Ocupação das Escolas no Brasil : Heroísmo e Individuação

Nos últimos dias temos visto crescer o número de escolas e universidades ocupadas por estudantes em nosso país. Essas ocupações são uma expressão de vida e resistência contra o total descaso do governo com a educação, com a saúde e com o futuro de nosso país. A reforma do ensino médio, a proposta de “escola sem partido” e a PEC 241 que impõe o teto aos gastos públicos, explicitam não só que a crise econômica que vivemos mas, uma grave crise moral que ainda precisamos a enfrentar: da naturalização das desigualdades, da corrupção e da culpabilização dos oprimidos.

Diante desta realidade, temos a ocupação das escolas e, tivemos o indescritível discurso da adolescente Ana Julia Pires Ribeiro (PR) na Assembleia Legislativa do Paraná(ALEP) (vide vídeo abaixo). Devemos ter clareza que, quando na psicologia junguiana falamos de individuação, de arquétipos e mitos (em especial do herói), falamos da realidade em que vivemos no aqui e no agora! E por isso mesmo não podemos deixar de reconhecer e viver um momento arquetípico que vivemos. Nada expressa tão bem o impulso heroico que a busca pela transformação, enfretamento de injustiças sociais, a defesa da cidadania e a luta pelo bem comum.

Jung afirmava que “O processo de individuação tem dois aspectos fundamentais: por um lado, é um processo interior e subjetivo de integração, por outro, é um processo objetivo de relação com o outro, tão indispensável quanto o primeiro” (Jung, 1999, p. 101). Precisamos ter clareza que a nossa individuação está sempre em relação com a individuação do outro, com o processo individuação de nossa época.  Individuação implica em contato, experiência e abertura.

Dessa forma, não basta tentar “compreender intelectualmente” o fenômeno das ocupações nas escolas; é necessário nos permitir viver, participar, ser afetado e tomar parte. O impulso de individuação, o impulso heroico sempre se confronta com as forças do “status quo”, com a resistência à transformação que muitas vezes se manifesta pela desqualificação dos agentes de mudança ou com a imposição do medo. Isso ocorre tanto no indivíduo (na neurose pessoal) quanto na esfera coletiva – por meio, do jogo de desinformação, as acusações e tudo que promova a imobilidade e a estagnação.

O dinamismo arquetípico do herói se faz no enfrentamento, no movimento, na esperança, na aposta da mudança. Essa é energia necessária ao processo de individuação, e individuação exige responsabilidade – consigo mesmo e com o outro, com o particular e com o coletivo. Assumir essa responsabilidade diante da vida é compreender a individuação.

O discurso da estudante Ana Julia Pires Ribeiro teve repercussão internacional mobilizando inúmeras pessoas tanto a favor quanto contra. O mais importante é que nos chama a responsabilidade pela educação, pela juventude e pelo futuro. A juventude sempre foi a anunciadora da mudança, da possibilidade e transformação. Em nossa realidade, creio que devemos nos mobilizar, nos afetar diante da força e entusiasmo dos jovens de nosso país. Para assim, apoia-los, contribuindo com suas necessidades no processo de ocupação e, assim podermos vivenciar juntos o processo de transformação social que precisamos.

“Toda referência ao arquétipo, seja experimentada ou apenas dita, é “perturbadora”, isto é, ela atua, pois ela solta em nós uma voz muito mais poderosa do que a nossa. Quem fala através de imagens primordiais, fala como se tivesse mil vozes; comove e subjuga, elevando simultaneamente aquilo que qualifica de único e efêmero na espera do contínuo devir, eleva o destino pessoal ao destino da humanidade. E com isso solta em nós aquelas forças benéficas que desde sempre possibilitaram a humanidade salvar-se de todos os perigos e também sobreviver à mais longa noite.” (JUNG, 1999b, p. 70).

 

Referências bibliográficas

JUNG, C.G. Ab-reação Analise de Sonhos, Transferência, Petropolis:Vozes, 1999.

JUNG, C.G. O espirito na arte e na ciência, Petropolis: Vozes, 1999b

 

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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Algumas Considerações sobre o Eixo Ego-Self

Em novembro de 2014 tivemos no “Grupo Aion – Estudos Junguianos”, uma discussão sobre o conceito de “eixo Ego-Self” que foi muito positiva e produtiva, desta discussão surgiu a necessidade dar forma e condensar alguns aspectos importantes, assim como ampliar a compreensão deste conceito. Dessa forma, este texto foi pensado com duas propostas iniciais: 1- Compreender o conceito de eixo ego-self a partir dos teóricos que desenvolveram este conceito Erich Neumann e Edward Edinger.2 – Compreender o eixo ego-self a partir de Jung, estabelecendo uma leitura, por assim dizer, clássica deste conceito.

O Eixo Ego-Self em Neumann: Uma teoria do desenvolvimento

Erich Neumann(1905-1960) foi um brilhante discípulo de Jung que se destacou ao propor uma teoria do desenvolvimento do Ego e da Consciência no contexto junguiano. Sua teoria foi alvo de muitas críticas pois, suas considerações teóricas foram baseadas em reflexões de análise de adultos e, também, em padrões arquetípicos/miticos que segundo ele, apontariam para um possível padrão desenvolvimento da consciência e do Ego. O principal trabalho onde desenvolveu suas concepções acerca do desenvolvimento do ego foi o livro “A Criança” que, na verdade, é uma obra inacabada pois Neumann morreu antes de concluí-lo em 1960. Na verdade, foi ele quem cunhou o termo “eixo ego-self” no contexto de sua teoria do desenvolvimento. Deste modo, convém que façamos uma breve exposição acerca da teoria do desenvolvimento de Neumann.

