Respondendo a Aldo Costa “Para você, que pontos nós junguianos ‘ainda não aprendemos a herdar com serenidade’”

(22 de agosto de 2012)

Há algum tempo, Aldo Costa um leitor que colabora bastante com nosso blog enviou um comentário com uma pergunta,

Prezado Fabrício,

Realmente o livro do Roberto Gambini é excelente (considero leitura obrigatória). Porém, ainda hoje me pego analisando as possibilidades possíveis quando ele diz que: “Nós junguianos temos um complexo de herança – ainda não aprendemos a herdar com serenidade. Alarmamo-nos com a idéia de que a herança possa ocultar um problema paterno, ou que ameace nossa liberdade criativa.”
Qual a sua opinião sobre o trecho citado? Para você, que pontos nós junguianos “ainda não aprendemos a herdar com serenidade”.

Acredito que para começarmos a pensar uma possível resposta devemos voltar ao texto do Gambini. Em seu livro, ele aponta para um complexo de inferioridade junguiano frente a psicanálise, segundo ele,

Um dos problemas a essa questão é o famoso complexo de inferioridade dos junguianos perante os freudianos. (…)

Surgiu então uma certa tendência entre os junguianos, de se fortalecerem através da adoção de procedimentos freudianos, como se isso os legitimasse num terreno de insegurança. O analista junguiano que aprende o uso da técnica psicanalítica, com seu manejo típico da transferência e da resistência, que faz interpretações nessa campo da maneira como é concebida pela Psicanálise, que pensa o momento analítico como repetição do vivido, que concebe o material reprimido como sendo aquilo que uma vez esteve na consciência, que entende os sonhos como exclusiva manifestação de desejos infantis, esse analista junguiano está na verdade pensando  e operando como um psicanalista. Alguns usam divã. De um lado se diz que o sincretismo é positivamente uma aproximação de linhas então divergentes. Digo que não. A Psicanálise até hoje não lucrou rigorosamente nada com a aproximação que lhe fez a Psicologia Analítica, talvez tenha antes se comprazido com o reconhecimento tardio dos descendentes do principal desertor do circulo vienense original. O resultado dessa tendência é a crescente descaracterização da Análise Junguiana, à medida que seus praticantes vão procurar na Psicanálise elementos que supostamente lhes falem. Grifo a palavra supostamente. (GAMBINI, p. 42-44).

Acredito que esse complexo de inferioridade defendido por Gambini não se caracteriza apenas pela “inferioridade frente a psicanálise”, outra forma dessa inferioridade é o que Andrew Samuels, em seu texto, “Sobreviverão os Pós-junguianos”, chamou de “fundamentalismo junguiano” é uma forma compensada deste complexo. Segundo Samuels,

Como todos os fundamentalismos, o fundamentalismo junguiano deseja controlar quem ou o que faz parte e/ou não faz. Daí tende a ser cruel e estigmatizante. Ouve-se, às vezes, numa avaliação das circunstâncias de treinamento: “Ele (ou ela) não tem mente psicológica,” dizem. Ou a tipologia é utilizada para estabelecer situações sociais, culturais ou interpessoais complexas, de um modo inteiramente improdutivo e oracular. Mulheres intelectuais podem ser sumariamente executadas. O fundamentalismo junguiano nega seu papel no mercado de trabalho – tenta convencer-nos de que ele apenas é, que não tem um projeto persuasivo, procurando influência, como o resto de nós. Há uma tentativa de negar seu aspecto comercial, inclusive o financeiro. O fundamentalismo junguiano enfatiza a pessoa de Jung e suas palavras proféticas, que, às vezes, chegam até mesmo a alegar serem inspiradas pelo divino. Mas o que enfatiza, particularmente, é como vivia Jung. Às vezes isso é chamado de “o caminho junguiano”. Tenho horror à essa noção de haver “um” ou “o” caminho junguiano, mas o fundamentalismo junguiano joga com isso.

(…)

Deixem-me prosseguir, fazendo uma crítica semelhante à tendência jungiana atual em direção à fusão com a psicanálise. Quero deixar bem claro que não sou contra o uso da psicanálise pelos junguianos, como é o caso da escola desenvolvimentista. Como foi que apareceu no mundo junguiano, essa tendência atual de fundir-se com a psicanálise? Em primeiro lugar, acho que, muitas vezes, baseou-se em alguma coisa excessivamente pessoal, visto que vários junguianos que fizeram análise pelas escolas jungianas clássica ou desenvolvimentista não ficaram satisfeitos com suas experiências ali. Daí a fusão jungiana com a psicanálise pode estar baseada, em minha opinião, na raiva e numa idealização da psicanálise como sendo, de alguma forma, clinicamente melhor, como possuindo requintada e superior habilidade clínica, quando comparada com a nossa.

Isto leva os junguianos a fecharem os olhos às enormes contribuições clínicas que têm sido feitas pelos próprios junguianos. Não estou fazendo a queixa costumeira (referida acima) de que ninguém reconhece que “nós” pensamos nisto primeiro. Minha queixa aqui é a de que os próprios junguianos da escola psicanalítica não atentam para certas idéias que são nossas por direito de nascença e por herança. (SAMUELS, S/D)

Entretanto, não basta pensar apenas como um complexo de inferioridade, relacionado aos desenvolvimentos e reconhecimentos alcançados pela psicanálise. Não podemos perder de vista que há, também, uma certa relação estabelecida com  a figura de Jung, que em alguns casos beira a mitificação de Jung por um lado, por outro, um distanciamento excessivo das concepções junguianas. Samuels foi extremamente feliz quando propôs o termo pós-junguianos, segundo ele “Quero expressar com isso uma conexão com Jung e, ao mesmo tempo, distância crítica de Jung” (op.cit). Samuels nos fala da necessidade de um luto adequado de Jung.

Se não houvéssemos feito luto adequado por Jung, estaríamos deprimidos. E realmente acho que exista uma depressão no mundo junguiano de hoje que torna difícil valorizar-nos suficientemente para abrirmo-nos a outros psicoterapeutas e intelectuais em geral. O que significaria estar de luto por Jung? Significaria pôr-se além de uma divisão idealização-depreciação em relação a ele, uma divisão que sinto contaminar algo de nossos pensamentos e, certamente, de nossas práticas.

Acredito que estamos dando passos importantes para a “elaboração” desse luto. Mas, a julgar pelo que vemos através das redes sociais temos ainda temos um belo percurso pela frente. Vejo muitos ainda com uma visão extremamente idealizada de Jung, mas, que pouco se dedicam a compreender seus textos assim como os textos dos pós-junguianos. Na elaboração desse luto acredito que a psicologia arquetípica tenha uma contribuição fundamental, pois, ela nasce como uma leitura crítica dos textos de Jung. Acredito que muitos junguianos ainda careçam dessa critica aos textos junguianos, especialmente, os que seriam classificados como “clássicos”. 

Então, Aldo, peço desculpas por essa longa volta… acredito que posso voltar a sua pergunta inicial, o que acho do texto de Gambini? Sim, concordo com o texto.

O que não aprendemos a lidar com serenidade?

Faço das palavras de Gambini e de Samuels as minhas, acho que devemos conscientizar esse o complexo de inferioridade que se traduz em diversos aspectos, como a dependência da figura do pai, muitas vezes traduzidas como o “Mestre Jung”, como se não houvesse produção após Jung! Nossa, o universo junguiano ou pós-junguiano é muito rico! E, muitas vezes, vemos apenas uma pontinha dele… Estudar os textos de Jung é fundamental, mas, não podemos nos tornar reféns de sua obra. Compreendo que fazer jus a Jung é ir para além de Jung. É se abrir ao dialogo, mas, sem ter um “pires na mão” pedindo reconhecimento. É compreender que a psicologia junguiana é plural. E nisso reside nossa força, nossa identidade. Me recordo da frase do belo texto de Clarice Lispector “Perdoando Deus”, que diz “Eu, que sem nem ao menos ter me percorrido toda, já escolhi amar o meu contrario(…)”  Acho muitas vezes agimos assim, nem ao menos conhecemos todas as possibilidades das escolas junguianas, já nos voltamos a outras abordagens.  Talvez, um desafio será aprendermos a lidar com serenidade com a psicologia junguiana em sua totalidade e com toda sua possibilidade.

Aldo, desculpe a demora para responder suas perguntas. Fico muito feliz com suas colaborações! Abraços,

Referências Bibliográficas

GAMBINI, R. A voz e o tempo: reflexões para jovens terapeutas. São Paulo: Ateliê Editorial, 2008.

SAMUELS, A. Sobreviverão os Pós-Junguianos? Disponível em:
http://www.rubedo.psc.br/Artigos/sobrevi.htm   Acesso em:  22 agosto. 2012, 15 p.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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“Eu acho que não vou conseguir” – Breve reflexão sobre o símbolo de travessia e psicoterapia

(2 de agosto de 2012)

“Eu acho que não vou conseguir…”

Essa é uma fala que frequentemente ouvimos no consultório. Há algum tempo eu atendi uma pessoa que estava deprimida (e com vários outros problemas por resolver) e que, no inicio da terapia  repetia frase “não sei se vou conseguir”, ao que num dado momento, respondi, “acho que você não percebeu, mas, você já está conseguindo”, frente a expressão de interrogação, acrescentei, “ veja quanto tempo você já está nesse processo, você já foi ao psiquiatra, você já buscou terapia. É importante  você perceber o caminho percorrido em sua travessia.”Nas sessões seguintes, nos deparamos com o símbolo da travessia em diferentes situações, onde observamos os vários momentos onde o paciente atravessou divergentes crises em sua vida, onde pudemos vislumbrar juntos o seu potencial, contribuindo para o seu processo terapêutico.

Acredito que o símbolo de “travessia” seja uma excelente imagem para pensarmos o processo da psicoterapia. Isto, pois, geralmente, durante a crise a pessoa tende a esquecer de seu próprio potencial.  Segundo Jung, 

Não devemos esquecer que toda neurose é acompanhada por um sentimento de desmoralização. O homem perde confiança em si mesmo na proporção de sua neurose. Uma neurose constitui uma derrota humilhante e desse modo é sentido por todos aqueles que não são de todo inconscientes de sua própria psi­cologia. (JUNG, 1999,p.12)

Essa “falta de confiança” ou “ sentimento de desmoralização”  geralmente é compensada através da relação transferencial. Por meio da transferência, o paciente deposita no analista/terapeuta o potencial que não consegue enxergar em si mesmo. Não devemos esquecer que essa “derrota humilhante” se relaciona com a postura unilateral da consciência. No inconsciente, por outro lado, reside todo o potencial da vida psíquica do individuo, tanto passada quanto futura.

Por isso mesmo, não podemos perder de vista a potencial do paciente, que podemos observar, primeiramente, ao longo de sua própria história. A análise visa restabelecer a relação da consciência com o inconsciente, promovendo a integração, isto é, superando a divisão interna que promoveu neurose (lembrando que a própria neurose é uma tentativa de superar essa divisão).

O método construtivo de tratamento pressupõe percepções que estão presentes, pelo menos potencialmente, no paciente, e por isso é possível torná-las conscientes. Se o médico nada sabe dessas potencialidades, ele não pode ajudar o paciente a desenvolvê-las(…). Por isto, na prática é o médico adequadamente treinado que faz de função transcendente para o paciente, isto é, ajuda o paciente a unir a consciência e o inconsciente e, assim, chegar a uma nova atitude. Nesta função do médico está uma das muitas significações importantes da transferência: por meio dela o paciente se agarra à pessoa que parece lhe prometer uma renovação da atitude; com a transferência, ele procura esta mudança que lhe é vital, embora não tome consciência disto. Para o paciente, o médico tem o caráter de figura indispensável e absolutamente necessária para a vida. (JUNG, 2000, p. 12)

Por isso, é fundamental que o analista/terapeuta seja capaz de “devolver” ao paciente o potencial que lhe foi transferencialmente confiado, de modo, que possa uma nova atitude da consciência possa surgir.

O símbolo de travessia quer associado a um rio, deserto ou a noite, nos traz uma dimensão tempo e espaço, isto é, de história – de passado, presente e futuro –  possibilita compreendermos o processo, nos permite compreender de onde viemos, onde estamos e qual a direção a seguir. A própria vida pode ser representada como uma longa travessia, mas, devido ao fato da consciência estar relacionada com adaptação ao momento presente, muitas vezes, percebemos essa “travessia” fragmentada, em “pequenas travessias”. Para compensar essa  “limitação”, sempre que necessário,  o inconsciente colabora (através dos sonhos, sintomas e outras formações simbólicas) com a experiência que já vivemos e/ou com  a experiência coletiva. Mas, tudo depende a disponibilidade da consciência em se abrir para o inconsciente.

Por isso mesmo, eu disse acima que a travessia seria um símbolo viável para a psicoterapia. Esta, não é a “travessia” do problema, mas, a travessia da distância que separa o individuo de “Si-mesmo”, que separa o individuo de seu potencial, de seu ser real.

Referências Bibliográficas

JUNG,C.G. Psicologia e Religião, Petrópolis,: Vozes 1999.

______. A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes, 5. Ed. 2000.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

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Pensando a Relação com o Inconsciente a partir do Conto “O Sapateiro e os Duendes”

(16 de abril de 2012)

(Agradeço a psicóloga Giuliana de Paula Oliveira. por sua participação no insight que me trouxe a este post. Sucesso!)

O Sapateiro e os Duendes

Era uma vez um sapateiro que trabalhava duro e era muito honesto. Mas nem assim ele conseguia ganhar o suficiente para sobreviver. Até que, finalmente, tudo que ele tinha no mundo se foi, exceto a quantidade de couro exata para ele fazer um par de sapatos. Ele os cortou e deixou preparados para montar no dia seguinte, pretendendo acordar de manhã bem cedo para trabalhar. Apesar de todas as dificuldades, tinha a consciência limpa e o coração leve, por isso foi tranquilamente para a cama deixando seus problemas aos cuidados dos céus, e adormeceu. De manhã cedo, depois de dizer suas orações, preparava-se para fazer seu trabalho, quando, para seu grande espanto, ali estava os sapatos já prontos, sobre a mesa. O bom homem não sabia o que dizer ou pensar sobre aquele estranho acontecimento. Examinou o acabamento: não havia sequer um ponto falso no serviço todo e era tão bem-feito e preciso que parecia uma perfeita obra de arte.

Naquele mesmo dia apareceu um cliente e os sapatos agradaram-lhe tanto, que teria pago um preço muito acima do normal por eles; e o pobre sapateiro, com o dinheiro, comprou couro suficiente para fazer mais dois pares. Naquela noite cortou o couro e não foi para a cama tarde porque pretendia acordar e começar cedo o trabalho no dia seguinte: mas foi-lhe poupado todo o trabalho, pois quando acordou, pela manhã, o trabalho já estava feito e acabado. Vieram então compradores que pagaram generosamente por seus produtos, de modo que ele pôde comprar couro suficiente para mais quatro pares. Ele novamente cortou o couro à noite, e encontrou o serviço acabado pela manhã, como antes; e assim foi durante algum tempo: o que era deixado preparado à noite estava sempre pronto ao nascer do dia, e o bom homem prosperou novamente.

