As Defesas do Self e a Experiência Traumática

Nota: Texto apresentado na IV Jornada Junguiana na Multivix em 15/06/2019. Publicado originalmente no site do CEPAES.

A psicologia analítica é uma abordagem ampla e heterogênea, que comporta uma diversidade pensamentos. No Brasil, temos uma presença mais clara do pensamento clássico e da psicologia arquetípica. Contudo, gostaria de trazer para vocês hoje uma reflexão pautada no pensamento inglês, na chamada escola desenvolvimentista – que tem como expoente o analista inglês Michael Fordham, cujo pensamento vem sendo uma influência muito importante para o CEPAES.

A Escola Desenvolvimentista recebeu essa nomenclatura dada por Andrew Samuels por enfatizar os processos de desenvolvimento, isto é, a infância, e seus desdobramentos na vida adulta e nos processos transferenciais e manejo clinico.

Assim, nossa proposta é falar das defesas do Self e a Experiência traumática dentro desse enquadre teórico, para tanto precisamos fazer algumas contextualizações refletir acerca do Self no processo desenvolvimento das relações com o ambiente. 

O Self e o desenvolvimento

Jung definiu o Self como o arquétipo da totalidade e centralidade, isto é, como sendo o centro e a totalidade da psique, juntamente com o atributo de ser o centro organizador da psique. Como o trabalho de Jung se direcionou aos processos do desenvolvimento adulto, em especial, da meia idade onde os processos integrativos do Self se manifestavam de forma intensa e simbólica, ao que Jung denominou, o processo de individuação e, assim a realização do Self.

Os estudos de Jung acerca do Self, tomaram novos contornos quando aplicados ao processo de desenvolvimento na infância. Um dos pioneiros da análise de crianças foi Michael Fordham, que em 1935 começou o atendimento de crianças na Inglaterra, que eram vítimas dos traumas de guerra (crianças evacuadas das cidades), crianças psicóticas e com transtorno do espectro autista . Deve-se notar, que Fordham desenvolveu seu trabalho em paralelo com o trabalho de Melaine Klein e do Middle group da sociedade psicanalítica de Londres, com pensadores como Winnicott, Fairbain, Bion dentre outros, com os quais Fordham se relacionou e ampliou as discussões teóricas.

Em sua prática, Fordham observou que havia uma autonomia na atividade inconsciente, que impelia a criança ao desenvolvimento desde que houvesse um ambiente adequado ou um ambiente suficiente bom. Observando que a tese defendida por Jung de que as neuroses ou transtornos  infantis eram uma derivados das neuroses dos pais era uma visão parcial e limitada, pois, as crianças tinham conflitos infantis próprios da criança e assim como derivados o ambiente (na relação com os pais), por outro lado, observou que independente de grandes mudanças na dinâmica parental ou na neurose dos pais haveria sim uma melhora significativa da criança e de seus processos de amadurecimento ou de individuação. A atividade do self seria  ativa e intensa desde a vida intra-uterina.

Em 1957, Fordham publicou o livro “New Developments in Analytical Psychology”, prefaciado por Jung, onde ele apresentou as bases de sua teoria acerca do desenvolvimento e do Self. Para Fordham, a criança na primeira infância não teria uma experiência propriamente psíquica, a experiência compreendida como psicossomática, com  um Self integrado, onde não haveria uma distinção entre corpo e Psique, nem ainda haveria um Ego, a esse Self original, manifesto como uma unidade psicossomática, ele chamou de Self primário (que  correspondia ao que Neumann viria a chamar de “fase uriborica” ou self corporal).

Como unidade psicossomática, os processos do Self primário do bebe, estão associados a processos fisiológicos, que seja pela necessidade (fome, saciedade, frio, incomodo tátil, incomodo intestinal) ou por estimulação do meio (luz, som, movimentação, cuidado) estariam ativariam diferentes aspectos Self, a ativação a possibilidade arquetípica de reconhecimento e ter respostas (de satisfação ou insatisfação) Fordham chamou de “deintegração” a essa ativação de diferentes aspectos do Self– com o processo de descanso, sono, essa atividade do Self seria reintegrada, formando as bases para o processo de desenvolvimento.   

Ainda não há uma consciência capaz de sustentar imagens, representações, nem distinção de realidade interior ou exterior. Para a criança, a mãe não é percebida em totalidade ou como outro, a mãe é uma experiência que supre suas necessidades. Por esse motivo, por não haver distinções, nem representações, logo, nem símbolos, falamos de objetos.

Essas locais e situações que ativam o processo de deintegração-reintegração  do Self, são chamados de primeiros objetos do Self, ainda indiferenciados, apenas elementos onde a atividade a energia ou libido se direciona, com o tempo objetos do Self, em formam em si pequenas ilhas de consciência,  núcleos esparsos de consciência, as representações do Self, com o processo de amadurecimento e a atividade integradora do Self, esses núcleos ou representações do Self, vão se integrar dando origem, ao longo de um longo período da primeira infância ao Ego.

Os Self e os Processos Integrativos

Até aqui, descrevi um pouco dos processos do Self, contudo, o processo de amadurecimento neurológico e fisiológico do bebe e os cuidados maternos o colocam em relação com o ambiente – com o entorno que ainda é indistinto para a criança, mas, que aos poucos vai se apresentando como uma realidade que ela não é capaz de controlar, percebendo como um objeto distinto de si mesma. A medida que a criança adquire uma capacidade de se relacionar com objetos (o mamilo da mãe, os brinquedos, as roupas, as sensações) que qualitativamente se manifestam como satisfatórias ou positivas (que produzem saciedade) ou insatisfatórias ou negativas (que produzem insasciedade) essas experiências produzem os objetos de apreço ou de rejeição, os objetos bons e maus.

Com o amadurecimento das funções sensoriais que possibilitam a relação com o ambiente, assim como o desenvolvimento da memória, que sustentam a experiência de onipotência( como se fosse capaz fazer aparecer o objeto bom – o seio no caso da fome, ou afastar o objeto mau, o incomodo com as roupas ou fraudas)  essa onipotência está relacionada com  da criança se torna capaz a sustentar a imagem percebida mesmo na ausência do objeto, ou mesmo evoca-la, alucinando a presença do objeto bom, de satisfação – ou pode alucinar negativamente o objeto mau, de desprazer.

Esse processo de alucinação é a base do processo de representação, da construção de consciência. Nesse processo alucinatório toma elementos da percepção de objetos externos e os mescla sensações ou afetos interiores – numa identidade psíquica ou, como Jung nomeava, utilizando de Lévi-Bruhl, participação mística.

A relação com os objetos ainda indiferenciados e o gradativo processo de amadurecimento possibilita o processo de diferenciação entre os objetos, onde os objetos externos são preenchidos com os objetos internos, formando um campo representacional que não corresponde nem a realidade interior nem a exterior, mas intermediária. Winnicott denominou essa área de “espaço potencial”, onde se desenvolvem os “objetos transicionais”, que são os primeiros símbolos do Self, expandindo as possibilidades da consciência de uma função basal adaptativa para uma função simbólica e representacional da consciência.

O espaço potencial é um espaço distinto da realidade interior e exterior, mas, se constitui na interpenetração das duas. Esse é o espaço representacional, imaginal onde é possível se constituir a função transcendente e a elaboração simbólica. Para tanto, é necessária uma relação adequada ou suficientemente boa com o ambiente, expresso nas relações ambientais.

Os processos de constituição do Ego e das relações objetais vão caracterizar o processo individuação na infância.

O Ambiente

O ser humano se torna humano mediante a relação com outro ser humano. Nosso ambiente para além do ambiente natural é o ambiente simbólico. Assim, para a criança em seus primeiros anos a mãe não é uma pessoa, mas, é o ambiente da criança. A relação com a mãe vai mediar a relação com os objetos. Contudo, devemos compreender que a mãe é a primeira experiência de ambiente, mas, estão se restringe a ela. Ao longo da infância a relação com o ambiente relacional, familiar e social vai possibilitar a humanização do potencial arquetípico fornecendo ao ego recursos que serão referência – seja participando da organização, estabilidade e força do Ego ou na dinâmica dos complexos – para futuras relações com o ambiente ou realidade.

As relações objetais irão compor os padrões de resposta que serão integrados tanto a experiência de constituição do Ego quanto a experiência dos complexos. Quando falamos num ambiente “materno suficientemente bom” na infância nos referimos a um ambiente de segurança e nutrição, onde a criança poderá estabelecer relações e vínculos saudáveis e uma capacidade simbólica que possibilita elaborar as adversidades sem um risco maior a estrutura do Ego.