O primeiro estágio de desenvolvimento do Ego foi chamado, por Neumann, de fase urobórica. Esse termo urobórico, se refere ao símbolo da uroboros, isto é, a imagem da serpente ou dragão que, num movimento circular, morde a própria cauda, estabelecendo uma unidade sem início nem fim, isto é, sem opostos. Assim, a urobóros é percebida como um “grande círculo”, uma unidade original, sem inicio ou fim. A partir dessa imagem, Neumann indicou um estágio anterior ao Ego, onde este encontra-se imerso no inconsciente, numa experiência sem início nem fim. Isso é próprio da fase uterina do desenvolvimento e nos primeiros meses após o nascimento

Como nesta etapa Ego ainda não está formado, nem a consciência desenvolvida, assim, não há uma delimitação de opostos, isto é, não há uma interpretação acerca de dentro ou fora, nem de um “eu” ou Outro. Todas as experiências vividas pela criança (seja na fase embrionária ou após o nascimento) são experiências vividas a partir da Unidade Mãe-Filho. Segundo Neumann, nessa fase ainda não podemos falar, em termos psicológicos de um “individuo-Criança”, pois o Self ou a totalidade do mundo da criança é a Mãe. A experiência da criança se dá através da unidade estabelecida com a mãe, vivenciada no próprio corpo da criança, onde

“os mundos parciais do interior e do exterior, do mundo objetivo e da psique não existem. Nessa fase embrionária pós-natal, a criança ainda está contida em sua mãe, apesar de seu corpo já haver nascido. Nessa fase, o que existe é uma unidade primária composta da mãe e filho.“ (NEUMANN, 1993, p. 12)

Nessa fase, vide Figura 1, o Ego ainda está contido no Self, este deve ser compreendido como o conjunto de relações e cuidados maternos (nutrição, atenção, higiene, adaptação do ambiente, etc.), por outro lado, a configuração biopsiquica mais básica da criança, denominada por Neumann de Self corporal. O Self da Mãe é fundamental neste momento, pois, seria o veículo para constelação do Self da criança.

Esta Relação Mãe-Criança, denominada por Neumann, de relação Primal, que

funciona para a criança como possibilidade de relacionamento com seu próprio corpo, com seu Self, com o “tu” e com o mundo, tudo ao mesmo tempo. A relação primal é a base ontogenética da experiência de estar-no-próprio-corpo, de estar-com-um Self, de estar-unido, de estar-no-mundo. (NEUMANN, 1993, p. 25)

A relação primal sadia, marcada pela confiança e amor da mãe, vai possibilitar o desenvolvimento de um ego integral positivo assim como o estabelecimento de um eixo ego-self estável. Para Neumann, o “ego integral positivo” seria “um ego capaz de assimilar e integrar as qualidades, até mesmo quando negativas ou desagradáveis, dos mundos interno e externo, tais como privações, dor, etc.” (NEUMANN, 1993, p. 51). O desenvolvimento saudável seria consequência deste ego integral positivo.

Na fase urobórica, a experiência do Self é encarnada pela dinâmica do arquétipo da grande Mãe, onde a experiência da segurança e nutrição são proporcionados pela unidade formada na relação primal mãe-bebê, envolvendo toda a experiência da criança.

O desenvolvimento natural da criança significa um aumento da consciência, inicialmente, esse desenvolvimento se manifesta através das distinções entre sensações do corpo, favorecem a aproximação do indivíduo com a experiências externas à urobóros matriarcal, que daria início a separação do Ego do inconsciente presentado pela fig2.

As experiências como conforto e desconforto, saciedade e fome, calor e frio etc; começam a serem compreendidas de uma forma relativamente consciente gerando uma polarização na esfera psíquica. A experiência da totalidade da Grande Mãe começa a rompida e vivenciada em seus aspectos positivos e negativos. Essa distinção ou ruptura da unidade “mãe-criança” é marcada pela dinâmica patriarcal, que se caracteriza justamente pelas divisões, pelo estabelecimento de limites. Para exemplificar de forma mais simples, o “sim e não” o “pode e não pode” são expressões dessa dinâmica patriarcal presentes desde a mais tenra infância.

A fase patriarcal desenvolveria dos dois anos até a adolescência possibilitando a separação entre a consciência e o inconsciente, assim como o estabelecimento e fortalecimento do ego e do o eixo ego-self (Fig. 3).O desenvolvimento não terminaria na fase patriarcal, o desenvolvimento passaria a uma relação com o outro, pelo amadurecimento e constelação da anima e animus e, posteriormente, individuação.

Para Neumann, o objetivo da primeira etapa da vida é o desenvolvimento do eixo ego-self

Uma personalidade assim sadia é sinônimo de um eixo ego-Self normal e fornece uma garantia de que a relação compensatória entre consciente e inconsciente, que em certos distúrbios graves fica seriamente prejudicada, continuará funcionando em certa medida.(NEUMANN, 1993, p 54)

Neumann não desenvolve muito a conceituação acerca do eixo ego-self, na verdade, o eixo ego-self é um conceito necessário na formulação de Neumann para expressar a importância da relação primal na vida do sujeito.

O eixo Ego-Self em Edinger: A experiência clínica

Edward Edinger(1922-1998) foi um dos mais importantes analistas junguianos norte-americano, membro fundador do Instituto Jung de Nova York. Em sua obra “Ego e Arquétipo” oferece uma importante via de compreensão para eixo ego-self. A diferente de Neumann que visava uma teoria do desenvolvimento, a concepção de Edinger é mais voltada para a prática clínica, mas, sem ignorar o desenvolvimento.

A compreensão de Edinger se destaca por apresentar de forma clara o dinamismo do da relação ego e self., assim como por conciliar a dinâmica descrita por Fordham sobre Self, segundo o modelo de deintegração/reintegração. Segundo Edinger haveria três situações ou estágios possíveis no desenvolvimento da consciência: Inflação, alienação e individuação.

A Inflação

O termo inflação é utilizado no contexto junguiano sempre que o ego encontra-se num estado de identificação com algum elemento da psique coletiva, de modo, que o Ego passa a extrapolar seus limites. Nas palavras de Edinger

“Uso o termo ‘inflação’ para descrever a atitude e o estado que acompanham a identificação do ego com o Si-mesmo. trata-se de um estágio no qual algo pequeno (o ego) atribui a si qualidades de algo mais amplo (o Si-mesmo) e, portanto, está além das próprias medidas. (EDINGER, 1989, p27)

Em sua perspectiva, o desenvolvimento humano começa com um estado de inflação do Ego, isto é, da identificação do Ego com o Self. Esta identificação original é semelhante ao que Neumann descreveu como estagio urobórico. Assim, esta identidade entre Ego-Self se caracteriza pelo fato do ego não ter-se emancipado do Self. O desenvolvimento naturalmente produz a ruptura dessa identificação especialmente pelo processo de educação e socialização.