Certa noite, perto do natal, quando ele e a mulher estavam sentados perto do fogo conversando, ele lhe disse:

-” Gostaria de ficar observando esta noite para ver quem vem fazer o trabalho por mim.”

A esposa gostou da idéia. Eles deixaram, então, uma lâmpada ardendo e se esconderam no canto do quarto, por trás de uma cortina, para observar o que iría acontecer. Quando deu a meia noite, apareceram dois anõezinhos nus que se sentaram na bancada do sapateiro, pegaram o couro cortado e começariam a preguear com seus dedinhos, costurando, martelando e remendando com tal rapidez que deixaram o sapateiro boquiaberto de admiração; o sapateiro não conseguia despregar os olhos do que via. E assim prosseguiram no trabalho até terminá-lo, deixando os sapatos prontos para o uso em cima da mesa. Isto foi muito antes do sol nascer; logo depois eles sumiram depressa como um raio.

No dia seguinte, a esposa disse ao sapateiro:

– “Esses homenzinhos nos deixaram ricos e devemos ser gratos a eles, prestando-lhes algum serviço em troca. Fico muito chateada em vê-los correndo para cá e para lá como eles fazem, sem nada para cobrir as costas e protegê-los do frio. Sabe do que mais vou fazer uma camisa para um, e um casaco, e um colete, e um par de calças em troca; você fará para cada um deles um sapatinho”.

A idéia muito agradou o bom sapateiro e, certa noite, quando todas as coisas estavam prontas, ele as puseram sobre a mesa em lugar das peças de trabalho que costumavam deixar cortadas e foram se esconder para observar o que os duendes fariam. Por volta de meia-noite, os anões apareceram e iam sentar-se para fazer o seu trabalho, como de costume, quando viram as roupas colocadas para eles, o que os deixou alegres e muito satisfeitos. Vestiram-se, então, num piscar de olhos, dançaram, deram cambalhotas e saltitaram na maior alegria até que finalmente saíram, dançando pela porta para o gramado, e o sapateiro nunca mais os viu: mas enquanto viveu, tudo correu bem para ele desde aquela época.

Retirado de http://www.aterp.com.br/o-sapateiro-e-os-duendes.htm

Para mim esse conto é muito especial, pois, sempre que o leio eu vejo a compreensão junguiana acerca da relação com o inconsciente. Isso porque uma das principais características dos junguianos é a confiança no inconsciente. É a confiança no princípio autorregulador da psique.

Nesse conto, eu vejo no velho sapateiro honesto um belo exemplo ego e da consciência, que em sua ação cotidiana e diurna possui limites naturais, pois, o ego e a consciência por si mesmos não são autossuficientes. Devemos notar que nesse conto não indica uma atitude neurótica, pois, o velho sapateiro “trabalhava duro e era muito honesto”  e “Apesar de todas as dificuldades, tinha a consciência limpa e o coração leve, por isso foi tranquilamente para a cama deixando seus problemas aos cuidados dos céus”.

Por outro lado, a noite é representação mais propícia do mergulho no inconsciente, caracterizada pelo sono. No conto, quando o sapateiro desperta, faz suas orações, e ele descobre um par de sapatos, produzidos naquela noite. Assim, como os sonhos são produtos ou presentes dados a consciência pelo inconsciente.

De aberto a colaboração do desconhecido (=inconsciente) o sapateiro continua realizado seu trabalho e acolhendo e utilizando da melhor forma os sapatos que recebe, de forma, a se enriquecer ou poder prosperar. Aceitar e se permitir a relação com o inconsciente possibilita o enriquecimento simbólico/energético da consciência, estruturando e vitalizando o ego.   

A esse respeito, Jung nos diz algo bem interessante,

Quando conseguimos estabelecer a função denominada fun­ção transcendente, suprime-se a desunião com o inconsciente e então o seu lado favorável nos sorri. A partir desse momento, o inconsciente nos dá todo o apoio e estímulo que uma natu­reza bondosa pode dar ao homem em generosa abundância. O inconsciente encerra possibilidades inacessíveis ao conscien­te, pois dispõe de todos os conteúdos subliminais (que estão no limiar da consciência), de tudo quanto foi esquecido, tudo o que passou despercebido, além de contar com a sabedoria da experiência de incontáveis milênios, depositada em suas estruturas arquetípicas.

O inconsciente está em constante atividade, e vai combi­nando os seus conteúdos de forma a determinar o futuro. Pro­duz combinações subliminais prospectivas, tanto quanto o nosso consciente; só que elas superam de longe, em finura e alcance, as combinações conscientes. Podemos confiar ao inconsciente a condução do homem quando este é capaz de resistir à sua sedução.(JUNG, 2001, p. 106)

A última frase de Jung é especialmente interessante “Podemos confiar ao inconsciente a condução do homem quando este é capaz de resistir à sua sedução” . Vejamos no conto, na véspera do natal, o sapateiro e sua esposa se escondem para ver o que acontecia na oficina, ficando surpresos com os dois duendes nus, que faziam tão primoroso trabalho. É importante notar que o fato deles estarem nus, indica que eles era seres próprios da natureza. Frente aquela cena o pensamento deles é “recompensar”, “presentear” com roupas aqueles seres fantáticos. Isso é resistir a tentação.  Eles não pensaram em explorar ou dominar aquelas criaturas, se guiando pela riqueza que eles poderiam ter com os duendes.

Mas, eles optaram por respeitar os duendes oferencendo presentes, roupas. As quais os duendes vestem, brincam e voltam para a noite, sem perder suas características. Estabelecendo um acordo respeitoso. A relação com o inconsciente para ser frutifera precisa ser equilibrada, compreendo o que o inconsciente nos diz, percebendo suas formações de forma objetiva – como os duendes. Jung afirma que , 

Um dos requisitos essenciais do processo de confrontação é que se leve a sério o lado oposto. Somente deste modo é que os fatores reguladores poderão ter alguma influência em nossas ações. Tomá-lo a sério não significa tomá-lo ao pé da letra, mas conceder um crédito de confiança ao inconsciente, proporcionando-lhe, assim, a possibilidade de cooperar com a consciência, em vez de perturbá-la automaticamente. 
A confrontação, portanto, não justifica apenas o ponto de vista do ego, mas confere igual autoridade ao inconsciente. A confrontação é conduzida a partir do ego, embora deixando que o inconsciente também fale — audiatur et altera pars [ouça-se também a outra parte]. (JUNG, 2000, p.20-1)

Esse aspecto de respeitar o inconsciente e suas “mensagens” é fundamental. Muitas vezes, sonhamos ou mesmo somatizamos e afirmamos “Ah! Eu estou apenas somatizando”, como se a somatização fosse uma produção do Ego ou como se a somatização não estivesse dizendo nada! Um dos maiores perigos que corremos é de cometermos a “apropriação indébita” das produções do inconscientes, creditando-as ao Ego. Em outras palavras, seria mais adequado dizer “eu recebi um sonho” e não “Eu sonhei”. Pois, somente com a devida atenção podemos garantir o distanciamento ou objetividade necessária para lidar respeitosamente com o inconsciente. Essa relação gera um equilibrio saudável, uma sensação de integridade ou “inteireza”. É justamente, como o conto nos narra, “sapateiro nunca mais os viu: mas enquanto viveu, tudo correu bem para ele desde aquela época”.

A confiar no inconsciente é confiar na potencia de vida que reside no interior de cada um nós, que mesmo em meio a dor e ao sofrimento, busca o desenvolvimento e o   amadurecimento.

Rerefências Bibliográficas

JUNG, C.G. Psicologia do Inconsciente, Vozes: Petrópolis, 2001

_________. A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes, 5. Ed. 2000.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

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100 anos de Metamorfoses: Alguns comentários ao “Símbolos da transformação” de C.G.Jung

(3 de janeiro e 2012)

Em 2012, um dos livros mais importantes para a história da psicologia analítica completará 100 anos, o “Símbolos da Transformação” . clip_image001

Originalmente, seu título era “Metamorfoses e Símbolos da Libido” que teve a sua primeira parte publicada em 1911, a segunda parte foi publicada em 1912, pouco tempo após a publicação, foi lançado a edição integral do livro. Esta segunda parte merece destaque pois, ela tornou pública a divergência teórica que existia entre Jung e Freud. Dado a importância que Jung via nesta obra, em 1950 ele promoveu uma ampla revisão e ampliação do livro, atualizando a linguagem, conceituação, mas, sem perder a essência do texto, que veio a se chamar “Símbolos da Transformação” como conhecemos hoje.

Neste primeiro post, pretendo discutir um pouco alguns aspectos históricos que considero importantes para compreender o lugar que livro ocupa na obra junguiana.

C.G.Jung e o “Símbolos da Transformação”

Em suas memórias Jung nos conta a semente que originou esse livro foi lhe dada num sonho,

Eis os sonho: eu estava numa casa desconhecida, de dois andares. Era a “minha” casa. Estava no segundo andar onde havia uma espécie de sala de estar, com belos móveis de estilo rococó. As paredes eram ornadas de quadros valiosos. Surpreso de que essa casa fosse minha, pensava: “Nada mau!” De repente, lembrei-me de que ainda não sabia qual era o aspecto do andar inferior. Desci a escada e cheguei ao andar térreo. Ali, tudo era mais antigo. Essa parte da cada datava do século XV ou XVI. A instalação era medieval e o  ladrilho vermelho. Tudo estava mergulhado na penumbra. Eu passeava pelos quartos, dizendo: “Quero explorar a casa inteira!” Cheguei diante de uma porta pesada e a abri. Deparei com uma escada de pedra que conduzia à adega. Descendo-a, cheguei a uma sala muito antiga, cujo teto era em abóboda. Examinando as paredes descobri que entre as pedras comuns de que eram feitas, havida camadas de tijolos e pedaços de tijolo na argamassa. Reconheci que essas paredes datavam da época romana. Meu interesse chegara ao máximo. Examinei também o piso recoberto de lajes. Numa delas, descobri uma argola. Puxei-a. A  laje deslocou-se e sob ela vi outra escada de degraus estreitos de pedra, que desci, chegando enfim a uma gruta baixa e rochosa. Na poeira espessa  que recobria o solo havia ossadas, restos de vasos,e vestígios de uma civilização primitiva. Descobri dois crânios humanos, provavelmente muitos velhos, já meio desintegrados. – Depois, acordei. (JUNG, 1975, 143)

Esse sonho ocorreu durante a viagem que ele realizou com Freud aos Estados Unidos em 1909. Nesta viagem, Jung relata que haviam ocorridos alguns desentendimentos com Freud, que abalaram a amizade que tinham. Jung conta que Freud não foi capaz de apreender o conteúdo deste sonhos, fixando-se na imagem das caveiras, que julgou ser um desejo de morte por parte de Jung. Ficou claro para Jung que a diferença que havia entre ambos, impedia a Freud de compreender o conteúdo de seu sonho. Entretanto, para Jung a semente do sonho começou a germinar.

O sonho da casa teve um curioso efeito sobre mim: despertou meu antigo interesse pela arqueologia. Voltando a Zurique, li um livro sobre as escavações na Babilônia e diversas obras os mitos. O acaso me conduziu ao Simbolismo e Mitologia dos Povos Antigos, de Friedrich Creuzer, e esse livro me causou entusiasmo.(ibid, p. 145)

Estimulado por esse sonho, Jung enveredou pelo estudo da mitologia, aprofundando conhecimentos de história, símbolos, mitos de diversos povos.

Quando estava imerso nesses trabalhos, encontrei os materiais fantasmagóricos nascidos da imaginação de uma jovem americana que eu não conhecia, Miss Miller. Haviam sido publicados por Teodoro Flournoy, amigo paternal, que gozava de toda minha estima, nos Archives de Psychologie(Genebra). Fiquei imediatamente impressionado pelo caráter mitológico dessas fantasias. Agiram como um catalisador sobre as idéias ainda desordenadas que eu acumulava. A partir dessas fantasias, e também dos conhecimentos que adquirira sobre mitologia, nasceu meu livro Metamorfoses e símbolos da Libido. (ibid, p. 146).

É interessante observarmos que em 1911, as relações entre Freud e Jung já estavam conturbadas desde a viagem aos EUA em 1909, entretanto, outros eventos contribuíram com a “degradação” da amizade. Devemos lembrar que em 1910 na por ocasião do congresso em Nuremberg foi fundada a International Psychoanalytical Association, e teve como primeiro presidente eleito Jung. Deirdre Bair, uma importante biógrafa de Jung, nos dá uma noção interessante do cenário de 1911.

Visto em perspectiva, é irônico que o mais parcial dos biógrafos de Freud, Ernest Jones, tenha sido aquele que mais objetivamente descreveu o obscurecimento da situação de Jung e Freud quando terminava o ano de 1911 e começava o ultimo ano da colaboração entre os dois. De acordo com Jones, o motivo da ruptura e o que mais perturbou  Freud não foi aquele acusado por tantos comentaristas – a crescente diferença entre a interpretação que os dois estudiosos faziam do conceito de libido. Ao contrário, foi a “intensa absorção de Jung por suas pesquisas [que] estava interferindo nos deveres presidenciais que [Freud] tinha atribuído a ele”. Na cabeça de Freud, o principal papel de Jung era o de seu “sucessor direto, […] funcionando como foco central para todas atividades psicanalíticas.” (BAIR, 2006, p.272-3)

Bair destaca que as atividades psicanalíticas envolviam sobretudo a administração das atividades da associação, trabalho editorial, supervisão de colegas e fazer a ligação das entidades psicanalíticas. Assim, para Freud a função de Jung era desenvolver o movimento psicanalítico e não a teoria psicanalítica.

Jones parecia achar que Jung era culpado de um pecado ainda mais importante, o de não estar a altura dos “desejos mais pessoais de Freud” por que ele era “sempre um correspondente um tanto imprevisível; sua dedicação às pesquisas tornava-o cada vez mais negligente a esse respeito”. A dedicação e a pesquisa independente também faziam com que Jung representasse uma ameaça cada vez mais formidável para Freud. Entretanto, Jones cuidadosamente evitou esse tipo de observação, ou não era perspicaz o suficiente para percebê-la. (ibid, p. 273)

É possível que Jung não tenha percebido o quanto estava absorvido por sua pesquisa, considerando, que seu desempenho na presidência da IPA aceitável. Contudo, a produção deste trabalho não foi tranquila, especialmente na segunda parte onde Jung anunciava para a sociedade psicanalítica suas diferenças com Freud. Em suas memórias, Jung afirma

“Quando estava quase acabando de escrever Metamorfoses e Símbolos da Libido, eu sabia de antemão que o capítulo “O sacrifício” me custaria a amizade com Freud.Nele expus minha própria concepção do incesto da metamorfose decisiva do conceito de libido e de  outras idéias, que representavam meu afastamento de Freud.” (JUNG, 1975, p. 149).

Assim, a gênese do “Símbolos da Transformação”, desde seu primeiro sonho, conduziu Jung ao campo de estudo que lhe era próprio, mas, estava adormecido. A dedicação as pesquisas absorveram Jung irritando profundamente a Freud, a ponto de tornar a relação insustentável, assim como a cooperação teórica.

