“Brincar de Boneca”: Reflexões sobre o desenvolvimento da personalidade, misoginia e psicopatia

(Por Fabricio F. Moraes)

Esse último mês de outubro de 2015 foi marcado por uma ampla discussão nas redes sociais sobre assédio/abuso sexual, machismo, sexismo e misoginia. Acompanhando essas discussões, me deparei com um texto que chamou atenção com o título “’Sou homem e meu filho não brinca de boneca.’ Ou ‘Como criar um machista’” de Dr.Leonardo Sakamoto http://goo.gl/bZUqno , nesse texto ele discute a gênese do machismo e misoginia associado ao sexismo dos brinquedos e das brincadeiras das crianças.

Tal temática é fundamental, especialmente porque, na atualidade, o estado do Espirito Santo lidera as estatísticas de violência contra a mulher em nosso país. Assim, como Dr. Sakamoto muito bem apontou no texto acima citado e em outros textos, sob certo aspecto o brincar é um veículo ideológico do sexismo, do machismo e da misoginia que tanto violenta e mata mulheres em nosso país e no mundo. As expressões “de menino” ou “de menina” na boca das crianças trazem todo o peso de séculos de uma divisão social de trabalho, poder, e determinações possibilidades de futuro que desqualificam as mulheres. Essas situações não podem ser ignoradas.

Neste texto, pretendemos desenvolver um pouco da visão de desenvolvimento na psicologia junguiana, pelo viés de Fordham, do brincar e suas implicações na personalidade. Para assim, posteriormente, voltar as questões que envolvem a discussão da misoginia e o machismo.

Desenvolvimento e o Brincar

Um dos principais teóricos junguianos do desenvolvimento foi o analista inglês Michael Fordham (1905-1995), psiquiatra que, ao longo de sua carreira trabalhou com crianças, sendo responsável por um abrigo de crianças evacuadas na segunda guerra. Seus estudos com crianças, o aproximaram do middle group da sociedade britânica de psicanálise, especialmente de Winnicott, de quem foi amigo. Desta maneira, sua forma de pensar o desenvolvimento é importante por unir tanto aspectos da sua percepção clinica com crianças, a teoria de Jung e a psicanálise inglesa.

Em seu modelo de desenvolvimento, Fordham(2001) defende que a criança quando nasce já possui uma unidade psicossomática, a qual ele chamou de “Self primário” a partir da qual, toda a experiência do psiquismo (incluindo o ego) se desenvolveria. Haveria, assim, uma organização preexistente na criança que direcionaria o processo de amadurecimento. Este processo já começaria desde a vida intrauterina, onde este Self primário passaria por um processo ao qual Fordham denominou de “deintegração e reintegração”.

Como unidade psicossomática, o self primário está diretamente relacionado com o corpo e os processos psicofisiológicos que, de acordo com as relações com a mãe/ambiente (toque, cuidado, suporte, alimentação, proteção, etc.), se manifesta, ativando partes especificas (relacionadas com o estimulo) que naturalmente vão deintegrando (ou dividindo-se). Desta forma, o self primário se “dividiria” em partes menores chamadas “deintegrados”. Essa divisão espontânea não deve ser confundida como uma desintegração ou algo similar negativo, pelo contrário é um processo positivo de ativação e atualização de determinadas partes do self.

Esses “deintegrados representam a prontidão à experiência, prontidão a perceber, a prontidão para agir instintivamente, mas, não uma ação ou percepção real”[1] (Fordham, 1957, p. 127, tradução nossa). Essa “prontidão”, seja percepção, ação ou experiência é a característica mais fundamental dos arquétipos[2]. O processo de deintegração corresponde a uma ativação dos processos arquetípicos inatos necessários ao desenvolvimento naquele momento. Que será seguido pelo processo de reintegração, onde este conteúdo será reintegrado ao Self, seja por meio do sono ou outros meios de elaboração. Com o tempo, o processo continuo e rítmico de integração-deintegração compondo e atualizando o substrato que dará origem ao núcleo do Ego.

É importante compreender que o processo de integração-deintegração não termina no estabelecimento do ego. Muito pelo contrário, ao longo da vida esse processo de repete continuamente através da formação de símbolos. Especialmente na infância esse processo desempenha um papel importante no processo de constituição ou desenvolvimento da personalidade.

