Algumas notas sobre a psicopatologia na ótica junguiana

 

29 de abril de 2010

De vez em quando alguém me pergunta acerca da doença (ou neurose) para a psicologia analítica. E sempre dizem  “eu procurei em vários livros de Jung e não achei nenhum texto sobre psicopatologia ou  sobre neuroses”. Geralmente eu respondo, com um tom jocoso, dizendo “como não? todos os textos dele falam disso!”.  Eu reconheço que pode ser um pouco difícil entender a compreensão de Jung acerca  da psicopatologia ou das neuroses. Por isso, acho que seria interessante pensar algumas coisas aqui.

a) Porque Jung não criou uma “teoria geral” das neuroses

É fato que Jung não estabeleceu nenhuma “teoria geral das neuroses” nem escreveu textos dedicados à neurose ou aos sintomas em si. Isso porque defendia que cada paciente deveria ser compreendido em sua individualidade.  A ênfase de Jung estava em compreender o individuo em sua totalidade, não compreende-lo a partir de sua neurose, um aspecto parcial da psique.  Segundo Jung, O importante já não é a neurose, mas quem tem a neurose. É pelo ser humano que devemos começar, para poder fazer-lhe justiça.( Jung, 1999, p. 80)

Por mais que as neuroses ou transtornos psíquicos se manifestem de forma parecida nas pessoas, não se pode dizer o mesmo de sua “origem”. Defender uma teoria geral das neuroses significa afirmar que as neuroses possuem uma causa comum. Esse foi um dos motivos do rompimento de Jung com Freud, pois ele não concordava que a teoria sexual de Freud (que é a base da psicopatologia freudiana) justificasse totalmente o desenvolvimento tanto das neuroses quanto das psicoses – Jung se pautava tanto com sua experiência com pacientes psicóticos (experiência que Freud não possuía) quanto na consideração das ideias de Adler que apontava uma etiologia das neuroses diferente de Freud, mas que eram igualmente válidas na prática clínica. Assim, Jung considerou ser inviável considerar uma teoria geral das neuroses, pois, isso significaria negligenciar outras possibilidades de desenvolvimento do psiquismo. Vale a pena frisar Jung não negava a teoria de Freud, ele negava sua universalidade .

Segundo Jung,

Nossa experiência psicológica ainda é nova e pouco extensa, para permitir teorias universais. É preciso pesquisar primeiro uma quantidade de fatos, para aclarar a natureza da alma, antes de pensar sequer em estabelecer preposições de validade universal. Por enquanto, temos que ater-nos à norma seguinte: toda proposição psicológica só pode ser considerada valida quando, e somente quando a validade do sentido oposto também puder  ser reconhecida. (JUNG, 1999, p.110)

Dessa forma, Jung compreendia que a complexidade do fenómeno psíquico impunha uma compreensão ampla, e que as teorias psicológicas seriam expressões dessa complexidade psíquica. Uma teoria geral não contemplaria as possibilidades de desenvolvimento do psiquismo, mas, poderia facilmente ser vista como uma “verdade única” acerca da psique seria não só um equivoco, como também um risco.

(…) Nestas circunstâncias, como seria possível sonhar com teorias gerais? A teoria representa, inegavelmente, o melhor escudo para proteger a insuficiência experimental ou a ignorância. As consequências, porém, são lamentáveis: mesquinhez, superficialidade e sectarismo científico. (JUNG, 2006, p.13-4)

Jung não estabeleceu teorias gerais nem tão pouco tinha abarcar todas as possibilidades de compreensão do psiquismo. Suas teorias buscam compreender a dinâmica psíquica sem ter a pretensão de ser “ a verdade”, isso possibilitou que fossem estabelecidos diálogos entre a teoria junguiana e outras como corporal, hipnose erickoniana, psicanálise,  psicodrama, abordagem sistémica dentre outras.

b) O funcionalismo de Jung

Como dissemos acima, o foco de Jung não era a doença ou a neurose – ele afirmava que “Eu prefiro entender as pessoas a partir de sua saúde”(Jung, 1989, p.) , compreender a dinâmica psíquica e, a partir desta, os estados anormais ou  neuróticos e os psicóticos.

Não havia uma procupação por parte de Jung em buscar uma estrutura geral da neurose, mesmo porque, para Jung a neurose não deveria ser considerado algo “em-si”, pois, na neurose as atividades normais do psiquismo estariam alteradas. Assim, deveria-se observar a função da neurose no individuo, o que nos levaria  a questionar “ à quê serviria aquela alteração na atividade normal do psiquismo”.  Isto está relacionado com a perspectiva teleológica ou finalista que Jung adota, que nos leva a observar o sentido do sintoma na totalidade da psique (ou da vida) daquele individuo, a função da neurose sempre aponta sempre aponta para o processo amadurecimento do individuo.

Devemos assim, pensar um pouco mais sobre a visão da neurose para Jung.

c) A Neurose para Jung

Como dissemos, Jung não via  a neurose como algo somente “ ruim ou negativo”, mas, também era positivo. Pois, segundo ele,

Na verdade, a neurose contém a psique da pessoa, ou ao menos, parte importante dela.(…)pois na neurose está um pedaço ainda não desenvolvido da personalidade, parte preciosa da psique sem a qual o homem está condenado à resignação, amargura e outras coisas hostis à vida.A psicologia da neurose que só vê o lado negativo joga fora a água do banho com a criança, porque despreza o sentido e o valor do “infantil”, isto é, da fantasia criadora. (JUNG, 2000, p. 158)

A neurose é corresponde a uma tentativa natural de mudança da atitude da consciência, isto é, a neurose ou o sintoma neurótico já é uma uma tentativa do sistema psíquico de se reorientar (ou se curar).  A psicoterapia seria a possibilidade de reestabelecer o equilíbrio da relação entre consciência e o inconsciente ou, de outro modo, do processo de adaptação do ego frente as exigências do mundo interior e exterior.

