Breve comentário sobre o filme “Um Método Perigoso” de Cronenberg

(29 de abril de 2012)

Finalmente,  eu assisti ao filme mais comentado nas comunidades junguianas nos últimos tempos “Um Método Perigoso” de David Cronenberg. Gostaria de fazer um comentário geral, sem me apegar a detalhes da narrativa.(fazendo assim, spoilers)

O filme tem o mérito inegável de uma excelente fotografia, com paisagens lindas, uma caracterização impecável dos personagens, especialmente dos secundários, como Bleuler, Gross,  Ferenczi. Foi feito um trabalho realmente fabuloso. Mas, especificamente do triangulo sobre o qual a história se desenvolve acho que devo comentar individualmente.

Sobre Freud, de Viggo Mortensen, ficou bem caracterizado, um trabalho excelente de Mortensen, contudo, na minha opinião, Freud pareceu apenas “alguns anos” mais velho que Jung – quando na verdade a diferença era de 20 anos, sei que pode parecer um “excesso” de detalhismo, mas, a diferença de idade foi fundamental para o estabelecimento da relação de respeito e “autoridade” com Jung.

Acerca de Sabina Spielrein… confesso que fiquei profundamente incomodado. A Keira Knightl2ey fez uma interpretação que me pareceu tão caricata, com caras e bocas, ao longo de todo o filme. Se considerarmos que o filme aponta acontecimentos de um período de quase 10 anos. Sabina foi internada em 1904, obteve alta cerca de 1905. Cursou medicina, período no qual teve o envolvimento com Jung, mesmo no final desse período, cerca de 5 anos após sua internação, a Sabina Spielrein de Knightley continua se estivesse acabado de sair da internação. Mas, porque isso me incomodou? Justamente, porque Sabina se tornou uma mulher importante no meio psicanalítico, como o próprio filme indica, e, por outro lado,

Spielrein se apresentara a Freud em 11 de outubro de 1911, e tinha começado a freqüentar seus seminários depois de ter se transferido para Berlim. E, em 25 de novembro de 1911, na presença de 18 membros, entre os quais Freud, Federn, Rank, Sachs, Stekel e Tausk, explica numa conferência as suas idéias sobre o instinto de morte. (…) Um dia depois, Freud comunicava a Jung as suas impressões: “Sabina Spielrein  leu  ontem um capitulo do seu trabalho, (…) ao que se seguiu uma discussão instrutiva. Vieram-me à mente algumas formulações contra seu (…) modo de trabalhar com a mitologia, que também expus a jovem Spielrein. do resto, ela é verdadeiramente talentosa, eu começo a entender…(CAROTENUTO, 1984, p. 35-6)

Seria difícil uma mulher conseguir o respeito da sociedade psicanalítica de Viena fazendo caras e bocas. Enfim, fiquei decepcionado com atuação da Keira Knightley, pois, mais, que “amante doente” de Jung, Sabina Spielrein foi uma mulher que sofreu, superou e influenciou de uma forma direta ou indireta dois dos maiores gênios do século XX. Acredito que o filme “Jornada da Alma” (2003) fez mais justiça a Sabina Spielrein que este.

O Carl Gustav Jung de Michael Fassbender ficou bem caracterizado, mas, vale lembrar que Jung possuia um porte um tanto quanto “avantajado”, entre os amigos tinha o apelido de “barril”, e a diferença de altura entre Jung e Freud era tamanha que na foto do Congresso de Psicanálise de 1911, Freud pediu um banco para subir para não ficar abaixo de Jung. Mas, certamente, esse primeiro aspecto não influi em nada, é apenas uma curiosidade. O segundo, por outro lado, chamou muita atenção: o Jung de Fassbender me pareceu profundamente inseguro. Não podemos perder de vista que antes de conhecer Freud, Jung já era assistente do Dr. Bleuler, privatdozent da Faculdade de Medicina de Zurique (1905-1913), palestrante oficial do Hospital Burgholzli.  Jung era altivo e orgulhoso, seria estranho Freud confiar o “futuro” do movimento psicanalítico a um homem confuso e inseguro como o Jung de Fassbander.

Faço esses comentários não para desmerecer o filme, mas, para lembrar que um filme, por mais bem intencionado, não faria justiça aos personagens históricos que o inspiraram. E, assim, devemos buscar estudar e conhecer mais esses personagens de modo a “completar” em nós mesmos a lacuna deixada pelo filme, que é apenas um vislumbre desses nomes.

Apesar desses comentários, os fatos históricos foram retratados de forma bem fiel, como as 13 horas do primeiro encontro, a viagem aos EUA, a crise de síncope, alguns diálogos relatados no Memórias, Sonhos e Reflexões, a troca de cartas (pois, boa parte da relação deles foi epistolar e não presencial),  buscando fazer um retrato o mais fiel possível da relação de Freud e Jung.

Assim, por conhecer a história, o filme não me impressionou, certamente foi incomparavelmente melhor ao antecessor “Jornada da Alma” (The Soul Keeper) de 2003. Mas, acredito que para quem nunca estudou a história do movimento psicanalítico, o filme apresenta um belo retrato daquele momento, instigando espectador buscar maiores informações acerca dos primórdios das abordagens do inconsciente.

Vale a pena ser visto, como um primeiro passo nessa jornada de estudo.

Referências Bibliográficas

CAROTENUTO, Aldo (org.). Diário de Uma Secreta Simetria. RJ: Paz e Terra,. 1984.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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Algumas considerações sobre o conceito de “projeção”

(02 de abril de 2012)

Recentemente, no Facebook,  a colega Tania Frison me pediu para indicar um texto sobre a questão de na projeção psicologia analítica. Como não conhecia nenhum texto, pensei em produzir um pequeno comentário sobre esse conceito.

Em primeiro lugar é fundamental lembrarmos que o conceito de projeção é uma herança psicanalítica adotada por Jung. Apareceu nas “primeiras publicações psicanalíticas” de Freud, mais precisamente no texto “Observações adicionais sobre as neuropsicoses de defesa” de 1896. Nesse texto, Freud um estudo comparativo entre histeria, neurose obsessiva e paranóia, para então compreender e apresentar o mecanismo de defesa dessas neuroses.

Parte dos sintomas, ademais, provém da defesa primária – a saber, todas as representações delirantes caracterizadas pela desconfiança e pela suspeita e relacionadas à representação de perseguição por outrem. Na neurose obsessiva, a auto-acusação inicial é recalcada pela formação do sintoma primário da defesa: aautodesconfiança. Com isso, a auto-acusação é reconhecida como justificável; e, para contrabalançá-la, a conscienciosidade que o sujeito adquiriu durante seus intervalos sadios protege-o então de dar crédito às auto-acusações que retornam sob a forma de representações obsessivas. Na paranóia, a auto-acusação é recalcada por um processo que se pode descrever comoprojeção. É recalcada pela formação do sintoma defensivo de desconfiança nas outras pessoas. Dessa maneira, o sujeito deixa de reconhecer a auto-acusação; e, como que para compensar isso, fica privado de proteção contra as auto-acusações que retornam em suas representações delirantes. (FREUD, 1996, p.182)

No texto acima, podemos perceber que Freud descreve a projeção como um mecanismo defesa, onde um conteúdo pulsional é reprimido, modificado e deslocado para um objeto externo.  Essa é a visão clássica da psicanálise.

A compreensão de Jung acerca da projeção é, até certo ponto,  próxima da psicanálise, especialmente em seu aspecto estrutural, segundo Jung,  “A projeção – onde quer que os conteúdos subjetivos sejam transportados  para o objeto, surgindo como se a ele pertencesse – nunca é um ato voluntário”(JUNG, 2000, p. 146). Contudo, a semelhança termina por aqui.

No que diz respeito ao aspecto funcional, a compreensão de Jung é outra, pois, para ele o mecanismo de projeção fazia parte da dinâmica normal (ou  natural) da psique, podendo estar relacionada a uma dinâmica saudável da psique ou atuar como uma mecanismo de defesa como na patologia(como era na visão de Freud). Toda e qualquer afirmação acerca de um caso específico onde a projeção se manifesta deverá considerar seu próprio contexto.

Daryl Sharp, em seu “Léxico junguiano”(1993), nos informa alguns aspectos importantes acerca da projeção segundo Sharp,

É possível projetar certas características em outra pessoa que não as possui em absoluto, mas, a pessoa sobre a qual se dá a projeção pode, inconscientemente, encorajar a tal projeção.

(SHARP, 1993, p.127)

(NOTA:  Em seu texto, Sharp prossegue fazendo uma citação direta de Jung, como a tradução da Cultrix é muito diferente da tradução da Vozes, vou fazer a mesma citação utilizando a tradução da vozes, para facilitar  a localização e a pesquisa por parte dos interessados.)

Em tais casos é freqüente ver que o objeto oferece uma oportunidade de escolher a projeção, ou mesmo a provoca. Isto acontece quando o objeto (pessoa) não está consciente da qualidade projetada. Com isto ela atua diretamente sobre o inconsciente do interlocutor. Com efeito, qualquer projeção provoca uma contra-projeção todas as vezes que o objeto não está consciente da qualidade projetada sobre ele pelo sujeito.(JUNG, 2000b, p.211)

Sharp/Jung nos apresenta aspectos importantes que nos permitem compreender a dinâmica da projeção, esmiuçando essa citação:

1 – Muitas vezes a projeção é provocada, incentivada, ou motivada por certas características do objeto.

2 – A projeção pode significar uma relação inconsciente de dois individuos.

3 – A projeção provoca uma contra-projeção.

Esses três aspectos estão intimamente relacionados, acredito que um exemplo, pode nos ajudar. Um rapaz imaturo, dependente,  indeciso, com um complexo materno acentuado, pode projetar numa mulher forte e independente (com quem tenha ou não relação afetiva), aspectos de seu complexo materno, mesmo que essa mulher não apresente caracteristicas maternais, pode vir, devido a projeção, apresentar características de cuidado maternal. Esses atribuitos de “independência e força” podem servir de “gancho” favorecendo a projeção, isto é, oferecendo um “gancho” para que a projeção fosse “pendurada”.

Assim, compreendendo que a projeção corresponde a uma dinâmica natural da psique, podemos dizer que

A projeção tem, também, efeitos postivos. No dia-a-dia, ela facilita as relações interpessoais. Além disso, quando supomos que alguma característica ou qualidade está presente em uma pessoa, e constatamos, então, pela experiência, que a suposição não tem fundamento, podemos aprender algo sobre nós mesmos. (SHARP, 1993, p.127-8)

(NOTA: Em seu texto, Sharp prossegue fazendo uma citação direta de Jung, como a tradução da Cultrix é muito diferente da tradução da Vozes, vou fazer a mesma citação utilizando a tradução da vozes, para facilitar a localização e a pesquisa por parte dos interessados.)

Por isto, enquanto o interesse vital, a libido, puder utilizar estas projeções como pontes agradáveis e úteis, ligando o sujeito com o mundo, tais projeções constituem facilitações positivas para a vida. Mas logo que a libido procura seguir outro caminho e, por isto, começa a regredir através das pontes projetivas de outrora, as projeções atuais atuam então com os maiores obstáculos neste caminho, opondo-se, com eficácia, a toda verdadeira libertação dos antigos objetos. (JUNG, 2000b, p. 203)

Assim, Sharp/Jung apontam como as projeções propicia a dinâmica interpessoal. Essas projeçôes diminuem as defesas e auxiliam o individuo se permita a experiência.

A necessidade de retirar as projeções é, geralmente, indicada por expectativas frustradas nos relacionamentos, acompanhadas de um forte afeto. Jung era da opinião, contudo, que enquanto houver uma discordância óbvia entre aquilo que imaginamos ser verdade e a realidade que se nos apresenta, não há necessidade de se falar em projeções e menos ainda de retira-las. (SHARP, 1993, p.128)

(NOTA: Em seu texto, Sharp prossegue fazendo uma citação direta de Jung, como a tradução da Cultrix é muito diferente da tradução da Vozes, vou fazer a mesma citação utilizando a tradução da vozes, para facilitar a localização e a pesquisa por parte dos interessados.)

(…) mas só se pode denominá-la projeção quando aparece a necessidade de dissolver a identidade entre sujeito e objeto. Esta necessidade aparece quando a identidade se torna empecilho, isto é, quando a ausência de conteúdo projetado prejudica muito a adaptação, e o retorno desse conteúdo para dentro do sujeito se torna desejável. A partir desse momento a prévia identidade parcial adquire o carater de projeção. Esta expressão designa, pois, um estado de identidade que se tornou perceptível(JUNG, 1991, p. 436)

O texto de Sharp/Jung nos oferece uma compreensão muito importante, somente podemos falar em projeção quando ela se torna desfuncional, nesse caso, será perceptível a incompatibilidade entre as percepções do sujeito e a realidade do objeto. Antes disso, ela será apenas parte da dinâmica natural.

Jung ainda fazia uma distinção entre projeção ativa e passiva. Em linhas gerais, a projeção ativa seria o que chamamos de empatia, “sentir com o outro” ou “sentir como o outro” o que poderia chegar a identificação. Por outro lado, a projeção passiva seria o que compreendemos normalmente como a projeção, um fenômeno inconsciente que nos toma.