Símbolos da Transformação, Críticas e Legado

Jung sabia que seu trabalho o afastaria de Freud, contudo, esse não foi o único efeito “colateral” de seu livro. Em suas Memórias, ele afirma,

Depois da ruptura com ele, todos meus amigos e conhecidos se afastaram de mim. Meu livro não foi considerado uma obra séria. Passei por um místico e desse modo encerram o assunto. Riklin e Maeder foram os únicos que ficaram do meu lado. Mas eu tinha previsto a solidão e não me iludi acerca das reações dos pretensos amigos. Muito pelo contrário, refleti profundamente sobre o assunto. Sabia que o essencial estava em jogo e que deveria tomar a peito minhas convicções. Vi que o capitulo “O Sacrifício” representava o meu sacrifício. Isso posto, pude recomeçar a escrever, se bem que de antemão que ninguém compreenderia minhas idéias. (JUNG, 1975, p. 149).

Nesse mesmo ano de 1912, Freud criou o chamado “Comitê’” que seria um grupo secreto de psicanalistas proeminentes e sobretudo fiéis ao mesmo . Esse “grupo secreto” zelaria pela psicanálise combatendo duramente qualquer idéia que desviasse da concepção ortodoxa, de modo a evitar que Freud se desgastasse em discussões políticas, formando uma espécie de “guarda pretoriana” de Freud, os primeiros membros deste comitê foram:  Ferenczi, Abraham, Jones, Rank, Sachs.

Assim, coube Ferenczi a refutação publica das idéias de Jung, o que ele realizou num ensaio em 1913, ao passo que nos bastidores o destino de Jung, já estava selado: seria o mesmo de Adler e Stekel – expulsão do movimento psicanalítico. A crítica que Ferenczi seguiu exatamente as diretrizes por ele apresentadas:

Criticaremos esse livro exclusivamente de um ponto de vista psicanalítico, detendo-nos sobretudo naquelas teses que pretendem opor às nossas concepções psicanalíticas atuais novas e melhores maneiras de ver. O futuro decidirá se não estaremos exagerando no nosso esforço de não sacrificar o antigo ao novo – simplesmente porque é novo  se não sucumbiremos assim a esse mesmo conservadorismo rígido que temos recriminado até agora em nossos principais adversários. (FERENCZI, 1992, p.87) (grifo nosso)

A proposta de Ferenczi foi muito clara, seu intuito seria fazer uma avaliação do que era psicanálise e o que não era, separando o “joio do trigo”. O trabalho de Jung não foi considerado “em si” ou em seu próprio contexto, ou como uma ampliação do campo de estudo, mas, como a obra de um inimigo ou opositor. A crítica de Ferenczi, seu afastamento de Freud, o trabalho do comitê secreto que o combatia nas diferentes sociedades que compunham a IPA, fez com que Jung fosse desacreditado e seu livro, como ele afirmou, “não foi considerado uma obra séria”.

Os acontecimentos que seguiram a publicação do “Metamorfoses” foram determinantes para a gênese da psicologia analítica, assim como para a transformação pessoal de Jung, conforme temos acesso hoje, através do Livro Vermelho.  A importância dessa obra, foi indicada por Jung em 1950,

Assim, este livro se tornou um marco, colocado no lugar onde dois caminhos se separam. Por sua imperfeição e suas falhas ele se transformou no programa dos próximos decênios minha vida”[…]

Este livro foi escrito em 1911, quando eu contava trinta e seis anos de idade. Esta é uma época crítica, pois representa o inicio da segunda metade da vida de um homem, quando não raro ocorre uma metanóia, uma retomada de posição na vida. Eu bem sabia na ocasião, do inevitável rompimento com FREUD tanto no trabalho quanto na amizade. (JUNG, 1999, XIV-XVII)

O “Símbolos da Transformação” marca o inicio de um novo caminho, o inicio da psicologia analítica. Sua importância vai além de um aspecto histórico, pois, na década de 1950, a mudança de nome significou seu renascimento. Este livro guarda em si tanto a semente lançada em 1912 como os frutos colhidos na década 1950, o que o torna uma obra impar na literatura junguiana.

No decorrer deste ano iremos fazer outros posts discutindo um pouco mais dessa importante obra centenária.

Referências Bibliográficas

JUNG, Carl Gustav, Memórias Sonhos e Reflexões, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975.

JUNG, C.G. Simbolos da Transformação, Petrópolis: Vozes, 4ed., 1999.

BAIR, D. Jung – uma biografia vol.1 , Ed. Globo 2006.

FERENCZI, S. Psicanálise II , São Paulo: Martins Fontes, 1992.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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Scrooge e os Espíritos do Natal : Sintomas, Símbolos e Processo de Individuação

(20 de dezembro de 2011)

No natal de 1843,  Charles Dickens publicou um pequeno conto que se tornou um dos maiores ícones da literatura natalina. Este conto tinha como titulo “A Christmass Carol” cuja tradução mais precisa seria “Um canto(ou cântico) de Natal”, mas, é conhecido como “Um conto de Natal” ou “Uma aventura de Natal”. Passados 168 anos de sua publicação, este conto recebeu adaptações para o cinema (“Um conto de Natal” (1938), “Os fantasmas Contra-atacam” 1988 e “Os fantasmas de Scrooge” 2009) e com animações como “O conto de Natal de Mickey”(1983), Barbie uma canção de Natal(2008) . Vale lembrar que o próprio “tio Patinhas”, em inglês “Uncle Scrooge”, foi inspirado no personagem de Charles Dickens.

Antes de comentarmos o conto, iremos relembrar-lo. Para tanto, eu usei uma versão digital do conto de Dickens, intitulado de “uma aventura de Natal”. Como nesta versão digital não há paginação correta para impressão citarei apenas o texto, sem referências. Caso você tenha interesse em ler o conto clique aqui . Para Ilustrar, usarei imagens do filme “Um conto de Natal” de 1938.

Breve Resumo de Um cântico de Natal

(CONTÉM SPOILERS: Se você não conhecer o conto ou quiser ver um desses filmes, leia ou assista antes, pois neste post contaremos o enredo e o final! Caso você lembre da narrativa pode pular esta parte.)

(Em negrito citação do texto digital)

Em Londres do século XIX, havia um homem chamado Ebenezer Scrooge,“Ora, Scrooge era um nome bastante conhecido na Bolsa, e sua assinatura era um documento valioso, onde quer que ele a colocasse.” Sua casa comercial se chamava Scrooge&Marley. Apesar do sócio de Scrooge, Jacob Marley, ter falecido há 7 anos, Scrooge nunca mudou o nome da firma. Fazia exatamente 7 anos que ele havia morrido, justamente numa véspera de natal.

Scrooge era um homem solitário e avarento. Que detestava todo e qualquer desperdício. E era assim que ele considerava o Natal. Desperdício de tempo e dinheiro.

No geral, Scrooge só tinha por perto seu fiel funcionário Bob Cratchit, um homem simples, dedicado, que suportava trabalhar nas mais miseráveis condições que Scrooge impunha. Era casado e tinha vários filhos dentre eles “Tinzinho”.

“Pobre Tinzinho! Trazia umas muletinhas, e suas
pernas eram sustentadas por um aparelho de metal.”

Nesta véspera de Natal, como fazia de hábito, o sobrinho de Scrooge, Fred, veio a sua loja para convidado-lo para comemorar o Natal com sua família. Isso irritou Scrooge, que via no Natal uma grande besteira. Apesar disso, Fred, um homem alegre, otimista, não se abalou com a posição do tio.

Nessa mesma tarde, Scrooge recebeu a visita de um homem que pedia doações para os necessitados. Scrooge não lhe deu ouvidos, dizendo que não daria nada. Pois, nada tinha a ver com isso, os necessitados que fossem para a prisão ou asilos.

Nessa noite, Scrooge recebe uma estranha visita. Era seu antigo sócio que havia falecido 7 anos antes. Marley tinha preso a si correntes e nessas correntes estavam livros e cadernos, iguais aos que usava quando trabalhava. Marley contou a Scrooge, que ele estava condenado a arrastar aquelas correntes devido a vida que ele viveu. Mas, ele disse que para Scrooge ainda haveria uma chance, pois, naquela noite ele seria visitado por 3 espíritos do Natal.

O primeiro espirito se apresentou a Scrooge, conforme havia sido dito por Marley. O primeiro Espírito se apresentou como o Espirito dos Natais passados. Ele levaria Scrooge visitar alguns locais.

Primeiro, o espírito o levou ao colégio interno onde estudava e, onde passava os feriados e o natal sozinho.

Depois, levou ao ano em que sua irmã levou a noticia que ele não passaria o natal sozinho mais. Com essa visão, o espirito lembrou a Scrooge de sua querida irmã, que morreu cedo. Deixando apenas seu único sobrinho, Fred, deixou-o constrangido.

O espirito passou por cenas de sua juventude, até leva-lo a ver sua ex-noiva, a quem perdeu por ter se deixado levar pelo dinheiro. O espirito o levou a ver sua antiga amada, que se casou e teve filhos com outro homem, enquanto Scrooge vivia em função do dinheiro.

Após, a visita ao passado, apareceu em seu quarto o segundo espirito, o Espirito do Natal Presente, que o levou para passear (invisível) pela cidade.

A primeira parada foi na casa de Bob Cratchit, onde ele pode ver a família e a modesta ceia de natal de seu fiel funcionário. Toma conhecimento do problema do “Tinzinho”, filho de Bob, que tinha problemas de saúde e deficiência física.

Muito surpreendeu Scrooge quando no momento de levantar o brinde.

Subitamente, ergueu os olhos ao ouvir pronunciar seu nome.
– À saúde do senhor Scrooge! dizia Bob. A saúde de meu patrão, graças ao qual estamos hoje em festa! (…)

É preciso, de fato, que seja dia de Natal, replicou a mulher, para que se beba à saúde de um homem tão detestável, ladrão, cruel e sem coração como o senhor Scrooge. (…)- Se eu beber à saúde dele; será só por você e por ser dia de Natal, mas não por ele mesmo.

Em seguida, o Espirito o levou a casa de seu sobrinho Fred, que bebia, jogava e se divertia com a família. Quando veio o assunto do encontro de entre ele e Scrooge. Ele dizia, que seu propósito seria todos os anos convidar o tio para jantar com eles. Por fim, após muita conversa, Fred, levanta o brinde.

Assim, pois, à saúde do tio Scrooge!
– ótimo! A saúde do tio Scrooge!exclamaram todos.
– Um feliz Natal e um feliz ano novo a este querido cavalheiro! exclamou o sobrinho de Scrooge. Que este voto, que ele não aceitará de mim, possa ser para ele o portador de mil felicidades! Portanto, à saúde do tio Scrooge!

Após visitar seu sobrinho, Scrooge foi levado para casa, onde Scrooge aguardou a terceira visita. O terceiro espirito era uma figura sombria, encapuzada, não falava, apenas apontava o caminho. Era o espirito dos natais futuros. O espirito o levou pelas ruas da cidade, até a bolsa, onde ouviu conhecidos conversando sobre alguém que havia falecido, mas, que ninguém tinha interesse em ir ao velório.Posteriormente, o levou a uma cabana, onde pessoas falavam de um morto, do qual haviam saqueado seus bens. Scrooge foi levado ate o quarto onde estava o morto do qual falavam, mas, ele não teve coragem de levantar os lençóis que o cobriram Scrooge pediu para que o espirito o levasse para algum lugar onde alguém tivesse alguma emoção pelo morto, o espirito o levou a um casal que tinha dívidas com o  morto, a emoção que ele viu foi de alegria, pois, o falecido era um credor impiedoso. Scrooge pediu que o levasse a um lugar onde houvesse uma expressão de doçura pelo morto. Ele foi levado por ruas conhecidas até a casa dos Cratchts, lá seu fiel empregado, ainda se lamentava por ter perdido também seu filho, o “Tinzinho”. Por fim, vendo que a hora avançava, Scrooge pede que o espirito revele quem era o morto. O espirito o leva até o cemitério e, entre os túmulos, numa lápide abandonada ele vê o seu próprio nome: Ebenezer Scrooge. Ele fica desesperado, pergunta se ainda há uma chance de mudar o futuro, mas, quando se deu por si, já estava no em seu quarto.

Ao verificar que estava no seu quarto, e perceber  e ainda tinha tempo afirmou:

Quero viver no passado, no presente e no futuro, repetiu Scrooge, saltando do leito. A lembrança dos três espíritos virá em meu auxílio para tanto.

Ao amanhecer no Natal, Scrooge se levantou tratou de começar a mudar sua vida, a partir das revelações dos espíritos do Natal. Agradecido por ter ainda chance viver, passou a ser simpático com as pessoas, mandou entregar um peru, para ao almoço de natal da família de Cratchit, ao encontrar o homens q lhe solicitaram uma doação, reviu sua posição e fez uma doação que assustou aos homens. Em seguida, se dirigiu a casa de seu sobrinho Fred, assustando a todos com sua presença, mas, ele aproveitou cada momento, desse dia de Natal. No dia seguinte, no trabalho, aumentou o salario de Bob Crachit, de quem se tornou não só um bom patrão, mas, um bom amigo.

Scrooge cumpriu a palavra, e ainda foi muito além. Fez tudo quanto havia resolvido fazer e ainda fez mais. Com referência ao pequeno Tini – que não morreu –, Scrooge foi para ele verdadeiramente um segundo pai. Em breve, tinha-se tornado o melhor amigo, o melhor patrão, o melhor homem que jamais se encontrou em nossa velha cidade ou em qualquer outra velha cidade.(…) Seu coração estava alegre e feliz, e isso lhe a bastava. Ele não teve relações com os espíritos, mas manteve a melhor das relações com seus semelhantes, e diziam mesmo que não havia nenhuma pessoa que festejasse com mais entusiasmo as festas de Natal”

Sintomas, Símbolos e Processo de individuação

Apesar de já ter visto os filmes, conhecer a história, ler o texto do Charles Dickens foi profundamente emocionante para mim. O texto de Dickens é atemporal, pois, fala da realidade da alma. Por isso, eu gostaria de ressaltar que o nosso objetivo não é analisar o texto, mas, nos analisar pelo texto. O texto permite que possamos olhar a nossa própria realidade e perceber o Scrooge que existe em cada um de nós. Todo texto ou material arquetípico nos serve como espelho para percebermos nossa própria existência.

E o que seria Scrooge em nossa vida? Seria um desenvolvimento unilateral da consciência. Isto é, é quando a consciência e as funções do Ego se identificam com um certo grupo de valores negligenciando os demais aspectos da totalidade da experiência psíquica. Esse fenômeno poderia ser explicado como “alguém que acredita ser apenas aquilo que gostaria de saber a respeito de si mesmo” (JUNG, 2000a, p. 145).

