Amor, traição e processo de individuação

(11 de junho de 2016)

Fabricio Fonseca Moraes

 

O que é o meu Amor? senão o meu desejo iluminado
O meu infinito desejo de ser o que sou acima de mim mesmo

Viva Vivida, Vinicius de Moraes (1938)

 

Nota: Este texto foi produzido como base para a palestra na I Jornada Junguiana da Multivix, com o tema “Psicologia Analítica e suas implicações na contemporaneidade.

Bom dia! Gostaria de agradecer e parabenizar a faculdade Multivix, sua coordenadora Kirlla Cristhine Almeida Dornelas e ao professor Raphael do Amaral Vaz pela organização desta jornada. Foi nos proposto o desafio de falar sobre Amor, Traição e Processo de Individuação.

Começando pelo amor, é necessário dizer que o amor é mistério.  Jung afirmou em suas memórias que “Tanto minha experiência médica como minha vida pessoal colocaram-me constantemente diante do mistério do amor e nunca fui capaz de dar-lhe uma resposta válida” Jung, 1975, 305). O fato de não haver uma resposta válida, pode significar que muitas respostas são possíveis e válidas. Assim, não tentarei definir ou conceituar de forma estrita, mas, pensar no amor como um fenômeno, que se manifesta, que percebemos, mas, que não se dobra a linguagem objetiva.

Quando falamos de Amor ou Eros (como é mais comum na linguagem psicológica) somos “quase que” obrigados a visitar a Platão, em seu simpósio ou “banquete”, ele afirma pela boca de Sócrates, citando Diótima, diz que o Amor é um daimon que intermedia a relação entre mortais e imortais (deuses).

Essa compreensão de Platão é interessante pois, expressa de forma mítica uma das características mais basais e fundamentais desse fenômeno que denominamos Amor:  é uma função de integração psíquica que, não só intermedia, mas possibilita a relação Ego-Self (ou Ego-Si-mesmo) assim como a relação Ego-Outro. O amor se manifesta como uma função do self que une, integra e centraliza a dinâmica psíquica – seja ela relacionada com a realidade interior ou a realidade exterior.

Nessa mesma perspectiva, Adolf Guggehnbul-Craig, no livro “Eros on Crutches” – que posteriormente foi relançado com o titulo “The Empty Soul” –   nos chama atenção para um o fato de que Eros “humaniza os arquétipos” temperando suas qualidades absolutas ele afirma

O guerreiro sem Eros é um mercenário brutal, um absurdo assassino em massa , um exterminador demoníaco . Com Eros, o guerreiro luta para defender os valores que são importantes para ele, estando pronto para dar a sua vida pelos outros ou por ideais mais elevados . O Trisckster sem Eros é apenas um enganador e mentiroso, um impostor. Com Eros, o trisckster é surpreendente, estimulante , não preso a conveções e rotinas, mas continuamente revelando novas faces de si mesmo e abrindo possibilidades inexperadas para aqueles que o rodeiam . Ele é brincalhão e encantador.(Guggenbhul-Craig, p.27- tradução nossa) [1]

Acredito que falar do Trickster pode gerar algumas dúvidas, pois, não temos um termo adequado para Trickster, mas, duas representações bem conhecidas em nossa cultura são o gato de Cheshire e o Capitão Jack Sparrow.

Eros ou Amor humaniza os arquétipos, ele os humaniza na medida que integra e harmoniza suas dinâmicas arquetípicas às necessidades do Ego, de forma saudável e construtiva. Essa humanização torna o ujhamor muito próximo a outro arquétipo, ou dinamismo arquetípico, que é a alteridade[2] – que geralmente é percebida a partir da concepção clássica Anima e Animus, que desde os anos 70 e 80 vem sendo repensados, pois, o aspecto contrassexual expressa na verdade o “totalmente outro ou diferente” da identidade do Ego.  mas, na verdade é uma função que possibilita a compreensão integra o polo “Outro” seja ele interno (como a dinâmica do Self) ou externo (como a compreensão mais adequada da realidade do Outro).

A relação Eros e Alteridade é tão intensa que quando projetada, a experiência de lidar com o outro se torna como lidar com a própria alma. Por isso, o a projeção da “anima/animus” como vemos classicamente é revestida de um brilho especial, como se o outro fosse de fato, parte de nós mesmos.

Muitas vezes pensamos na relação amorosa como condicionada pela projeção da anima/us. E, de fato, em algumas situações é (geralmente mais exageradas e incontroláveis), mas, não é possível condicionar o amor a uma projeção. Como disse anteriormente, o Amor integra os elementos da vida psíquica, ou seja, integra tanto os objetos internos quanto os objetos externos, atribuindo um sentido afetivo próprio. Quando retiramos a projeção podemos amar o objeto e integra-lo a nossa realidade pelo que ele é. Até nesse ponto, falamos de uma perspectiva, olhando o psiquismo pela via da dinâmica psíquica, quando pensamos pela via da experiência do Ego, da vivência do amor, outros aspectos interessantes que eu gostaria de pensar um pouco com vocês.