Esse intento consiste na adaptação mais adequada do modo de levar a vida humana; e essa adaptação ocorre em dois sentidos distintos (pois a doença é adaptação reduzida). O homem deve ser levado a adaptar-se em dois sentidos diferentes, tanto à vida exterior — família, profissão, sociedade — quanto às exigências vitais de sua própria natureza. Se houve negligência em relação a qualquer uma dessas ne­cessidades, poderá surgir a doença.(JUNG, 2006, p. 97-8)

Devemos notar, que Jung não restringia a neurose a um conflito interno ou relações a relações parentais do individuo. Assim, para se pensar a neurose devemos pensar a totalidade da vida do individuo, verificando sobretudo seu posicionamento do mesmo em relação a própria vida no hoje, no presente. A neurose pode vir sendo construída ao longo dos anos, mas, se ela se mantém hoje é porque a atitude da consciência propicia que ela esteja no hoje. 

A verdadeira causa da neurose está no hoje, pois ela existe no presente. Não é de forma alguma um caput mortuumque aqui se encontra, vinda do passado, mas é nutrida diariamente e, por assim dizer, sempre de novo gerada. Somente no hoje e não no ontem será “curada” a neurose. Pelo fato de nos defrontrarmos hoje com o conflito neurótico, a digressão histórica é um rodeio, quando não um desvio, a digressão para milhares de possibilidades de fantasias obscenas ou para desejos infantis não realizados é mero pretexto para fugir do essencial. (JUNG, 2000, p.161-2)

Não se deveria procurar saber como liquidar uma neurose, mas informar-se sobre o que ela significa, o que ela ensina, qual sua finalidade e sentido. Deveríamos aprender a ser-lhe gratos, caso contrario teremos um desencontro com ela e teremos perdido a oportunidade de conhecer quem somos. Uma neurose estará realmente “liquidada”  quando tiver liquidado a falsa atitude  do eu. Não é ela que é curada, mas ela que nos cura. A pessoa está doente e a doença é uma tentativa da natureza de curá-la. (JUNG, 2000, p. 160-1)

d) Sobre nomenclatura

Até aqui utilizamos o ter “neurose” para falar dos transtornos psíquicos, isso porque neurose é um termo histórico. De forma geral, Jung não criou uma nomenclatura específica para se referir aos transtornos mentais,  muitas vezes ele recorria a nomenclatura psicanalítica, pois era uma nomenclatura comum e que todos entendiam, apesar dela remetar a concepção de estrutura. Atualmente, é comum utilizar o CID-10, que apresenta uma concepção descritiva, relacionando o nome aos sintomas observados.

Referências Bibliográficas

JUNG, A PRATICA DA PSICOTERAPIA,Petrópolis: Vozes, 1999.

Jung, O DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE,Petrópolis: Vozes, 2006

JUNG, C.G. Freud e a Psicanálise. Petrópolis: Vozes, 1989.

JUNG, Civilização em Transição,Petrópolis: Vozes, 2000.

Arquétipo e Representações Arquetípicas

 

16 de abril de 2010

Arquétipo é um dos principais conceitos junguianos. Entretanto, frequentemente vemos grandes confusões feitas com esse conceito. Assim, vou tentar apresentar a forma como pessoalmente compreendo a idéia de arquétipo, discutindo um pouco da teoria para torna-lo mais claro.

Arquétipo : O termo

O termo arquétipo foi utilizado por Jung pela primeira vez em 1919, em Londres, num simpósio intitulado “Instinto e Inconsciente”. O termo arquétipo já era conhecido da filosofia e, suas origens, poderiam remontar até Platão. Essa relação histórica com o Platonismo gerou um preconceito em relação a concepção de Jung. Em sua etimologia, o termo arquétipo é formado pelo termo arkhé, oriundo do grego, que significaria primeiro, antigo, regente, dominante, original; e typos, também oriundo do grego, que significaria marca, impressão, molde ou modelo. Desde modo, o termo arquétipo exprimiria a idéia de um molde, marca ou modelo original.

Arquétipo na Psicologia Analítica

Apesar do termo só ter sido introduzido em 1919, a idéia de arquétipo já estava presente nas publicações de 1912, onde Jung relatava seus estudos acerca das “imagens primordiais”, imagens que se manifestam na psique e que poderíamos observar uma relação com a mitologia. Por volta, de 1917, Jung começa a se referir dominantes do inconsciente coletivo.

Num primeiro momento, Jung relaciona ou mesmo justifica a teoria dos arquétipos considerando a teoria da evolução. Deve-se notar quem em 1912, por ocasião de palestras no EUA, Jung visitou manicômios destinados aos negros, para pode estudar os sonhos e delírios desses pacientes, o que ele pode notar era que os conteúdos eram semelhantes aos de seus pacientes na Suiça e, alguns delírios e percebeu claro paralelo com a mitologia grega.

Para Jung,  a universalidade dessas representações psiquicas estavam relacionadas com a história do homem. Segundo ele,

Assim como o corpo humano representa todo um museu de órgãos com uma longa história evolutiva, devemos esperar que o espírito também esteja assim organizado, em vez de ser um produto sem história. Por “história” não entendo aqui o fato de nosso espírito se construir por meio de tradições inconscientes (por meio da linguagem etc.), mas entendo antes sua evolução biológica, pré-histórica e inconsciente no homem arcaico, cuja psique ainda era semelhante à dos animais. Esta psique primitiva constitui o fundamento de nosso espírito, assim como nossa estrutura corporal se baseia na anatomia geral dos animais mamíferos. (JUNG, 2000a, p. 229-230)

Isso implica em dizer que os arquétipos não estão relacionados a nada metafísico, mas, sim são expressões do processo evolutivo, quem imprimiram padrões de basais de organização do psiquismo.  Esses padrões basais podemos reconhecer nos animais como instintos. Os arquétipos, seriam

(…) instintos centralmente representados, ou seja, que se manifestam como imagens. Os arquétipos só tomam a forma de imagens onde a consciência está presente; noutros termos, o autorretrato configurado dos instintos é um processo psíquico de ordem superior. Pressupõe um órgão capaz de perceber essas imagens primordiais. (NEUMANN, 1995, p.215).

