Nise–O Coração da Loucura–um breve comentário

(Não há spoilers nesse post)

Por Fabrício Moraes e Kelly Tristão

No último dia 28 de abril de 2016, estreou em Vitória, no Cine Jardins, assistir ao filme Nise – O coração da Loucura, foi uma experiência fantástica. Por termos conhecimento da biografia da Nise da Silveira, a produção nos trouxe inúmeras expectativas, desejosos de ver cenas da vida da Nise. Entretanto, o filme foi além, não nos proporcionou uma biografia sobre Nise da Silveira, ele nos possibilitou uma compreensão do Olhar, da Força e do Amor de Nise – e através destes nos permite visualizar a capacidade transformadora do amor e das relações afetivas.

O filme mostra a realidade com a qual Nise da Silveira se deparou ao retornar o serviço – e que não é diferente da realidade que vivenciamos – onde o Poder travestido de ciência, conhecimento, controle, força, violência, machismo, maus tratos e abandono reduz pessoas a objetos. Frente a esse tipo tratamento desumano e às violências as quais os pacientes eram submetidos Nise se colocou como defensora da vida e da dignidade de cada um. Demonstrando que amor, respeito, dignidade e o cuidado são capazes de propiciar um espaço potencial que pode transformar todos que estão envolvidos sejam eles os clientes ou a equipe.

No filme são registrados, em linhas gerais os aspectos fundamentais da Obra de Nise da Silveira, mas, sem estabelecer “conclusões” o filme é um convite para conhecer mais de sua vida, obra e desenvolvimentos – como o Museu Imagens do Inconsciente e a casa das palmeiras. Não é possível ver o filme sem sentir um orgulho da Nise da Silveira, do que ela representa na Saúde mental e para psicologia junguiana.

Não podemos deixar de comentar a interpretação de Glória Pires, que deu vida a Nise da Silveira de forma digna, íntegra e sobretudo humana. O filme “Nise- O coração da Loucura” é um filme para se ver e rever, se inspirar e pensar em nosso próprio papel na transformação da sociedade em que vivemos.

 

Em vitória no Cine Jardins.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana. Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 99316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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#euqueronise– Vamos trazer o filme “Nise–O coração da Loucura” para o ES?

Hoje, 21 de abril de 2016, foi um dia muito esperado pela estreia nacional do filme “Nise – O coração da Loucura” ou deveria ser, pois, para surpresa de muitos, assim como a minha, não houve a exibição em nenhum cinema do Espiríto Santo. Foi uma grande frustração, que acredito foi compartilhada com colegas de outros estados.

A equipe de divulgação/distribuição do filme compartilhou nesta manhã no facebook uma lista dos cinemas onde o filme está sendo exibido:

lista

 

Vendo essa listagem comentei na fan page do filme:

image

 

Acredito que seja importante que todos que tem interesse de ver o filme no cinema mobilizar a todos para pedir na página dos cinemas “Eu quero ver “Nise – O Coração da Loucura” #euqueronise”.

Na grande vitória seguem as páginas do facebook dos cinemas locais:

https://www.facebook.com/cinejardins

https://www.facebook.com/Cinemark-Vitória-1434834820083408/

https://www.facebook.com/pages/Cinemark-Shopping-Vila-Velha/904960042890028

https://www.facebook.com/pages/Shopping-Mestre-Alvaro-Cine-Araujo/704525316285107

https://www.facebook.com/pages/Cinemagic-Shopping-Norte-Sul/591959637495797

https://www.facebook.com/pages/Cine-System-Shopping-Boulevard-Vila-V/1411338555800827

https://www.facebook.com/pages/Cinema-Kinoplex-Praia-da-Costa/139752962761635

https://www.facebook.com/pages/Cinépolis-Shopping-Moxuara/311379492368239

https://www.facebook.com/cinemetropolisufes/

Vamos compartilhar e nos esforçar para trazer este filme para nosso estado!

abraços,

Fabrício Moraes e Kelly Tristão

Breve comentário sobre o filme “Um Método Perigoso” de Cronenberg

(29 de abril de 2012)

Finalmente,  eu assisti ao filme mais comentado nas comunidades junguianas nos últimos tempos “Um Método Perigoso” de David Cronenberg. Gostaria de fazer um comentário geral, sem me apegar a detalhes da narrativa.(fazendo assim, spoilers)

O filme tem o mérito inegável de uma excelente fotografia, com paisagens lindas, uma caracterização impecável dos personagens, especialmente dos secundários, como Bleuler, Gross,  Ferenczi. Foi feito um trabalho realmente fabuloso. Mas, especificamente do triangulo sobre o qual a história se desenvolve acho que devo comentar individualmente.

Sobre Freud, de Viggo Mortensen, ficou bem caracterizado, um trabalho excelente de Mortensen, contudo, na minha opinião, Freud pareceu apenas “alguns anos” mais velho que Jung – quando na verdade a diferença era de 20 anos, sei que pode parecer um “excesso” de detalhismo, mas, a diferença de idade foi fundamental para o estabelecimento da relação de respeito e “autoridade” com Jung.

Acerca de Sabina Spielrein… confesso que fiquei profundamente incomodado. A Keira Knightl2ey fez uma interpretação que me pareceu tão caricata, com caras e bocas, ao longo de todo o filme. Se considerarmos que o filme aponta acontecimentos de um período de quase 10 anos. Sabina foi internada em 1904, obteve alta cerca de 1905. Cursou medicina, período no qual teve o envolvimento com Jung, mesmo no final desse período, cerca de 5 anos após sua internação, a Sabina Spielrein de Knightley continua se estivesse acabado de sair da internação. Mas, porque isso me incomodou? Justamente, porque Sabina se tornou uma mulher importante no meio psicanalítico, como o próprio filme indica, e, por outro lado,

