Perspectivas Junguianas acerca do Ego – Parte 1

O ego é um conceito fundamental para a psicologia analítica pois é a partir dele que podemos compreender e delimitar a relação com os objetos tanto internos e externos, distinguindo a realidade interna e externa. Compreendendo essa importância e, para provocar a reflexão acerca do ego, em algumas situações eu perguntei provocativamente “Onde está o seu ego?” Tal pergunta era recebida com estranheza, desconfiança e, frequentemente, silêncio. As vezes a resposta se dava numa pergunta titubeante “está na consciência? ” Ou “está na cabeça? ”.  Essas respostas explicitavam o quanto nosso enfoque acerca do inconsciente eclipsava os estudos e desenvolvimentos acerca do ego e dos processos da consciência.

A dificuldade ou falta de clareza a respeito de uma construção de uma teoria acerca do ego é um fato que comentado por diferentes autores.  Para Samuels(1989)

Uma dificuldade ocorre porque Jung usa de forma intercambiável “ego”, “complexo do ego”, “consciência do ego” e “consciência”. Outro problema é seu uso de metáforas ambíguas: o ego tanto pode ser visto como uma pele esticada sobre o inconsciente (CW 18, § 122) e, ao mesmo tempo, o centro da consciência (CW 6, § 706). (SAMUELS, 1989, 77)

Evers-Fahey (2017) concorda com essa falta de clareza e aponta quatro possíveis razões para essa dificuldade em relação ao ego. Em primeiro lugar, ela aponta que Jung não seguia uma definição ou conceituação determinada, antes dava diferentes descrições sobre o ego em sua obra completa assim como em suas cartas; em segundo lugar, o uso dos termos “ego”, “complexo do ego” e “ego consciência” indicavam que a ênfase do Jung era mais voltada para o significado do ego do que para estruturar o conceito.

A terceira razão apontada por ela, é que as ideias de Jung evoluíram correlacionadas a sua vida profissional, muitas das ideias acerca do ego organizadas no período em que Jung ainda colaborava com Freud, após a ruptura a forma como Jung organizou sua compreensão a partir de uma perspectiva relacional e dinâmica do ego. E a quarta razão é que Jung não organizou uma metapsicologia do ego pois seus interesses se dirigiam para outro lugar, especialmente a compreensão dos arquétipos e o Self.

Em todo caso, apesar de não sistematizar uma teoria acercado do ego Jung fez considerações importantes que nos abrem a possibilidade pensar o Ego. Samuels aponta que  

é útil considerar as ideias de Jung sobre o ego sob três aspectos: (a) O ego pode ser visto o como um núcleo arquetípico da consciência, e, portanto, trata-se de um complexo do ego com uma série de capacidades inatas. (b) O ego pode ser visto como um elemento na estrutura psíquica em termos de suas relações com o Self (c) Finalmente Jung ás vezes adota uma perspectiva de desenvolvimento a partir da qual se pode visualizar as exigências mutáveis feitas ao ego nos vários estágios da vida. (SAMUELS, 1989, p. 77)

Assim, devemos pensar o ego em seus aspectos de desenvolvimento, funções e dinâmica.

Formação e Desenvolvimento do Ego

O primeiro aspecto fundamental para pensarmos o ego é compreende-lo em seu processo de formação e desenvolvimento. Esse aspecto, em especial, não encontra uma forma própria na obra de Jung. Os dois teóricos que procuraram preencher essa lacuna foram Erich Neumann e Michael Fordham. Apesar de reconhecer a importância de Neumann, enfatizaremos a compreensão de Fordham sobre o desenvolvimento, focalizando sua compreensão acerca do desenvolvimento do Ego.

No modelo de Fordham não há um ego formado no momento no nascimento, o bebê constitui um self primário ou original. Este é self é uma unidade psicofísica integrada, ou seja, todo potencial de desenvolvimento psicofísico está contido ou integrado no self e será atualizado, liberado na interação com o ambiente( que inclui a mãe, pai, roupas, manejo da criança),. A relação com o ambiente se caracteriza pelas relações objetais, que irão qualificar a experiência com o ambiente e a qualidade da experiência, influenciando nos processos de apego e constituição do ego, por ora focaremos na formação do ego.

