reveillon” são repletos de tradições, festejos e simpatias para se “garantir” um ano melhor.

É interessante pensar que as festividades de ano novo não são peculiaridades de nossa cultura ocidental, muito pelo contrário, as festividades e ritos de passagem de ano são amplamente difundidas pelas mais diferentes tradições e culturas.

O que chamamos de “Ano” é um período de tempo, ou mais propriamente, um ciclo de tempo. Em nossa cultura cristã adotamos um calendário gregoriano, que pois prosposto pelo Papa Gregório XIII, para adequar o calendário romano. Que se baseia na observação do sol, cujo ciclo, isto é, o tempo que a Terra leva para realizar seu movimento em torno do sol, que é de 365,25 dias (os decimais deram origem aos anos bissextos).

O mundo ocidental adota amplamente esse calendário, contudo, convivemos ainda hoje com outros calendários podem seguir outras referencias como as fases da Lua, que são calendários Lunares, como o calendario Islâmico e o Hebraico, o calendário chinês usa tanto as referencias da lua quanto do sol, sendo chamado de calendário lunissolar.

Assim, nós ocidentais cristãos iremos comemorar na proxima semana, dia 31 de dezembro o fechamento do ano (solar), do ano de 2010 (da era cristã). Se fossemos fazer uma equivalencia, os judeus comemorarão em setembro, o inicio do ano 5772. Somente em novembro os muçulmanos entrarão no ano 1433 da Hégira, os chineses festejarão em fevereiro a entrada de um novo ano, o ano do coelho.

Outros povos marcam o ciclo do tempo de forma mais simples, como “as estação das chuvas” e “a estação da seca”.  O “ciclo do ano” tem uma função prática e outra espiritual, a prática está relacionado com os processos da agricultura, das estações, com a organização de todas as atividades humanas. Por outro lado, em muitas culturas o ano está associado as práticas religiosas, isto é, ao (re)inicio das atividades religiosas, como no calendário judaico. Em nossa cultura, a relação do tempo e religião é um pouco dissociada, pois, por exemplo, no catolicismo o ano litúrgico começa com primeiro domingo do advento (cerca de 4 semanas antes do Natal) e termina no sábado anterior ao advento.

O “ciclo de um Ano” expressa um tema mítico importante : a renovação ou regeneração do tempo. Os sistemas religiosos estão amplamente relacionados com a temática da regeneração do tempo, isto é, do reinício. Pois é a partir dessa possibilidade,  é que se pode experimentar a realidade mítica, através dos ritos (são a atualização dos mitos, cf. Eliade, O sagrado e o Profano).

Segundo Mircea Eliade,

Para nós, o fato essencial é que em toda parte existe uma concepção de final e de começo de um período de tempo, baseada na observação dos ritmos cósmicos e que faz parte de um sistema mais abrangente — o sistema de purificações periódicas (cf. expurgos, jejum, confissão dos pecados, etc.) e de regeneração periódica da vida. Essa necessidade de uma regeneração periódica nos parece ser de considerável significado em si mesma. No entanto, os exemplos que deveremos apresentar adiante vão nos mostrar algo ainda mais importante, ou seja, que uma regeneração periódica do tempo pressupõe, de um modo mais ou menos explícito — e, em especial, nas civilizações históricas — , uma nova criação, ou seja, uma repetição do ato cosmogônico. E essa idéia de uma criação periódica, isto é, da regeneração cíclica do tempo, levanta o problema da abolição da “história”, problema que representa nossa preocupação principal neste ensaio. (ELIADE, p.58)

A renovação do tempo é uma renovação da vida. As celebrações de ano novo figuram a possibilidade de se criar possibilidades melhores um próximo ano. Temos o dito popular do “ano novo, vida nova”.