Spielrein se apresentara a Freud em 11 de outubro de 1911, e tinha começado a freqüentar seus seminários depois de ter se transferido para Berlim. E, em 25 de novembro de 1911, na presença de 18 membros, entre os quais Freud, Federn, Rank, Sachs, Stekel e Tausk, explica numa conferência as suas idéias sobre o instinto de morte. (…) Um dia depois, Freud comunicava a Jung as suas impressões: “Sabina Spielrein  leu  ontem um capitulo do seu trabalho, (…) ao que se seguiu uma discussão instrutiva. Vieram-me à mente algumas formulações contra seu (…) modo de trabalhar com a mitologia, que também expus a jovem Spielrein. do resto, ela é verdadeiramente talentosa, eu começo a entender…(CAROTENUTO, 1984, p. 35-6)

Seria difícil uma mulher conseguir o respeito da sociedade psicanalítica de Viena fazendo caras e bocas. Enfim, fiquei decepcionado com atuação da Keira Knightley, pois, mais, que “amante doente” de Jung, Sabina Spielrein foi uma mulher que sofreu, superou e influenciou de uma forma direta ou indireta dois dos maiores gênios do século XX. Acredito que o filme “Jornada da Alma” (2003) fez mais justiça a Sabina Spielrein que este.

O Carl Gustav Jung de Michael Fassbender ficou bem caracterizado, mas, vale lembrar que Jung possuia um porte um tanto quanto “avantajado”, entre os amigos tinha o apelido de “barril”, e a diferença de altura entre Jung e Freud era tamanha que na foto do Congresso de Psicanálise de 1911, Freud pediu um banco para subir para não ficar abaixo de Jung. Mas, certamente, esse primeiro aspecto não influi em nada, é apenas uma curiosidade. O segundo, por outro lado, chamou muita atenção: o Jung de Fassbender me pareceu profundamente inseguro. Não podemos perder de vista que antes de conhecer Freud, Jung já era assistente do Dr. Bleuler, privatdozent da Faculdade de Medicina de Zurique (1905-1913), palestrante oficial do Hospital Burgholzli.  Jung era altivo e orgulhoso, seria estranho Freud confiar o “futuro” do movimento psicanalítico a um homem confuso e inseguro como o Jung de Fassbander.

Faço esses comentários não para desmerecer o filme, mas, para lembrar que um filme, por mais bem intencionado, não faria justiça aos personagens históricos que o inspiraram. E, assim, devemos buscar estudar e conhecer mais esses personagens de modo a “completar” em nós mesmos a lacuna deixada pelo filme, que é apenas um vislumbre desses nomes.

Apesar desses comentários, os fatos históricos foram retratados de forma bem fiel, como as 13 horas do primeiro encontro, a viagem aos EUA, a crise de síncope, alguns diálogos relatados no Memórias, Sonhos e Reflexões, a troca de cartas (pois, boa parte da relação deles foi epistolar e não presencial),  buscando fazer um retrato o mais fiel possível da relação de Freud e Jung.

Assim, por conhecer a história, o filme não me impressionou, certamente foi incomparavelmente melhor ao antecessor “Jornada da Alma” (The Soul Keeper) de 2003. Mas, acredito que para quem nunca estudou a história do movimento psicanalítico, o filme apresenta um belo retrato daquele momento, instigando espectador buscar maiores informações acerca dos primórdios das abordagens do inconsciente.

Vale a pena ser visto, como um primeiro passo nessa jornada de estudo.

Referências Bibliográficas

CAROTENUTO, Aldo (org.). Diário de Uma Secreta Simetria. RJ: Paz e Terra,. 1984.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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O Canto do Cisne: um breve comentário a comentários acerca do filme “Cisne Negro”

25 de março de 2011

Agradeço a colaboração de Kelly Guimarães Tristão (psicóloga, Mestranda em Psicologia/UFES, Especialista em “Teoria e Prática Junguiana” e em “Psicologia Clínica e da Família) que com seu conhecimento e experiência no campo da saúde mental contribuiu bastante para a elaboração das idéias deste post.

Após muitos contratempos, finalmente, consegui assistir ao filme “Cisne Negro”. Realmente, a atuação de Natalie Portman é brilhante. Sobre o filme, eu posso dizer apenas que é um filme mediano e, se não fosse a maravilhosa atuação de Natalie Portman, seria fadado ao esquecimento. Antes mesmo de ver o filme, eu cheguei a ler vários comentários acerca do filme abordando o mesmo pelos mais diferentes ângulos, muitos eram pautados na teoria junguiana. Confesso que alguns comentários me causaram profunda estranheza, pois focalizavam aspectos simbólicos que, de certa forma, distorcia o que era expresso no filme, chegando a comparar o processo psicótico apresentado no filme com o processo de individuação. Assim, o objetivo desse post é uma reflexão indireta e teórica do filme a partir de outros comentários.

Algumas pessoas podem objetar dizendo que um filme é um conteúdo simbólico, que pode ser abordado por diferentes ângulos e pontos de vista, tal qual um sonho. Por mais que eu concorde que não devamos ser radicais, eu prefiro a cautela, e me manter ao que é apresentado pelo filme, e não ao que “poderia ser” se observarmos os símbolos isoladamente, pois é como Jung afirma acerca dos sonhos,

“a imagem manifesta do sonho é o próprio sonho e contém o sonho por inteiro. Quando encontro açúcar na urina, é açúcar mesmo, e não uma “fachada” , um disfarce para albumina.(…) Sendo assim, não temos de interpretar o que poderia existir por trás, apenas temos que aprender a lê-lo primeiro. (JUNG, 1999, p. 20)

Assim vou me deter em apenas dois pontos: a questão psicose de Nina e a função da dança.

A Psicose de Nina

O filme retrata o processo de abertura do surto psicótico de Nina, quando esta é confrontada com uma realidade que excede seus limites, que é ser a protagonista do “Lago dos Cisnes”, interpretando tanto o Cisne Branco quanto o Cisne Negro. Contudo, devemos notar alguns detalhes, prévios que somados ao delírio e as alucinações nos permitem pensar que Nina, seria uma personagem psicótica.

– Relação familiar: A relação de Nina e sua mãe  apresenta características típicas e favoráveis à psicose, uma relação simbiótica e extremamente rígida e ambivalente. Nos primeiros minutos do filme percebemos como a mãe de Nina, “domina” a vida da filha, inclusive  “vestindo” a filha como se fosse uma criança. Ao longo do filme, podemos ver como ela pode ser simultaneamente “cuidadosa” e cruel (com suas exigências e cobranças ).

