Uma reflexão sobre a relação entre a Psicologia e Religião

 

13 de janeiro de 2011

Depois de ler várias  discussões na internet (especialmente, no Orkut) acerca da relação entre psicologia e a religião, onde, em vários casos, havia um certo clima de hostilidade, seja no discurso de psicólogos e ou no de alguns líderes religiosos,  ou entre os próprios psicólogos, alguns denominados de “psicólogos cristãos” e os outros psicólogos que defendem uma postura radicalmente científica.

Em meio as várias as discussões quem acaba por sair perdendo é a população que fica perdida em meio a informações desencontradas ou mesmo equivocadas, como por exemplo, que a psicologia é ateísta ou que os psicólogos em sua maioria são ateus.

De forma geral, quando falamos da psicologia seja como ciência ou profissão devemos ter clareza que ela não é nem ateísta nem teísta. Isso pelo simples fato de que a divindade ou Deus está fora do horizonte de estudos da Psicologia. Desse modo, a Psicologia não afirma nem nega a de Deus, reservando a Teologia a autoridade acerca desse tema.

Entretanto, deve-se notar que a psicologia estuda e se posiciona frente os efeitos da religião/instituições religiosas sobre a sociedade e sobre o comportamento dos indivíduos. Assim, a psicologia tem uma postura crítica seja com as regras ou práticas religiosas que limitam a liberdade de reflexão e escolha dos indivíduos; que promovam preconceitos; ou que de algum modo possam prejudicar os indivíduos.

Ser contrário a determinados dogmas religiosos não significa ser contrário a religião ou a religiosidade dos indivíduos, ou muito menos ser ateu ou ser contra “Deus”.  Não podemos esquecer que críticas sobre práticas ou costumes são realizadas não só pela psicologia ou outras ciências, mas, pelas próprias instituições religiosas, que possibilitam o desenvolvimento das religiões.

Em outro post (Psicologia Analítica Cristã?) já falei da minha estranheza acerca da denominação de “psicólogo cristão” ou “psicólogo evangélico”, do mesmo modo devo ampliar a minha estranheza para a alcunha de “psicólogo ateu” .Pois, é estranho definir a prática profissional a partir do posicionamento frente a religião. Isso porque, se formos tomar o Código de Ética, nós temos:

Art. 2o – Ao Psicólogo é vedado

(…)

b) Induzir a convicções políticas, filosóficas, morais, ideológicas, religiosas, de orientação sexual ou a qualquer tipo de preconceito, quando do exercício de suas funções profissionais; (Conselho Federal de Psicologia,2005,p.9)

Dessa forma,  é importante percebermos que por mais que o argumento que uma postura que se afaste religião seja epistemologicamente “mais correta”, um psicólogo que no exercício profissional defenda o ateísmo  está sendo tão antiético quanto um profissional que defende abertamente sua fé no exercício da profissão. 

É importante frisar que em sua vida pessoal, o psicólogo, como qualquer outro cidadão tem o direito de  vivenciar sua religiosidade da forma que se sentir melhor. Entretanto, ele não pode usar dos conhecimentos da profissão para fundamentar suas crenças, usando a psicologia de forma inadequada. Aos que pensem que é esse artigo é “autoritário”, devemos lembrar que esse artigo, atende claramente ao primeiro dos princípios fundamentais sobre os quais o código de ética foi desenvolvido, de acordo com esse princípio,

I. O psicólogo baseará o seu trabalho no respeito e na promoção da liberdade, da dignidade, da igualdade e da integridade do ser humano, apoiado nos valores que embasam a Declaração Universal dos Direitos Humanos. (Conselho Federal de Psicologia,2005, p7)

Assim, dizer que a  “Psicologia é inimiga a Religião” ou que “Psicólogo é  ateu” não só é um erro, como é um preconceito que muitas vezes prejudica a população, que deixa de procurar ou teme que o atendimento psicológico vá prejudicar sua vida espiritual.  É claro que muito desse preconceito está relacionado a postura de alguns profissionais, a críticas que são feitas a certos modelos religiosos ou práticas religiosas, entretanto, um profissional ético saberá separar a crítica a um “Sistema Religioso” ou “costume costume” da religiosidade do individuo, de modo a não “atacar“ o individuo.