O Self e seus processos representam o conceito-chave para Fordham, segundo o mesmo,

Dei muita importância ao self definido como a totalidade organizada dos sistemas consciente e inconsciente. A concepção aplicada à criança trata-a como uma entidade em si mesma, da qual se podem derivar os processos maturativos. Ela não inclui a mãe nem a família. A significação deste postulado de uma unidade primária ficará evidente, mas talvez possa dizer desde já que ela é concebida como a base sobre a qual repousa a noção de identidade pessoal e da qual procede a individuação.

A partir daí, o objetivo ideal dos pais pode ser definido como o de fomentar o amadurecimento do self e, assim, facilitar a sensação de autoconfiança da criança em relação a eles, a seus irmãos e ao ambiente extrafamiliar, no qual ela se irá engajando com o passar do tempo. (Fordham, 2001, p. 22)

Desta forma, o processo de desenvolvimento ou amadurecimento é inerente a dinâmica do Self, que necessita de condições mínimas para possibilitar esse desenvolvimento – sejam elas, o toque, fala, manejo etc. – pois, “o amadurecimento só pode se dar-se em toda plenitude num ambiente bom o suficientemente” (ibid, p.120). Nos primeiros meses de vida, a unidade mãe-bebê é importante por garantir a vida e o desenvolvimento dos processos deintegrativos. O ego da criança ainda não consegue se relacionar com a integralidade da mãe (objeto total), mas, como um objeto parcial (seio, pele, olhar, etc). Com o processo de amadurecimento da criança e, naturalmente, com as ausências da mãe desenvolvem-se os fenômenos e objetos transicionais – estes são, para Winnicott, uma importante expressão do amadurecimento. Os fenômenos e objetos transicionais só podem se desenvolver a partir do espaço potencial que, segundo Avellar (2004) é uma zona intermediária que resulta do fim da relação fusionada mãe-bebê, devido ao desenvolvimento de um sentimento de “eu” que possibilita a delimitação de uma realidade interior e exterior. Essa delimitação possibilita o afastamento da mãe, “o primeiro espaço que se abre entre na separação da unidade mãe-bebê para ser mãe-e-bebê é o espaço potencial”(Avellar, 2004, p. 60). Nesse espaço intermediário, transicional o bebê pode encontrar substitutos para os objetos parciais, de modo a suportar a ansiedade de separação e lidar de forma criativa e espontânea.

O objeto transicional, como o chama Winnicott, tem sua origem nos períodos em que a mãe está por perto e o bebê se sente seguro e a vontade. Ele pega o seio, ou um pedaço de pano que entre em contato com a boca para brincar e criar ilusões (ou delírios) que se tornam carregados de sentido. (…)ele é antes uma tentativa inicial de representação do self e, assim, pode ser a primeira de todas as simbolizações. (Fordham, 2001, p. 109)

É no espaço potencial, na experiência dos objetos transicionais, que se situa o brincar. Ao longo do desenvolvimento, o brincar se configura como uma experiência fundamental para a constituição da personalidade e para a experiência da realidade.

O brincar, quer na infância ou ao longo da vida, é uma oportunidade de integração e reparação dos processos de amadurecimento que por algum motivo foram prejudicados. Assim, o brincar possibilita que as representações do self (deintegrados) sejam atualizadas, humanizadas e integradas à estrutura da personalidade. Isto é, no processo de brincar, conteúdos arquetípicos que foram eliciados (deintegrados) pelo ambiente (família, relações sociais) e que o ego ainda não tem condições de assimilar possam ser elaboradas no brincar, de forma, a introduzir de forma aceitável ao mundo das crianças esses conteúdos.

Ao brincar as crianças não só reencenam a realidade que vivem, mas, podem integrar essa realidade como participantes ativos, produzindo no brincar – que como já dito, se constrói num espaço de segurança psíquica – a possibilidade do amadurecimento. Segundo Avellar (2004, p. 62) “é no brincar que o indivíduo pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral. É com base no brincar que se constrói totalidade da existência humana”. A experiência do brincar é possibilita essa experiência de integração ao longo da vida. Winnicott em seu livro “Brincar e Realidade” afirma

Em outros termos, é a brincadeira que é universal e que é própria da saúde: o brincar facilita o crescimento e, portanto, a saúde; o brincar conduz aos relacionamentos grupais; o brincar pode ser uma forma de comunicação na psicoterapia; finalmente, a psicanálise foi desenvolvida como forma altamente especializada do brincar, a serviço da comunicação consigo mesmo e com os outros. (Winnicott 1975, p. 63)

O brincar com bonecos, isto é, brinquedos com formas humanas possibilita que a criança possa não só elaborar a realidade que ela vivencia, mas, também integrar os conteúdos relacionados com essa realidade à sua personalidade. Com essa integração, a criança pode lidar com o medo e ansiedade relacionado às figuras parentais e às situações ambientais novas que surgem para as quais ainda não está preparado. Através do brincar a criança se torna ativa e internamente resolver as situações-problema que se apresentem.