A referência a imagens, num primeiro momento, podemos pensar nas imagens dos sonhos, as imagens em alucinações de pacientes psicóticos. Entretanto, devemos compreender que essas imagens (sonhos e alucinações) são representações visuais que atingem a consciência. É fundamental que compreendamos para Jung,  IMAGENS são REPRESENTAÇÕES, não apenas visualizações. As imagens arquetípicas, que prefiro chamar de representações arquetípicas, pode ser cinestésicas, assim sentidas no corpo, a analise bioenergética nos propicia uma percepção clara disso, pois, p.ex., através um dado exercício, é possível acessar o mesmo conteúdo emocional em indivíduos de diferentes culturas ou diferentes lugares do mundo. Ou seja, através de um movimento compatível com a dinâmica própria do arquétipo é possível ativa-lo ou ativar sua representação na esfera pessoal, essa pode se manifestar como imagens (sonhos, visões), sensações cinestésicas ou emoções/lembranças.

De forma geral, quando o arquétipo isto é, um padrão de organização psíquica basal, uma vez ativado ele vai mobilizar  o individuo por inteiro, modificando a forma do individuo perceber ou reagir à realidade, isso porque sua força ou energia tende a engolfar o ego.

Compreendo que o arquétipo é um padrão basal de organização psíquica, assim, o psiquismo se organiza em torno desses padrões, fazendo com que todos os indivíduos em toda parte tenham uma organização psíquica semelhante. Deste modo, falar em arquétipo significa reconhecer que temos uma predisposição a determinados comportamentos, assim como a predisposição a aprendizagem. Deve-se notar que essas predisposições são comuns a toda humanidade. Esses padrões vão assumir a forma da cultura em que o individuo se encontra(mas, sua essência permanece a mesma em toda cultura). Como por exemplo, a maternagem, ela se manifesta em todas as culturas e se caracteriza essencialmente pelo cuidado e nutrição da prole, contudo, o tempo e a forma como a mãe vai cuidar e nutrir de seus filhos, depende da cultura onde está inserida.

Há tantos arquétipos quantas situações típicas na vida. Intermináveis repetições imprimiram essas experiências na constituição psíquica, não sob a forma de imagens preenchidas de um conteúdo, mas precipuamente apenas formas sem conteúdo, representando a mera possibilidade de um determinado tipo percepção e ação. Quando ocorre na vida algo que corresponde a um arquétipo, este é ativado e surge uma compulsão que se impõe a modo de uma reação instintiva contra toda razão e vontade, ou produz um conflito de dimensões eventualmente patológicas. Isto é, uma neurose. (JUNG, 2000b, p.58).

Representações arquetípicas

Segundo Jung, seria

provável que a verdadeira natureza do arquétipo é incapaz de tornar-se consciente, quer dizer, é transcendente, razão pela qual eu a chamo de psicóide. Além disto, qualquer arquétipo torna-se consciente a partir do momento em que é representado, e por esta razão difere, de maneira que não é possível determinar, daquilo que deu origem a essa representação (JUNG, 2000c, p150)

Como podemos ver, o arquétipo não pode se tornar consciente por ser psicóide (isto é, quase psíquico, o arquétipo esta na zona limítrofe entre o físico e psíquico, por isso transcendente). Conforme disse acima, as chamadas “imagens arquetípicas” são “representações” do arquétipo. Para evitar confusões, prefiro me referir às manifestações do arquétipo apenas como “Representações arquetípicas”. Compreendo como as principais formações arquetípicas:

1 – Complexos : Os complexos de tonalidade afetiva ou complexos ideoafetivos são agrupamentos de ideias, pensamentos, imagens em torno de um núcleo arquetípico. Os complexos são como atualizações dos arquétipos na vida pessoal. Como dissemos, os arquétipos são padrões de organização psíquica, assim, as experiências individuais que possuem afinidade com um padrão arquetípico são atraídas e formam um conglomerado, que organizam e orientam nossas memórias de lembranças vividas, assim como orientam a percepção das experiências. Através dos complexos podemos apreender as dinâmicas arquetípicas e como elas organizam e orientam nossa vida.

2 – Símbolos culturais: Chamo de símbolos culturais todos os elementos que se mantém como referencia da cultura. Como os contos de fadas, mitos, provérbios, imagens, monumentos que expressam a dinâmica arquetípica. Segundo Jung,”o arquétipo é sempre uma espécie de drama sintetizado”(EVENS, 1973, p. 55), por isso, muitas das narrativas mítico-religiosas nos afeta, assim como as obras de arte que expressam um cena ou situação que similar a padrão arquetípico. Os símbolos culturais são importantes pois, servem de referencia para a constelação dos arquétipos em nossa vivência pessoal.

3 – Símbolos pessoais:  Os símbolos pessoais são formações que eclodem do inconsciente, intimamente relacionado com o momento do qual um individuo vive. Esses símbolos podem ser situações, pessoas, locais, lembranças, musicas, enfim, qualquer coisa que tenha uma similaridade arquetípica ou que sobre ao qual o arquétipo inconsciente tenha se projetado. O símbolo pessoal tem o objetivo de  possibilitar a passagem de energia do inconsciente para a consciência, com a finalidade de organizar e/ou dar um direcionamento ao Ego.