No caso do Scrooge, no conto de Dickens, ele se identificou com sua avareza, com o ganho de dinheiro, acreditando que não era nada mais que isso. Aparentemente, isso lhe era suficiente. Scrooge, em sua avareza, vivia como se numa ilha de solidão e conforto. Sim, conforto, afinal, era a realidade que ele se permitia viver e acreditava que era a única realidade que ele possuía. Devemos, entretanto, tomar cuidado de não identificar a unilateralidade com aspectos como “avareza” ou “dedicação excessivamente ao trabalho”, qualificando-a com o que a cultura classifica como negativo. Devemos compreender que toda identificação da consciência que negue a totalidade da vida é negativa. Mesmo que possamos associar com coisas positivas, p. ex., um pai que se dedica a todas atividades de sua igreja, colocando-a acima de sua vida familiar pode provocar a mesma situação de unilateralidade descrita acima.

A unilateralidade pode também ser compreendida como um desequilíbrio na dinâmica psíquica ou mesmo um entrave ao desenvolvimento do individuo. Esse desequilíbrio vai gerar no inconsciente uma tentativa reequilibrar o sistema. Essa tentativa de “chamar atenção da consciência” é expressa por meio de símbolos.

Segundo Jung,

“chamamos de símbolo um conceito, uma figura ou um nome que nos podem ser conhecidos em si, mas cujo conteúdo, emprego ou serventia são específicos ou estranhos, indicando um sentido oculto, obscuro e desconhecido.” (JUNG, 2000b, p.189)

Os símbolos possuem um significado desconhecido ou obscuro porque emergem do inconsciente, não são uma criação da consciência. Os símbolos se manifestam como uma tentativa de redirecionar ou modificar a atitude da consciência,  são “tentativas naturais de lançar uma ponte sobre o abismo muitas vezes profundo entre os opostos, e de equilibrar as diferenças que se manifestam na natureza contraditória de muitos símbolos.”(JUNG, 2000b, 259).O símbolo constitui um terceiro elemento, distinto da consciência e do inconsciente, de modo a tentar unificar essas duas instâncias. É importante compreendermos que o que chamamos de símbolo engloba praticamente todas as manifestações do inconsciente, tais como sonhos, atos falhos, chistes, sintomas. Por serem “naturais” isto é, por fazerem parte da organização psíquica natural do homem, os símbolos são compreendidos como uma expressão saudável da psique, mesmo que em sua manifestação possa gerar sofrimento ao Ego.

Geralmente falamos de sintomas quando nos referimos a uma determinada manifestação psíquica que perturba a consciência, indicando assim, uma neurose. De forma geral, Jung compreendia a neurose como um desequilíbrio, uma divisão na psique ocasionada principalmente pela atitude unilateral da consciência.

No caso a história os símbolos que indicam a dissociação de Scrooge são: fantasma de Marley e os  três espíritos do Natal. Apesar do fantasma de Marley ocupar um local secundário na narrativa, ele anuncia a unilateralidade e adverte acerca das consequências dos atos de Scrooge. Do mesmo modo, em nossa vida cotidiana temos “avisos” acerca de nossa unilateralidade, eles podem ser expressos por sonhos, “brincadeiras” de amigos e colegas sobre nossas atitudes, distanciamento de amizades. Muitas vezes, esses elementos anunciam a necessidade de mudança, e quando esses avisos são percebidos evita-se um mal maior.  Sendo mais específico na narrativa de Dickens, Marley anuncia o encontro com os espíritos. Em nossas vidas, esse anuncio já um fim de relacionamento(divórcio), perda do emprego, que antecedem a crise e/ou a explosão dos sintomas.  Muitas vezes não nos damos conta da vida que levamos até essa “primeira explosão” e identificamos como o “surgimento da neurose” nesse momento, não percebendo de todo o percurso anterior.

É nesse momento que os sintomas aparecem. No caso de Scrooge ele foi visitado por três espíritos do Natal.  Me chama profundamente atenção um dado importante, a data. O natal traz implícita a imagem do nascimento de Cristo, e, este nascimento, nos traz a imagem de um renascimento,  como o próprio Cristo afirmou “Necessário vos é nascer de novo.” (Jo. 3.7). Esse novo nascimento é o tema do conto de Dickens e reflete o processo de autorregulação psíquica, que produz  o que chamamos de neurose.

Na história de Scrooge, os espíritos de Natal indica três tempos: passado, presente e futuro. Vejamos, o que Jung fala acerca da neurose (ou dos sintomas neuróticos), no texto “A Situação Atual da Psicoterapia”

Na neurose encontra-se nosso maior amigo ou inimigo. Não se pode apreciá-lo o suficiente, a não ser que, por força do destino, alguém tenha uma atitude hostil perante a vida. (…)

O simbolismo neurótico é ambíguo; aponta ao mesmo tempo para trás e para frente, para cima e para baixo. Em geral, o para frente é mais importante do que o para trás, porque o futuro vem e o passado se vai. (…)O doente não deve aprender como se livrar da neurose, mas como suporta-la. A doença não é um peso supérfluo e, portanto, sem sentido, mas é ele mesmo; ele mesmo como o “outro” que, por comodismo infantil, por medo ou por outra razão qualquer, sempre procurou excluir. Desse modo, como afirma acertadamente FREUD,  fazemos do eu um “lugar de ansiedade”, o que nunca aconteceria se não nos defendêssemos neuroticamente contra nós mesmos. (…)

Não se deveria procurar saber como liquidar uma neurose, mas informar-se sobre o que ela significa, o que ela ensina, qual sua finalidade e sentido. Deveríamos aprender a ser-lhe gratos, caso contrário teremos um desencontro com ela e teremos perdido a oportunidade de conhecer quem realmente somos. Uma neurose estará realmente “liquidada” quando tiver liquidado a falsa atitude do eu.  Não é ela que é curada, mas ela que nos cura. (JUNG, 2000c, p.160-1) (grifos do autor)

Nesse contexto que eu sugiro que podemos pensar nos “espíritos do natal” sob a ótica dos sintomas. No texto de Dickens passa cena que Scrooge presenciou tanto no passado, presente e no futuro lhe causou profundo pesar. Cada cena lhe causava sofrimento, era angustiante ver a vida que não viveu, a vida não vivia e a impossibilidade futura. Isto, além de ver a responsabilidades por seus atos – ou pelos atos que deixou de realizar. Para Scrooge, a experiência com os espíritos correspondeu ao que Jung afirmou ser “a oportunidade de conhecer quem realmente somos.”

Os espíritos mostraram a Scrooge o que ele realmente era: com todo seu dinheiro, ele não passava pessoa pobre, solitária e miserável. Assim são nossos sintomas lançam diante de nossos olhos nossa vida, a vida que rejeitamos. Nossos medos, nossos inconfessos desejos (como nos fala Carlos Drummond de Andrade) que nos corroem a alma. Isso ocorre por necessidade psíquica. A unilateralidade patológica da consciência é uma violência contra o próprio individuo, pois, se não tratada pode significar a amputação de possibilidades de desenvolvimento e vida do individuo. A neurose é a psique gritando por socorro.

Na verdade, a neurose contém a psique da pessoa ou, ao menos, parte muito importante dela. (…) pois, na neurose está um pedaço ainda não desenvolvido da personalidade, parte precisa da psique sem a qual o homem está condenado a resignação, amargura e outras coisas hostis a vida. (JUNG, 2000c, p. 158)

Devemos observar que os sintomas de Scrooge, o levaram a considerar e desenvolver sua vida. Abrindo-o para a possibilidade que já havia em si mesmo. Os espíritos não sugeriram que fizesse nada, apenas, o confrontaram com sua própria vida. E, vendo a si mesmo, ele pode fazer novas escolhas.É como  Jung afirmou “Só aquilo que somos realmente tem o poder de curar-nos.” (Jung, 2001, p.54)

Assim, o sintoma é sempre uma tentativa de cura. Isto é, uma tentativa de modificação da postura, atitude ou unilateralidade excessiva, que se apresenta ao individuo como algo estranho a si mesmo. Sim, e é estranho, pois, o individuo já não se reconhece em sua própria vida. O símbolo/sintoma visa unificar, trazer o individuo ao dialogo, a negociação com sua própria realidade.

Esse processo de unificação, em tornar o individuo umindividuum em termos psicológicos, é o que Jung denominou processo de individuação. 

Individuação significa tornar-se um ser único, na medida em que por “individualidade” entendermos nossa singularidade mais íntima, última e incomparável, significando também que nos tornamos o nosso próprio si-mesmo.Podemos pois traduzir “individuação” como “tornar-se si-mesmo” (Verselbstung) ou “o realizar-se do si-mesmo” (Selbstverwirklichung) (…)

A individuação, no entanto, significa precisamente a realização melhor e mais completa das qualidades coletivas do ser humano; é a consideração adequada e não o esquecimento das peculiaridades individuais, o fator determinante de um melhor rendimento social. A singularidade de um indivíduo não deve ser compreendida como uma estranheza de sua substância ou de suas componentes, mas sim como uma combinação única, ou como uma diferenciação gradual de funções e faculdades que em si mesmas são universais. (…) A individuação, portanto, só pode significar um processo de desenvolvimento psicológico que faculte a realização das qualidades individuais dadas; em outras palavras, é um processo mediante o qual um homem se torna o ser único que de fato é. Com isto, não se torna “egoísta”, no sentido usual da palavra, mas procura realizar a peculiaridade do seu ser e isto, como dissemos, é totalmente diferente do egoísmo ou do individualismo. (JUNG, 2001, p. 49-50)

Assim, o processo de individuação é um processo natural, isto é, uma tendência natural da psique que visa o desenvolvimento individual e coletivo. Esta pode ser percebida no principio de Centroversão defendida por Neumann no processo de integração do  Ego, assim, como na Função Transcendente que visa unificar os opostos (consciente e inconsciente) formando um individuum.

No caso de Scrooge, o confronto com si mesmo, por meio das imagens dos espiritos do natal produziram uma atitude integradora, como ele afirma “Quero viver no passado, no presente e no futuro, repetiu Scrooge, saltando do leito. A lembrança dos três espíritos virá em meu auxílio para tanto.”  Viver a experiência do passado, presente e futuro significa viver a vida de forma integra, viver a existencia na plenitude do momento. Como o texto nos diz,

Em breve, tinha-se tornado o melhor amigo, o melhor patrão, o melhor homem que jamais se encontrou em nossa velha cidade ou em qualquer outra velha cidade, aldeia ou povoação do nosso velho mundo.

Alguns riram da mudança operada nele, mas ele os deixou rir e não se incomodou. Scrooge era bastante inteligente para compreender que nada de bom se passa em nosso planeta que não comece por provocar a hilaridade de certas pessoas. E como estas pessoas são destinadas a continuarem cegas, a Scrooge tanto fazia que elas manifestassem seus sentimentos por uma gargalhada ou por uma careta.  Seu coração estava alegre e feliz, e isso lhe a bastava.

A consideração adequada da realidade interior e exterior, isto é, das necessidades reais possibilitam que o individuo seja realmente uma “pessoa melhor”. Isso não significa que ela seja compreendida por todos, como o texto nos diz, alguns apenas acharam que ele enlouquera. Entretanto, o mais importante era viver a vida, fazer o necessário. De modo que ele pudesse se sentir inteiro, como o coração alegre e feliz. Isso não significa que deixou de ter problemas, mas, que ele os enfrentou considerando a totalidade de seu ser. Com a mudança da atitude da consciência, os sintomas não são mais necessários.

Ele não teve relações com os espíritos, mas manteve a melhor das relações com seus semelhantes, e diziam mesmo que não havia nenhuma pessoa que festejasse com mais entusiasmo as festas de Natal”

Não ter relações com os espiritos significa que eles não eram mais necessários. O natal era festejado como um simbolo vivo, um marco de reinicio. Não apenas uma data fixa, mas, um simbolo que seria vivido todos dos dias do ano, e todos os dias que de sua vida.

Olhando através do conto de Charles Dickens podemos ver a nossa realidade. Seja pelos sintomas, sonhos, eventos sincronisticos a psique sempre nos impele ao desenvolvimento, a uma consideração mais adequada de nossa vida interior e exterior. O processo de individuação não é sobrenatural ou mistico, é uma possibilidade concreta que se coloca diante de nós a cada escolha que fazemos. A busca pela integridade da alma deve ser uma constante.

Como esse post, é um post natalino, espero que todos possamos ouvir os espiritos do natal que atuam em nossas vidas. Que possamos compreender que no Scrooge que muitas vezes nos tornamos há uma possibilidade de vida vibrante. E que o Natal, data simbolizada pelo nascimento de Cristo, possa também nos inspirar a um novo nascimento.

Referências bibliográficas

JUNG, C.G. Natureza da Psique, Vozes:Petrópolis, 2000a.

JUNG, C.G. A vida Simbólica, Vozes: Petrópolis, 2000b

JUNG, C.G.  Civilização em Transição, Vozes:Petrópolis, 2000c.

JUNG, C.G. O Eu e o Inconsciente, Vozes: Petrópolis,2001.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

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Aspectos Gerais da Psicoterapia e Análise Junguiana – Parte III: Considerações sobre a Persona do Analista

(5 de julho de 2011)

Em outros post já falamos sobre o conceito de persona. Neste post, eu gostaria de ampliar um pouco a discussão acerca desse conceito.

Gostaria, então, de relembrar brevemente o conceito de persona resgatando a explicação dada pelo próprio Jung em entrevista ao Dr. Richard Evans.

Dr. Evans: Outro conceito ou idéia muito interessante em sua obra é a persona. Parece ser sumamente importante para a existência cotidiana do indivíduo. O senhor importar-se-ia de explicar um pouco mais detalhadamente como foi que elaborou esse termo,persona?

Dr. Jung: É um conceito prático de que precisamos para elucidar as relações das pessoas. Observei nos meus pacientes, sobretudo as pessoas que estão na vida pública, que têm uma certa maneira de se apresentar. Por exemplo, um médico. Ele tem uma maneira própria; apresenta-se de um modo característico e comporta-se como esperamos que um médico se comporte. Ele pode até identificar-se com isso e acreditar que é o que parece ser. Tem de aparecer de uma certa maneira, caso contrário, as pessoas não acreditarão que é médico. O mesmo acontece com um professor; também só espera que o seu comportamento seja tal que aceitemos a plausibilidade dele ser professor. Assim, a persona é, em parte, o resultado das exigências da sociedade.

Por outro lado, é o fruto de um compromisso com o que uma pessoa gosta de ser ou gosta de parecer que é. Observe-se, por exemplo, um pároco. Ele também tem a sua maneira particular e, ó claro, vai ao encontro das expectativas gerais da sociedade; mas também se comporta de outra maneira que combina a sua persona com aquilo que a sociedade lhe impõe, de tal forma que a sua ficção de si mesmo, a sua idéia sobre si mesmo, é mais ou menos retratada ou representada.