Devemos considerar que quando falamos acerca do “brincar com bonecas”, isto é, brincar com bonecos que representam o feminino, falamos da atividade que permite a integração e a assimilação de características humanas que historicamente foram associadas ou identificadas com feminino (como receptividade, flexibilidade, cuidado, delicadeza e afetividade dentre outras). O mesmo vale para as meninas que integram características que foram historicamente identificadas com o masculino (como a agressividade, objetividade, rigidez, ênfase na lógica, dentre outras) tendo a possibilidade de brincar com os mesmos brinquedos ou brincadeiras que os meninos.

Com todo sexismo histórico, a integração e assimilação desse potencial é parcial. Isso se estabelece pois, as crianças que não tem a possibilidade de integrar naturalmente os aspectos do gênero oposto através de uma relação direta e criativa, sendo estes integrados a partir das relações com figuras parentais, familiares e colegas. Todavia esse contato com outro é limitado – seja pelo desejo, interesse e limitações físicas – fazendo com que o interagir das crianças com outras pessoas não corresponda a imaginação e ao brincar criativo. Dessa forma, esses os conteúdos terão maior dificuldade para ser integrados a personalidade da criança, ficando, assim, reprimidos ou subdesenvolvidos no inconsciente. Podendo podem oferecer dificuldades ao indivíduo ao longo da vida até serem finalmente integradas.genero

Assim, podemos questionar: qual seria o brinquedo mais adequado para a criança? O brinquedo mais adequado para a criança é aquele que ela deseja e que seja seguro para sua idade.

Para além das bonecas: misoginia e psicopatia

Para as crianças, brincar com bonecos ou bonecas é apenas brincar. É para os adultos que o brincar assume uma outra dimensão. Brincar se torna instrumento ideológico, no caso, o patriarcado que atravessa nossa constituição psíquica e social. A divisão sexista dos brinquedos de “menina” e de “menino” tem por objetivo estabelecer um modelo do que viria a ser “adequado” ou “próprio” para um cada gênero, numa tentativa de estabelecer um “local” masculino ou feminino, baseado (em nossa cultura) na tradição judaico-cristã, que durante séculos subjugou as mulheres baseado no mito do “pecado original”.

Não podemos negar que essa ideologia patriarcal também influenciou a psicologia. Em outro texto (Entorno da anima e animus – algumas reflexões sobre machismo e atualidade) foi discutido acerca do machismo na psicologia analítica, tendo expressão nos conceitos de anima e animus. Os conceitos não são em si “machistas” mas, são atravessados pela cultura machista. Esse atravessamento cultural é sentido na configuração das representações arquetípicas, cuja expressão se dá na dicotomia anima-animus.

Na teoria junguiana, esse atravessamento pode ser compreendido por diferentes persepctivas. Em Neumann temos uma noção de fragmentação de arquétipos, onde “ocorre uma fragmentação no sentido de que, para a consciência, o arquétipo primordial se decompõe num amplo grupo de arquétipos e símbolos inter-relacionados” (1995, p. 232). De modo semelhante, Guggenbhül-Craig retoma a mesma temática, em “Abuso do Poder…”, falando sobre as polaridades do arquétipo e cisão do arquétipo,

Não é fácil, para a psique humana, suportar a tensão das polaridades. O ego ama a clareza e sempre tenta erradicar a ambivalência interior. Essa necessidade de situações inequívocas pode acarretar uma cisão dos polos arquetípicos. Um pólo poderá ser reprimido e continuar operando no inconsciente,(…) A parte reprimida do arquétipo poderá ser projetada sobre o mundo exterior.(Guggenbhul-craig, 1979,p.99)

A dinâmica que Neumann e Guggenbhul-Craig descrevem nos indicam de uma dificuldade do ego e da cultura para lidar com a ambivalência natural dos arquétipos. A fragmentação ou a cisão do arquétipo não se dá ao acaso, mas, é condicionada pela consciência coletiva. Nesse sentido, podemos considerar que o masculino e o feminino são pólos de uma mesma dinâmica arquetípica, representada na teoria junguiana pela sizígia “Anima-Animus”, que, em outro texto, discutimos como sendo os polos do arquétipo da alteridade (cf. Anima, Animus e Alteridade – Revisão do texto de 05/04/2010 ), esse arquétipo pode ser expressado pela relação “Eu-Outro” que, em aspecto de maior diferenciação ou oposição, pode ser representado como masculino e feminino.