Referências bibliográficas

EVANS,R.Entrevistas com Jung e as Reações de Ernest Jones.Rio de janeiro:eldorado,1973.

NEUMANN, E. História da Origem da Consciência, São Paulo: Cultrix Editora, 1995

JUNG, C.G. Vida Simbólica Vol. I, Vozes, 2ª Ed., Petrópolis, RJ, 2000a.

JUNG, C.G. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo, Vozes, Petrópolis, RJ, 2000b.

JUNG, C.G.Natureza da Psique, Vozes, Petrópolis, RJ, 2000c

 

——————————————————–

Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

www.psicologiaanalitica.com

mandala

NUMINOSO: Do sagrado de Otto ao Arquétipo de Jung

 

13 de abril de 2010

(Esta palestra foi apresentada no I Congresso Estadual de Psicologia Analítica, realizado em Vitória, Dezembro 2009)

Este Primeiro congresso Estadual de Psicologia Analítica, é sem dúvida um marco na história do movimento junguiano capixaba e a realização de um sonho sonhado muitos.

Gostaria de parabenizar ao Programa Portas – que é um baluarte da psicologia junguiana no ES – e ao PET por essa importante iniciativa em contribuir com a psicologia analítica no ES.

A nossa proposta para esta palestra é pensarmos um pouco sobre o conceito “numinoso”, que é encontrado com freqüência na obra de Jung como uma qualidade ou caráter do inerente ao arquétipo. Mas, para compreender a adoção deste conceito, é necessário buscarmos a sua origem, o que nos leva a Rudolf Otto, que foi contemporâneo de Jung, e um dos responsáveis pelas conferências Eranos.

Rudolf Otto, o Sagrado e o Numinoso

Apesar de sua importância, Rudolf Otto(1869-1937) não é muito conhecido em nosso meio. Nascido na Alemanha, Otto foi um destacado teólogo protestante, filósofo e historiador das religiões. Esses três títulos de “teólogo”, “filósofo” e “historiador” correspondem também aos três estágios de desenvolvimento de sua obra, cuja primeira fase[i] correspondeu a seus estudos direcionados a teologia cristã, sua segunda fase marcada pela obra “O sagrado”, onde ele discutiu questões relacionadas a filosofia, mais propriamente fenomenologia da religião e Psicologia da religião. A terceira fase de sua obra, foi dedicada a estudos comparativos de história das religiões, especialmente as religiões orientais.

Um dado fundamental sobre Rudolf Otto é que ele, assim como Jung, não foi um pensador de gabinete, sua “inspiração”(por assim dizer) vinha das viagens que realizou ao longo de sua vida – como, por exemplo,  a Grécia, ao norte da Europa (Finlândia, Russia, Suécia), Oriente Médio (Beirute, Jerusalem), Norte da Africa(Egito), Oriente (India, China, Japão, Ceilão), America (EUA). A experiência com essas culturas diferentes, com formas de perceber a religião, fez de Otto um pensador ímpar. Seu trabalho influenciou pensadores importantes como Mircea Eliade e Paul Tillich, assim como C.G.Jung.

A obra que deu destaque a Rudolf Otto foi “O Sagrado – Os aspectos irracionais na noção do divino e sua relação com o racional” e foi publicada em 1917, durante a primeira guerra mundial. Nesse trabalho, Otto se dedicou a defender que o conceito deSagrado seria o elemento essencial das religiões, este seria o elemento relacionado ao divino, não sendo passível de racionalização. Otto compreendia que o Sagrado era uma idéia ou noção complexa, sendo formado por dois aspectos opostos:

1 – O primeiro era o elemento “racional”. Por racional, Otto compreendia os elementos que são nomeados, ou conceituados. Ou de outra forma, seriam os elementos passíveis de serem claramente comunicados pela linguagem. Nessa categoria de racional estariam as narrativas, as doutrinas, a ética e a moral religiosa.

2 – O segundo aspecto é o que nos importa nesse momento, corresponde ao âmbito irracional do sagrado. E, o irracional seria justamente os elementos que não se dobram ao a linguagem, fugindo a uma apreensão conceitual. Esse aspecto ou categoria Otto chamou de “numinoso”. Esse termo tem sua origem no termo latino Numensignifica deus ou divino. O Numinoso corresponderia ao aspecto ativo, experiencial da vivência religiosa e essa categoria só se aplicaria quando o numinoso se manifesta, ou seja,  quando o numinoso se manifesta a um individuo. Otto propõe que única forma de se compreender o irracional no sagrado é ter tido uma experiência pessoal com o sagrado, Isso é tão importante, que no terceiro capitulo, ele sugere que quem não tiver tido uma experiência religiosa ou não for capaz de se recordar de uma experiência deste tipo, que não continue a ler o livro. O que se diz acerca do numinoso, só faz sentido por encontrar eco na experiência vivida.

Desse modo, para se aproximar do aspecto irracional do Sagrado, Otto tomou como referência as reações afetivas dos indivíduos frente ao numinoso, ou seja, as sensações provocadas pelo sagrado nos individuos. (Isso é um dado interessanate, pois, ao optar em discutir o numinoso a partir das reações afetivas, ele saiu do âmbito filosófico e metafisco, fez psicologia da religião.)

O numinoso, entretanto, não se manifesta de uma forma simples, mas, complexa, Otto propôs uma formula básica para expressar essa complexidade, segundo Otto o numinoso é o mysterium tremendum et fascinans (mistério terrível e fascinante).

O mysterium corresponde a forma como o numinoso se manifesta. É o mistério, o desconhecido, incompreensível. Que quando manifesto se faz perceber como algo distinto da realidade que experimentamos, é o totalmente Outro.