O self primário traz consigo a potência do desenvolvimento, experiência da totalidade integrada não pode ser percebida ou representada. O potencial humano arquetípico do self se desenvolve em diferentes níveis: biofisiológico; relacional e representacional. O próprio desenvolvimento biofisiologico possibilita estado propício a apreensão dos estímulos, que levará a atualização ou humanização do potencial arquetípico formando as bases sobre as quais o psiquismo se organizará. 

O processo de atualização e humanização arquetípico se desdobra num processo continuo e rítmico que Fordham denominou de deintegração e reintegração. A deintegração implica na ativação do self, isto é, ou partes do self que frente aos estímulos apresentam um estado de “prontidão para a experiência, uma prontidão para perceber, uma prontidão para agir instintivamente, mas não uma percepção ou ação real”. (Fordham, 1957, p.127). Os deintegrados representam a possibilidade de resposta ou reação aos estímulos, a experiência é reintegrada e gradativamente formando as primeiras experiências do bebê. Através do processo de deintregração-reintegração o self desdobra-se, transformando de um self integrado, atemporal, para um self relacional, presente e representacional.

Para exemplificar, na primeira infância a deintegração do self ocorre inicialmente através estímulos sonoros, táteis, luz, orais – que ativam diferentes partes do self. Notemos, nesse momento as experiências estão intimamente relacionadas ao self primário integrado que é psicossomático, por isso não falamos de imagens, símbolos ou consciência pois, ainda não se diferenciaram. Todos esses processos são arquetípicos, por excelência, pois os arquétipos são os padrões basais de organização psíquica, assim Fordham não nomeou este ou aquele padrão arquetípico – pois, nos referimos a um momento pré-egoico e pré-simbólico. Essas experiências são reintegradas, atualizadas ao self no sono, no descanso do bebê.

A relação afetuosa do bebê e sua mãe possibilita segurança para manutenção desse processo de deintegração e reintegração. Na etapa inicial do desenvolvimento não há distinção entre consciente, inconsciente, realidade interior ou exterior. A deintegração exprime uma dinâmica da energia que se dirige aos estímulos, e retorna ao self sendo reintegrada. Os deintegrados do self formam os primeiros objetos do self. Quando falamos de objetos, nos referimos qualquer coisa, ideia ou situação para onde a energia se dirige.

Embora ao nascer o bebê se caracterize por relações objetais, parece evidente que a natureza de seus objetos seja composta. Algumas de suas percepções são objetivas, mas o grosso delas está fortemente carregado de energia proveniente do deintegrado do self. Essa energia organiza a percepção de forma que o objeto se toma algo que poderia ser chamado de objeto do self (FORDHAM, 2001, p.92)

Devemos observar que o self se relaciona de uma forma fragmentaria com a realidade e essa relação se baseia em aspectos primários, sensoriais. Essa relação se dá em termos simples baseado em satisfação e insatisfação, conforto e desconforto, visando um o estado de estabilidade e segurança para o desenvolvimento. As relações com o ambiente/mãe e suas transformações (satisfação-insatisfação; conforto-descontorto, prazer-desprazer etc) possibilitam o inicio da distinção de self e não-selt, ou seja, possibilitando contornos que diferenciem os objetos externos e os objetos do self. 

Os objetos do self possibilitam que a energia dirigida e atualizada na relação com o ambiente formem centros de consciência, que expressam parcialmente o self, que são as representações do self. Estas representações que formam as bases de uma consciência de si mesmo, sentido de continuidade, de fronteiras que distinguem o self do não-self  de uma auto-percepção que levará a formação de uma imagem corporal e um senso de integridade. As representações do self, como aspectos parciais do self que foram deintegrados, formam os “fragmentos” ou “núcleos do ego” que vão ser integrados pela atividade integradora do self.          

Na formação do ego se dá através de pequenos núcleos, resultantes da deintegração, que logo se ligam para que se possa falar de um centro de consciência como nos escritos de Jung. Nesse processo, função integrativa do self desempenha um papel essencial. O corpo principal do ego, às vezes chamado de ego central, tem uma relação especial com o arquétipo do self. Esse arquétipo central pode ser pensado em um organizador do inconsciente: contribui significativamente para a formação do ego central em que encontra expressão, especialmente em experiências conscientes de individualidade. (FORDHAM, 1985, p.32 – tradução nossa)[1]

Deve-se notar que este não é um processo linear. Afirmamos no início, que não há um ego constituído no nascimento, contudo, toda atividade deintegrativa-reintegrativa visa a formação e desenvolvimento do ego.

