Ocupação das Escolas no Brasil : Heroísmo e Individuação

Nos últimos dias temos visto crescer o número de escolas e universidades ocupadas por estudantes em nosso país. Essas ocupações são uma expressão de vida e resistência contra o total descaso do governo com a educação, com a saúde e com o futuro de nosso país. A reforma do ensino médio, a proposta de “escola sem partido” e a PEC 241 que impõe o teto aos gastos públicos, explicitam não só que a crise econômica que vivemos mas, uma grave crise moral que ainda precisamos a enfrentar: da naturalização das desigualdades, da corrupção e da culpabilização dos oprimidos.

Diante desta realidade, temos a ocupação das escolas e, tivemos o indescritível discurso da adolescente Ana Julia Pires Ribeiro (PR) na Assembleia Legislativa do Paraná(ALEP) (vide vídeo abaixo). Devemos ter clareza que, quando na psicologia junguiana falamos de individuação, de arquétipos e mitos (em especial do herói), falamos da realidade em que vivemos no aqui e no agora! E por isso mesmo não podemos deixar de reconhecer e viver um momento arquetípico que vivemos. Nada expressa tão bem o impulso heroico que a busca pela transformação, enfretamento de injustiças sociais, a defesa da cidadania e a luta pelo bem comum.

Jung afirmava que “O processo de individuação tem dois aspectos fundamentais: por um lado, é um processo interior e subjetivo de integração, por outro, é um processo objetivo de relação com o outro, tão indispensável quanto o primeiro” (Jung, 1999, p. 101). Precisamos ter clareza que a nossa individuação está sempre em relação com a individuação do outro, com o processo individuação de nossa época.  Individuação implica em contato, experiência e abertura.

Dessa forma, não basta tentar “compreender intelectualmente” o fenômeno das ocupações nas escolas; é necessário nos permitir viver, participar, ser afetado e tomar parte. O impulso de individuação, o impulso heroico sempre se confronta com as forças do “status quo”, com a resistência à transformação que muitas vezes se manifesta pela desqualificação dos agentes de mudança ou com a imposição do medo. Isso ocorre tanto no indivíduo (na neurose pessoal) quanto na esfera coletiva – por meio, do jogo de desinformação, as acusações e tudo que promova a imobilidade e a estagnação.

O dinamismo arquetípico do herói se faz no enfrentamento, no movimento, na esperança, na aposta da mudança. Essa é energia necessária ao processo de individuação, e individuação exige responsabilidade – consigo mesmo e com o outro, com o particular e com o coletivo. Assumir essa responsabilidade diante da vida é compreender a individuação.

O discurso da estudante Ana Julia Pires Ribeiro teve repercussão internacional mobilizando inúmeras pessoas tanto a favor quanto contra. O mais importante é que nos chama a responsabilidade pela educação, pela juventude e pelo futuro. A juventude sempre foi a anunciadora da mudança, da possibilidade e transformação. Em nossa realidade, creio que devemos nos mobilizar, nos afetar diante da força e entusiasmo dos jovens de nosso país. Para assim, apoia-los, contribuindo com suas necessidades no processo de ocupação e, assim podermos vivenciar juntos o processo de transformação social que precisamos.

“Toda referência ao arquétipo, seja experimentada ou apenas dita, é “perturbadora”, isto é, ela atua, pois ela solta em nós uma voz muito mais poderosa do que a nossa. Quem fala através de imagens primordiais, fala como se tivesse mil vozes; comove e subjuga, elevando simultaneamente aquilo que qualifica de único e efêmero na espera do contínuo devir, eleva o destino pessoal ao destino da humanidade. E com isso solta em nós aquelas forças benéficas que desde sempre possibilitaram a humanidade salvar-se de todos os perigos e também sobreviver à mais longa noite.” (JUNG, 1999b, p. 70).

 

Referências bibliográficas

JUNG, C.G. Ab-reação Analise de Sonhos, Transferência, Petropolis:Vozes, 1999.

JUNG, C.G. O espirito na arte e na ciência, Petropolis: Vozes, 1999b

 

——————————————————–

Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

www.psicologiaanalitica.com

mandala