Não podemos deixar de comentar, que no geral, nas instituições formadoras há um certa dificuldade em lidar com a religião, de modo que alguns profissionais tem dificuldades para lidar com pacientes religiosos, o que faz com esses passem a buscar psicólogos que professem a mesma fé. Coliath (2008) aponta que motivos que os levam a essa busca, como

o fato de se sentirem mais confortáveis em poder tratar seu lado emocional e relatar suas experiencias espirituais a alguém  que os entendessem sem considerar que são manipulados por lideres evangélicos interessados em poder e dinheiro. (p. 13)

Percebo que ao atender meus pacientes evangélicos que eles desejam ser compreendidos em relação a sua religiosidade. Não querem ficar o tempo todo explicando o que desejam dizer quando falam  de suas experiencias religiosas, e ainda assim, correrem o risco de serem classificados de fanáticos ou loucos(p. 15)

Assim, é importante compreendermos que a religião é importante (ou mesmo fundamental) para a vida de muitos indivíduos, de modo, que devemos estar preparados compreender e respeitar a religiosidade na vida do individuo, e, por outro lado, podendo ser um importante elemento no processo terapêutico, segundo Coliath(2008)

Richards e Bergin (1998)  in Donatelli (2005)  apresentam cinco razões para o psicólogo explorar o aspecto religioso no atendimento  clínico:

1 –  A compreensão da relação  que os clientes mantêm com a religião  contribui para que os terapeutas  compreendam sua visão de mundo;

2. Ajuda a compreender se as crenças religiosas de seus clientes são saudáveis  ou não, e qual o impacto  em seus  problemas ou distúrbios;

3 – Permite ao psicólogo determinar se as crenças ou a comunidade religiosa do cliente podem ser recursos que o auxiliem a lidar com o mundo a sua volta, a crescer;

4. Ajuda a definir  quais as intervenções sobre a religiosidade podem ser usadas na psicoterapia.

5. Possibilita determinar se os clientes  têm dúvidas, preocupações ou necessidades religiosas não resolvidas que devem ser trabalhadas na psicoterapia, ou fora dela. (p. 28-9)

Eu acredito ser muito importante uma percebermos que em nenhum momento Coliath, citando Richards e Bergins, fala de misturar a psicologia com a religião, mas, nos fala de respeito e conhecimento acerca da religião, que nos possibilitariam compreender o universo de nosso cliente.

Jung sempre enfatizou a necessidade de compreendermos a história das religiões, mitologias, religiões comparadas como forma de compreendermos nossos clientes e os símbolos que atribuem sentido e significado a suas vidas. Isso não significa fazer uma “psicologia religiosa”, mas, fazer uma psicologia respeitosa e ética.

Uma consideração adequada da religião seria importante para evitarmos algumas situações que vemos como a setorização da psicologia pelas denominações religiosas (psicólogos católicos, psicólogos espíritas, psicólogos evangélicos, psicólogos adventistas, etc…), ou a negação da religião por outros; que não contribui para nem para o dialogo entre a Psicologia e a Religião e, por outro lado, prejudica a compreensão da população da prática do psicólogo.

Para finalizar esse post, reafirmo que é fundamental compreendermos que a psicologia e a religião não são opostas ou inimigas, que o estudo e a compreensão dos sistemas religiosos nos torna mais preparados para compreendermos e respeitarmos nossos clientes de um modo mais amplo.

Referencias Bibliográficas

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Resolução n° 010, de 21 de julho de 2005. Aprova o Código de Ética Profissional do Psicólogo.  Disponível em:www.pol.org.br/pol/export/sites/default/pol/legislacao/legislacaoDocumentos/codigo_etica.pdf.

COLIATH , A.A.M.  Escolha do Terapeuta Associada a Denominação Religiosa, 2008,98f. Dissertação de Mestrado –Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo. 2008.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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Alguns Aspectos da “Teoria Junguiana da Libido ou Energia Psíquica”

 

(Originalmente publicado em duas partes em 5 de janeiro de 2011 e 24 de janeiro de 2011)

Em 1928, Jung publicou um trabalho chamado “Energia Psíquica”. Este trabalho foi a conclusão de um longo estudo que começou em 1912, quando Jung começou a tornar públicas suas divergências com Freud.