Geralmente é sustentado, na visão clássica, que durante a individuação o ego dá lugar ao self,o qual, no entanto, se reflete cada vez mais claramente no ego; em contraste, na primeira infância e ao longo da infância, o organismo visa estabelecer o ego em relação ao mundo da realidade material, os arquétipos e também o self. (FORDHAM, 1976, p.14-5 – tradução nossa[2])

A partir dos 4 meses, as relações objetais se tornam cada vez mais perceptíveis, toda dinâmica do self visa a estabilidade e segurança para que o ego possa lenta e continuamente possa se configurar, este movimento na infância é compreendido também como processos de individuação. Aproximadamente com dois anos notamos um ego estável, contudo, assim como o organismo ele está apenas no início de seu amadurecimento.

Um breve comentário sobre relações objetais e defesas

Não cabe aqui uma discussão ampla sobre as relações objetais, contudo, faremos um apontamento de sua importância. Incialmente essa relação se dá em termos simples baseados em satisfação e insatisfação, conforto e desconforto, prazer e dor visando um o estado de estabilidade e segurança para o desenvolvimento. As experiências satisfatórias, de prazer e segurança são nomeadas como objetos bons, já as experiências de dor, insatisfação e desconforto são nomeadas como objetos maus.

A relação com os objetos bons e maus influenciam diretamente a experiência do self e ego em relação ao ambiente. Visto que, diante de um ambiente seguro (com predominância de objetos bons) os processos deintegrativos e reintegrativo (que ocorre em momentos de descanso/segurança) ocorrem mais segura e intensa, possibilitando abertura e interesse pela realidade exterior. Naturalmente, os objetos de frustração e insatisfação fazem parte e são necessários, contudo, seu predomínio produz ansiedade prejudicando os processos relacionais e vinculares com mãe/ambiente.

As tentativas do self em manter objetos bons e afastar/evitar os objetos maus dão origem as defesas primitivas (defesas do self). Essas defesas atuam de forma controlar ou modificar os objetos(como identificação projetiva e introjetiva, algumas formas de acting out e regressão, idealização, somatização dentre outras). Esse fenômeno pode ser percebido no choro, protesto, evacuação e a agressividade são formas de expulsar ou manter ou recupera/manter com os objetos. As defesas do self são protótipos das defesas do ego.  

As defesas visam manter a estabilidade o organismo de modo propiciar o processo de desenvolvimento da forma mais satisfatória possível. Sob essa perspectiva, as defesas compõem o sistema autorregulatório do self que visam regular a relação com o ambiente, propiciando um meio adequado para o desenvolvimento ou amadurecimento.

No processo de desenvolvimento as defesas possibilitam a estabilidade interna necessária para um sentimento satisfatório de integridade. Mesmo as experiências negativas (internalizadas nos complexos) são mantidas afastadas da consciência. Isso é importante para que esses objetos maus não sejam identificados com o ego em seu processo de amadurecimento, pois ao se identificar com objetos de ansiedade a organização/força do ego seria prejudicada e, assim, a capacidade de autopercepção, autoimagem e autoestima (assim como de estabelecer vínculos estáveis/seguros) seriam comprometidos.

(Em breve postaremos a segunda parte – Gostou? Teve dúvidas? Deixe um comentário!)

Referencias Bibliográficas

SAMUELS,Andrew. Jung e os Pós-junguianos, Rio de Janeiro: Imago, 1989.

EVERS-FAHEY, Karen, Towards a Jungian Theory of the Ego, New York: Routledge, 2017.

FORDHAM, Michael, New Developments in Analytical Psychology: London: Routledge and Kegan Paul, 1957.

FORDHAM, Michael, The Self And Autism, London: William Heinemann Medical Books Ltd, 1976.

FORDHAM, Michael, A Criança como Individuo, São Paulo, Cultrix, 2001


[1] when some ego has formed it will be as a number of small nuclei the result of deintegration, which soon become linked together so that one can speak of a centre of consciousness as in Jung’s writings. In that process the integrating function of the self plays an essential part. The main body of the ego, sometimes called the central ego, has a special relation to the archetype of the self. That central archetype can then be thought of an an organizer of the unconscious: it contributes significantly to the formation of the central ego in which it finds expression especially in conscious experiences of selfhood

[2]It is usually held in the classical view that during individuation the ego gives place to the self, which, ehowever, the ego comes to reflect more and more clearly; by contrast, in infancy and childhood the organism aims to establish the ego vis-à-vis the world of material reality, the archetypes and so also the self.

