LIVRO: “A Voz e o Tempo–Reflexões para Jovens Terapeutas”- de Roberto Gambini

(24 de novembro de 2011)

Em 2008, o analista junguiano Roberto Gambini publicou pela Ateliê Editorial, o livro “A Voz e o Tempo – Reflexões para jovens Terapeutas”. Este belíssimo livro ganhou o prêmio Jabuti de 2009 na categoria “Psicologia e Psicanálise”.

Este livro marcou a comemoração de 30 anos de Roberto Gambini como analista junguiano. Com uma generosidade infinita ele nos presenteou com uma jóia de valor incalculável , ele compartilhou de sua história e sua vivência como terapeuta.

Apesar de não ter o objetivo de ser teórico ou mesmo escrever um manual de psicoterapia, Gambini expõe delicadamente o que chamamos de processo de individuação mesmo sem se referir diretamente a esta conceito junguiano.

A partir de suas experiências pessoais, desde sua graduação e pós-graduação em ciências sociais, sua atividade docente até chegar ao Instituto C.G.Jung em Zurique.  Três pontos se destacam em sua obra, são eles: a identidade Junguiana; o papel dos sonhos na terapia e a questão da transferência.

Em suas páginas, Gambini demonstra sua preocupação sobre os caminhos que a psicologia junguiana vem tomando, muitas vezes, perdendo suas características. vejamos algumas de suas falas:

A Psicologia Junguiana tem uma marca de origem, que é o paradoxo de ser uma psicologia dificil de ser transmitida. Se você sistematiza demais a Psicologia Junguiana, trai o espirito do Jung; mas se não sistematiza, você não a difunde. É a marca de origem. Não há como fugir disso. Vejam, o que está acontecendo hoje pelo mundo afora é que a Psicologia Junguiana está perdendo as suas características de origem, está se deformando. Grandes traços, grandes qualidades que ela teve estão desaparecendo. (…)(p.40)

A meu ver, o desafio da Psicologia Analítica é honrar sua marca de origem. Ninguém foge da história de sua concepção, porque é isso que nos constitui. A Psicologia Analítica foi forjada da maneira como foi, como um modo de pensar contra a corrente, e sempre foi assim. A força da Psicologia Analítica não é ter cinqüenta mil adeptos, sua força é sua profundidade. (…)(p.44)

Ser Junguiano não significa ser devoto, nem defensor acrítico, nem fechado a outras linhas, mas, por outro lado, também não implica em abandonar certas idéias apenas por serem difíceis de compreender, ou por se achar que a psicologia junguiana por si não seja suficiente para embasar uma identidade intelectual ou terapêutica. Defendo a idéia de que a Psicologia Junguiana estabelece um estilo bastante diferenciado de pensar e trabalhar que da conta dos desafios que enfrenta. Considero importante o que os outros pensaram, mas, não acho bom fazer uma salada mista de idéias, porque ao fim e ao cabo já não se tem gosto de nada, o tudo vira nenhum. (p.68-9)

Gambini fala acerca da necessidade de atualizar Jung, trazendo sua teoria para nossa realidade contemporânea. O que nos leva a refletir a importância de um retorno a Jung. Muitas das escolas junguianas se afastam do pensamento de Jung e, apesar de se dizerem junguianas, guardam muito pouco da “marca”  junguiana.

Outro tema importante no livro, são “os sonhos” , temática que Gambini aborda de forma leve e sem se prender a questões técnicas, ele aborda a essência dos sonhos  e do trabalho com os sonhos na terapia/análise.A discussão que Gambini conduz acerca dos sonhos é extremante agradável e interessante pois, ele reflete acerca da postura ou atitude frente aos sonhos. Ressaltando que a relação com os sonhos deve ser de um dialogo, não de um interrogatório. Os sonhos se configuram como uma referência fundamental para compreender o inconsciente.

