“Mulan e Processo de Individuação feminino : comentários ao filme

 

(21 de junho de 2010)

ATENÇÃO : ESTE POST CONTÉM SPOILERS. CASO VOCÊ NÃO TENHA VISTO O FILME SUGERIMOS QUE ASSISTA O FILME ANTES, POIS SERÁ COMENTADO DETALHES DO FILME, ASSIM COMO SEU FINAL.

Em 1998, a Disney Pictures lançou a animação “Mulan” que foi indicada ao Oscar de melhor animação. Este filme é inspirado num poema chinês do séc. V chamado “Balada de Mulan”. O filme é muito delicado e impressionante, sua narrativa nos permite pensar o processo de individuação feminino.

Antes de comentarmos, convém fazermos uma pequeno apanhado da história de Mulan.

“A Balada de Mulan”

Um suspiro e outro suspiro,
Mulan tece de fronte à porta.
Não se ouve o som da lançadeira,
Não se ouvem os suspiros da filha.
Perguntam o que está no seu coração,
Perguntam o que está no seu pensamento,
“Não há nada em meu coração,
Não há nada em minha mente.
Noite passada eu vi os anúncios para o recrutamento,
O Khan está convocando muitas tropas,
A lista do exército está escrita em doze rolos,
Em todos eles aparece o nome do meu pai.

Meu pai não tem nenhum filho crescido,
Mulan não tem nenhum irmão mais velho.
(Então) eu irei comprar uma sela e um cavalo,
E servirei o exército no lugar de meu pai.”
No mercado leste ela comprou um cavalo de porte,
No mercado oeste ela comprou uma boa sela,
No mercado sul ela comprou um bom freio,
No mercado norte ela comprou um longo chicote.

Ao amanhecer ela deixou seu pai e sua mãe,
Ao anoitecer ela chegou ao acampamento nos bancos do rio Amarelo.
Ela já não ouve mais o chamado de seu pai e sua mãe,
Ela ouve apenas o rumor da corrente do rio Amarelo.
Ao amanhecer ela deixa o rio Amarelo,
Ao anoitecer ela chega à montanha Hei.
Ela já não ouve o chamado de seu pai e sua mãe,
Ela ouve apenas o relinchar dos cavalos nômades do monte Yen.

Ela avançou dez mil milhas por causa da guerra,
Ela passou voando por desfiladeiros e montanhas
As rajadas do vento norte traziam o rufar do metal,
As luzes frias brilhavam nas armaduras de ferro.
Generais pereceram numa centena de batalhas,
Soldados enrijecidos retornaram após dez anos.

Ao retornar ela vê o imperador,
Ele estava sentado numa sala suntuosa.
O imperador concedeu promoções em doze categorias,
E premiou centenas de milhares.
O Khan perguntou o que ela desejava.
“Mulan não tem interesse em postos oficiais.
Eu desejo apenas uma montaria veloz
Que me leve de volta ao lar.”

Quando o pai e a mãe ouvem que a filha está voltando
Dirigem-se para fora dos muros da casa, apoiando-se um no outro.
Quando a irmã mais velha ouve que a irmã mais nova está voltando
arruma a maquiagem e coloca-se defronte à porta.
Quando o irmão mais novo ouve que a irmã mais nova está voltando
afia sua faca e prepara o leitão e o cordeiro.

“Eu abro a porta do quarto leste,
E sento-me na minha cama na sala oeste,
Eu tiro minha armadura de guerra
E visto meus trajes de antigamente.”
Defronte ao espelho ela penteia seus cabelos de nuvem,
Segurando o espelho, ela enfeita-se com flores
Ela abre a porta e se apresenta diante dos seus companheiros
Eles ficam todos surpresos e perplexos.
Pois viajaram juntos por doze anos
E não sabiam que Mulan era uma menina

“As patas do coelho pulam mais,
Os olhos da coelha são mais estreitos,
Mas dois coelhos correndo lado a lado junto ao chão, não se pode distinguir
E assim quem poderia dizer se eu era um rapaz ou uma garota?”