Ao longo da vida, as experiências com o ambiente, que podemos nomear aqui como psicossociais, vão interferir diretamente nas relações que o ego estabelece tanto consigo mesmo quanto com o ambiente. Essas experiências podem ser desde mudanças na família, trabalho e idade, e implica no estabelecimento de uma nova possibilidade de amadurecimento.

Apenas um aspecto fundamental: O ambiente é sempre relativo a uma realidade psíquica. Ou seja, devemos compreender o ambiente em relação a quem indivíduo, isto é, ao ego que está em relação com o ambiente. O Ambiente é sempre relacional.

As Defesas do Self  

Em 1974, Fordham publicou um pequeno artigo chamado “Defences of The Self” onde, a partir de uma discussão clínica acerca da transferência psicótica, apontou de forma mais clara uma categoria de defesa que não se relacionava com defesas do Ego, mas, defesas intensas que não distinguiam o objeto em si, mas, eram defesas totais, manifestas como proteção contra a ameaça, abandono ou risco de destruição. Esse tipo de defesa, promoveria uma forma de barreira de proteção contra total contra o objeto ou o ambiente que é compreendido como nocivo ou ameaçador.

Fordham também utiliza uma analogia realizada pelo analista Leopold Stein, onde os aspectos defensivos atuariam com ao sistema autoimune, e em determinados casos que poderiam se voltar contra própria a própria psique, impedindo o desenvolvimento de relações objetais, da simbolização ou mesmo do processo de individuação.

Essas defesas do Self se caracterizam pela identificação projetiva, idealização, atuação (act out), somatização e regressão (dentre outras).

Em si, as defesas do Self apontam para a autonomia e capacidade do Self, desde o início do processo de desenvolvimento, em estabilizar, regular e manter a possibilidade de vida. A questão é quando os processos de defesa se mantém tempo demais, ficando fixada e aí assumem um caráter patológico.

Isso envolve um ataque à própria capacidade de experienciar a si mesmo, o que significa “atacar os vínculos” entre imagem e afeto, a percepção e pensamento, a sensação e conhecimento. O resultado é que essa experiência se torna sem sentido, a memória coerente é “desintegrada” e a individuação é interrompida.” (Kalsched, 2013 p. 76)

É importante considerarmos os processos defensivos do Self como base para se pensar transtornos do desenvolvimento como o transtorno do espectro autista, assim como pensar transtornos de personalidade como esquizóide, borderline dentre outros. Esses transtornos estão associados a experiências do Self, que interferem diretamente na experiência e formação do Ego – prejudicando o processo de vinculação, autopercepção, elaboração simbólica dentre outros.

As defesas do Self  cujo processo defensivo não é atualizado (ou seja, não evolui como as defesas egoicas), implica numa fixação do processo defensivo que, Donald Kalsched, descreveu como ataque aos vínculos e proteção do “espírito pessoal” ( uma forma de nomear o Self em seu aspecto dinâmico na experiência individual).

Apesar de serem descritas desde os primórdios do desenvolvimento,  as defesas do Self não devem ser compreendidas como apenas pelo escopo do desenvolvimento, diante de uma experiência que ameace a vida ou a integridade física podem ser ativadas de modo em situações onde a ameaça a vida, a integridade psicofísica e tal forma que as defesas do Ego não suportam. Assim, as defesas do self atuam como uma segunda linha de defesa (ainda que mais radical) para garantir a sobrevivência do Self, mesmo que sacrificando processos importantes do Ego.

A experiência Traumática e o trauma

As defesas do Self estão intimamente associadas a experiência traumática. Esta seria uma experiência insuportável que ameaça alguma forma a continuidade da vida.  Kalsched define “o trauma é uma experiência aguda ou acumulativa que nos estilhaça. O estilhaçamento é tanto o evento exterior que nos choca e o evento interior que chamamos de dissociação. ” (kalsched , 2010.p. 284 – tradução nossa) Essas experiências pode ser de Abandono afetivo, Abuso/Violência física, abuso/Violência sexual, Duplo Vinculo, Rejeição, Bullying, e, muitas vezes, ouvimos a expressão “era coisa se algo quebrasse dentro mim”.

É importante notar que esse sofrimento que estilhaça não tem lugar na psique, não é metabolizado em si, a defesa do self se instaura como uma forma afastar ou tentar neutralizar aquilo que de outra forma é insuportável, esse processo se dá especialmente pela divisão da experiência. Em outras palavras, separando afeto – imagem, Comportamento(ação) – Significado,  Compreensão – Percepção.

 A própria psique, ou o aspecto sombrio do Self, se incumbe em manter a dissociação, atacando os processos simbólicos (ou seja, integrativos), rompendo os vínculos exteriores assim como os vínculos interiores, que de outra forma poderiam integrar essa experiência. A própria psique atua como se reproduzisse a experiência do trauma em sonhos, sensações, intuições. Mantendo o processo dissociativo, evitando que vínculos de confiança.

vemos na personalidade saudável a luta em direção a um relacionamento equilibrado entre as energias do ego e do Self, de maneira que as energias do Self impregnam o ego, mas não o subjugam, nem lhe fornecem substitutos para gratificações humanas. A libido pode ser transferida através do limiar ego/Self e investida nas relações amorosas, interesses, compromissos etc. No trauma, contudo, a história é diferente. O sistema de autocuidado resiste a todo investimento da libido “nesta vida”, a fim de evitar uma ulterior devastação. As energias do mundo numinoso tornam-se, então substitutos para a autoestima que deveria proceder de gratificações personificadas no mundo humano. O transpessoal é colocado a serviço da defesa. (KALSCHED, 2013, p. 256)

A investigação dos processos de desenvolvimento é importante, pois, pessoas que vivenciaram trauma precoce não trazem a memória esses fenômenos traumáticos ou muitas vezes falam dele como se já estivesse sido elaborado. O trauma precoce ou o trauma na vida adulta, vão se caracterizar pela através da predominância das defesas (como citamos, de identificação projetiva e introjetiva, idealização, somatização, atuação e regressão) mais perceptível em transtornos de personalidade (esquizoide, narcisista, border-line, antissocial etc). Mas, também é comum em transtornos ansiosos e depressão onde a dificuldade autopercepção, confiança ou mesmo de percepção do ambiente.  São pessoas seguem na vida de forma funcional, em outras palavras, são pessoas que são bem adaptadas, produtivas, contudo sem uma experiência simbólica, onde a identificação com a persona, substitui uma experiência vida interior e significado.

Em certos casos, a sensação de ameaça, a impossibilidade de elaborar simbólica o sistema de autocuidado arquetípico levar o indivíduo ao suicídio, com uma defesa última a um sofrimento impensável.

Algumas considerações

Para finalizar, gostaria apenas de considerar alguns pontos

O modelo de desenvolvimento apontado por Fordham nos permite aprofundar nos quadros clínicos graves e os aspectos destrutivos ou defensivos da psique, compreendendo sua psicodinâmica dentro da uma perspectiva da individuação.

Na clínica é fundamental compreender a interação dialética com o ambiente – seja, ele passado, presente e o ambiente terapêutico ou transferencial. Nesse sentido, a compreensão do ambiente deve ser desde a perspectiva do indivíduo.

A reconstrução do eixo ego-self é um processo que precisa integrar as polaridades dissociadas da experiência do indivíduo, para tanto é necessário um ambiente suficientemente bom, isto é, um temenos capaz prover uma relação saudável  que possibilite o ego confrontar as defesas primitivas e abrir novas possibilidades de experiências.

Referência bibliográfica

KALSCHED,D. Working with Trauma in Analysis, in STEIN, M(org) Jungian Psychoanalysis, Chicago: Open Court, 2010

KALSCHED,D. O Mundo interior do Trauma, São Paulo:Paulus, 2013

Outras referências utilizadas

Astor, J. Michael Fordham: Innovations in Analytical Psychology. London: Routledge. , 1995

Fordham, M., The self and autism. The Library of Analytical Psychology Vol. III. William Heinemann Medical Books, London, 1976  

Fordham, M Explorations into the Self, Library of Analytical Psychology, Volume 7, London: Academic Press, 1985.

Fordham, M  New Developments in Analytic Psychology. London: Routledge & Kegan Paul, 1957

KALSCHED D.  Archetypal Affect, anxiety and defence in patients Who hace suffered early trauma  CASEMENT, ANN (ed.). Post-Jungians Today: Key Papers in Contemporary Analytical Psychology. London & New York: Routledge, 1998.