Essa temática arquetípica da renovação do tempo/vida deve ser especialmente observada pelo psicólogo clínico. Pois, essa temática encontra-se justamente nos alicerces da prática da psicoterapia. Pois, a psicoterapia se sustenta somente quando representar(em geral, de modo inconsciente) a possibilidade de transformação e mudança de vida, isto é, se coloca como um rito renovação ou regeneração da vida do cliente. É nesse sentido, que Jung diz que

uma das muitas significações importantes da transferência: por meio dela o paciente se agarra à pessoa que parece lhe prometer uma renovação da atitude; com a transferência, ele procura esta mudança que lhe é vital, embora não tome consciência disto. Para  o paciente, o médico tem o caráter de figura indispensável e absolutamente necessária para a vida”(JUNG, 2000, p. 6)

Há em cada um de nós o potencial de renovação, muitas vezes, imerso em nosso inconsciente. Esse potencial arquetípico pode favorecer o processo de renovação, pode também, se tornar um empecilho pela pressa, medo,  afobação ou mesmo pela confusão características do caos cosmogônico. Esses fenômenos são caracteristicos desse impulso a renovação, caberia ao terapeuta auxiliar o cliente a suportar essa tensão, para permitir o tempo próprio das coisas (lembrando que no mito cosmogônico judaico-cristão, o mundo foi criado em 6 dias.)

O passagem de um ano ou o “dia de ano” é importante e nos afeta de formas diversas (uns esperança e alegria e outros com angústia) pois,  nos confronta com o tempo interior.

Muitas vezes, nos atemos tanto a realidade exterior e esquecemos que nosso tempo interior não é contado pelo calendário comum. E, nos esquecemos que nossas decisões e ações  podem marcar o fim e o inicio de um novo ciclo em nossas vidas. Jung tem uma afirmação que é muito pertinente, segundo o mesmo “A vida tem de ser conquistada sempre e de novo.” (JUNG, 2000, p.5-6)

Acima falamos de vários calendários, onde o “Ano Novo” começa em datas diferentes. O mesmo vale para nossa vida particular. O inicio,  o fim e o reinicio de um ciclo em nossas vida compete cada um de nós delimitar. O Ano Novo de nossas vidas vem se construindo silenciosamente, a tarefa difícil é reconhecê-lo e celebra-lo com nossas ações.

Na próxima semana comemoraremos mais um Ano Novo.  Espero que este novo ano seja repleto de realizações e felicidades! Abraços a todos!

Feliz 2011!

Referencias:

Acerca dos calendários :

WIKIPEDIA, Calendárioshttp://pt.wikipedia.org/wiki/Categoria:Calend%C3%A1rios acessado em 26 de dezembro 2010.

_____. Mito do eterno retorno. São Paulo : Mercuryo, 1992.

JUNG, NAtureza da Psique, Vozes: Petropolis, RJ. 2000

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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“Então é Natal, e o que você tem feito?” – algumas reflexões

 

21 de dezembro 2010

Em 1975 , Jonh Lennon gravou “Happy Christmass (War is over)” que se tornou uma das músicas mais importantes de Natal, com versões em todo o mundo. Ele começa sua musica com um questionamento interessante,

“Então é natal,

e o que você tem feito?”

Essa uma questão muito pertinente que atravessa os vários natais vivemos. Pode parecer estranho falar em natais, mas, de fato, temos diferentes realidades que nos remetem ao dia 25 de dezembro. Apesar de serem distintos, a linha que os separa é muito tênue, afinal, são todos natais.  E quais são eles?

O primeiro é o Natal Cristão –  que seria, em nossa cultura, o “Natal” original, lembrando que natal vem do latim natalis que é derivado do verbo nascor, que é nascer. Assim, é bem claro e difundido que o Natal é uma clara referencia ao nascimento de Jesus Cristo. No natal cristão celebra-se, com o nascimento de Cristo, o nascimento da esperança de salvação. Para a cristandade, o natal marca a mudança na relação do homem com Deus, como diz do texto bíblico “Aquele que é a Palavra tornou-se carne e viveu entre nós. Vimos a sua glória, glória como do Unigênito vindo do Pai, cheio de graça e de verdade.”Jo.  1:14 (NVI). Deus se fez carne e estabeleceu uma relação uma com os homens, relação esta que culminou com no sacrifício de Cristo para selar essa relação, marcando assim pela “salvação dos homens”. Independente das relações e questionamentos feitos do natal com mitraísmo, para o cristão o  Natal é um dos mais importantes “mistérios cristãos” que simboliza o nascimento da esperança e da possibilidade de transformação, pois é seguido de um novo ano.