– Antes da crise se manifestar explicitamente, o filme mostra que Nina era uma jovem de 28 anos que vive num mundo infantilizado (como podemos observar no seu quarto), por outro lado, podemos notar que não há uma clareza a respeito  da identidade sexual, não me pareceu que  Nina possua dúvidas acerca de sua sexualidade, mas, que não foi desenvolvido.

A crise se manifesta justamente quando ela está sob forte pressão, da mãe, do diretor, dela mesma.  Que é consoante ao que geralmente acontece em casos de esquizofrenia , onde o surto se manifesta num momento de forte tensão emocional, como rompimento de relacionamento, vestibular, casamento, nascimento de filho.

O processo de Nina é condizente com um quadro de esquizofrenia paranóide, com sintomas positivos de alucinação visual e cenestésica.

Mas, por que pensar no quadro psicopatológico de Nina? Justamente, porque não podemos falar de conceitos de psicologia analítica sem considerar “a quem” estamos relacionando esse conceito. Especialmente quando falamos de processo de individuação.

Particularmente, eu acho que há um pouco de confusão no diz respeito do processo de individuação e a psicose. Em primeiro lugar, eu compreendo que o processo de individuação comporta dois níveis de compreensão:

a) o primeiro é o basal e compreende a dinâmica do Self, que visa a integração e auto-regulação psíquica. Este aspecto corresponde a manutenção da vida psíquica. E ocorre independente dos processos da consciência, podendo ser observado claramente através na busca da integração e organização mesmo em pacientes psicóticos.

b)  O segundo é um processo que envolve diretamente o desenvolvimento da personalidade, que podemos compreender como alinhamento do eixo ego-Self.  Nesse âmbito, falamos que envolve o confronto com o inconsciente e o desenvolvimento do potencial individuo.

Fazendo essa diferenciação, podemos dizer que, no geral, quando nos referimos ao processo de individuação, especialmente na vida adulta, estamos falando do processo de desenvolvimento da personalidade, onde, o Ego é confrontado tanto com a realidade interior quanto exterior. O desenvolvimento se dá, justamente quando o Ego tem força suficiente para suportar a tensão entre os opostos (mundo interior x mundo exterior; inconsciente x consciência ) de modo a atingir um equilíbrio dinâmico entre essas instâncias. No caso do individuo psicótico, a fragilidade do Ego impede esse desenvolvimento ocorra, justamente, por não ser capaz de suportar essa tensão, que geralmente ocasiona a invasão de conteúdos do inconsciente e/ou a ruptura com a realidade exterior.

Von Franz no diz, no livro Psicoterapia, “[…] o ego é como o olho do Si-mesmo,somente ele é capaz de ver e vivenciar como o Si-mesmo nasceu” (FRANZ, 1999, p.232).

Assim, no processo de individuação o Ego é elemento fundamental.

No filme, podemos perceber os elementos que geralmente discutimos acerca da individuação, como a persona, sombra, animus. Obviamente eles estão presentes porque a Nina é humana. Contudo,devemos observar sua função. Por exemplo, podemos falar que o Cisne Branco, como uma persona de Nina, sim, poderia ser uma representação da persona, contudo, devemos notar que a persona possui o papel de intermediar as relações do individuo com o meio exterior, de modo que, simultaneamente, auxilia o Ego na adequação as demandas sociais e protege o Ego dessas exigências do meio, pois, as exigências não são feitas ao Ego, mas, ao papel que este representa. No caso da Nina, a persona não era  inadaptada, pois há uma identificação com o papel/função de bailarina, quanto essas exigências afetam diretamente o Ego, que fica profundamente abalado com “necessidade” ser a bailarina perfeita.

Outro aspecto, é a sombra. A sombra também comporta diferentes níveis de compreensão, podendo ser a “sombra do Ego”, isto é, vislumbrando os aspectos não desenvolvidos relacionados a identidade do Ego, pode ser a “sombra enquanto personificação do inconsciente”, e, comporta uma compreensão arquetípica, como personificação do Mal.

No caso da Nina, não consigo compreender uma sombra pessoal, derivada dos aspectos não desenvolvidos do Ego, visto que a identidade dela é comprometida pela relação simbiótica com a mãe. Devemos notar, também, que quando a personagem Lily se torna a “rival”, não há uma projeção da sombra, pelo contrário, há uma introjeção da imagem Lily, que passa ser ativa no delírio e nas alucinações de Nina, não como uma projeção mas, como uma personificação da sombra, pois Lily, somente é uma ameaça no delírio de Nina.

É importante termos em mente que o processo da função transcendente, isto é, da integração da consciência e do inconsciente por meio dos símbolos, depende do Ego como referência na consciência, para elaborar e assimilar os símbolos que emergiram do inconsciente.

A função da Dança

Alguém poderia perguntar “Porque ela não surtou antes”. Uma possível resposta é porque a dança contribuia para o manter estável a delicada relação de Nina com seu inconsciente e com o mundo exterior.

A dança fornecia a Nina uma relação concreta com corpo, que permitia uma sensação de continência e limite necessários para manter sua organização e aderência a realidade. Por outro lado, a dança possibilitava que os desejos da mãe fossem satisfeitos de forma a não se tornarem mais um peso sobre Nina.

Podemos compreender que a dança era um símbolo para Nina, que permitia a relação entre o inconsciente e a consciência, de modo a dissipar o excesso de energia que pudesse potencializar os conteúdos inconscientes. Isso quer dizer, que Nina podia dar forma e expressar a tensão interior através da dança.

De forma geral, todas as expressões artísticas tem a capacidade de viabilizar/intermediar a relação entre consciência e o inconsciente, de modo a propiciar um mínimo de organização.  O trabalho de Dra. Nise da Silveira é o melhor exemplo de como a arte pode ser estruturante e organizadora para pacientes psiquiátricos.