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Fabrício Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Diretor do Centro de Psicologia Analítica do CEPAES. Formação em Hipnose Ericksoniana. Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  desde 2012 Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 99316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@cepaes.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

Arquétipos, Representações Arquetípicas e o Processo de humanização

Fabrício Fonseca Moraes

Kelly Guimarães Tristão

Há pouco tempo conversamos no grupo “Aion – Estudos Junguianos” sobre arquétipos e humanização dos arquétipos. Tal conversa gerou o interesse e a sugestão para que fosse escrito um texto a esse respeito, especialmente no que tange ao aspecto da “humanização dos arquétipos”. Assim, este texto tem por objetivo revisar alguns pontos fundamentais da teoria dos arquétipos e discutir a relação das representações arquetípicas em nossa realidade psíquica.

O “Arquétipo em si”

O conceito de arquétipo é central no pensamento junguiano, contudo, frequentemente percebemos uma certa dificuldade para lidar e compreender o conceito em toda sua extensão. Um primeiro aspecto a ser considerado é a confusão entre arquétipo e imagem ou representação arquetípica.  Jung chamava a atenção para essa distinção,

Não devemos confundir as representações arquetípicas que nos são transmitidas pelo inconsciente com o arquétipo em si. Essas representações são estruturas amplamente variadas que nos remetem para uma forma básica irrepresentável que se caracteriza por certos elementos formais e determinados significados fundamentais, os quais, entretanto, só podem ser apreendidos de maneira aproximativa. O arquétipo em si é um fator psicóide que pertence, por assim dizer, à parte invisível e ultravioleta do espectro psíquico. Em si, parece que o arquétipo não é capaz de atingir a consciência. Se ouso formular esta hipótese, é porque qualquer coisa de natureza arquetípica percebida pela consciência parece representar um conjunto de variações sobre o mesmo tema fundamental. (…) parece-me provável que a verdadeira natureza do arquétipo é incapaz de tornar-se consciente, quer dizer, é transcendente, razão pela qual eu a chamo de psicóide. Além disto, qualquer arquétipo torna-se consciente a partir do momento em que é representado, e por esta razão difere, de maneira que não é possível determinar, daquilo que deu origem a essa representação. (Jung, 2000, p 150)

Para tornar mais clara essa distinção, penso que seja funcional compreender que toda vez que usamos o termo “arquétipo” seguido de um complemento, p.ex. “arquétipo da Grande mãe” ou “arquétipo do herói”, nos referindo a uma manifestação do arquétipo ou de um dinamismo arquetípico, nos referimos uma representação arquetípica. Da mesma maneira, toda vez que usamos a forma adjetivada “arquetípico” ou “arquetípica” nos referimos igualmente a uma representação ou imagem arquetípica. Quando, por outro lado,  nos referimos ao arquétipo como aquele aspecto fundamental do inconsciente coletivo, aos padrões basais de organização psíquica, nos quais o drama de nossa história evolutiva está sintetizado, aí estaremos falando do “arquétipo em si”.

Jung apresentou três aspectos importantes para pensarmos o “arquétipo em si” são eles: 1 – o arquétipo é psicóide. 2 – o arquétipo não chega a consciência. 3 – o arquétipo se torna consciente ao ser representado.

 Primeiro, devemos esclarecer o termo psicóide. Sobre esse termo, Jung afirma

Se uso o termo “psicóide”, faço-o com três ressalvas: a primeira é que emprego esta palavra como adjetivo e não como substantivo; a segunda é que ela não denota uma qualidade anímica ou psíquica em sentido próprio, mas uma qualidade quase psíquica, como a dos processos reflexos; e a terceira é que esse termo tem por função distinguir uma determinada categoria de fatos dos meros fenômenos vitais, por uma parte, e dos processos psíquicos em sentido próprio, por outra. Esta última distinção nos obriga também a definir com mais precisão a natureza e a extensão do psíquico, e de modo todo particular do psíquico inconsciente.(Jung, 2000, 116)

O psicóide se refere a um nível de realidade que não é nem propriamente físico (ou fisiológico) nem propriamente psíquico. Para melhor explicar essa realidade, Jung utilizou a imagem do fóton da física para auxiliar a compreensão desta, pois o fóton teria como propriedade se manifestar ora como partícula, ora como onda. Do mesmo modo, o arquétipo ou a realidade do inconsciente coletivo se manifesta “como algo que ora se dá como psíquico, ora como físico”( DAMIÃO, 2005, p.25). Ao evocar a teoria quântica, Jung ampliou o horizonte epistemológico da psicologia analítica compreendendo a realidade como complexa, não definida por dicotomias.

Como a psique e a matéria estão encerradas em um só e mesmo mundo, e, além disso, se acham permanentemente em contato entre si, e em última análise, se assentam em fatores transcendentes e irrepresentáveis, há não só a possibilidade mas até mesmo uma certa probabilidade de que a matéria e a psique sejam dois aspectos diferentes de uma só e mesma coisa (…) Nossos conhecimentos atuais, porém, não nos permitem senão comparar a relação entre o mundo psíquico e o mundo material a dois cones cujos vértices se tocam e não se tocam em um ponto sem extensão, verdadeiro ponto-zero. (JUNG, 2000, p. 152)

O arquétipo psicóide se coloca justamente na interseção entre a matéria e o psíquico, por isso mesmo está num ponto fundamental da experiência psíquica. Toda a possibilidade humana herdada filogeneticamente, inscrita em nosso corpo/DNA, se transforma em realidade psíquica por meio dos arquétipos. Nossa cultura, nossa percepção, nossas emoções possuem um pressuposto arquetípico fundante.  Uma vez que nossa realidade é sempre uma realidade psíquica, ou seja, não conhecemos nada que não seja a partir e por meio de nossa psique (“a psique é o eixo do mundo”[1]!), poderíamos dizer que o fundamento de nossa apreensão da realidade é arquetípico.

Como vimos, Jung considerava o arquétipo incapaz de atingir a consciência. Para compreender essa “incapacidade”, seria precisa retomar o aspecto mais fundamental da teoria dos arquétipos, ou seja, sua origem ao longo da evolução filogenética. Quando Jung aponta a hipótese de um inconsciente coletivo ele pressupõe

Assim como o corpo humano representa todo um museu de órgãos com uma longa história evolutiva, devemos esperar que o espírito também esteja assim organizado, em vez de ser um produto sem história. Por “história” não entendo aqui o fato de nosso espírito se construir por meio de tradições inconscientes (por meio da linguagem etc.), mas entendo antes sua evolução biológica, pré-histórica e inconsciente no homem arcaico, cuja psique ainda era semelhante à dos animais. Esta psique primitiva constitui o fundamento de nosso espírito, assim como nossa estrutura corporal se baseia na anatomia geral dos animais mamíferos. (JUNG, 2000a, p. 229-230)

A perspectiva da evolução filogenética aponta para compreensão de que os arquétipos (assim como os instintos) se constituíram ao longo dos milhares de anos no processo evolutivo. Isso se dá a partir da repetição de situações típicas, comuns ou vitais todos os seres humanos, que imprimiram na psique formas basais de assimilação e reação a realidade de forma que possibilitasse a sobrevivência.

Com o desenvolvimento da capacidade de simbolizar (processo intimamente associado à produção de instrumentos e linguagem), deu-se  início ao lento processo de desenvolvimento da consciência e da cultura. Através dos símbolos abriu-se um espaço entre a percepção da realidade e ação instintiva, isto é, este espaço que se abre é o espaço da representação e da imaginação. Esse processo promove a ampliação da consciência, que antes era apenas um estado de vigília, e se torna um estado consciente de representação da realidade. Assim, este se estabelece enquanto a base para a possibilidade de escolha, ou seja, o uso consciente da vontade, que é determinante para o desenvolvimento da cultura. Não podemos perder de vista, que o mundo dos arquétipos passa a ser vivenciados através da cultura e especialmente dos mitos que, em todos os tempos, ofereceram aos homens modelos exemplares que possibilitavam a vivência humana. A base dos mitos, são as dinâmicas arquetípicas vivenciadas como realidade exterior, por meio participação mística.

Até então falamos sobre o aspecto evolutivo e biológico dos arquétipos, pois, esse é o horizonte conceitual que distingue a psicologia analítica de Jung de considerações metafísicas.