O Segundo é o Natal da confraternizaçãoApesar de ser inspirado no que chamei de “Natal Cristão”, o natal da confraternização não tem um caráter religioso, mas, um caráter afetivo e social, onde paramos para estar com as pessoas que amamos. Essas confraternizações se desenrolam ao longo do mês de dezembro e culminam com a reunião familiar de natal. Muitas vezes, não guarda tanta relação com a religião.Esse natal é importante por possibilitar um momento onde as pessoas podem, em nome de um “espirito natalino”, apaziguar qualquer questão ou problema surgido ao longo do ano.

O Terceiro é o Natal das Compras – Esse é o natal do “papai Noel”. Onde há o imperativo de compras, de consumo. É interessante, que esse natal está relacionado com os dois anteriores pois, há uma esperança de fartura e de um futuro melhor (do natal cristão) somado com a possibilidade de expressar afeto pelas pessoas pessoas queridas com presentes. É interessante, que não podemos apenas criticar essa forma de natal, pois, é o período do ano, com as promoções, muitas famílias encontram condições para melhorar a qualidade de vida.

Essas três formas de natal caminham juntas. Não dá para dizer qual é a correta, como disse, elas se interpenetram. Contudo,  a questão de Jonh Lennon continua

“Então é natal,

e o que você tem feito?”

Independente do natal que vivamos predominantemente, devemos nos atentar para as outras formas. Devemos, refletir que vida que vivemos, ou “ o que temos feito”, justamente para pensarmos a “vida que queremos’” e “o que devemos fazer”.

As vezes, nos vemos tão pressionados com os “eventos natalinos”, com a “angustiante alegria” de natal, com a necessidade de se estar com pessoas amadas e nos esquecemos que o Natal é apenas o inicio. É a vida nasce, é a esperança que nasce. Muitos questionam a validade do dia “25 de dezembro” alegando que não é uma data originalmente cristã e que Jesus não nasceu nessa data, mas, eu acredito que o 25 de dezembro foi um escolha mais que feliz para a celebração do nascimento de Cristo. Isso porque, para os povos pré-cristãos da Europa, o dia 25 de dezembro estava associado ao Solstício de Inverno do hemisfério norte, e era a noite do dia 24 mais longa do ano e, assim, havia festejos com nascer do sol, isto é, o sol que vence as trevas, o nascer do dia era o nascer da esperança.  Quando a cristandade adota o dia 25 de dezembro como Natal de Cristo, há também a conotação de esperança, pois, assim como o Sol vence as trevas da noite,  Cristo também atravessa e vence os três dias de trevas da morte e ressuscita. É o nascimento da esperança.

O nascimento e a ressurreição de Cristo são faces do mesmo mistério, que nos fala de esperança e recomeço.

Mas, então é natal. O que você precisa fazer? Precisa se reencontrar com Deus? Precisa se acertar com sua família? Precisa expressar seu amor por meio de um presente? E o que você tem feito?

Às vezes, pensamos demais e agimos de menos. Às vezes achamos que fazemos tudo errado. Mas, agora isso não importa, porque é Natal. E a alegria do Natal é a esperança do recomeço, de que tudo vai dar certo! O nascimento de Cristo, para a cristandade, traz a certeza que Deus caminhou/caminha ao lado do homem. E tudo é possível. Assim, mesmo que estejamos imersos numa longa noite da vida, o natal é um símbolo vivo que o amanhecer vem. Basta ter esperança.

Feliz Natal!

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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“Por que estudar Mitologia?”

 

9 de dezembro de 2010

Essa pergunta com a qual inicio esse post, já me fizeram várias vezes. Eu gostaria de começar a responder essa pergunta relembrando um encontro de Nise da Silveira com Jung, onde a própria Nise nos relata que,

sentada diante do mestre no seu gabinete de trabalho, junto á larga janela com vista sobre o lago, falei-lhe do desejo de aprofundar meu trabalho no hospital psiquiátrico, de minhas dificuldades de autodidata.
Ele me ouvia muito atento. Perguntou-me de repente:

– Você estuda mitologia? 