Na vida adulta é possível encontrarmos esse mesmo fenômeno quando uma instância arquetípica envolve o ego tirando-lhe de sua realidade. Para Edinger “podemos identificar um estado inflação sempre que vemos alguém (inclusive nós mesmos) vivendo um atributo da divindade, isto é, sempre que alguém esteja transcendendo os limites próprios do ser humano.”(EDINGER, 1989,p.36) Todo excesso seria indicativo de inflação, seja de poder, amor, altruísmo, humildade, arrogância Assim,

A motivação para o poder de todos os tipos é sintoma de inflação. Toda vez que agimos motivados pelo desejo de poder, a onipotência está implícita. Mas a onipotência é um atributo que só Deus tem. A rigidez intelectual que tenta igualar suas próprias verdades ou opiniões com a verdade universal também é inflação. É a suposição da onisciência. A luxuria e todas as operações do puro princípio de prazer constituem igualmente inflação. Todo desejo que dê à própria satisfação um valor central transcendente os limites da realidade do ego e, em consequência, assume os atributos dos poderes transpessoais.(EDINGER, 1989, p.37)

A inflação é um fenômeno natural mas, não significa necessariamente patológico, pois, em algumas situações é necessário o irrompimento do potencial arquetípico – geralmente por meio de um símbolo – para potencializar o ego. Como dito acima, todo excesso indica uma inflação. Edinger chama atenção que a inflação também pode se manifestar de forma negativa, isto é, ao invés o individuo se identificar com os atributos da divindade, se identificar com a vítima da divindade – com um sentimento excessivo de culpa e sofrimento. “Vemos isso nos casos de melancolia que exprimem o sentimento de que ‘que ninguém no mundo é tão culpado quanto eu’”(ibid, p. 37)

Como exemplo da inflação na mitologia Edinger cita como exemplos Adão, Prometeu, Faetonte, Ícaro, Ixion. A expressão mítica da inflação é a Hybris na tradição grega ou a idéia do pecado na tradição judaico cristão.

A inflação do ego aponta para uma relação inadequada com inconsciente, tomado por um conteúdo do inconsciente, o ego é levado pelo impulso inconsciente.

A Alienação do Ego

A Alienação do ego corresponde a um segundo momento no processo de desenvolvimento da personalidade. Se a inflação corresponderia ao estágio original, onde o ego estaria identificado com o Self, a alienação ocorre a perda de contato entre o ego e o self. Assim, processo de alienação é mais preocupante significaria uma ruptura, mesmo que temporária, do da relação entre o ego e o self, é preocupante poi,s o “ eixo ego-si-mesmo representa a conexão vital entre o ego e o Si-mesmo, a qual deve estar relativamente intacta se se pretende que o ego suporte as tensões e cresça.”(ibid, p.67).

Apesar de preocupante, o processo de desenvolvimento naturalmente contribui com a alienação do ego. As relações com o meio, a experiência de limite, a experiência com os pais que naturalmente recebem a projeção do Self, desencadearia um processo de alienação, pois, a criança estabeleceria um crescente contato com a realidade no qual a criança começaria a se perceberia em seu próprio limite, em sua própria realidade. É importante frisar que essas experiências não são patológicas em si, o treinamento da criança e a disciplina possibilitam o desenvolvimento e uma relação adequada com o meio. Nesse contexto de desenvolvimento, o perigo não estaria na projeção do Self nos mais, mas, numa possível projeção da sombra dos pais na criança que poderia danificar a relação do ego com o self, pois, com esta projeção as expectativas lançadas sobre a criança ultrapassam a exigência humana. O ego da criança experimentaria um sentimento de rejeição, incapacidade e continua inferiorização como se vindo do próprio Self, este seria um caso mais grave na infância.

Edinger sugere que inevitavelmente ocorrerão momentos de alienação do ego, contudo, o ideal seria que essa alienação não danificasse ou rompesse o eixo ego-self, pois, quando a conexão se rompe o “resultado é o vazio, desespero, falta de sentido e, em casos mais extremos, a psicose ou o suicídio” (p.72). A falta de relação com o Self promove no ego uma postura defensiva em relação a vida, pois, o individuo vive a sensação do desamparo. Isso ocorre porque

O Si-mesmo, na qualidade de centro e totalidade da psique, capaz de conciliar todos os opostos, pode ser considerado o órgão de aceitação par excellence. Como inclui a totalidade, ele deve ser capaz de aceitar todos os elementos da vida psíquica, por mais antitéticos que possam ser. O sentimento de ser aceito pelo Si-mesmo dá ao ego força e estabilidade. Esse sentimento de aceitação é o veiculado para o ego através do eixo ego-Si-mesmo. Um sintoma de danificação desse eixo é a falta de auto-aceitação. O individuo sente que não merece viver ou ser o que é. A psicoterapia oferece à pessoa que passa por isso uma oportunidade de enfrentar a aceitação. Em casos bem-sucedidos, essa experiência pode equivaler a um reparo do eixo ego-Si-mesmo que restabelece o contato com as fontes internas de força e de aceitação – o que deixa o paciente livre para viver e crescer. (ibid, p. 69.)

A incapacidade do individuo em se aceitar, em estabelecer uma relação saudável consigo mesmo é compensada através de uma persona rígida, profissional, para compensar o vazio e a não aceitação interior. Tão natural quando o processo de alienação é o processo de reparação do eixo. Em situações não extremada, a própria dinâmica psíquica seria capaz de reparar a relação do eixo ego-self – seja através de relações pessoais (amigos, família) ou de experiências arquetípicas de reparação (como as experiências religiosas). Outros casos mais extremados, que são os que geralmente chegam a clínica psicológica, Edinger aponta que a postura do acolhimento por parte do terapeuta/analista é o passo fundamental para a reparação do eixo ego-self. A aceitação/acolhimento abre a possibilidade do individuo para o estabelecimento da transferência que em si mesma já se manifesta como uma tentativa de reparação, isto é, uma projeção do self que numa condição saudável pode restaurar a relação do ego com o self.

