Conversão, Desconversão e Representações Arquetípicas

Estudando o livro “Mitologemas” de James Hollis no Grupo Aion, surgiu uma discussão interessante que gostaria de amplia-la um pouco. Essa discussão, até pela linguagem metafórica utilizada nos levou a amplificar a dinâmica simbólica e pensar um pouco sobre  os processos de conversão.

No capitulo intitulado “Deuses”, Hollis faz leitura das forças psíquicas, em outros tempos, eram nomeadas como “deuses”. A energia psíquica basal, fundamental da experiência psíquica, foi denominada por Jung de arquétipos, mas em outros tempos a intuição original deu contornos a essas energias que afetavam a todos de deuses. A energia em si não se modificava, ou se perdia, mas se transitava em direção a diferentes “cascas”, roupagens ou representações. 

Nesse contexto, Hollis afirma que

Para os crentes de verdade, ou para os preguiçosos e insensíveis, uma tal utilização dos deuses parece blasfema por ser aparentemente o deus tribal de outra pessoa, e não o deles. No entanto, eles violaram o primeiro mandamento: nao colocar nenhum deus acima de Deus. O deus que eles adoram é o deus tribal, não o deus que destrói a si mesmo para uma reificação e vai para o subterrâneo em busca de outra forma. Eles cometem o mais antigo dos pecados religiosos, a idolatria, ao adorar a imagem de deus que eles criaram.

Quando olhado de modo arquetípico, um deus é a imagem que surge de uma experiência profunda, um encontro com o mistério. Por isso, a divindade está sempre renovando a si mesma. Como é que se pode consertá-la? Ela é energia, não imagem. A imagem é apenas a casca transitória da divindade. A divindade transborda da casca, confere numinosidade a ela, e quando o ego humano busca consertá-la, adorá-la e constringi-la aos serviços da agenda de segurança do próprio ego, o deus “morre”, o que quer dizer, ele abandona a casca para reencarnar em outro lugar. Esse é o significado do tema da “morte de Deus”, que pode ser encontrado nas mitologias antigas de todos os povos, muito antes do pronunciamento de Nietzsche na metade do século dezenove.

Tal reconhecimento da morte de Deus é, por um lado, uma simples observação de como uma imagem particular tornou-se tão concreta, tão constringida a ponto de não mais mexer com o coração e o espírito das pessoas. (HOLLIS, 2005, 108)

Esse texto é descreve como um símbolo (ou representação arquetípica) pode ser desligado de sua fonte ou matriz arquetípica. Essa desconexão produz um estado de esvaziamento, contudo, a energia originária(do arquétipo) não se perde, se torna inconsciente, não-representada – podendo empobrecer a consciência. A representação pode se manter como um sinal, uma referência desprovida intuição, afeto e emoção que são expressões da energia arquetípica.  Pode haver uma transição para outro campo representacional, manifestando-se em outras formas ou representações. Podemos pensar a transição e amplia-la para a nomenclatura das religiões precisamos pensar um pouco sobre a noção de conversão religiosa.

A conversão é considerada um dos pontos cruciais da vivência religiosa.

a conversão envolve mudança no sistema de valores e visão de mundo (Gomes, 2011). O novo converso assume novas práticas, novos costumes e novas atitudes diante da vida, fenômeno este que representa para a vida do converso “uma divisão de antes e depois da conversão” (Alves, 2005, p.75). A conversão também se caracteriza por novos esquemas de significação; a conversão é “um processo psicossocial que se caracteriza pela desestruturação de esquemas de significação, seguido pela adoção de outro, estruturalmente distinto do primeiro” (…). (FREITAS; HOLANDA, 2014, p.94)

Na psicologia analítica falamos da conversão a partir de seu termo

Escolhas… | by Daniel Mendes | O Rascunhador | Medium

grego, metanóia, como uma expressão da emergência do Self e do processo de individuação. O processo de mudança ou transformação em relação ao podem ser nomeadas como “crises de conversão”. Estas implicariam numa dada atitude interior resultante de a falta de significação que pode se manifestar num sentimento de insuficiência, incompletude relacionada a própria experiência consigo mesmo ou com a realidade em termos de ego. Ávila(2007) fala sobre tipos de conversão:

Baseadas em experiências dramáticas: Se caracterizariam por experiências críticas suscitadas externamente que poderiam ser negativas ou positivas, (tragédias naturais, conflitos armados, acidentes). Diante dessas experiências podem surgir uma significação religiosa como elaboração de tal situação.

Baseadas na Solução para problemas pessoais: Se caracterizariam por situações ou experiências críticas internas. Ou seja, pela culpa, problemas físicos ou psicológicos que encontrariam uma significação ou resolução a partir de uma experiência religiosa.

– Baseadas em Experiência Mística: são caracterizadas pela experiência mística ou êxtase que irrompe da realidade interna trazendo uma nova percepção sobre o individuo e sua realidade.

– Revival ou “despertar religioso”: São movimentos internos ao grupo religioso onde o despertar como um “re-conversão” atua sobretudo de dentro pra fora, em grupo onde o agente catalisador é um líder religioso, que potencializa tanto os sentimento de fé/esperança quanto de culpabilidade. 

Conversão à incredulidade ou desconversão: a desconversão ou apostasia se apresentaria como características uma crise de fé, reflexão e abandono – seguida de uma mudança de percepção e compreensão da realidade. Esse processo está associado com o desenvolvimento de novas relações interpessoais, relações com a realidade exterior ao grupo e a desilusão. 

A conversão e a “desconversão” apontam para dois pólos da dinâmica do símbolo: a emergência e a o declínio.

As conversões apontam para a produção de significado/sentido ou de vida simbólica que essa experiência produz no indivíduo.  A qualidade da experiência religiosa é fundamental, Ávila(2007) nos chama atenção para as formas de viver a religiosidade, ele indica duas possibilidades: uma religiosidade funcional que se baseia no busca por sanar as necessidades do individuo – que daria contornos pessoais a experiência com o sagrado. E a outra, a religiosidade como uma experiência de encontro sustentaria uma expansão da experiência, a busca/encontro de um sentido de vida. Assim, a motivação que conduz ao processo de conversão vai estar relacionado com a manutenção ou não da experiência com o numinoso (sagrado).

Para a psicologia junguiana a psique possui uma função religiosa, isto é, uma função criadora de símbolos – estes podem ser compreendidos a partir da religião. Jung compreendia a religião como expressão da psique, que todos os temos e lugares produziu representações e imagens daquilo que seria o inefável, que chamamos também de do sagrado. A religião seria uma “atitude do espirito humano(…) transformada pela experiência do numinoso” (JUNG, 1980, p.4). Assim, a conversão indica mudanças importantes na dinâmica psicológica do indivíduo, compreende-las auxiliam ao clinico compreender o momento que o indivíduo atravessa, sua elaboração simbólica(o que levaria a considerar a linguagem mais adequada) e o processo de individuação.

Por outro lado, a desconversão ou declínio do símbolo/sistema simbólico fala de uma mudança em relação a percepção tanto do símbolo quanto da realidade do sujeito. A desconversão envolve uma crise, um descanto, associada ao um processo um reforçamento das funções racionais e objetivas do Ego. Sobre esse processo de desconversão, Hollis comentou

A divindade transborda da casca, confere numinosidade a ela, e quando o ego humano busca consertá-la, adorá-la e constringi-la aos serviços da agenda de segurança do próprio ego, o deus “morre”, o que quer dizer, ele abandona a casca para reencarnar em outro lugar. (…) (HOLLIS, 2005, 108)

Nesse aspecto, podemos pensar a desconversão podem se dar em função da “agenda do ego”. Ou seja, a experiência funcional, utilitária voltada para suprir necessidades do ego. Esse processo é sutil e lento que restringem e diminuem a possibilidade da experiência simbólica (isto é, estruturante e energética) que sustenta e integra as possibilidades de vida. A agenda ou necessidades do Ego promove uma adesão a grupos e eventos religiosos para usar do sagrado. Muito do trânsito religioso em grupos e igrejas se dá por “adesão” e não conversão, ou seja, uma mudança voltada para mais para uma de ambiente (estética ou litúrgica), relacionamentos interpessoais visando as necessidades do Ego.

Muitas vezes, não significa uma saída de uma instituição religiosa ou grupo mas, uma vivencia medíocre e desprovida de significado interior. O declínio simbólico torna a realidade menos colorida, não indicaria um processo patológico, mas sem o mistério, sem abertura apenas a realidade “nada mais que” a realidade.