O grande marco dessa diferença acerca da “teoria da libido” foi o livro “Metamorfoses e Símbolos da Libido”(1912). Em setembro desse mesmo ano, Jung realizou uma série de conferencias na Universidade Fordham,(EUA), onde apresentou uma nova concepção acerca da teoria da libido, segundo ele,

Creio não estar errado, se acho que o valor do conceito de libido não está em sua definição sexual, mas no seu ponto de vista energético,  graças ao qual  estamos de posse de uma concepção heurística extremamente valiosa. Graças também a concepção energética, temos a possibilidade de imagens dinâmicas e relações que são de valor incalculável no caos do mundo psíquico. A escola freudiana faria muito mal se fechasse os ouvidos às vozes da crítica que acusam nosso conceito de libido de misticismo e incompreensível. Uma das nossas ilusões foi acreditar que podíamos transformar a libido sexual em veículo de uma concepção energética da vida psíquica, e e muitos de nossos ainda pensam que possuem um conceito perfeitamente claro e por assim dizer concreto de libido, não se dão conta de que esse conceito foi empregado em sentidos que ultrapassam de longe os limites de sua definição sexual. (JUNG, 1989,  p. 127-8).

Nesse texto, de 1912, podemos perceber que Jung ainda estava relacionado com a psicanálise, sua compreensão acerca da libido foi uma era de uma contribuição ao desenvolvimento pensamento psicanalítico. No entanto, a recepção das novas idéias acerca libido, presentes no Metamorfoses foi a pior possível. Freud se absteve de comentar o livro, delegando a Sándor  Ferenczi a tarefa fazer refutar e desqualificar o trabalho de Jung, reafirmando a ortodoxia freudiana. Ao final, Ferenczi afirma que

A impressão geral que extraímos da leitura de Metamorfoses e símbolos da Libido é que Jung  não se ocupa  de uma ciência propriamente indutiva, mas de uma sistematização filosófica, com todas as vantagens e inconvenientes de uma abordagem desse gênero. A principal vantagem apresentada é o apaziguamento do espírito, o qual, dando por resolvida a questão principal do ser, livra-se dos tormentos da incerteza e pode deixar tranquilamente para outros o cuidado de preencher as lacunas do sistema.(FERENCZI, 1992,p 102-3).

A libido percebida “ponto de visa energético”, marcou o inicio do fim da fase psicanalítica de Jung (o final dessa fase se deu em 1914). O que deve ficar claro, é nunca houve uma negação acerca do caráter sexual da libido, mas, uma ampliação que também abarcava a libido de Freud.

Jung deu formato “final” a sua teoria da libido em 1928. Apesar da importância  a teoria libido acaba por ocupar um lugar secundário, quando comparada as grandes formulações teóricas de Jung, segundo Perrone,

Sua obra se distribui em duas vertentes principais:  as das três grandes formulações teóricas que são a teoria dos complexos, os tipos psicológicos e os arquétipos do inconsciente coletivo, de um lado, e um questionamento incessante das “ condições de possibilidade da psicologia”, de outro. (…) Há autores que consideram o processo de individuação como sendo , em si, a quarta formulação da teoria junguiana enquanto outros a inserem no desdobramento de seu pensamento. A teoria da energia psíquica, de 1928, embora importante instrumento da reflexão junguiana, não se alinha no mesmo nível das anteriores. (PERRONE, 2008, p. 9-10)

A Teoria da “Energia Psíquica” tem como foco a compreensão dadinâmica da psique. Quando Jung optou em deixar o ponto de vista freudiano, ele adotou uma compreensão finalista ou teleológicaacerca da energia psíquica. Isso significa dizer, que Jung parte do efeito (do que foi manifesto) para compreender a causa. Diferente da postura freudiana, que partia da causa para o efeito, isso compreendendo que a causa estaria sempre atrelada a um princípio teórico, no caso a teoria da sexualidade. Ao partir do que é manifesto(efeito), Jung pode verificar que nem tudo é derivado de uma função sexual e, somado ao fato de não se poderia afirmar inequivocamente que a natureza da libido é sexual, ele adotou a concepção neutra e mais ampla de “energia” tomando emprestado da física este conceito. 