Frente ao que comentamos, fica mais claro para compreender algumas das projeções específicas, como a sombra, anima ou animus e os complexos. De forma geral, para haver a projeção é necessário um “gancho” sobre o qual possa se estabelecer essa projeção. No caso da sombra, que está relacionado com os aspectos próprios negados pelo Ego, a tendência é a projeção em pessoas do mesmo sexo. Pois, a identidade se torna mais clara. Essa projeção da sombra, em alguns casos é “aversiva”  e o individuo vai se sentir “perseguido” ou tendo na receptáculo da projeção um inimigo. Em outros casos, a projeção da sombra se torna atraente, pois, a projeção da sombra pode indicar justamente aspectos subdesenvolvidos, que o sujeito precisa se desenvolver.

Por outro lado, a projeção da anima do homem ou do animus na mulher, vão sempre se relacionar a pessoas do sexo oposto. Isso porque os aspectos que vão constituir a anima ou animus não estão relacionados com a identidade do ego, mas, podem ser compreendidos como o totalmente outro.   

Acredito ser importante compreendermos que os vários aspectos da projeção, quer numa dinâmica de defesa ou na dinâmica saudável, têm por finalidade última favorecer o encontro do individuo consigo mesmo. Ao projetar um conteúdo no meio externo o inconsciente não “esconde” esse conteúdo, mas, expõe o individuo a esse conteúdo de uma forma que não ofereça tanto perigo ao Ego, possibilitando que o no momento certo o individuo possa se confrontar e integrar esse conteúdo, dando mais um passo no processo de individuaçao.

Referências Bibliográficas

FREUD, S. . Observações adicionais sobre as neuropsicoses de defesa. In: FREUD, S. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996. vol. III.

JUNG,C.G. Vida Simbólica Vol. I , Petrópolis,: Vozes 2000

_________ Tipos Psicológicos. Petrópolis: Vozes, 1991.

_________. A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes, 5. Ed. 2000b.

SHARP, Daryl – Léxico jungiano: dicionário de termos e conceitos – São Paulo: Cultrix. 1993. 167 p. (Estudos de Psicologia Junguiana por Analistas Junguianos)

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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Resposta a um comentário de Aldo Costa: Sobre o que é ser um “analista junguiano”

(13 de março de 2012)

Há algumas semanas  Aldo Costa, um leitor que participa ativamente de nosso blog, postou um comentário muito interessante. Ele comentou:

Prezado Fabrício, 

Por que Analista Junguiano não é profissão regulamentada? Nesse sentido, existe diferença entre o Brasil e outros países?
Uma outra dúvida é: quando o psicólogo se autointitula Analista Junguiano, sem ter frequentado um Instituto/Sociedade vinculada à IAAP, aprendendo a teoria de Jung e a sua Psicologia Analítica somente por seus próprios estudos, ele (psicólogo) pode fazer isso?(se autointitular Analista Junguiano, mesmo sem ter frequentado instituições vinculadas à IAAP?).
Esses questionamentos vieram para mim há algumas semanas quando você postou em seu blog um trecho do livro Ser Terapeuta onde citou uma fala do analista junguiano Léon Bonaventure, onde este, ao ser indagado, reponde o que é ser analista junguiano e diz dentre outras informações que: (Ser analista junguiano) “É ter a coragem de viver a individuação”, dizendo categoricamente que para ele, hoje, a formação, os diplomas, “ser membro da Sociedade” nada tem a ver com a identidade de ser analista junguiano.
E, finalizando, o Conselho Federal de Psicologia (ou os CRP´s) autorizam que o psicólogo, no caso acima exposto, permite o psicólogo (sem curso em instituições vinculadas à IAAP) se autointitular Analista Junguiano e divulgar para seus pacientes?
Qual a sua opinião?

Muito obrigado.

Confesso que gostei muito dos questionamentos levantados pelo Aldo, ainda mais, por acreditar que ele deu voz a inúmeras outras pessoas que tem essas mesmas dúvidas. Até porque são questões complexas, que tentarei responde-las da melhor forma possível. Caminhemos um passo de cada vez,

Por que Analista Junguiano não é profissão regulamentada?

No Brasil, nenhuma abordagem psicoterapêutica é considerada profissão regulamentada. Isto é, não há nenhuma lei que cria e regulamenta seja a profissão de “analista junguiano”, “analista bioenergético” ou de psicanalista.

No inicio da década passada, houve uma tentativa de regulamentação da profissão de psicanalista. Na época, as principais entidades de referência da psicanálise, apoiadas pelo Conselho Federal de Psicologia, Conselho Federal de Medicina e pela Associação Brasileira de Psiquiatria, dentre outras, se organizaram contra essa regulamentação, participando de audiências e produzindo documentos expondo os motivos, desde os apontamentos nos textos de Freud até a situação contemporânea da psicanálise, para não se regulamentar a profissão de psicanalista.

Essa oposição pela regulamentação da psicanálise estava pautada sobretudo no critério de formação. Pois, uma regulamentação padronizaria o exercício profissional e delimitaria um currículo e tempo de formação. Num texto sobre essa questão da regulamentação da psicanalise, BALEEIRO apresenta um esboço daquela proposta de regulamentação

O Projeto n.º 3.944 é composto de seis capítulos. Inicialmente, faz algumas considerações, justificando assim a sua necessidade. No geral, trata da regulamentação da seguinte forma:

Cap. I. – define quem é e de quem trata o psicanalista e onde atua – Psicanalista é a profissão e o título é de psicanalista clínico – trata de pacientes portadores de distúrbios psíquicos de natureza inconsciente;

Cap. II – quem forma – as sociedades serão registradas, reconhecidas e vinculadas ao MEC que irá definir: currículo mínimo, matérias complementares, estágio, obrigatoriedade da análise didática;

Cap. III – reconhece as sociedades existentes antes da vigência da lei – no entanto fixa critérios para as próximas e regulamenta as existentes, ligando-as ao MEC;

Cap. IV – quem fiscaliza e registra as entidades – o Conselho Federal e os Estaduais de Medicina.( BALEEIRO, 2002)

A regulamentação da psicanálise significaria, por um lado, a definitiva mercantilização da psicanálise (ainda presente em função de cursos de formação de 2 anos) por outro, essa regulamentação abriria a possibilidade que qualquer instituição que atendesse os critérios do MEC, poderia direcionar a psicanálise de acordo com os próprios interesses, como instituições religiosas. Não há nenhuma duvida de que se a psicanálise fosse regulamentada, esta se tornaria em larga escala posse de instituições religiosas – usando-a para justificar seu próprio sistema. Como já vemos, na chamada psicanálise cristã.

Mas, porque eu insisti tanto em falar da psicanálise? Justamente porque a análise junguiana não possui a representatividade  da psicanálise, desta forma, os acontecimentos dessa abordagem serviria como um paradigma para pensar os desdobramentos das demais abordagens que lidam com o inconsciente.

Em nossos dias é comum vermos junguianos adotando o titulo de “psicanalistas junguianos”. Isso nos dá um bom indicativo de que se a psicanálise fosse regulamentada, seriam oferecidos cursos de psicanálise freudiana, psicanálise junguiana dentre outros. É sabido que alguns misturam a psicologia analítica com suas crenças religiosas, havendo essa regulamentação, daria o respaldo oficial para essa mistura. De certa forma, ainda há a possibilidade de um certo controle da comunidade profissional para evitar a mercantilização e o domínio ideológico da abordagem, pois,  cabe as instituições e os profissionais delimitarem as diretrizes, selecionar os candidatos que se adeqúem as exigências pessoais e éticas ao exercício da analise.

Deste modo, a regulamentação é algo que é combatido pela comunidade profissional, pois,  abriria uma possibilidade de deturpar a análise junguiana, ou qualquer outro tipo de análise.

Nesse sentido, existe diferença entre o Brasil e outros países?

Infelizmente, não tenho informações sobre a regulamentação em outros países, assim, fico devendo esta resposta.

Uma outra dúvida é: quando o psicólogo se autointitula Analista Junguiano, sem ter frequentado um Instituto/Sociedade vinculada à IAAP, aprendendo a teoria de Jung e a sua Psicologia Analítica somente por seus próprios estudos, ele (psicólogo) pode fazer isso?(se autointitular Analista Junguiano, mesmo sem ter frequentado instituições vinculadas à IAAP?).

Essa é uma questão bem polêmica.  Veja bem, no Brasil, os cursos de formação de analistas junguianos são cursos livres , isto é, não possuem um caráter oficial, não reconhecidos pelo MEC. Por mais que tenham uma carga horária alta (cerca de 750 h), não possuem um valor efetivo enquanto titulação. O fato de ser em uma instituição respeitada como a SBPA ou a AJB, que são vinculadas a IAAP, nos informa acerca da qualidade do curso, mas, não altera muito a questão da titularidade que, como disse, é de curso livre.

Quero deixar claro que em hipótese alguma quero desmerecer a formação vinculada a SBPA, AJB ou qualquer instituição vinculada a IAAP, cuja qualidade e profundidade são inquestionáveis.

Entretanto, na minha opinião, o que acontece é que de fato,  como não há regulamentação, a designação “analista junguiano” se torna uma identidade teórica. Assim, o psicólogo que se identifica com a psicologia analítica ou com a análise junguiana se assuma “analista junguiano”. Do mesmo modo que um psicólogo que estuda psicanálise se apresente como “psicanalista”, não indicando necessáriamente uma formação, mas, uma identidade teórica ou de abordagem.

Esses questionamentos vieram para mim há algumas semanas quando você postou em seu blog um trecho do livro Ser Terapeuta onde citou uma fala do analista junguiano Léon Bonaventure, onde este, ao ser indagado, reponde o que é ser analista junguiano e diz dentre outras informações que: (Ser analista junguiano) “É ter a coragem de viver a individuação”, dizendo categoricamente que para ele, hoje, a formação, os diplomas, “ser membro da Sociedade” nada tem a ver com a identidade de ser analista junguiano.

A afirmação do Dr. Léon Bonaventure deve ser compreendida à luz de sua história. Vale apena recordar que Dr. Léon Bonaventure foi o primeiro analista junguiano reconhecido pela IAAP a vir para o Brasil, em 1967.  Ele foi um “ativista junguiano” muito importante, sendo um dos responsáveis pelo projeto da tradução das obras completas. Segundo Arnaldo Motta (2005) nos finais da década de 70, muitos médicos e psiquiatras buscaram do Dr. Bonaventure para realizar análise didática, criando em torno dele um grupo de pessoas interessadas em criar um instituto de formação em psicologia analítica aberto a diversos profissionais, essa proposta de Dr. Bonaventure encontrou resistência do Dr. Carlos Byington, que defendia a restrição da função de analista a psicólogos e médicos.

Após um periodo desgastante, Dr. Léon Bonaventure se afastou do grupo por ele criado. Este grupo, vinculando-se a liderança do Dr. Carlos Byinton deu origem a Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, em 1978. Apesar de seu importante papel, ele não foi convidado para compor ou participar da SBPA que nascia. Outros pioneiros junguianos de importância inquestionável na psicologia analítica brasileira, como Dr. Petho Sandor e a Dra. Nise da Silveira também não fizeram parte da sociedade, por ocasião de sua fundação.

Com essas informações, podemos compreender que fazer parte de uma Sociedade ou Associação, muitas vezes implica num movimento político. E, fazer parte ou não de uma instituição não significa que o individuo não será um bom analista junguiano. Outro exemplo, é Roberto Gambini, analista junguiano formado em Zurique, não é membro da SBPA ou da AJB.

E, finalizando, o Conselho Federal de Psicologia (ou os CRP´s) autorizam que o psicólogo, no caso acima exposto, permite o psicólogo (sem curso em instituições vinculadas à IAAP) se autointitular Analista Junguiano e divulgar para seus pacientes?

Bem Aldo, acredito que essa pergunta já foi contemplada, né? De certa forma, analista junguiano pode ser compreendida como uma identidade teórica. Compreendendo também, que o curso de formação de analista  não é exclusivo de instituições vinculados a IAAP.

Você também me pediu minha opinião, ok. Pessoalmente, eu respeito profundamente os analistas vinculados a IAAP, tive vários professores da SBPA. De igual modo, respeito profundamente tanto a SBPA quanto a AJB. Mas, acredito supervalorizamos a psicologia analítica “institucional”. No Brasil, temos vários grupos independentes que estudam e trabalham seriamente divulgando o pensamento junguiano. Devemos dar mais valor a esses movimentos.

Concordo com Dr. Léon Bonaventure, a identidade junguiana não está em certificados ou em carteirinhas de sociedades, mas sim, em viver a individuação. Penso que muitas vezes, a formação não é pensada como um treinamento profissional, mas, como uma autoafirmação profissional. Atendendo a necessidade de fazer parte de algo maior, um grupo.

Roberto Gambini, em seus últimos parágrafos do livro “A Voz e o Tempo”, nos diz,

(…)A psicologia junguiana não poderá jamais ser reduzida a uma técnica de exercício profissional ou de manejo de transferência no setting terapêutico, nem muito menos confinada a um código acadêmico, exatamente por ser um modo de observar, pensar e fazer no qual se fundem objetividade e arte, ciência e poesia, formação e iniciação. A objetividade que praticamos é e deve ser contaminada pela alma, pois sem sua mediação no mundo, tanto interior como exterior, nos é incompreensível. Nunca usaremos aventais brancos nem trabalharemos com instrumentos de precisão, sejam testes ou diagnósticos – assim como nunca seremos neofreudianos.