Representações e Humanização

Jung afirmou que os arquétipos tornam-se presentes quando são representados ou se manifestam em imagens arquetípicas. O principal aspecto das representações arquetípicas que devemos considerar é o fato delas serem análogas aos arquétipos. Apesar de possuírem a mesma essência (visto que derivam os arquétipos), essas representações (por serem simbólicas), no geral, não comprometem a dinâmica da consciência. Se pensarmos pela perspectiva evolutiva, podemos compreender que para garantir as possibilidades do ego e das funções psíquicas superiores, o impulso arquetípico natural (“tudo ou nada”) se transformou em simbólico, ou seja, uma realidade que integra tanto o dinamismo inconsciente quanto as possibilidades conscientes. Desta forma, como símbolo, as representações arquetípicas se tornam compatíveis com a dinâmica da consciência.

Segundo Jung

Há tantos arquétipos quantas situações típicas na vida. Intermináveis repetições imprimiram essas experiências na constituição psíquica, não sob a forma de imagens preenchidas de um conteúdo, mas precipuamente apenas formas sem conteúdo, representando a mera possibilidade de um determinado tipo de percepção e ação. Quando algo ocorre na vida que corresponde a um arquétipo, este é ativado e surge uma compulsão que se impõe a modo de uma reação instintiva contra toda a razão e vontade (Jung 2000, p. 58)

O arquétipo em si representa o potencial a uma dada configuração. Contudo, quando ativado – e só sabemos sobre os arquétipos devido suas manifestações tanto coletivas (míticas e culturais) quanto  pessoais – ele assume uma forma de comportamento específica que se impõe ao dinamismo do ego de forma compulsiva.  No entanto, quando humanizado o dinamismo arquetípico se torna disponível à esfera psíquica consciente. humanizar o arquétipo significa trazê-lo a experiência humana, tornando-o parte dos dinamismos básicos a nosso processo de desenvolvimento individual e coletivo.

Para compreender o processo de humanização dos arquétipos é importante pensa-lo desde o desenvolvimento individual. Para tanto as concepções de Fordham mostram-se muito uteis neste propósito. Fordham construiu uma teoria do desenvolvimento que compreende que os processos arquetípicos estariam ativos desde a mais tenra infância.  Segundo autor “na infância as formas arquetípicas são derivadas do Self através de sua deintegração [2]”(FORHAM, 1985, 45). Para Fordham, a criança já nascia com uma unidade prestes a surgir[3], o self se dividiria espontaneamente em partes, ativando o potencial arquetípico correspondente a situação, a esse processo ele denominou de deintegração.

Em outras palavras frente a uma dado estímulo – seja ele interno como fome, ou externo como o toque – são ativados aspectos do self específicos à situação. Esses deintegrados se manifestam como um sistema de prontidão aos estímulos. Uma vez ativados esses deintegrados são atualizados pela experiência consciente e serão reintegrados novamente (em processos elaborativos, como no sono), e ao longo do processo rítmico de deintegração e reintegração, darão, em primeira instância, origem aos núcleos que formariam o núcleo do ego.

O processo de deintegração-reintegração não se limita ao processo de desenvolvimento do ego, mas, ao processamento continuo de constelação (deintegração) e atualização(reintegração) das representações arquetípicas. Segundo Fordham

Os deintegrados desenvolvem formas simbólicas e outras, em razão de sua interação com o ambiente que fornece imagens perceptivas. Estas imagens se organizam e algumas delas são usados na adaptação do organismo para o mundo externo, (atividades do ego) outras para formar imagens simbólicas internas (as formas arquetípicas) (FORDHAM, 1985, p.31 – tradução nossa) .[4]

A dinâmica de deintegração-reintegração está relacionada ao processo de humanização dos arquétipos (aqui compreendidos como deintegrados). Podemos citar a dinâmica arquetípica da Grande Mãe, onde os dinamismos básicos de nutrição (fome-alimentação-saciação) são humanizados na relação com a mãe. Do mesmo modo, a experiência de proteção/segurança que são humanizados no toque, cuidado, atenção, “holding” que possibilitam o estabelecimento de uma relação saudável com a realidade exterior, são reintegrados no registro ontológico do sujeito, dando origem ao núcleo do complexo materno.

O processo de deintegração-reintegração pressupõe a relação entre o estimulo externo e o potencial arquetípico. Pois, a representação arquetípica

(…) implica não apenas uma disposição intrapsíquica, mas também um fator proveniente do mundo. Quando dizemos que um arquétipo é “ligado” por evocação, queremos dizer que a aptidão arquetípica da psique precisa ser liberada por um fator correspondente proveniente do mundo.(NEUMANN,1992, p.68)

Na infância, o processo de humanização dos arquétipos humanos, (grande mãe, pai, anima e animus, velho sábio) precisam de pessoas humanas para serem humanizados. Assim, a relação entre a criança/indíviduo com o meio determinará a forma dessa humanização – por exemplo, o herói pode ser humanizado através de um esportista ou de um bombeiro militar, em outros casos através do traficante. O padrão basal é permanece, mas, o conteúdo é dado pelo ambiente ou das relações que indivíduo estabelecem.

O que precisamos ter clareza, é que a humanização dos arquétipos na infância é a base do desenvolvimento psíquico, especialmente em relação a formação dos complexos. Contudo, ao longo da vida as novas necessidades e situações que se apresentam ao indivíduo, podem gerar novos processos de deintegração. Isso significa dizer que a nossa história pessoal ou nosso passado pode deixar marcas profundas em nossas vidas, mas, não as define. Através da deintegração, a psique em sua dinâmica autorreguladora possibilita o processo de reparação de possíveis lapsos no desenvolvimento. Aqui a humanização dos arquétipos pode se dar tanto pela mediação da psicoterapia, de outros profissionais em relação de cuidado, pela religião e por grupos de amigos e apoio.

Referências Bibliográficas

DAMIÃO M. Jr. Experiência do Símbolo no Pensamento de C.G.Jung, Rio de Janeiro: Editora Aion, 2005.

FORDHAM, M. New developments in Analytical Psychology. Routledge and Kegan Paul Ldt, Bristol, 1957.

FORDHAM, M. Explorations into the Self. Socity of Analytical psychology(Library of Analytical Psychology v.7).London: 1895

JUNG, C.G. Natureza da Psique, Petrópolis:Vozes, 2000.

JUNG, C.G. Vida Simbólica Vol. I, Vozes, 2ª Ed., Petrópolis, RJ, 2000a.

Neumann, E. A Criança. São Paulo: Cultrix. 1992

[1]Jung, 2000, p. 154

[2] In the infancy the archeypal forms are derived form the self through itis the integration. (Fordham, 1957, p. 117)

[3] Term is used for the spontaneous division of the self into parts-a manifest  necessity if consciousness is ever to arise.

3 The deintegrates develop symbolic and other forms by reason of their interaction with the environment which provides perceptual images. These images make a pool and some of them are used in the organism ’s adaptation to the external world, (ego activities) Others to form inner symbolic images (the archetypal forms).

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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Arquétipo e Clínica

(Participação em Mesa com o mesmo título no III congresso estadual de Psicologia junguiana – Vitória, FAESA.)

O tema de nossa mesa é arquétipo e clínica. É um temática interessante, e algumas vezes eu já me deparei questionamentos que sobre essa temática.

Acredito que seja importante, nesse contexto, que relembrar um pouco sobre o conceito arquétipo ou mais propriamente a imagem arquetípica que comporta diferentes níveis de compreensão. Em sua forma mais fundamental, os arquétipos são padrões basais de organização psíquica, que possibilitam que sejamos psiquicamente humanos em toda parte do globo, independente da cultura. Esses padrões basais se manifestam, constelam ou se tornam presentes através de representações (que também chamamos de imagens arquetípicas), particularmente eu prefiro chamar de representações. Enfim, essas representações são atualizações dos arquétipos em nossa realidade. Mas, podemos citar outras representações como:

Complexos – que são a atualização mais fundamental dos arquétipos, pois, organizam nossa experiência pessoal.

Símbolos pessoais e culturais – especialmente percebidos em sonhos e eventos sincronísticos. Mitologias.

Representações corporais – experiências no corpo, seja através de práticas como a yoga, biodanza ou mesmo analise bioenergética podemos notar constelações arquetípicas.

Atuação ou Acting-out – Quando o individuo está invadido pela dinâmica arquetípica e inconscientemente passa a desempenhar o conteúdo típico deste arquétipo. Ou seja, o arquétipo se manifesta como uma dinâmica psíquica “impessoal” que conduz o ego.