Ao adotar ponto de vista energético, não pode afirmar os atributos ou qualidades da energia psíquica em sua origem, apenas podemos compreende-la em sua manifestação final, assim, a esse respeito o que se pode observar é a quantidade de energia envolvida no fenômeno, dada a intensidade.

Para compreender a afirmação acima devemos lembrar, que durante quase toda primeira década do século XX, Jung esteve envolvido com os testes de associação de palavras. O princípio básico desse teste, era avaliar o tempo de reação(ou resposta) a uma palavra estímulo. O que Jung e sua equipe descobriram que havia uma manifestação que prejudicava o tempo de resposta para algumas palavras, essa manifestação ou fenômeno não só estava fora do controle da consciência, como também prejudicava a consciência. Foi observado que esse fenômeno que gerava as perturbações (alteração no tempo ou bloqueio da associação) estavam associado emocionalmente ao conjunto de idéias, lembranças, pensamentos que estavam do campo da consciência, passando a serem compreendidos como complexos de tonalidade afetiva.

Jung e sua equipe estudaram as manifestações dos complexos em diferentes níveis, desde o tempo de reação até as alterações fisiológicas na respiração e na condutibilidade elétrica da pele com o uso de galvanômetro. Dessa forma, quando Jung se refere aintensidade do fenômeno psíquico, ele nos remete aos seus estudos experimentais, não é apenas um ponto de vista teórico. A intensidade de manifestação de um fenômeno vai sempre indicar uma maior ou menor quantidade de energia investida naquele processo.

Ao estudar tanto os fenômenos oriundos dos experimentos de associações quanto na prática da clínica psiquiátrica, ficou clara para Jung a hipótese de uma zona psíquica fora do domínio da consciência, isto é, o inconsciente. Bem, como que o fato de que a relação entre a consciência e o inconsciente poderia ser compreendida/descrita pela energia em trânsito entre essas duas instâncias. Assim, a partir das relações entre a consciência e o inconsciente Jung percebeu que poderia se fazer uma analogia com os fenômenos descritos pela física, algo que já vinha sendo apontado por outros autores como, p. ex.,  Theodore Lipps, von Grot, Busse.

Jung compreendeu que para se ter uma noção apropriada da psique num modelo teórico, deveríamos considera-la um sistema energético relativamente fechado, supondo, assim, que a energia contida nesse sistema seria teoricamente sempre a mesma, o que variaria seria a distribuição da energia entre as instâncias inconsciente(ics) e consciência(cs).

Desse modo, a vida psíquica ou a saúde psíquica  pode ser compreendida como o fluir da energia entre o sistema psíquico formado pelo inconsciente  a consciência. Quando ocorre um desequilibro, uma distribuição inadequada ou o bloqueio da distribuição dessa energia psíquica, ocorre o que podemos compreender como o adoecimento psíquico.  Para que isso fique claro, devemos buscar a distinção de energia psíquica e força psíquica,

Devemos a LIPPS uma diferenciação entre o conceito de energia psíquica e o de força psíquica. Para LIPPS a força psíquica é a possibilidade de que na alma surjam processos que alcancem um determinado grau de eficácia. A energia psíquica, ao invés, é “a possibilidade, inclusa nos próprios processos, de que esta força passe a atuar”.(Jung,1999, p.14),

Assim, a energia psíquica é uma condição para que haja força psíquica para a realização de um trabalho ou processo psíquico. Por exemplo, quando uma pessoa com depressão afirma que ela não possui vontade de fazer nada, significa que não há energia psíquica disponível na consciência para ser convertida em força psíquica, isto é, em vontade, para que seja realizada uma atividade.