Fonte: http://www.disney2d.xpg.com.br/

Um Berve Resumo:

Este resumo é para ajudar a quem viu o filme a relembrar de algumas cenas importantes, caso você não tenha visto o filme, sugerimos que você assista o filme antes, pois falaremos de detalhes do filmes e o final.

O  filme começa com a noticia de que os hunos haviam cruzado a grande Muralha da China. Frente a essa ameaça o imperador ordena o recrutamento.

Ignorando a ameaça que se aproxima, Mulan se prepara para encontrar a casamenteira para fazer um bom casamento e honrar sua família. 

O Encontro com a Casamenteira não corre muito bem.
A casamenteira dá sua sentença final a Mulan: “Você é uma desgraça! Pode até parecer com uma noiva, mas, nunca trará a sua família honra!!!”

Após o desastroso encontro com a casamenteira, Mulan, vai ao templo dos antepassados e canta

“Olhe bem, a perfeita esposa jamais vou ser
Ou perfeita filha
Eu talvez tenha que me transformar
Vejo que sendo só eu mesma nao vou poder
Ver a paz reinar no meu lar…
Quem é que esta aqui?
Junto a mim, em meu ser?
É a minha imagem, eu não sei dizer
Como vou desvendar quem sou eu
Vou tentar
Quando a imagem de quem sou
Vai se revelar
Quando a imagem de quem sou
Vai se revelar”

Chega a notícia do recrutamento a vila de Mulan, e que um homem de cada família deveria representá-la. Mulan  não tem irmãos, seus pai, velho e doente(com problema na perna),aceita a convocação se coloca a serviço do imperador. 

Mulan inconformada pela convocação do pai e após, discutir com ele, ela mesma toma uma decisão: iria no lugar do pai. Mulan rouba a convocação, a espada e armadura  do pai, corta os cabelos para parecer com um homem e foge para servir o imperador no lugar do pai. O problema é maior, caso descubram que Mulan, uma mulher,  foi para o exército imperial teria como pena a morte. Temendo que o pior aconteça, os familiares de Mulan, rezam para que os ancestrais a protejam.

Os ancestrais despertam e discutem com ajudar a salvar a família Fa (o clã de Mulan) da desonra que acabaria com a família.
O Grande Ancestral decide chamar o principal guardião da família, o grande dragão de pedra, para desperta-lo foi designado Mushu, um antigo protetor que foi rebaixado, sendo apenas um serviçal. Mushu ao tentar despertar o grande dragão de pedra, o despedaça. Acaba tendo a idéia dele mesmo ir ajudar Mulan, para poder ser aceito de volta.

Mulan cria a identidade de Ping, para se alistar no exército. Onde ja chega criando confusões por apesar se parecer com um homem, ela não conhece as peculiaridades do universo masculino. 
Como Ping tem muitos problemas nos treinamentos e com o Capitão Li Shang. Que ao ver as tentativas, resolve manda-la embora. Ping (Mulan) vê que a única forma de honrar sua família é vencer o desafio proposto por Li Shang, e que nenhum dos recrutas conseguiu vencer, para permanecer no exército.
A partir dessa conquista, Ping se torna um dos soldados mais disciplinados, se integrando aos colegas, que nem imaginam que é uma mulher.

Após uma armação do Mushu, o capitão Li Shan segue com os recrutas para se integrar as forças comandadas por seu pai, o General Li. Ao chegar lá, eles descobrem que o exército foi arrasados pelos hunos de Shan Yu.
Liderados por Li Shan, o exército segue em direção a cidade imperial. No meio do caminho são atacados por Shan Yu. Ping (Mulan) consegue provocar uma avalanche que soterra os hunos, o que faz com que vencessem a batalha.
Ping(Mulan) salva o Li Shang , mas, é ferido. Quando acorda, a farsa é descoberta Mulan é expulsa do exército. Por ter salvado a vida de Li Shan na montanha, este o poupa sua vida.