Digo outra vez: sentimentos de inferioridade profissional podem ser uma defesa que impede o contato com o Self.Nós junguianos temos um complexo de herança – ainda não aprendemos a herdar com serenidade. Alarmamo-nos com a idéia de que a herança possa ocultar um problema paterno, ou que ameace nossa liberdade criativa.

Ninguém é dono de Jung. Mas, podemos coletar as pepitas de ouro que encontramos pelo caminho e nos tornarmos a árvore única que cada um, desde o começo, está fadado a ser. (GAMBINI, 2008, p. 214)

Espero ter respondido as questões. Aldo Costa, muito obrigado por sua contribuição!!!

Referências bibliográficas

BALEEIRO, Maria Clarice. Sobre a regulamentação da psicanálise.Cogito,  Salvador,  2002 .   Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-94792002000100013&lng=pt&nrm=iso>. acessos em  13  mar.  2012.

GAMBINI, R. A voz e o tempo: reflexões para jovens terapeutas. São Paulo: Ateliê Editorial, 2008.

MOTTA, Arnaldo Alves Psicologia Analítica no Brasil; contribuições para a sua história, São Paulo: PUC, Tese de mestrado, 2005.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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“Como é mesmo que descubro o que sou?” Uma breve reflexão a partir de comentários no Facebook

 

(9 de janeiro de 2012)

Há pouco tempo atrás, eu postei no meu mural do facebook uma frase de Jung que considero muito significativa:

“Só aquilo que somos realmente tem o poder de curar-nos.”

Ao que uma querida amiga, Fabiane Barbosa, comentou:

Que legal, mas como é mesmo que descubro o que sou??????

Achei essa pergunta muito pertinente e interessante, pois, muitas vezes apenas afirmamos impulsivamente “eu sou isso” ou “eu sou aquilo”, ao que respondi:

Fabi, através da relações que você estabelece com “você mesma”( de atenção, cuidado, respeito) e com o mundo(relações afetivas, ideológicas e sociais). Se vc analisar essas relações e perceber vc está sendo “integra” ou está “por inteiro” em tudo que você faz, sem se violentar, você está no “seu” caminho certo. O adoecimento se estabelece quando a gente se perde desse caminho ou a gente se perde… estabelecendo relações danosas tanto pra gente quanto pro mundo. o adoecimento psíquico, nesse sentido, é uma tentativa do inconsciente de redimensionar ou corrigir essas relações internas ou externas.

ps.: pq eu falei de relações? pq nessas relações vc vai se perceber… tendo atenção, cuidado e respeito com “vc mesma” vai vai ver o que é “negociável” ou “inegociável” para vc… ai vc vai poder ver e ser no mundo de uma forma mais adequada e respeitosa, tanto a vc mesma quanto ao mundo.

Após escrever essa resposta eu fiquei pensativo. Considerei que seria interessante refletir um pouco mais acerca da noção “do que sou”.

Acredito ser importante compreendermos, em primeiro lugar, que para a psicologia analítica o “ser eu mesmo” ou “o que sou” não é algo estático ou rígido, mas, sim um processo que está em constante desenvolvimento. 

Pode parecer estranho, pois, estamos acostumados a pensar em “eu sou” em termos de “ego” e “consciência”. Contudo, o ego é apenas uma parte da totalidade da psique que nos constitui. O que chamamos de ego é justamente o nosso centro consciente de referência, é comumente o que chamamos de “eu”, sendo o sujeito de nossas ações conscientes, escolhas, que está intrinsecamente ligado a nossa base somática. Através do “eu” vivemos e nos adaptamos conscientemente ao momento presente, e, muitas vezes, acreditamos que o “eu” é “tudo o que sou”, isto é, acabamos por reduzir nossa vida psíquica ao centro da consciência. O que nos expõe aos ventos do inconsciente e a uma possível submissão das exigências do mundo exterior.

O “eu” possui duas funções fundamentais na vida psíquica, a primeira é intermediar os processos adaptativos do organismo com o mundo interior e exterior, a segunda é propiciar os meios para a realização do si-mesmo, este segundo aspecto pertinente ao processo de individuação, discutiremos em outro momento.

Sobre o primeiro aspecto, Jung afirma que

O homem deve ser levado a adaptar-se em dois sentidos diferentes, tanto à vida exterior — família, profissão, sociedade — quanto às exigências vitais de sua própria natureza. Se houve negligência em relação a qualquer uma dessas ne­cessidades, poderá surgir a doença. (JUNG, 2006, 143)

Nesse processo adaptativo deve haver sempre o equilíbrio entre adaptação ao exterior e ao interior.  A adaptação ao mundo interior passa pelo reconhecimento de nossa própria história vivida, que se encontra presente e atuante em nossa vida através de nossos complexos. Acho que é importante frisar: nossa história vivida ou passada, não se encontra perdida num passado distante, mas, ela é viva e está no presente e relativamente disponível ao ego, por meio dos complexos.

Os complexos não são entidades patológicas, mas, sim estruturas básicas dos psiquismo individual em torno do qual nossas experiências são ordenadas assim como sua carga emocional. Os complexos são estruturas autônomas no inconsciente pessoal que,  em função de sua autonomia, podem invadir a consciência. O poder do complexo está diretamente relacionado com a capacidade do Ego em lidar com o mesmo, isto é, se o Ego evita ou é incapaz de lidar com os conteúdos complexo, este terá um potencial maior de invadir ou perturbar a consciência, geralmente causando sofrimento.

Por isso, é importante termos clareza que os complexos são estruturas de nossa psique, que se relacionam com o Ego. Para termos uma relação e consideração adequada com os complexos devemos considera-los como conteúdos distintos do Ego.  Eles são fatores que também nos constituem, devemos aceitar e respeitar aqueles elementos fundamentais de nossa história ou enfrentar os elementos de nossa história que nos limitam, impedindo nosso desenvolvimento. É muito perigoso assumirmos a postura Gabriela “Eu nasci assim, eu cresci assim, Eu sou mesmo assim, Vou ser sempre assim”, pois, vai de encontro a natureza da psique que visa o desenvolvimento.

Integrar nossa história significa confrontar e integrar a sombra,  que é o passo fundamental no processo de auto conhecimento. Segundo Jung,

(…) nesta tomada da de consciência da sombra trata-se de reconhecer os aspectos obscuros da personalidade, tais como existem na realidade. Este ato é a base indispensável para qualquer tipo de autoconhecimento e, por isso, via de regra, ele se defronta com consideravel resistência. (JUNG, 2000, p. 6)

Concomitante aos fatores de nossa história devemos considerar os fatores individuais relacionados com a dinâmica coletiva externa, neste caso nos referimos a persona.  Segundo Jung,

Ao analisarmos a persona, dissolvemos a máscara e descobrimos que, aparentando ser individual, ela é no fundo coletiva;em outras palavras, a persona não passa de uma máscara da psique coletiva. No fundo, nada tem de real; ela representa um compromisso entre o indivíduo e a sociedade, acerca daquilo que “alguém parece ser: nome, título, ocupação, isto ou aquilo. De certo modo, tais dados são reais; mas, em relação à individualidade essencial da pessoa, representam algo de secundário, uma vez que resultam de um compromisso no qual outros podem ter uma quota maior do que a do indivíduo em questão. (JUNG, 2001, p. 32)

A persona pode ser compreendida como os papeis sociais que um individuo possui. De forma geral, a persona está vinculada a dinâmica do Ego e da Consciência, por fornecer elementos de identidade ao individuo. Contudo, quando nos tornamos inconscientes da persona, isto é, não temos clareza dos papéis sociais e seu alcance, podemos nos identificar com ela, isto é, agindo e percebendo o mundo como se seus atributos fossem atributos do ego.  Um exemplo, seria a pessoa que não consegue se desligar de sua função social, como um juiz que age sempre impondo sua autoridade, ou um médico que exige ser chamado sempre de “doutor”.

Isso significa que todos os demais aspectos de sua vida tendem a ser negligenciados, como o pai, marido, amigo, filho, pois, ele estará sempre sintonizado com esse aspecto de sua vida. Juntamente com os complexos e o Ego, a persona compõe “o que sou”. Mas, ela por si só, não corresponde “ao que sou”.

Assim, para considerar “o que sou” devemos obrigatóriamente considerar o “momento em que estou”. E, ainda mais, é fundamental considerarmos que “o que sou” não é uma definição ou algo determinado e imutável, mas, sim um ponto de partida. Por isso, eu assinalei a importância de compreender “o que sou”  através das relações que estabeleço sobretudo comigo mesmo e com o mundo que me cerca.

É importante compreendermos que é o fato de consideramos toda a complexidade de ser quem somos, não significa que faremos as “escolhas certas” ou as “escolhas boas”, significa que teremos a maior propensão a estarmos por inteiro em nossas escolhas, o que implica não em fazer o “certo”, mas, sim em fazer o que é necessário.

Falta ainda comentarmos sobre o mundo exterior, o mundo exterior é importante justamente por fazer inúmeras exigências ao individuo, p.ex., como ele deve agir, como se portar, expor opiniões, tomar decisões. Enfim, o processo adaptativo com o mundo exterior exige que o ego se posicione, decida e aja. Entretanto, se o ego se posicionar sempre levando em consideração o mundo exterior, negligenciando seus fatores individuais, pode gerar uma reação compensatória do inconsciente – que pode gerar sofrimento. O mundo exterior é fundamental por nos colocar em movimento, através dessas relações e com as dificuldades apresentadas poderemos nos desenvolver.

O confronto com a sombra e o redimensionamento da persona são fundamentais na compreensão de quem eu sou. Vale lembrar, que quando Jung afirma que “Só aquilo que somos realmente tem o poder de curar-nos.” (JUNG, 2001, p.43), ele não se refere a um conhecimento racional ou puramente consciente, mas, sim a vivência desse ser real.

A integração da persona e da sombra constituem, muitas vezes, uma dificil tarefa. Mas, é o primeiro passo para o desenvolvimento maior da personalidade. Jung afirma

“Se o confronto com a sombra é obra do aprendiz, o confronto com a anima é a obra-prima.(…)Jamais devemos esquecer que, em se tratando da anima, estamos lidando com realidades psíquicas, as quais até então nunca foram apropriadas pelo homem, uma vez que se mantinham fora de seu âmbito psíquico, sob a forma de projeções. (JUNG, 2002, p.39)

Integrar o a dimensão arquetípica da anima é um processo que vai além do autoconhecimento. Pois, implica em integrar a dimensão da alteridade, uma tarefa da segunda metade da vida, própria ao processo de individuação, mas, que vermos em um outro post no futuro.

Referências Bibliográficas

JUNG, C.G O DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE,Petrópolis: Vozes, 2006

JUNG,C.G AION – ESTUDOS DO SIMBOLISMO DO SI-MESMO , Petrópolis: Vozes, 2000

JUNG,C.G O EU E O INCONSCIENTE,Petrópolis: Vozes, 2001

JUNG,C.G OS ARQUÉTIPOS E O INCONSCIENTE COLETIVO , Petrópolis: Vozes, 2000

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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Algumas Reflexões acerca da Morte e seu simbolismo

 

27 de fevereiro de 2011

A Morte é um dos maiores mistérios da vida. Justamente por ser mistério, ela é temida pela grande maioria das pessoas. A temática da morte está presente em todas as formações religiosas, devido a numinosidade que a envolve.

Para pensarmos na morte, devemos ter em vista que a mesma comporta vários níveis de interpretação/compreensão desde o mais básico, como o biológico quando um ser vivente atinge um nível de desorganização em que ocorre a cessação dos processos vitais, passando pela simbólica podendo ser sociocultural, envolvendo o processo morrer, até a morte no sentido mais metafísico que é a morte espiritual.

No que tange a nosso post, devemos focalizar o aspecto da morte que nos fala mais diretamente, que é Morte como um símbolo, que eclode do inconsciente, invadindo a consciência pessoal, quer por meio de sonhos ou por meio de sensações, que promove a sensação de finitude, pequenez, e impossibilidade. (Lembro que há alguns anos, num Ciclo de Debates em Psicologia Hospitalar na UFES, o prof. Dr. Fernando Pessoa, do dept. de Filosofia da UFES, fez uma palestra brilhante, que me marcou profundamente, onde ele discutiu sobre a morte como a “impossibilidade das possibilidades”).

Sob a ótica junguiana, compreendemos que todos nós trazemos em nós esse “principio de desagregação”, sob o conceito de arquétipo. É importante lembrarmos que para a psicologia analítica, os arquétipos são fruto da experiência humana ao longo da evolução, isto é, as experiências típicas/comuns humanas imprimiram na psique , ao longo das centenas de milhares de anos, um registro residual dessas experiências, de modo que forneceriam ao individuo padrões de organização psíquica necessários para sua vida psíquica/simbólica.