Apesar de ser um mistério, ao se manifestar o numinoso é perceptível, Otto dizia que o sagrado se faz perceber pelo “arrepiar dos pêlos”, pelo “tremor dos joelhos”. Esse mistério  causa arrepios, se apresentando em dois aspectos qualitativos: o Tremendum e oFascinans.

O Tremendum é o aspecto negativo ou repulsivo do sagrado, onde a manifestação nos impele para trás, que nos impõem o temor. Ele pode ser percebido sob três formas: Tremendum, majestas e orgé.

O Tremendum é o terrível no sagrado; é o que nos faz tremer, que causa calafrios, que nos traz a sensação de risco a nossa integridade. Em nossa cultura cristã, podemos observar esse aspecto relacionado ou ao que seria demoníaco ou relacionado ao demônio ou em experiências místicas. No antigo testamento, Deus impunha temor, era o Deus que castigava, punia até a “segunda e terceira geração”. Nos dias de hoje percebemos esse “temor” na crença ou no Diabo como opositor, ou no castigo divino sentir o “peso da mão de Deus”.

O Majestas está relacionado com o poder ou a majestade com qual a experiência se apresenta. Nesse aspecto o misterium nos coloca na posição de pequenez, impotência, finitude, é o desesperador sentimento de finitude frente ao infinto produzindo o sentimento de criatura diante da grandiosidade deste Outro.

O terceiro aspecto é o Orgê que é a energia do numinoso. Que se faz manifestar na “vivacidade, paixão, natureza emotiva, vontade, força, comoção[ii]” gerados no individuo pelo contato com o objeto numinoso.

Esses aspectos são percebidos como repulsivos pois geraram o terror, o medo. E são percebidos como algo exterior a nós mesmos, algo que nos atinge.

O Fascinans é o aspecto positivo ou atrativo do sagrado, que é formado por dois aspectos, o augustus que impacta o individuo com a sensação de pureza, santidade; e o sebastus que se manifesta impondo o prudência, reverência, veneração.

A sensibilidade de Otto ao descrever o Numinoso possibilitou não só uma compreensão teórica do Sagrado ou da experiência religiosa, mas, também a possibilidade de compreendermos a experiência religiosa pela psicologia. O Numinoso não é uma noção teológica ou metafísica, mas, uma noção pautada na descrição da experiência do sagrado, a compreensão do numinoso como o aspecto irracional do sagrado que invade e toma o individuo, permitiu que Jung pudesse também aproximar a noção de numinoso da noção de arquétipo e de inconsciente.

O Arquétipo de C.G. Jung

Acredito que Jung dispensa apresentações. Mas a complexidade do conceito de arquétipo nos impõe uma constante reflexão sobre o mesmo.

Em primeiro lugar, é importante pensarmos no arquétipo num sentido amplo, não apenas como um conceito em si. Podemos pensar o arquétipo como uma categoria a priori necessária para pensarmos e compreendermos os fenômenos psíquicos,  que fogem ao âmbito histórico tanto do individuo quanto do grupo no qual o individuo esta inserido. E que podem reconhecidos nas diversas culturas, seja comportamentos ou por narrativas míticas.

Assim, quando falamos em arquétipo estamos nos referimos a uma categoria de padrões basais de organização e orientação psíquica comuns a todos os seres humanos, pois sua origem e desenvolvimento remontam a historia evolutiva humana.

Como padrões basais de organização, os arquétipos são a base da organização da consciência. E por isso que Jung afirma que o arquetipo-em-si não atinge a consciência. Pois, isso comprometeria a organização do ego e da consciência.

Deste modo, o arquétipo é estranho a consciência, nós somente apreendemos suas representações . Eu prefiro usar o termo representação arquetípica no lugar de imagem arquetípica. Isso porque imagem no uso comum tem um apelo visual, gerando um pouco de confusão.

Os arquétipos podem se manifestar ou se representar em nossa realidade como:

1 – Complexos de Tonalidade Afetiva: Os complexos são centros ordenadores de nossa experiência pessoal. Os complexos são atualização dos arquétipos em nossa realidade pessoal, pois, é em torno da tendência arquetípica que vão se organizar os complexos. Por isso, que podemos compreender a dinâmica de um complexo a partir os aspectos arquetípicos – como as representações culturais – mitos e contos de fada.

2 – Representações Simbólicas Culturais: São as manifestações arquetípicas na consciência coletiva. Que podemos perceber nas narrativas mítico-religiosas e na iconografia religiosa, cuja estrutura é similar nas mais diferentes culturas.

3 – Representações Simbólicas pessoais – Os símbolos correspondem a atualização do arquétipo através da projeção em situações ou imagens que correspondem arquétipo. Os símbolos podem ser ícones (como a cruz, um santo) ou situações típicas que marcam a vida – como o “sair da casa dos pais”, um “rompimento ou uma perda afetiva”. São situações que imprimem um significado maior aos indivíduos.

4 – Representações Corporais: Os arquétipos se expressam no corpo, através sentimentos, emoções, posturas que assumimos inconscientemente e que condicionam nosso modo ser, e perceber a vida. Essas representações corporais que são tão bem descritas pela psicologia corporal – em especial a analise bioenergética.

Essas formas de representação arquetípica demonstram a amplitude da idéia de arquétipo, que vai desde o aspecto cultural ao físico.

O que não podemos perder de vista, que quando o arquétipo se constela ou se manifesta, ele traz uma energia característica à consciência, fazendo com que o ego seja atraído e se submeta(mesmo que temporariamente) a dinâmica arquetípica. Ou melhor, ele passa a ser orientado pelo arquétipo.

Os arquétipos constituem o pano de fundo de nossa realidade. E, na maioria das vezes não nos apercebemos disso, pois, não nos damos conta de que cada representação arquetípica citada é um nível manifestação do arquétipo, e que é geralmente inconsciente.