Hollis aponta também “(…)Eles cometem o mais antigo dos pecados religiosos, a idolatria, ao adorar a imagem de deus que eles criaram. (…)” As imagens, representações são meios através do qual da consciência se relacionar com a potência arquetípica. São o meio, não o fim. Muitas vezes ficamos inebriados pela representação e nos fixamos nela. Isso leva a uma relação faseada. Clarice Lispector, no conto “Perdoando Deus”, nos ajuda ampliar a percepção, ela nos diz

Enquanto eu imaginar que “Deus” é bom só porque eu sou ruim, não estarei amando a nada: será apenas o meu modo de me acusar. Eu, que sem nem ao menos ter me percorrido toda, já escolhi amar o meu contrário, e ao meu contrário quero chamar de Deus. Eu, que jamais me habituarei a mim, estava querendo que o mundo não me escandalizasse. Porque eu, que de mim só consegui foi me submeter a mim mesma, pois sou tão mais inexorável do que eu, eu estava querendo me compensar de mim mesma com uma terra menos violenta que eu. Porque enquanto eu amar a um Deus só porque não me quero, serei um dado marcado, e o jogo de minha vida maior não se fará. Enquanto eu inventar Deus, Ele não existe. (Lispector, 1998, p.)

Esse é belo texto, que nos ajuda a entender a idolatria que que Hollis nos fala – “o adorar a imagem de deus que eles criaram”. As compensações das falhas, dos medos, inseguranças e defesas do Ego criam, na fantasia, um simulacro de Deus, dos deuses ou da vida. Enquanto a experiência de contato for limitada ao desejo ou as necessidades do Ego, a representação se vincula ao ego seja pela busca de uma resposta, uma necessidade ou uma idealização do que o ego jamais será. Assim, essa representação será sempre um espelho de Narciso, um reflexo distorcido de suas próprias insuficiências.

The Narcissus Myth: Early Poets and Versions of the Ancient Story

A desconversão ou o declínio de um símbolo apontam a transição que conduzirá a uma nova conversão (ou emergência). Para tanto é necessária uma mudança na mudança na atitude do Ego, uma abertura para a honestidade da própria insuficiência. Sem honestidade e constrição o Ego continuará criando uma realidade vazia, a sua própria imagem e semelhança. 

Referencias bibliográficas

ÁVILA, Antonio. Para Conhecer a Psicologia da Religião. São Paulo: Loyola, 2007.

FREITAS, Denis de; HOLANDA, Adriano Furtado. Conversão religiosa: buscando significados na religião. Gerais, Rev. Interinst. Psicol.,  Juiz de Fora ,  v. 7, n. 1, p. 93-105, jun.  2014 .   Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1983-82202014000100009&lng=pt&nrm=iso>. acessos em  06  jul.  2020.

JUNG, Carl G, Psicologia da Religião Ocidental e Oriental. Petrópolis: Vozes, 1980.

LISPECTOR, Clarice. Perdoando Deus. In: Felicidade Clandestina. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1998.

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Fabrício Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Diretor do Centro de Psicologia Analítica do CEPAES. Formação em Hipnose Ericksoniana. Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  desde 2012 Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 99316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@cepaes.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

http://www.cepaes.com.br

Grupo de Estudos “O Mundo Interior do Trauma”

Em agosto iniciaremos mais um grupo de estudo, acerca do livro de Donald Kalsched ” O mundo interior do Trauma.” Este livro publicado em 1996, se tornou uma importante referência no estudo do trauma, das defesas psíquicas (especialmente as defesas arquetípicas) e do sistema arquetípico de autocuidado .

O enfoque deste livro é o trauma infantil ou trauma precoce e os processos defensivos, o que nos leva a compreender o processo de desenvolvimento infantil descrito pela escola junguiana desenvolvimentista.

Informações Gerais:
Inicio do Grupo
: 07/08/20
Horário: 17h às 18:30 semanalmente nas sextas-feiras.
Duração: Não estipulamos um prazo de funcionamento do grupo, pois depende da participação dos membros o avanço do grupo.
Valor: 100 reais mensais.
Forma de Pagamento: depósito bancário ou picpay.
Coordenação: Fabrício Fonseca Moraes – Psicólogo Clínico junguiano, especialista em teoria e prática junguiana, coordenador de grupos de estudo e diretor do CEPAES.
Funcionamento: O texto será lido anteriormente, e no grupo serão levadas considerações, dúvidas e reflexões. Os encontros serão conduzidos por Fabricio Moraes e um monitor do CEPAES. O grupo será realizado utilizando o app Zoom, e o encontro será gravado e disponibilizado (caso de perda de conexão ou falta). Será criado um grupo no whatsapp onde será disponibilizado o link.

Inscrição:
1 – Preencher esta ficha de inscrição. (enviaremos uma confirmação por inscrição com os dados bancários/picpay)
2 – A efetivação da inscrição se dará pelo pagameno da primeira mensalidade (correspondente ao mês de agosto).
3 – Após a efetivação o participante será inserido no grupo do whatsapp.

Quer participar? link de inscrição : https://forms.gle/pA6fwR2SCzXq7Ppf7

Quaisquer outras dúvidas poderão ser tiradas pelo email contato@cepaes.com.br / whasapp 27-993166985

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Fabrício Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Diretor do Centro de Psicologia Analítica do CEPAES. Formação em Hipnose Ericksoniana. Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  desde 2012 Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

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Revisitando o texto “Depressão Preconceito e Elias”

Em 2010 fiz uma breve palestra para a organização “Mulheres Cristãs em Ação”, da Igreja Batista da Praia do Suá em Vitória, com o tema “Depressão, Preconceito e Elias”. Naquela palestra o objetivo era apresentar sucintamente os sintomas da depressão e combater o preconceito que era/é comum no meio evangélico, com um tempo de cerca de 40 minutos não era possível falar muito. Recentemente, num curto período de tempo acabei fazendo várias referencias a esse texto/palestra, o que acendeu o desejo de revisitar e ampliar o texto.

Nesses 10 anos acompanhamos muitas mudanças nesse cenário, vimos líderes religiosos falarem abertamente de sua experiência pessoal com a depressão, ajudando a combater preconceito. Contudo, o crescimento movimento evangélico, especialmente nos ramos pentecostal e neopentecostal, trazem ainda um preconceito com os transtornos psiquiátricos, atribuindo sua causa a falta de fé ou algum pecado. Utilizar da personagem bíblia Elias se torna importante para enfrentar o preconceito em relação a depressão (e outros transtornos), aproximando e contextualizando com Bíblia, que é a referência de fé.

A narrativa bíblica temos personagens possivelmente sofreram de pelo menos episódios de depressão como Jó, Jeremias, Saul dentre outros, mas a situação de Elias é emblemática. Assim, vamos retomar um pouco da narrativa sobre Elias, mas direcionando para uma perspectiva um pouco mais teórica para pensarmos a depressão sob a ótica junguiana.

A Depressão

A depressão atravessa a história da humanidade, com diferentes termos, mas apontando para o mesmo conjunto de sintomas. Hoje, a depressão é uma forma genérica se se referir aos transtornos depressivos que se caracterizam pelo

humor triste, vazio ou irritável, acompanhado de alterações somáticas e cognitivas que afetam significativamente a capacidade de funcionamento do indivíduo. O que difere entre eles são os aspectos de duração, momento ou etiologia presumida. (APA, 2014, 155)

As características podem ser variadas apontando para uma dificuldade do Ego em manter suas funções. De forma geral, essa dificuldade se nota por uma perda acentuada da energia disponível na consciência. Essa dificuldade geralmente é descrita como:

– Perda de interesse

– Alterações no Sono (dorme demais ou tem insonia)

– Alterações no apetite (come muito pouco ou come muito)

– Dificuldade de concentração

– Lentificação das atividades físicas e mentais (demora a responder aos estímulos)

–  Sentimento de fracasso, inutilidade, culpa e com julgamentos negativos acerca de si.

– pessimismo,

– Indecisão, dificuldade de tomada de decisões.

– Isolamento

– Inquietação, irritação

– Chora sem motivo específico ou não conseguir chorar.

A depressão pode ter causas biológicas ou endógenas (que podem ser de ordem genética, verificadas pelo histórico familiar de depressão e/ou secundárias associada a doenças como hipotireoidismo, apneia do sono etc..) ou por causas externas ou exógena, isto é, a experiências e eventos vividos pelo do indivíduo (no passado ou no presente). A depressão endógena ou biológica tende a ter uma resposta excelente ao tratamento medicamentoso. A depressão exógena ou por causas externas, o ideal é o tratamento medicamentoso e psicoterapia conjugados.