Há tantos arquétipos quantas situações típicas na vida. Intermináveis repetições imprimiram essas experiências na constituição psíquica, não sob a forma de imagens preenchidas de um conteúdo, mas precipuamente apenas formas sem conteúdo, representando a mera possibilidade de um determinado tipo de percepção e ação, Quando algo ocorre na vida que corresponde a um arquétipo, este é ativado e surge uma compulsão que se impõe a modo de uma reação instintiva contra toda a razão e vontade, (JUNG, 2000a, p. 58)

Assim, podemos falar da Morte sob um aspecto arquetípico, contudo, devemos tomar cuidado ao lidarmos com esse arquétipo, para não incorrer num reducionismo teórico. Pois, quando falamos de um “arquétipo da Morte”, estamos fazendo uma cisão numa dinâmica arquetípica muito maior, que é do arquétipo de vida/morte. A morte representa um pólo dessa dinâmica arquetípica. De outra forma, podemos dizer que a vida e a morte constituem as faces de uma mesma e única moeda, não podemos perder de vista que a morte é parte da vida. Não há vida sem morte, nem  morte sem vida. É justamente ao nos confrontarmos com o horizonte da morte, finitude e limitações,  que tomamos consciência de nossa vida.

Na minha experiência bastante longa fiz uma série de observações com pessoas cuja atividade psíquica inconsciente eu pude seguir até imediatamente antes da morte. Geralmente a aproximação do fim era indicada através daqueles símbolos que, na vida normal, denotavam mudanças no estado psicológico — símbolos de renascimento, tais como mudanças de localidade, viagens e semelhantes. Muitas vezes pude acompanhar até acima de um ano antes os indícios de aproximação da morte, inclusive naqueles casos em que a situação externa não permitia tais pensamentos. O processo tanatológico começara, portanto, muito antes da morte real. Aliás, observa-se isto, freqüentemente, também na mudança peculiar de caráter que precede de muito a morte. Globalmente falando, eu me espantava de ver o pouco caso que a psique inconsciente fazia da morte. Pareceria que a morte era alguma coisa relativamente sem importância, ou talvez nossa psique não se preocupasse com o que eventualmente acontecia ao indivíduo. Por isto parece que o inconsciente se interessa tanto mais com saber como se morre, ou seja, se a atitude da consciência está em conformidade ou não com o processo de morrer. Assim, uma vez tive de tratar de uma mulher de sessenta e dois anos, ainda vigorosa, e sofrivelmente inteligente. Não era, portanto, por falta de dotes que ela se mostrava incapaz de compreender os próprios sonhos. Infelizmente era por demais evidente que ela não queria entendê-los. Seus sonhos eram muito claros, mas também desagradáveis. Ela metera na própria cabeça que era uma mãe perfeita para os filhos, mas os filhos não partilhavam desta opinião, e os seus próprios sonhos revelavam uma convicção bastante contrária. Fui
obrigado a interromper o tratamento, depois de algumas semanas de esforços infrutíferos, por ter sido convocado para o serviço militar (era durante a guerra). Entrementes a paciente foi acometida de um mal incurável que, depois de ;alguns meses, levou-a a um estado agônico o qual, a cada momento, podia significar o fim. Na maior parte do tempo ela se achava mergulhada numa espécie de delírio ou sonambulismo, e nesta curiosa situação mental ela espontaneamente retomou o trabalho de análise antes interrompido. Voltou a falar de seus sonhos e confessava a si própria tudo o que me havia negado antes com toda a obstinação possível, e mais uma porção de outras coisas. O trabalho de auto-análise se prolongava por várias horas ao dia, durante seis semanas. No final deste período, ela havia-se acalmado, como uma paciente num tratamento normal, e então morreu. 
Desta e de numerosas outras experiências do mesmo gênero devo concluir que nossa alma não é indiferente, pelo menos ao morrer do indivíduo. A tendência compulsiva que os moribundos freqüentemente revelam de querer corrigir ainda tudo o que é errado, deve apontar na mesma direção.’(JUNG, 2000b, p.363-4) (grifo meu)

Para pensarmos acerca do simbolismo da morte, em seu caráter coletivo, isto é, arquetípico, devemos recorrer as formações/expressões  culturais que lidam com a morte através dos séculos. Talvez, seja importante esclarecer que o método junguiano de estudo do simbolismo é o método hermenêutico, ou seja, para se compreender um símbolo, devemos proceder como um tradutor procede para apreender o significado de uma palavra, que busca o termo em diferentes textos e contextos para assim compreender seus possíveis significados, assim também devemos buscar as ocorrências dos símbolos produções culturais através dos séculos, comparando sua ocorrência em diferentes culturas e tradições para assim, podermos nos aproximar da complexidade do símbolo.

Para compreendermos as relações com a morte é fundamental buscarmos as religiões/mitologias para compreendermos a Morte. isso por que, em primeiro lugar, as mitologias, segundo Campbell, começam a se desenvolver há cerca de 100 mil a.C, isto é, começamos a ter os primeiros indícios de um pensamento mítico, associados aos “enterros cerimoniais”. Esses enterros cerimoniais, indicam que já havia uma crença numa vida após a morte (ou vida após a vida). Isso é importante justamente, para compreendermos um ou “o” papel mais importante das religiões que é a preparação do individuo (e de seu grupo) para a morte e o morrer.

Na maior parte das religiões o “eterno retorno” é a marca crucial, isto é, a vida flui sempre e continuamente, sendo pontuada pela morte, que assinala a transformação da vida. Mesmo as religiões oriundas do judaísmo, que inaugura uma perspectiva linear da historia, onde há um inicio e um fim da “história humana”. Com o cristianismo, essa linearidade se expandiu assumindo uma “vida eterna” e o surgimento de um “novo ciclo” (os “novos céus e nova terra”).

No que diz respeito ao simbolismo da morte, devemos ressaltar, a Morte de Cristo é o ponto máximo da fé cristã, para não dizer que é o ponto fundante do cristianismo. Pois, foi a forma como Cristo morreu e a sua ressurreição que há a possibilidade de se considerar a vida eterna ou a vitória sobre a morte, esta ultima, se torna um ponto de transição, uma passagem pela qual o crente passa para se encontrar com Cristo.

Entre os Yorubas,na tradição do candomblé, a morte era a passagem para uma outra vida, onde poderia haver ou não retorno ao mundo dos vivos.

Entre os buddhistas tibetanos, a morte é um limiar, uma passagem, uma mudança, como um encerramento de um capitulo. No pós vida o espirito pode se iluminar ou retornar pelo renascimento.

Nos Ritos/mistérios de Elêusis, na Grécia, havia uma crença na vida suplantaria a morte. Sendo um rito vinculado a uma mitologia agrária, indicava que assim como o grão de trigo, caindo e sendo sepultado na terra daria origem a nova vida, do mesmo modo nós também viveremos após sermos sepultados na terra.

Uma outra tradição interessante a ser considerada é a do Tarot, que traz o arcano XIII, uma representação da morte. Apesar de poder significar morte física,  em geral, indica uma transformação ou mudança que pode` se apresentar como positiva ou negativa. Mas, em sua essência traz imagem da transformação.  

Quando vamos buscar em várias e diferentes tradições,  a morte indica uma passagem e transformação. É importante compreendermos que, quando uma pessoa produz um sonho, este, no geral, fala da realidade psíquica daquela pessoa. Assim, quando observamos um símbolo de morte ou ruptura num sonho, p. ex, temos que recorrer as associações do sonhador, pois, somente ele vai poder dar a direção, para compreender, se for o caso, o que precisa morrer ou abrir espaço para que algo novo se configure em sua vida? A chave está sempre com quem produziu o símbolo.

O fundamental é considerar que todos os símbolos são polissêmicos, dessa forma, não podemos considerar um sonho de morte, ou uma sensação de morte iminente num sintoma, como sendo uma morte física que se aproxima. O desespero muitos sentem frente a ideia da morte, ou frente aos símbolos da morte, indica que há muito que repensarmos em nossa própria vida. Pois, a forma como encaramos a morte é um reflexo de como vivemos nossa vida.

Transpondo para termos junguianos, esse desespero ou terror em se pensar na morte, nos permite vislumbrar que há algo de errado no  desenvolvimento do processo de individuação. Isso porque o “horizonte da morte” é um dos fatores que disparam o processso de individuação

Do meio da vida em diante, só aquele que se dispõe a morrer conserva a vitalidade, porque na hora secreta do meio-dia da vida inverte-se a parábola e nasce a morte. A segunda metade da vida não significa subida, expansão,  crescimento, exuberância, mas morte, porque o seu alvo é o seu término. A recusa em aceitar a plenitude da vida equivale a não aceitar o seu fim. Tanto uma coisa como a outra significam não querer viver. E não querer viver é sinônimo de não querer morrer. A ascensão e o declínio formam uma só curva. (JUNG, 2000b.p. 359-60 )

A metáfora que Jung utiliza, comparando a vida humana ao ciclo solar, é importante para compreendermos que ao meio dia da vida, o desenvolvimento se inverte, já não é exterior, mas, se inclina gradativamente ao desenvolvimento interior. Aceitar a possibilidade da morte, a finitude, as limitações da idade, propicia que que o individuo viva cada etapa de sua vida de forma plena.

Muitas vezes, quando os símbolos da morte se manifestam, podemos pensar, também, que há a necessidade de ir a adiante, uma nova etapa deve ser começada. Muitas vezes,esse movimento que busca a continuidade é sentida com muito sofrimento, como a perda ou ruptura, pois, o Self que “incita a este movimento para diante, e, se necessário, o realiza com força inexorável”.(NEUMANN, 2000, p.228)

Quanto maior a desconexão entre a consciência e o inconsciente, melhor representada pelo eixo ego-self, maior será a dificuldade do individuo perceber a dinâmica em seu inconsciente. E, os símbolos constelados tendem a não ser assimilados pela consciência, gerando assim, os sintomas e possíveis quadros neuróticos.

Assim, uma perspectiva para compreendermos a psicologia dos símbolos da morte é compreendermos que a morte é parte da vida e, desta forma, a os símbolos que envolvem a morte são, em ultima instância, símbolos da vida, ou de forma mais específica, da transitoriedade e/ou das transformações que são necessárias ou inerentes a vida. 

Referências bibliográficas

JUNG, C.G. Os arquétipos e o Inconsciente Coletivo, Petropolis: Vozes, 2000a.

______________. A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes, 5. Ed. 2000b.

CAMPBELL, Myths to Live By. Nova York: Penguin Books, 1993.

NEUMANN, E., O Medo do Feminino – E outros ensaios sobre a psicologia feminina, São Paulo: Paulus, 2000.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

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Alguns Aspectos da “Teoria Junguiana da Libido ou Energia Psíquica”

 

(Originalmente publicado em duas partes em 5 de janeiro de 2011 e 24 de janeiro de 2011)

Em 1928, Jung publicou um trabalho chamado “Energia Psíquica”. Este trabalho foi a conclusão de um longo estudo que começou em 1912, quando Jung começou a tornar públicas suas divergências com Freud.

O grande marco dessa diferença acerca da “teoria da libido” foi o livro “Metamorfoses e Símbolos da Libido”(1912). Em setembro desse mesmo ano, Jung realizou uma série de conferencias na Universidade Fordham,(EUA), onde apresentou uma nova concepção acerca da teoria da libido, segundo ele,

Creio não estar errado, se acho que o valor do conceito de libido não está em sua definição sexual, mas no seu ponto de vista energético,  graças ao qual  estamos de posse de uma concepção heurística extremamente valiosa. Graças também a concepção energética, temos a possibilidade de imagens dinâmicas e relações que são de valor incalculável no caos do mundo psíquico. A escola freudiana faria muito mal se fechasse os ouvidos às vozes da crítica que acusam nosso conceito de libido de misticismo e incompreensível. Uma das nossas ilusões foi acreditar que podíamos transformar a libido sexual em veículo de uma concepção energética da vida psíquica, e e muitos de nossos ainda pensam que possuem um conceito perfeitamente claro e por assim dizer concreto de libido, não se dão conta de que esse conceito foi empregado em sentidos que ultrapassam de longe os limites de sua definição sexual. (JUNG, 1989,  p. 127-8).

Nesse texto, de 1912, podemos perceber que Jung ainda estava relacionado com a psicanálise, sua compreensão acerca da libido foi uma era de uma contribuição ao desenvolvimento pensamento psicanalítico. No entanto, a recepção das novas idéias acerca libido, presentes no Metamorfoses foi a pior possível. Freud se absteve de comentar o livro, delegando a Sándor  Ferenczi a tarefa fazer refutar e desqualificar o trabalho de Jung, reafirmando a ortodoxia freudiana. Ao final, Ferenczi afirma que

A impressão geral que extraímos da leitura de Metamorfoses e símbolos da Libido é que Jung  não se ocupa  de uma ciência propriamente indutiva, mas de uma sistematização filosófica, com todas as vantagens e inconvenientes de uma abordagem desse gênero. A principal vantagem apresentada é o apaziguamento do espírito, o qual, dando por resolvida a questão principal do ser, livra-se dos tormentos da incerteza e pode deixar tranquilamente para outros o cuidado de preencher as lacunas do sistema.(FERENCZI, 1992,p 102-3).

A libido percebida “ponto de visa energético”, marcou o inicio do fim da fase psicanalítica de Jung (o final dessa fase se deu em 1914). O que deve ficar claro, é nunca houve uma negação acerca do caráter sexual da libido, mas, uma ampliação que também abarcava a libido de Freud.