Esse estado de alienação é representado na literatura e mitologia através da solidão, desamparo, de imagens como o deserto. São João da Cruz a descreve como a noite escura da alma. De forma geral, o processo de alienação deve ser seguido pela reparação.

Individuação

O processo de inflação e alienação se sucedem ao longo da vida. Quando não ocorre um transtorno patológico, a inflação “leva a uma queda e, portanto, à alienação. A condição alienada, da mesma maneira, leva, em condições normais, a um estado de cura e restauração.” (ibid.p. 98). Tanto a inflação quanto a alienação, que sob um certo aspecto se complementam, podem representar um risco ao desenvolvimento da personalidade. Esse risco tende a ser contrabalançado na cultura, mas, propriamente na experiência das religiões. O respeito ao sagrado, hábitos como dizer “se Deus quiser”, os tabus, dentre outras; são formas de proteger o ego do risco da inflação. A projeção do Self nas figuras divinas nas religiões são uma forma possibilitam o processo de restauração do eixo ego-self. Contudo,

Em determinado ponto do desenvolvimento psicológico, normalmente após uma extensa experiência de alienação, o eixo ego-Si-mesmo, de repente, passa à consciência. (…) O ego torna-se consciente, em termos de experiência, da existência de um centro transpessoal a que está subordinado. (ibid p. 106-8)

A irrupção do eixo ego-self na consciência pode ser descrita, nas palavras de Otto, como um mysterium tremendum et fascinans, isto é, um mistério terrível pois, impõe ao ego a dimensão de sua limitação. Por outro lado, é um mistério fascinante pois atrai o ego. A consciência do ego acerca deste “eixo ego-self”, isto é, da percepção de uma realidade distinta em si mesmo, supraordenada, implica na possiblidade de diálogo entre a consciência e o inconsciente sem que o ego esteja identificado com Self.

Ocorre a cura de uma divisão dupla quando a individuação é alcançada: primeiro, a divisão entre consciente e inconsciente, que se iniciou por ocasião do nascimento da consciência; em segundo lugar, a divisão entre sujeito e objeto. A dicotomia entre realidade externa e a interna é substituída por um sentimento de realidade unitária. (…) As imagens e atributos do Si-mesmo são experimentados agora como coisas distintas do ego e situados acima dele. Essa experiência traz consigo a percepção de que não se é dono da própria casa. A pessoa toma consciência de que há uma orientação interna autônoma, distinta do ego e, com frequência, antagônica a ele. (ibid. p. 143-4)

A individuação não é uma meta, com um alvo a ser alcançado, mas, um processo continuo, ou melhor, uma relação continua. O ego tem a experiência de algo superior a si. Que pode ser descrita como uma voz interior ou por outro lado, nas religiões é descrita como um encontro com a divindade, com o mestre, ou com um processo de iluminação.

Eixo Ego-Self em Jung

Como dito no inicio, este texto surgiu de uma discussão realizada no grupo Aion, um dos pontos mais importantes daquela discussão foi a dificuldades que algumas pessoas tinham em perceber o arcabouço teórico descrito por Jung na configuração do eixo ego-self. Acredito que seja necessário considerarmos o lugar que o conceito de eixo ego-self ocupa na teoria junguiana. Compreendo que este conceito não indica uma estrutura ou um nível de organização da psique, mas de uma representação sintetizada e didática da dinâmica psíquica que fora descrita por Jung. Assim, para compreender de fato o que “eixo ego-self” apresenta devemos ter uma visão clara da teoria junguiana, caso contrário corremos o risco de ter uma concepção limitada deste conceito, especialmente quando nos aprofundamos na concepção de Edinger, que transcende a perspectiva de desenvolvimento visada por Neumann.

Aproximar o conceito de eixo ego-self de Jung é tornar visível os aspectos teóricos que se ocultam nas entrelinhas. A linha mestra que norteia o todo o desenvolvimento desse conceito está na afirmação de Jung que o “eu está para o ´si-mesmo´ assim como o ‘patiens’ está para o ‘agens’[1], ou com o objeto está para o sujeito, por que as disposições que emanam do si-mesmo são bastante amplas e, por isso mesmo, superiores ao eu” (JUNG, 1991, p. 58). O pressuposto de que o Self é o ponto de partida e a meta a ser realizada no desenvolvimento psíquico toda a visão de Jung.

O desenvolvimento do ego, sua organização e emancipação do inconsciente(self) não foi alvo claro das pesquisas de Jung, mas, foi descrito por Neumann a partir das forças de centroversão e da relação primal ou mesmo descrito pelo Fordham pelo processo de deintegração/reintegração, sendo o “o Ego é o `de-integrado´ mais importante do Si-mesmo”.(SOLOMON, 2002, p. 140). Independente do ponto de vista se Fordham ou Neumann, temos um impulso natural direcionado ao meio externo, o qual Jung descrevia como uma unilateralidade fundamental e inerente ao ego sobre esta afirmou

A unilateralidade é, ao mesmo tempo, uma vantagem e um inconveniente, mesmo quando parece não haver um inconveniente exteriormente reconhecível, existe, contudo, sempre uma contraposição igualmente pronunciada no inconsciente a não ser que se trate absolutamente de um caso ideal em que todas as componentes psíquicas tendem, sem exceção, para uma só e mesma direção. (JUNG, 2000, p. 3)

A unilateralidade descrita por Jung está associada do movimento natural do Ego em direção a consciência e ao mundo exterior. Ao longo da infância, o impulso para o estabelecimento da consciência e a aderência a realidade exterior será possível através da unilateralidade da consciência, assim como com o desenvolvimento da persona – sob certo aspecto, quando mais adequada for o a persona, melhor será a organização e força do ego assim como sua relação com o meio exterior.