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Fabrício Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Diretor do Centro de Psicologia Analítica do CEPAES. Formação em Hipnose Ericksoniana. Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  desde 2012 Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 99316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@cepaes.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

http://www.cepaes.com.br

“Brincar de Boneca”: Reflexões sobre o desenvolvimento da personalidade, misoginia e psicopatia

(Por Fabricio F. Moraes)

Esse último mês de outubro de 2015 foi marcado por uma ampla discussão nas redes sociais sobre assédio/abuso sexual, machismo, sexismo e misoginia. Acompanhando essas discussões, me deparei com um texto que chamou atenção com o título “’Sou homem e meu filho não brinca de boneca.’ Ou ‘Como criar um machista’” de Dr.Leonardo Sakamoto http://goo.gl/bZUqno , nesse texto ele discute a gênese do machismo e misoginia associado ao sexismo dos brinquedos e das brincadeiras das crianças.

Tal temática é fundamental, especialmente porque, na atualidade, o estado do Espirito Santo lidera as estatísticas de violência contra a mulher em nosso país. Assim, como Dr. Sakamoto muito bem apontou no texto acima citado e em outros textos, sob certo aspecto o brincar é um veículo ideológico do sexismo, do machismo e da misoginia que tanto violenta e mata mulheres em nosso país e no mundo. As expressões “de menino” ou “de menina” na boca das crianças trazem todo o peso de séculos de uma divisão social de trabalho, poder, e determinações possibilidades de futuro que desqualificam as mulheres. Essas situações não podem ser ignoradas.

Neste texto, pretendemos desenvolver um pouco da visão de desenvolvimento na psicologia junguiana, pelo viés de Fordham, do brincar e suas implicações na personalidade. Para assim, posteriormente, voltar as questões que envolvem a discussão da misoginia e o machismo.

Desenvolvimento e o Brincar

Um dos principais teóricos junguianos do desenvolvimento foi o analista inglês Michael Fordham (1905-1995), psiquiatra que, ao longo de sua carreira trabalhou com crianças, sendo responsável por um abrigo de crianças evacuadas na segunda guerra. Seus estudos com crianças, o aproximaram do middle group da sociedade britânica de psicanálise, especialmente de Winnicott, de quem foi amigo. Desta maneira, sua forma de pensar o desenvolvimento é importante por unir tanto aspectos da sua percepção clinica com crianças, a teoria de Jung e a psicanálise inglesa.

Em seu modelo de desenvolvimento, Fordham(2001) defende que a criança quando nasce já possui uma unidade psicossomática, a qual ele chamou de “Self primário” a partir da qual, toda a experiência do psiquismo (incluindo o ego) se desenvolveria. Haveria, assim, uma organização preexistente na criança que direcionaria o processo de amadurecimento. Este processo já começaria desde a vida intrauterina, onde este Self primário passaria por um processo ao qual Fordham denominou de “deintegração e reintegração”.

Como unidade psicossomática, o self primário está diretamente relacionado com o corpo e os processos psicofisiológicos que, de acordo com as relações com a mãe/ambiente (toque, cuidado, suporte, alimentação, proteção, etc.), se manifesta, ativando partes especificas (relacionadas com o estimulo) que naturalmente vão deintegrando (ou dividindo-se). Desta forma, o self primário se “dividiria” em partes menores chamadas “deintegrados”. Essa divisão espontânea não deve ser confundida como uma desintegração ou algo similar negativo, pelo contrário é um processo positivo de ativação e atualização de determinadas partes do self.

Esses “deintegrados representam a prontidão à experiência, prontidão a perceber, a prontidão para agir instintivamente, mas, não uma ação ou percepção real”[1] (Fordham, 1957, p. 127, tradução nossa). Essa “prontidão”, seja percepção, ação ou experiência é a característica mais fundamental dos arquétipos[2]. O processo de deintegração corresponde a uma ativação dos processos arquetípicos inatos necessários ao desenvolvimento naquele momento. Que será seguido pelo processo de reintegração, onde este conteúdo será reintegrado ao Self, seja por meio do sono ou outros meios de elaboração. Com o tempo, o processo continuo e rítmico de integração-deintegração compondo e atualizando o substrato que dará origem ao núcleo do Ego.