No cenário junguiano não temos material focado da depressão, pois, há uma compreensão que a depressão é uma expressão de processos adaptativos (internos e externos) e defensivos que culminaram numa alienação do ego e no empobrecimento simbólico, o que se percebe na diminuição da energia disponível ao ego. O aspecto descritivo (impessoal) para a psicologia analítica tem pouca relevância frente ao caso individual. Cada depressão é única, pois é a expressão de uma psique em sofrimento e, por mais similares que sejam os sintomas, deve ser compreendida a partir da vida de cada indivíduo.

Depressão e Elias

Nossa proposta é refletir acerca da depressão a partir da personagem Elias, que foi um dos mais importantes profetas do Antigo Testamento. A bíblia dá poucas informações sobre sua história, contudo a riqueza da descrição de seu sofrimento nos permite fazer algumas inferências e amplificações. No capitulo 19 do livro de I Reis, temos um relato interessante sobre a situação dele. Vejamos o que diz o texto,

1 –  Ora, Acabe contou a Jezabel tudo o que Elias tinha feito e como havia matado todos aqueles profetas à espada.

2 – Por isso Jezabel mandou um mensageiro a Elias para dizer-lhe: “Que os deuses me castiguem com todo o rigor, caso amanhã nesta hora eu não faça com a sua vida o que você fez com a deles”.

3 – Elias teve medo e fugiu para salvar a vida. Em Berseba de Judá ele deixou o seu servo

4 – e entrou no deserto, caminhando um dia. Chegou a um pé de giesta, sentou-se debaixo dele e orou, pedindo a morte. “Já tive o bastante, Senhor. Tira a minha vida; não sou melhor do que os meus antepassados. ”

5 – Depois se deitou debaixo da árvore e dormiu. De repente um anjo tocou nele e disse: “Levante-se e coma”.

6 – Elias olhou ao redor e ali, junto à sua cabeça, havia um pão assado sobre brasas quentes e um jarro de água. Ele comeu, bebeu e deitou-se de novo.

7 – O anjo do Senhor voltou, tocou nele e disse: “Levante-se e coma, pois a sua viagem será muito longa”.

8 – Então ele se levantou, comeu e bebeu. Fortalecido com aquela comida, viajou quarenta dias e quarenta noites, até que chegou a Horebe, o monte de Deus.

9 – Ali entrou numa caverna e passou a noite. E a palavra do Senhor veio a ele: “O que você está fazendo aqui, Elias? ”

10 – Ele respondeu: “Tenho sido muito zeloso pelo Senhor, Deus dos Exércitos. Os israelitas rejeitaram a tua aliança, quebraram os teus altares, e mataram os teus profetas à espada. Sou o único que sobrou, e agora também estão procurando matar-me”.

11 – O Senhor lhe disse: “Saia e fique no monte, na presença do Senhor, pois o Senhor vai passar”. Então veio um vento fortíssimo que separou os montes e esmigalhou as rochas diante do Senhor, mas o Senhor não estava no vento. Depois do vento houve um terremoto, mas o Senhor não estava no terremoto.

12 – Depois do terremoto houve um fogo, mas o Senhor não estava nele. E depois do fogo houve o murmúrio de uma brisa suave.

13 – Quando Elias ouviu, puxou a capa para cobrir o rosto, saiu e ficou à entrada da caverna. E uma voz lhe perguntou: “O que você está fazendo aqui, Elias? ”

14 – Ele respondeu: “Tenho sido muito zeloso pelo Senhor, Deus dos Exércitos. Os israelitas rejeitaram a tua aliança, quebraram os teus altares, e mataram os teus profetas à espada. Sou o único que sobrou, e agora também estão procurando matar-me”.

15 – O Senhor lhe disse: “Volte pelo caminho por onde veio, e vá para o deserto de Damasco. Chegando lá, unja Hazael como rei da Síria.

16 – Unja também Jeú, filho de Ninsi, como rei de Israel, e unja Eliseu, filho de Safate, de Abel-Meolá, para suceder a você como profeta.

17 – Jeú matará todo aquele que escapar da espada de Hazael, e Eliseu matará todo aquele que escapar da espada de Jeú.

18 – No entanto, fiz sobrar sete mil em Israel, todos aqueles cujos joelhos não se inclinaram diante de Baal e todos aqueles cujas bocas não o beijaram”. (BIBLIA, I Reis 19:3-18, 2000),

Para entendermos esse capitulo da vida Elias, devemos lembrar rapidamente o que aconteceu no capítulo anterior, nele, Elias fez um desafio a 450 profetas de Baal, o deus que respondesse o holocausto com fogo, seria o Deus verdadeiro, após meio dia de suplicas os profetas de Baal nada obtiveram, Elias ao orar teve uma resposta imediata, onde fogo caiu do céu. Logo após, o povo que estava ali presente ficou maravilhado e matou os 450 profetas.

Mesmo acontecendo esse milagre, Elias não viu a conversão em massa que provavelmente ele esperava. Muito pelo contrário, a notícia que ele teve foi justamente que a rainha Jezabel queria vê-lo morto. Isso desencadeou uma resposta negativa, o que podemos pensar em uma depressão reativa, onde a frustração frente a não conversão do povo e a ameaça fez com que ele internaliza-se uma ausência de sentido em tudo que ele fazia. O sentimento de vazio e inutilidade tomando conta.

A bíblia não faz relatos sobre a vida de Elias antes de seu ministério profético, mas podemos especular, pelo próprio texto, que viveu na ortodoxia da religião num momento onde grande parte do povo estava desviado, provavelmente ele não tinha um sentimento social de pertença, podendo mesmo se sentir o estranho/diferente em meio a seus pares. A esperança de conversão era também de estar inserido coletivamente e protegido pelo sentimento de pertença e identidade com o grupo (considerando que a religião era o cerne da identidade social judaica). A decepção/frustração rompe com a esperança e possibilidade de um futuro possível.

A frustração gera um movimento defensivo/dissociativo com a realidade. Mesmo diante os acontecimentos recentes com os profetas de Baal, ele são suportou a realidade. Podemos compreender essa defesa como uma alienação do eixo ego-self. Ou seja, um distanciamento dessa experiência interior de totalidade, integridade e saúde – geralmente representada como “imagem de Deus”. A experiência do Self, possibilita a sensação de segurança, vivacidade e sentido.

Diante desta situação (externa e interna) Elias teve medo e fugiu, se isolou, foi para o deserto, isto é, foi para uma região árida, infrutífera, vazia, que certamente refletia o que ele estava se sentindo internamente. Esse verso 4 é bem interessante.

4 – e entrou no deserto, caminhando um dia. Chegou a um pé de giesta, sentou-se debaixo dele e orou, pedindo a morte. “Já tive o bastante, Senhor. Tira a minha vida; não sou melhor do que os meus antepassados.”

Além do relato do isolamento, temos que ele chega a um pé de giesta (e outras traduções Zimbro – que é mais provável, visto é que uma planta alta e resiliente as intempéries climáticas do deserto, além de ser medicinal – que implicaria também simbolicamente na possibilidade de encontro e proteção, visto que ele senta-se abaixo dele). O fato temos três fatos importantes aqui: 1 – ele ora; 2- ele pede para ter a vida tirada; 3 – ele se sente inferior aos “antepassados”.

1 – Ele ora: mesmo em seu estado depressivo, Elias não deixou de acreditar. Não há uma perda da fé, o rompimento interior ou a descrença em si não implica numa perda da relação com a Deus transcendente. É uma situação interessante, pois, pessoas em estado depressivo quando oram, buscam a espiritualidade fazem com uma fé verdadeira e intensa. Contudo, a perda de contato interior, a fragilidade egoica diante sentimento de vazio e desenraizamento impede a percepção de ser ouvido ou perceber possíveis respostas, de moda a deixar o indivíduo ainda mais desamparado

2- Ele pede para ter a vida tirada: Essa passagem é interessante, pois, fala de uma falta de perspectiva de futuro, a falta de perspectiva não implica na perda da esperança, assim como com dissemos acima, ele ora, ele pede, ele tem esperança, mesmo que tão sutil que só enxerga na morte a possibilidade de cessar o sofrimento. Isso difere do que seria a ideação suicida, pois, Elias não planeja a própria morte, nem tem o ímpeto tentar tirar a própria vida, como foi com Judas Iscariotes, que diante do desespero e da culpa tirou a própria vida. Na maior parte das vezes, pacientes depressivos falam que gostariam morrer, mas, isso implica em mudar, sair dessa situação de sofrimento.  

3 – Ele se sente inferior aos antepassados: Outro sintoma comum é a ideação autodepreciativa onde o indivíduo percebe apenas seus defeitos, e os potencializa. No caso, quando ele fala de não ser melhor que os antepassados dele, certamente, ele fala dos pecados dos antepassados e o quanto ele não merecia viver.