Assim, a persona é um determinado sistema complexo de comportamento parcialmente ditado pela sociedade e parcialmente ditado pelas expectativas ou desejos que a pessoa alimenta sobre si mesma Ora, isso não é a personalidade real. Apesar do fato das pessoas garantirem que tudo isso é perfeitamente honesto e real, não é. Um tal desempenho da persona está muito certo, desde que se saiba que não é idêntico ao que parece ser; mas se se estiver inconsciente desse fato, então está-se condenado a entrar, por vezes, em conflitos muito desagradáveis. Por exemplo, as pessoas não deixarão de notar, que em casa, a pessoa é muito diferente do que parece ser em público. As pessoas que não sabem disso podem acabar cometendo tremendos Equívocos. Elas negam ser assim, mas são assim; é o que são. Então já não se sabe qual delas é o homem real. É o homem tal como como se conduz em casa ou em relações íntimas, ou é o homem que aparece em público?

É o dilema de Jekyll e Hyde. Ocasionalmente, é tão grande a diferença que quase poderíamos falar de uma dulpa personalidade; e, quanto mais pronunciada for essa diferença, mais as pessoas são neuróticas. Ficam neuróticas porque têm duas maneiras distintas de se comportar: contradizem-se o tempo todo e como, além disso, não têm consciência de de si mesmas, ignoram essas contradições. Pensam ser um todo uno e coeso, mas toda a gente vê que são duas. Alguns só conhecem um lado delas; outros só conhecem o outro lado. E depois ocorrem situações que se chocam, porque a maneira como o indivíduo é gera certas situações com as pessoas de suas relaçoes e essas duas situaçoes não condizem; de fato, elas são simplesmente desonestas, e quanto mais for esse o , caso mais as pessoas são neuróticas.(EVANS, S/D.78-9)

O termo persona foi retirado da máscara utilizada pelos atores do teatro  greco-romano utilizavam. A imagem representacional isto é, amáscara é especialmente significativa  para compreendermos essa dinâminca psíquica. Devemos compreender alguns pontos:

a) a persona é uma estrutura cuja a dinâmica é limiar : o campo de atuação da persona é o limiar entre o individuo e o social. Ela indica um limite, uma zona de interseção que, por um lado, atende as exigências tanto do sociais quanto as exigências ou necessidades do individuo na relação com o social. Em geral, podemos relacionar a persona ao pacto social, ao relação do individuo com a sociedade.

b) a persona é uma estrutura bilateral: A persona, como uma máscara, possui sempre a dupla função de esconder e revelar. Não devemos compreender a persona ou a máscara como um falseamento do individuo, mas, como uma estrutura legítima da personalidade que revela aspectos reais do individuo – apesar de parciais. Como Jung explicitou na citação acima “Assim, a persona é um determinado sistema complexo de comportamento parcialmente ditado pela sociedade e parcialmente ditado pelas expectativas ou desejos que a pessoa alimenta sobre si mesma “ Assim, se por um lado, a persona representa as imposições sociais, os papéis sociais que todos devemos desempenhar, por outro lado, a persona é o veiculo pelo qual o individuo pode ser realizar no campo social.

c) A persona é uma estrutura defensiva: Não podemos perder de vista que a persona é uma estrutura que defende o individuo do assédio do mundo exterior. Uma vez que corresponde a um aspecto parcial da vida do individuo, os ataques realizados ao indivíduos, são recebidos pela persona, isto é, são recebidos como um ataque a um aspecto do individuo, não a totalidade, ou ao individuo integral. Por isto, podemos traçar um paralelo, identificando a persona com o falso Self de Winnicott.

d) A persona é uma estrutura de adaptação: A persona corresponde ao aspecto adaptativo do Self.  A persona possibilita que o Self se constele de forma adequada no mundo. A persona revela o Self ao mundo. Por isso, é importante compreender que a persona é a ponte entre o mundo interior e exterior, assim, a persona é o elemento do Self que possibilita que o individuo seja ele-mesmo-no-mundo.

Certa vez, ouvi uma interpretação equivocada acerca da persona baseada numa má compreensão do texto de Jung, no “O eu e o Inconsciente”, nele Jung afirma que a “ meta da individuação não é outra senão a de despojar o si-mesmo dos invólucros falsos da persona, assim como do poder sugestivo das imagens primordiais” (2000, p.61).  Onde, disseram que a “persona” era falsa ou que deveríamos nos “desfazer” da persona. Na verdade, devemos compreender como “invólucros falsos” como as identificações do ego com  a persona, na qual, o individuo  diminui o contato consigo mesmo em função de uma adaptação excessiva ao mundo exterior. Onde a pessoa passa desempenhar o seu papel social (seja sua função familiar ou profissional), vivendo esse recorte de sua existência como se fosse sua totalidade.

Mas, como pensar a persona do analista?

Quando compreendemos os diferentes aspectos da persona, podemos compreender que a persona estará relacionada por um lado, com as representações sociais, com as exigências éticas da profissão, a postura exigida pela abordagem, todos esses elementos constituem o aspecto exterior da persona. Por outro lado, escolha da abordagem, a constituição do setting, a postura adotada pelo psicoterapeuta, constituem o aspecto interior ou pessoal da persona do analista.

Esses elementos são fundamentais para o analista ou psicoterapeuta poder se comunicar com o seu cliente. A persona é sempre um instrumento de comunicação, e será adequada na mesma medida da integridade do analista.

Devemos tomar cuidado, ao dizer que “a persona do analista”  se caracteriza pela “neutralidade”. A neutralidade é uma ilusão, pois, quando estamos diante de uma pessoa já influenciamos ou somos influenciados por esta pessoa. O que caracteriza a persona do analista é uma disponibilidade, uma abertura ao outro. Onde, nesta relação, a minha totalidade se disponibiliza a este outro que se encontra na minha frente.

Um psicólogo ou analista ciente de sua função terapêutica, cuja relação consigo mesmo é saudável, compreendendo a complexidade da relação terapêutica, não teria dificuldades no desenvolvimento de uma persona adequada, que revela o que é necessário ao processo terapêutico. Isto é, a persona do analista não deve ser compreendida como um “escudo”, mas, como uma ponte, que estabelecida de forma adequada não esconde nada, muito pelo contrario, apenas revela o que é necessário a relação terapêutica.

Certa vez, num encontro com os alunos do instituto Jung de Zurique, Jung respondeu a um aluno,

Muito mais forte do que suas frágeis palavras é a coisa que você é. O paciente está impregnado pelo que você é – pelo seu ser real – e presta pouca atenção ao que você diz. (…) Cada passo em frente que o paciente dá pode ser uma nova etapa para o analista. Não se pode estar com alguém sem ser influenciado por essa personalidade, mas o mais provável é que se não se perceba isso; (HULL, McGUIRE, 1984, p. 332)

Infelizmente, muitos confundem frieza ou distância com a neutralidade ou com uma chamada “postura ética”.

Devemos nos voltar para a ultima citação de Jung, pois, nela há uma informação fundamental, ele nos alerta que o Self se revela independente da persona ou do papel que persona se  desempenha. Obviamente, a forma mais adequada seria o Self se revelar através da persona. Então, devemos pensar o que revelamos quando utilizamos da persona para nos esconder?

Algumas expressões fazem parte do nosso “dialeto psicológico” como “fazer cara de geladeira branca”, “Cara de Mona Lisa”, “cara de paisagem” dentre outras que indicam uma certa atitude do psicoterapeuta em não se implicar pessoalmente num dado momento do tratamento.  Em alguns momentos essas expressões de silencio podem ser realmente necessárias, contudo, não podemos fazer dessa atitude uma constante.

Sustentar a persona de analista significa compreender que a persona é o meio mais adequado por onde a totalidade psíquica do analista se faz presente, da forma mais adequada e terapêutica. Assim, a persona não deve ser compreendida como um escudo, mas, como uma ponte que tornará a relação terapêutica viável. É compreender que a persona não deve esconder, mas, revelar o aspecto necessário do terapeuta para que a relação analítica possa se desenvolver. Sustentar a persona, significa, por outro lado, sustentar o dialogo com a própria o próprio inconsciente. Por isso Jung dizia que,

Todo psicoterapeuta não só tem seu método: ele próprio é esse método. Ars totum requirit hominem”[a arte exige o homem inteiro] diz um velho mestre. O grande fator de cura, na psicoterapia é a personalidade do médico – esta não é dada “a priori”; conquista-se com muito esforço, mas não é um esquema doutrinário. As teorias são inevitáveis, mas, não passam de meios auxiliares.(JUNG, 1999b, 84)

Deste modo, deve-se compreender que a persona deve refletir o Self do analista, e não reproduzir uma postura teórica, fria e engessada.

Referências bibliográficas

EVANS,R.Entrevistas com Jung e as Reações de Ernest Jones. Rio de janeiro:eldorado,1973

McGUIRE, W.; HULL, R.F.C, C.G.JUNG: ENTREVISTAS E ENCONTROS, Cultrix: São Paulo, 1984.

JUNG, Carl Gustav. O eu e o inconsciente. Petrópolis: Vozes, 1999 

JUNG, A pratica da psicoterapia, Petropolis: Vozes, 7ed. 1999b.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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18 de Maio – Dia da Luta Antimanicomial : uma homenagem a Nise da Silveira

 

(17 de maio de 2011)

No Brasil, o dia 18 de maio é comemorado o dia da luta antimanicomial, um dia onde profissionais da área de saúde mental, estudantes, pacientes e familiares promovem  discussões e manifestações buscando promover  a valorização da vida, cidadania, dignidade e respeito aos portadores de transtornos mentais; e combater o modelo de internação psiquiátrica que promove a segregação e estigmatização dos pacientes, que ainda persiste em nosso país.

Frente a importância e a mobilização deste dia 18 de maio, eu acredito ser importante relembrar e prestar uma homenagem a uma importante personagem da luta pela vida e dignidade dos pacientes psiquiátricos que foi a  Dra.Nise da Silveira.clip_image001

Duas palavras nos ajudam a caracterizar seu trabalho  : Amor e Pioneirismo.  O amor foi a tônica de sua vida, facilmente percebido pela dedicação aos pacientes, que a levou a um pioneirismo sem precedentes em nosso país. Mais de 50 anos antes do “Movimento dos Trabalhadores de Saúde Mental” em 18 de maio de 1987 (marco da luta antimanicomial no Brasil), e cerca de 20 anos antes do inicio do trabalho de Franco Baságlia, a dra.Nise da Silveira iniciou seu caminho na luta pela dignidade e cidadania dos pacientes psiquiátricos.

 

uma lição de vida

Nise da Silveira nasceu em 15 de fevereiro de 1905, em Maceió, Alagoas. Seu pai, Faustino Magalhães Silveira, era professor e jornalista, sua infância foi marca pela presença de artistas e intelectuais em sua casa.

Aos 15 anos, em 1920,  Nise da Silveira ingressou na Faculdade de Medicina em Salvador, Segundo Motta(2005), ela era a única mulher numa turma de 157 homens além de ser a mais nova.

Após a morte do pai em 1927, Nise da Silveira mudou-se para o Rio de Janeiro, onde teve contato com pessoas importantes de nossa história, como Manuel Bandeira, e ingressou no partido comunista brasileiro.

Em 1933 iniciou sua carreira como psiquiatra no Hospital Pedro II. Em março de 1936, Nise da Silveira não era mais filiada ao partido comunista, mas, seu envolvimento com a ideologia socialista, presente em textos que se encontravam em seu quarto fez com que uma enfermeira do hospital a denunciasse.

Nise passou um ano e meio na prisão. Ficou presa com prisioneiras politicas como Olga Benário Prestes, Maria Werneck e Beatriz Bandeira. Apesar de não ter sido torturada, muitas de suas companheiras de prisão foram. Nise viveu o horror da prisão.

Em 1937, Nise foi libertada, temendo ser presa novamente, fugiu do Rio, passando pela Bahia, Pernambuco, Alagoas, e por fim Manaus, onde foi se encontrar com seu companheiro Mario Magalhães.

Somente em 1944, que Nise da Silveira pode voltar ao Rio e retomar o seu trabalho, “Nise foi readmitida no serviço público em abril de 1944 no Hospital Pedro II, do antigo Centro Psiquiátrico Nacional, no Engenho de Dentro”(MOTTA, 2005, p. 65)

Nesse período, além das experiências na prisão, outro fato marcou sua trajetória. Nise tomou conhecimento de um fato ocorrido após sua prisão.

Quando Nise trabalhava no Hospício Pedro II, na Praia Vermelha, ela recebia todas as manhãs uma paciente, chamada Luíza, que vinha lhe servir o café. Nise tinha muita dificuldade para entender o que era dito por aquela que a servia, devido ao quadro de esquizofrenia, caracterizado pela indiferença e embotamento afetivo, segundo os manuais da psiquiatria descritiva. Luíza ao saber da prisão da doutora para quem levava café todas as manhãs, deu uma surra na enfermeira que havia feito a denúncia contra Nise, demonstrando  sua capacidade de discernimento e manifestação de afeto, que contrariavam a nosologia  psiquiátrica tradicional. “Assim aprendi outra lição, que desmentia o que afirmavam os livros de psiquiatria
sobre os doentes mentais…os esquizofrênicos eram indiferentes e sem afeto…Eu não entendia nada do que ela falava, mas ela estava entendendo o que se passava” disse Nise sobre esse episódio (MOTTA, 2005, p.64)

Ao retomar seu trabalho, Nise descobriu que havia “novidades” no campo da psiquiatria. Motta nos relata que,

Em depoimento a este autor Nise conta que, durante seu afastamento do serviço público,

algumas coisas tinham se modificado e nesse meio tempo surgiu o que se dizia como a grande descoberta no tratamento para doenças mentais, o eletrochoque. Prontamente o doutor a quem eu acompanhava em visita ao hospital disse, com muita disposição, que iria me ensinar a grande novidade. Chamou um paciente e, dizendo que eu aprenderia com facilidade aquela  simples e revolucionária operação, acionou o aparelho. Eu não havia sido torturada nos meus tempos de cárcere, mas pude ouvir os gritos de sofrimento de vários companheiros. O médico chamou então outro paciente e disse para mim:
– Viu Nise como é fácil! É só apertar o botão.
Eu havia visto o sofrimento do paciente na primeira demonstração. Olhei para o psiquiatra e disse que não faria aquilo. Ele ainda tentou me convencer das maravilhas daquela engenhoca, mas firmemente eu recusei.
(Motta, 1995)
Nise chegou a fazer uso de um dos novos recursos da psiquiatria, quando aplicou um choque de insulina em uma  paciente e relata  que “a mulher não acordava. Aflita, apliquei-lhe soro glicosado na veia e nada da mulher acordar. Tentei de novo, até que consegui. Aí disse – Nunca mais.”(…) (MOTTA, 2005, p. 66-7)

Contraria as práticas que estavam se popularizando na psiquiatria, Nise da Silveira foi conversar com o diretor do hospital, Paulo Elejalde, que propôs  o Serviço de Terapêutica Ocupacional para Nise, Segundo ela,

“Aceitei a indicação do doutor Elejalde, mas antes que ele saísse, interrompendo no ar o seu movimento de meia volta, disse-lhe com o dedo em riste e um brilho maroto  nos  olhos:  –    Eu  irei  para o Setor de Terapêutica Ocupacional mas…ele vai mudar!” (Motta, 1995).