É importante compreender que o processo de integração-deintegração não termina no estabelecimento do ego. Muito pelo contrário, ao longo da vida esse processo de repete continuamente através da formação de símbolos. Especialmente na infância esse processo desempenha um papel importante no processo de constituição ou desenvolvimento da personalidade.

O Self e seus processos representam o conceito-chave para Fordham, segundo o mesmo,

Dei muita importância ao self definido como a totalidade organizada dos sistemas consciente e inconsciente. A concepção aplicada à criança trata-a como uma entidade em si mesma, da qual se podem derivar os processos maturativos. Ela não inclui a mãe nem a família. A significação deste postulado de uma unidade primária ficará evidente, mas talvez possa dizer desde já que ela é concebida como a base sobre a qual repousa a noção de identidade pessoal e da qual procede a individuação.

A partir daí, o objetivo ideal dos pais pode ser definido como o de fomentar o amadurecimento do self e, assim, facilitar a sensação de autoconfiança da criança em relação a eles, a seus irmãos e ao ambiente extrafamiliar, no qual ela se irá engajando com o passar do tempo. (Fordham, 2001, p. 22)

Desta forma, o processo de desenvolvimento ou amadurecimento é inerente a dinâmica do Self, que necessita de condições mínimas para possibilitar esse desenvolvimento – sejam elas, o toque, fala, manejo etc. – pois, “o amadurecimento só pode se dar-se em toda plenitude num ambiente bom o suficientemente” (ibid, p.120). Nos primeiros meses de vida, a unidade mãe-bebê é importante por garantir a vida e o desenvolvimento dos processos deintegrativos. O ego da criança ainda não consegue se relacionar com a integralidade da mãe (objeto total), mas, como um objeto parcial (seio, pele, olhar, etc). Com o processo de amadurecimento da criança e, naturalmente, com as ausências da mãe desenvolvem-se os fenômenos e objetos transicionais – estes são, para Winnicott, uma importante expressão do amadurecimento. Os fenômenos e objetos transicionais só podem se desenvolver a partir do espaço potencial que, segundo Avellar (2004) é uma zona intermediária que resulta do fim da relação fusionada mãe-bebê, devido ao desenvolvimento de um sentimento de “eu” que possibilita a delimitação de uma realidade interior e exterior. Essa delimitação possibilita o afastamento da mãe, “o primeiro espaço que se abre entre na separação da unidade mãe-bebê para ser mãe-e-bebê é o espaço potencial”(Avellar, 2004, p. 60). Nesse espaço intermediário, transicional o bebê pode encontrar substitutos para os objetos parciais, de modo a suportar a ansiedade de separação e lidar de forma criativa e espontânea.

O objeto transicional, como o chama Winnicott, tem sua origem nos períodos em que a mãe está por perto e o bebê se sente seguro e a vontade. Ele pega o seio, ou um pedaço de pano que entre em contato com a boca para brincar e criar ilusões (ou delírios) que se tornam carregados de sentido. (…)ele é antes uma tentativa inicial de representação do self e, assim, pode ser a primeira de todas as simbolizações. (Fordham, 2001, p. 109)

É no espaço potencial, na experiência dos objetos transicionais, que se situa o brincar. Ao longo do desenvolvimento, o brincar se configura como uma experiência fundamental para a constituição da personalidade e para a experiência da realidade.

O brincar, quer na infância ou ao longo da vida, é uma oportunidade de integração e reparação dos processos de amadurecimento que por algum motivo foram prejudicados. Assim, o brincar possibilita que as representações do self (deintegrados) sejam atualizadas, humanizadas e integradas à estrutura da personalidade. Isto é, no processo de brincar, conteúdos arquetípicos que foram eliciados (deintegrados) pelo ambiente (família, relações sociais) e que o ego ainda não tem condições de assimilar possam ser elaboradas no brincar, de forma, a introduzir de forma aceitável ao mundo das crianças esses conteúdos.