A teoria da energia psíquica compreende os princípios fundamentais da dinâmica psíquica na abordagem junguiana. De forma geral, podemos percebe-la como pano de fundo em todas construções teóricas de Jung. Por exemplo, se falamos da relação de um complexo constelado com o Ego, estamos falando de uma relação energética.

Na constelação, a energia do complexo, que é superior, flui para o eu que, como centro da consciência é invadido pelo inconsciente. O eu, desestabilizado em algum grau, tem a tarefa de procurar conter a invasão de energia, o que nem sempre é possível. Precisará de força e determinação para canalizar essa energia excedente para alguma direção construtiva. (PERRONE, 2008,p.84)

A incapacidade do ego em lidar com essa invasão de forma construtiva será a base onde se desenvolverá o sintoma.

I – Energia Psíquica ou Libido

Jung adota o termo “energia psíquica” para tornar mais claro o que ele entendia por “libido” – termo utilizado por Freud – assim, a “energia psíquica” e “libido” são equivalentes. A energia psíquica ou libido é, simultaneamente, o “psiquismo” e o  “combustível” que movimenta o psiquismo. Isso significa dizer, que tudo o que o que percebemos e chamamos de psiquismo é a energia psíquica  em diferentes níveis de organização. As ações e os processos psíquicos dependem de energia disponível ou da transformação da energia de um nível para outro.

Para melhor explicar sua compreensão acerca da energia psíquica, Jung busca como referencial o conceito de energia da física, de onde compreende que a “idéia de energia não é a de uma substancia que se movimenta no espaço, mas um conceito abstraído das relações de movimento. Suas bases não são, por conseguinte, as substâncias como tais, mas suas relações” (JUNG, 1999, p.3) Para se compreender a energia deve se observar qual sua finalidade ou destinação para assim poder avaliá-la ou mensurá-la. A energia em si, não é um conceito tangível, mas sua forma de manifestação como, por exemplo, trabalho, calor, luz, eletricidade dentre outros.

Do mesmo modo, Jung compreendeu que aplicando o conceito de energia ao psiquismo, como energia psíquica, seria necessário mudar a compreensão original de libido de Freud, que compreendia sob o aspecto exclusivamente sexual. Para Jung, a energia psíquica seria sexual quando assumisse um aspecto relacionado com a sexualidade, o que de certa forma seria o aspecto qualitativo, contudo, não seria o único aspecto qualitativo da energia psíquica, pois ela poderia se manifestar em necessidade de auto-preservação, fome, inserção social. Esses aspectos refletiam apenas a forma de energia. Por outro lado, deveria também se observar a intensidade com a qual a energia se manifestava, que seria o aspecto quantitativo da energia.

Ao adotar uma compreensão energética do psiquismo, Jung propõe que a dinâmica psíquica seja compreendida pela sua finalidade, e não apenas por sua causa, como Freud propunha. Isto porque a “causa” no geral é inconsciente (por definição, desconhecido). O caráter final ou finalista é a manifestação da dinâmica psíquica, isto é, é um elemento mais seguro para fazermos quaisquer afirmações sobre a dinâmica psíquica

II – Progressão e Regressão

Os conceitos de Progressão e Regressão estão relacionados com o movimento da energia psíquica entre a consciência e o inconsciente. Na progressão a energia flui do inconsciente para a consciência para atender as necessidades de adaptação ao meio externo; enquanto na regressão a energia flui para o inconsciente para atender as necessidades internas.

A progressão enquanto processo contínuo de adaptação às exigências do mundo ambiente assenta na necessidade vital de adaptação. A necessidade compele o individuo a se orientar inteiramente para as condições do mundo ambiente e a reprimir aquelas tendências e virtualidades que servem ao processo de individuação.

A regressão, ao invés, enquanto adaptação às condições do próprio mundo interior assenta na necessidade vital de satisfazer as exigências da individuação. (JUNG, 1999, p. 37-8)

III – Princípios da conservação de energia  e equivalência

Como dissemos no primeiro post, para construir um modelo teórico da dinâmica da psique, com uma concepção energética, Jung partiu do principio, de que a energia psíquica se comportaria do mesmo modo que a energia física. Desse modo, os princípios de conservação de energia, o de equivalência e de constância,  nos dariam parâmetros para pensar a dinâmica da energia psíquica no psiquismo.