Na sequência, ele dorme – vale a pena ressaltar que um sintoma muito comum na depressão é a alteração do regime de sono (uns dormem demais, outros sofrem de insônia, trocando o dia pela noite). A figura do anjo também muito importante, pois, o anjo o toca por duas vezes trazendo a comida, contudo, essa presença não é assimilada. Isso é importante pois, na depressão o Ego a elaboração simbólica é comprometida, ou seja, os símbolos e eventos simbólicos que seriam significativos não são elaborados pelo ego – ou seja, o ego não se afeta ou se transforma.

Exemplos de fé (4): o profeta Elias - Opus Dei

No caso de Elias, o cuidado divino (o zimbro/giesta para descansar, o alimento e água, a caverna q veremos adiante) estava presente mas ele era capaz de, naquele momento, perceber e elaborar esse cuidado. Esse é um fundamental, é injusto cobrar do paciente deprimido essas percepções e elaborações, simplesmente porque nesse momento são para muitos impossíveis.Na maior parte das vezes, essa elaboração e possível transformação se dá na psicoterapia, onde eventos que deveriam ser significativos são discriminados e apontados pelo terapeuta, possibilitando que o ego vivencie e, gradativamente, se modifique abrindo a possibilidade de transformação.

O sofrimento Elias continuava, e ele caminhou pelo deserto durante 40 dias e 40 noites, até chegar em Horebe ou Monte Sinai, no Egito. É extremamente comum nas mitologias e tradições religiosas haver um ou mais montes sagrados, as montanhas simbolizam uma elevação espiritual, o encontro com a divindade. Na tradição judaica, o Monte Sinai já era conhecido por ser o lugar onde Deus havia revelado os 10 mandamentos a Moisés.

Note-se que há algo bem interessante, chegando a esse lugar sagrado ele entra numa caverna. Simbolicamente isso é muito importante. Mesmo no lugar sagrado, há espaço para a caverna, para a depressão. Não apenas o profeta sofria do mal, mas, no monte sagrado havia um lugar pra preparado para receber o profeta em depressão.

Chegando na caverna para passar a noite Deus fala com ele, propõe uma questão fundamental “O que está fazendo aqui, Elias?”. Ao que ele responde ao drama que via e vivia no reio de Israel.

Na sequência, há uma das cenas mais interessantes descritas na Bíblia, que é essa revelação

11 – O Senhor lhe disse: “Saia e fique no monte, na presença do Senhor, pois o Senhor vai passar”. Então veio um vento fortíssimo que separou os montes e esmigalhou as rochas diante do Senhor, mas o Senhor não estava no vento. Depois do vento houve um terremoto, mas o Senhor não estava no terremoto.

12 – Depois do terremoto houve um fogo, mas o Senhor não estava nele. E depois do fogo houve o murmúrio de uma brisa suave.

13 – Quando Elias ouviu, puxou a capa para cobrir o rosto, saiu e ficou à entrada da caverna. E uma voz lhe perguntou: “O que você está fazendo aqui, Elias? ”

Há três manifestações de força (cratofanias): tempestade, terremoto e fogo. Na perspectiva de Rodolf Otto, onde o sagrado seria compreendido como o mistério tremendo e fascinante( mysterium tremens et fascinans) essas manifestações corresponderiam ao aspecto tremens ou aterrorizante do sagrado.  É interessante, pois, Deus não se apresentou e como do “Deus Terrível” ou “Senhor dos Exércitos” enquanto expressão de grandeza e força. Mas, a construção do eixo ego-Self, do sagrado interior, não se dá pela força ou ímpeto que a consciência deseja.

Após a manifestação da força, Deus se manifesta no murmúrio de uma brisa suave, pensando no deserto a brisa é um acalento, um afago. A brisa, traz a noção do afeto compassivo e restaurador. Diante deste afeto, da serenidade e da brisa, Elias pode se colocar diante Deus, na saída da caverna.

É interessante essa passagem, pois, quem a pessoa que atravessa a depressão sofre muitas cobranças: que ele tenha coragem, que ele tenha fé, que ele faça isso ou aquilo, como se o processo se desse à força. O tratamento é um caminho suave, como a brisa, com afeto e paciência.

A pergunta “O que você está fazendo aqui, Elias?” Repetida duas vezes é interessante para se analisar. A repetição da pergunta tem mais relação com a forma como se responde do que com o conteúdo em si da reposta (podemos fazer uma analogia, com a repetição da pergunta de Cristo a Pedro, “Simão, você me ama?)”. Essa repetição implica na necessidade de uma reposta profunda, refletida e verdadeira, que expresse o indivíduo em totalidade.      

 Assim, ela assume um caráter existencial, que poderia ser desdobrada em “onde você está em sua vida e o que você faz dela?” Essa pergunta é o desafio subjacente a depressão, compreender a função da depressão, compreender o que ela aponta, ensina e até mesmo para poder responder com segurança e afirmativamente essa pergunta profunda. Sem isso, os eventow simbólicos, a integração da possibilidade de cura não realiza.  Pois, nessa pergunta reside a possibilidade de direcionamento, como vemos no texto bíblico.

Após a reposta de Elias, Deus aponta o caminho que ele deveria seguir, retomar o caminho e ungir a Hazel, Jeú e Elias. Essa ordenação tem um caráter importante, atribuiu um sentido e um propósito a vida. É considerar que esta ordenação, temos a restauração das funções proféticas de Elias, a restauração do sentido e da saúde de Elias.

No último verso, há uma revelação que ainda havia 7 mil que continuaram fieis em Israel. Note, isso atribui um sentido de pertença, um sentido de solidariedade e de não estar só. Rompendo o sentimento de vazio, solidão e isolamento ocasionado pela depressão. Mesmo que Elias tivesse de retornar outros 40 dias, já não se sentiria só.  O tempo atravessa todo o texto, assim é importante perceber a paciência necessária nesse acompanhamento. A sensação de estar em si, de estar inteiro e poder estar genuinamente em relação com Deus marca essa etapa deste longo caminho de volta.

 Depressão e Preconceito

Temos vários preconceitos associados em relação aos transtornos psiquiátricos, contudo, vamos apontar aspectos relacionados a depressão comuns no meio religioso. Nesse sentido, podemos elencar duas categorias de preconceito:

1ª Em relação a natureza da depressão;

Em relação a natureza da depressão, muitos religiosos associam a depressão como falha moral, preguiça, falta de fé, o diabo/demônio na vida do individuo. A narrativa sobre Elias aponta exatamente na direção oposta a esses preconceitos.

James Hollis nos chama atenção “os dogmas religiosos podem tanto sustentar quanto conter os movimento da psique”(HOLLIS, 2005 p.88) Ou seja, a religião/religiosidade pode auxiliar e potencializar os processos integrativos ou curativos da psique ou fortalecer os processos defensivos e dissociativos. Acredito que a informação, compreensão especialmente por parte dos líderes religiosos que possibilitaram que a religiosidade sustentasse o processo de cura.

As narrativas, a imagética e a ritualística ´fornecem símbolos que favorecem a uma continência ao ego necessária a elaboração simbólica, desde que o ambiente seja seguro (isto é, sem cobranças, exigências e acusações).

2ª Ao tratamento

O segundo preconceito é tão complicado quanto o primeiro pois, se dirige ao tratamento. E se manifesta negação (frequentemente coletiva)da necessidade de tratamento psicológico e psiquiátrico, onde se afirma que a oração,  participação em cultos ou acompanhamento pastoral seriam suficientes. Na verdade, o ideal seria um acompanhamento adequado nas três esferas (psicológica, psiquiátrica e religiosa).

As críticas muitas vezes enfraquecem a rede de cuidado ou tratamento do paciente – visto que ele pode interromper um dos tratamentos ou se sentir pressionado ou ainda mais frustrado aumentando o sofrimento. Muitas vezes, as “boas intenções” de membros ou lideres religiosos apenas prejudicam o processo terapêutico desses pacientes deprimidos.  

Outro aspecto peculiar esse preconceito ao tratamento é a ideia de que o tratamento deveria ser com um psicólogo cristão. Nesse sentido, haveria uma certa confusão da função do psicólogo com a função pastoral (que na falta desta, seria projetada no psicólogo). De fato, o ideal seria que o psicólogo conhecesse nunces das principais denominações religiosas de modo a compreender e acolher o paciente sua vivencia religiosa. Em outras palavras, o mais importante é encontrar um bom profissional.