Não, eu não estudava mitologia.

– Pois se você não conhecer mitologia nunca entenderá os delírios de seus doentes, nem penetrará na significação das imagens que eles desenhem ou pintem. Os mitos são manifestações originais da estrutura básica da psique.Por isso seu estudo deveria ser matéria fundamental para a prática psiquiátrica. (Silveira apud MOTTA, 2005, p. 73).

Nesse encontro Jung indicou que a Mitologia seria uma chave importante para se compreender a dinâmica da psique.

Mitos e Mitologias

Pessoalmente, eu não conheço uma definição de mito que seja “suficiente”.  Talvez seja, porque mito não seja um conceito, mas, uma noção, uma aproximação a uma dinâmica que não se curva a nossa linguagem denotativa. Por isso, Jospeh Campbell (2004) afirma que os mitos são metáforas.  Com essa afirmação, Campbell nos oferece a primeira chave para compreendermos o por que estudar a Mitologia.

Quando falamos em metáfora, devemos compreender que metáfora é uma figura de linguagem onde há uma relação entre dois termos, sem o uso de um conectivo, isto é, é uma comparação baseada na equivalência dos dois termos, por exemplo :

João é um touro

Nessa afirmação, podemos perceber que a metáfora é como uma zona intermediaria entre “João” e “touro”, onde o segundo termo qualifica, explica e atribui sentido o primeiro termo.

A metáfora a qual Campbell se refere, nos remete a um passado distante, no passado onde a psique humana estava ainda identificada com a natureza. Não havia uma consciência clara que distinguisse os processos internos e externos.Essa unidade original, onde a natureza(ou mesmo o grupo) é extensão do individuo. É nesse passado que os mitos nascem. É interessante considerarmos que os mitos surgem dessa união  ou identidade entre o individuo com o mundo exterior, dessa forma, é um equivoco achar que os mitos são uma forma de “explicar” a natureza, mas, sim um processo de compreensão mútua, pois, o homem se compreendia na medida em que compreendia a natureza, atribuindo significado não só ao mundo exterior, mas, também a si mesmo na relação com este mundo.

Ainda hoje, podemos perceber esses aspectos claramente nas criança pequenas e nos processos de projeção, onde o inconsciente pode “lançar” imagens interiores sobre o mundo exterior, atribuindo um novo significado os objetos. Por outro lado, podemos perceber essa relação por meio da introjeção de imagens, nos são reapresentadas nos sonhos, sintomas e fantasias.

O inconsciente em suas profundezas arquetípicas mantém até hoje essa dinâmica de identidade com o mundo exterior, ao que Campbell denominou como metáforas, dado o estilo lingüístico de equivalência, a psicologia analítica chama símbolos. Outras abordagens, como a Hipnose Ericksoniana tem como seu elemento básico de trabalho o uso da linguagem metafórica como forma de promover uma comunicação com o inconsciente. As metáforas terapêuticas de Erickson são correspondentes aos símbolos na terminologia junguiana.

Outra importante chave para compreender os mitos nos é oferecida por Mircea Eliade, segundo ele

O mito conta uma história sagrada, quer dizer, um acontecimento primordial que  teve lugar no começo do Tempo, ab initio. Mas contar uma história sagrada equivale a revelar um mistério, pois as personagens do mito não são seres humanos: são  deuses ou Heróis civilizadores. Por esta razão suas gesta constituem mistérios: o  homem não poderia conhecê-los se não lhe fossem revelados. O mito é pois a história do que se passou  in illo tempore, a narração daquilo que os deuses ou os Seres divinos fizeram no começo do Tempo.(…)

A função mais importante do mito é, pois,  “fixar” os modelos exemplares de todos os ritos e de todas as atividades humanas significativas: alimentação, sexualidade, trabalho, educação etc. Comportando se como ser humano plenamente responsável, o homem imita os gestos exemplares dos deuses, repete as ações deles,  quer se trate de uma simples função fisiológica, como a alimentação, quer de uma atividade social, econômica, cultural, militar etc. (ELIADE, 1992, 50-2)

Segundo Mircea Eliade, os mitos são modelos exemplares, isto é, os mitos são narrativas que oferecem modelos testados ao longo da história da cultura, que permite que o individuo tenha um referencial de ação. Em alguns casos, o mito pode estar imbuído de um conteúdo prática (como por exemplo, como que os deuses ou o herói fundador criou o arco e a flecha, e como devemos fazer) ou um conteúdo moral que orienta as atividades e a divisão do trabalho e da sociedade, dando coesão ao grupo.