Concluindo…

A psicologia analítica compreende o homem como um ser em contínuo desenvolvimento. A dinâmica da psique visa sempre a manutenção da vida. Contudo, devemos ter clareza e cuidado para não nos deixarmos levar pelo “otimismo junguiano” e, aplicar os conceitos junguianos sem se adequar a realidade a qual se aplica.

No caso da psicose, como é apresentada no filme, é necessário ter um cuidado a mais, pois, o paciente psicótico não experimenta o inconsciente como uma realidade simbólica, mas, como uma realidade objetiva. Isso significa, que devemos ter atenção, cuidado e respeito com o paciente em sua própria realidade. Para muitos, o final do filme foi uma incógnita se “Nina morre ou não”. Para mim, Nina morre – não como uma morte simbólica – mas, uma morte real. Não há uma “transformação” do Ego.

Devemos ter em mente que o paciente psicótico por vivenciar a realidade interior de forma objetiva, não fazendo uma distinção da realidade exterior, não percebe as situações como metáforas, mas, como realidade concreta. Dessa forma, a transformação de Nina no cisne negro, denuncia isso, ela era o cisne negro, do mesmo modo que ela era o cisne branco.  A perfeição que ela almejava no cisne negro, se constituiu no delírio onde era se tornou o cisne. No caso do cisne branco, que morre no final, para ser perfeito, o mesmo deveria ocorrer.

A psicose muitas vezes se constitui como uma defesa de uma realidade exterior que é hostil, inviabilizando uma relação saudável para o ego, o que leva a uma interação (algumas vezes uma fusão) com o mundo interior. No caso de Nina, a identificação com o cisne, pode nos indicar um movimento em busca de liberdade. Não podemos esquecer que Odete, o cisne branco, também era um ser aprisionado. E, a morte era também uma libertação. Aqui se impõe uma diferenciação necessária:

A identificação de uma pessoa sadia ou mesmo neurótica se dá nos termos : eu sou como Odete

No caso do paciente psicótico a identificação se dá como : Eu sou Odete.

Por isso, por mais que possamos até compreender o delírio e alucinações como necessidade de liberdade e  respeito – especialmente no que diz respeito a relação materna, lembrando que a mãe é agredida no surto, como uma imposição forçada de espaço. Essa leitura simbólica tem sua validade quando feita respeitando a realidade do paciente psicótico, justamente para auxiliar no tratamento, oferecendo ao paciente as condições necessárias para lidar com sua realidade, e oferecer a família as orientações para garantir uma qualidade de vida ao paciente.

Referências bibliográficas

FRANZ, Marie-Louise von, Psicoterapia, São Paulo: Ed. Paulus , 1999.

JUNG, C.G., Ab-reação, análise de sonhos, transferência, Vozes: Petrópolis, 4 ed. 1999

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

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“Mulan e Processo de Individuação feminino : comentários ao filme

 

(21 de junho de 2010)

ATENÇÃO : ESTE POST CONTÉM SPOILERS. CASO VOCÊ NÃO TENHA VISTO O FILME SUGERIMOS QUE ASSISTA O FILME ANTES, POIS SERÁ COMENTADO DETALHES DO FILME, ASSIM COMO SEU FINAL.

Em 1998, a Disney Pictures lançou a animação “Mulan” que foi indicada ao Oscar de melhor animação. Este filme é inspirado num poema chinês do séc. V chamado “Balada de Mulan”. O filme é muito delicado e impressionante, sua narrativa nos permite pensar o processo de individuação feminino.

Antes de comentarmos, convém fazermos uma pequeno apanhado da história de Mulan.

“A Balada de Mulan”

Um suspiro e outro suspiro,
Mulan tece de fronte à porta.
Não se ouve o som da lançadeira,
Não se ouvem os suspiros da filha.
Perguntam o que está no seu coração,
Perguntam o que está no seu pensamento,
“Não há nada em meu coração,
Não há nada em minha mente.
Noite passada eu vi os anúncios para o recrutamento,
O Khan está convocando muitas tropas,
A lista do exército está escrita em doze rolos,
Em todos eles aparece o nome do meu pai.

Meu pai não tem nenhum filho crescido,
Mulan não tem nenhum irmão mais velho.
(Então) eu irei comprar uma sela e um cavalo,
E servirei o exército no lugar de meu pai.”
No mercado leste ela comprou um cavalo de porte,
No mercado oeste ela comprou uma boa sela,
No mercado sul ela comprou um bom freio,
No mercado norte ela comprou um longo chicote.

Ao amanhecer ela deixou seu pai e sua mãe,
Ao anoitecer ela chegou ao acampamento nos bancos do rio Amarelo.
Ela já não ouve mais o chamado de seu pai e sua mãe,
Ela ouve apenas o rumor da corrente do rio Amarelo.
Ao amanhecer ela deixa o rio Amarelo,
Ao anoitecer ela chega à montanha Hei.
Ela já não ouve o chamado de seu pai e sua mãe,
Ela ouve apenas o relinchar dos cavalos nômades do monte Yen.

Ela avançou dez mil milhas por causa da guerra,
Ela passou voando por desfiladeiros e montanhas
As rajadas do vento norte traziam o rufar do metal,
As luzes frias brilhavam nas armaduras de ferro.
Generais pereceram numa centena de batalhas,
Soldados enrijecidos retornaram após dez anos.

Ao retornar ela vê o imperador,
Ele estava sentado numa sala suntuosa.
O imperador concedeu promoções em doze categorias,
E premiou centenas de milhares.
O Khan perguntou o que ela desejava.
“Mulan não tem interesse em postos oficiais.
Eu desejo apenas uma montaria veloz
Que me leve de volta ao lar.”

Quando o pai e a mãe ouvem que a filha está voltando
Dirigem-se para fora dos muros da casa, apoiando-se um no outro.
Quando a irmã mais velha ouve que a irmã mais nova está voltando
arruma a maquiagem e coloca-se defronte à porta.
Quando o irmão mais novo ouve que a irmã mais nova está voltando
afia sua faca e prepara o leitão e o cordeiro.