(…)na visão junguiana, um sonho é um produto natural da mente – e ele usa exatamente essa expressão – completo em si mesmo, sem disfarces nem censuras, uma declaração a respeito de um estado anterior, envolvendo desejos ou não. (p.75)

(…) Então, os sonhos, para Jung, são um dialogo entre a parte não controlada e a consciência, para fazer com que esta se reposicione, caso esteja demasiadamente unilateral ou abrigando associações de pensamentos, imagens e emoções que a autoagridem. Essa é a idéia. Agora, eu não diria que o sonho simplesmente traz solução. O sonho mobiliza o sujeito para que atinja um patamar distinto daquele em que a problemática existencial se aloja. É dessa mudança de plano que podem advir os elementos formadores de uma mudança de situação psíquica. (p.159)

(…) Nessa concepção, o sonho é uma constatação e assim deve ser encarado e tratado, como uma dado a partir do qual se começa a conhecer o paciente independentemente de seus desejos arcaicos reprimidos e até mesmo de suas associações de idéias no plano biográfico. (p. 75).

Da mesma forma, Gambini dedica páginas a questão da transferência, sem se prender a questões de ordem técnica, mas, sim de modo simples e vivencial ele discute a importância da transferência para o processo terapêutico. Reproduzo aqui o texto que ele intitulou de “Desafio Supremo”

A transferência é o desafio supremo da análise. Não existe receita. Às vezes ela é uma carga  pesadíssima, ás vezes não pesa nada, em alguns casos atrapalha, em outros ajuda. Seja como for, em toda terapia o analista está carregando para o paciente algum aspecto que este não consegue integrar e que talvez ainda nem esteja manifesto. Então é inevitável que um faça algo pelo outro, represente algo para o outro. Não se trata evidentemente de dar conselhos ou resolver problemas práticos do paciente, tarefa esta mais adequada a uma terapia ocupacional. Na esfera psíquica, alguém precisa cuidar do que ainda não nasceu e essa tarefa é do analista. Depois que veio à luz, começa-se cuidadosamente entregar o bebê para a mãe. O trabalho mais importante é na realidade aquele feito com o feto, quando só o terapeuta tem condições de enxergar e valorizar aquilo que ainda não tem cara nem nome. Portanto, aceito sentimento como dependência, gratidão, amor, cobrança, raiva, desejo de exclusividade e de atenção especial, por considerá-los como inevitáveis nessa fase de gestação. O grande teste para um analista é a hora que ele constata que consegue suportar o peso e a responsabilidade da transferência.

Às vezes uma questão transferencial, como vimos, é apontada por um sonho – então aborda-se diretamente o assunto. Caso contrario, o estilo junguiano, pelo menos segundo a Escola de Zurique, é ir vivendo o processo sem falar exaustivamente dele. Deixa-se acontecer, observa-se. Se o paciente for terapeuta, este igualmente pode se abrir com toda coragem e sinceridade. Não esmiuçamos a transferência, ficamos com a ferida doce.(p.110-111)

Apesar de citar esses três pontos de profunda reflexão teórica, o ponto maior do livro do Gambini, que o torna de leitura obrigatória é a sua confissão acerca do exercício da psicoterapia. Do alto de seus 30 anos como analista, Gambini fala de sua experiência de forma humana, sem ser professoral. Fala do exercício da psicoterapia  como uma arte, que deve ser, hora após hora, dia após dia, ano após ano, praticada, treinada, buscando sempre um refinamento maior.

Hoje, olhando para trás, vejo claramente que mesmo uma vocação tentando achar uma brecha para vir para fora e adquirir contorno, e que a depressão que me abalava nesses tempos era o avesso do nome e da forma. Foi uma dolorosa crise pessoal que ocasionou a virada. A partir do instante em que o inconsciente ejetou a figura do terapeuta e tomou corpo meu desejo de a qualquer custo ir buscar uma formação adequada, já não pude mais conceber a mim mesmo de outra forma, senão aquela que se anunciara em minha exígua sala de professor ouvindo as dores de alma de meus alunos. Hoje sou profundamente casado com minha profissão, que não pode ser outra.