– O amor nos coloca diante de um dilema moral, pois, elimina a fronteira do bem e do mal. Aldo Carotenuto, no livro Eros de Pathos, fala que o “amor é portanto uma centelha do divino – e com esse termo entendo uma força que encerra em si ambos os pólos da dicotomia maniqueísta bem-mal”(Carotenuto, p. 22). Não é incomum pessoas “mentirem” ou “enganarem” outras por amor. Em outras situações, é possível termos crimes mais graves como roubos e até homicídios em nome do Amor. Sob certos aspectos, poderíamos dizer que o amor infla o Ego, colocando-o para além de suas possibilidades. (Vide Anakin, que escolheu o lado negro da força por amor a padmé) Mas, devemos tomar muito cuidado em não confundir as escolhas guiadas pelo amor das escolhas feitas pelo poder. Tratar uma mulher como propriedade, posse – agredindo ou mesmo chegando a morte –  não faz parte da dinâmica do amor, mas, do poder. Nesse sentido, os relacionamentos sem amor, são mais próximos da psicopatia. Infelizmente, confundimos muito as relações de poder com amor, essa confusão se dá por nossa cultura machista, patriarcal que durante séculos subjugou a mulher colocando-a num lugar de propriedade do homem. O machismo e o sexismo são exercícios de poder, cada que somos machistas ou sexistas(ou com outros tipos de preconceitos) nos distanciamos do amor, nos desencontramos do amor e de uma relação integradora e saudável com o, e nos colocamos numa posição de domínio que tende sempre a degradar a outra parte.

– Todo discurso sobre o amor é sempre um discurso sobre si mesmo(ibid p. 27) O Amor se refere sempre a nossa interioridade, que quem somos de forma mais sincera. Esse é um dos aspectos mais interessantes, no amor e através do amor nós vemos a nós mesmos, não é o amor exatamente pelo Outro em si mesmo, mas, pelo o que o Outro suscita em nós.

Renato Russo na música La Nouva Gioventú expressa essa noção de forma interessante, ele diz “Com você por perto eu gostava mais de mim” – Infelizmente o que acontece é que estamos tão inconscientes da relação com nós mesmos que não percebemos que a relação com o outro está relacionada com a relação que temos com nós mesmos – por isso mesmo, um relacionamento patológico, abusivo, espelha uma relação inadequada do indivíduo consigo mesmo.  Nesse sentido, o mandamento de Cristo “amarás o teu próximo como a ti mesmo” se revela uma verdade psicológica válida.

– O amor altera nossa percepção da realidade – Quando estamos mobilizados pelo amor, nossa percepção do tempo, nossa percepção do objeto amado é alterada. Por isso, a percepção do amor infinito, definitivo, eterno é uma distorção possível, mas, que não se restringe a durabilidade do fenômeno, mas, também percepção da realidade dos objetos – sejam eles pessoas ou coisas – isso se dá pelo direcionamento de nossa atenção, guiada pelo fascínio gerado pelo objeto.

Sob certo aspecto a percepção do objeto de amor se torna parcial, sendo direcionada aos aspectos positivos, belos e aprazíveis – negando os aspectos negativos, produzindo sombra no objeto. A dificuldade de integrar a totalidade do objeto amado, gera o aumento de expectativas e por isso mesmo, aumenta a possibilidade erros de julgamento.

O amor nos impele a totalidade – Essa é uma característica importante porque nos faz sentir-nos incompletos, incapazes e dependentes/. Não podemos perder de vista que o Ego, como principal deintegrado do Self, guarda uma relação fundamental com Self, devemos lembrar que a dinâmica natural do Self, compreende a deintegração e a reintegração, no caso do Ego, não há uma reintegração propriamente dita, há uma relação especial que pode ser compreendida ou nomeada como “processo de individuação” ou “eixo ego-self”. Assim, através do amor o ego tem um vislumbre da totalidade, e se lança desejante desta possibilidade, por isso as palavras de Vinicius de Moraes são tão precisas quando diz que o amor é o “O meu infinito desejo de ser o que sou acima de mim mesmo”, vislumbrando a totalidade somos impelidos nessa busca.

Vamos falar um pouco sobre a traição. Quando falamos de traição devemos ter em mente uma concepção ampla – que envolve tanto relacionamentos com outras pessoas quanto com instituições, valores. Do mesmo modo, a traição obviamente deve ser percebida sob dois aspectos fundamentais : um social e outro individual.

Quando me refiro ao social, eu me refiro a uma cultura onde trair se tornou banal. Crescemos vendo traições em novelas, quadrinhos, filmes e séries. Trair a família, amigos, valores ou pessoas amadas se tornou uma opção, a traição não tem maiores consequências sociais, em tempos passados a traição tirava a honra de uma pessoa, a trair era um estigma sério (especialmente no que diz respeitos a relação entre amigos, familiares e da mulher com o homem, no caso homem, dada a cultura machista, era permitido trair a mulher). Juntamente com essa banalização temos uma realidade onde os relacionamentos muitas vezes são vistos como temporários, sem o comprometimento real, assim, a cultura sanciona a traição. Mas, não vamos nos estender nesse aspecto.