“Eu abro a porta do quarto leste,
E sento-me na minha cama na sala oeste,
Eu tiro minha armadura de guerra
E visto meus trajes de antigamente.”
Defronte ao espelho ela penteia seus cabelos de nuvem,
Segurando o espelho, ela enfeita-se com flores
Ela abre a porta e se apresenta diante dos seus companheiros
Eles ficam todos surpresos e perplexos.
Pois viajaram juntos por doze anos
E não sabiam que Mulan era uma menina

“As patas do coelho pulam mais,
Os olhos da coelha são mais estreitos,
Mas dois coelhos correndo lado a lado junto ao chão, não se pode distinguir
E assim quem poderia dizer se eu era um rapaz ou uma garota?”

Fonte: http://www.disney2d.xpg.com.br/

Um Berve Resumo:

Este resumo é para ajudar a quem viu o filme a relembrar de algumas cenas importantes, caso você não tenha visto o filme, sugerimos que você assista o filme antes, pois falaremos de detalhes do filmes e o final.

O  filme começa com a noticia de que os hunos haviam cruzado a grande Muralha da China. Frente a essa ameaça o imperador ordena o recrutamento.

Ignorando a ameaça que se aproxima, Mulan se prepara para encontrar a casamenteira para fazer um bom casamento e honrar sua família. 

O Encontro com a Casamenteira não corre muito bem.
A casamenteira dá sua sentença final a Mulan: “Você é uma desgraça! Pode até parecer com uma noiva, mas, nunca trará a sua família honra!!!”

Após o desastroso encontro com a casamenteira, Mulan, vai ao templo dos antepassados e canta

“Olhe bem, a perfeita esposa jamais vou ser
Ou perfeita filha
Eu talvez tenha que me transformar
Vejo que sendo só eu mesma nao vou poder
Ver a paz reinar no meu lar…
Quem é que esta aqui?
Junto a mim, em meu ser?
É a minha imagem, eu não sei dizer
Como vou desvendar quem sou eu
Vou tentar
Quando a imagem de quem sou
Vai se revelar
Quando a imagem de quem sou
Vai se revelar”

Chega a notícia do recrutamento a vila de Mulan, e que um homem de cada família deveria representá-la. Mulan  não tem irmãos, seus pai, velho e doente(com problema na perna),aceita a convocação se coloca a serviço do imperador. 

Mulan inconformada pela convocação do pai e após, discutir com ele, ela mesma toma uma decisão: iria no lugar do pai. Mulan rouba a convocação, a espada e armadura  do pai, corta os cabelos para parecer com um homem e foge para servir o imperador no lugar do pai. O problema é maior, caso descubram que Mulan, uma mulher,  foi para o exército imperial teria como pena a morte. Temendo que o pior aconteça, os familiares de Mulan, rezam para que os ancestrais a protejam.

Os ancestrais despertam e discutem com ajudar a salvar a família Fa (o clã de Mulan) da desonra que acabaria com a família.
O Grande Ancestral decide chamar o principal guardião da família, o grande dragão de pedra, para desperta-lo foi designado Mushu, um antigo protetor que foi rebaixado, sendo apenas um serviçal. Mushu ao tentar despertar o grande dragão de pedra, o despedaça. Acaba tendo a idéia dele mesmo ir ajudar Mulan, para poder ser aceito de volta.

Mulan cria a identidade de Ping, para se alistar no exército. Onde ja chega criando confusões por apesar se parecer com um homem, ela não conhece as peculiaridades do universo masculino. 
Como Ping tem muitos problemas nos treinamentos e com o Capitão Li Shang. Que ao ver as tentativas, resolve manda-la embora. Ping (Mulan) vê que a única forma de honrar sua família é vencer o desafio proposto por Li Shang, e que nenhum dos recrutas conseguiu vencer, para permanecer no exército.
A partir dessa conquista, Ping se torna um dos soldados mais disciplinados, se integrando aos colegas, que nem imaginam que é uma mulher.

Após uma armação do Mushu, o capitão Li Shan segue com os recrutas para se integrar as forças comandadas por seu pai, o General Li. Ao chegar lá, eles descobrem que o exército foi arrasados pelos hunos de Shan Yu.
Liderados por Li Shan, o exército segue em direção a cidade imperial. No meio do caminho são atacados por Shan Yu. Ping (Mulan) consegue provocar uma avalanche que soterra os hunos, o que faz com que vencessem a batalha.
Ping(Mulan) salva o Li Shang , mas, é ferido. Quando acorda, a farsa é descoberta Mulan é expulsa do exército. Por ter salvado a vida de Li Shan na montanha, este o poupa sua vida.

Mulan e Mushu conversam se lamentando sobre os acontecimentos, pela primeira vez são sinceros consigo mesmos e com os outros. E quanto seus objetivos eram egoísticos, Mushu queria agradar os ancestrais para ter honra, e ser reverenciado – independente do que poderia acontecer com Mulan. Ela confessa, que no final, seu objetivo não era bem seu pai ela diz “ Talvez meu pai não tenha sido o motivo, talvez eu só quisesse provar que posso fazer coisas certas, para poder olhar no espelho e ver alguém que valesse a pena. Esse foi meu mal” Mulan e Mushu resolvem voltar juntos para casa e, sem mentiras, enfrentar as consequências por seus atos.
Quando se preparavam para ir embora, descobrem que os Hunos não morreram. Eles decidem ir a cidade imperial, avisar a Li Shang, que estava sendo homenageado pela vitória sobre os hunos . Mulan avisa a Li Shang e a seus antigos companheiros que os hunos já estão na cidade imperial.

Na cidade ninguém dá ouvidos a Mulan, por ser mulher. Os Hunos sequestram o imperador e o levam para dentro do palácio.
Mulan oferece ajuda e idéia aos ex-companheiros, que imediatamente a seguem – Li Shang vai a contra gosto.
Mulan sugere que os soldados se vistam de mulher, para poder se aproximar o suficiente dos hunos, sem que seja dado o alarme. Assim, como vestidos como mulheres eles derrotam os hunos abrindo caminho para Li Shang salvar o imperador.
Mulan se revela a Shan Yu (que a reconheceu da batalha da montanha), com a ajuda de Mushu, Mulan derrota, enfim, Shan Yu.