É interessante refletir sobre esse preconceito à luz do texto bíblico que comentamos. Deus mandou Elias ir ungir Hazel, como rei da Síria, que não era do povo de Israel, para ajudar em sua obra, mais adiante vemos que Hazael declarou guerra contra Israel, de forma a combater os inimigos de Elias, segundo a vontade de Deus. Ao longo de toda a bíblia vemos Deus usando pessoas que não eram do povo de Israel para salva-los. Outros exemplos bíblicos, que podemos citar são: Moisés, que Deus usou a filha do Faraó, para protegê-lo de Faraó; Davi que quando perseguido por Saul, ele encontrou abrigo entre filisteus de Gate(I Sm 27), eu seja, Deus usou os inimigos de Israel para dar abrigo a Davi; no período do exílio na Babilônia, Deus usou Ciro, Dario e Artaxerxes reis da Pérsia, para libertar o povo, restabelecer o templo e a reconstruir a cidade de Jerusalém conforme nos narram Esdras e Neemias; outro exemplo, foi o próprio Cristo, quando nasceu, teve de fugir de Herodes e encontrou abrigo no Egito, sendo acolhido numa terra estranha.

É importante termos clareza da necessidade de compreender a depressão apresenta uma complexidade que deve ser o foco do tratamento. Integrando a rede de apoio para que a resposta seja melhor ao tratamento e o paciente possa ter um retorno a uma vida significativa e com qualidade.

Referências Bibliográficas

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION (APA). DSM 5: Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. 5ª Edição. Porto Alegre: Artmed, 2014.

Bíblia Sagrada Nova Versão Internacional. São Paulo: Soc. Bíblica Internacional, 2000.

HOLLIS, J. MITOLOGEMAS, São Paulo: Paulus, 2005.

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Fabrício Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Diretor do Centro de Psicologia Analítica do CEPAES. Formação em Hipnose Ericksoniana. Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  desde 2012 Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 99316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@cepaes.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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As Defesas do Self e a Experiência Traumática

Nota: Texto apresentado na IV Jornada Junguiana na Multivix em 15/06/2019. Publicado originalmente no site do CEPAES.

A psicologia analítica é uma abordagem ampla e heterogênea, que comporta uma diversidade pensamentos. No Brasil, temos uma presença mais clara do pensamento clássico e da psicologia arquetípica. Contudo, gostaria de trazer para vocês hoje uma reflexão pautada no pensamento inglês, na chamada escola desenvolvimentista – que tem como expoente o analista inglês Michael Fordham, cujo pensamento vem sendo uma influência muito importante para o CEPAES.

A Escola Desenvolvimentista recebeu essa nomenclatura dada por Andrew Samuels por enfatizar os processos de desenvolvimento, isto é, a infância, e seus desdobramentos na vida adulta e nos processos transferenciais e manejo clinico.

Assim, nossa proposta é falar das defesas do Self e a Experiência traumática dentro desse enquadre teórico, para tanto precisamos fazer algumas contextualizações refletir acerca do Self no processo desenvolvimento das relações com o ambiente. 

O Self e o desenvolvimento

Jung definiu o Self como o arquétipo da totalidade e centralidade, isto é, como sendo o centro e a totalidade da psique, juntamente com o atributo de ser o centro organizador da psique. Como o trabalho de Jung se direcionou aos processos do desenvolvimento adulto, em especial, da meia idade onde os processos integrativos do Self se manifestavam de forma intensa e simbólica, ao que Jung denominou, o processo de individuação e, assim a realização do Self.

Os estudos de Jung acerca do Self, tomaram novos contornos quando aplicados ao processo de desenvolvimento na infância. Um dos pioneiros da análise de crianças foi Michael Fordham, que em 1935 começou o atendimento de crianças na Inglaterra, que eram vítimas dos traumas de guerra (crianças evacuadas das cidades), crianças psicóticas e com transtorno do espectro autista . Deve-se notar, que Fordham desenvolveu seu trabalho em paralelo com o trabalho de Melaine Klein e do Middle group da sociedade psicanalítica de Londres, com pensadores como Winnicott, Fairbain, Bion dentre outros, com os quais Fordham se relacionou e ampliou as discussões teóricas.

Em sua prática, Fordham observou que havia uma autonomia na atividade inconsciente, que impelia a criança ao desenvolvimento desde que houvesse um ambiente adequado ou um ambiente suficiente bom. Observando que a tese defendida por Jung de que as neuroses ou transtornos  infantis eram uma derivados das neuroses dos pais era uma visão parcial e limitada, pois, as crianças tinham conflitos infantis próprios da criança e assim como derivados o ambiente (na relação com os pais), por outro lado, observou que independente de grandes mudanças na dinâmica parental ou na neurose dos pais haveria sim uma melhora significativa da criança e de seus processos de amadurecimento ou de individuação. A atividade do self seria  ativa e intensa desde a vida intra-uterina.

Em 1957, Fordham publicou o livro “New Developments in Analytical Psychology”, prefaciado por Jung, onde ele apresentou as bases de sua teoria acerca do desenvolvimento e do Self. Para Fordham, a criança na primeira infância não teria uma experiência propriamente psíquica, a experiência compreendida como psicossomática, com  um Self integrado, onde não haveria uma distinção entre corpo e Psique, nem ainda haveria um Ego, a esse Self original, manifesto como uma unidade psicossomática, ele chamou de Self primário (que  correspondia ao que Neumann viria a chamar de “fase uriborica” ou self corporal).

Como unidade psicossomática, os processos do Self primário do bebe, estão associados a processos fisiológicos, que seja pela necessidade (fome, saciedade, frio, incomodo tátil, incomodo intestinal) ou por estimulação do meio (luz, som, movimentação, cuidado) estariam ativariam diferentes aspectos Self, a ativação a possibilidade arquetípica de reconhecimento e ter respostas (de satisfação ou insatisfação) Fordham chamou de “deintegração” a essa ativação de diferentes aspectos do Self– com o processo de descanso, sono, essa atividade do Self seria reintegrada, formando as bases para o processo de desenvolvimento.   

Ainda não há uma consciência capaz de sustentar imagens, representações, nem distinção de realidade interior ou exterior. Para a criança, a mãe não é percebida em totalidade ou como outro, a mãe é uma experiência que supre suas necessidades. Por esse motivo, por não haver distinções, nem representações, logo, nem símbolos, falamos de objetos.

Essas locais e situações que ativam o processo de deintegração-reintegração  do Self, são chamados de primeiros objetos do Self, ainda indiferenciados, apenas elementos onde a atividade a energia ou libido se direciona, com o tempo objetos do Self, em formam em si pequenas ilhas de consciência,  núcleos esparsos de consciência, as representações do Self, com o processo de amadurecimento e a atividade integradora do Self, esses núcleos ou representações do Self, vão se integrar dando origem, ao longo de um longo período da primeira infância ao Ego.

Os Self e os Processos Integrativos

Até aqui, descrevi um pouco dos processos do Self, contudo, o processo de amadurecimento neurológico e fisiológico do bebe e os cuidados maternos o colocam em relação com o ambiente – com o entorno que ainda é indistinto para a criança, mas, que aos poucos vai se apresentando como uma realidade que ela não é capaz de controlar, percebendo como um objeto distinto de si mesma. A medida que a criança adquire uma capacidade de se relacionar com objetos (o mamilo da mãe, os brinquedos, as roupas, as sensações) que qualitativamente se manifestam como satisfatórias ou positivas (que produzem saciedade) ou insatisfatórias ou negativas (que produzem insasciedade) essas experiências produzem os objetos de apreço ou de rejeição, os objetos bons e maus.

Com o amadurecimento das funções sensoriais que possibilitam a relação com o ambiente, assim como o desenvolvimento da memória, que sustentam a experiência de onipotência( como se fosse capaz fazer aparecer o objeto bom – o seio no caso da fome, ou afastar o objeto mau, o incomodo com as roupas ou fraudas)  essa onipotência está relacionada com  da criança se torna capaz a sustentar a imagem percebida mesmo na ausência do objeto, ou mesmo evoca-la, alucinando a presença do objeto bom, de satisfação – ou pode alucinar negativamente o objeto mau, de desprazer.

Esse processo de alucinação é a base do processo de representação, da construção de consciência. Nesse processo alucinatório toma elementos da percepção de objetos externos e os mescla sensações ou afetos interiores – numa identidade psíquica ou, como Jung nomeava, utilizando de Lévi-Bruhl, participação mística.

A relação com os objetos ainda indiferenciados e o gradativo processo de amadurecimento possibilita o processo de diferenciação entre os objetos, onde os objetos externos são preenchidos com os objetos internos, formando um campo representacional que não corresponde nem a realidade interior nem a exterior, mas intermediária. Winnicott denominou essa área de “espaço potencial”, onde se desenvolvem os “objetos transicionais”, que são os primeiros símbolos do Self, expandindo as possibilidades da consciência de uma função basal adaptativa para uma função simbólica e representacional da consciência.