Poderíamos nos questionar acerca dessas cisões, pois, e “se essa cisão for radical? E, se não houver a reintegração?” Por mais que a psique seja um sistema autorregulador nem sempre encontra os meios necessários para reparar as falhas no desenvolvimento. Assim, quando um elemento não é adequadamente integrado pode formar uma lacuna na psique, isto é, um vazio na alma, que faz com que o indivíduo será incapaz de lidar adequadamente com as situações relacionadas com o conteúdo “não integrado”. Guggenbhul-Craig foi um pensador junguiano que trabalhou a ideia do “vazio na alma”, ele nos ajuda a pensar essa imagem,

“Imagine, se você quiser, uma geografia da psique, um imenso continente povoado por diferentes tribos (habilidades e capacidades), cada uma vive e se desenvolve adequadamente. Seguindo um pouco mais esta analogia, aquelas áreas que não foram habitadas ou são inabitáveis, como desertos, áreas estéreis, ou lacunas(lacunae) representariam as psicopatias. Todos temos traços psicopáticos, cada um de nós tem algo faltando ou aspectos que são marcadamente subdesenvolvidos. (Guggenbhul-Craig, 1986, p.68 – tradução nossa)[3]

Na lacuna, no deserto estéril não há produção simbólica, não há vida simbólica. Esta “vida simbólica” é representada por Guggenbhul-Craig como eros, a força psíquica, criativa, que une tanto os elementos de nosso mundo interior quanto nos liga ao mundo exterior. Nesse sentido, a psicopatia compreendida por Guggenbhul-Craig como um vazio ou lacuna na alma, no psicopata há uma “ausência de eros” ou a “deficiência de eros”, que impede o desenvolvimento adequado da personalidade. Guggenbhul-Craig afirma, “a falta de crescimento e de desenvolvimento é, como a falta da moralidade, o resultado de um fraco ou deficiente sentido de Eros: sem Eros não há desenvolvimento.”[4] (ibid, p.90) As relações humanas se estagnam, assim como relações consigo.

Para além do machismo, temos a misoginia, onde o feminino e a mulher não é apenas inferiorizado, mas, desprezado e objetificado. Na misoginia vemos um deserto de eros, onde o feminino não foi integrado a personalidade. A mulher não é compreendida em sua totalidade e dignidade numa relação de igualdade, mas, como uma posse, como uma relação inadequada.

Essa falta de Eros nos psicopatas encontra expressão nas dificuldades encontradas nas relações interpessoais. Em vez de Eros, nós frequentemente encontramos manipulação. Jung disse que quando o Amor se retira, o Poder avança, o Poder sendo um sinal de importância em indivíduos com tendências psicopáticas. Onde Eros está faltando, manipulação, controle, dominação e intriga dominam. Muitos pesquisadores têm reconhecido a “diminuição do Eros” como qualidade da psicopatia. (ibid. p.80- tradução nossa)[5]

Acredito que poderíamos equiparar a misoginia a psicopatia. Mas, faço isso como uma provocação. Uma provocação ao nosso próprio traço psicopático, nossa própria deficiência de Eros, que nos incapacita na relação com alteridade. Começamos esse texto discutindo o desenvolvimento, o processo de deintegração e reintegração – e o quanto o ambiente (mães/pais/família) são importantes para o desenvolvimento e falamos do brincar de boneca como ícone do sexismo de nossa cultura. Falar do “brincar de boneca” é falar de nosso sexismo íntimo, de nosso traço psicopático que cultivamos em silêncio, racionalizando, categorizando como “politicamente correto” todo movimento que visa a igualdade – seja ele de gênero, étnico-racial ou de orientação sexual. Na aridez do politicamente correto, construímos um deserto sem Eros, sem implicação.

Jung afirmava que “a pessoa que não tem o coração mudado, não mudará o coração de ninguém”(Jung, 2000, p. 186). Por isso mesmo, chamo atenção para o cuidado com o “politicamente correto”, pois a mudança de linguagem não é uma “mudança de coração”. É importante salientar que, no texto do Sakamoto citado no início deste texto, ele usa o “brincar de boneca” para chamar atenção aos hábitos machistas e sexistas que atravessam nossa formação deste a mais tenra idade. A mudança não se dá de forma mecânica, automática ou por adesão ao “politicamente correto”, a mudança se dá pela experiência, pela ação e vivenciar a realidade do outro.[6]

Acredito que enquanto não tivermos o coração mudado – que implica em ações e afetos – não mudaremos nada. Enquanto não nos permitirmos a experiência da alteridade – que nos identifica na relação como outro, compreendendo-o como igual – continuaremos a ter uma sociedade hostil e violenta contra as mulheres. Enquanto escondermos nosso machismo e sexismo sob os “panos quentes” do politicamente correto, viveremos no deserto da alma, acalentando, silenciosamente, nossos próprios traços psicopáticos.