Mulan e Mushu conversam se lamentando sobre os acontecimentos, pela primeira vez são sinceros consigo mesmos e com os outros. E quanto seus objetivos eram egoísticos, Mushu queria agradar os ancestrais para ter honra, e ser reverenciado – independente do que poderia acontecer com Mulan. Ela confessa, que no final, seu objetivo não era bem seu pai ela diz “ Talvez meu pai não tenha sido o motivo, talvez eu só quisesse provar que posso fazer coisas certas, para poder olhar no espelho e ver alguém que valesse a pena. Esse foi meu mal” Mulan e Mushu resolvem voltar juntos para casa e, sem mentiras, enfrentar as consequências por seus atos.
Quando se preparavam para ir embora, descobrem que os Hunos não morreram. Eles decidem ir a cidade imperial, avisar a Li Shang, que estava sendo homenageado pela vitória sobre os hunos . Mulan avisa a Li Shang e a seus antigos companheiros que os hunos já estão na cidade imperial.

Na cidade ninguém dá ouvidos a Mulan, por ser mulher. Os Hunos sequestram o imperador e o levam para dentro do palácio.
Mulan oferece ajuda e idéia aos ex-companheiros, que imediatamente a seguem – Li Shang vai a contra gosto.
Mulan sugere que os soldados se vistam de mulher, para poder se aproximar o suficiente dos hunos, sem que seja dado o alarme. Assim, como vestidos como mulheres eles derrotam os hunos abrindo caminho para Li Shang salvar o imperador.
Mulan se revela a Shan Yu (que a reconheceu da batalha da montanha), com a ajuda de Mushu, Mulan derrota, enfim, Shan Yu.

O imperador enumera todos erros de Mulan, mas, reconhece que apesar de tudo ela salvou sua vida e  toda a China, e seguindo o exemplo do Imperador, todos se curvam reverenciando Mulan e seus feitos.
O imperador lhe oferece de presente seu medalhão (selo imperial) para sua familia e todos soubessem o que fez por ele. E lhe oferece a espada de Shan Yu, para todos soubessem o que ela fez pela China. O imperador oferece o posto de conselheira para ela, mas, ela prefere voltar para casa.
Mulan retorna para casa.

Mulan se reencontra com o Pai, fazendo as pazes. Pouco depois, chega Li Shang que foi atrás dela.
Do templo, os ancestrais observam, e reconhecem a ajuda de Mushu e permitem que ele se torne guardião novamente.

Mulan e Processo de Individuação feminino

A psicologia analítica compreende que os mitos(religiões), histórias(literatura), contos de fadas e filmes(mais próximos de nossa realidade), podem ser compreendidos (em alguns casos) como metáforas de nossa dinâmica psíquica, isso explicaria porque ficamos tão impressionados, fascinados por alguns filmes ou porque nos identificamos (coletivamente) com alguns personagens ou situações.

Em nosso caso, o filme “Mulan” nos oferece uma narrativa interessante para pensarmos a dinâmica do processo de individuação sob a ótica feminina. Devemos compreender que o processo de individuação para Jung

significa tornar-se um ser único, na medida em que por “individualidade” entendermos nossa singularidade mais íntima, última e incomparável, significando também que nos tornamos o nosso próprio si-mesmo. Podemos pois traduzir “individuação” como “tornar-se si-mesmo” (Verselbstung) (JUNG, 2008, 60)

Assim, a busca por si mesmo ou a busca para se descobrir quem si é, é o que mais caracteriza as narrativas (metáforas) do processo de individuação.

A história de Mulan começa quando ela se depara um momento crucial da vida, no limiar que marca uma mudança de etapa da vida, que é casamento(ou melhor, a preparação do casamento), onde ela fracassa. Em nossa realidade, esse mudança poderia ser um término relacionamento, uma reprovação no vestibular ou concurso, a perda de uma familiar próximo ou momentos em que sua importância marcam um “antes e depois” em nossa vida.