Ao brincar as crianças não só reencenam a realidade que vivem, mas, podem integrar essa realidade como participantes ativos, produzindo no brincar – que como já dito, se constrói num espaço de segurança psíquica – a possibilidade do amadurecimento. Segundo Avellar (2004, p. 62) “é no brincar que o indivíduo pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral. É com base no brincar que se constrói totalidade da existência humana”. A experiência do brincar é possibilita essa experiência de integração ao longo da vida. Winnicott em seu livro “Brincar e Realidade” afirma

Em outros termos, é a brincadeira que é universal e que é própria da saúde: o brincar facilita o crescimento e, portanto, a saúde; o brincar conduz aos relacionamentos grupais; o brincar pode ser uma forma de comunicação na psicoterapia; finalmente, a psicanálise foi desenvolvida como forma altamente especializada do brincar, a serviço da comunicação consigo mesmo e com os outros. (Winnicott 1975, p. 63)

O brincar com bonecos, isto é, brinquedos com formas humanas possibilita que a criança possa não só elaborar a realidade que ela vivencia, mas, também integrar os conteúdos relacionados com essa realidade à sua personalidade. Com essa integração, a criança pode lidar com o medo e ansiedade relacionado às figuras parentais e às situações ambientais novas que surgem para as quais ainda não está preparado. Através do brincar a criança se torna ativa e internamente resolver as situações-problema que se apresentem.

Devemos considerar que quando falamos acerca do “brincar com bonecas”, isto é, brincar com bonecos que representam o feminino, falamos da atividade que permite a integração e a assimilação de características humanas que historicamente foram associadas ou identificadas com feminino (como receptividade, flexibilidade, cuidado, delicadeza e afetividade dentre outras). O mesmo vale para as meninas que integram características que foram historicamente identificadas com o masculino (como a agressividade, objetividade, rigidez, ênfase na lógica, dentre outras) tendo a possibilidade de brincar com os mesmos brinquedos ou brincadeiras que os meninos.

Com todo sexismo histórico, a integração e assimilação desse potencial é parcial. Isso se estabelece pois, as crianças que não tem a possibilidade de integrar naturalmente os aspectos do gênero oposto através de uma relação direta e criativa, sendo estes integrados a partir das relações com figuras parentais, familiares e colegas. Todavia esse contato com outro é limitado – seja pelo desejo, interesse e limitações físicas – fazendo com que o interagir das crianças com outras pessoas não corresponda a imaginação e ao brincar criativo. Dessa forma, esses os conteúdos terão maior dificuldade para ser integrados a personalidade da criança, ficando, assim, reprimidos ou subdesenvolvidos no inconsciente. Podendo podem oferecer dificuldades ao indivíduo ao longo da vida até serem finalmente integradas.genero

Assim, podemos questionar: qual seria o brinquedo mais adequado para a criança? O brinquedo mais adequado para a criança é aquele que ela deseja e que seja seguro para sua idade.

Para além das bonecas: misoginia e psicopatia

Para as crianças, brincar com bonecos ou bonecas é apenas brincar. É para os adultos que o brincar assume uma outra dimensão. Brincar se torna instrumento ideológico, no caso, o patriarcado que atravessa nossa constituição psíquica e social. A divisão sexista dos brinquedos de “menina” e de “menino” tem por objetivo estabelecer um modelo do que viria a ser “adequado” ou “próprio” para um cada gênero, numa tentativa de estabelecer um “local” masculino ou feminino, baseado (em nossa cultura) na tradição judaico-cristã, que durante séculos subjugou as mulheres baseado no mito do “pecado original”.

Não podemos negar que essa ideologia patriarcal também influenciou a psicologia. Em outro texto (Entorno da anima e animus – algumas reflexões sobre machismo e atualidade) foi discutido acerca do machismo na psicologia analítica, tendo expressão nos conceitos de anima e animus. Os conceitos não são em si “machistas” mas, são atravessados pela cultura machista. Esse atravessamento cultural é sentido na configuração das representações arquetípicas, cuja expressão se dá na dicotomia anima-animus.