O princípio de equivalência indica

que, para qualquer quantidade de energia utilizada em um ponto qualquer, para se produzir uma determinada condição, surge em outro ponto igual quantidade dessa mesma ou de outra foram de energia”. O princípio de constância, pelo contrário, indica “que a energia total permanece sempre igual a si mesma, sendo, por conseguinte, incapaz de aumentar ou diminuir”. (Ibid, p. 17)

Como o psiquismo é compreendido como um sistema relativamente fechado, os princípios de conservação da energia, possibilitam compreender a dinâmica e a relação de complementaridade que existe entre o inconsciente e a consciência. Isto é, qualquer fenômeno que se manifeste na consciência irá gerar um fenômeno oposto de mesma intensidade no inconsciente.

Esta compreensão do princípio de equivalência e constância é importante para compreendermos a dinâmica de psicopatologia, pois toda manifestação do inconsciente está relacionada a uma ação da consciência. E, esta dinâmica se manifesta na busca pela entropia do sistema psíquico.

IV – Entropia

O principio de entropia é complementar aos de conservação de energia. Segundo o princípio entropia  a energia fluiria num sistema, de acordo com a diferença de potencial, de modo que as oscilações produzidas nesse movimento vão buscar o equilíbrio, que significaria o fim da dinâmica energética. Contudo, o fim da dinâmica energética só é possível em sistemas fechados (que não existem na natureza).

No sistema psíquico, a entropia é percebida como a tendência pela busca de um equilíbrio psíquico, entre o inconsciente e a consciência.A entropia é um princípio complementar o princípio de constância, mas indica que sempre haverá um movimento em busca do equilíbrio.

A entropia é uma dinâmica energética e, assim, quantitativa que vai estar subjacente aos conceitos de enantiodromia, metanóia e compensação, que veremos mais adiante.

V – Enantiodromia e Metanóia

Jung adotou o termo “enantiodromia” em referencia ao princípio que foi esboçado por Heráclito, “correr para o outro oposto”. Isto é, quando há uma excessiva concentração energética em um ponto, a energia tende a buscar o ponto oposto como uma forma de manter o equilíbrio. Por exemplo, uma atitude excessivamente unilateral do Ego, pode ativar no inconsciente o princípio contrário. De forma que “ a tendência a renegar todos os valores anteriores para favorecer o seu contrário é tão exagerada quanto a unilateralidade anterior” (Jung, 2001,p.67)

A Enatiodromia é um processo inconsciente de mudança de perspectiva, onde o oposto negado, emerge se impondo a atitude da consciência. Geralmente, isto ocorre relacionado com sintomas neuróticos.

A Metanóia significa “mudança de pensamento” ou “mudança de caminho”. A metanóia é um processo característico do processo de individuação. A metanóia “não se trata de uma conversão no seu contrario, mas de uma conservação dos antigos valores, acrescidos de um reconhecimento do seu contrário.” (JUNG, 2001, p.68). A diferença fundamental entre a enantiodromia e a metanóia está na participação da consciência. Enquanto na enantiodromia o movimento em busca do oposto puramente inconsciente, já na metanóia a busca pelo oposto, ocorre com uma participação da ativa da consciência, num movimento de integração do oposto, mas sem perder os valores anteriores.

Dessa forma, a metanóia é o processo da enantiodromia que se desenvolve num sentido mais amplo, envolvendo a consciência no processo de individuação.

VI – Compensação

(O conceito de compensação foi discutido no post “Alguns comentários sobre o conceito de “Compensação”. Aqui fazemos um breve resumo.)

Ao falamos de entropia, de enantiodromia e metanóia, nós nos falamos de um processo psíquico de busca pelo equilíbrio no sistema consciente-inconsciente. De forma geral, o movimento para equilibrar o sistema psíquico parte do inconsciente buscando equilibrar ou corrigir a atitude da consciência. Esse movimento de busca por um equilíbrio Jung chamou de compensação, em referencia a um conceito de Adler. Sobre o conceito de compensação, Jung escreveu

considero-o em geral como equilibração funcional, como auto-regulação do aparelho psíquico. Nesse sentido, considero a atividade do inconsciente como equilibração da unilateralidade da atitude geral, causada pela função da consciência. (JUNG, 1991, p. 399)

Assim, toda atividade inconsciente que visa complementar atitude consciência(seja para corrigir ou para reforçar) é uma compensação. Desse modo, as formações do inconsciente como os sonhos, atos falhos, chistes são atividades compensatórias naturais.