Jung deu formato “final” a sua teoria da libido em 1928. Apesar da importância  a teoria libido acaba por ocupar um lugar secundário, quando comparada as grandes formulações teóricas de Jung, segundo Perrone,

Sua obra se distribui em duas vertentes principais:  as das três grandes formulações teóricas que são a teoria dos complexos, os tipos psicológicos e os arquétipos do inconsciente coletivo, de um lado, e um questionamento incessante das “ condições de possibilidade da psicologia”, de outro. (…) Há autores que consideram o processo de individuação como sendo , em si, a quarta formulação da teoria junguiana enquanto outros a inserem no desdobramento de seu pensamento. A teoria da energia psíquica, de 1928, embora importante instrumento da reflexão junguiana, não se alinha no mesmo nível das anteriores. (PERRONE, 2008, p. 9-10)

A Teoria da “Energia Psíquica” tem como foco a compreensão dadinâmica da psique. Quando Jung optou em deixar o ponto de vista freudiano, ele adotou uma compreensão finalista ou teleológicaacerca da energia psíquica. Isso significa dizer, que Jung parte do efeito (do que foi manifesto) para compreender a causa. Diferente da postura freudiana, que partia da causa para o efeito, isso compreendendo que a causa estaria sempre atrelada a um princípio teórico, no caso a teoria da sexualidade. Ao partir do que é manifesto(efeito), Jung pode verificar que nem tudo é derivado de uma função sexual e, somado ao fato de não se poderia afirmar inequivocamente que a natureza da libido é sexual, ele adotou a concepção neutra e mais ampla de “energia” tomando emprestado da física este conceito. 

Ao adotar ponto de vista energético, não pode afirmar os atributos ou qualidades da energia psíquica em sua origem, apenas podemos compreende-la em sua manifestação final, assim, a esse respeito o que se pode observar é a quantidade de energia envolvida no fenômeno, dada a intensidade.

Para compreender a afirmação acima devemos lembrar, que durante quase toda primeira década do século XX, Jung esteve envolvido com os testes de associação de palavras. O princípio básico desse teste, era avaliar o tempo de reação(ou resposta) a uma palavra estímulo. O que Jung e sua equipe descobriram que havia uma manifestação que prejudicava o tempo de resposta para algumas palavras, essa manifestação ou fenômeno não só estava fora do controle da consciência, como também prejudicava a consciência. Foi observado que esse fenômeno que gerava as perturbações (alteração no tempo ou bloqueio da associação) estavam associado emocionalmente ao conjunto de idéias, lembranças, pensamentos que estavam do campo da consciência, passando a serem compreendidos como complexos de tonalidade afetiva.

Jung e sua equipe estudaram as manifestações dos complexos em diferentes níveis, desde o tempo de reação até as alterações fisiológicas na respiração e na condutibilidade elétrica da pele com o uso de galvanômetro. Dessa forma, quando Jung se refere aintensidade do fenômeno psíquico, ele nos remete aos seus estudos experimentais, não é apenas um ponto de vista teórico. A intensidade de manifestação de um fenômeno vai sempre indicar uma maior ou menor quantidade de energia investida naquele processo.

Ao estudar tanto os fenômenos oriundos dos experimentos de associações quanto na prática da clínica psiquiátrica, ficou clara para Jung a hipótese de uma zona psíquica fora do domínio da consciência, isto é, o inconsciente. Bem, como que o fato de que a relação entre a consciência e o inconsciente poderia ser compreendida/descrita pela energia em trânsito entre essas duas instâncias. Assim, a partir das relações entre a consciência e o inconsciente Jung percebeu que poderia se fazer uma analogia com os fenômenos descritos pela física, algo que já vinha sendo apontado por outros autores como, p. ex.,  Theodore Lipps, von Grot, Busse.

Jung compreendeu que para se ter uma noção apropriada da psique num modelo teórico, deveríamos considera-la um sistema energético relativamente fechado, supondo, assim, que a energia contida nesse sistema seria teoricamente sempre a mesma, o que variaria seria a distribuição da energia entre as instâncias inconsciente(ics) e consciência(cs).

Desse modo, a vida psíquica ou a saúde psíquica  pode ser compreendida como o fluir da energia entre o sistema psíquico formado pelo inconsciente  a consciência. Quando ocorre um desequilibro, uma distribuição inadequada ou o bloqueio da distribuição dessa energia psíquica, ocorre o que podemos compreender como o adoecimento psíquico.  Para que isso fique claro, devemos buscar a distinção de energia psíquica e força psíquica,

Devemos a LIPPS uma diferenciação entre o conceito de energia psíquica e o de força psíquica. Para LIPPS a força psíquica é a possibilidade de que na alma surjam processos que alcancem um determinado grau de eficácia. A energia psíquica, ao invés, é “a possibilidade, inclusa nos próprios processos, de que esta força passe a atuar”.(Jung,1999, p.14),

Assim, a energia psíquica é uma condição para que haja força psíquica para a realização de um trabalho ou processo psíquico. Por exemplo, quando uma pessoa com depressão afirma que ela não possui vontade de fazer nada, significa que não há energia psíquica disponível na consciência para ser convertida em força psíquica, isto é, em vontade, para que seja realizada uma atividade.

A teoria da energia psíquica compreende os princípios fundamentais da dinâmica psíquica na abordagem junguiana. De forma geral, podemos percebe-la como pano de fundo em todas construções teóricas de Jung. Por exemplo, se falamos da relação de um complexo constelado com o Ego, estamos falando de uma relação energética.

Na constelação, a energia do complexo, que é superior, flui para o eu que, como centro da consciência é invadido pelo inconsciente. O eu, desestabilizado em algum grau, tem a tarefa de procurar conter a invasão de energia, o que nem sempre é possível. Precisará de força e determinação para canalizar essa energia excedente para alguma direção construtiva. (PERRONE, 2008,p.84)

A incapacidade do ego em lidar com essa invasão de forma construtiva será a base onde se desenvolverá o sintoma.

I – Energia Psíquica ou Libido

Jung adota o termo “energia psíquica” para tornar mais claro o que ele entendia por “libido” – termo utilizado por Freud – assim, a “energia psíquica” e “libido” são equivalentes. A energia psíquica ou libido é, simultaneamente, o “psiquismo” e o  “combustível” que movimenta o psiquismo. Isso significa dizer, que tudo o que o que percebemos e chamamos de psiquismo é a energia psíquica  em diferentes níveis de organização. As ações e os processos psíquicos dependem de energia disponível ou da transformação da energia de um nível para outro.

Para melhor explicar sua compreensão acerca da energia psíquica, Jung busca como referencial o conceito de energia da física, de onde compreende que a “idéia de energia não é a de uma substancia que se movimenta no espaço, mas um conceito abstraído das relações de movimento. Suas bases não são, por conseguinte, as substâncias como tais, mas suas relações” (JUNG, 1999, p.3) Para se compreender a energia deve se observar qual sua finalidade ou destinação para assim poder avaliá-la ou mensurá-la. A energia em si, não é um conceito tangível, mas sua forma de manifestação como, por exemplo, trabalho, calor, luz, eletricidade dentre outros.

Do mesmo modo, Jung compreendeu que aplicando o conceito de energia ao psiquismo, como energia psíquica, seria necessário mudar a compreensão original de libido de Freud, que compreendia sob o aspecto exclusivamente sexual. Para Jung, a energia psíquica seria sexual quando assumisse um aspecto relacionado com a sexualidade, o que de certa forma seria o aspecto qualitativo, contudo, não seria o único aspecto qualitativo da energia psíquica, pois ela poderia se manifestar em necessidade de auto-preservação, fome, inserção social. Esses aspectos refletiam apenas a forma de energia. Por outro lado, deveria também se observar a intensidade com a qual a energia se manifestava, que seria o aspecto quantitativo da energia.

Ao adotar uma compreensão energética do psiquismo, Jung propõe que a dinâmica psíquica seja compreendida pela sua finalidade, e não apenas por sua causa, como Freud propunha. Isto porque a “causa” no geral é inconsciente (por definição, desconhecido). O caráter final ou finalista é a manifestação da dinâmica psíquica, isto é, é um elemento mais seguro para fazermos quaisquer afirmações sobre a dinâmica psíquica

II – Progressão e Regressão

Os conceitos de Progressão e Regressão estão relacionados com o movimento da energia psíquica entre a consciência e o inconsciente. Na progressão a energia flui do inconsciente para a consciência para atender as necessidades de adaptação ao meio externo; enquanto na regressão a energia flui para o inconsciente para atender as necessidades internas.

A progressão enquanto processo contínuo de adaptação às exigências do mundo ambiente assenta na necessidade vital de adaptação. A necessidade compele o individuo a se orientar inteiramente para as condições do mundo ambiente e a reprimir aquelas tendências e virtualidades que servem ao processo de individuação.

A regressão, ao invés, enquanto adaptação às condições do próprio mundo interior assenta na necessidade vital de satisfazer as exigências da individuação. (JUNG, 1999, p. 37-8)

III – Princípios da conservação de energia  e equivalência

Como dissemos no primeiro post, para construir um modelo teórico da dinâmica da psique, com uma concepção energética, Jung partiu do principio, de que a energia psíquica se comportaria do mesmo modo que a energia física. Desse modo, os princípios de conservação de energia, o de equivalência e de constância,  nos dariam parâmetros para pensar a dinâmica da energia psíquica no psiquismo.

O princípio de equivalência indica

que, para qualquer quantidade de energia utilizada em um ponto qualquer, para se produzir uma determinada condição, surge em outro ponto igual quantidade dessa mesma ou de outra foram de energia”. O princípio de constância, pelo contrário, indica “que a energia total permanece sempre igual a si mesma, sendo, por conseguinte, incapaz de aumentar ou diminuir”. (Ibid, p. 17)

Como o psiquismo é compreendido como um sistema relativamente fechado, os princípios de conservação da energia, possibilitam compreender a dinâmica e a relação de complementaridade que existe entre o inconsciente e a consciência. Isto é, qualquer fenômeno que se manifeste na consciência irá gerar um fenômeno oposto de mesma intensidade no inconsciente.

Esta compreensão do princípio de equivalência e constância é importante para compreendermos a dinâmica de psicopatologia, pois toda manifestação do inconsciente está relacionada a uma ação da consciência. E, esta dinâmica se manifesta na busca pela entropia do sistema psíquico.

IV – Entropia

O principio de entropia é complementar aos de conservação de energia. Segundo o princípio entropia  a energia fluiria num sistema, de acordo com a diferença de potencial, de modo que as oscilações produzidas nesse movimento vão buscar o equilíbrio, que significaria o fim da dinâmica energética. Contudo, o fim da dinâmica energética só é possível em sistemas fechados (que não existem na natureza).

No sistema psíquico, a entropia é percebida como a tendência pela busca de um equilíbrio psíquico, entre o inconsciente e a consciência.A entropia é um princípio complementar o princípio de constância, mas indica que sempre haverá um movimento em busca do equilíbrio.

A entropia é uma dinâmica energética e, assim, quantitativa que vai estar subjacente aos conceitos de enantiodromia, metanóia e compensação, que veremos mais adiante.

V – Enantiodromia e Metanóia

Jung adotou o termo “enantiodromia” em referencia ao princípio que foi esboçado por Heráclito, “correr para o outro oposto”. Isto é, quando há uma excessiva concentração energética em um ponto, a energia tende a buscar o ponto oposto como uma forma de manter o equilíbrio. Por exemplo, uma atitude excessivamente unilateral do Ego, pode ativar no inconsciente o princípio contrário. De forma que “ a tendência a renegar todos os valores anteriores para favorecer o seu contrário é tão exagerada quanto a unilateralidade anterior” (Jung, 2001,p.67)

A Enatiodromia é um processo inconsciente de mudança de perspectiva, onde o oposto negado, emerge se impondo a atitude da consciência. Geralmente, isto ocorre relacionado com sintomas neuróticos.

A Metanóia significa “mudança de pensamento” ou “mudança de caminho”. A metanóia é um processo característico do processo de individuação. A metanóia “não se trata de uma conversão no seu contrario, mas de uma conservação dos antigos valores, acrescidos de um reconhecimento do seu contrário.” (JUNG, 2001, p.68). A diferença fundamental entre a enantiodromia e a metanóia está na participação da consciência. Enquanto na enantiodromia o movimento em busca do oposto puramente inconsciente, já na metanóia a busca pelo oposto, ocorre com uma participação da ativa da consciência, num movimento de integração do oposto, mas sem perder os valores anteriores.

Dessa forma, a metanóia é o processo da enantiodromia que se desenvolve num sentido mais amplo, envolvendo a consciência no processo de individuação.

VI – Compensação

(O conceito de compensação foi discutido no post “Alguns comentários sobre o conceito de “Compensação”. Aqui fazemos um breve resumo.)

Ao falamos de entropia, de enantiodromia e metanóia, nós nos falamos de um processo psíquico de busca pelo equilíbrio no sistema consciente-inconsciente. De forma geral, o movimento para equilibrar o sistema psíquico parte do inconsciente buscando equilibrar ou corrigir a atitude da consciência. Esse movimento de busca por um equilíbrio Jung chamou de compensação, em referencia a um conceito de Adler. Sobre o conceito de compensação, Jung escreveu

considero-o em geral como equilibração funcional, como auto-regulação do aparelho psíquico. Nesse sentido, considero a atividade do inconsciente como equilibração da unilateralidade da atitude geral, causada pela função da consciência. (JUNG, 1991, p. 399)

Assim, toda atividade inconsciente que visa complementar atitude consciência(seja para corrigir ou para reforçar) é uma compensação. Desse modo, as formações do inconsciente como os sonhos, atos falhos, chistes são atividades compensatórias naturais.