Referencias Bibliográficas

Avellar, Luziane, Z.. Jogando na análise de crianças: intervir-interpretar na abordagem winnicottiana. São Paulo: Casa do Psicólogo. 2004

Guggenbühl-Craig, Adolf. O abuso do poder na psicoterapia e na medicina, serviço social, sacerdócio e magistério. RJ, Achiamé, 1978

Guggenbühl-Craig, Adolf. Eros on crutches – on the nature of the psychopath, Dallas, Spring Publications, 1986.

Fordham, Michael. New Developments in Analytical Psychology, Londres: Routledge and Kegan Paul, 1957.

Fordham, Michael, A criança como individuo: Rio de Janeiro, 2001.

JUNG, C.G. Vida Simbólica Vol. II, Petrópolis: Vozes, 2000.

Neumann, Erich. História da Origem da Consciência, São Paulo: Cultrix, 1995

Winnicott, D.W. O Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro, Imago, 1975


[1] The deintegrates represent a readiness for experience, a readiness to perceive, a readiness to act instintively, but not na actual preception or action.

[2] Cf. Instinto e Inconsciente(1919). In JUNG, C.G. Natureza da Psique, Vozes, 5ª Ed., Petrópolis, RJ, 2000.

[3] Imagine, if you will, a geography of the psyche, na immense continente peopled by different tribes (the abilities and capabilities) which live and develop accordingly. Following the analogy further, those áreas wich were uninhabited or uninhabitable, the deserts, barren areas, or lacunae would represent psychopathies. Everyone has psychopathic traits; each of us is missing something or has some aspect that is markedly underdeveloped.

[4] The lack of growth and of development is, like the lack of morality, the result of a weak or deficient sense of Eros: without Eros there is no

[5] This lack of Eros in psychopaths fids expression in difficulties encountered in interpersonal relationships. Rather than Eros, we frequently find manipulation. Jung said that when Love retreats, Power advences, Power being of signal importance in individuals with psychopathic tendencies. Where Eros is lacking, manipulation, control, domination, na intrigue take over. Most researchers have recongnized the Eros-less quality of psychopaths.

[6]No cinema dois filmes que eu indico que abordam essa experiência são: Inimigo Meu (1985) e Irmão Urso (2003)

——————————————————–

Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana. Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 99316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

www.psicologiaanalitica.com

mandala

Kiriku e a Feiticeira – alguns comentários

ki1Há poucos dias um colega, Douglas Jakob, postou no grupo “Psicologia Junguiana no ES” do facebook uma sugestão, pedindo um comentário sobre o filme “Kiriku e a Feiticeira”. Confesso que eu já havia visto o link do vídeo em outros grupos mas, não tinha me interessado, contudo, frente ao post de nosso colega me prontifiquei…. e me surpreendi. A riqueza da história e a forma como a lenda foi trabalhada o respeito a cultura africana foi algo sensacional.

O Filme “Kiriku e a Feiticeira” foi lançado em 1998, sendo uma produção franco-belga, seu diretor Michel Ocelot passou parte de sua infância em Guiné, onde aprendeu sobre a lenda de Kiriku. Como comentaremos sobre o filme é impossível não fazer spoilers! Então, convido ao leitor a assistir ao filme primeiro e, depois ler nosso texto. Deixo claro, que meu objetivo não é exaurir as possibilidades do filme, nem rotular, mas, antes ampliar e apontar pontos relevantes.

veja o filme no link abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=n4JYa-e3rPI

Um nascimento milagroso

O nascimento de Kiriku foi um prodígio, desde o ventre de sua mãe, o pequeno Kiriku disse a mãe que queria nascer, ao que a mãe responde “ uma criança que fala na barriga de sua mãe pode nascer sozinha” e assim, sem dor Kiriku nasce, corta seu cordão umbilical, e declara a própria mãe que se chama Kiriku e pede a mãe para ser lavado, ao que mãe responde “uma criança que nasce sozinha, se lava sozinha” e Kiriku se lava e ao se lavar toma conhecimento do drama que a tribo sofre devido a feiticeira Karabá.

ki2

O nascimento milagroso é uma marca e o prenúncio de grandes feitos. Encontramos paralelos no nascimento de Buddha Gautama, que segundo algumas tradições, Buddha nasceu sem que sua mãe sofresse as dores do parto, logo após o nascimento ele deu sete passos na direção dos quarto pontos cardeais e disse que aquele era seu último nascimento. O mesmo ocorre em nascimentos como de Dionísio, que retirado do útero de Sêmele foi enxertado na coxa de Zeus. O mesmo ocorre nos nascimentos virginais de Jesus e Krishna.