Frente ao fracasso do encontro com a casamenteira e a sentença dela “Você é uma desgraça! Pode até parecer com uma noiva, mas, nunca trará a sua família honra!!!”, Mulan se depara com outro conflito que a convocação do pai doente para a guerra, ao qual Mulan reage impulsiva, abraçando o problema do pai, como se fosse o problema de sua vida. É importante notarmos, que Mulan vai para guerra, ela foge para a guerra. na calada da noite, ela foge casa, foge de seu fracasso. Que não é simplesmente uma fracasso pessoal, é um fracasso frente a sua família e cultura. Numa cultura onde a perfeição é um alvo, Mulan reconhece sua limitação quando canta “a perfeita esposa jamais vou ser Ou perfeita filha”. Quando surge  a guerra, surge a possibilidade de fugir também de todos seus problemas. E, muitas vezes, é o que acontece em nossas vidas, frente a uma grande crise fugimos para outros problemas… ou nos enfiamos no trabalho, ou vivemos para os filhos, ou paramos nossa vida para simplesmente nos lamentar por não conseguirmos ir adiante.

Ao fugir para guerra, Mulan foge de si mesma, se torna Ping. Ela se camufla, se passa pelo que ela não é, tendo uma convivência inadequada com os outros. Mas, os conflitos de Mulan não estavam apenas num plano social, cultural ou consciente, mas, no plano “espiritual” e inconsciente – que no filme é bem representado por Mushu.

Mushu é uma expressão do animus, isto é, do arquétipo que personifica o inconsciente, favorecendo o desenvolvimento do Self, por complementar a atitude da consciência. Mushu é um dragãozinho que era um guardião, mas que foi rebaixado por algum motivo do não revelado. Devemos notar, que sua postura é de manipulação, ou seja, de enganar Mulan para atingir seus objetivos (que era reaver seu posto e ter o reconhecimento dos ancestrais). Mushu é uma manifestação primitiva do animus, pouco diferenciado – isso, pode ser percebido, por sua forma animal (teriomórfica), seu tamanho e atitude. Ele é a expressão da relação de Mulan consigo mesma (e com sua cultura circundante).   Nós podemos observar que a relação de Mulan com seu pai, a quem tenta proteger, indo para guerra. A identificação com o pai, faz com que ela seja uma “filha do pai”, que não desenvolve sua sensualidade nem sua identidade feminina. (Podemos até lembrar, que na Mitologia Grega, Atena foi uma deusa nascida apenas do Pai (Zeus), que jurou ser virgem, e se tronou uma deusa da guerra).  A confissão de Mulan – de que não seria nem esposa nem filha perfeita – expressam justamente essa dificuldade de relação com o masculino, no caso com o Animus. Mushu, quando aparece a Mulan, passa a guia-a dando idéias e conduzindo-a em situações difíceis.

É interessante lembrar que uma das diferenças entre a Anima e o Animus, é justamente que o homem deve conquistar a Anima, ao passo que a Mulher deve resistir as investidas do Animus. A esse respeito, Esther Harding(proeminente analista junguiana da primeira geração) relata uma de suas conversas com Jung.

Disse que um homem adotar uma atitude feminina, enquanto uma mulher deve combater seu animus, uma atitude feminina. (…) O Dr. Jung passou então a falar da força da feminilidade, como é maior do que qualquer [imitação da] adaptação masculina, e como uma mulher que é mulher da cabeça aos pés pode permitir-se a ser masculina, tal como um homem que está seguro de sua masculinidade pode permitir-se a ser terno e paciente como uma mulher (…)`(Maguire et Hull, 1982, 42-3)

A adaptação ou imitação da masculina de Mulan surtiu efeitos, ela conseguiu se colocar lado a lado com os homens, mas, ela perdeu algo mais importante, que foi a possibilidade de estar com Li Shang. A questão maior está em perder a possibilidade de viver uma relação verdadeira. Até que suas ações a revelam. Isso acontece em nossa realidade quando explode a neurose, quando uma vida “feliz” e “adaptada” de repente, vira um deserto de depressão ou um caos de medo e ansiedade, a neurose é uma revelação, mesmo que não tenhamos clareza dela.