O imperador enumera todos erros de Mulan, mas, reconhece que apesar de tudo ela salvou sua vida e  toda a China, e seguindo o exemplo do Imperador, todos se curvam reverenciando Mulan e seus feitos.
O imperador lhe oferece de presente seu medalhão (selo imperial) para sua familia e todos soubessem o que fez por ele. E lhe oferece a espada de Shan Yu, para todos soubessem o que ela fez pela China. O imperador oferece o posto de conselheira para ela, mas, ela prefere voltar para casa.
Mulan retorna para casa.

Mulan se reencontra com o Pai, fazendo as pazes. Pouco depois, chega Li Shang que foi atrás dela.
Do templo, os ancestrais observam, e reconhecem a ajuda de Mushu e permitem que ele se torne guardião novamente.

Mulan e Processo de Individuação feminino

A psicologia analítica compreende que os mitos(religiões), histórias(literatura), contos de fadas e filmes(mais próximos de nossa realidade), podem ser compreendidos (em alguns casos) como metáforas de nossa dinâmica psíquica, isso explicaria porque ficamos tão impressionados, fascinados por alguns filmes ou porque nos identificamos (coletivamente) com alguns personagens ou situações.

Em nosso caso, o filme “Mulan” nos oferece uma narrativa interessante para pensarmos a dinâmica do processo de individuação sob a ótica feminina. Devemos compreender que o processo de individuação para Jung

significa tornar-se um ser único, na medida em que por “individualidade” entendermos nossa singularidade mais íntima, última e incomparável, significando também que nos tornamos o nosso próprio si-mesmo. Podemos pois traduzir “individuação” como “tornar-se si-mesmo” (Verselbstung) (JUNG, 2008, 60)

Assim, a busca por si mesmo ou a busca para se descobrir quem si é, é o que mais caracteriza as narrativas (metáforas) do processo de individuação.

A história de Mulan começa quando ela se depara um momento crucial da vida, no limiar que marca uma mudança de etapa da vida, que é casamento(ou melhor, a preparação do casamento), onde ela fracassa. Em nossa realidade, esse mudança poderia ser um término relacionamento, uma reprovação no vestibular ou concurso, a perda de uma familiar próximo ou momentos em que sua importância marcam um “antes e depois” em nossa vida.

Frente ao fracasso do encontro com a casamenteira e a sentença dela “Você é uma desgraça! Pode até parecer com uma noiva, mas, nunca trará a sua família honra!!!”, Mulan se depara com outro conflito que a convocação do pai doente para a guerra, ao qual Mulan reage impulsiva, abraçando o problema do pai, como se fosse o problema de sua vida. É importante notarmos, que Mulan vai para guerra, ela foge para a guerra. na calada da noite, ela foge casa, foge de seu fracasso. Que não é simplesmente uma fracasso pessoal, é um fracasso frente a sua família e cultura. Numa cultura onde a perfeição é um alvo, Mulan reconhece sua limitação quando canta “a perfeita esposa jamais vou ser Ou perfeita filha”. Quando surge  a guerra, surge a possibilidade de fugir também de todos seus problemas. E, muitas vezes, é o que acontece em nossas vidas, frente a uma grande crise fugimos para outros problemas… ou nos enfiamos no trabalho, ou vivemos para os filhos, ou paramos nossa vida para simplesmente nos lamentar por não conseguirmos ir adiante.

Ao fugir para guerra, Mulan foge de si mesma, se torna Ping. Ela se camufla, se passa pelo que ela não é, tendo uma convivência inadequada com os outros. Mas, os conflitos de Mulan não estavam apenas num plano social, cultural ou consciente, mas, no plano “espiritual” e inconsciente – que no filme é bem representado por Mushu.

Mushu é uma expressão do animus, isto é, do arquétipo que personifica o inconsciente, favorecendo o desenvolvimento do Self, por complementar a atitude da consciência. Mushu é um dragãozinho que era um guardião, mas que foi rebaixado por algum motivo do não revelado. Devemos notar, que sua postura é de manipulação, ou seja, de enganar Mulan para atingir seus objetivos (que era reaver seu posto e ter o reconhecimento dos ancestrais). Mushu é uma manifestação primitiva do animus, pouco diferenciado – isso, pode ser percebido, por sua forma animal (teriomórfica), seu tamanho e atitude. Ele é a expressão da relação de Mulan consigo mesma (e com sua cultura circundante).   Nós podemos observar que a relação de Mulan com seu pai, a quem tenta proteger, indo para guerra. A identificação com o pai, faz com que ela seja uma “filha do pai”, que não desenvolve sua sensualidade nem sua identidade feminina. (Podemos até lembrar, que na Mitologia Grega, Atena foi uma deusa nascida apenas do Pai (Zeus), que jurou ser virgem, e se tronou uma deusa da guerra).  A confissão de Mulan – de que não seria nem esposa nem filha perfeita – expressam justamente essa dificuldade de relação com o masculino, no caso com o Animus. Mushu, quando aparece a Mulan, passa a guia-a dando idéias e conduzindo-a em situações difíceis.

É interessante lembrar que uma das diferenças entre a Anima e o Animus, é justamente que o homem deve conquistar a Anima, ao passo que a Mulher deve resistir as investidas do Animus. A esse respeito, Esther Harding(proeminente analista junguiana da primeira geração) relata uma de suas conversas com Jung.

Disse que um homem adotar uma atitude feminina, enquanto uma mulher deve combater seu animus, uma atitude feminina. (…) O Dr. Jung passou então a falar da força da feminilidade, como é maior do que qualquer [imitação da] adaptação masculina, e como uma mulher que é mulher da cabeça aos pés pode permitir-se a ser masculina, tal como um homem que está seguro de sua masculinidade pode permitir-se a ser terno e paciente como uma mulher (…)`(Maguire et Hull, 1982, 42-3)

A adaptação ou imitação da masculina de Mulan surtiu efeitos, ela conseguiu se colocar lado a lado com os homens, mas, ela perdeu algo mais importante, que foi a possibilidade de estar com Li Shang. A questão maior está em perder a possibilidade de viver uma relação verdadeira. Até que suas ações a revelam. Isso acontece em nossa realidade quando explode a neurose, quando uma vida “feliz” e “adaptada” de repente, vira um deserto de depressão ou um caos de medo e ansiedade, a neurose é uma revelação, mesmo que não tenhamos clareza dela.