(…)Quando se ouve outras pessoas falarem de outras profissões, às vezes se encontra algo análogo. tenho uma amiga, a pianista Clara Sverner, que diz ficar doente se não poder tocar de seis a oito horas por dia seu instrumento. Trata-se de uma necessidade absolutamente imperiosa. Nós também trabalhamos com isso todos os dias. Até mais. Uma vez em Zurique, num seminário,  foi mencionado o exemplo do bailarino russo Mikhail Baryshnikov que, para poder dançar como devia, tinha que treinar diariamente a musculatura do corpo durante um número análogo de horas. O analista, pela mesma razão, tem que treinar o uso de suas ferramentas. Usar bem a ferramenta é fazer uma interpretação com precisão na hora certa, detectar a voz daanima imiscuindo-se na fala exaltada de um homem, perceber um complexo se manifestando inesperadamente,  discernir a formação de um símbolo. Se você não treinar o uso  dessas ferramentas, não adianta apenas possuir teoria e intelecto. (…)

A psicoterapia, da maneira como nós a conhecemos, é uma atividade interseccional, com um fundamento na ciência e outro na arte. Esse cruzamento gera um exercício único.( p. 35-6)

Atualmente estou com 11 anos de estudo a obra junguiana. Confesso que fiquei fascinado com cada palavra e com toda a riqueza da experiência do Gambini. Lendo suas páginas, me vieram várias cenas de minha supervisão com  a Prof.Dra. Kathy Amorim Marcondes, pois, ela sempre enfatizou a relação terapeutica, valorizando a individualidade de cada um dos supervisandos, a disponibilidade, preparação e dedicação necessárias ao exercicio da psicoterapia. Trabalhando justamente essa atitude junguiana, que Gambini colaca em cada página de seu livro.

Ao ler Gambini, pude repensar minha trajetória. Suas reflexões são realmente preciosas, nos transmitindo o que é “ser junguiano” no sentido mais “clássico”. Gambini nos oferece um convite irresitível a fazermos um retorno a Jung.

· Descrição (Retirada do site da submarino)

· A Voz e o Tempo: Reflexões para Jovens Terapeutas

Este é um livro-resposta a perguntas que qual­quer terapeuta faz a si próprio: o que é “terapia”? Quais suas promessas? Como opera uma interpretação de sonho? O que é, essencialmente, a transferência? Qual a significação de seu percurso pessoal? O que o tempo faz com o analista?
Não se espere, no entanto, respostas convencionais. Respaldado nos seus trinta anos de clínica, articulando inteligência e sensibilidade, e experimentando o quanto emoção pode se tornar uma categoria cognitiva, o Autor tece reflexões instigantemente originais. Por exemplo, a visão da transferência como uma pulsão de busca de ser compreendido, dimensão arquetípica que responde a uma necessidade ainda mais urgente do que ser amado: ser conhecido, para conseguir ser. (Um outro modo de dizer que na aventura humana precisamos do Outro). Ou a idéia da interpretação de um sonho como um processo de diálise psíquica, inesperada metáfora para o processo em que a matéria do sonho sai daquele que a produziu, circula em outras veias, é como que retransfundida no analista passando pelo seu circuito emocional e daí retorna transformada, enriquecida.Ou as reflexões sobre a dor, matéria prima com que se trabalha no consultório, força criativa ou letal. E tudo isso por vezes atingindo o limite do dizível – uma das características que fazem do livro de Roberto Gambini um texto poético: nomeando, colocando em palavras percepções e realidades que confusamente sentimos, e vivemos, mas que não saberíamos expressar.
Assim, longe de constituir como que uma espécie de elenco de diretivas a jovens analistas, ou conselhos práticos de um profissional experiente e detentor de uma técnica, A Voz e o Tempo condensa aquilo que é o cerne, o caroço, o essencial para alguém que não teme ir até o limite das coisas, e que se entrega ao seu ofício como a um destino – nessa profissão em que, mais do que em qualquer outra que ao longo dos séculos o ser humano tenha inventado, se exige que o profissional entre não apenas com o seu saber, mas com tudo o que ele é.

· Editora: Ateliê

· Autor: ROBERTO GAMBINI

· ISBN: 9788574804125

· Origem: Nacional

· Ano: 2008

· Edição: 1

· Número de páginas: 221

· Acabamento: Brochura

· Formato: Médio

Referência Bibliográfica:

GAMBINI, R. A voz e o tempo: reflexões para jovens terapeutas. São Paulo: Ateliê Editorial, 2008.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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