O ponto de mudança está no enfrentamento, na verdade consigo mesmo, como podemos perceber quando Mulan e Mushu reconhecem um ao outro suas verdadeiras intenções. E voltam, ao ponto onde a aventura começou: a ameaça dos hunos.  A partir desse ponto, Mushu não mais domina Mulan, mas, eles trabalham juntos. Apesar das dificuldades de ser mulher, e ninguém ouvidos a ela. Ele insiste, e quando os hunos sequestram o imperador, sua firmeza faz com que seus companheiros de armas, a sigam e adotem um plano inusitado, que era vestir-se de mulher para enganar os hunos. É interessante observar, que seu plano foi justamente o inverso que ela havia adotado. ao se encontrar com sua feminilidade, Mulan pode também mostrar que não há mal algum nisso.

E, assim, se revelando em sua realidade de mulher, e com a ajuda Mushu, Mulan pode por fim a Shan Yu – a personificação de seu animus sombrio. Após, sua aventura, ser honrada pelo imperador, reconhecida por todos, ela reconhece a si-mesma, como sendo a filha de Fa Zhou. A quem retorna, não mais intempestiva, mas, serena. Sua relação com seu pai, muda, na medida que Li Shang, vai a seu encontro, e abre a possibilidade dela fazer um bom casamento.

É importante pensar, que o casamento é símbolo da união. Neste caso, da união do inconsciente e da consciência, do processo de transformação de um animus  primitivo(Mushu) para um animus superior, adequado, que é o próprio Li Shang. – que desde o inicio da trajetória como Ping.

O filme nos ajuda a perceber que o processo de individuação é um processo, primeiramente, de sinceridade consigo mesmo. É um olhar para trás, para saber de onde vim, minhas motivações, mas, é também um voltar-se para o futuro, “o que devo fazer“ Esses enfrentamentos delimitam o quem somos, nossos limites e saber o sentido de nossos atos. Jung frisava que individuação não  significava “perfeição” mas, “totalidade”. Ou seja, ter uma vida plena, mas, para isso devemos conhecer (ou reconhecer) quem somos – mesmo naqueles aspectos sombrios que não queremos ser – refletindo também sobre qual o caminho que estamos tomando e se esse caminho não está nos levando para longe de nós mesmos.

No filme, para Mulan chegar a si mesma, ela teve de enfrentar seu complexo paterno, redimensionar sua persona (o que ela queria que os outros vissem), enfrentar a sombra (as consequências de seus atos e escolhas) para enfim desenvolver o potencial de ser quem ela sempre foi, mas, que ela nunca se permitiu ver.

Referencias,

Jung,  O Eu e o Inconsciente, Vozes: Petrópolis, 21 ed. 2008.

HULL, RFC, MAGUIRE, W. C.G.Jung: Entrevistas e Encontros, São Paulo : Cultrix, 1982

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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Entre Vivos e Mortos : Comentários sobre “A Noiva Cadáver” de Tim Burton

 

(28 de maio de 2010)

ATENÇÃO: ESTE POST CONTÉM SPOILERS!!! CASO VOCÊ NÃO TENHA VISTO O FILME, PEDIMOS QUE ASSISTA O FILME ANTES DE LER O POST, POIS REVELAREMOS DETALHES E O FINAL DO FILME!!!

“A Noiva Cadáver” de 2005 foi um dos filmes que mais me impressionaram pela riqueza e genialidade com que é tratado o tema. Os filmes de Tim Burton usam do grotesco e sombrio com uma delicadeza comovente, que não gera rejeição, mas, nos leva a contemplar essa realidade com outros olhos.  Neste filme poderíamos trabalhar vários conceitos junguianos, nossa opção é caminhar pelo filme indicando alguns pontos para reflexão, sem reduzir a obra de Tim Burton, a psicologia de Jung.