Sob a orientação de Nise, iniciaram as primeiras oficinas de bordado e costura. Em 1946, iniciaram as oficinas de pintura e desenho, e, já em 1947, ocorreu a primeira exposição dos artistas internos de Engenho de Dentro. A segunda exposição veio a ocorrer em 1949, com trabalhos slecionados por Leon Degand, diretor do Museu arte moderna de são paulo.clip_image002

No início dos anos 50, Nise da Silveira fundou o “Museu Imagens do Inconsciente” para poder reunir o trabalho dos pacientes e poder estuda-los.  Seu  trabalho e suas pesquisas a aproximam da obra de C.G.Jung, em especial do livro “Psicologia e Alquimia”, que fora publicado em 1943. Comparando as mandalas reproduzidas no livro  com as mandalas produzidas pelos pacientes. Nise da Silveira optou por enviar uma carta, em 1954, a Jung, com fotos das produções dos pacientes. Jung respondeu a carta, muito interessado e perguntava informações sobre os autores. Em 1956, Nise da Silveira buscou informações sobre a possibilidade de participar de cursos em Zurique, recebeu a seguinte mensagem:

Senhores, O professor C.G. Jung convida a doutora Nise da Silveira a fazer parte, no semestre de verão  de 1957, do Instituto C.G. Jung de Zurique. Os cursos, os seminários e o contato com meus colaboradores serão de grande importância para  a preparação da exposição de arte psicopatológica, que deverá ser organizada em ocasião do Congresso Internacional de psiquiatria que se realizará em Zurique no ano de 1957. Eu ficaria contente se através da visita da doutora Nise da Silveira, o contato entre os profissionais do Brasil e da Suíça pudesse se aprofundar. Certamente esse encontro será importante par ao futuro da psicologia e da psiquiatria. (em MELLO apud MOTTA  2005, p. 72).

Assim, Nise da Silveira iniciou seu percurso com pioneira da psicologia analítica no Brasil. A partir de seu grupo de estudo, a psicologia analítica começou a se desenvolver no Brasil.

Em 1968, Nise da Silveira publicou seu primeiro livro “Jung: vida e obra” um marco na história da psicologia analítica brasileira, sendo considerado até nossos dias uma das melhores introduções ao pensamento junguiano.

Motta nos conta que o cuidado de Nise da Silveira era tamanho com as atividades do museu imagens do inconsciente, que

Aos 70 anos, em 1975, Nise teve a  sua aposentadoria compulsória no serviço público. Apesar da  idade mantinha o espírito alerta de modo que, no dia seguinte, apareceu no Museu apresentando-se como a mais  nova estagiária. Receosa com as ameaças que o acervo do Museu vinha sofrendo, organizou a Sociedade de Amigos do Museu de Imagens do Inconsciente, que em sua primeira iniciativa apoiou o evento do centenário do nascimento de Jung, que foi amplamente comemorado no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Belo Horizonte. O nome  de  Nise  da  Silveira  já  estava  consagrado como a principal divulgadora da psicologia analítica no Brasil (MOTTA, 2005, p. 74)

Nise da Silveria viria a produzir intensamente em suas ultima décadas. Publicando os livros :

Jung Vida e Obra – 1968

Terapêutica Ocupacional – Teoria e Prática, 1979

Os Cavalos de Octávio Ignácio (Organização), 1980 –

Coleção Museus Brasileiros Vol. 2 – Museu de Imagens do Inconsciente, 1980

Imagens do Inconsciente, 1981

Casa das Palmeiras: A emoção de lidar Coordenação e prefácio de uma experiência em psiquiatria, 1986.

A Farra do Boi, 1989

Artaud – a nostalgia do mais, 1989

Cartas a Spinoza, 1990

O Mundo das Imagens, 1992

Gatos: A Emoção de Lidar, 1998

Vários foram os prêmios e homenagens que Nise da Silveira recebeu ao longo de sua trajetória, Motta enumerou esse reconhecimento,

Em 1971 recebe o troféu Golfinho de Ouro do Museu da Imagem e do Som do Estado da Guanabara.

Figura entre as 10 (dez) mulheres do ano em 1973,escolhidas pelo Conselho Nacional de Mulheres do Brasil.

Recebe homenagem do Conselho Regional de Medicina como representante da área de psiquiatria em 19.12.74.

Recebe o Prêmio Personalidade Global Feminina correspondente ao ano de 1974, conferido pelo jornal O GLOBO e REDE GLOBO DE TELEVISÃO.

Em 1975 recebe a medalha do Estado da Guanabara, conferida pelo Governador Chagas Freitas, por serviços prestados à cidade-estado da Guanabara.

1981, Medalha de Mérito Oswaldo Cruz, na Categoria Ouro, concedida pelo Presidente da República João Batista de Figueiredo e Ministro da Saúde Waldir Mendes Arcoverde. Decreto de 14 de abril de 1981.

Comenda Desembargador Mário Guimarães, outorgada pela Assembléia Legislativa do Estado de Alagoas em 1983.

“Benemérito do Estado do Rio de Janeiro”, título concedido pela Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro – 1984.

Ordem do Mérito dos Palmares no grau de Comendador, outorgado pelo Governador do Estado de Alagoas, Grão-Mestre daquela Ordem. – 1985.

Comenda Desembargador Mário Guimarães, concedida pela Câmara Municipal de Maceió – 1987.

Condecorada com a Ordem do Rio Branco no Grau de Oficial, pelo Ministério das Relações Exteriores, em 13 de maio de 1987.139

Homenagem especial da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, em comemoração ao Dia do Médico – 16 de outubro de 1987

Título de Professor “Honoris Causa”, da Escola de Ciências Médicas de Alagoas – 4 de março de 1988

Título de Professor “Honoris Causa” pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) em abril de 1988.

Medalha do Mérito da Fundação Joaquim Nabuco de Recife (PE) em 1989.

Sócia Honorária da Sociedade de Medicina de Alagoas, em 1989

Medalha Peregrino Júnior da União Brasileira de Escritores em 1992.

Prêmio Personalidade do Ano de 1992, da Associação Brasileira de Críticos de Arte.

Medalha Chico Mendes outorgada pelo grupo Tortura Nunca Mais, em 1993.

Ordem Nacional do Mérito Educativo no grau de Comendador, pelo Ministério da Educação e do Desporto da Presidência da República em 1993.

Prêmio Hors Concours (gênero ensaio) do Concurso Prêmio Alejandro José Cabassa da União Brasileira de Escritores, em 1994.

Prêmio Carmem da Silva – Colóquio das Mulheres Fluminenses, 1995.

Homenagem do Centro Mario Schenberg de Documentação da Pesquisa em Artes – USP – 1996

Associação Médica do Rio de Janeiro – Dia Internacional da Mulher – 1997

Homenagem da Associação Médica de Alagoas – 1997

Homenagem no II Encontro Nacional de Serviço Social e Seguridade. – Porto Alegre, 2000 (MOTTA, 2005, 138-9)

NIse da Silveira faleceu em 30 de outubro de 1999, aos 94 anos.

Sua trajetória foi realmente um exemplo vivo de amor pela vida e respeito pela diferença. Nise compreendeu que os pacientes psiquiátricos eram indivíduos que mereciam respeito e amor. A partir de suas experiências na prisão ela pode sentir na própria pele o que os pacientes sentiam em sua realidade. Nise da Silveira foi uma das primeiras vozes no Brasil a se levantar contra  o Eletrochoque, Lobotomia e choque insulínico e propor uma alternativa que valorizava a vida dos pacientes.

Em 1956, Dra. Nise da Silveira funda a Casa das Palmeiras, uma instituição pioneira,  aberta, voltada para oferecer um espaço humanizado onde os clientes podem realizar espontamente trabalhos expressivos, de forma a facilitar sua relação com os vários aspectos de sua vida.

Nise da Silveira é um exemplo de vida e de luta. Sua militância no campo da saúde mental é um legado que não podemos esquecer.

Sites importantes para serem visitados:

http://casadaspalmeiras.blogspot.com/  –

http://www.museuimagensdoinconsciente.org.br/

Referências bibliográficas:

MOTTA, Arnaldo Alves Psicologia Analítica no Brasil; contribuições para a sua história, São Paulo: PUC, Tese de mestrado, 2005.

(As informações de Nise da Silveria e outros pioneiros da psicologia analíltica podem ser encontrados no livro “As raízes da Psicoogia analítica noBrasi” de Arnaldo Motta. Casa do Psicólogo, 2009).

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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Aspectos Gerais da Psicoterapia e Análise Junguiana – Parte II : A sombra do analista

(2 de Maio de 2011)

Há alguns meses venho gestando este post, pois, a formação de novos psicoterapeutas vem se tornando um tema que tem me feito pensar nos últimos tempos. Muitas vezes, ao falar da formação do psicoterapeuta ou analista, enfatizamos os aspectos necessários a prática e constituição da persona profissional. Contudo, muitas vezes não falamos acerca da sombra que pode envolver esse processo.

O tema da sombra do analista é uma constante em meus pensamentos deste que eu li o livro de Adolf Guggenbühl-Craig, analista junguiano e ex-presidente da IAAP, falecido em 2008, “O Abuso do Poder na Psicoterapia…” no qual o autor discute acerca a sombra dos profissionais que trabalham com “ajuda”.

Não pretendo fazer uma resenha do livro, apenas ressaltar alguns aspectos que me chamam atenção, mas, que certamente servem para indicar a leitura desse importante livro.

Guggenbhül-Craig traça alguns paralelos entre as profissões que visam “ajudar” os indivíduos. Devemos considerar que o oficio ou exercício dessas “profissões de ajuda” emergem de um mesmo solo arquetípico. Para traçar alguns aspectos da sombra do analista, ele, faz um paralelo do analista com o sacerdote, ele afirma que

A sombra do analista se amplia ainda mais devido ao denominador comum existente entre seu oficio e o do sacerdote. Nós analistas, qualquer seja nossa orientação, não defendemos uma fé específica ou uma religião organizada; mas, como o sacerdote, quase sempre recomendamos uma atitude básica frente a vida. Não representamos uma filosofia, mas uma psicologia que abraçamos por convicção, visto que tanto em nossa vida como em nossa própria análise tivemos experiências que nos persuadiram e nos formaram em termos dessa psicologia. O analista junguiano, por exemplo, é alguém que viveu um profundo abalo produzido pela confrontação com o irracional e o inconsciente. Entretanto, poucos insights psicológicos podem ser estatisticamente provados no sentido empírico, só podendo ser confirmados pelo testemunho honesto e sincero dos que se empenham na mesma busca. (…) Sob este aspecto, encontramo-nos em posição similar à do sacerdote. Mas essa extremada confiança na própria experiência pessoal ou alheia, inevitavelmente dá margem a sérias dúvidas. (…) Será que somos capazes de admitir essas dúvidas para nós mesmos e para o resto do mundo? Ou será que nós psicoterapeutas fazemos com nossas próprias dúvidas e medos o que faz o sacerdote, suprimindo-os e pondo uma pedra em cima?

Da mesma forma que o sacerdote, trabalhamos com nossa alma, nosso ser; os métodos, as técnicas e o aparato utilizado são secundários. Nós, nossa honestidade e autenticidade, nosso contato pessoal com o inconsciente e o irracional – são esses nossos instrumentos. É grande a pressão que sofremos para apresentá-los melhores do que são; mas nesse caso, tornamo-nos vitima da sombra do psicoterapeuta(p. 37-38)

O texto de Guggenbuhl-Craig toca num aspecto delicado, que é a perspectiva epistemológica, pois, muitos críticos do pensamento junguiano ou mesmo das práticas analíticas em geral, criticam o fato de a análise não pode ser considerada científica. Não perderei tempo entrando em discussões epistemológicas, afinal, todo e qualquer pessoa que já se submeteu ao processo psicoterapêutico ou mesmo exerce a psicoterapia, tem clareza que há mais envolvido no processo do que puramente o uso de “técnica” científica. A prática da psicoterapia exige muito mais que um conhecimento técnico exige a pessoa do analista por inteiro. Assim como na antiga alquimia, os alquimistas já declaravam que “ars totum requirit hominem” a arte exige o homem inteiro, a psicoterapia faz a mesma exigência.

Os conceitos acerca do inconsciente se baseiam no princípio da experiência imediata com os fenômenos inconscientes, isto é, na descrição metodológica e sistemática dos fenômenos inconscientes. A esse respeito, Jung, em 1938, na conferência acerca da vida simbólica ele afirma “Nossa ciência é fenomenologia. No século XIX a ciência trabalhava na ilusão de que ela podia estabelecer uma verdade. Nenhuma ciência pode estabelecer uma verdade.” (JUNG, 2000, p.) No máximo podemos fazer aproximações ao fenômeno, através de descrições o mais honestas possíveis. Neste ponto, temos o elemento fundamental que une a construção teórica e a prática clínica : honestidade.

A honestidade é fundamental no processo psicoterapêutico. Entretanto, devemos ter clareza que a honestidade, que fundamenta a ética profissional, começa na pessoa do analista ou psicoterapeuta, isto é, a honestidade começa na relação pessoal do analista/terapeuta com ele mesmo. Assim, é fundamental que o analista seja capaz de suportar suas próprias contradições, tensões internas, dúvidas de forma sincera e consciente, pois, se o analista não suportar em si a tensão dos opostos que nos constituem, como ele poderá auxiliar o cliente nessa empreitada?

De forma geral, os psicólogos são exigidos socialmente a uma persona de compreensão, clareza, solicitude, bondade. Sendo exigido, na maioria das vezes, “ser” ou tentar “ser melhor do que se é” ou “se apresentar de modo diferente do que se é”. O que se configura uma enorme armadilha.

Como sempre repetia C.G.Jung, sempre que um conteúdo luminoso se instala na consciência, seu oposto se constela no inconsciente e procura atrapalhar a partir dessa posição estratégica. O médico se torna um charlatão exatamente por querer curar o maior número possível de pessoas; o sacerdote se torna um hipócrita por querer converter as pessoas à verdadeira fé; o psicoterapeuta se torna um charlatão e um falso profeta apesar de trabalhar dia e noite para ampliar sua consciência. (p. 42)

Pode até parecer pessimismo, contudo, o fundamental é compreender que este risco de ser “tomado pela sombra”, está relacionado idealização ou inflação da persona de analista. Isso não significa que o analista não deva buscar seu desenvolvimento, muito pelo contrario. Mas, o desenvolvimento do analista passa necessariamente pelo reconhecimento de suas imperfeições. Conhecer a si mesmo, crescer internamente, significa, sobretudo, viver a própria vida em toda sua extensão.

Pode até parecer bobo ou óbvio, contudo, um fato que se torna um grande peso para os que optam pelo caminho da clínica psicológica é a solidão ou o isolamento. As exigências da vida profissional, podem, pouco a pouco, limitar a vida do profissional e deixa-lo cada vez mais submerso na em sua inconsciência de sua persona profissional.