Via de regra, a compensação pelo inconsciente não é um contraste, mas uma equilibração ou complementação da orientação consciente. O inconsciente dá, por exemplo, no sonho, todos os conteúdos constelados para a situação consciente, mas inibidos pela seleção consciente, cujo conhecimento seria indispensável para a consciência se adaptar plenamente.

Em situação normal, a compensação é inconsciente, isto é, atua de forma inconscientemente reguladora sobra a atividade consciente. Na neurose, o inconsciente está em contraste tão forte com a consciência que a compensação fica prejudicada. Por isso a terapia analítica procura um conscientização de conteúdos inconscientes para restabelecer a compensação. (JUNG, 1991, p.400)

VII – Símbolos

Em outro post “Algumas palavras sobre símbolos e função transcendente” falamos sobre os símbolos. Aqui vamos focar brevemente o papel dos símbolos na dinâmica energética.

Os símbolos ocupam um papel fundamental na dinâmica psíquica, pois, é através deles que a energia psíquica pode se movimentar na psique. Segundo  Byington o símbolo “aglutina a energia psíquica e redistribui de maneira a transformar os processos inconscientes em conscientes e vice-versa(…)” (BYINGTON, 1983, p. 10).

Muitas vezes, compreendemos os símbolos como “algo que que visualizamos”, contudo, os símbolos são toda e qualquer atividade, situação ou objeto (internos ou externos) que possua uma analogia com alguma dinâmica inconsciente. É justamente essa analogia é o que faz com que a energia psíquica inconsciente flua para a consciência onde será disponibilizada ao Ego, isto é, numa pessoa saudável. Por exemplo, um individuo que precisa tomar uma decisão difícil e, titubeia, e de repente vem a mente uma lembrança de uma conselho ou fala de dado por uma pessoa querida, e a partir dessa lembrança, o individuo se sente seguro para tomar a decisão. Uma situação mais comum, seria um individuo religioso que frente a uma adversidade, ora ou reza, a conseguir força para seguir em frente.

Numa pessoa com uma neurose estabelecida, por exemplo, um transtorno obsessivo compulsivo, a consciência tenta impedir de todas as formas que conteúdos do inconsciente invadam a consciência, os atos obsessivos ou rituais, são símbolos que possibilitam que a consciência tenha energia para, temporariamente, manter esses conteúdos inconscientes afastados.

Desde modo, a dinâmica psíquica estará sempre relacionada aos processos simbólicos, isto é, uma pessoa empobrecida em sua vida simbólica, terá mais dificuldades para enfrentar a realidade, a vida e o inconsciente.

Referências Bibliográficas

Referencias Bibliográficas

JUNG, C.G. Freud e a Psicanálise. Petrópolis: Vozes, 1989.

________ Energia Psíquica. Petrópolis: Vozes, 1999

FERENCZI, S. Obras Completas – Psicanálise II.  São Paulo: Martins Fontes, 1992.

PERRONE, M.P.M.S.B.  Complexo: conceito fundante na construção da psicologia de  Carl Gustav Jung, 2008,155f. Tese (Doutorado em Psicologia) – Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo. 2008.

BYINGTON,C.A.B. O DESENVOLVIMENTO SIMBÓLICO DA PERSONALIDADE, in JUNGUIANA – Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, 1983.

JUNG, C.G, A Energia Psíquica. Petrópolis: Vozes, 7ed. 1999

_______________. Psicologia do Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 13ed. 2001.

________________. Tipos Psicológicos, Vozes, Petrópolis, 1991.

______________. A Vida Simbólica v.1. Petrópolis: Vozes, 2ed. 2000a.

______________. A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes, 5. Ed. 2000b.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

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