Arquétipo e o Numinoso

A relação entre o arquétipo e o numinoso, fica clara quando a representação arquetípica se constela na consciência. Quando o arquétipo se constela, o ego vai experimentar essa manifestação com um caráter compulsivo, que pode ser experimentado como um fenômeno restaurador – ou seja, que vai fortalecer o ego, mas, limitar a liberdade do ego – ou como algo ameaçador que colocaria o ego em xeque, provocando uma profunda desestabilização do ego (chegando até uma possível ruptura psicótica).

Por exemplo, a experiência arquetípica é restauradora quando ela emerge no meio de uma crise, dando um norte para o ego. Isso é muito comum nas conversões religiosas, onde, com individuo num momento de crise, eclode um símbolo cuja intensidade e a força de atração é tão forte, que o ego se ordena em função disso. Nesse mesmo nível, podemos pensar nas constelações onde um individuo se separa, larga toda sua vida para viver uma paixão que todos vêem como absurda, ou mesmo se converte a uma religião e assume uma atitude fanática. O ego fica fascinado pelo arquétipo. Nesse caso o ego supera a crise, mas, paga o preço perdendo de sua autonomia, ficando identificado pela imagem arquetípica .

No outro caso, o arquétipo ou a representação arquetípica se coloca como uma ameaça iminente seja pela projeção da sombra, pela paranóia e estc.., No transtorno obsessivo compulsivo, p.ex., onde o individuo tem pensamentos dos quais tem que se defender, ou pela síndrome do pânico onde há a sensação de morte iminente, que é a própria ansiedade de ruptura do ego.

Em sua possibilidade de manifestação, o arquétipo pode ser terrível e fascinante. Por isso Jung afirma que o arquétipo é numinoso ou que o arquétipo possui “numinosidade”, pois os a constelação arquetípica observada no consultório apresentava as mesmas características que Otto descrevera da experiência do Sagrado.

Devemos tomar cuidado, para não fazermos reduções, dizendo “Sagrado é Arquétipo”, nem que o “Arquétipo é Sagrado”, não estou falando na disso, apenas que são duas categorias que nos afetam de forma similar.

Outro aspecto que aproxima o pensamento de Otto e do Jung é a questão de irracional. Tanto o sagrado quando o arquétipo são idéias ou conceitos, que não se aprende racionalmente, é necessário viver a experiência do sagrado ou do arquétipo para compreendê-las. Por exemplo, quem não sentiu o poder sedutor da anima, vai ter dificuldade para compreender a angústia de um cliente fascinado pela anima. Quem não se confrontou com o Mal em si próprio, vai ter dificuldade para compreender o Mal ou a Sombra, no cliente. Por isso que para se compreender a psicologia analítica, é necessário viver os conceitos.

O Numinoso na psicologia analítica aponta justamente para isto:  omistério terrível e fascinante que nos organiza e nos constitui. Que nos confronta com quem somos, e assim, nos conduz a nós mesmos.

OTTO, Rudolf. O Sagrado: os aspectos irracionais na noção de divino e sua relação com o racional, São Leopoldo:Sinodal/EST; Petropolis: Vozes, 2007.


[i] Cf. O sagrado, p. 15.

[ii] Cf. O Sagrado, p. 55

——————————————————–

Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

www.psicologiaanalitica.com

mandala

Anima e Animus

Nota esse  texto está incompleto, veja o texto: http://psicologiaanalitica.com/anima-animus-e-alteridade-reviso-do-texto-de-05042010/

5 de abril de 2010

A Anima e o animus são pólos de manifestação da mesma dinâmica arquetípica, que vai reger as relações entre “Eu-Não-Eu”, isto é, as relações com o mundo externo os “Outros” e as formações do inconsciente que apreendemos como diferentes nós mesmos.

Anima e Animus derivam do mesmo termo latino Anima. Anima em latim significa “alma”.  Jung não compreendia a anima como alma num sentido “teológico”  ou “metafísico”.  A noção de alma estava mais próxima da concepção de Plotino, que compreendia como o principio vital, o principio de movimento e vida,  que organiza o mundo sensível.  A Anima correspondia a um principio de vida, uma dinâmica que mobilizaria e impeliria a ação. Por outro lado, o Animus, seria o género masculino de anima, era utilizado para se referir a “parte pensante” da alma, no inicio da idade média o uso de animus cedeu espaço para o termo spiritus,  já o sendo associado a um principio relacionado a força, ação, racionalidade, intelectualidade e ao sentido.

A diferenciação de anima e animus se manifesta  no processo de formação Ego. Ao longo do desenvolvimento do indivíduo,  no caso do menino, os aspectos do feminino cultural tendem a ser rejeitados, por se demonstrarem incompatíveis com a identidade do ego masculino.  Esses aspectos femininos incompatíveis com o Ego, embora, necessários para a vida humana, são relegados ao inconsciente, onde formarão um complexo funcional, que será composto dos tanto pelas experiências pessoais que o individuo terá com figuras femininas(mãe, professora, irmã etc…) quanto pelo aspectos do feminino cultural, que são impessoais, dando à anima o aspecto feminino complementar à identidade masculina do Ego. O mesmo processo ocorrerá na menina, dando forma ao animus.

Para comentar melhor essas duas polaridades desse arquétipo, devemos vê-los em sua peculiaridade.

Anima

Antes de continuar, devo dizer que a a Anima sempre me soou é poética.  Sempre que leio Vinicius de Moraes, a Anima me salta aos olhos. Assim, eu gostaria de compartilhar uns poucos versos de Vinicius de  Moraes, que certamente nos ajudarão a pensar um pouco acerca da Anima.

Soneto do corifeu

São demais os perigos desta vida
Para quem tem paixão, principalmente
Quando uma lua surge de repente
E se deixa no céu, como esquecida.

E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher.

Deve andar perto uma mulher que é feita
De música, luar e sentimento
E que a vida não quer, de tão perfeita.