Edinger utilizou o termo “inflação” para determinar a identidade entre o ego e o Self, conforme o uso feito por Jung. Por outro lado, a alienação nos fala da unilateralidade da consciência. Em ambos os casos temos uma inconsciência pronunciada tanto em relação ao mundo interior quanto exterior. É necessário levar em consideração os complexos tanto no contexto da alienação quanto inflação.

Devemos pensar um pouco acerca das dimensões apresentadas sobre o Self. Em uma de suas descrições Jung afirma que o Self “[…]não é apenas o ponto central, mas também a circunferência que engloba tanto a consciência como o inconsciente. Ele é o centro dessa totalidade, do mesmo modo que o eu é centro da consciência” (JUNG, 1994,p. 51). Assim, todos os conteúdos psíquicos são, em última análise, manifestações do Self. Contudo, o aspecto do Self expresso no eixo ego-self se refere principalmente ao inconsciente e seus conteúdos. Nesse aspecto podemos falar do Self manifesto através da Sombra, que também é uma imagem representacional do inconsciente.

Outro aspecto que devemos considerar é o “eixo” em si ou nas representações gráficas a linha que une o ego ao self. O eixo é a anima ou animus. Devemos considerar que a anima/animus é, por excelência, “um ´psychopompos´, isto é, um intermediário entre a consciência e o inconsciente, e uma personificação do inconsciente” (JUNG, 1986, p14). Integrar a Anima/Animus é um desafio fundamental que nos conduz a integração dos opostos, possibilitando a individuação. A percepção do Self como um Outro só é possível na medida em que o ego não só conseguir se perceber distinto dos conteúdos do inconsciente, mas, perceber o inconsciente com um Outro. A Anima/animus possibilita essa experiência, viabilizando o dialogo interior.

O processo de inflação e alienação ao longo da vida expressam os dois aspectos fundamentais da individuação. Segundo Jung, a “meta da individuação não é outra senão a de despojar o si-mesmo dos invólucros falsos da persona, assim como do poder sugestivo das imagens primordiais”(JUNG,1999, p.61). É fundamental que o ego tenha uma adaptação adequada ao mundo exterior, sem se deixar alienar pelas exigências da psique coletiva, do mesmo modo é importante conhecer e se perceber na relação com as imagens primordiais, sem se inflar pela identificação com as mesmas, pois, quanto maior a inconsciência do ego maior é o poder dos conteúdos do inconsciente.

Acredito que esses apontamentos sejam importantes para pensarmos a dinâmica que envolve o eixo ego-self ampliando a percepção sobre o mesmo. Dado o enraizamento desse conceito na dinâmica descrita por Jung, é comum que analistas clássicos não utilizem dessa conceituação, justamente por considera-la desnecessária. Penso que o conceito de eixo ego-self é útil didaticamente, mas, não substitui o aprofundamento da teoria junguiana.

Referências Bibliográficas

EDINGER, Edward F. Ego e Arquétipo, SP, Cultrix, 1989

JUNG, C.G. O símbolo da Transformação na missa, Petrópolis: Vozes, 1991.

JUNG, Carl Gustav. Psicologia e Alquimia. Petrópolis: Vozes, 3. ed. 1994.

JUNG, C.G. Aion – Estudos sobre o simbolismo do Si-mesmo, Petrópolis: Vozes, 1986.

JUNG, Carl Gustav. O eu e o inconsciente. Petrópolis: Vozes, 1999

NEUMANN, Erich. A Criança, SP, Cultrix, 1991

SOLOMON, Herter McFarland,, A Escola Desenvolvimentista, inYOUNGEisendrath, Polly, DAWSON, Terence, Manual Cambrigde Para Estudos Junguianos, Porto Alegre: Artmed Editora, 2002


[1]Em citações de outros autores temos a seguinte tradução o “ego está para o Self como o que é movido está para o que move”.

 

 

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

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“Individuação Dói”–Reflexões sobre o processo de individuação e “novo nascimento”

(5 de maio de 2012)

Há pouco tempo, encontrei minha querida amiga Carolina A. Silva, numa rápida conversa, ela fez um comentário que me mobilizou bastante, ela afirmou que “Individuação doí”. Saí daquele encontro com essas palavras …”individuação dói”.

De fato, a individuação é um processo que pode ser marcado por fortes angústias e, por isso mesmo, é associado a “crise da meia idade”.  Mas, para entendermos um pouco melhor essa “crise de individuação” ou a “dor de individuação” eu gostaria de usar uma experiência pessoal como metáfora.

Quando era pré-adolescente com meus 11 ou 12 anos, eu tive uma leve fratura no tornozelo e precisei engessar, bem, eu não era uma criança não muito “ortodoxa”, assim, fiquei duas semanas com o gesso, chegando a véspera do dia que eu deveria retirar o gesso, eu optei em ir para a garagem da minha casa, enfiei o pé balde d’água e cortei o gesso. O problema foi quando eu coloquei o pé no chão, não conseguia firmar o pé, sentia um pouco de dor, e como se estivesse sem força, como se não conseguisse controlar meu pé. Durante um tempo pensei que era tinha errado, que deveria esperado mais um dia, fiquei com medo do que meu pai diria, foi um turbilhão de pensamentos, sentimentos e e sensação de dor.

Mas, com o passar das horas, com o exercício de tentar pisar. Enfim, “tomei posse” do meu pé. Essa experiência foi muito angustiante.

Acredito que essa experiência pode nos ajudar bastante a compreender nosso tema. Pois, quando falamos em processo de individuação falamos num redimensionamento da persona, no confronto e assimilação da sombra, integração da anima/us e constelação do self. Todo esse processo tomar consciência da persona e confronto com a sombra nos conduz ao conhecimento do que sou, do faço, do que vivo. Por analogia, a crise de individuação se inicia a tomada de consciência do gesso ou da vida engessada. Se por um lado o gesso protege,  por outro ele limita, tira os movimentos.

A dor da individuação começa quando nos damos conta da irrealidade em que vivemos. Quando nos damos conta que precisamos respirar, nos mover, ser. Tão difícil quanto reconhecer o gesso é retira-lo, pois, exige muito esforço. É preciso corta-lo, não dá apenas para flexibiliza-lo.