O ponto de mudança está no enfrentamento, na verdade consigo mesmo, como podemos perceber quando Mulan e Mushu reconhecem um ao outro suas verdadeiras intenções. E voltam, ao ponto onde a aventura começou: a ameaça dos hunos.  A partir desse ponto, Mushu não mais domina Mulan, mas, eles trabalham juntos. Apesar das dificuldades de ser mulher, e ninguém ouvidos a ela. Ele insiste, e quando os hunos sequestram o imperador, sua firmeza faz com que seus companheiros de armas, a sigam e adotem um plano inusitado, que era vestir-se de mulher para enganar os hunos. É interessante observar, que seu plano foi justamente o inverso que ela havia adotado. ao se encontrar com sua feminilidade, Mulan pode também mostrar que não há mal algum nisso.

E, assim, se revelando em sua realidade de mulher, e com a ajuda Mushu, Mulan pode por fim a Shan Yu – a personificação de seu animus sombrio. Após, sua aventura, ser honrada pelo imperador, reconhecida por todos, ela reconhece a si-mesma, como sendo a filha de Fa Zhou. A quem retorna, não mais intempestiva, mas, serena. Sua relação com seu pai, muda, na medida que Li Shang, vai a seu encontro, e abre a possibilidade dela fazer um bom casamento.

É importante pensar, que o casamento é símbolo da união. Neste caso, da união do inconsciente e da consciência, do processo de transformação de um animus  primitivo(Mushu) para um animus superior, adequado, que é o próprio Li Shang. – que desde o inicio da trajetória como Ping.

O filme nos ajuda a perceber que o processo de individuação é um processo, primeiramente, de sinceridade consigo mesmo. É um olhar para trás, para saber de onde vim, minhas motivações, mas, é também um voltar-se para o futuro, “o que devo fazer“ Esses enfrentamentos delimitam o quem somos, nossos limites e saber o sentido de nossos atos. Jung frisava que individuação não  significava “perfeição” mas, “totalidade”. Ou seja, ter uma vida plena, mas, para isso devemos conhecer (ou reconhecer) quem somos – mesmo naqueles aspectos sombrios que não queremos ser – refletindo também sobre qual o caminho que estamos tomando e se esse caminho não está nos levando para longe de nós mesmos.

No filme, para Mulan chegar a si mesma, ela teve de enfrentar seu complexo paterno, redimensionar sua persona (o que ela queria que os outros vissem), enfrentar a sombra (as consequências de seus atos e escolhas) para enfim desenvolver o potencial de ser quem ela sempre foi, mas, que ela nunca se permitiu ver.

Referencias,

Jung,  O Eu e o Inconsciente, Vozes: Petrópolis, 21 ed. 2008.

HULL, RFC, MAGUIRE, W. C.G.Jung: Entrevistas e Encontros, São Paulo : Cultrix, 1982

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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Entre Vivos e Mortos : Comentários sobre “A Noiva Cadáver” de Tim Burton

 

(28 de maio de 2010)

ATENÇÃO: ESTE POST CONTÉM SPOILERS!!! CASO VOCÊ NÃO TENHA VISTO O FILME, PEDIMOS QUE ASSISTA O FILME ANTES DE LER O POST, POIS REVELAREMOS DETALHES E O FINAL DO FILME!!!

“A Noiva Cadáver” de 2005 foi um dos filmes que mais me impressionaram pela riqueza e genialidade com que é tratado o tema. Os filmes de Tim Burton usam do grotesco e sombrio com uma delicadeza comovente, que não gera rejeição, mas, nos leva a contemplar essa realidade com outros olhos.  Neste filme poderíamos trabalhar vários conceitos junguianos, nossa opção é caminhar pelo filme indicando alguns pontos para reflexão, sem reduzir a obra de Tim Burton, a psicologia de Jung.

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UM BREVE RESUMO: (apenas para lembrar aos que ja viram o filme, se você não quiser saber detalhes e o final do filme, não leia esse resumo)

Victor van Dort é o filho de um casal de burgueses “emergentes” que sonham em entrar para a nobreza para tanto, acertam seu casamento com os pais de Vitoria, um casal de nobres falidos, que vêem no casamento a chance resolver todos seus problemas financeiros, e voltar a bonança dos velhos tempos 

Após algumas dificuldades no ensaio do casamento, onde Victor é um desastre, o pastor afirma que ele tem que se preparar antes de e aprender seus votos, assim, envergonhado ele vai para a floresta próxima da cidade. Lá ele ensaia seus votos, e num momento de empolgação recita-os e coloca o anel no que seria um galho seco, mas, era a mão seca de uma noiva que havia sido abandonada e morrido na floresta.

A Noiva, Emìlly, volta a vida e aceita o pedido de casamento de Victor. Ele tenta fugir, mas ela o segue e o leva para o mundo dos mortos.Victor conhece a história triste de Emilly (enganada por um vigarista, ela fugiu de casa levando as jóias da família, mas foi morta assassinada na floresta, na busca do sonho de se casar).

Victor consegue enganar Emily, e volta para o mundo dos vivos para avisar e pedir ajuda a Vitória, que é tida como louca a dizer que Victor foi obrigado a casar com um cadáver. Surge a história que ele fugiu com outra, e Vitória é forçada a casar com Lorde Barkis( um vigarista recém chegado na cidade, que se passa por nobre e rico para dar o golpe na família de Victoria ).

Nesse ínterim, Emilly descobre que não poderia se casar com Victor pois, os votos são válidos com “até que a morte os separe, e a morte já os separou”. Emilly teria que matar Victor, se quisesse se casar com ele, sem saber que Victor ouvia escondido a conversa, ela afirma que jamais poderia fazer ou pedir isso a ele. Nesse momento, ele voluntariamente  se oferece para refazer os votos e beber o “vinho dos tempos”(veneno mortal).