Via de regra, a compensação pelo inconsciente não é um contraste, mas uma equilibração ou complementação da orientação consciente. O inconsciente dá, por exemplo, no sonho, todos os conteúdos constelados para a situação consciente, mas inibidos pela seleção consciente, cujo conhecimento seria indispensável para a consciência se adaptar plenamente.

Em situação normal, a compensação é inconsciente, isto é, atua de forma inconscientemente reguladora sobra a atividade consciente. Na neurose, o inconsciente está em contraste tão forte com a consciência que a compensação fica prejudicada. Por isso a terapia analítica procura um conscientização de conteúdos inconscientes para restabelecer a compensação. (JUNG, 1991, p.400)

VII – Símbolos

Em outro post “Algumas palavras sobre símbolos e função transcendente” falamos sobre os símbolos. Aqui vamos focar brevemente o papel dos símbolos na dinâmica energética.

Os símbolos ocupam um papel fundamental na dinâmica psíquica, pois, é através deles que a energia psíquica pode se movimentar na psique. Segundo  Byington o símbolo “aglutina a energia psíquica e redistribui de maneira a transformar os processos inconscientes em conscientes e vice-versa(…)” (BYINGTON, 1983, p. 10).

Muitas vezes, compreendemos os símbolos como “algo que que visualizamos”, contudo, os símbolos são toda e qualquer atividade, situação ou objeto (internos ou externos) que possua uma analogia com alguma dinâmica inconsciente. É justamente essa analogia é o que faz com que a energia psíquica inconsciente flua para a consciência onde será disponibilizada ao Ego, isto é, numa pessoa saudável. Por exemplo, um individuo que precisa tomar uma decisão difícil e, titubeia, e de repente vem a mente uma lembrança de uma conselho ou fala de dado por uma pessoa querida, e a partir dessa lembrança, o individuo se sente seguro para tomar a decisão. Uma situação mais comum, seria um individuo religioso que frente a uma adversidade, ora ou reza, a conseguir força para seguir em frente.

Numa pessoa com uma neurose estabelecida, por exemplo, um transtorno obsessivo compulsivo, a consciência tenta impedir de todas as formas que conteúdos do inconsciente invadam a consciência, os atos obsessivos ou rituais, são símbolos que possibilitam que a consciência tenha energia para, temporariamente, manter esses conteúdos inconscientes afastados.

Desde modo, a dinâmica psíquica estará sempre relacionada aos processos simbólicos, isto é, uma pessoa empobrecida em sua vida simbólica, terá mais dificuldades para enfrentar a realidade, a vida e o inconsciente.

Referências Bibliográficas

Referencias Bibliográficas

JUNG, C.G. Freud e a Psicanálise. Petrópolis: Vozes, 1989.

________ Energia Psíquica. Petrópolis: Vozes, 1999

FERENCZI, S. Obras Completas – Psicanálise II.  São Paulo: Martins Fontes, 1992.

PERRONE, M.P.M.S.B.  Complexo: conceito fundante na construção da psicologia de  Carl Gustav Jung, 2008,155f. Tese (Doutorado em Psicologia) – Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo. 2008.

BYINGTON,C.A.B. O DESENVOLVIMENTO SIMBÓLICO DA PERSONALIDADE, in JUNGUIANA – Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, 1983.

JUNG, C.G, A Energia Psíquica. Petrópolis: Vozes, 7ed. 1999

_______________. Psicologia do Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 13ed. 2001.

________________. Tipos Psicológicos, Vozes, Petrópolis, 1991.

______________. A Vida Simbólica v.1. Petrópolis: Vozes, 2ed. 2000a.

______________. A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes, 5. Ed. 2000b.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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“Por que estudar Mitologia?”

 

9 de dezembro de 2010

Essa pergunta com a qual inicio esse post, já me fizeram várias vezes. Eu gostaria de começar a responder essa pergunta relembrando um encontro de Nise da Silveira com Jung, onde a própria Nise nos relata que,

sentada diante do mestre no seu gabinete de trabalho, junto á larga janela com vista sobre o lago, falei-lhe do desejo de aprofundar meu trabalho no hospital psiquiátrico, de minhas dificuldades de autodidata.
Ele me ouvia muito atento. Perguntou-me de repente:

– Você estuda mitologia? 

Não, eu não estudava mitologia.

– Pois se você não conhecer mitologia nunca entenderá os delírios de seus doentes, nem penetrará na significação das imagens que eles desenhem ou pintem. Os mitos são manifestações originais da estrutura básica da psique.Por isso seu estudo deveria ser matéria fundamental para a prática psiquiátrica. (Silveira apud MOTTA, 2005, p. 73).

Nesse encontro Jung indicou que a Mitologia seria uma chave importante para se compreender a dinâmica da psique.

Mitos e Mitologias

Pessoalmente, eu não conheço uma definição de mito que seja “suficiente”.  Talvez seja, porque mito não seja um conceito, mas, uma noção, uma aproximação a uma dinâmica que não se curva a nossa linguagem denotativa. Por isso, Jospeh Campbell (2004) afirma que os mitos são metáforas.  Com essa afirmação, Campbell nos oferece a primeira chave para compreendermos o por que estudar a Mitologia.

Quando falamos em metáfora, devemos compreender que metáfora é uma figura de linguagem onde há uma relação entre dois termos, sem o uso de um conectivo, isto é, é uma comparação baseada na equivalência dos dois termos, por exemplo :

João é um touro

Nessa afirmação, podemos perceber que a metáfora é como uma zona intermediaria entre “João” e “touro”, onde o segundo termo qualifica, explica e atribui sentido o primeiro termo.

A metáfora a qual Campbell se refere, nos remete a um passado distante, no passado onde a psique humana estava ainda identificada com a natureza. Não havia uma consciência clara que distinguisse os processos internos e externos.Essa unidade original, onde a natureza(ou mesmo o grupo) é extensão do individuo. É nesse passado que os mitos nascem. É interessante considerarmos que os mitos surgem dessa união  ou identidade entre o individuo com o mundo exterior, dessa forma, é um equivoco achar que os mitos são uma forma de “explicar” a natureza, mas, sim um processo de compreensão mútua, pois, o homem se compreendia na medida em que compreendia a natureza, atribuindo significado não só ao mundo exterior, mas, também a si mesmo na relação com este mundo.

Ainda hoje, podemos perceber esses aspectos claramente nas criança pequenas e nos processos de projeção, onde o inconsciente pode “lançar” imagens interiores sobre o mundo exterior, atribuindo um novo significado os objetos. Por outro lado, podemos perceber essa relação por meio da introjeção de imagens, nos são reapresentadas nos sonhos, sintomas e fantasias.

O inconsciente em suas profundezas arquetípicas mantém até hoje essa dinâmica de identidade com o mundo exterior, ao que Campbell denominou como metáforas, dado o estilo lingüístico de equivalência, a psicologia analítica chama símbolos. Outras abordagens, como a Hipnose Ericksoniana tem como seu elemento básico de trabalho o uso da linguagem metafórica como forma de promover uma comunicação com o inconsciente. As metáforas terapêuticas de Erickson são correspondentes aos símbolos na terminologia junguiana.

Outra importante chave para compreender os mitos nos é oferecida por Mircea Eliade, segundo ele

O mito conta uma história sagrada, quer dizer, um acontecimento primordial que  teve lugar no começo do Tempo, ab initio. Mas contar uma história sagrada equivale a revelar um mistério, pois as personagens do mito não são seres humanos: são  deuses ou Heróis civilizadores. Por esta razão suas gesta constituem mistérios: o  homem não poderia conhecê-los se não lhe fossem revelados. O mito é pois a história do que se passou  in illo tempore, a narração daquilo que os deuses ou os Seres divinos fizeram no começo do Tempo.(…)

A função mais importante do mito é, pois,  “fixar” os modelos exemplares de todos os ritos e de todas as atividades humanas significativas: alimentação, sexualidade, trabalho, educação etc. Comportando se como ser humano plenamente responsável, o homem imita os gestos exemplares dos deuses, repete as ações deles,  quer se trate de uma simples função fisiológica, como a alimentação, quer de uma atividade social, econômica, cultural, militar etc. (ELIADE, 1992, 50-2)

Segundo Mircea Eliade, os mitos são modelos exemplares, isto é, os mitos são narrativas que oferecem modelos testados ao longo da história da cultura, que permite que o individuo tenha um referencial de ação. Em alguns casos, o mito pode estar imbuído de um conteúdo prática (como por exemplo, como que os deuses ou o herói fundador criou o arco e a flecha, e como devemos fazer) ou um conteúdo moral que orienta as atividades e a divisão do trabalho e da sociedade, dando coesão ao grupo.

A narrativa mítica é composta por um história com inicio meio e fim, isto é, com causas e consequências. que instruem os indivíduos. Em outro post, sobre a “A função psicologia da religião”  eu fiz alguns comentários importantes para se pensar a mitologia/religião.

Joseph Campbell(2002) nos dá uma boa perspectiva da amplitude da função da religião quando ao discutir a função dos mitos (lembrando que segundo Campbell, “mitologia é como chamamos a religião dos outros”), segundo ele, são quatro as funções básicas da mitologia/religião:

1 – Função Mística ou Metafísica

2 – Função Cosmológica

3 – Função Social

4- Função Pedagógica

A função mística ou metafísica corresponde a abertura ao desconhecido, ao mistério da vida e da morte. Através da religiões o homem amplia sua percepção do mundo, integrando a sua vivência uma realidade que está para além dos percepção sensorial – um mundo eterno, espiritual; libertando a psique humana do condicionamento do tempo e espaço.  Isso é importante, pois, essa função também se reflete como uma  abertura ao inconsciente, a criatividade e imaginação. Que são elementos importantes para o equilíbrio dinâmico da psique.

A segunda, a função cosmológica da religião oferece ao homem uma perspectiva sobre o universo e situa o no mesmo. Essa função geralmente foi mal compreendida afirmando que as mitologias e religiões eram uma proto-ciência, uma tentativa de explicar o mundo. As narrativas sobre a origem do universo, dos deuses, dos homens, de como surgiram os instrumentos, etc…não tinham o objetivo de uma explicação “científica”, mas, sim atribuir sentido e significado ao universo que circunda o homem, colocando-o nessa teia da vida. :Se na primeira função indica que há algo para além da percepção, nessa segunda função o homem toma parte desse mundo sobrenatural, percebendo qual é o seu lugar na existência.

A função social da religião se relaciona com o grupo social. Toda religião vai indicar certas regras de convívio social, geralmente, justificando e reforçando os conceitos morais e organizacionais de um grupo, visando a sobrevivência do mesmo, a religião se constitui um elemento de identidade, dando coesão ao grupo

A quarta, é função pedagógica. A religião se apresenta como pedagógica na medida que orienta as ações e comportamentos dos indivíduos em cada etapa da vida. As narrativas religiosas oferecem ao individuo referencias para se organizar frente ao mundo e as dificuldades, para fazer suas escolhas e tomar suas decisões. Em cada etapa da vida, o individuo é cercado por referências (narrativas/mitos) que o prepara para a vida e para morte. As quatro funções são interligadas, pois, uma leva a outra, oferecendo um solo relativamente firme sobre o qual o individuo pode se organizar e viver. Essas quatro funções nos auxiliam a perceber como a  religião pode atuar psique. (MORAES, 2010)

Mitologia e Psicologia Analítica

Em sua prática clínica, Jung observou que tanto os delírios dos pacientes psicóticos quanto os sonhos de pacientes neuróticos podiam se encontrar um aspecto mítico, isto é, alguns aspectos dos sonhos eram similares as imagens e narrativas constantes em diferentes mitologias. A partir desses estudos, Jung pode, posteriormente, formular sua teoria acerca dos arquétipos.

Jung compreendeu que esses sonhos e delírios com aspecto mitológico teriam origem na mesma camada (mais profunda da psique) que deu origem também aos mitos, esta camada seria o inconsciente coletivo.

O Inconsciente coletivo é formado pelos arquétipos, que são padrões de organização psíquica, que podem se manifestar tanto como ações quanto imagens. Os arquétipos correspondem a estrutura básica do psiquismo e, teoricamente, esses padrões não mudaram nos últimos milhares de anos. A vida humana passou por várias transformações em seu aspecto formal, mas, em sua essência continuamos com as mesmas necessidades comuns a vida humana.

Poderíamos compreender os mitos como uma projeção das experiências humanas mais fundamentais(arquetípicas) na consciência coletiva e que foram elaboradas ao longo dos séculos. Os mitos expressam os arquétipos na cultura, através dos mitos podemos ter acesso ao “mundo dos arquétipos” de forma natural, sem ser permeado pela doença ou pela psicopatologia.

O conhecimento dos mitos, nos permite compreender a dinâmica do arquétipo, isto é, nos possibilita compreender as possibilidades e variações das representações arquetípicas, o que significa que através dessas repesentações (que são coletivas) podemos identificar esses padrões em sua manifestação pessoal, isto é, nos complexos, o que nos permite perceber quais complexos estão mais ativos.

Os mitos nos oferecem uma visão global da psique humana, assim, partimos do que seria mais coletivo para o que é individual e único.

E como estudar mitologia?