Quando retiramos o gesso, nos deparamos com uma outra realidade. O membro não “obedece”, não tem força, como se não fosse “nosso”. Ao mesmo tempo, temos a experiência de amplitude e liberdade vem o receio, estranheza… Abrindo as portas para a possibilidade das possibilidades. Acredito que essa seja uma metáfora possível para o encontro com a anima.

Quando pensamos em individuação, estamos falando de um processo de tornar-se indivisível, isto é, um processo de integração total do individuo. Essa integração implica em reconhecer que estou invariavelmente e intrinsecamente relacionado com o mundo (que muitas vezes, nós vemos, mas, não enxergamos) e por outro lado, estou profundamente enraizado em “mim mesmo”. Assim como uma árvore é nutrida pela Terra, o “eu” é nutrido pela “Self”. Note que eu não usei solo, mas, sim Terra. Pois, eu me refiro ao planeta, pois, uma árvore precisa mais do que apenas solo para crescer, precisa da chuva, precisa do ar, dos ciclos das estações do planeta em torno do sol. Da mesma forma, o Self está para muito além da compreensão individual, pois, o Self representa o potencial universal de nos tornarmos o nosso melhor, de nos tornarmos únicos.

Quando nascemos temos todo o potencial para nos tornarmos humanos. Isto é, viver como humanos, falar como humanos, nos relacionar como humanos, amar como humanos etc… no geral, a cultura nos torna humanos, molda nossa linguagem, molda a forma de nos relacionar, molda nossa moral e a forma de ser no mundo. Tudo isto é dado pela cultura. No “processo de individuação” não somos mais lançados na humanidade, mas, sim, podemos assumir a nossa humanidade e o potencial de ser “além do homem”, saindo do genérico para o único.

A individuação dói por ser um novo nascimento. Dói porque é um “libertar-se” de um gesso existencial. Dói o processo de integração e de tornar-se si-mesmo, isso implica em fazer escolhas e assumir a responsabilidade pela vida. A temática do “novo nascimento” ou “renascimento” indica exatamente o processo de individuação. Vejamos, um pouco desta esta dinâmica arquetípica

Dimensão arquetípica do renascimento.

Para pensarmos o renascimento ou novo nascimento, vamos usar para referência duas tradições que nos são próximas a cristã e a afrobrasileira, do candomblé.

Assim, na tradição cristã, um dialogo que excepcionalmente interessante em nosso contexto,

Em resposta, Jesus declarou: “Digo-lhe a verdade: Ninguém pode ver o Reino de Deus, se não nascer de novo”.
Perguntou Nicodemos: “Como alguém pode nascer, sendo velho? É claro que não pode entrar pela segunda vez no ventre de sua mãe e renascer! ”
Respondeu Jesus: “Digo-lhe a verdade: Ninguém pode entrar no Reino de Deus, se não nascer da água e do Espírito.
O que nasce da carne é carne, mas o que nasce do Espírito é espírito.
Não se surpreenda pelo fato de eu ter dito: É necessário que vocês nasçam de novo.
João 3:3-7 (NVI)

Na tradição cristã, esse dialogo se constitui fundamental para se compreender aconversão(metanóia) que tem como principal marco o batismo, o novo nascimento, que vai abrir as portas para o “reino de Deus”. Apesar de todas as denominações cristãs reconhecerem a importância do batismo, cada um atribui um significado para o rito, que segundo algumas tradições simboliza a morte do velho homem e o nascimento do novo homem em Cristo.

Assim, novo nascimento ou nascimento espiritual indica simbolicamente a integração do individuo a uma realidade superior, uma integração com Deus, o homem deixa de ser criatura para ser filho. Uma vez que este passa a ser filho de Deus, podendo assim, também, participar da comunidade cristã, isto é, da Igreja de Cristo.

Por outro lado, na tradição afro-brasileira do candomblé, temos uma referência similar, pois, a iniciação não só integra o individuo ao “povo-de-santo” ou “família-de-santo”.

A iniciação, cumprindo a formalização do contrato entre individuo e divindade, marca diacriticamente o ser social em formação, uma vez que a relação estabelecida é única e individualizada. (…)

Isto se refere as etapas preliminares da “lavagem de contas”, o recebimento do colar sacralizado cujas contas são da cor da insígnia do seu orixá, ou a rituais como o bori, cerimônia mais complexa destinada a reforçar a cabeça do iniciante, que supõe um período de recolhimento e descanso do corpo, e ainda ao “assentamento do santo” quando é construída ritualmente uma representação e são sacralizados objetos que representam o orixá associado ao fiel.

Entendemos que a construção social da pessoa no candomblé expressa, dessa forma, tanto o processo de individuação como o de integração social. (BARROS e TEIXEIRA, 2000, p.110-112)

No candomblé a iniciação é um processo longo, onde tudo na vida do iniciado será mudado, inclusive seu nome como será conhecido pelo povo-de-santo. Devemos observar que na iniciação do candomblé o fiel e passará a ter uma série de obrigações com seu orixá e com a casa onde ele passará a pertencer.

Tanto no cristianismo como no candomblé o novo nascimento no desenvolvimento de uma relação vertical ( isto é, com a divindade) e uma relação horizontal (com a comunidade dos fiéis). Acredito que esses dois elementos – a relação com o divino e com o social – são fundamentais, pois, implicam numa mudança ou transformação da atitude do individuo tanto em sua intimidade (na relação com o divino) quanto no aspecto público. No candomblé isso é ainda mais visível, pois, após a iniciação o yàwó deve respeitar uma série de restrições alimentares, sexuais, da cor da roupa. Ao devoto as mudanças ou a transformação que ele atravessa pode não ser interpretada de como sofrimento, dado o significado interior, contudo, para quem não participa desse símbolo, percebe há um sofrimento envolvido. Por outro lado, no cristianismo, não é sem razão que Cristo afirma “Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”. Mt 16:24

Destaquei, esses dois ritos ou símbolos do cristianismo e do candomblé. Justamente porque em nossa cultura brasileira somos atravessados por essas duas matrizes. Conscientemente, somos cristãos, agimos, sentimos, pensamos como cristãos. Contudo, inconscientemente, estamos irremediavelmente imbuídos da tradição negra (ou vice-versa) Mesmo que nunca tenhamos pisado ou sonhado em pisar num terreiro, a força e o ímpeto negro de preservar sua identidade cultural (que formou candomblé) chega até nós através de nossa música, literatura, nossa língua, nossa culinária, nossas festas. E, até mesmo, na forma como cultuamos no cristianismo. Somos atravessados pelo sincretismo.