Uma mulher que é como a própria Lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua.

A  Vida Vivida

(…)

O que é a mulher em mim senão o Túmulo
O branco marco da minha rota peregrina
Aquela em cujos abraços vou caminhando para a morte
Mas em cujos braços somente tenho vida?

(…)

Vinicius de Moraes,http://www.viniciusdemoraes.com.br/poesia/index.php

No livro “Os Arquétipos e o Iconsciente coletivo” (p.42)  Jung se refere a Anima como o “arquétipo da vida”.  A Anima é uma configuração do inconsciente,  ou seja, uma forma como o inconsciente se manifesta,  que agrega os elementos fundamentais a manutenção da dinâmica psíquica, ou seja, possibilita que o Ego seja nutrido e estruturado pela dinâmica psíquica.

Jung se referia a Anima como “psicopompo” ou “guia da alma”, por ser a estrutura psíquica que permitiria ou viabilizaria a relação da consciência com o inconsciência, pois Anima fascinaria o Ego.  Esse fascínio Vinícius de Moraes brilhantemente chamou, no soneto acima, de  ”os perigos desta vida ” , pois a Anima, pode mudar drásticamente  a vida de um homem – especialmente quando ela está inconsciente, pois, assim pela pode ser projetada, e geralmente numa figura feminina.  Toda projeção é uma forma do inconsciente se comunicar com a consciência, indicando o que o individuo precisa para seu desenvolvimento.  Nós vemos essas projeções no cinema, na literatura e no dia a dia em relacionamentos que mudam a vida do homem (ora para melhor, ora para pior) gerando uma espécie pode dependência da mulher, muitas vezes são relacionamentos que ninguém consegue compreender como podem ocorrer.

Além dessas situações ou relacionamentos inusitados, a anima também está relacionada com a sensação de completude “ao encontrar a alma gêmea” ou a “cara metade”. Por isso,  a perda de um amor pode se tornar tão dramática, pois, não  representa apenas não só a perda de um relacionamento, mas a perda da própria alma .  É como Vincius de Moraes diz “Aquela em cujos abraços vou caminhando para a morte, Mas em cujos braços somente tenho vida?”.  Ele não fala de  uma mulher, mas, da Mulher que está além de toda mulher.

Quando o individuo foge ou evita ter contato com a anima, mantendo a projeção, pode ocorrer riscos ao relacionamento, pois, o ele terá uma certa idealização (própria da anima) da pessoa com quem ele está. O que pode gerar situações como uma cobrança exagerada (idealizada) com a pessoa com quem ele se relaciona, ou quando a pessoa, quando essa pessoa exige seu espaço para ser ela mesma, tornando a projeção inadequada. A tendência é a se deslocar para um outra pessoa, reiniciando o ciclo de projeção.

A integração da Anima corresponde a integração de uma parte da experiência humana que chamamos de feminino, que é um passo para o desenvolvimento de nosso potencial, e fundamentalpara compreendermos quem somos e para lidarmos com o mundo de uma forma mais plena e integra.

Animus

Jung escreveu muito pouco acerca do animus, se compararmos com o volume de material produzido sobre a anima. sem sombra de duvida a anima era de real interesse para jung. Grande parte dos trabalhos produzidos acerca do animus foram realizados pelos alunos, ou melhor, alunas. dentre as quais podemos citar sua esposa Emma Jung, Toni Wolf, Esther Harding e Marie-Louise von Franz.

Acredito que o entendimento sobre o animus e sua dinâmica seria muito mais fácil se estudássemos a genial da obra de Clarice Lispector. Suas páginas estão repletas de contelaçôes do animus. desde sua forma mais primitiva(projetada) no rato ruivo morto que conduz a experiencia verdadeira de si mesma, na barata que conduz a uma reflexão ética, ao búfalo que com os olhos cheios de odio lhe ensina a força. outros como o homem gordo que chora enquanto come seu macarrão ou cego mascando chicletes produzem um incomodo a ponto levantar questionamentos acerca da vida.

um ponto comum entre anima e animus é a alteridade. eles sempre nos conduzem a experiencia do outro, seja pela busca da “mulher dos meus sonhos” ou na busca do “príncipe encantado”. que nos levará a uma experiencia com o ics como um outro dentro de mim mesmo. clarice demonstra como a experiencia desse “outro externo” se torna a experiência do “outro interno” promovendo um dialogo interior que redimensiona a vida.

É importante considerar, que ao contrário da anima que geralmente se manifesta como “uma mulher misteriosa” nos sonhos, o animus é plural, se manifesta numa variedade de imagens, ou mesmo como um  grupo (juri, conselho editorial), não numa forma fixa.

Jung dizia que, ao contrario da anima que o homem deve buscar, o animus a mulher deve resistir, para não ser dominado por ele. Isso, pois, em nossa cultura há uma valorização do masculino, o que favorece uma identificação com o animus. Assim, a mulher deveria resistir ao ímpeto do animus, mas, dialogar com animus, sem perder a sua identidade feminina.

——————————————————–

Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

www.psicologiaanalitica.com

mandala

Subjetivismo, Realidade Psíquica e Esoterismo

 

(31de março de 2010 )

Um dos problemas que incomodam fortemente a todos que são psicólogos sérios, estudiosos sérios de psicologia analítica, é  a constante relação que é feita entre Jung e o esoterismo.  Essa constante relação faz com que a psicologia analítica seja acusada de ser um culto, como fez Noll, ou de Jung ser aclamado como um “Guru” ou um “Mestre Iluminado”.  Essa visão fanática ou essa apropriação da psicologia analítica por religiosos indicam sobretudo que as pessoas leem pouco os textos de Jung, passando a ler apenas comentaristas ou os textos autobiográficos de Jung.