Devemos lembrar que também que Jung fez uma pequena distinção entre os arquétipos. Haveriam os arquétipos de transformação não representavam uma dinâmica própria ou uma “personalidade”, mas, transformação. “Estes não são personalidades, mas sim situações típicas, lugares, meios, caminhos, etc, simbolizando cada qual um tipo de transformação”.( Jung, 2000a, p. 47) Por outro lado, temos os arquétipos que Jung chamou de “personalidades” por se comportar como personalidades autônomas, agregando a si toda uma narrativa típica.

Essas distinções acerca das representações arquetípicas são importantes para começarmos a pensar a relação do arquétipo com a clínica. De fato, os arquétipos constituem o pano de fundo de nossa realidade. No toca a clínica, uma representação arquetípica de transformação frequentemente compreendida é o próprio espaço da clínica, isto é, o espaço criado pela relação entre o terapeuta e o paciente – que muitas vezes, é confundido com as quarto paredes do consultório, mas, não é restrito a uma sala. (p. ex. um ex.professor comentou a situação onde, ele chegou nunca clinica que ele atendia, ocorreu um problema com a chave, o paciente chegou, ele o levou para atende-lo na parte de cima da casa, junto a caixa d´água, sem maiores problemas. ) Esse espaço arquetípico é chamado de Temenos, ou o Vas – vaso alquímico- um lugar protegido, onde a experiência do inconsciente pode ser vivida e compartilhada de forma protegida. Essa é uma configuração arquetípica fundamental quando falamos em clínica.

Mas, eu gostaria de focar uma outra perspectiva. Dentre as possibilidades de pensar as representações arquetípicas na clínica junguiana, eu gostaria de pensar acerca das dinâmicas arquetípicas que estão relacionadas atuação (acting out) do paciente no contexto clinico. De forma geral, atuação não é muito comentada no contexto clinico junguiano, mas, ela nos apresenta como uma possibilidade não só diagnóstica, mas, também de manejo clinico.

Por não ser tão comum, pouco se tem na literatura acerca desse dinamismo, mas, para pensarmos a atuação, podemos começar tangenciando as discussões de autores como Guggenbhul-Craig e Groesbeck sobre a dinâmica arquetípica do curador-ferido. A concepção de Guggenbhul-Craig é particularmente interessante pois, ele sugere que a dinâmica arquetípica é polar e, deveríamos compreender os arquétipos a partir da relação de seus polos. Por exemplo, o curador ferido os polos seriam por um lado o “ferido” – constelado no paciente que procura a terapia; e por outro o polo “curador” geralmente, fica inconsciente e passa a ser projetado no terapeuta. De fato, a dinâmica do curador ferido, por trazer a dinâmica da saúde-doença, apresenta um pano de fundo típico para o contexto clínico. Mas, o curador feriado, é uma das dinâmicas arquetípicas que podem ser consteladas. Arquétipos baseados sobretudo em relações humanas, Mãe- Filho(a); Pai-filho(a); Mestre – Aluno; Irmão-Irmã; Homem-Mulher; Velho – Jovem, dentre outros produzem a mesma situação na psicoterapia.

É importante percebermos que essas dinâmicas ou representações arquetípicas nos dão pistas sobre a necessidade psíquica do paciente. Vamos imaginar numa situação, em que um paciente que chega a fragilizado, despontencializado (sem vitalidade), com excesso de cobranças, relatando fracassos em suas relações pessoais e afetivas, relatando episódios de agressividade e episódios de ansiedade e medo de se relacionar com as pessoas, sem cuidados consigo mesmo. Se formos por uma categoria diagnóstica é possível chegarmos a uma hipótese de depressão. Mas, se tomarmos essas características por um lado, frente a postura do paciente, a forma como ele fala, o olhar, a sensação ou sentimento que surgem em nós mesmos, podemos chegar a uma imagem, isto é, uma configuração impessoal do que o paciente em apresenta. Na situação que eu citei, a imagem poderia ser de um “herói que fracassou”, de “uma criança abandonada”, de um “velho”. São inúmeras as possibilidades.

Cada uma dessas imagens que eu citei geram uma projeção especifica sobre o analista, isto é, o polo complementar da dinâmica. Caso o terapeuta não se aperceba disso, ficando inconsciente, ele pode ou “atuar” desempenhando contratransferencialmente esse polo, o que não é positivo, pois, se o terapeuta esta inconsciente ele fica imobilizado pela inconsciência contratransferencial, não percebendo o desenvolvimento necessário para o paciente. Pois, no caso de um dinamismo da “criança abandonada”, seria necessário o acolhimento de uma grande mãe nutridora, mas, precisaria passar ao dinamismo do herói, e enfrentar sua individuação.

Uma vez que o terapeuta tem consciência da dinâmica trazida pelo paciente ele pode aceitar ou NÃO o lugar que o paciente lhe coloca, assumindo uma postura mais adequada ou dinamismo arquetípico saudável. Nesse caso, o terapeuta conscientemente encena o dinamismo arquetípico, possibilitando um diálogo saudável com o inconsciente do paciente. Nesse sentido, que Jung fala que o terapeuta “adequadamente treinado que faz de função transcendente para o paciente, isto é, ajuda o paciente a unir a consciência e o inconsciente e, assim, chegar a uma nova atitude” (JUNG, 2000b, p.6)

Por outro lado, a compreensão dos dinamismos arquetípicos constelados, nos oferece um direcionamento para explorar a história pessoal, pois, toda essa atuação do paciente vai nos remeter a um complexo, isto é, a história pessoal do paciente.

Acredito que a compreensão da dinâmica arquetípica é fundamental para o terapeuta junguiano. Como não é possível esgotar o assunto com o nosso tempo, espero que sirva para reflexão futura. Bem, o tema de nossa mesa “arquétipo e Clinica” é um tema provocador, que levaríamos um congresso para discuti-lo em toda sua amplitude.

Obrigado.

Referencias Bibliografias

JUNG, C.G. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo, Vozes, Petrópolis, RJ, 2000b.

JUNG, C.G.Natureza da Psique, Vozes, Petrópolis, RJ, 2000c

 

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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Algumas palavras sobre o Curador-Ferido

(19 de outubro de 2012)

(Este foi o texto base para da  apresentação realizada no II Congresso Estadual de Psicologia Analítica, realizado em Vitória, 19 de outubro de 2012)

É com muito prazer que  participo desta mesa, juntamente com a profa. Isabele Santos Eleotério, para pensarmos e contribuirmos com a psicologia junguiana no ES. Neste congresso já tivemos o prazer de ouvir o Prof. Maddi, Profa. Kathy e a Profa. Elizabeth, aliás é sempre um prazer ouvi-los. A minha contribuição é uma breve reflexão acerca da representação arquetípica que denominamos curador-ferido.

O “arquétipo do curador-ferido” é facilmente reconhecido e intuitivamente compreendido em suas representações. Para ilustrar, vou citar três representações que nos tocam diretamente.

A primeira é também a mais conhecida e “reverenciada”, vem da mitologia grega, que é o Chiron, o centauro meio-irmão de Zeus. Digo que nos toca, pois, nossa herança intelectual nos liga ao pensamento grego. Assim, Chiron e a mitologia grega nos possibilitam acompreensão de forma tão clara dos arquétipos. No caso, Chiron que era detentor das artes de cura, sendo inclusive mestre de Asclépio, o deus da medicina. Num dado momento, Herácles, que passava pelo Monte Pelion, entrou numa confusão com centauros, nesse conflito acidentalmente Héracles alvejou Chiron, com uma flecha embebida pelo sangue da hidra de Lerna, causando uma ferida mortal. Contudo, por ser imortal, Chiron passou a sofrer dores monstruosas, pois, toda sua habilidade de cura não era suficiente contra o sangue da hidra.

A segunda representação nos toca diretamente, pois, somos atravessados pela tradição judaico-cristã, quer professemos ou não a fé cristã. Assim, temos Jesus Cristo como representante do curador ferido. Suas feridas já faziam parte das profecias do antigo testamento. “Mas ele foi transpassado por causa das nossas transgressões, foi esmagado por causa de nossas iniquidades; o castigo que nos trouxe paz estava sobre ele, e pelas suas feridas fomos curados.” (Isaias 53:3- NVI). No novo testamento temos outras referências a seu caráter curador “Ele mesmo levou em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, a fim de que morrêssemos para os pecados e vivêssemos para a justiça; por suas feridas vocês foram curados”.( I Pedro 2:24 – NVI).