Vida Significativa e Vida Simulada

No contexto das religiões citadas, o batismo e a feitura de cabeça são rituais de passagem de uma vida profana, vulgar para uma vida significativa, espiritual em contato com uma realidade maior. Onde tudo é significativo.

No contexto do processo de individuação saimos de uma vida simulada, isto é, uma vida falseada seja pelos medos, seja pelas exigências externas – o “ter que agradar os outros” – para um vida significativa, onde, o individuo está inteiro em cada ação. Esta integração abrange tanto a relação do individuo consigo mesmo quanto a relação com o mundo externo, sendo marcada por uma profunda coerência.

O processo de individuação não termina. É uma constante. Escolher muitas vezes gera angústia. E, isso dói. Contudo, a dor, a tristeza, o medo e a saudade fazem parte da vida. A diferença que quando falamos de individuação, falamos em atravessar a dor e não em ficar presos na mesma, são apenas momentos existênciais, que já não podem ser negados.

Quem pensa por si mesmo é livre
E ser livre é coisa muito séria
Não se pode fechar os olhos
Não se pode olhar pra trás
Sem se aprender alguma coisa pro futuro

(Renato Russo, L´Aventura)

Referências bibliográficas

BARROS, José Flávio Pessoa de; TEIXEIRA, Maria Lina Leão. O código do corpo: inscrições e marcas dos orixás. In: MOURA, Carlos Eugênio Marcondes de (org.).Candomblé:religião do corpo e da alma: tipos psicológicos nas religiões afro-brasileiras. Rio de Janeiro: Pallas, p. 103-38, 2000

Nota : Apesar de não ter feito uma citação explicita, indico sobre o candomblé o blog “Candomblé – o mundo dos Orixás”http://ocandomble.wordpress.com/  , do qual sou leitor e admirador. Lá você poderá encontrar informações excelentes acerca desta religião.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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“Como é mesmo que descubro o que sou?” Uma breve reflexão a partir de comentários no Facebook

 

(9 de janeiro de 2012)

Há pouco tempo atrás, eu postei no meu mural do facebook uma frase de Jung que considero muito significativa:

“Só aquilo que somos realmente tem o poder de curar-nos.”

Ao que uma querida amiga, Fabiane Barbosa, comentou:

Que legal, mas como é mesmo que descubro o que sou??????

Achei essa pergunta muito pertinente e interessante, pois, muitas vezes apenas afirmamos impulsivamente “eu sou isso” ou “eu sou aquilo”, ao que respondi:

Fabi, através da relações que você estabelece com “você mesma”( de atenção, cuidado, respeito) e com o mundo(relações afetivas, ideológicas e sociais). Se vc analisar essas relações e perceber vc está sendo “integra” ou está “por inteiro” em tudo que você faz, sem se violentar, você está no “seu” caminho certo. O adoecimento se estabelece quando a gente se perde desse caminho ou a gente se perde… estabelecendo relações danosas tanto pra gente quanto pro mundo. o adoecimento psíquico, nesse sentido, é uma tentativa do inconsciente de redimensionar ou corrigir essas relações internas ou externas.

ps.: pq eu falei de relações? pq nessas relações vc vai se perceber… tendo atenção, cuidado e respeito com “vc mesma” vai vai ver o que é “negociável” ou “inegociável” para vc… ai vc vai poder ver e ser no mundo de uma forma mais adequada e respeitosa, tanto a vc mesma quanto ao mundo.

Após escrever essa resposta eu fiquei pensativo. Considerei que seria interessante refletir um pouco mais acerca da noção “do que sou”.

Acredito ser importante compreendermos, em primeiro lugar, que para a psicologia analítica o “ser eu mesmo” ou “o que sou” não é algo estático ou rígido, mas, sim um processo que está em constante desenvolvimento. 

Pode parecer estranho, pois, estamos acostumados a pensar em “eu sou” em termos de “ego” e “consciência”. Contudo, o ego é apenas uma parte da totalidade da psique que nos constitui. O que chamamos de ego é justamente o nosso centro consciente de referência, é comumente o que chamamos de “eu”, sendo o sujeito de nossas ações conscientes, escolhas, que está intrinsecamente ligado a nossa base somática. Através do “eu” vivemos e nos adaptamos conscientemente ao momento presente, e, muitas vezes, acreditamos que o “eu” é “tudo o que sou”, isto é, acabamos por reduzir nossa vida psíquica ao centro da consciência. O que nos expõe aos ventos do inconsciente e a uma possível submissão das exigências do mundo exterior.

O “eu” possui duas funções fundamentais na vida psíquica, a primeira é intermediar os processos adaptativos do organismo com o mundo interior e exterior, a segunda é propiciar os meios para a realização do si-mesmo, este segundo aspecto pertinente ao processo de individuação, discutiremos em outro momento.

Sobre o primeiro aspecto, Jung afirma que

O homem deve ser levado a adaptar-se em dois sentidos diferentes, tanto à vida exterior — família, profissão, sociedade — quanto às exigências vitais de sua própria natureza. Se houve negligência em relação a qualquer uma dessas ne­cessidades, poderá surgir a doença. (JUNG, 2006, 143)

Nesse processo adaptativo deve haver sempre o equilíbrio entre adaptação ao exterior e ao interior.  A adaptação ao mundo interior passa pelo reconhecimento de nossa própria história vivida, que se encontra presente e atuante em nossa vida através de nossos complexos. Acho que é importante frisar: nossa história vivida ou passada, não se encontra perdida num passado distante, mas, ela é viva e está no presente e relativamente disponível ao ego, por meio dos complexos.