Para compreender essa associação entre a psicologia analítica e o esoterismo devemos observar algumas coisas:

1 – Modelo epistemológico adotado por Jung:

A Obra junguiana é marcada pelo Subjetivismo, que é uma perspectiva epistemológica onde a possibilidade do conhecimento é determinada pelo sujeito (pelo ser pensante).

Assim, nessa perspectiva, o conhecimento do exterior ou dos objetos é incerto, a única experiência verdadeira e realmente acessível ao sujeito é a experiência interior.  Essa perspectiva adotada por Jung contribuiu, segundo Nagy (2003, p.48), para seu isolamento tanto da comunidade cientifica quanto das comunidades filosóficas e teológicas. Uma forma de apreender o subjetivismo em Jung é o conceito de Realidade Psíquica, que é a realidade do sujeito, isto é, o modo particular e próprio de cada sujeito experimentar  o mundo (tanto interior quanto exterior). Assim, toda formação inconsciente é real e verdadeira para quem a experimenta. De forma geral, quando se assume  o ponto de vista da “realidade psíquica” o mundo dos objetos ou as verdades coletivas tem menor importância. No livro “Memórias, sonhos e reflexões”, Jung torna bem clara essa concepção quando afirma ”

Assim, pois, comecei agora aos oitenta e três anos, a contar o mito de minha vida. No entanto, posso fazer apenas constatações imediatas, contar histórias. Mas o problema não é saber se são verdadeiras ou não. O problema é este: é aminha aventura a minha verdade? (JUNG, 1975, p.19)

Como o próprio texto de Jung indica, o fundamental é sua experiência interior, sua percepção de sua vida.

A postura subjetivista é em larga escala incompatível com a atitude científica. Jung não tinha a menor dúvida disso, afinal, durante quase 10 anos, ele foi pesquisador no hospital Burgholzli, seus estudos acerca de associação de palavras lhe renderam reconhecimento acadêmico justamente por seguir um rigoroso protocolo científico.   Contudo, frente às formações do inconsciente e à prática da clínica era necessário uma postura que visasse compreender o que ocorria com o paciente a partir da própria perspectiva do paciente. Assim, a atitude subjetivista na prática clínica pode ser traduzida como um respeito profundo ao cliente, pois se assume, que somente o cliente tem a verdade acerca si mesmo, o terapeuta tem a função de auxilia-lo a encontrar a si mesmo, sua história e sua verdade.

A grande questão colocada em relação ao “esoterismo” é que ao defender que o fundamental é a experiência interior, Jung reconhece a validade das experiências religiosas como experiências psíquicas, não como algo sobrenatural. Pois, o subjetivismo acaba por negar ou desconsiderar não só a experiência objetiva, mas, a experiência transcental  ou divina que esteja para além do homem. Assim, este modelo junguiano aceita a experiência mística ou religiosa como uma experiência interna do sujeito, uma experiência psíquica, que nos revela aspectos da realidade psíquica daquele individuo.

2 –  Jung e suas experiências pessoais

Devemos considerar que Jung era oriundo de uma família religiosa, o pai, avô e sete de seus tios eram pastores. Alguns de seus parentes, como uma prima, se envolveram com o espiritismo. Assim, a sua vida foi rica de experiências e relatos da experiência religiosa e seus efeitos sobre os indivíduos. Como Jung era um tipo introvertido, essas experiências o marcaram profundamente. Como a religião foi nos primeiros 20 anos uma realidade cotidiana, não é de se estranhar que ela continuou a motivar ou incomodar Jung.

Em poucos meses, será lançado em português o “livro vermelho” de Jung, que compreende uma série de reflexões,  imagens, sonhos de Jung.  Muito já tem sido dito acerca de Jung a partir de um julgamento desta obra. O que me recorda de Richard Bach, no livro Fernão Capelo Gaivota, que diz que o preço de não ser compreendido é ser classificado de diabo ou de deus.

As experiências de Jung são a medida de Jung, fazendo parte do processo de individuação dele. Jung é claro na ênfase em colocar que “é a minha aventura a minha verdade?” como questão fundamental, ele não impunha sua percepção como paradigma.

3- Os Junguianos e realidade psíquica

Muitas das relações feitas da psicologia analítica se devem também a postura permissiva dos junguianos. Nagy faz um comentário interessante:

Entre junguianos ou nas sociedades profissionais e nas comunidades que cercam seus diversos institutos de formação, o argumento subjetivista teve, frequentemente, o efeito devastador de fazer calar o pensamento crítico e criar uma espécie de atmosfera confessional. (…) Grupos periféricos e seitas diversas podem se ligar aos centros junguianos, porque os junguianos aceitam experiências que não são cientificamente comprovadas.  Náo é fácil tomar uma posição em direção a uma formulação teórica que expressa tipos fronteiriços de experiência, porque numa estrutura subjetivista toda experiência real é valida. Alguns junguianos diriam que é melhor não tentar discriminar – é melhor errar pelo lado da aceitação de todos os pontos de vista. Em todo caso, acrescentam, náo podemos saber o que é a verdade real; podemos apenas conhecer o que experimentamos individualmente. (NAGY, 2003, p. 50).

Nesse contexto, podemos compreender como que a defesa da percepção da realidade psíquica, fez com que houvesse uma abertura para a entrada de pessoas esotéricas nos meios junguianos, associando seus conceitos com os conceitos psicológicos de Jung. Essa omissão somada ao estudos de símbolos, mitos e imagens arquetípicas contribuíram para se criar essa imagem deturpada de que a psicologia analítica ou os junguianos são esotéricos.

Referências

Nagy, M. Questões Filosóficas na Psicologia de C.G. Jung. Petrópolis: Vozes.2003

JUNG, Carl Gustav, Memórias Sonhos e Reflexões, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975.

 

——————————————————–

Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

www.psicologiaanalitica.com

mandala