A narrativa mítica é composta por um história com inicio meio e fim, isto é, com causas e consequências. que instruem os indivíduos. Em outro post, sobre a “A função psicologia da religião”  eu fiz alguns comentários importantes para se pensar a mitologia/religião.

Joseph Campbell(2002) nos dá uma boa perspectiva da amplitude da função da religião quando ao discutir a função dos mitos (lembrando que segundo Campbell, “mitologia é como chamamos a religião dos outros”), segundo ele, são quatro as funções básicas da mitologia/religião:

1 – Função Mística ou Metafísica

2 – Função Cosmológica

3 – Função Social

4- Função Pedagógica

A função mística ou metafísica corresponde a abertura ao desconhecido, ao mistério da vida e da morte. Através da religiões o homem amplia sua percepção do mundo, integrando a sua vivência uma realidade que está para além dos percepção sensorial – um mundo eterno, espiritual; libertando a psique humana do condicionamento do tempo e espaço.  Isso é importante, pois, essa função também se reflete como uma  abertura ao inconsciente, a criatividade e imaginação. Que são elementos importantes para o equilíbrio dinâmico da psique.

A segunda, a função cosmológica da religião oferece ao homem uma perspectiva sobre o universo e situa o no mesmo. Essa função geralmente foi mal compreendida afirmando que as mitologias e religiões eram uma proto-ciência, uma tentativa de explicar o mundo. As narrativas sobre a origem do universo, dos deuses, dos homens, de como surgiram os instrumentos, etc…não tinham o objetivo de uma explicação “científica”, mas, sim atribuir sentido e significado ao universo que circunda o homem, colocando-o nessa teia da vida. :Se na primeira função indica que há algo para além da percepção, nessa segunda função o homem toma parte desse mundo sobrenatural, percebendo qual é o seu lugar na existência.

A função social da religião se relaciona com o grupo social. Toda religião vai indicar certas regras de convívio social, geralmente, justificando e reforçando os conceitos morais e organizacionais de um grupo, visando a sobrevivência do mesmo, a religião se constitui um elemento de identidade, dando coesão ao grupo

A quarta, é função pedagógica. A religião se apresenta como pedagógica na medida que orienta as ações e comportamentos dos indivíduos em cada etapa da vida. As narrativas religiosas oferecem ao individuo referencias para se organizar frente ao mundo e as dificuldades, para fazer suas escolhas e tomar suas decisões. Em cada etapa da vida, o individuo é cercado por referências (narrativas/mitos) que o prepara para a vida e para morte. As quatro funções são interligadas, pois, uma leva a outra, oferecendo um solo relativamente firme sobre o qual o individuo pode se organizar e viver. Essas quatro funções nos auxiliam a perceber como a  religião pode atuar psique. (MORAES, 2010)

Mitologia e Psicologia Analítica

Em sua prática clínica, Jung observou que tanto os delírios dos pacientes psicóticos quanto os sonhos de pacientes neuróticos podiam se encontrar um aspecto mítico, isto é, alguns aspectos dos sonhos eram similares as imagens e narrativas constantes em diferentes mitologias. A partir desses estudos, Jung pode, posteriormente, formular sua teoria acerca dos arquétipos.

Jung compreendeu que esses sonhos e delírios com aspecto mitológico teriam origem na mesma camada (mais profunda da psique) que deu origem também aos mitos, esta camada seria o inconsciente coletivo.

O Inconsciente coletivo é formado pelos arquétipos, que são padrões de organização psíquica, que podem se manifestar tanto como ações quanto imagens. Os arquétipos correspondem a estrutura básica do psiquismo e, teoricamente, esses padrões não mudaram nos últimos milhares de anos. A vida humana passou por várias transformações em seu aspecto formal, mas, em sua essência continuamos com as mesmas necessidades comuns a vida humana.