Os complexos não são entidades patológicas, mas, sim estruturas básicas dos psiquismo individual em torno do qual nossas experiências são ordenadas assim como sua carga emocional. Os complexos são estruturas autônomas no inconsciente pessoal que,  em função de sua autonomia, podem invadir a consciência. O poder do complexo está diretamente relacionado com a capacidade do Ego em lidar com o mesmo, isto é, se o Ego evita ou é incapaz de lidar com os conteúdos complexo, este terá um potencial maior de invadir ou perturbar a consciência, geralmente causando sofrimento.

Por isso, é importante termos clareza que os complexos são estruturas de nossa psique, que se relacionam com o Ego. Para termos uma relação e consideração adequada com os complexos devemos considera-los como conteúdos distintos do Ego.  Eles são fatores que também nos constituem, devemos aceitar e respeitar aqueles elementos fundamentais de nossa história ou enfrentar os elementos de nossa história que nos limitam, impedindo nosso desenvolvimento. É muito perigoso assumirmos a postura Gabriela “Eu nasci assim, eu cresci assim, Eu sou mesmo assim, Vou ser sempre assim”, pois, vai de encontro a natureza da psique que visa o desenvolvimento.

Integrar nossa história significa confrontar e integrar a sombra,  que é o passo fundamental no processo de auto conhecimento. Segundo Jung,

(…) nesta tomada da de consciência da sombra trata-se de reconhecer os aspectos obscuros da personalidade, tais como existem na realidade. Este ato é a base indispensável para qualquer tipo de autoconhecimento e, por isso, via de regra, ele se defronta com consideravel resistência. (JUNG, 2000, p. 6)

Concomitante aos fatores de nossa história devemos considerar os fatores individuais relacionados com a dinâmica coletiva externa, neste caso nos referimos a persona.  Segundo Jung,

Ao analisarmos a persona, dissolvemos a máscara e descobrimos que, aparentando ser individual, ela é no fundo coletiva;em outras palavras, a persona não passa de uma máscara da psique coletiva. No fundo, nada tem de real; ela representa um compromisso entre o indivíduo e a sociedade, acerca daquilo que “alguém parece ser: nome, título, ocupação, isto ou aquilo. De certo modo, tais dados são reais; mas, em relação à individualidade essencial da pessoa, representam algo de secundário, uma vez que resultam de um compromisso no qual outros podem ter uma quota maior do que a do indivíduo em questão. (JUNG, 2001, p. 32)

A persona pode ser compreendida como os papeis sociais que um individuo possui. De forma geral, a persona está vinculada a dinâmica do Ego e da Consciência, por fornecer elementos de identidade ao individuo. Contudo, quando nos tornamos inconscientes da persona, isto é, não temos clareza dos papéis sociais e seu alcance, podemos nos identificar com ela, isto é, agindo e percebendo o mundo como se seus atributos fossem atributos do ego.  Um exemplo, seria a pessoa que não consegue se desligar de sua função social, como um juiz que age sempre impondo sua autoridade, ou um médico que exige ser chamado sempre de “doutor”.

Isso significa que todos os demais aspectos de sua vida tendem a ser negligenciados, como o pai, marido, amigo, filho, pois, ele estará sempre sintonizado com esse aspecto de sua vida. Juntamente com os complexos e o Ego, a persona compõe “o que sou”. Mas, ela por si só, não corresponde “ao que sou”.

Assim, para considerar “o que sou” devemos obrigatóriamente considerar o “momento em que estou”. E, ainda mais, é fundamental considerarmos que “o que sou” não é uma definição ou algo determinado e imutável, mas, sim um ponto de partida. Por isso, eu assinalei a importância de compreender “o que sou”  através das relações que estabeleço sobretudo comigo mesmo e com o mundo que me cerca.

É importante compreendermos que é o fato de consideramos toda a complexidade de ser quem somos, não significa que faremos as “escolhas certas” ou as “escolhas boas”, significa que teremos a maior propensão a estarmos por inteiro em nossas escolhas, o que implica não em fazer o “certo”, mas, sim em fazer o que é necessário.

Falta ainda comentarmos sobre o mundo exterior, o mundo exterior é importante justamente por fazer inúmeras exigências ao individuo, p.ex., como ele deve agir, como se portar, expor opiniões, tomar decisões. Enfim, o processo adaptativo com o mundo exterior exige que o ego se posicione, decida e aja. Entretanto, se o ego se posicionar sempre levando em consideração o mundo exterior, negligenciando seus fatores individuais, pode gerar uma reação compensatória do inconsciente – que pode gerar sofrimento. O mundo exterior é fundamental por nos colocar em movimento, através dessas relações e com as dificuldades apresentadas poderemos nos desenvolver.

O confronto com a sombra e o redimensionamento da persona são fundamentais na compreensão de quem eu sou. Vale lembrar, que quando Jung afirma que “Só aquilo que somos realmente tem o poder de curar-nos.” (JUNG, 2001, p.43), ele não se refere a um conhecimento racional ou puramente consciente, mas, sim a vivência desse ser real.

A integração da persona e da sombra constituem, muitas vezes, uma dificil tarefa. Mas, é o primeiro passo para o desenvolvimento maior da personalidade. Jung afirma

“Se o confronto com a sombra é obra do aprendiz, o confronto com a anima é a obra-prima.(…)Jamais devemos esquecer que, em se tratando da anima, estamos lidando com realidades psíquicas, as quais até então nunca foram apropriadas pelo homem, uma vez que se mantinham fora de seu âmbito psíquico, sob a forma de projeções. (JUNG, 2002, p.39)

Integrar o a dimensão arquetípica da anima é um processo que vai além do autoconhecimento. Pois, implica em integrar a dimensão da alteridade, uma tarefa da segunda metade da vida, própria ao processo de individuação, mas, que vermos em um outro post no futuro.

Referências Bibliográficas

JUNG, C.G O DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE,Petrópolis: Vozes, 2006

JUNG,C.G AION – ESTUDOS DO SIMBOLISMO DO SI-MESMO , Petrópolis: Vozes, 2000

JUNG,C.G O EU E O INCONSCIENTE,Petrópolis: Vozes, 2001

JUNG,C.G OS ARQUÉTIPOS E O INCONSCIENTE COLETIVO , Petrópolis: Vozes, 2000

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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