O espaço potencial é um espaço distinto da realidade interior e exterior, mas, se constitui na interpenetração das duas. Esse é o espaço representacional, imaginal onde é possível se constituir a função transcendente e a elaboração simbólica. Para tanto, é necessária uma relação adequada ou suficientemente boa com o ambiente, expresso nas relações ambientais.

Os processos de constituição do Ego e das relações objetais vão caracterizar o processo individuação na infância.

O Ambiente

O ser humano se torna humano mediante a relação com outro ser humano. Nosso ambiente para além do ambiente natural é o ambiente simbólico. Assim, para a criança em seus primeiros anos a mãe não é uma pessoa, mas, é o ambiente da criança. A relação com a mãe vai mediar a relação com os objetos. Contudo, devemos compreender que a mãe é a primeira experiência de ambiente, mas, estão se restringe a ela. Ao longo da infância a relação com o ambiente relacional, familiar e social vai possibilitar a humanização do potencial arquetípico fornecendo ao ego recursos que serão referência – seja participando da organização, estabilidade e força do Ego ou na dinâmica dos complexos – para futuras relações com o ambiente ou realidade.

As relações objetais irão compor os padrões de resposta que serão integrados tanto a experiência de constituição do Ego quanto a experiência dos complexos. Quando falamos num ambiente “materno suficientemente bom” na infância nos referimos a um ambiente de segurança e nutrição, onde a criança poderá estabelecer relações e vínculos saudáveis e uma capacidade simbólica que possibilita elaborar as adversidades sem um risco maior a estrutura do Ego.

Ao longo da vida, as experiências com o ambiente, que podemos nomear aqui como psicossociais, vão interferir diretamente nas relações que o ego estabelece tanto consigo mesmo quanto com o ambiente. Essas experiências podem ser desde mudanças na família, trabalho e idade, e implica no estabelecimento de uma nova possibilidade de amadurecimento.

Apenas um aspecto fundamental: O ambiente é sempre relativo a uma realidade psíquica. Ou seja, devemos compreender o ambiente em relação a quem indivíduo, isto é, ao ego que está em relação com o ambiente. O Ambiente é sempre relacional.

As Defesas do Self  

Em 1974, Fordham publicou um pequeno artigo chamado “Defences of The Self” onde, a partir de uma discussão clínica acerca da transferência psicótica, apontou de forma mais clara uma categoria de defesa que não se relacionava com defesas do Ego, mas, defesas intensas que não distinguiam o objeto em si, mas, eram defesas totais, manifestas como proteção contra a ameaça, abandono ou risco de destruição. Esse tipo de defesa, promoveria uma forma de barreira de proteção contra total contra o objeto ou o ambiente que é compreendido como nocivo ou ameaçador.

Fordham também utiliza uma analogia realizada pelo analista Leopold Stein, onde os aspectos defensivos atuariam com ao sistema autoimune, e em determinados casos que poderiam se voltar contra própria a própria psique, impedindo o desenvolvimento de relações objetais, da simbolização ou mesmo do processo de individuação.

Essas defesas do Self se caracterizam pela identificação projetiva, idealização, atuação (act out), somatização e regressão (dentre outras).

Em si, as defesas do Self apontam para a autonomia e capacidade do Self, desde o início do processo de desenvolvimento, em estabilizar, regular e manter a possibilidade de vida. A questão é quando os processos de defesa se mantém tempo demais, ficando fixada e aí assumem um caráter patológico.

Isso envolve um ataque à própria capacidade de experienciar a si mesmo, o que significa “atacar os vínculos” entre imagem e afeto, a percepção e pensamento, a sensação e conhecimento. O resultado é que essa experiência se torna sem sentido, a memória coerente é “desintegrada” e a individuação é interrompida.” (Kalsched, 2013 p. 76)

É importante considerarmos os processos defensivos do Self como base para se pensar transtornos do desenvolvimento como o transtorno do espectro autista, assim como pensar transtornos de personalidade como esquizóide, borderline dentre outros. Esses transtornos estão associados a experiências do Self, que interferem diretamente na experiência e formação do Ego – prejudicando o processo de vinculação, autopercepção, elaboração simbólica dentre outros.

As defesas do Self  cujo processo defensivo não é atualizado (ou seja, não evolui como as defesas egoicas), implica numa fixação do processo defensivo que, Donald Kalsched, descreveu como ataque aos vínculos e proteção do “espírito pessoal” ( uma forma de nomear o Self em seu aspecto dinâmico na experiência individual).

Apesar de serem descritas desde os primórdios do desenvolvimento,  as defesas do Self não devem ser compreendidas como apenas pelo escopo do desenvolvimento, diante de uma experiência que ameace a vida ou a integridade física podem ser ativadas de modo em situações onde a ameaça a vida, a integridade psicofísica e tal forma que as defesas do Ego não suportam. Assim, as defesas do self atuam como uma segunda linha de defesa (ainda que mais radical) para garantir a sobrevivência do Self, mesmo que sacrificando processos importantes do Ego.

A experiência Traumática e o trauma

As defesas do Self estão intimamente associadas a experiência traumática. Esta seria uma experiência insuportável que ameaça alguma forma a continuidade da vida.  Kalsched define “o trauma é uma experiência aguda ou acumulativa que nos estilhaça. O estilhaçamento é tanto o evento exterior que nos choca e o evento interior que chamamos de dissociação. ” (kalsched , 2010.p. 284 – tradução nossa) Essas experiências pode ser de Abandono afetivo, Abuso/Violência física, abuso/Violência sexual, Duplo Vinculo, Rejeição, Bullying, e, muitas vezes, ouvimos a expressão “era coisa se algo quebrasse dentro mim”.

É importante notar que esse sofrimento que estilhaça não tem lugar na psique, não é metabolizado em si, a defesa do self se instaura como uma forma afastar ou tentar neutralizar aquilo que de outra forma é insuportável, esse processo se dá especialmente pela divisão da experiência. Em outras palavras, separando afeto – imagem, Comportamento(ação) – Significado,  Compreensão – Percepção.

 A própria psique, ou o aspecto sombrio do Self, se incumbe em manter a dissociação, atacando os processos simbólicos (ou seja, integrativos), rompendo os vínculos exteriores assim como os vínculos interiores, que de outra forma poderiam integrar essa experiência. A própria psique atua como se reproduzisse a experiência do trauma em sonhos, sensações, intuições. Mantendo o processo dissociativo, evitando que vínculos de confiança.

vemos na personalidade saudável a luta em direção a um relacionamento equilibrado entre as energias do ego e do Self, de maneira que as energias do Self impregnam o ego, mas não o subjugam, nem lhe fornecem substitutos para gratificações humanas. A libido pode ser transferida através do limiar ego/Self e investida nas relações amorosas, interesses, compromissos etc. No trauma, contudo, a história é diferente. O sistema de autocuidado resiste a todo investimento da libido “nesta vida”, a fim de evitar uma ulterior devastação. As energias do mundo numinoso tornam-se, então substitutos para a autoestima que deveria proceder de gratificações personificadas no mundo humano. O transpessoal é colocado a serviço da defesa. (KALSCHED, 2013, p. 256)

A investigação dos processos de desenvolvimento é importante, pois, pessoas que vivenciaram trauma precoce não trazem a memória esses fenômenos traumáticos ou muitas vezes falam dele como se já estivesse sido elaborado. O trauma precoce ou o trauma na vida adulta, vão se caracterizar pela através da predominância das defesas (como citamos, de identificação projetiva e introjetiva, idealização, somatização, atuação e regressão) mais perceptível em transtornos de personalidade (esquizoide, narcisista, border-line, antissocial etc). Mas, também é comum em transtornos ansiosos e depressão onde a dificuldade autopercepção, confiança ou mesmo de percepção do ambiente.  São pessoas seguem na vida de forma funcional, em outras palavras, são pessoas que são bem adaptadas, produtivas, contudo sem uma experiência simbólica, onde a identificação com a persona, substitui uma experiência vida interior e significado.

Em certos casos, a sensação de ameaça, a impossibilidade de elaborar simbólica o sistema de autocuidado arquetípico levar o indivíduo ao suicídio, com uma defesa última a um sofrimento impensável.

Algumas considerações

Para finalizar, gostaria apenas de considerar alguns pontos

O modelo de desenvolvimento apontado por Fordham nos permite aprofundar nos quadros clínicos graves e os aspectos destrutivos ou defensivos da psique, compreendendo sua psicodinâmica dentro da uma perspectiva da individuação.

Na clínica é fundamental compreender a interação dialética com o ambiente – seja, ele passado, presente e o ambiente terapêutico ou transferencial. Nesse sentido, a compreensão do ambiente deve ser desde a perspectiva do indivíduo.