O terceiro também é presente na nossa cultura, vindo da tradição afrobrasileira, que nos toca sutilmente e compõe nossa forma de ser.  Na tradição do candomblé e da Umbanda temos o orixá Xapanã, também chamado de Omulu ou Obaluae.    Em seus mitos, verificamos que quando esse orixá era criança, teve seu corpo tomado pela varíola, motivo pelo qual foi abandonado por sua mãe Nãnã. Ele foi encontrado e tratado por Yemanjá, mas, ficou com o corpo com as terríveis marcas da varíola. Conta-se também, que quando Olodumaré foi dividir seus bens, essa divisão ocorreu quando Xapanã estava ausente, os orixás pegaram os “bens”, restando para ele somente a peste. Posteriormente, ele se tornou um orixá muito temido e respeitado justamente por ser o senhor das doenças e da cura das mesmas.

(eu poderia até citar um outro curador-ferido, que expressa a crença e a fé na ciência. Que é o personagem Gregory House, que representa bem o curador ferido).

O arquétipo do curador-ferido nos é especialmente atraente por se referir à dinâmica do processo de cura e, por conseqüência, por nos permitir pensar a dinâmica que envolve a relação terapêutica. Especialmente pela perspectiva de Guggenbuhl-Craig(1978) que amplia a compreensão desse arquétipo, que afirma que se a consciência se identifica com um pólo do arquétipo, o contrario é constelado no inconsciente. Isto é, numa situação de doença, se constela na consciência a dinâmica da doença e o pólo de “curador”  se constela no inconsciente.  O fato de ser inconsciente, propicia que o polo curador possa projetado seja na figura do médico ou do terapeuta. Guggenbühl-Criag aponta a necessidade de integrar o pólo de cura, justamente para  mobilizar todo potencial de cura do individuo.

Mas, eu gostaria de pensar o arquétipo sob outra perspectiva, pois, quando vemos essa imagem arquetípica temos dois aspectos:  “cura” ou “curador” que se opõe à “ferida”. As imagens citadas (Quiron, Cristo, e Obaluae) distinguem-se justamente por possuírem um limite, o qual denominamos “ferida”, que se torna tão próxima ou mesmo, necessária aos seres humanos. Assim, poderíamos associar ao curador os seguintes elementos:

Curador

Ferida

Saúde

Doença

Possibilidade

Limite

Total

Parcial

Imortal

Mortal

Divino

Humano

Se pensarmos que o pólo curador, expressa a “possibilidade de possibilidades”, o potencial de vir-a-ser, o impulso heroico de expansão. A ferida é um limite. Assim como doença, a velhice também constituem limites ao homem. A Possibilidade-Saúde-Cura e o Limite-Doença-Ferida são opostos refletem o aspecto autorregulatório da psique. De fato, os mitos sempre apontam para a necessidade integrarmos os limites, para não incorrermos na “desmensura” ou na hybris, o erro muitas vezes fatal dos heróis gregos.

É interessante que notarmos que vivemos numa cultura que ainda tem dificuldades de lidar com os limites, isto é, mais propriamente feridas. Não estou advogando em prol da doença, mas, chamo atenção ao Guggenbuhl-Craig nos alerta acerca dos perigos da fantasia da saúde como força, totalidade (como pleno funcionamento fisiológico e mental) que pode ocultar na verdade a ideia de perfeição, que nos leva a uma busca por algo inatingível. Essa busca se manifesta por diferentes vias. Seja excesso de cuidados, ou pela negação dos limites. Lidar ou aceitar com os limites não significa resignação, mas, uma consideração adequada da realidade e do que é a saúde para o indivíduo nesse momento.

Eu já ouvi de pessoas/pacientes religiosos dizerem que não podem ter essa ou aquela doença/limitação por serem tementes a Deus, ao eu respondo, “olha, vc já ouviu falar no apóstolo Paulo que tinha um “espinho na carne” que Deus se recusou a tirar, ou mesmo se conhece o profeta Elias que nos dias de hoje seria diagnosticado estando com depressão”.

Por outro lado, nós que trabalhamos com as “artes de cura”, devemos considerar as feridas do curador como um limite a cura, ou melhor, um limite ao desejo de curar. Pois, “o desejo de curar” muitas vezes expressa esse “ideal de saúde ou perfeição”, onde o terapeuta impõe uma realidade estranha a realidade ou a verdade do paciente. A busca incessante pelo ideal de saúde pode ser mais opressivo que a limitação e a doença. Jung aponta que o que terapeuta nao suporta o paciente também não vai suportar.

Por isso mesmo, integrar as feridas-limites significa aceitar nossa humanidade, como uma forma de possibilitar a quem atendemos integrar tanto o pólo “curador” quando o pólo “ferida”. É, como o prof. Maddi disse ontem, aceitar que a vida gera vida, tanto pela possibilidade quanto pelo limite. Pois, é através da integração dos dois que podemos experimentar “quem somos”.

O arquétipo do curador-ferido expressa o processo de individuação. Acredito que em outras oportunidades poderemos falar mais sobre o processo saúde-doença que é expresso por essa imagem.

Textos utilizados:

GUGGENBHÜL-CRAIG, Adolf, Abuso do poder na psicoterapia, rio de janeiro: achieamé, 1978.

GUGGENBHÜL-CRAIG, Adolf. O Arquétipo do Inválido e os limittes da Cura ,in JUNGUIANA – Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, 1983.

PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2000

BÍBLIA. Português. BÍBLIA SAGRADA: Nova Versão Internacional. Tradução da Comissão de Tradução da Sociedade Bílbica Internacional. São Paulo: Editora Vida, 2000.

BRANDÃO. J. DICIONÁRIO MÍTICO-ETIMOLÓGICO, Vol. I, Ed. Vozes, Petrópolis, RJ, 1991.

GROESBECK, C.J. A IMAGEM ARQUETÍPICA DO MÉDICO FERIDO,inJUNGUIANA – Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, 1983.

Cf. JUNG, C.G. Ab-Reação, Análise dos Sonhos, Transferência, Petrópolis, RJ : Vozes, 1999.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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Pensando Alguns aspectos do “curador ferido”

 

20 de novembro 2010

(Pequenas correções e ampliações em 09/12/2011)

Falar em relação terapêutica na abordagem junguiana implica, antes de tudo, em reconhecer o aspecto arquetípico que envolve o processo de psicoterapia ou relação terapêutica. Para fazer esse reconhecimento, em primeiro lugar, devemos lembrar que psicoterapia em sua origem etimológica significa “cuidado ou atenção com alma”. Tanto psicologia(especialmente, a clinica psicológica/psicoterapia) quanto a psiquiatria nasceram da necessidade nossa cultura em lidar com psique por uma via propriamente científica, pois esta era uma necessidade de nossa cultura. Entretanto, bem antes de Pinel, Wundt, Charcot, Freud e Jung o homem sofria do males da alma.

Antes de nossa concepção científica, o homem há milênios lidava com os “males ou sofrimentos da alma” por meio das religiões ou mais especificamente das práticas mágico-religiosas, praticas essas que em nosso meio “científico” desprezamos. Contudo, foi a partir dessas práticas mágico-religiosas que podemos ter uma perspectiva dos meios que a psique utilizava para se reorganizar e se curar através dos tempos. Entendam, não estou dizendo que a psicoterapia e a religião são iguais. Estou afirmando que ambas emergem da mesma necessidade humana de lidar com as adversidades da alma.

Por isso, Jung costumava dizer que as religiões eram sistemas psicoterapêuticos, justamente por lidar com os mesmos fenômenos que lidamos no consultório, os males da alma. Não é a toa que muitos clientes recorrem primeiramente a religião, antes de procurar psicoterapia. Entretanto, que não devemos compreender isso uma ineficácia da religião ou como se ela tivesse perdido sua “validade terapêutica”. Uma das formas, para compreendermos porque a psicoterapia ocupa o lugar que outrora foi da religião, nós é dado por Levi-Strauss, que no seu livro “antropologia esturural”, no capitulo “O Feiticeiro e sua magia”, afirma que :

Não há, pois, razão de duvidar da eficácia de certas práticas mágicas. Mas, vê-se, ao mesmo tempo, que a eficácia da magia implica na crença da magia, e que esta se apresenta sob três aspectos complementares: existe, inicialmente, a crença do feiticeiro. na eficácia de suas técnicas; em seguida, a crença do doente que ele cura, ou da vítima que ele persegue, no poder do. próprio feiticeiro; finalmente, a confiança e as exigências da opinião coletiva, que formam à cada instante uma espécie de campo de gravitação no seio do qual se definem e se situam ás relações entre o feiticeiro e aqueles que ele enfeitiça. (Levi-Strauss, 1975, p. 194-5)

Os três aspectos citados por Levi-Strauss são a) confiança do feiticeiro em suas técnicas; b) confiança do doente no feiticeiro; c) confiança do grupo nesse processo de cura. Esses aspectos podem ser transportados para a psicoterapia contemporânea, reconhecendo que há a necessidade 1 ) o psicoterapeuta confiar e dominar a sua técnica, 2) a confiança do cliente (que pode ser traduzida como rapport, vinculo ou transferência); 3) Reconhecimento social, crença em sua eficácia científica.