No caso de Kiriku temos um aspecto importante, ele era uma criança, nascida antes da hora, mas, que dialoga com a mãe – esta, apresenta a missão de Kiriku falando sobre as dificuldades passadas pela aldeia e devido o poder de Karabá. Assim, devemos considerar que Kiriku, o herói-criança, está intrinsecamente relacionado com a mãe, não apenas a mãe-genitora, mas, a mãe terra que sofre com a seca.

Na primeira cena, são contrapostos dois femininos importantes a Mãe de Kiriku e Karabá, a feiticeira devoradora. Os homens haviam sido “devorados” por Karabá. Por isso, Kiriku sendo recém-nascido é fundamental – ele ainda está associado ao mundo do feminino materno, da terra, ctônico(das profundezas), nele o feminino e o masculino estão em equilíbrio.

Primeiras façanhas

A primeira façanha de Kiriku foi salvar o tio, diante da feiticeira Karabá, ele se escondeu no chapéu, e, este foi pensado como um objeto mágico. Que foi trocado com Karabá. Por não ser mágico, Karabá exigi o ouro das mulheres. A segunda foi, mesmo sendo rejeitado, ter salvado as crianças por duas vezes – da canoa e da árvore. O terceiro feito ocorre pouco antes das mulheres censurarem a mãe de Kiriku pelas suas ações, posterioremente, foi até a fonte e entrou na mesma e encontrou o animal que drenava toda a água, restituindo a água da aldeia, para tanto ele quase que morre afogado – ele é levado ao seio da mãe e da aldeia que finalmente o aceita.

Nas três primeiras façanhas temos um dado interessante: a rejeição a Kiriku, (todos o rejeitam). E, mesmo assim, ele salva a todos. A cada etapa ou cada façanha, seu valor era reconhecido. Podemos pensar esse processo de reconhecimento ou integração: tio (família), as crianças (os iguais) e a fonte (a aldeia). Com essas três façanhas Kiriku se torna um legitimo como um herói/guerreiro da tribo e resgata a alegria (expressado pelas danças) e a esperança (a água) da aldeia. A alegria e a esperança incomodam ainda mais a Karabá.

A Jornada de Kiriku

Após descansar de seu quase afogamento, Kiriku retoma suas indagações sobre o motivo da maldade de Karabá. Sua mãe lhe diz que somente seu avô, o sábio da montanha, saberia. Mas, que ele viveria para além das terras de Karabá, Com a ajuda da mãe, Kiriku inicia sua jornada pelo mundo interior, pelas profundezas da terra onde ele se encontra com desafios,posteriormente, doma um javali para chegar até o cupinzeiro, que se ele fosse digno o cupinzeiro se abriria para ele, a entrada da morada sábio da montanha, seu avô..

Com a ajuda da mãe Kiriku inicia sua jornada pelo mundo subterrâneo, onde, pelo seu tamanho se sente a vontade, ele encontra com animais, se vê em meio a um labirinto de possibilidades. Podemos pensar nesse enfrentamento dos animais o gambá, os esquilos, o pássaro e o javali como um enfrentamento da própria natureza instintiva. Com sua ingenuidade, Kiriku conquista todos animais, o que o torna digno de entrar no cupinzeiro. Onde encontra com seu avô, que logo o reconhece. Deve-se notar que o avô, o sábio, se coloca para além do problema, para além das terras da feiticeira. Ele traz a ancestralidade, o conhecimento antigo e, sem julgamentos, compartilha com Kiriku.

ki3

Segue o dialogo entre o Avô e Kiriku, onde ele revela que o que era atribuído a Karabá não tinha sido obra dela, mas, o medo das pessoas que deu a fama a Karabá O Sábio revela que Karabá era má porque sofria dia e noite, pois, havia sido violentada por homens que colocaram o espinho em sua coluna, esse espinho dava poderes a ela. Kiriku afirmar retiraria o espinho das costas de Karabá, Kiriku pede para se aconchegar no colo do avô, fala de sua solidão, ao que o avô responde que estaria sempre com ele.