Talvez o analista se absorva por completo no trabalho com seus pacientes, o que à primeira vista parece ótimo. Sua própria vida privada fica em segundo plano diante dos problemas e dificuldades das pessoas com quem trabalha. Mas isso pode levar a um ponto em que os pacientes, por assim dizer, passam de fato a viver pelo analista, o qual espera que estes preencham o vazio criado por sua perda de contato com o calor e dinamismo da vida. O analista já não tem seus próprios amigos; as amizades e inimizades dos pacientes são como que também suas. Sua vida sexual pode ficar raquítica, encontrando substituto nos problemas sexuais dos pacientes. Tendo escolhido uma profissão tão exigente, vê-se impedido de atingir uma posição política influente; sua energia é investida toda nas lutas politicas pelo poder de um paciente político. Desse modo, pouco a pouco deixa de viver uma vida própria, passando a contentar-se com a de seus pacientes. (p. 64-65)

Os exemplos do “deixar a própria vida” podem se multiplicar, como ignorar os rumos do próprio relacionamento, negligenciar sua própria realidade espiritual, evitar ambientes que possam “encontrar” pacientes dentre outros,a falta da vida real do analista vai gerar a necessidade de compensação no inconsciente, essa compensação é justamente por meio dessa contratransferência, onde, o analista passa a viver a vida dos pacientes. Imerso numa sombra nutrida por sua inconsciência acerca de sua própria persona de analista.

Antes de mais nada, esse tipo de situação é extremamente perigoso para o próprio analista. Seu desenvolvimento psíquico estanca. Mesmo em sua vida não-profissional, ele só poderá falar de seus pacientes e dos problemas que o afligem. Já não será capaz de amar e odiar, de investir a si próprio na vida, de lutar, ganhar ou perder. Sua própria vida afetiva torna-se um substituto. Agindo assim como um charlatão que sobrevive às custas de sues pacientes, o analista pode dar a impressão momentânea de estar florescendo psiquicamente. Mas, na verdade, estar perdendo a vitalidade e a originalidade criativa. (p. 65).

O esvaziamento da própria vida faz com que o profissional se esconda atrás da teoria. Racionalizando e teorizando a própria existência. De qualquer modo, se torna prejudicial ao cliente na medida que, inconscientemente, precisa dele, tornando-se incapaz de investir verdadeiramente no desenvolvimento do paciente. Sua ajuda será sempre insuficiente na medida em que não conseguir integralmente conceber o processo de desenvolvimento do cliente. Simplesmente, porque ele precisa do paciente. Nesse processo, consciente ou inconscientemente, pode reter o paciente em terapia por uma necessidade pessoal – que não podemos reduzir a necessidade financeira.

Nesse caso, o analista identificado com sua persona, onde ele equivocadamente se coloca no papel de “agente da saúde” ou da “cura”, irradiando uma “autoridade” e perfeição, que só pode ressaltar no paciente os aspectos mais frágeis de dependentes da personalidade do mesmo.

Mas, isso seria uma condenação? O exercício da psicoterapia seria destinado a essa experiência? Não. Em primeiro lugar, é importante frisar que o que foi dito aqui, não é uma regra, apenas, uma possibilidade que pode se colocar no caminho do psicoterapeuta. Devemos ter clareza que na posição de psicoterapeutas, somos nosso próprio instrumento. A totalidade de nosso ser é nosso instrumento.

Em muitos casos, o analista ainda é capaz de apreciar e sofrer devido ao dinamismo de sua própria vida chega a sentir a consciência pesada, achando que deveria interessar-se mais por seus pacientes. Mas, na verdade, a longo prazo, somente o analista apaixonadamente envolvido em sua própria vida poderá ajudar seus pacientes a encontrarem seu caminho. Nesse sentido é bastante verdade, como diz Jung, que o analista só pode dar a seus pacientes aquilo que possui. (p. 66)

Seria importante que cada estudante que se proponha ser “analista”, “psicoterapeuta” ou “psicólogo clínico”, compreenda que no processo de formação o estudo sistemático e a psicoterapia/analise individual, não pode estar dissociado com o dia a dia, com a vida vivida. Não se deve ver a análise ou o estudo como “burocracias” necessárias, mas, como elementos importantes para o desenvolvimento individual. Pois, como dizia Jung,”somente o que realmente somos tem o poder de curar-nos”, ao que eu acrescentaria, e de nos ajudar no processo de cura nossos clientes.

Referências bibliográficas

Guggenbuhl-CRAIG, Adolf. O abuso do poder na psicoterapia e na medicina, serviço social, Sacerdócio e Magistério. RJ, Achiamé, 1978.

JUNG, C.G. Vida Simbólica, Vozes, Petrópolis, 2000.

 

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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O Canto do Cisne: um breve comentário a comentários acerca do filme “Cisne Negro”

25 de março de 2011

Agradeço a colaboração de Kelly Guimarães Tristão (psicóloga, Mestranda em Psicologia/UFES, Especialista em “Teoria e Prática Junguiana” e em “Psicologia Clínica e da Família) que com seu conhecimento e experiência no campo da saúde mental contribuiu bastante para a elaboração das idéias deste post.

Após muitos contratempos, finalmente, consegui assistir ao filme “Cisne Negro”. Realmente, a atuação de Natalie Portman é brilhante. Sobre o filme, eu posso dizer apenas que é um filme mediano e, se não fosse a maravilhosa atuação de Natalie Portman, seria fadado ao esquecimento. Antes mesmo de ver o filme, eu cheguei a ler vários comentários acerca do filme abordando o mesmo pelos mais diferentes ângulos, muitos eram pautados na teoria junguiana. Confesso que alguns comentários me causaram profunda estranheza, pois focalizavam aspectos simbólicos que, de certa forma, distorcia o que era expresso no filme, chegando a comparar o processo psicótico apresentado no filme com o processo de individuação. Assim, o objetivo desse post é uma reflexão indireta e teórica do filme a partir de outros comentários.

Algumas pessoas podem objetar dizendo que um filme é um conteúdo simbólico, que pode ser abordado por diferentes ângulos e pontos de vista, tal qual um sonho. Por mais que eu concorde que não devamos ser radicais, eu prefiro a cautela, e me manter ao que é apresentado pelo filme, e não ao que “poderia ser” se observarmos os símbolos isoladamente, pois é como Jung afirma acerca dos sonhos,

“a imagem manifesta do sonho é o próprio sonho e contém o sonho por inteiro. Quando encontro açúcar na urina, é açúcar mesmo, e não uma “fachada” , um disfarce para albumina.(…) Sendo assim, não temos de interpretar o que poderia existir por trás, apenas temos que aprender a lê-lo primeiro. (JUNG, 1999, p. 20)

Assim vou me deter em apenas dois pontos: a questão psicose de Nina e a função da dança.

A Psicose de Nina

O filme retrata o processo de abertura do surto psicótico de Nina, quando esta é confrontada com uma realidade que excede seus limites, que é ser a protagonista do “Lago dos Cisnes”, interpretando tanto o Cisne Branco quanto o Cisne Negro. Contudo, devemos notar alguns detalhes, prévios que somados ao delírio e as alucinações nos permitem pensar que Nina, seria uma personagem psicótica.

– Relação familiar: A relação de Nina e sua mãe  apresenta características típicas e favoráveis à psicose, uma relação simbiótica e extremamente rígida e ambivalente. Nos primeiros minutos do filme percebemos como a mãe de Nina, “domina” a vida da filha, inclusive  “vestindo” a filha como se fosse uma criança. Ao longo do filme, podemos ver como ela pode ser simultaneamente “cuidadosa” e cruel (com suas exigências e cobranças ).

– Antes da crise se manifestar explicitamente, o filme mostra que Nina era uma jovem de 28 anos que vive num mundo infantilizado (como podemos observar no seu quarto), por outro lado, podemos notar que não há uma clareza a respeito  da identidade sexual, não me pareceu que  Nina possua dúvidas acerca de sua sexualidade, mas, que não foi desenvolvido.

A crise se manifesta justamente quando ela está sob forte pressão, da mãe, do diretor, dela mesma.  Que é consoante ao que geralmente acontece em casos de esquizofrenia , onde o surto se manifesta num momento de forte tensão emocional, como rompimento de relacionamento, vestibular, casamento, nascimento de filho.

O processo de Nina é condizente com um quadro de esquizofrenia paranóide, com sintomas positivos de alucinação visual e cenestésica.

Mas, por que pensar no quadro psicopatológico de Nina? Justamente, porque não podemos falar de conceitos de psicologia analítica sem considerar “a quem” estamos relacionando esse conceito. Especialmente quando falamos de processo de individuação.

Particularmente, eu acho que há um pouco de confusão no diz respeito do processo de individuação e a psicose. Em primeiro lugar, eu compreendo que o processo de individuação comporta dois níveis de compreensão:

a) o primeiro é o basal e compreende a dinâmica do Self, que visa a integração e auto-regulação psíquica. Este aspecto corresponde a manutenção da vida psíquica. E ocorre independente dos processos da consciência, podendo ser observado claramente através na busca da integração e organização mesmo em pacientes psicóticos.

b)  O segundo é um processo que envolve diretamente o desenvolvimento da personalidade, que podemos compreender como alinhamento do eixo ego-Self.  Nesse âmbito, falamos que envolve o confronto com o inconsciente e o desenvolvimento do potencial individuo.

Fazendo essa diferenciação, podemos dizer que, no geral, quando nos referimos ao processo de individuação, especialmente na vida adulta, estamos falando do processo de desenvolvimento da personalidade, onde, o Ego é confrontado tanto com a realidade interior quanto exterior. O desenvolvimento se dá, justamente quando o Ego tem força suficiente para suportar a tensão entre os opostos (mundo interior x mundo exterior; inconsciente x consciência ) de modo a atingir um equilíbrio dinâmico entre essas instâncias. No caso do individuo psicótico, a fragilidade do Ego impede esse desenvolvimento ocorra, justamente, por não ser capaz de suportar essa tensão, que geralmente ocasiona a invasão de conteúdos do inconsciente e/ou a ruptura com a realidade exterior.

Von Franz no diz, no livro Psicoterapia, “[…] o ego é como o olho do Si-mesmo,somente ele é capaz de ver e vivenciar como o Si-mesmo nasceu” (FRANZ, 1999, p.232).

Assim, no processo de individuação o Ego é elemento fundamental.

No filme, podemos perceber os elementos que geralmente discutimos acerca da individuação, como a persona, sombra, animus. Obviamente eles estão presentes porque a Nina é humana. Contudo,devemos observar sua função. Por exemplo, podemos falar que o Cisne Branco, como uma persona de Nina, sim, poderia ser uma representação da persona, contudo, devemos notar que a persona possui o papel de intermediar as relações do individuo com o meio exterior, de modo que, simultaneamente, auxilia o Ego na adequação as demandas sociais e protege o Ego dessas exigências do meio, pois, as exigências não são feitas ao Ego, mas, ao papel que este representa. No caso da Nina, a persona não era  inadaptada, pois há uma identificação com o papel/função de bailarina, quanto essas exigências afetam diretamente o Ego, que fica profundamente abalado com “necessidade” ser a bailarina perfeita.

Outro aspecto, é a sombra. A sombra também comporta diferentes níveis de compreensão, podendo ser a “sombra do Ego”, isto é, vislumbrando os aspectos não desenvolvidos relacionados a identidade do Ego, pode ser a “sombra enquanto personificação do inconsciente”, e, comporta uma compreensão arquetípica, como personificação do Mal.

No caso da Nina, não consigo compreender uma sombra pessoal, derivada dos aspectos não desenvolvidos do Ego, visto que a identidade dela é comprometida pela relação simbiótica com a mãe. Devemos notar, também, que quando a personagem Lily se torna a “rival”, não há uma projeção da sombra, pelo contrário, há uma introjeção da imagem Lily, que passa ser ativa no delírio e nas alucinações de Nina, não como uma projeção mas, como uma personificação da sombra, pois Lily, somente é uma ameaça no delírio de Nina.

É importante termos em mente que o processo da função transcendente, isto é, da integração da consciência e do inconsciente por meio dos símbolos, depende do Ego como referência na consciência, para elaborar e assimilar os símbolos que emergiram do inconsciente.

A função da Dança

Alguém poderia perguntar “Porque ela não surtou antes”. Uma possível resposta é porque a dança contribuia para o manter estável a delicada relação de Nina com seu inconsciente e com o mundo exterior.

A dança fornecia a Nina uma relação concreta com corpo, que permitia uma sensação de continência e limite necessários para manter sua organização e aderência a realidade. Por outro lado, a dança possibilitava que os desejos da mãe fossem satisfeitos de forma a não se tornarem mais um peso sobre Nina.

Podemos compreender que a dança era um símbolo para Nina, que permitia a relação entre o inconsciente e a consciência, de modo a dissipar o excesso de energia que pudesse potencializar os conteúdos inconscientes. Isso quer dizer, que Nina podia dar forma e expressar a tensão interior através da dança.

De forma geral, todas as expressões artísticas tem a capacidade de viabilizar/intermediar a relação entre consciência e o inconsciente, de modo a propiciar um mínimo de organização.  O trabalho de Dra. Nise da Silveira é o melhor exemplo de como a arte pode ser estruturante e organizadora para pacientes psiquiátricos.

Concluindo…

A psicologia analítica compreende o homem como um ser em contínuo desenvolvimento. A dinâmica da psique visa sempre a manutenção da vida. Contudo, devemos ter clareza e cuidado para não nos deixarmos levar pelo “otimismo junguiano” e, aplicar os conceitos junguianos sem se adequar a realidade a qual se aplica.

No caso da psicose, como é apresentada no filme, é necessário ter um cuidado a mais, pois, o paciente psicótico não experimenta o inconsciente como uma realidade simbólica, mas, como uma realidade objetiva. Isso significa, que devemos ter atenção, cuidado e respeito com o paciente em sua própria realidade. Para muitos, o final do filme foi uma incógnita se “Nina morre ou não”. Para mim, Nina morre – não como uma morte simbólica – mas, uma morte real. Não há uma “transformação” do Ego.

Devemos ter em mente que o paciente psicótico por vivenciar a realidade interior de forma objetiva, não fazendo uma distinção da realidade exterior, não percebe as situações como metáforas, mas, como realidade concreta. Dessa forma, a transformação de Nina no cisne negro, denuncia isso, ela era o cisne negro, do mesmo modo que ela era o cisne branco.  A perfeição que ela almejava no cisne negro, se constituiu no delírio onde era se tornou o cisne. No caso do cisne branco, que morre no final, para ser perfeito, o mesmo deveria ocorrer.

A psicose muitas vezes se constitui como uma defesa de uma realidade exterior que é hostil, inviabilizando uma relação saudável para o ego, o que leva a uma interação (algumas vezes uma fusão) com o mundo interior. No caso de Nina, a identificação com o cisne, pode nos indicar um movimento em busca de liberdade. Não podemos esquecer que Odete, o cisne branco, também era um ser aprisionado. E, a morte era também uma libertação. Aqui se impõe uma diferenciação necessária:

A identificação de uma pessoa sadia ou mesmo neurótica se dá nos termos : eu sou como Odete

No caso do paciente psicótico a identificação se dá como : Eu sou Odete.