A eficácia psicoterapêutica e a eficácia da cura mágico-religiosa estão relacionadas por emergirem da mesma realidade psíquica. A principal diferença está a psicoterapia contemporânea é uma forma de a consciência estabelecer um ponte para o dinamismo inconsciente, buscando reestabelecer a saúde psíquica. Por sua vez, a religião surge como uma expressão simbólica do próprio inconsciente na tentativa de uma reordenação psíquica. Assim, os mitos e os rituais são metáforas de dinâmicas coletivas que estão presentes no interior de cada um.

Por outro lado, poderíamos inclusive ampliar essas relações, se observarmos alguns resquícios da amplitude da função religiosa para o homem na linguagem. Por exemplo, o termo saúde e salvação derivam da mesma palavra latina Salus. Já em língua germânica, o termo hailag está na raiz de heilig (sagrado) e de Heil (inteiro, são, curado).

Essa correlação de salvação e saúde não é estranha quando pensamentos, que na concepção religiosa Deus ou deuses são os responsáveis pelas tanto pelas curas quanto pelas doenças. Ou seja, se urma doença foi um castigo de uma divindade, a pessoa que sofre deveria rever seus atos para ver onde que ofendeu a divindade, e fazer as expiações necessárias. Essa noção de causalidade divina pode ter perdido força em nossa cultura em face a ciência, apesar em vários grupos e camadas sociais essa concepção continua viva e atuante, no meio científico que, no geral, menosprezamos ou mesmo abandonamos a importância e efeito da religião no cotidiano. Segundo, Jung, em nossa cultura regida pela ciência,

Abandonamos, no entanto, apenas os espectros verbais, não os fatos psíquicos responsáveis pelo nascimento dos deuses. Ainda estamos tão possuídos pelos conteúdos psíquicos autônomos, como se estes fossem deuses. Atualmente eles são chamados: fobias, obsessões, e assim por diante; numa palavra, sintomas neuróticos. Os deuses tornaram-se doenças. Zeus não governa mais o Olimpo, mas o plexo solar e produz espécimes curiosos que visitam o consultório médico; também perturba os miolos dos políticos e jornalistas, que desencadeiam pelo mundo verdadeiras epidemias psíquicas. (JUNG, O Segredo da Flor de Ouro,xx)

As experiências humanas o fenômeno doença-cura imprimiram na psique um padrão de mobilização psíquica, que cuja imagem representacional é o mitema curador-ferido.

Antes de falarmos sobre o essa dinâmica arquetípica de saúde-doença, que fundamenta a relação terapêutica, devemos rever os mitos relacionados ao a dinâmica do curador ferido/saúde-doença.

Algumas pessoas podem achar estranho o fato dos junguianos sempre buscarem os “mitos” ou “referências mitológicas”. Acredito que seja importante frisar que, segundo Cambpell, os mitos são metáforas. Isto é, metáforas de nossa realidade interior. Essas metáforas nos servem como modelos para um nível de apreensão da realidade, nos dando orientação e direcionamento, e, por outro lado, nos possibilitam a compreensão de processos inconscientes projetados e elaborados nos mitos.

O curador-Ferido

Para falarmos do arquétipo do curador ferido eu gostaria de contrapor três variações desse arquétipo que nos narram acerca dessa dinâmica.

A primeira tradição que nos ensina bastante é a tradição afro-brasileira, do Candomblé, pessoalmente, eu acredito que das três que vou me referir esta é a que melhor explicita a dimensão arquetípica das polaridades saúde e doença. No candomblé, orixá que rege a saúde e a doença é Xapanã, mas, por respeito e temor, ele é mais conhecido por Obaluaê(Senhor da Terra) ou Omulu (Filho do Senhor) . Um dos mitos sobre Xapanã, diz o seguinte,

Xapanã ganha o segredo das peste na partilha dos poderes

Olodumare, um dia, decidiu distribuir seus bens.

Disse aos seus filhos que se reunissem

e que eles mesmos repartissem entre si as riquezas do mundo.

Ogum, Exu, Orixá Oco, Xangô, Xapanã

e os outros orixás deveriam dividir

os poderes e mistérios sobre as coisas da Terra.

Num dia em que Xapanã estava ausente,

os demais se reuniram e fizeram a partilha,

dividindo todos os poderes entre eles,

não deixando nada de valor para Xapanã.

Um ficou com o trovão, o outro recebeu as matas,

Outro quis os metais, outro ganhou o mar.

Escolheram o ouro, o raio, o arco-íris;

Levaram a chuva, os campos cultivados, os rios.

Tudo foi distribuído entre eles,

cada coisa com seus segredos,

cada riqueza com seus mistério.

A única coisa que sobrou sem dono, desprezada, foi a peste.

Ao voltar, nada encontrou Xapanã para si,

A não ser a peste que ninguém quisera.

Xapanã guardou a peste para si,

mas, não se conformou com o golpe dos irmãos.

Foi procurar Orunmilá, que lhe ensinou a fazer sacrifícios,

para que seu enjeitado poder fosse maior que os dos outros.

Xapanã fez sacrifícios e aguardou.

Um dia, uma doença muito contagiosa

Começou a se espalhar-se pelo mundo.

Era a varíola.

O povo desesperado, fazia sacrifícios para todos os orixás.

mas nenhum deles podia ajudar.

A varíola não poupava ninguém, era uma mortandade.

Cidades, vilas e povoados ficavam vaizos,

já não havia espaços nos cemitérios para tantos mortos.

O povo foi consultar Orunmilá para saber o que fazer.

Ele explicou que a epidemia acontecia

Porque Xapanã estava revoltado,

por ter sido passado para trás pelos irmãos.

Orunmilá mandou fazer oferendas para Xapanã.

Só Xapanã poderia ajudá-los a conter a varíola,

pois só ele tinha o poder sobre as pestes,

só ele sabia o segredo das doenças.

Tinha sido essa a sua única herança.

Todos pediram proteção a Xapanã

E sacrifícios foram realizados em sua homenagem.

A epidemia foi vencida.

Xapanã era então respeitado por todos.

Seu poder era infinito, o maior de todos os poderes” (PRANDI, 2007, p.210-1)

Em outras narrativas acerca de Xapanã é dito que ele, quando nasceu doente e foi abandonado pela mãe (Nãnã) e criado por Iemanjá, outros falam que quando criança que foi punido com varíola por desobediência, e mesmo ele superando a doença ele continuou com as marcas e deformações da doença. O que fazia com que ele usasse palha para esconder as marcas da doença. Mesmo sendo ele senhor das doenças e das curas, ele próprio era marcado pela doença. Xapanã, Obaluaê-Omulu, é um curador que carrega suas próprias feridas, escondendo-as por debaixo de sua roupagem de palha, tanto pro vergonha de sua aparência e para evitar as reações que causa nas pessoas.

Indo para outra época, uma outra mitologia, podemos reconhecer a mesma dinâmica, no mitema grego de Quiron, o centauro. Na mitologia grega, Quiron é um personagem que não possui um mito próprio, mas, participa da história de deuses e heróis. Ele nasceu da união de Cronos e a ninfa Filira, ele foi criado por Apolo, e se tornou o mais sábio (e civilizado) dos centauros, foi o mestre de heróis como Ajax, teseus Jasão, Perseu, Enéas, Télamon, Aquiles Peleu, Aristeu, Hercules e Asclépio. No toca a nosso estudo, Quíron foi mestre de Asclépio(ou Esculápio), a quem ensinou as artes da cura, por sua vez, Asclépio se tornou o deus da medicina. Mas, todo conhecimento nas artes da cura não  foram suficientes para curá-lo, quando ele foi atingindo pela flecha de Hercules que havia sido embebida no sangue da hidra de Lerna, que era mortal, mas, como Quiron era imortal, o ferimento causado jamais curaria, causando dores intermináveis. O sofrimento de Quiron só terminou quando ele trocou sua imortalidade pela liberdade de Prometeu, feita esta troca, Zeus eternizou sua história nas estrelas criando a constelação de Sagitário.