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UM BREVE RESUMO: (apenas para lembrar aos que ja viram o filme, se você não quiser saber detalhes e o final do filme, não leia esse resumo)

Victor van Dort é o filho de um casal de burgueses “emergentes” que sonham em entrar para a nobreza para tanto, acertam seu casamento com os pais de Vitoria, um casal de nobres falidos, que vêem no casamento a chance resolver todos seus problemas financeiros, e voltar a bonança dos velhos tempos 

Após algumas dificuldades no ensaio do casamento, onde Victor é um desastre, o pastor afirma que ele tem que se preparar antes de e aprender seus votos, assim, envergonhado ele vai para a floresta próxima da cidade. Lá ele ensaia seus votos, e num momento de empolgação recita-os e coloca o anel no que seria um galho seco, mas, era a mão seca de uma noiva que havia sido abandonada e morrido na floresta.

A Noiva, Emìlly, volta a vida e aceita o pedido de casamento de Victor. Ele tenta fugir, mas ela o segue e o leva para o mundo dos mortos.Victor conhece a história triste de Emilly (enganada por um vigarista, ela fugiu de casa levando as jóias da família, mas foi morta assassinada na floresta, na busca do sonho de se casar).

Victor consegue enganar Emily, e volta para o mundo dos vivos para avisar e pedir ajuda a Vitória, que é tida como louca a dizer que Victor foi obrigado a casar com um cadáver. Surge a história que ele fugiu com outra, e Vitória é forçada a casar com Lorde Barkis( um vigarista recém chegado na cidade, que se passa por nobre e rico para dar o golpe na família de Victoria ).

Nesse ínterim, Emilly descobre que não poderia se casar com Victor pois, os votos são válidos com “até que a morte os separe, e a morte já os separou”. Emilly teria que matar Victor, se quisesse se casar com ele, sem saber que Victor ouvia escondido a conversa, ela afirma que jamais poderia fazer ou pedir isso a ele. Nesse momento, ele voluntariamente  se oferece para refazer os votos e beber o “vinho dos tempos”(veneno mortal).

E convoca a todos do mundo dos mortos para irem a superfície  e para realizar o casamento.

Voltando ao mundo dos vivos, todos se assustam com a presença dos mortos, Vitoria descobre os planos de lorde Barthes, e segue para a Igreja para onde os mortos se dirigiam.

Durante a cerimônia, Emilly vê Vitoria(ainda vestida de noiva), e impede Victor de beber do vinho dos tempos e concluir seus votos, pois “ela era noiva e teve seus sonhos roubados, ela não poderia fazer o mesmo com outra pessoa”.

Lord Barkis aparece e lembra que ele ja havia casado com Victória, surge a verdade sobre o Lord Barkis, por fim, Barkis morre, e o casamento de Victor e Vitória pode acontecer e Emilly pode então se libertar.

SÍMBOLOS DE TRANSFORMAÇÃO: O Processo de individuação de Victor

A “Noiva Cadáver”  nos apresenta uma história com ricos e pequenos detalhes que nos permitem contemplar o processo de transformação (e,  porque não individuação) de Victor, que é um jovem talentoso, porém, inseguro e dominado pelos pais, quem lhe impõem um casamento de interesse. A sua incapacidade de assumir vida fez com que fosse ridicularizado e levado ao confronto com o mundo inferior – o que poderíamos dizer com o próprio inconsciente.

A temática da libertação e transformação de Victor já é coloca na cena inicial do filme, onde ele desenha uma borboleta e, em seguida liberta a borboleta que era modelo, que voa traçando o caminho até seus pais.

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Apesar de se apaixonar por Vitória no primeiro momento, Victor se vê incapaz de se relacionar com ela, como percebermos na cena do ensaio do casamento. É interessante notarmos, que a insegurança de Victor se manifesta no ensaio, mas,  já era um modo como Victor vivia sua vida, que podemos ver na sua relação de submissão aos pais. O desastre no ensaio foi apenas uma expressão, um sintoma, de como levava sua vida. na floresta, em sua fantasia ele acaba por despertar Emilly, a noiva cadaver e sombria, que poderíamos reconhecer nela a Anima.