Na teoria junguiana, esse atravessamento pode ser compreendido por diferentes persepctivas. Em Neumann temos uma noção de fragmentação de arquétipos, onde “ocorre uma fragmentação no sentido de que, para a consciência, o arquétipo primordial se decompõe num amplo grupo de arquétipos e símbolos inter-relacionados” (1995, p. 232). De modo semelhante, Guggenbhül-Craig retoma a mesma temática, em “Abuso do Poder…”, falando sobre as polaridades do arquétipo e cisão do arquétipo,

Não é fácil, para a psique humana, suportar a tensão das polaridades. O ego ama a clareza e sempre tenta erradicar a ambivalência interior. Essa necessidade de situações inequívocas pode acarretar uma cisão dos polos arquetípicos. Um pólo poderá ser reprimido e continuar operando no inconsciente,(…) A parte reprimida do arquétipo poderá ser projetada sobre o mundo exterior.(Guggenbhul-craig, 1979,p.99)

A dinâmica que Neumann e Guggenbhul-Craig descrevem nos indicam de uma dificuldade do ego e da cultura para lidar com a ambivalência natural dos arquétipos. A fragmentação ou a cisão do arquétipo não se dá ao acaso, mas, é condicionada pela consciência coletiva. Nesse sentido, podemos considerar que o masculino e o feminino são pólos de uma mesma dinâmica arquetípica, representada na teoria junguiana pela sizígia “Anima-Animus”, que, em outro texto, discutimos como sendo os polos do arquétipo da alteridade (cf. Anima, Animus e Alteridade – Revisão do texto de 05/04/2010 ), esse arquétipo pode ser expressado pela relação “Eu-Outro” que, em aspecto de maior diferenciação ou oposição, pode ser representado como masculino e feminino.

Poderíamos nos questionar acerca dessas cisões, pois, e “se essa cisão for radical? E, se não houver a reintegração?” Por mais que a psique seja um sistema autorregulador nem sempre encontra os meios necessários para reparar as falhas no desenvolvimento. Assim, quando um elemento não é adequadamente integrado pode formar uma lacuna na psique, isto é, um vazio na alma, que faz com que o indivíduo será incapaz de lidar adequadamente com as situações relacionadas com o conteúdo “não integrado”. Guggenbhul-Craig foi um pensador junguiano que trabalhou a ideia do “vazio na alma”, ele nos ajuda a pensar essa imagem,

“Imagine, se você quiser, uma geografia da psique, um imenso continente povoado por diferentes tribos (habilidades e capacidades), cada uma vive e se desenvolve adequadamente. Seguindo um pouco mais esta analogia, aquelas áreas que não foram habitadas ou são inabitáveis, como desertos, áreas estéreis, ou lacunas(lacunae) representariam as psicopatias. Todos temos traços psicopáticos, cada um de nós tem algo faltando ou aspectos que são marcadamente subdesenvolvidos. (Guggenbhul-Craig, 1986, p.68 – tradução nossa)[3]

Na lacuna, no deserto estéril não há produção simbólica, não há vida simbólica. Esta “vida simbólica” é representada por Guggenbhul-Craig como eros, a força psíquica, criativa, que une tanto os elementos de nosso mundo interior quanto nos liga ao mundo exterior. Nesse sentido, a psicopatia compreendida por Guggenbhul-Craig como um vazio ou lacuna na alma, no psicopata há uma “ausência de eros” ou a “deficiência de eros”, que impede o desenvolvimento adequado da personalidade. Guggenbhul-Craig afirma, “a falta de crescimento e de desenvolvimento é, como a falta da moralidade, o resultado de um fraco ou deficiente sentido de Eros: sem Eros não há desenvolvimento.”[4] (ibid, p.90) As relações humanas se estagnam, assim como relações consigo.

Para além do machismo, temos a misoginia, onde o feminino e a mulher não é apenas inferiorizado, mas, desprezado e objetificado. Na misoginia vemos um deserto de eros, onde o feminino não foi integrado a personalidade. A mulher não é compreendida em sua totalidade e dignidade numa relação de igualdade, mas, como uma posse, como uma relação inadequada.