A reconstrução do eixo ego-self é um processo que precisa integrar as polaridades dissociadas da experiência do indivíduo, para tanto é necessário um ambiente suficientemente bom, isto é, um temenos capaz prover uma relação saudável  que possibilite o ego confrontar as defesas primitivas e abrir novas possibilidades de experiências.

Referência bibliográfica

KALSCHED,D. Working with Trauma in Analysis, in STEIN, M(org) Jungian Psychoanalysis, Chicago: Open Court, 2010

KALSCHED,D. O Mundo interior do Trauma, São Paulo:Paulus, 2013

Outras referências utilizadas

Astor, J. Michael Fordham: Innovations in Analytical Psychology. London: Routledge. , 1995

Fordham, M., The self and autism. The Library of Analytical Psychology Vol. III. William Heinemann Medical Books, London, 1976  

Fordham, M Explorations into the Self, Library of Analytical Psychology, Volume 7, London: Academic Press, 1985.

Fordham, M  New Developments in Analytic Psychology. London: Routledge & Kegan Paul, 1957

KALSCHED D.  Archetypal Affect, anxiety and defence in patients Who hace suffered early trauma  CASEMENT, ANN (ed.). Post-Jungians Today: Key Papers in Contemporary Analytical Psychology. London & New York: Routledge, 1998.

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Fabrício Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Diretor do Centro de Psicologia Analítica do CEPAES. Formação em Hipnose Ericksoniana. Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  desde 2012 Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 99316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@cepaes.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

Amazonas Contemporâneas

 

Por Indianara Pereira de Melo

É do conhecimento comum que a história se repete em ciclos. Particularmente, prefiro a imagem da espiral. Para que possamos compreender quais os passos a serem dados adiante, ou mesmo traçar algum prognóstico de alguma situação, é necessário que olhemos na história pregressa o que nos trouxe até este ponto. Quando se trata sobre o papel da mulher no mundo contemporâneo, é perceptível que muita coisa mudou desde a queima de sutiãs, passando pelo grito pelo direito ao voto e o advento da pílula anticoncepcional, até chegarmos no que está sendo popularmente conhecido e denotado como uma espécie de movimento feminazi. Porém, ao que devemos essa mudança extrema de comportamento e essas evoluções na psique feminina?

Por mais que anos e séculos tenham se passado, a psique humana não mudou muito desde a aurora de seus tempos. E isso quer dizer que continuamos sendo regidos e achando que regemos nosso comportamento primordial, por padrões de comportamentos internos conhecidos na Psicologia Analítica como arquétipos. Jung (2012) define os arquétipos como formas primordiais de transmissão de conteúdos que fazem parte da coletividade, ou seja, de todo o processo humano. São essespadrões de comportamento que são transmitidos ao longo do tempo e sobrevivem e se renovam com o passar das gerações e alterações da forma como se expressam. Pode parecer antagônico, mas não o é. Por exemplo, existem formas diferentes de se encarar aspectos de cunho Paterno, suas representações, sua imagética, o que se espera de um pai e etc. Porém, está intrínseca a ideia básica de que em todo lugar onde há um ser humano, há a experiência em torno da paternidade e isso é basicamente a definição na prática do que é arquétipo; experiências humanas que foram sendo repetidas ao longo das gerações e que geraram uma marca, um typos na psique humana e foram carregadas e passadas adiante ao longo dos tempos.  O arquétipo é em si uma grande potencialidade, porém nada mais é do que isso: potencialidade.

Dentro de toda representação psíquica Junguiana, os arquétipos localizam-se no Inconsciente Coletivo. Este último é o portador misterioso e paradoxal de toda problemática e história psíquica humana. E por estar aí alocado é que a forma que o arquétipo tem para ser notado é através da emersão à consciência: pelas representações mitológicas, contos de fadas e das manifestações culturais de um povo. Esse dinamismo trata da emersão dessa potencialidade traduzida na forma dessas representações culturais, culminando na produção do que chamamos deSímbolo. Este último nada mais é do que a possibilidade real, encarnada numa representação, numa imagem de qualquer natureza, da união dos opostos na psique.

Para a Psicologia Analítica, o símbolo faz parte do funcionamento compensatório e autorregulador da psique e seu dinamismo envolve a junção dos polos opostos nesta mesma psique, a compreender o Inconsciente e o Consciente. Como sua própria etimologia traz, símbolo significa unir, conjugar (KAST,2001); é o casamento perfeito entre potencialidades internas e externas, afim de colocar novamente a energia psíquica para fluir. Como se através dos arquétipos, excitados por alguma ação externa ou interna, movimentassem-se em direção à consciência e, ao chegarem nela, tomassem uma forma e carregassem uma grande carga de energia psíquica, que é desprendida no momento em que tocam à consciência e emergem como uma representação qualquer. Assim, a própria fabricação de símbolos e sua existência é necessária à saúde psíquica humana.4

Neste ponto, valho-me do mito de Hipólita, tida como Rainha das Amazonas, que fora derrotada por Héracles no seu nono trabalho. De acordo com Brandão (2012) tal tarefa lhe foi dada a pedido de Admeta, sacerdotisa de Hera, cobiçosa pelo cinto da rainha das amazonas. Este cinto havia sido um presente do deus Ares, deus das querelas aguerridas, para Hipólita, tida como sua filha, e figurava como um símbolo de poder e reinado por direito sobre as amazonas. O herói parte acompanhado de outros heróis gregos, Teseu inclusive, para a terra das amazonas e lá chegando consegue conversar com a
rainha e obter-lhe a promessa do cinto. Entretanto, Hera, disfarçada de uma amazona, incita a batalha entre os gregos e as guerreiras, de forma que Héracles, achando que havia sido enganado pela rainha Hipólita, rapta suas irmãs e mata-a, pedindo à nova rainha Melanipe como resgate pelas mulheres raptadas o cinturão em questão, objeto que é cedido em troca das guerreiras.

Vê-se nos âmbitos externos a acirrada querela entre homens e mulheres, de modo que as mulheres hoje mostram-se mais combativas, chegando ao ponto da misandria. Mesmo aquelas que enxergam as demasiadas intervenções de suas irmãs de luta, são obrigadas a calar-se, pois nenhuma mulher pode calar a boca de uma outra mulher.Não parece haver mais um ponto comum de acordo ou de possível diálogo, tal qual houve entre os heróis gregos e as amazonas inicialmente. Parece haver um espaço de não espaço, uma realidade líquida como defende Bauman, onde discursos são expelidos, vomitados e pouco diálogo real acontece. Invoco aqui o mito das amazonas e de sua rainha para vivificar e apontar que novamente a história parece estar se repetindo, pelo menos a nível psicológico.

De acordo com Gheerbrante & Chevalier (2009), as amazonas eram tidas como mulheres guerreiras que se auto governavam e que não permitiam a presença de homens em suas tribos. Alguns poetas antigos dizem ainda que eram tão habilidosas nas artes da guerra que eram favoritas do deus Ares, tendo este deus tido com uma de suas rainhas quatro filhas: Hipólita, Melanipe, Pentesileia e Antíope. Posteriormente, Hipólita viria a governar sua tribo e, após sua morte e rapto de suas irmãs, esse título e fardo passa a sua irmã Melanipe. Os autores ainda denotam que as amazonas eram conhecidas por cultuar em especial Ártemis, dada a semelhança de seu culto e iconografia aos seus estilos de vida. Diz-se que chegavam a extirpar um dos seios para terem melhor mobilidade com a lança e com o arco, fato que é parcialmente confirmado pela iconografia existente até os dias de hoje na arte.3

Da mesma forma que as amazonas de outrora, esse séquito militante do movimento feminista parece estar muito arraigado na vivência areica e artemísia de sua psique; expurgam-se os homens e qualquer coisa que lembre o masculino e entram-se em disputas acirradas, onde muitas vezes falta a lógica e a estratégia, aspecto atenéico tão comum. Nessa emersão tão profunda, nessa quase possessão arquetípica, esquecem-se que muitas vezes é necessário fazer uma aliança para evitar uma maior tragédia e, tal como Hera disfarçada de amazona, incita as guerreiras para a batalha contra os heróis gregos. Parece haver toda uma frustração, uma angústia e raiva por todos os anos estando longe da igualdade com o masculino e que está sendo desencadeada na contemporaneidade contra esse mesmo masculino. Esse movimento, esse brado pelo combate é, na verdade, uma corrida a largos galopes para o extremo oposto da subserviência e da submissão a qual foram obrigadas ao longo dos séculos.