É fundamental entender que estudar mitologia não significa apenas “conhecer e contar histórias”.  Quando falamos em estudar mitos, nos referimos ao estudo aprofundado das diferentes narrativas acerca do mesmo tema buscando compreender a estrutura do mito, compreender a dinâmica do mito comparando-o com mitos de outras culturas que participam do mesmo tema, por exemplo, no ultimo post sobre o tema do  curador ferido, citamos três mitos diferentes (Obaluae, Quiron e Cristo)que possuem a mesma estrutura.

Um tema mítico não possui uma possibilidade de compreensão, mas, inúmeras já que eles indicam variações possíveis desse tema na vida humana, por exemplo, se tomarmos a maternidade teremos aspectos positivos e negativos – como toda mãe possui esses dois lados : um nutritivo, acolhedor, por outro lado, podem ser dominadoras, devoradas, que impedem o crescimento, severas que punem ou abandonam os filhos.

Tiamat (mitologia sumérica) : os filhos não foram nomeados, e ela tentou devorar os netos.

Gaia : Os filhos com Uranos, eram gerados em mantidos em seu próprio ventre, somente quando a incomodou que articulou com o filho mais novo, para afastar(castrando) o pai. Posteriormente, gerou com Tártaro, Tífão que quase destruiu seus filhos.

Afrodite : deusa do amor, mas, que não permitia que seu filho crescesse.

Nãnã : Orixá das águas paradas, é a mais antiga e respeitada das orixás. É uma mãe severa, há duas  narrativas que envolvem os aspectos da maternidade negativa de Nãnã, segundo uma narrativa dela pune o próprio filho Obaluae com a Varíola, e, em outra, ela abandona o filho devido sua doença, (este foi criado por Yemanjá)

Baba Yaga : Da mitologia européia, especialmente nos mitos/contos de fada Russos, é retratada como uma bruxa que atrapalha o caminho dos homens.

Esses exemplos, mostram que não basta um mito para compreender o mitema ou o arquétipo envolvido.

Assim, conhecer as narrativas e estabelecer comparações entre as narrativas é o primeiro passo para compreender a estrutura dos mitos, por outro lado, é importante compreender ampliar e focalizar os povos que produziram essas mitologias, compreendendo aspectos da história, geografia, cultura(ritos), estrutura social desses povos.

Alguns autores são importantes para começar esse estudo, como por exemplo, Mircea Eliade, Karl Kerényi, Joseph Campbell, Claude Levi-Strauss.

Referencias Bibliográficas

CAMPBELL, Joseph Isto é Tu, Landy: São Paulo,SP, 2004

Eliade, Mircea . O sagrado e o profano  –  A essência das religiões. São Paulo, Martins Fontes, 1992.

MOTTA, Arnaldo Alves Psicologia Analítica no Brasil; contribuições para a sua história, São Paulo: PUC, Tese de mestrado, 2005.

MORAES, Fabricio , A função psicológica da religião, 2010, Jung no Espirito Santo. Acessado em 08/12/2010. no site:http://psicologiaanalitica.wordpress.com/2010/07/11/funo-psicolgica-da-religio/

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

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Algumas palavras sobre símbolos e função transcendente

 

11 de setembro de 2010

O símbolo é o conceito que melhor representa a compreensão da psicologia junguiana acerca da psique. Etimologicamente, símbolo vem da palavra grega symbolon, do verbo symballein que seria lançar com, arremessar ao mesmo tempo, também sendo usado para exprimir um acordo ou uma senha que possibilitaria o reconhecimento de iguais que se separaram.

A função psíquica do símbolo é semelhante à expressa historicamente na cultura: reconhecer e unir. Os símbolos “[…] são tentativas naturais de lançar uma ponte sobre o abismo muitas vezes profundo entre os opostos, e de equilibrar as diferenças que manifestam” (JUNG, 2000, p. 259). Assim o símbolo é como uma ponte que aproxima o inconsciente e a consciência. E, como uma ponte, o símbolo possui uma face que é apreendida pela consciência e outra que é inconsciente, dessa forma o símbolo nunca é totalmente apreendido pela razão, isto é, pela consciência.

Assim, por possuírem um aspecto inconsciente os símbolos possibilitam o trânsito da energia psíquica entre a consciência e o inconsciente, além de possibilitar a transformação da energia de uma forma de manifestação para a outra, disponibilizando energia para a atuação da vontade consciente.

Os símbolos expressam uma totalidade psíquica que é simultaneamente pessoal, cultural e arquetípica. Isso confere ao símbolo uma riqueza de significados que não permitem sua delimitação. Quando se tenta demarcar o sentido do símbolo, este torna-se um sinal.

Um sinal sempre aponta para uma idéia consciente […] Um sinal é sempre menos do que a coisa que quer significar, e um símbolo é sempre mais do que podemos entender a primeira vista. Por isso não nos detemos diante de um sinal, mas vamos até o objetivo para o qual aponta; no caso do símbolo, porém, nós paramos porque ele promete sempre mais do que revela (JUNG, 2000, p.215).

Os símbolos coletivos são expressos por meio da cultura unindo a consciência coletiva ao inconsciente coletivo. Esses símbolos expressam o espírito da época (zeitgeist), nos possibilitando compreender a dinâmica das massas e das nações. Por outro lado, os símbolos pessoais nos falam da dinâmica do indivíduo, mesmo que esse símbolo tenha uma moldura marcadamente cultural.

Quando um símbolo se manifesta à consciência, abre a possibilidade de uma mudança da atitude desta, por exemplo, um indivíduo que sonha que sofreu acidente de carro e ao acordar repensa a forma como conduz sua vida, ou minimamente, passa a dirigir com mais cautela, por ter a imagem do acidente em sua mente. O conteúdo simbólico do sonho possibilitou uma mudança nesse indivíduo.

Os símbolos, como os sonhos, são produtos da natureza, mas eles não aparecem só nos sonhos; podem s urgir em qualquer forma de manifestação psíquica: existem pensamentos, sentimentos, ações e situações simbólicos, e muitas vezes parece que não só o inconsciente mas também objetos inanimados se arranjam de acordo com os modelos simbólicos (JUNG, 2000 , p. 214).

Os símbolos podem surgir no contexto de um conflito neurótico, se opondo à atitude da consciência. Não que o símbolo seja patológico ou mesmo patogênico, mas sim a atitude da consciência. Para haver mudança é necessário que haja um símbolo constelado. Dessa forma, a psicoterapia só é eficaz se possibilitar a relação simbólica do indivíduo com consigo mesmo. Em outras palavras, é necessário que a psicoterapia seja simbólica para o cliente, de modo que favoreça seu processo de individuação.

Neste contexto, é que podemos falar da função transcendente.

Jung define a função transcendente, assim, como a “união de conteúdos conscientes e inconscientes”, “a reconciliação” dos pares de opostos e a partir desta reconciliação uma nova coisa é sempre criada , uma nova coisa é realizada. Este processo não lida somente com “conteúdos” mas como se depreende é a interação e integração em um todo, múltiplo e dinâmico, do inconsciente com o consciente. Isto é a função transcendente, que “nasce da união dos opostos”.

O símbolo como se verá desfaz a dicotomia entre externo e interno, pois este passa a ser uma “incarnação”(sic) do psiquismo como uma totalidade não fragmentada, ou seja, o símbolo reúne em sua constituição todas as possibilidades de compreensão e reúne os opostos em uma unidade não fragmentada. (DAMIÃO, 2003, p.42)

Dessa forma, falar em símbolo é necessariamente falar em função transcendente, pois símbolo e função transcendente exprimem a mesma dinâmica, em proporções diferentes. O símbolo está diretamente relacionado a uma dinâmica energética basal – necessária para a manutenção do psiquismo, já a função transcendente está relacionada ao processo de desenvolvimento do psiquismo, que exige uma ação da consciência.

(…)A “confrontação do eu com o inconsciente” é um processo de estabelecimento de uma atitude e não apenas de entendimento, pois o Ego torna-se a partir de então fruto deste “confronto”.

Quando se consegue formular o conteúdo inconsciente e entender o sentido da formulação, surge a questão de saber como o Ego se comporta diante desta situação. Tem, assim, início a confrontação entre o Ego e o inconsciente. Esta é a segunda e a mais importante etapa do procedimento, isto é, a aproximação dos opostos, da qual resulta o aparecimento de um terceiro elemento que é a “… a função transcendente que é o resultado da união dos opostos”, ou seja, o próprio símbolo. (DAMIÃO, 2003, p. 52)

A função transcendente é um símbolo que marca o confronto e a união de opostos, seu objetivo não é a transformação de energia, mas a unidade psíquica, ou seja, a função transcendente é um símbolo unificador, que intimamente relacionado com o processo de individuação.

Referencias

JUNG, Carl Gustav, A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes, 5. Ed. 2000.

DAMIÃO, Maddi, Jr. A Psicologia da Matemática e a Matemática da Psicologia. Tese (Doutorado em Psicologia) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, 2003.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

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Algumas Notas sobre “Medo” e “Ansiedade”

 

(2 de agosto de 2010)

O medo e a ansiedade são duas palavras que fazem parte de nossas vidas. Na medida que nosso cultura se vê assolada pelo terror, que se manifesta com diferentes faces, como o assalto repentino, o fantasma do desemprego, a violência doméstica,  o abuso do poder, epidemias, desastres naturais, ataques terroristas, dentre outras, torna nossa cultura uma cultura do medo(e da ansiedade). Em nosso dia a dia, somos bombardeados por esse terror nas várias as formas de mídia, entretanto, a cultura impõe que devemos enfrentar o medo e ansiedade a todo custo, como se todo medo e a ansiedade fosse patológico.

Essa patologização do medo/ansiedade junto com o excesso de informação duvidosa que circula na internet agrava o problema, pois, muitas pessoas se identificam com os relatos e acabam por ficar mais ansiosas achar que tem algum transtorno, quando na verdade pode estar em um nível de ansiedade dentro da normalidade. (Eu chamo de “normal” ou de “normalidade” uma ansiedade que corresponda a realidade ou ao estresse que o individuo de fato atravessa.)

Nesse contexto, é importante percebermos que ansiedade e o medo são funções naturais do psiquismo, intimamente relacionados a uma função de preservação da vida, por meio de ambos, evitamos ou nos preparamos melhor para situações de pode representar risco a integridade tanto física quanto psíquica do individuo. Mas, qual a diferença entre eles?

Ansiedade, Angustia e Medo

Percebemos o  Medo como uma reação  a um objeto bem definido que represente um risco real ou imaginário ao individuo. Frente a essa situação automaticamente o individuo produzirá a resposta de medo que prepara o individuo para lutar ou fugir, que podemos perceberemos em nosso corpo como  taquicardia, suores, alteração respiratória dentre outras. Para ilustrar, podemos imaginar uma pessoa está andando por uma rua estreita quando se depara com um pit bull sem coleira, a resposta imediata é o medo.

Por outro lado, percebemos a ansiedade é uma reação semelhante ao medo, contudo não há uma definição do objeto. Por exemplo, um individuo passa por uma rua, onde ele ouviu dizer que ronda um pitbull, mesmo sem ver o cão, seu organismo emite um sinal(ou reação) de alerta para o  “possível” encontro, o corpo já entra em estado de estresse mesmo se ocorrer o encontro.  A ansiedade não possui um objeto claro, é um medo sem foco, o que faz com que seja persistente.

Tanto no medo quanto na ansiedade as sensações corporais(cansaço, insônia, sensação de sufoco, tensão muscular, tremores, dificuldade de se alimentar, taquicardia/palpitações, por exemplo) e psicológicas (pensamentos de inferioridade, a crença que não vai “dar conta”, fantasias de que “tudo vai dar errado”, ou que vai ser insultado, abandonado pelos amigos,  superdimensionado os problemas, por exemplo) se tornam freqüentes ou mesmo  permanentes. O que gera uma série de problemas físicos(doenças)  e sociais para o individuo.

Por outro lado, temos ainda o termo angústia, que muitas vezes, gera alguma confusão.

Tal problema não se coloca – ou pelo menos não é tão agudo – no inglês e no alemão e nas línguas a estas aparentadas. Pichot lembra que os termos latinos correspondentes à angustia e à ansiedade derivam do verbo grego agkhô: eu aperto, eu estreito. Dele, surgem, no latim, os verbos ango e anxio, que significam respectivamente aperto, constrição física e tormento. (…) No português, como no francês e nas linguas românticas em geral, surgem dois termos técnicos : “angustia” e “ansiedade”. Em inglês, tem-se apenas anxiety(o termoanguish tem uso quase exclusivamente literário, sem significação técnica); no alemão, aparece apenas Angst, do qual deriva o adjetivo ängstlich. (PEREIRA, 2003, p.87)

Durante algum tempo, tentou-se convencionar angústia para os sintomas físicos e a ansiedade para os sintomas psicológicos.  Mas, por fim concluiu-se que não dá para fazer esta separação, de modo que a psiquiatria/psicologia passou a considerar ansiedade e angústia como sinônimos.  

Medo, Ansiedade, Complexos

O medo e ansiedade se manifestam como uma defesa a um risco em potencial ao Ego.  Esse risco pode ser um risco externo e objetivo (uma longa viagem, p. ex.) ou uma ameaça interna e subjetiva (pensamentos obsessivos). No modelo junguiano da psique, o Ego é o mais importante dos complexos, que atua mediando as relações do individuo com o meio externo,  sendo o centro da consciência. Duas características que distinguem o Ego dos demais complexos são a sua energia psíquica diferenciada e sua capacidade de auto-reconhecimento.