Essa falta de Eros nos psicopatas encontra expressão nas dificuldades encontradas nas relações interpessoais. Em vez de Eros, nós frequentemente encontramos manipulação. Jung disse que quando o Amor se retira, o Poder avança, o Poder sendo um sinal de importância em indivíduos com tendências psicopáticas. Onde Eros está faltando, manipulação, controle, dominação e intriga dominam. Muitos pesquisadores têm reconhecido a “diminuição do Eros” como qualidade da psicopatia. (ibid. p.80- tradução nossa)[5]

Acredito que poderíamos equiparar a misoginia a psicopatia. Mas, faço isso como uma provocação. Uma provocação ao nosso próprio traço psicopático, nossa própria deficiência de Eros, que nos incapacita na relação com alteridade. Começamos esse texto discutindo o desenvolvimento, o processo de deintegração e reintegração – e o quanto o ambiente (mães/pais/família) são importantes para o desenvolvimento e falamos do brincar de boneca como ícone do sexismo de nossa cultura. Falar do “brincar de boneca” é falar de nosso sexismo íntimo, de nosso traço psicopático que cultivamos em silêncio, racionalizando, categorizando como “politicamente correto” todo movimento que visa a igualdade – seja ele de gênero, étnico-racial ou de orientação sexual. Na aridez do politicamente correto, construímos um deserto sem Eros, sem implicação.

Jung afirmava que “a pessoa que não tem o coração mudado, não mudará o coração de ninguém”(Jung, 2000, p. 186). Por isso mesmo, chamo atenção para o cuidado com o “politicamente correto”, pois a mudança de linguagem não é uma “mudança de coração”. É importante salientar que, no texto do Sakamoto citado no início deste texto, ele usa o “brincar de boneca” para chamar atenção aos hábitos machistas e sexistas que atravessam nossa formação deste a mais tenra idade. A mudança não se dá de forma mecânica, automática ou por adesão ao “politicamente correto”, a mudança se dá pela experiência, pela ação e vivenciar a realidade do outro.[6]

Acredito que enquanto não tivermos o coração mudado – que implica em ações e afetos – não mudaremos nada. Enquanto não nos permitirmos a experiência da alteridade – que nos identifica na relação como outro, compreendendo-o como igual – continuaremos a ter uma sociedade hostil e violenta contra as mulheres. Enquanto escondermos nosso machismo e sexismo sob os “panos quentes” do politicamente correto, viveremos no deserto da alma, acalentando, silenciosamente, nossos próprios traços psicopáticos.

Referencias Bibliográficas

Avellar, Luziane, Z.. Jogando na análise de crianças: intervir-interpretar na abordagem winnicottiana. São Paulo: Casa do Psicólogo. 2004

Guggenbühl-Craig, Adolf. O abuso do poder na psicoterapia e na medicina, serviço social, sacerdócio e magistério. RJ, Achiamé, 1978

Guggenbühl-Craig, Adolf. Eros on crutches – on the nature of the psychopath, Dallas, Spring Publications, 1986.

Fordham, Michael. New Developments in Analytical Psychology, Londres: Routledge and Kegan Paul, 1957.

Fordham, Michael, A criança como individuo: Rio de Janeiro, 2001.

JUNG, C.G. Vida Simbólica Vol. II, Petrópolis: Vozes, 2000.

Neumann, Erich. História da Origem da Consciência, São Paulo: Cultrix, 1995

Winnicott, D.W. O Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro, Imago, 1975


[1] The deintegrates represent a readiness for experience, a readiness to perceive, a readiness to act instintively, but not na actual preception or action.

[2] Cf. Instinto e Inconsciente(1919). In JUNG, C.G. Natureza da Psique, Vozes, 5ª Ed., Petrópolis, RJ, 2000.

[3] Imagine, if you will, a geography of the psyche, na immense continente peopled by different tribes (the abilities and capabilities) which live and develop accordingly. Following the analogy further, those áreas wich were uninhabited or uninhabitable, the deserts, barren areas, or lacunae would represent psychopathies. Everyone has psychopathic traits; each of us is missing something or has some aspect that is markedly underdeveloped.

[4] The lack of growth and of development is, like the lack of morality, the result of a weak or deficient sense of Eros: without Eros there is no

[5] This lack of Eros in psychopaths fids expression in difficulties encountered in interpersonal relationships. Rather than Eros, we frequently find manipulation. Jung said that when Love retreats, Power advences, Power being of signal importance in individuals with psychopathic tendencies. Where Eros is lacking, manipulation, control, domination, na intrigue take over. Most researchers have recongnized the Eros-less quality of psychopaths.

[6]No cinema dois filmes que eu indico que abordam essa experiência são: Inimigo Meu (1985) e Irmão Urso (2003)

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana. Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 99316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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