E convoca a todos do mundo dos mortos para irem a superfície  e para realizar o casamento.

Voltando ao mundo dos vivos, todos se assustam com a presença dos mortos, Vitoria descobre os planos de lorde Barthes, e segue para a Igreja para onde os mortos se dirigiam.

Durante a cerimônia, Emilly vê Vitoria(ainda vestida de noiva), e impede Victor de beber do vinho dos tempos e concluir seus votos, pois “ela era noiva e teve seus sonhos roubados, ela não poderia fazer o mesmo com outra pessoa”.

Lord Barkis aparece e lembra que ele ja havia casado com Victória, surge a verdade sobre o Lord Barkis, por fim, Barkis morre, e o casamento de Victor e Vitória pode acontecer e Emilly pode então se libertar.

SÍMBOLOS DE TRANSFORMAÇÃO: O Processo de individuação de Victor

A “Noiva Cadáver”  nos apresenta uma história com ricos e pequenos detalhes que nos permitem contemplar o processo de transformação (e,  porque não individuação) de Victor, que é um jovem talentoso, porém, inseguro e dominado pelos pais, quem lhe impõem um casamento de interesse. A sua incapacidade de assumir vida fez com que fosse ridicularizado e levado ao confronto com o mundo inferior – o que poderíamos dizer com o próprio inconsciente.

A temática da libertação e transformação de Victor já é coloca na cena inicial do filme, onde ele desenha uma borboleta e, em seguida liberta a borboleta que era modelo, que voa traçando o caminho até seus pais.

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Apesar de se apaixonar por Vitória no primeiro momento, Victor se vê incapaz de se relacionar com ela, como percebermos na cena do ensaio do casamento. É interessante notarmos, que a insegurança de Victor se manifesta no ensaio, mas,  já era um modo como Victor vivia sua vida, que podemos ver na sua relação de submissão aos pais. O desastre no ensaio foi apenas uma expressão, um sintoma, de como levava sua vida. na floresta, em sua fantasia ele acaba por despertar Emilly, a noiva cadaver e sombria, que poderíamos reconhecer nela a Anima.

Emilly assume uma função de psicopompo ou guia da alma. Emilly conduz (mesmo que forçadamente) Victor em sua katábasis , sua descida ao reino inferior, comum em toda saga heróica. O confronto com o mundo inferior, assim, como o casulo da borboleta, marca a transformação do herói.  A chegar no mundo inferior, a realidade se transforma.

Devemos notar que Tim Burton faz uma jogo de cores fantástico, pois, o mundo dos vivos é neurótico e sem cor, todos estão apenas buscando benefícios próprios. As músicas são tristes e melancólicas. Já no mundo dos mortos, as músicas são alegres e as cores são vivas. Os mortos estão sempre prontos a recepcionar.

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A discrepância entre o mundo dos mortos e dos vivos, nos chama atenção ao empobrecimento da realidade comum a neurose, e como que no inconsciente, reside a possibilidade de mudança e criatividade. A relação com a Anima – não só como figuração do Feminino, mas, do próprio inconsciente ocorre de modo interessante, através da música. sem palavras.

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Victor e Emily tocam a mesma música. Estabelecendo um símbolo unificador, delimitando as pazes entre ambos, assim como poderíamos pensar na relação da consciência com o inconsciente. O estabelecimento desse relação é fundamental para o processo de transformação de Victor, pois, logo depois ele descobre que somente se estivesse morto teria de manter o compromisso com Emily, que se afirma incapaz de mata-lo ou pedir para que ele se mate por ela. Victor pela primeira vez no filme, deixa de ser passivo ou covarde, pois assume a Emily, mesmo amando Vitória, mas faria o Sacrifício por ela. E, assumindo isto, ele possibilita o retorno ao mundo dos vivos, que se transforma com a presença dos mortos, Pela primeira vez, o resgate do que estava “no mundo inferior” dá cores a realidade.

No casamento, Lord Barkis aparece e é revelado que ele era o assassino de Emily, e ele ameaça Vitória, Victor luta com Barkis para defender Vitoria e Emily.Essa luta também marcou o acerto de contas com o passado de Emily, um acerto de contas. Ao enfrentar Barkis, um homem cruel e arrogante ,  Victor deixa de ser rapaz assustado e se torna um homem.

Em consequência das mudança de atitude de Victor, Emily abre mão de seu compromisso, e pode se libertar,abrindo mão de todo sonho de casar e pode enfim, se transformar. Emily se transformar em dezenas de borboletas(que em grego é psykhé) que se elevam rumo ao céu.

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É interessante percebermos que a narrativa do filme fala do enfrentamento no hoje, no presente, de acontecimentos passados. Emily pode ser vista como uma excelente metáfora do processo da neurose, onde uma ação ou escolha feita no passado e, que não enfrentamos nossas  responsabilidades e consequências e as  jogamos embaixo do tapete, enterramos. Se perceber que mais cedo ou mais tarde teremos que dar conta de nossas ações e temos que enfrentar nosso destino. No filme, a insegurança de Victor sede espaço a maturidade quando ele percebe que apesar de amar Vitória (que era o seu ideal) ele deveria fazer o que era necessário, isto é, assumir Emily e pagar o preço por isso.  É interessante, que Victor deixa de olhar para o mundinho dele e percebe que a vida é muito mais que ele mesmo, e percebendo isso ele pode se abrir para vida, aceitando a própria morte. A morte simbólica é o processo de trans – formação, isto é, passar de uma forma para outra (assim, como é necessário que a lagarta morra, para dar vida a borboleta). 

O transformação de Victor, permite a integração de Emily, a rejeitada (a que era “sempre dama, mas, nunca a noiva”), num plano muito maior, muito maior que o mundo dos mortos.  A cena final, onde Victor e Vitória olham o vôo das borboletas para lua, nos fala de um restabelecimento do eixo ego-self, favorecendo ao processo de tornar-se quem se realmente é.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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