Por isso, por mais que possamos até compreender o delírio e alucinações como necessidade de liberdade e  respeito – especialmente no que diz respeito a relação materna, lembrando que a mãe é agredida no surto, como uma imposição forçada de espaço. Essa leitura simbólica tem sua validade quando feita respeitando a realidade do paciente psicótico, justamente para auxiliar no tratamento, oferecendo ao paciente as condições necessárias para lidar com sua realidade, e oferecer a família as orientações para garantir uma qualidade de vida ao paciente.

Referências bibliográficas

FRANZ, Marie-Louise von, Psicoterapia, São Paulo: Ed. Paulus , 1999.

JUNG, C.G., Ab-reação, análise de sonhos, transferência, Vozes: Petrópolis, 4 ed. 1999

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

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A Sombra Criativa: Algumas reflexões acerca do Trickster e o Carnaval.

 

16 de fevereiro de 2011

Na Grande Vitória, o amor pelo carnaval é tão grande não que um carnaval é pouco. Assim, o carnaval de Vitória começa uma semana antes, com os desfiles das escolas de samba, blocos e bailes.

O carnaval é uma das festas populares mais importantes em nosso país, mobilizando todos os setores de nossa sociedade. Sua importância é notada no famoso dito popular “O ano só começa depois do carnaval”.

Entretanto, muito tempo antes de nosso dito popular, o carnaval já era um marcador do tempo, pois, era uma festa que se colocava no limiar tempo profano, cujo encerramento era/é o inicio do tempo o inicio da quaresma.

O termo carnaval não possui uma origem específica.

De onde teria surgido a palavra Carnaval? Não há consenso entre os pesquisadores a respeito da real origem dessa palavra tão benquista por nós. Sou de opinião que a origem esteja na expressão italiana: carnevale, com o significado de :adeus carne, seja a carne como alimento, seja o prazer do amor carnal. O dicionário etimológico registra o seguinte:

Carnaval: período anual das festas profanas; os três dias imediatamente anteriores à quarta-feira de cinzas, dedicados a folias e folguedos.

Foi no século XI que a Igreja Católica implantou a Semana Santa, antecedida por um período de 40 dias de jejum e abstinência de carne.Os três dias imediatamente anteriores à quarta-feira de Cinzas passaram a ser dedicados ao que se chamou de carnevale, no italiano, depois carneval no francês, até 1652 e depois Carnaval. O carnaval tal como o conhecemos surgiu na França.

Há historiadores que defendem a ideia de que a palavra teria surgido da expressão currus navalis,ou seja, carro naval, com base nos cortejos marítimos ou carros alegóricos em forma de barcos que marcavam o início da estação da primavera, na Grécia e em Roma. (PERNANBUCO,2010)

Como podemos ver, a festa de carnaval, “o adeus a carne”, que antecedia o período de expiação e penitência, isto é, conscientização que antecede(ia) a Páscoa (que é um renascimento). Um período onde havia um mergulho nos prazeres “da carne” antes da purificação espiritual. Não demos deixar de notar que um todos termos aplicados ao carnaval é a folia, do francês folie, loucura, delírio ou êxtase.

Muitas vezes, focalizamos no carnaval apenas uma loucura sexual, contudo, esta é apenas uma parte do que esse fenômeno cultural nos constela, pois, o carnaval possui em sua essência a liberdade de ser e sonhar. Uma das formas de compreendermos, pela via junguiana, essa liberdade “irreverente” do carnaval é pensando na figura do Trickster, uma das personificações da Sombra Coletiva.

Trickster e o Carnaval

Em português,  Trickster poderia ser traduzido como “vigarista’, “embusteiro”, “enganador”.  Contudo, todas essas possibilidades de tradução são se aplicam bem a essa representação arquetípica, pois, o trickster é uma figura extremamente ambivalente, não podendo ser bem caracterizado nem como negativo nem como positivo. Ele transita entre o bem e o mal, entre o correto e o incorreto.

O “trickster” é um ser originário “cósmico”, de natureza divino-animal, por um lado, superior ao homem, graças à sua qualidade sobre-humana e, por outro, inferior a ele, devido à sua insensatez inconsciente.  (JUNG, 2000,p.259)

Na mitologia e nos contos de fadas, o trickster é representado como personagens peculiares, pois, se colocam a margem da história, independentes ou mesmo egoístas, que não preocupam com o herói ou com a nobreza de sua missão, eles quase sempre cobram um preço pela “ajuda”, que geralmente conduz o herói a caminhos sempre mais perigosos – e por, consequência, a um desenvolvimento muito maior.

Nos mitos o Trickster aparece de várias formas, na mitologia dos dos indios norte-americanos o trickster era comumente representado pelo Corvo ou Coióte. Na mitologia Grega, o representante do trickster, por excelência, é Hermes (o mercúrio dos romanos), frequentemente chamado de enganador, era o mensageiro dos deuses, o deus dos ladrões e do viajantes.

Na mitologia afro-brasileira do candomblé, o Trickster é representado por Exu é um dos orixás mais importantes, responsável pela comunicação entre os homens e orixás. Exu é exigente, quando tratado com respeito, ele pode ser benevolente e cuidadoso. Quando afrontado, é vingativo. Os cristãos associaram equivocadamente a Lucifer/diabo, contudo, era um grande equivoco, pois, Exu nunca foi um opositor dos homens, pelo contrario, sempre ajudou muito abrindo os caminhos e possibilitando a relação entre os dois mundos.

Para uma visualização mais próxima, no cinema, um dos melhores exemplos de trickster é o personagem Jack Sparrow, de piratas do Caribe, circula na zona limítrofe do certo e do errado, levando sempre seus companheiros a maiores perigos, fica entre o herói e o bandido.

Assim, o trickster possui um aspecto perigosamente atraente e sedutor, muitas vezes espirituoso, quase ingênuo ou bobo(como, em sua representação na forma de palhaço).  Entretanto, não se pode perder de vista que trickster, é uma personificação da Sombra Coletiva, que vai sempre indicar o caminho para a integração da sombra pessoal, ou, em outras palavras, o processo de individuação.

Não poderíamos esperar de forma alguma que tais conteúdos se solidificassem por própria conta, em uma figura mítica com um ciclo particular de lendas, a não ser que recebessem energia de fora; neste caso, diretamente da consciência mais elevada ou da fonte inconsciente que ainda não se tivesse esgotado. Se colocarmos esta questão, o que é possível e permitido, em paralelo com um caso individual correspondente, uma impressionante e paradoxal figura da sombra – posta em confronto com uma consciência pessoal – não comparece pelo fato de existir ainda, mas por repousar num dinamismo, cuja existência só pode ser explicada a partir da situação presente: por exemplo, porque ela é tão antipática à consciência do eu que deve ser recalcada no inconsciente. Tal explicação não serve totalmente para o nosso caso, na medida em que o “trickster” representa manifestamente um grau de consciência em vias de extinção, ao qual falta cada vez mais a força para configurar-se e evidenciar-se.Além disso, o recalque impediria sua extinção, uma vez que o conteúdo reprimido tem justamente as melhores condições de conservar-se, posto que no inconsciente, conforme mostra a experiência, nada é corrigido. Acrescenta-se ainda o fato de que na consciência índia a história do “trickster” não é incompatível, nem antipática, mas sim prazerosa, não convidando por isso à repressão. Parece, pelo contrário, que o mito estaria apoiado e cuidado pela consciência. E isto deve ser assim, uma vez que tal fato representa o melhor método e o mais bem-sucedido, de manter consciente a figura da sombra e assim expô-la à crítica da consciência. Apesar desta última não apresentar abertamente um caráter negativo, mas o de uma apreciação positiva, podemos esperar que, com o progressivo desenvolvimento da consciência, os aspectos mais rudes do mito diminuam pouco a pouco, ainda que não haja o perigo de um desaparecimento rápido do mesmo, como resultado da colisão com a civilização dos brancos. Vimos freqüentemente como certos costumes originariamente cruéis ou obscenos se volatilizaram no decorrer do tempo, tornando-se meros vestígios. 

Este processo de tornar os costumes inofensivos, como mostra a história do motivo, leva muito tempo, de tal forma que mesmo em níveis elevados de civilização ainda encontramos seus vestígios. Esta longevidade poderia ser explicada pela força e vitalidade do estado de consciência relatados no mito e ainda presentes, e que produzem uma participação e fascínio secretos da consciência. (JUNG, 2000,260-1)

O arquétipo da Sombra geralmente é associado com sua representação do  “opositor” ou do “mal”,( cuja, imagem mais conhecida seria o diabo). O que necessário compreendermos que é que os arquétipos constituem um sistema complexo que não podemos restringir a esta ou aquela imagem.

O Trickster é a manifestação da Sombra que entra um contato com a consciência, que convida a consciência ao confronto com o inconsciente. As “armadilhas” do trickster sempre se colocam como uma um desafio ao herói/consciência,que quando superado resulta num aprendizado, que contribui com o processo de individuação.

O carnaval é festa intimamente relacionada a este aspecto tricksteriano da Sombra, pois, comumente no carnaval há uma espirituosa e jocosa inversão de valores, os excessos e os prazeres sensuais, as brincadeiras com celebridades e políticos, estamos penetrando no reino da folie da Sombra. Esses aspectos são mais claramente percebidos nas fantasias muitas vezes expostas notravestismo(os famosos “blocos das piranhas”, muito comum em nosso carnaval, não deve ser compreendido como sendo apenas fantasias homossexuais, mas, também como uma abertura ao âmbito da Anima, muitas vezes, nos distanciamos em nossas vidas cotidianas. E, por isso é tão marcante e sempre presente. Obviamente, por ser marcado pelo Trickster, o carnaval é ambivalente, podendo ser uma armadilha para muitos. Como já dissemos acima, nos mitos, o Trickster frequentemente cobra por sua ajuda, assim, a liberdade do carnaval muitas vezes tem um preço.

Por outro lado, o carnaval possui um brilho de esperança. Quando vemos desfiles de escolas de Samba, vemos não só o brilho das fantasias, mas, o brilho nos olhos do membros das escolas. No carnaval, para as comunidades, o sonho encontra a realidade. E, os símbolos constelados pelo carnaval dão um sentido e significado na vida dessas pessoas que possibilita que elas vivam e sonhem por mais um ano, na espera de um novo carnaval.

Assim como o Trickster traz em si as ambivalências do divino e do animal, do herói e do vilão, o carnaval também oferece as mais diversas e belas possibilidades e riscos, nos colocando no limiar das escolhas – internas e externas; no pórtico da Sombra.

Muitas vezes associamos o conceito de Sombra somente a algo negativo ou nocivo, tanto por estar conceitualmente associado aos elementos que foram excluídos da identidade do Ego e da consciência, quanto por estar relacionado com a representação arquetípica do opositor/adversário, que identificamos como sendo o ‘diabo’ . Essa concepção é correta, porém, não corresponde  a toda complexidade do conceito da Sombra.

Se antes se admitia  que a sombra humana era a origem de todos os males, de agora em diante, mediante acurada observação, descobrir que o individuo inconsciente, ou seja, a sombra, não é constituída apenas  de tendências moralmente repreensíveis, mas apresenta um certo número de boas qualidades: instintos normais, reações adequadas, impulsos criadores, e outros.( JUNG, 1986, 254-5)

A figura do Trickster é uma representação transcendente da Sombra, que se comunica em diferentes níveis. Por mais ambíguo que seja, o trickster é sempre um aliado, um impulso a individuação. Seja nos mitos, nos sonhos,o  trickster sempre se manifesta como um convite a integração da Sombra, pois, ele é um símbolo unificador, a manifestação da tendência natural da sombra em se integrar a totalidade psíquica. Esse é o motivo pelo qual Jung afirma que o Trickster é tolerado e nutrido pela consciência coletiva. Sua numinosidade sempre aponta para um caminho de luz e trevas, um caminho criativo, um caminho do meio.

uma conclusão pessoal…

Em nossa cultura marcada pela tradição judaico-cristã,  muitas vezes perdemos com o aspecto criador da sombra e da figura trickster, justamente, por evita-los de forma quase que sistemática, e assim é mais provável que nos tornemos vulneráveis a Sombra.

Minha formação foi protestante e o carnaval sempre algo a ser evitado. Quando adulto, eu nunca vi sentido no Carnaval, em desfiles de escolas de samba, ou sambas enredos. Achava apenas uma bela manifestação cultural. Até no ano passado, surgiu a possibilidade (meio que a contragosto) de assistir no camarote o desfile do grupo especial das Escolas de Samba de Vitória. como acredito que as oportunidades devem sem aproveitadas e vividas… fui. Sei apenas que quando a bateria da primeira escola de samba passou em frente ao camarote, fiquei perplexo.

Pude sentir literalmente a vibração do carnaval. Escola após escola, pude sentir a numinosidade do carnaval. Pude olhar o carnaval por uma outra ótica, e me perceber com um outro olhar. Perceber  símbolos que me mobilizaram e ainda me mobilizam. Foi uma experiência transformadora. Mais do que nunca eu defendo as palavras de Jung,

Portanto, quem quiser conhe­cer a psique humana infelizmente pouco receberá da psicologia experimental. O melhor a fazer seria [pendurar no cabide as ciências exatas, despir-se da beca professoral, despedir-se do gabinete de estudos e caminhar pelo mundo com um coração de homem: no horror das prisões, nos asilos de alienados e hospitais, nas tabernas dos subúrbios, nos bordéis e casas de jogo, nos salões elegantes, na Bolsa de Valores, nos “meetings” socialistas, nas igrejas, nas seitas predicantes e extáticas, no amor e no ódio, em todas as formas de paixão vividas no pró­prio corpo, enfim, em todas essas experiências, ele encontraria uma carga mais rica de saber do que nos grossos compêndios.

Então, como verdadeiro conhecedor da alma humana, tomar-se-ia um médico apto para ajudar seus doentes. Poder-se-ia perdoar-lhe o pouco respeito pelas assim chamadas “pedras angulares” da psicologia experimental. Pois entre o que a ciência chama de “psicologia” e o que a práxis da vida diária espera da “psicologia” “há um abismo profundo”. (JUNG,2001, p.112-3 )

É importante frisar que “ser um conhecedor da alma humana”, implica no exercício contínuo de buscar conhecer a própria alma. E, é vivendo as experiências mais diversas que novas portas se abrem em nossas vidas e, assim, amadurecemos.

Termino este post, prestando meu respeito a todas as escolas de samba de da Grande Vitória! Desejo a todas um carnaval criativo, desejo que façam o melhor e mais belo carnaval de todos tempos. Para assim, tornar inesquecível do titulo deste carnaval, que espero seja da Unidos de Barreiros. 

Referencias bibliográficas

PERNAMBUCO, J. , O Carnaval e a Etimologia, em: Professor Juscelino<http://www.professorjuscelino.com.br/blog/?id=55&titulo=O-CARNAVAL-E-A-ETIMOLOGIA>. Publicado em 28/02/2010.  Acesso em: 12 Fevereiro de 2011.

JUNG, C.G. Aion – Estudos sobre o simbolismo do Si-mesmo, Petropolis, RJ, 1986.

___________ Os arquétipos e o Inconsciente Coletivo, Petropolis: Vozes, 2000.

______________. Psicologia do Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 13ed. 2001.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

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