A revelação acerca da maldade de Karabá é na minha opinião o ponto mais importante do filme. Karabá inflige o sofrimento porque também sofre. Libertar a aldeia do mal e sofrimento de Karabá, significa libertar Karabá. Diferente de nossa lógica ocidental maniqueísta, a narrativa não fala de uma “vitória” do bem sobre o mal. Mas, fala de equilíbrio, trazer paz a Karabá é trazer paz a todos. Não é uma lógica de opressão.

Devemos notar também que há um ponto importante: Karabá fala do feminino ferido. Ela foi violentada por homens que imprimiram espinho magico em sua coluna. Seu poder torna os homens em objetos, tira a naturalidade de suas vidas, mesmo assim, ela é mulher, bela e vaidosa(vide as joias que usa e exige das demais), mas, em seu sofrimento é solitária, não tem uma amiga que ajude.

Nesse ponto, Kiriku é igual a Karabá, ambos são solitários. Kiriku é uma criança – ou seja, nem homem nem mulher – que luta sozinho, por isso, se coloca fora desse poder “devorador do masculino”.

Kiriku cria uma estratégia para retirar o espinho de Karabá, ele rouba as joias dela, enterra e enquanto Karabá se abaixa para cavar, ele ataca e retira o espinho. A natureza volta a florescer. Karabá e Kiriku conversam e ele se torna um adulto, com um beijo de Karabá.

Kiriku rouba as joias, isto é, o símbolo da feminilidade de Karabá. E, através disso ele consegue expor a ferida ou o ki4espinho para assim retira-lo. Com a retirada do espinho, ela volta a ser mulher, deixa de ser feiticeira, a terra retoma sua fertilidade. Kiriku pede para que Karabá se case com ela, ela rebate dizendo que ele era uma criança e que mesmo que não fosse ela não seria empregada de ninguém, não se submeteria, como na verdade foi submetida a força no passado. É importante pensarmos como o feminino ferido, se constela em sua forma sombria (a feiticeira) mediante a violência do masculino. O abuso contra o feminino é um abuso contra toda a natureza. Como dissemos antes, Kiriku não era homem, nem mulher, era uma criança, ainda intimamente ligado ao feminino materno. Quando Karabá o beija, Kiriku deixa de ser criança, se torna um homem, mas, não perde a sua essência feminina que é capaz de curar as feridas de Karaba.

O Retorno de Kiriku e Karabá

Karabá prepara roupas para Kiribu, ao retornarem a aldeia, as pessoas fogem com medo. Ninguem reconhece Kiriku, até ele convocar sua a mãe que o reconheça. Ela o reconhece, mas, a aldeia se põe contra karabá pelos males causados. O sábio da montanha retorna, junto com todos os homens, e revela que não havia culpa em karabá pelos males e que kiriku a libertara, todos reencontra homens e mulheres.

O retorno fala do processo de reintegração de kiriku e karaká a vida da aldeia. Devemos notar que a aldeia ainda estava marcada pelo feminino ferido de Karabá, a chegada do casal Kiriku-karaba, ambos transformados precede a transformação da aldeia.ki5
Chama muito a atenção a postura de Kiriku, que estando adulto, forte, não se impõe pela força a, antes dialogou e convocou sua mãe para reconhece-lo, uma reverência ao feminino materno – uma confirmação do respeito que ele prometeu a Karabá. Mesmo assim, a aldeia na ainda enganada, sofrendo pelo mal que atribuíam a Karabá, não os aceitam e ameaçam a ambos. Somente, quando o sábio a montanha, retorna com os homens e fala que não havia nenhuma culpa em Karabá que todo podem festejar juntos. É fantástico pensar que somente como o resgate do feminino expressado em Karabá, a aldeia pode recuperar sua masculinidade, isto é, os homens.

Algumas considerações finais

Ao longo do texto tentei evitar de usar conceitos para não ser (ainda mais) reducionista. Acredito que essa narrativa fala da individuação em diferentes níveis, seja ele como um confronto tanto com a sombra quanto com a anima ou como um processo de integração.

Kiriku como um herói-criança é um portador de uma nova consciência, de um processo de transformação, não pautado na força, mas, na compreensão. Ao se dispor a “libertar” Karabá de seu sofrimento, de sua solidão e isolamento, Kiriku liberta a todos. Pois, o sofrimento de um é o sofrimento de todos.