Emilly assume uma função de psicopompo ou guia da alma. Emilly conduz (mesmo que forçadamente) Victor em sua katábasis , sua descida ao reino inferior, comum em toda saga heróica. O confronto com o mundo inferior, assim, como o casulo da borboleta, marca a transformação do herói.  A chegar no mundo inferior, a realidade se transforma.

Devemos notar que Tim Burton faz uma jogo de cores fantástico, pois, o mundo dos vivos é neurótico e sem cor, todos estão apenas buscando benefícios próprios. As músicas são tristes e melancólicas. Já no mundo dos mortos, as músicas são alegres e as cores são vivas. Os mortos estão sempre prontos a recepcionar.

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A discrepância entre o mundo dos mortos e dos vivos, nos chama atenção ao empobrecimento da realidade comum a neurose, e como que no inconsciente, reside a possibilidade de mudança e criatividade. A relação com a Anima – não só como figuração do Feminino, mas, do próprio inconsciente ocorre de modo interessante, através da música. sem palavras.

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Victor e Emily tocam a mesma música. Estabelecendo um símbolo unificador, delimitando as pazes entre ambos, assim como poderíamos pensar na relação da consciência com o inconsciente. O estabelecimento desse relação é fundamental para o processo de transformação de Victor, pois, logo depois ele descobre que somente se estivesse morto teria de manter o compromisso com Emily, que se afirma incapaz de mata-lo ou pedir para que ele se mate por ela. Victor pela primeira vez no filme, deixa de ser passivo ou covarde, pois assume a Emily, mesmo amando Vitória, mas faria o Sacrifício por ela. E, assumindo isto, ele possibilita o retorno ao mundo dos vivos, que se transforma com a presença dos mortos, Pela primeira vez, o resgate do que estava “no mundo inferior” dá cores a realidade.

No casamento, Lord Barkis aparece e é revelado que ele era o assassino de Emily, e ele ameaça Vitória, Victor luta com Barkis para defender Vitoria e Emily.Essa luta também marcou o acerto de contas com o passado de Emily, um acerto de contas. Ao enfrentar Barkis, um homem cruel e arrogante ,  Victor deixa de ser rapaz assustado e se torna um homem.

Em consequência das mudança de atitude de Victor, Emily abre mão de seu compromisso, e pode se libertar,abrindo mão de todo sonho de casar e pode enfim, se transformar. Emily se transformar em dezenas de borboletas(que em grego é psykhé) que se elevam rumo ao céu.

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É interessante percebermos que a narrativa do filme fala do enfrentamento no hoje, no presente, de acontecimentos passados. Emily pode ser vista como uma excelente metáfora do processo da neurose, onde uma ação ou escolha feita no passado e, que não enfrentamos nossas  responsabilidades e consequências e as  jogamos embaixo do tapete, enterramos. Se perceber que mais cedo ou mais tarde teremos que dar conta de nossas ações e temos que enfrentar nosso destino. No filme, a insegurança de Victor sede espaço a maturidade quando ele percebe que apesar de amar Vitória (que era o seu ideal) ele deveria fazer o que era necessário, isto é, assumir Emily e pagar o preço por isso.  É interessante, que Victor deixa de olhar para o mundinho dele e percebe que a vida é muito mais que ele mesmo, e percebendo isso ele pode se abrir para vida, aceitando a própria morte. A morte simbólica é o processo de trans – formação, isto é, passar de uma forma para outra (assim, como é necessário que a lagarta morra, para dar vida a borboleta). 

O transformação de Victor, permite a integração de Emily, a rejeitada (a que era “sempre dama, mas, nunca a noiva”), num plano muito maior, muito maior que o mundo dos mortos.  A cena final, onde Victor e Vitória olham o vôo das borboletas para lua, nos fala de um restabelecimento do eixo ego-self, favorecendo ao processo de tornar-se quem se realmente é.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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