Algumas reflexões acerca do chamado “otimismo junguiano”

 

(28 de dezembro de 2012)

Há alguns anos atrás, quando ainda fazia a graduação em psicologia, uma colega fez uma crítica ao pensamento junguiano dizendo que este era de um otimismo ingênuo. Na época, nem me incomodei com essa crítica, pois, era motivada pela ideia psicanalítica da pulsão de morte. Contudo, nesses últimos dias eu tenho sido questionado acerca do dito “otimismo” junguiano, e, essa lembrança acerca do “otimismo ingênuo” me fizeram pensar um pouco mais.

De fato, acredito que podemos começar a pensar o “otimismo” junguiano, nos perguntando, se ele é apenas um otimismo? Acredito seja necessário primeiro considerarmos alguns aspectos epistemológicos. Isto porque, a postura junguiana não está calcada apenas numa premissa qualitativa ou numa simples aposta que “vai dar tudo certo”, mas, sim numa postura epistemológica, pois, Jung compreendia que a realidade não era um dado objetivo, mas que se constituiria na relação com o sujeito. Desta forma, ao observar um objeto a percepção do sujeito é condicionada tanto por seu sistema sensorial quanto por sua história. É justamente nesse sentido, que Jung a afirma “Nosso modo de ser condiciona nosso modo de ver” (JUNG, 1989, p.324).

A realidade ou mesmo a psique não é dada de forma objetiva ou integral, cada um de nós perceberemos os fenômenos de acordo com nossa perspectiva. Por isso, que na psicologia possuímos tantas abordagens diferentes, que abordam o mesmo fenômeno por perspectivas diferentes, uns focam no comportamento, outros no corpo, outros no sentido da vida, outros nas relações sociais, nas relações sócio-históricas, outros nos aspecto patológico da psique. Através de uma comparação com a perspectiva diametralmente oposta, isto é, a de Freud, Jung expõe sua perspectiva afirmando que

Eu prefiro entender as pessoas a partir de sua saúde e gostaria de libertar os doentes daquela psicologia que Freud coloca em cada página de suas obras. Não consigo ver onde Freud consegue ir além de sua própria psicologia e como poderá aliviar o doente de um sofrimento do qual o próprio médico padece. (JUNG, 1989, p.325)

Jung afirma que “prefere” olhar pelo viés da saúde, isto é, ele escolhe a perspectiva que prioriza a saúde e os processos autorregulatórios da psique. Afirmar a saúde não significa negar a doença e os aspectos patológicos, mas, compreende-los numa perspectiva onde a doença integra e compõe o processo de saúde. É justamente nesse sentido que Jung afirma que “O importante já não é a neurose, mas quem tem a neurose. É pelo ser humano que devemos começar, para poder fazer-lhe justiça.”(Jung, 1999, p. 80). Assim, podemos compreender que mais que a neurose não possui uma existência em si mesma, mas, compõe o cenário da vida e realidade do individuo.

De fato, devemos compreender que a psique possui todo instrumental necessário para se reorganizar e promover o desenvolvimento do individuo. Por isso mesmo, Jung afirma,

Não se deveria procurar saber como liquidar uma neurose, mas informar-se sobre o que ela significa o que ela ensina, qual sua finalidade e sentido. Deveríamos aprender a ser-lhe gratos, caso contrario teremos um desencontro com ela e teremos perdido a oportunidade de conhecer quem somos. Uma neurose estará realmente “liquidada” quando tiver liquidado a falsa atitude do eu. Não é ela que é curada, mas ela que nos cura. A pessoa está doente e a doença é uma tentativa da natureza de curá-la. (JUNG, 2000, p. 160-1)

Acredito que o chamado otimismo junguiano, também esteja relacionado a compreensão que a realidade psíquica é orientada, não apenas pela causa, mas, para um fim. A perspectiva finalista nos possibilita pensar o “para quê” de um dado fenômeno psíquico, isto é, pensar qual a intencionalidade ou para onde o processo está apontando. Através da neurose, eu poderia compreender não só quais os caminhos ou escolhas eu tomei que me trouxeram aonde estou, mas, quais caminhos ou escolhas devo tomar para mim vida. De fato, compreender que “não é apenas o passado que nos condiciona, mas também o futuro, (…).” (JUNG, 2006, p.115) nos abre para uma dimensão da possibilidade, onde o individuo é efetivamente um agente, um construtor de sua própria história.

No filme de animação “Kung Fu Panda 2”(2011), temos uma excelente expressão dessa compressão, a Velha Cabra diz a Po ;“Sua história pode não ter tido um começo muito feliz, mas não é isso que define quem você é. É o restante da sua história, quem você escolhe ser.” Nossa história vivida nos permite compreendermos qual caminho que percorrermos, mas, não somos condenados a vivermos nesses caminhos. A psicoterapia visa possibilitar que o individuo realize novas escolhas a partir de sua própria história.

Por mais que a realidade da neurose possa nos fazer sofrer, devemos compreender que há sempre uma possibilidade, pois, “o fundo da psique é natureza e natureza é vida criadora. É bem verdade que a própria natureza derruba o que construiu, mas vai reconstruir de novo” (JUNG 2000, p.89). A vida gera vida. Mesmo na psicose, como muito bem demonstrou a Dra. Nise da Silveira, sendo tratado com respeito e dignidade, o paciente pode ter qualidade de vida e viver criativamente!

O pensamento junguiano é orientado para a vida e seus processos criativos, isto, já nos permitiria chama-lo de “otimista”. Mas, como expomos acima, este otimismo não seria “ingênuo” nem mesmo “romântico”, mas, sim um otimismo fundamentado, baseado numa perspectiva que prioriza a vida e os processos naturais de desenvolvimento.

De fato, o otimismo, uma postura afirmativa ou positiva frente a vida e aos processos psíquicos pode ser compreendido como uma marca junguiana.

Referências bibliográficas

JUNG, C. G.. Freud e a Psicanálise Petrópolis: Vozes. 1989.

JUNG, C.G. A pratica da Psicoterapia, Petrópolis: Vozes, 1999.

JUNG, C.G O DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE, Petrópolis: Vozes, 2006.

JUNG, C.G Civilização em Transição, Petrópolis: Vozes, 2000.

KUNG FU PANDA 2. Produção de Guillermo del Toro. EUA: Paramount Pictures,. Animação (90 min.), 2011.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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