Poderíamos compreender os mitos como uma projeção das experiências humanas mais fundamentais(arquetípicas) na consciência coletiva e que foram elaboradas ao longo dos séculos. Os mitos expressam os arquétipos na cultura, através dos mitos podemos ter acesso ao “mundo dos arquétipos” de forma natural, sem ser permeado pela doença ou pela psicopatologia.

O conhecimento dos mitos, nos permite compreender a dinâmica do arquétipo, isto é, nos possibilita compreender as possibilidades e variações das representações arquetípicas, o que significa que através dessas repesentações (que são coletivas) podemos identificar esses padrões em sua manifestação pessoal, isto é, nos complexos, o que nos permite perceber quais complexos estão mais ativos.

Os mitos nos oferecem uma visão global da psique humana, assim, partimos do que seria mais coletivo para o que é individual e único.

E como estudar mitologia?

É fundamental entender que estudar mitologia não significa apenas “conhecer e contar histórias”.  Quando falamos em estudar mitos, nos referimos ao estudo aprofundado das diferentes narrativas acerca do mesmo tema buscando compreender a estrutura do mito, compreender a dinâmica do mito comparando-o com mitos de outras culturas que participam do mesmo tema, por exemplo, no ultimo post sobre o tema do  curador ferido, citamos três mitos diferentes (Obaluae, Quiron e Cristo)que possuem a mesma estrutura.

Um tema mítico não possui uma possibilidade de compreensão, mas, inúmeras já que eles indicam variações possíveis desse tema na vida humana, por exemplo, se tomarmos a maternidade teremos aspectos positivos e negativos – como toda mãe possui esses dois lados : um nutritivo, acolhedor, por outro lado, podem ser dominadoras, devoradas, que impedem o crescimento, severas que punem ou abandonam os filhos.

Tiamat (mitologia sumérica) : os filhos não foram nomeados, e ela tentou devorar os netos.

Gaia : Os filhos com Uranos, eram gerados em mantidos em seu próprio ventre, somente quando a incomodou que articulou com o filho mais novo, para afastar(castrando) o pai. Posteriormente, gerou com Tártaro, Tífão que quase destruiu seus filhos.

Afrodite : deusa do amor, mas, que não permitia que seu filho crescesse.

Nãnã : Orixá das águas paradas, é a mais antiga e respeitada das orixás. É uma mãe severa, há duas  narrativas que envolvem os aspectos da maternidade negativa de Nãnã, segundo uma narrativa dela pune o próprio filho Obaluae com a Varíola, e, em outra, ela abandona o filho devido sua doença, (este foi criado por Yemanjá)

Baba Yaga : Da mitologia européia, especialmente nos mitos/contos de fada Russos, é retratada como uma bruxa que atrapalha o caminho dos homens.

Esses exemplos, mostram que não basta um mito para compreender o mitema ou o arquétipo envolvido.

Assim, conhecer as narrativas e estabelecer comparações entre as narrativas é o primeiro passo para compreender a estrutura dos mitos, por outro lado, é importante compreender ampliar e focalizar os povos que produziram essas mitologias, compreendendo aspectos da história, geografia, cultura(ritos), estrutura social desses povos.

Alguns autores são importantes para começar esse estudo, como por exemplo, Mircea Eliade, Karl Kerényi, Joseph Campbell, Claude Levi-Strauss.

Referencias Bibliográficas

CAMPBELL, Joseph Isto é Tu, Landy: São Paulo,SP, 2004

Eliade, Mircea . O sagrado e o profano  –  A essência das religiões. São Paulo, Martins Fontes, 1992.

MOTTA, Arnaldo Alves Psicologia Analítica no Brasil; contribuições para a sua história, São Paulo: PUC, Tese de mestrado, 2005.

MORAES, Fabricio , A função psicológica da religião, 2010, Jung no Espirito Santo. Acessado em 08/12/2010. no site:http://psicologiaanalitica.wordpress.com/2010/07/11/funo-psicolgica-da-religio/

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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