Ao tomarmos a mitologia como um grande exemplo de representação arquetípica, ou seja, simbólica,  é possível perceber um movimento inverso, um correr ao contrário, das vivências e experiências do que é o feminino contemporâneo em relação a toda uma construção histórica predominantemente patriarcal. Esse movimento psíquico é conhecido como enantiodromia. Jung toma emprestado o termo grego para referir-se a esse movimento de correr para o extremo oposto antes de conseguir achar o balanço correto e retomar o equilíbrio psíquico adequado; que é dinâmico e não estático,

Quanto mais o nível da carga energética, tanto mais atitude repressiva assume um caráter fanático e, por conseguinte tanto mais se aproxima da conversão em seu oposto, isto é, da chamada enantiodromia. Quanto maior for a carga da consciência coletiva, tanto mais o eu perde sua consciência prática. (Jung, 2012, p. 169)

2Ocasionando assim uma certa falta de reflexividade e o nivelamento pelocomportamento do coletivo. Ao incitar a guerra entre gregos e amazonas, estas últimas acabam por perder, não por serem fracas ou menores do que os heróis gregos, mas porque recusaram-se a reconhecer sua incompletude e fazer uma aliança sadia e dialética e tornarem-se, de certa forma, mais completas.

Ao olharmos um pouco mais de perto o mito, vemos que é um dos 12 trabalhos outorgados à Héracles a obtenção de tal cinto. Alocado como o Nono trabalho, esse parece ser mais um que demandaria muitos recursos, negociação e, talvez, luta. Porém o que acontece, a princípio pelo menos, é o contrário. Héracles consegue a promessa da rainha que obterá o cinto. Ao observarmos a representação do número nove em algumas culturas, chegamos a alguns pontos interessantes. Tal número parece estar ligado à perfeição e à completude. É o número correto da gestação humana, é o número das Musas, filhas de Zeus, e detentoras de toda arte e eloquência e forma de comunicação humana; é também o número de ciclos celestiais e infernais para algumas culturas, tais como a asteca e partes da cultura chinesa (CHEVALIER & GHEEBRANT, 2009). Para além disso, o número nove, apesar de ser considerado um número masculino, por ser um número ímpar, é também considerado um número feminino, pois associa-se facilmente à ideia da divindade feminina tríplice, posto que nove é 3×3, ou seja, é passivo e agressivo em si. Além disso, o número 9 encerra em si o conceito de completude e reinício, pois após ele há o número zero e assim é um final e um recomeço de ciclos.

O número nove é também reconhecido como um número que induz à iniciação; os Mistérios de Elêusis, mistérios que celebravam o feminino, a morte e o renascimento, iniciavam seus candidatos num período de nove dias; os romanos celebravam uma festa de purificação para os meninos quando estes completavam nove dias de nascido. Em suma, o número nove “Simboliza a própria jornada do iniciado rumo à autocompreensão (…). O iniciado também precisa, no fim, voltar a si mesmo (Nichols, 2007, p. 179), de  maneira semelhante à mensagem transmitida pelo nono arcano do tarô ‘O eremita’, que induz a uma jornada de busca interna, afim de religar novamente as pontas que estão soltas na psique. É possível dizer então que o nono trabalho encerra em si uma busca pela completude, pela conjunção e casamento das forças masculinas e femininas internas que são reforçadas externamente pela imagética do cinturão portado por Hipólita.

Como já dito, o cinturão fora um presente do deus Ares à rainha das amazonas, sua filha Hipólita. A imagem do cinturão perpassa diversas culturas e em grande parte delas possui um significado análogo ao do anel: uma aliança entre o portador do cinto e aquele que o ofertou. O cinturão denota um status, é também um símbolo de poder visível aos outros, uma marca indelével e amplamente visível de um posto ocupado. É em si mesmo uma outra grande representação do poder. Em si mesmo, o cinto possui duas características: o ligar e o religar.

Ao religar (atar, ligar bem), o cinto tranquiliza, conforta, dá força e poder; ao ligar (apertar, prender), ele leva, em troca à submissão, à dependência e, portanto, à restrição – escolhida ou imposta – da liberdade. (Chevalier & Gheerbrant, 2009, p. 245)1

Ao deter tais características, a representação do cinturão expressa, antes de tudo, um símbolo para um relacionamento, um símbolo da aliança, um comum acordo existente; a materialização de um compromisso. Quando Héracles obtém de Hipólita a promessa do cinto, obtém dela, na verdade, uma promessa de aliança, ao passo que ela abdica de bom grado de seu posicionamento enquanto amazona, em prol dessa aliança com o masculino. Ao abdicar de seu cinturão, Hipólita promove e estimula a conjunção pacífica com o masculino, ela possibilita a coniunctio, procurando evitar o conflito que parecia ser certo. Todavia Hera frustra os planos de ambos e acaba por incitar o conflito. Por que a deusa do casamento e da feminilidade, soberana do Olimpo, atrapalharia uma aliança digna e justa, feita de comum acordo?

Além de toda irritação e mágoa por Héracles ser a materialização do rompimento de seus votos, pois este é fruto de uma união ilícita, há também o desejo de que haja a morte dessa mulher viril, masculinizada ao excesso, para possibilitar uma união entre o intrinsecamente feminino e o intrinsecamente masculino (BRANDÃO, 1991). Então, numa tentativa de possibilitar uma união lícita, através da morte desse excesso do masculino em Hipólita, Hera acaba por estragar os próprios planos quando se deixa cegar pela raiva e frustração que Héracles representa frente à sua união lícita com Zeus. Assim, é possível traçar um paralelo com a situação contemporânea dentro da exarcebação do movimento feminista, culminando no séquito das feminazi.

Da mesma forma que as amazonas, numa tentativa de exaltar em excesso o feminino, essa parcela extremista do movimento feminista acaba criando uma caricatura de um feminino viril. Na tentativa de fazer com que tudo gire ao redor do feminino e tenha o feminino enquanto alpha e ômega, tais sujeitos acabam assumindo uma postura extremamente briguenta e masculinizada, indo para o extremo oposto da subserviência; quase uma caricatura de um moleque macho (conforme é dito jocosamente acerca das meninas que brincam como os meninos, no Nordeste do Brasil). Criam uma aliança com o aspecto aguerrido irracional areico e, assim como Hipólita uma vez, usam de bom grado o cinturão concedido pelo deus. Entretanto, não conseguem trabalhar e reconhecer que para haver uma melhora de situação e uma evolução psíquica/social/cultural é preciso reconhecer a importância do outro, do masculino real e abdicar dessa masculinização, desse excesso de virilidade em prol de uma real conjunção, de uma real coniunctio, e acabam tomadas por toda raiva, frustração e desejo de vingança contra o masculino.

Mitos e contos não são apenas histórias, são expressões travestidas de cultura, de uma realidade psíquica de um povo; elas detêm em si as dicas do que está acontecendo, sempre aconteceu e como acontecerá. Quando elas conseguem tocar o sujeito, elas promovem uma renovação e indicam uma possível resolução a um problema existente e, muitas vezes, um possível prognóstico. Se olharmos com atenção, o movimento psíquico é cíclico e espiral. Então, tal como o mito, talvez essa guerra toda seja necessária para expurgar os fantasmas do ressentimento contra opatriarcado opressor. Porém, é necessário que enxerguemos como toda essa história se desenvolveu até chegar ao fim; foi necessário a morte da rainha e o rapto de duas princesas amazonas antes que uma terceira pudesse ceder novamente de bom grado o cinturão ao herói. Quantas princesas, quantas potencialidades mais teremos que perder para perceber que provavelmente o mais sensato é compartilhar e conjugar? Talvez, o mais sensato mesmo seja abdicar do desejo cego e irracional de poder e compartilhar os aspectos necessários à evolução de ambos os gêneros, em direção à completude e uma melhor convivência. 

Referências Bibliográficas

CHEVALIER, J. & GHEERBRANT, A. Dicionário de símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. 24ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2009;

BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega, vol. III. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012;

____________ Dicionário mítico-etimológico de mitologia grega. Petrópolis, RJ: Vozes, 1991;

JUNG, C. G. A natureza da psique. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012;

_________Os Arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012;

KAST, V. Sonhos: A linguagem enigmática do inconsciente. Petrópolis, RJ: Vozes, 2010;

NICHOLS, S. Jung e o Tarô: uma jornada Arquetípica. São Paulo: Cultrix, 2007.

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Indianara Pereida de Melo (CRP 16/4364)

Psicóloga Clínica de Orientação Junguiana, Especialista Teoria Junguiana pela Clínica Psiquê/Faculdade Hélio Rocha (BA). Atuou ministrando aulas enquanto especialista na teoria Junguiana. Tem experiência na área da Psicologia Social e Dependência Química.Realiza atendimento a crianças, adolescentes e adultos e é facilitadora do Grupo de Estudos – Kairós e da Vivência Terapêutica – “Roda das Deusas”.

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