O terceiro representante dessa categoria de curadores feridos é bem conhecido d e nossa cultura, justamente por estar no centro da mitologia vigente que é Jesus Cristo. Devemos tomar alguns textos como referência:

Mas ele foi transpassado por causa das nossas transgressões, foi esmagado por causa de nossas iniqüidades; o castigo que nos trouxe paz estava sobre ele, e pelas suas feridas fomos curados. Isaias 53:3 (NVI).

Os profetas do antigo já previam o sofrimento do messias, que o sofrimento dele seria necessário para o perdão e a purificação de todos.

Ele mesmo levou em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, a fim de que morrêssemos para os pecados e vivêssemos para a justiça; por suas feridas vocês foram curados. I Pedro 2:24 (NVI)

As feridas de Cristo são ressaltadas na passagem onde Cristo encontra com Tomé, após a ressurreição.

Tomé, chamado Dídimo, um dos Doze, não estava com os discípulos quando Jesus apareceu.

Os outros discípulos lhe disseram: “Vimos o Senhor! ” Mas ele lhes disse: “Se eu não vir as marcas dos pregos nas suas mãos, não colocar o meu dedo onde estavam os pregos e não puser a minha mão no seu lado, não crerei”.

Uma semana mais tarde, os seus discípulos estavam outra vez ali, e Tomé com eles. Apesar de estarem trancadas as portas, Jesus entrou, pôs-se no meio deles e disse: “Paz seja com vocês! ”

E Jesus disse a Tomé: “Coloque o seu dedo aqui; veja as minhas mãos. Estenda a mão e coloque-a no meu lado. Pare de duvidar e creia”.

Disse-lhe Tomé: “Senhor meu e Deus meu! ”

Então Jesus lhe disse: “Porque me viu, você creu? Felizes os que não viram e creram” Jo. 24-29. (NVI)

Quando estudamos atenciosamente esses três mitemas, podemos perceber que em culturas diferentes produziram estruturas muito semelhantes como o nascimento divino ( Obaluae e Quíron foram abandonados no nascimento; Cristo foi perseguido e teve de ir para o Egito) os três passaram pelo sofrimento, tinham as marcas do sofrimento, mas, eles mesmos não curaram essas marcas/feridas.

A identidade entre essas representações evidenciam um arquétipo que denominamos “curador-ferido”. Entretanto, eu gostaria de ressaltar que essa estrutura arquetípica deveria ser compreendida de modo mais amplo, pois, os curadores feridos indicam que saúde e a doença estão associadas numa mesma dinâmica, são polaridades do mesmo arquétipo. Dos três exemplos, Obaluae representa melhor essa dinâmica, pois, ele é tanto o curador quanto o causador das doenças (um paralelo que poderíamos traçar, seria com Jeová, que tanto enviava as doenças quanto curava o povo).

Dessa forma, poderíamos compreender esse arquétipo por essas duas vias:

a) Curador-ferido: que dá indicações para pensarmos a temática do terapeuta;

b) Saúde-doença: que nos permite compreender o potencial de saúde inconsciente, isto é, há sempre o potencial de vida mesmo na doença. Assim, como o símbolo do Tai Chi, o germe da saúde encontra-se na doença, e germe da doença está presente na saúde.

É importante frisar que como arquétipo, essa dinâmica é comum a todos os seres humanos, não restrita a “terapeutas”.

Indo pela primeira via, entramos num domínio que é a percepção do “curador-ferido”, que nos permite refletir acerca das pessoas que se propõe a posição de curadores ou cuidadores (que não se restringem a psicólogos, mas, também, ministros religiosos, assistentes sociais, professores, médicos dentre outros).

O aspecto fundamental dessa representação é a ferida do curador. Esta ferida pode ser compreendida simbolicamente em dois aspectos :

1 – É uma ferida aberta na pele : Em primeiro lugar devemos focalizar a pele, que é o órgão de nosso corpo responsável pela proteção de nosso organismo, e que intermedia a nossa relação com o meio. Essa ferida aberta na pele nos fala de uma “abertura sensível” ao mundo exterior. É uma abertura

2 – É incurável : Ser incurável significa que ela requer cuidados contínuos.

Assim,  essa ferida, essa disposição a compreender e ajudar aos outros, produz “uma ponte simbólica” inconsciente, que não deve ser vista como “negativa”, mas que deve ser cuidada atentamente para não causar “infecções” (seja por meio de relações contratransferenciais arrasadoras ou de outras ordens), como história do movimento psicanalítico nos ensina (sugiro a leitura do livro “Luz e Trevas” de Isaias Paim).

Em outros, termos, essa ferida simbólica do terapeuta, por ser inconsciente, está associada com sua sombra. Essa é uma questão importante, segundo Guggenbhul-Craig,

Sombra no analista constela sombra no paciente. Nossa própria honestidade ajuda-o a confrontar seus fenômenos sombrios. Cada um de nós deve trabalhar em ambas áreas (GUGGENBHUL-CRAIG,1978, p.86)

Quando falamos de sombra devemos lembrar que esta corresponde a todos os pontos cegos (ou míopes) que temos em nossa consciência. É importante compreendermos que a sombra não é um processo apenas histórico, mas é um fator dinâmico, fazer analise não significa que você vai “exaurir” ou “dominar” a sombra, mas, apenas que você estar atento aos seus “tendões de Aquiles”, de nossa história pessoal. Quando nós, terapeutas,  não permitimos a entrada desses conteúdos em nossa consciência ou não permitimos sua expressão simbólica, eles encontram outro meio, seja pela formação do sintoma neurótico ou a somatização. Por outro lado, essa sombra também vai estar associada a dinâmica arquetípica do curador ferido.

(…)Quando uma pessoa fica doente o arquétipo de terapeuta-paciente se constela. O enfermo procura um terapeuta exterior, mas, ao mesmo tempo se constela o terapeuta intrapsíquico. Costumamos nos referir a este, no paciente, como “fator de cura”. É o médico dentro do próprio paciente – e sua ação terapêutica é tão importante quanto a do profissional que entra em cena externamente. As feridas não se fecham nem as doenças se vão sem a ação curativa do terapeuta interior. (…) O médico pode fechar o corte – mas, algo no corpo e na psique do paciente deve cooperar para que a enfermidade seja vencida. (GUGGENBHÜL-CRAIG, 1978, p. 98)

Os dois pólos do arquétipo são atuantes em nós. Quando reconhecemos o pólo que até aqui já chamamos de “ferida/doença/doente/paciente” estamos reconhecendo também a nossa limitação, esse pólo conduz o terapeuta a humildade não se achar melhor ou superior ao atendido. Por outro lado, quando não reconhecemos as feridas, corremos o risco da hybris do analista, na identificação com a polaridade curadora. Essa identificação gera cisão na dinâmica do arquétipo, onde a consciência identifica com o pólo curador e a tendência é projetar o pólo oposto na relação terapêutica, isto é, no cliente. Quando isso ocorre, o terapeuta se torna o dono da verdade, não reconhece ou valoriza os desenvolvimentos do cliente, isto é, não desperta o potencial de cura do cliente, tornando-o cada vez mais dependente de si.

É fundamental compreendermos que as feridas do curador lhe lembram que ele é humano, que deve buscar viver e desenvolver sua vida. A ferida lhe impõe o cuidado de sua vida in lato sensu (pessoal, familiar, social). As feridas do terapeuta somente serão problemáticas quando dissociadas, isto é, quando sua relação consigo mesmo for precária.

(Voltaremos a essa discussão, no que tange ao curador ferido na psicoterapia, num post futuro quando falaremos da relação transferência-contratransferência. Este texto foi baseado numa aula dada na UFES em 2010. Corresponde a primeira parte da aula, a segunda parte foi aprofudado o tema da transferência-contratransferência. Este post guarda algumas ligações com o texto  Aspectos Gerais da Psicoterapia e Análise Junguiana – Parte II : A sombra do analista).

Referencias Bibliograficas

LEVI-STRAUSS, Claude. 1970. Antropologia estrutural. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro.

GUGGENBHÜL-CRAIG, Adolf, Abuso do poder na psicoterapia, rio de janeiro: achieamé, 1978.

PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2000

JUNG, C. G.; WILHEIM, R. O segredo da flor de ouro: um livro de vida Chinesa. 11 Edição. Petrópolis: Vozes, 2001.

 

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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