A energia diferenciada do Ego permite que o mesmo crie um “campo de referencia” em torno de si, isto é, um campo energético que funciona como uma “membrana semipermeável” que permite a relação do Ego com conteúdos que lhe são próprios e salutares como elementos de identidade e conteúdos externos direcionados ao Ego e símbolos; e repele conteúdos que apresentem algum risco ao Ego como conteúdos do inconsciente ou mesmo do meio externo, essa função protetora é justamente desempenhada pelos mecanismos defesa que foram descritos por Freud.

O autorreconhecimento é a capacidade de se remeter a si mesmo. O Ego é o único complexo capaz se reconhecer como algo distinto tanto dos conteúdos psíquicos quanto do mundo externo. Reunindo, assim, as características imediatas do indivíduo que chamamos de identidade, isto é, a possibilidade de diferenciar entre “o que me pertence” e o que “não me pertence” ou do que “sou” ou “não-sou”.

De forma geral, o Ego possui duas fontes de referência que permitem que ele se adapte e enfrente as situações são elas: os complexos e a persona.

Os complexos podem ser compreendidos como um conjunto de representações (idéias, lembranças) unidas por uma forte carga afetiva/energética. Na dinâmica psíquica, os complexos funcionam aglutinando as memórias, percepções etc.  em torno de um núcleo arquetípico comum.

Podemos dizer que um complexo funciona como um magneto, que atrai vivências similares, relacionadas a situações arquetípicas. No complexo materno, por exemplo, as vivências se relacionam com a experiência e a imagem da mãe. (SAIANI, 2000, p.51)

Os complexos possuem um caráter dinâmico e histórico, que agrega as informações acerca da história pessoal do individuo, disponibilizando-as ao servir ao Ego, essas referencias são necessárias a enfrentar as vicissitudes da vida. Entretanto, como foi dito, os complexos são estruturas dinâmicas, isto é, são dotados de uma certa autonomia,  que só os percebemos quando estes estão em “descompasso” com a dinâmica psíquicada consciência, ou seja, estão dissociados da estrutura psíquica, atuando de forma independente e, às vezes, contraria ao Ego. Segundo Jung, são dotados

(…) de poderosa coerência interior e tem sua totalidade própria e goza de um grau relativamente elevado deautonomia, vale dizer: está sujeita ao controle das disposições da consciência até um certo limite, e, por isto, se comporta, na esfera do consciente, como um corpus alienum [corpo estranho], animado e de vida própria. (…)

Regra geral, há uma inconsciência pronunciada a respeito dos complexos e isto naturalmente lhes confere uma liberdade ainda maior. Em tais casos, a sua força de assimilação se revela de modo todo particular, porque a inconsciência do complexo ajuda a assimilar inclusive o eu, resultando daí numa modificação momentânea e inconsciente da Personalidade, chamada identificaçãocom o complexo. (JUNG, 2000b, p. 31-3)

Dependendo da capacidade do Ego em lidar com a com o inconsciente/complexos poderá ou não se instaurar para o desenvolvimento de uma patologia. Considerando um individuo com uma estruturação egóica saudável (isto é, que não psicótico ou limítrofe) os complexos podem gerar ansiedade por duas vias distintas:

1 – Unilateralidade da Consciência: A psicologia analítica compreende que a unilateralidade da consciência uma atitude do Ego voltada unicamente para o mundo exterior. Na medida que o Ego se identifica com os valores do mundo exterior, ignorando as necessidades interiores, o inconsciente age de forma compensatória de modo a reorganizar/equilibrar a relação entre a consciência e o inconsciente. Nesse processo o inconsciente pode se manifestar através de sonhos (pesadelos), pensamentos obsessivos,  visões, atos falhos, esquecimentos, somatizações. Todas essas manifestações tendem a prejudicar a adaptação do Ego e a realidade exterior, quanto maior for as tentativas do Ego negar, ou se defender dessas manifestações do inconsciente, maior serão as reações contrarias do inconsciente, gerando o sentimento de ansiedade/angústia.

O ego tende a reconhecer o inconsciente como algo grande e poderoso que se impõe, esse grande desconhecido ameaçador chamamos de Sombra. Essas reações são naturais, correspondendo ao principio de entropia, onde a dinâmica psíquica se desenvolve em busca de um equilibro sistema psíquico.  A unilateralidade da consciência corresponde sobretudo a uma relação inadequada com o mundo interno, gerando uma situação neurótica.

2 –  Experiências vividas: Esse segundo aspecto não corresponde necessariamente a uma atitude patológica ou neurótica. Por um lado, muitas pessoas desenvolvem ansiedade ou são “medrosas” simplesmente porque aprenderam assim. Muitos pais excedem em sua proteção e cuidado privando os filhos de experiências que vão se possibilitar o desenvolvimento da auto-segurança dos filhos. assim, os filhos se tornam inseguros e aprendem a temer o mundo. Essainsegurança pode se mascarar através de relações de dependência (seja dos pais, dos amigos, namorada), muitas vezes a ansiedade só se manifesta quando eles se percebem numa situação que depende deles. Toda vez que individuo se vê numa dada situação ele não possui referências de enfrentamento, nesse caso, seu complexo de poder se manifestará pela a inferioridade, indicando que o individuo “não é capaz” ou “não dá conta” de enfrentar as adversidades. Impondo sempre a mesma resposta de evitação e fuga. A ansiedade é uma expressão desse “despreparo” frente a vida.

Patologia e Psicoterapia

Na grande maioria das vezes, nos grande parte das pessoas tentam conviver com a ansiedade, vivendo num estado de apreensão constante, buscando nos antecipar em tudo, se prevenindo todas as formas contra a possibilidade de um futuro negativo ou mergulhados em insegurança e dúvidas, se apoiando em pessoas próximas.

Como dissemos no inicio, a nossa cultura ou nossa vida cotidiana propiciam o medo e a ansiedade. O problema se agrava por nossa cultura não nos oferecer os elementos necessários para enfrentarmos essa ansiedade. A ansiedade se torna patológica quando há uma perda de controle, isto é, a ansiedade passa a dominar a vida. O individuo perde a liberdade se tornando escravo da ansiedade ou do medo.

As principais formas de transtornos de ansiedade  são:

Transtorno de Ansiedade Generalizada : Se caracteriza, basicamente, pelo excesso de preocupação com as diversas situações da vida. No geral, a preocupação é desproporcional a realidade do problema. Isso gera uma série de sintomas físicos como tensão e dores musculares; boca seca; suor excessivo; náusea e diarréia; freqüência urinária aumentada; dificuldade para engolir dentre outros; e psíquicos como inquietação, irritabilidade, nervosismo,  falta de concentração dentre outros.

Síndrome do Pânico:Se caracteriza por ataques(ou crises de pânico), que é um estado/periodo extrema ansiedade, que se manifestam de forma repentina.Alguns sintomas presentes no ataque tremores, calafrios,  despersonalização, confusão, dificuldade em respirar, palpitações do coração, sensação de morte iminente,  tontura. Uma crise não caracteriza a síndrome.

Transtorno Obsessivo-compulsivo: Se caracteriza pela presença de obsessões e compulsões. As obsessões são pensamentos, idéias ou imagens que invadem o individuo. Geralmente, esses pensamentos/idéias/imagens são relacionados a situações ruins (doenças, contaminação, dúvidas, agressividade, dentre outras), que geram ansiedade. Essas obsessões, tendem a gerar as compulsões que são comportamentos/ações repetitivos (como lavar as mãos, ordenar, verificar, rezar, dentre outras)  e excessivos. As compulsões tem como objetivo aliviar a ansiedade e evitar as obsessões. As compulsões podem ou não ter uma relação lógica com as obsessões.  

Fobia Social: Se caracteriza por um extremo desconforto em situações sociais e um excesso de preocupação com o julgamento dos outros(que imagina que sempre será negativo). Isso faz com que o individuo se esquive de situações comuns como beber, ler, conversar em público.

Fobias específicas: Se caracteriza por uma reação de extremo medo a determinados objetos, animais/insetos e situações. O individuo sabe que sua reação é excessiva, mas, não consegue controlar. 

Estresse Pós-traumático: Esse transtorno ocorre como conseqüência de uma situação que ofereceu um risco a integridade física ou a vida do individuo(como violência física/sexual, assaltos, acidentes). Alguns dos sintomas são: ansiedade/temor que o evento se repita; reexperimentação do evento traumático (como lembranças, pesadelos); irritabilidade, dificuldade em se concentrar, distúrbios do sono,

A terapia junguiana não tem por finalidade “apagar” ou “ignorar” as experiências passadas do individuo, mas, possibilitar que o individuo  se afirme frente a doença, para que enfrente tanto os aspectos históricos que contribuíram para o desenvolvimento da doença quanto os fatores que mantém que a ansiedade na atualidade. De modo a favorecer que o individuo se permita novas experiências, criando novos parâmetros  que possibilitem que ele enfrente o futuro, para que seja desenvolvido a segurança necessária para uma vida saudável.

A psicoterapia  compreende tanto um processo de auto-conhecimento, de avaliação das escolhas feitas, dos caminhos que levaram ao desenvolvimento do transtorno quanto um processo prático de aprendizado do enfrentamento da ansiedade(e da própria vida), do modo a iniciar de uma nova relação consigo mesmo e com o mundo.

REFERÊNCIAS

PEREIRA, M.E.C. PSICOPATOLOGIA DOS ATAQUES DE PÂNICO, Editora Escuta: São Paulo, 2003.

JUNG, C.G. O DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE, Vozes: Petrópolis, 2006

______________. A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes, 5. Ed. 2000b.

SAIANI, C. Jung e a Educação: Uma análise da relação professor/aluno. São Paulo: Escrituras, 2000.

 

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

www.psicologiaanalitica.com

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Um breve comentário sobre “Teleologia”

 

(24 de julho de 2010)

Teleologia é um termo que as vezes confunde a quem está iniciando os estudos em psicologia analítica. Eu me recordo que há alguns anos, uns alunos de psicologia vieram me perguntar sobre os aspecto “teológico” da psique para Jung, eu estranhei, perguntei mais sobre o assunto, ai verifiquei que não era  “teológico”, e perguntei “vocês não estão querendo dizer ‘teLEológico’?” ai se desfez a dúvida… eles contaram que não entenderam o que era  “teleológico” e acharam que tinha alguma coisa a ver com “Teológico”.

Em sua etimologia teleologia vem de teleios que em grego, significa perfeito, completo, final e logos que significa discurso, estudo. A teleologia visa o estudo/compreensão das causas finais, isto e, visa compreender o propósito ou objetivo de alguma coisa.

A Teleologia está, de certa forma, associada com a noção de enteléquia . O conceito de enteléquia surge com Aristóteles, ele compreendia que todo organismo possui uma finalidade que está presente desde o inicio e que todo desenvolvimento visa essa finalidade. Um exemplo bem simples e ilustrativo é dizer que uma arvore é a enteléquia da da semente. O processo natural faria que a semente se torna-se o que ela sempre foi, em potência. A semente segue o impulso natural de transformação naquilo que lhe é completo, pleno ou perfeito que seria ser “árvore”, assim, uma semente/caroço de manga guarda o potencial de ser uma mangueira, não um abacateiro. Assim, a mangueira e a enteléquia do caroço de manga. 

A idéia de enteléquia se desenvolveu ao longo dos séculos, perdendo um caráter de predeterminação ou predestinação, mas, passou a compreender como um impulso natural/vital que impele os organismos ao desenvolvimento, como exemplo, dessa compreensão contemporânea podemos citar, na filosofia,  as idéias de Bergson e seu élan vital; na psicologia, as idéias do psicanalista D.W  Winnicott, acerca de sua teoria do amadurecimento, e de C.G.Jung com o processo de Individuação. 

Acerca do processo de individuação, Jung afirma,

Este processo corresponde ao decorrer natural de uma vida, em que o indivíduo se torna o que sempre foi. Ε porque o homem tem consciência, um desenvolvimento desta espécie não decorre sem dificuldades; muitas vezes ele é vário e perturbado, porque a consciência se desvia sempre de novo da base arquetípica instintual, pondo-se em oposição a ela. (JUNG, 2002, p. 49)

Todo processo de organização psíquica desde o nascimento (organização do Ego, complexos e etc.) tem como objetivo o desenvolvimento do individuo, ou mais precisamente, do que é mais próprio de cada individuo (selbst).  Mesmo as neuroses,  tem como objetivo reequilibrar o sistema psíquico retomando o processo de individuação, que foi perturbado ou comprometido por algum motivo.

Dessa forma, na psicologia analítica perspectiva teleológica é fundamental para compreender a dinâmica da psique, pois, toda manifestação psíquica(sonho, ato falho, sintoma, etc.) está imbuída uma intencionalidade, ou melhor,  possui um propósito/finalidade que serve a totalidade da psique. Essa perspectiva teleológica nos leva a questionar sempre o “para que?” de uma dada manifestação psíquica, e isso significa considerar o individuo em sua totalidade, para compreender a função/proposito de cada manifestação psíquica.

Referências :

JUNG, C.G. Os arquétipos e o Inconsciente Coletivo , Vozes: Petrópolis, 2002

 

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

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