Quando falamos de traição no contexto da psique do individuo, devemos considerar:

– Poder: Falo tanto do poder, justamente pois, Jung afirmava que psicologicamente, o oposto do amor é poder. O desejo de se afirmar, o desejo se impor, ser alguém frente aos outros. Nessa categoria temos três possibilidades a traição em relacionamentos que se dão na ordem do poder, do domínio, na primeira não há uma consideração efetiva pelo outro, a traição é mais uma conquista, na segunda a traição se dá pela incapacidade do indivíduo enfrentar o termino de um relacionamento, seja por imaturidade, o indivíduo trai por não se sentir capz de um enfrentamento saudável, do termino do relacionamento, nesse caso tomado pelo sentimento de inferioridade, o indivíduo busca um apoio. Uma terceira possibilidade, também interessante mais, é quando o poder compete com o amor. É numa relação onde no relacionamento há amor, mas, na relação do indivíduo consigo mesmo, ele trai como uma forma de lidar com o próprio sentimento de inferioridade e outros. Nesse caso a traição ou traições são acompanhadas por sentimento de culpa.

A traição de si mesmo: Talvez esse seja o aspecto mais pertinente para pensarmos a traição. Muitas vezes o indivíduo em suas escolhas e ao longo da sua vida se traiu de tal forma, se identificando com exigências externas e se desligando de si mesmo, nesse caso, essa traição interior, essa alienação de si-mesmo. Esse estado de alienação se dá muitas vezes, pela adoção de uma atitude da consciência unilateralmente rígida, onde, o indivíduo se prende num relacionamento, numa instituição, num grupo, e nesses casos pode ser que uma traição exterior se faça necessária como uma forma de libertação, a traição do outro (seja uma pessoa, instituição ou valores) seria um caminho para sanar a traição interior.

Não podemos perder de vista, o fato que trair nas situações que nos referimos, no geral, tem um aspecto de positivo, uma necessidade. Contudo, não podemos perder de vista que há sempre o traído, há sempre sofrimento envolvido na traição ou mesmo para quem trai.

Onde que entraria o processo de individuação? O processo de individuação é um processo de desenvolvimento que começa desde que nascemos e se estende até nossa morte. Jung descreve a individuação como “torna-se si mesmo”, e este processo de se tornar quem se é, é em si um processo amoroso,  um processo de integração, de honestidade e consideração profunda consigo mesmo e com a realidade circundante, isto é com os outros.

A maior parte dos efeitos, vamos dizer, “negativos” do amor, do poder e traição se relacionam a inconsciência que o indivíduo em relação a si mesmo. Ou seja, quanto mais inconsciente ou alienado de si mesmo, mais vulnerável o indivíduo se torna às dinâmicas do inconsciente ou a relações abusivas.

Poderíamos falar de individuação como um processo de amadurecimento, onde através da integração dos polos persona-anima, assim como da sombra, torna-se possível a percepção das dinâmicas inconscientes, possibilitando o indivíduo experimente o amor de forma construtiva, deixando de ser apenas levado pela intensidade desse amor que se impõe inconsciente, mas, se tornando responsável pelo amor – tanto de si mesmo quanto pelo amor em relação ao outro.

A individuação exige conhecimento, autoconhecimento e isso só se adquire vivendo, amando, sofrendo e voltando a amar. Em todas as experiências que vivemos, uma parte do quebra-cabeça que somos se revela.  Como dizia o Poeta,

Quem já passou

Por esta vida e não viveu

Pode ser mais, mas sabe menos do que eu

Porque a vida só se dá

Pra quem se deu

Pra quem amou, pra quem chorou

Pra quem sofreu, ai

 

Quem nunca curtiu uma paixão

Nunca vai ter nada, não.

(Vinicius de Moraes)

 

Referências

CAROTENUTO, Aldo. Eros e Pathos: amor e sofrimento. São Paulo, Paulus Editora, 1994.
Guggenbühl-Craig, Adolf. Eros on crutches – on the nature of the psychopath, Dallas, Spring Publications, 1986.

JUNG, C. G., Memórias Sonhos e Reflexões, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975

 

 

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[1]The Warrior without Eros is a brutal mercenary, a senseless massmurderer, a demoniac exterminator. With Eros, the warrior fights to defend values which are important for him, ready to lay down his life for others or for higher ideals. The Trisckster with Eros is but a commom cheat and liar, an imposter, a con-artist. With Eros, the trisckster is surprising, stimulanting, not bogged down in convention ou routine, but continually revealing new sides of himself and openning unexpected vistas to those around him. He is playful and charming.

[2] Vide Anima, Animus e Alteridade – Revisão do texto de 05/04/2010

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana. Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 99316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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