Na narrativa é podemos perceber que todos são vítimas em certo ponto, mas, todos também são agressores em outros, todos são parte do problema, mas, também são parte da solução. Não há uma divisão do “bom ou mal” Compreender, aceitar as diferenças (seja de tamanho, idade e gênero) é necessário para integrar e fazer de volta a vida a terra.

Mas, confesso que a força do feminino no filme foi o que mais me tocou. O Feminino nas mulheres da aldeia, a grandeza do feminino materno da mãe de Kiriku, a altivez do feminino ferido de Karabá, a inocência do feminino em Kiriku e o feminino no Sábio da Montanha. Estamos tão acostumados com um masculino fálico, solar e conquistador que chega ser difícil compreendermos essa dinâmica do feminino num herói. Jung chamou de Anima dimensão feminina da psique que o homem precisa integrar – essa integração, permite ao homem viver tanto sua masculinidade quanto sua feminilidade de forma saudável, como dizia Pepeu Gomes “ser um homem feminino, não fere meu lado masculino”. E, de fato, vejo na minha prática clínica é necessário ser um homem materno para acolher e cuidar do feminino ferido tanto em mulheres quanto homens.

Obviamente, essas são considerações que me tocaram, muitas outras são possíveis dada a riqueza apresentada no filme.

——————————————————–

Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

www.psicologiaanalitica.com

mandala

Algumas Considerações sobre o Eixo Ego-Self

Em novembro de 2014 tivemos no “Grupo Aion – Estudos Junguianos”, uma discussão sobre o conceito de “eixo Ego-Self” que foi muito positiva e produtiva, desta discussão surgiu a necessidade dar forma e condensar alguns aspectos importantes, assim como ampliar a compreensão deste conceito. Dessa forma, este texto foi pensado com duas propostas iniciais: 1- Compreender o conceito de eixo ego-self a partir dos teóricos que desenvolveram este conceito Erich Neumann e Edward Edinger.2 – Compreender o eixo ego-self a partir de Jung, estabelecendo uma leitura, por assim dizer, clássica deste conceito.

O Eixo Ego-Self em Neumann: Uma teoria do desenvolvimento

Erich Neumann(1905-1960) foi um brilhante discípulo de Jung que se destacou ao propor uma teoria do desenvolvimento do Ego e da Consciência no contexto junguiano. Sua teoria foi alvo de muitas críticas pois, suas considerações teóricas foram baseadas em reflexões de análise de adultos e, também, em padrões arquetípicos/miticos que segundo ele, apontariam para um possível padrão desenvolvimento da consciência e do Ego. O principal trabalho onde desenvolveu suas concepções acerca do desenvolvimento do ego foi o livro “A Criança” que, na verdade, é uma obra inacabada pois Neumann morreu antes de concluí-lo em 1960. Na verdade, foi ele quem cunhou o termo “eixo ego-self” no contexto de sua teoria do desenvolvimento. Deste modo, convém que façamos uma breve exposição acerca da teoria do desenvolvimento de Neumann.

O primeiro estágio de desenvolvimento do Ego foi chamado, por Neumann, de fase urobórica. Esse termo urobórico, se refere ao símbolo da uroboros, isto é, a imagem da serpente ou dragão que, num movimento circular, morde a própria cauda, estabelecendo uma unidade sem início nem fim, isto é, sem opostos. Assim, a urobóros é percebida como um “grande círculo”, uma unidade original, sem inicio ou fim. A partir dessa imagem, Neumann indicou um estágio anterior ao Ego, onde este encontra-se imerso no inconsciente, numa experiência sem início nem fim. Isso é próprio da fase uterina do desenvolvimento e nos primeiros meses após o nascimento

Como nesta etapa Ego ainda não está formado, nem a consciência desenvolvida, assim, não há uma delimitação de opostos, isto é, não há uma interpretação acerca de dentro ou fora, nem de um “eu” ou Outro. Todas as experiências vividas pela criança (seja na fase embrionária ou após o nascimento) são experiências vividas a partir da Unidade Mãe-Filho. Segundo Neumann, nessa fase ainda não podemos falar, em termos psicológicos de um “individuo-Criança”, pois o Self ou a totalidade do mundo da criança é a Mãe. A experiência da criança se dá através da unidade estabelecida com a mãe, vivenciada no próprio corpo da criança, onde

“os mundos parciais do interior e do exterior, do mundo objetivo e da psique não existem. Nessa fase embrionária pós-natal, a criança ainda está contida em sua mãe, apesar de seu corpo já haver nascido. Nessa fase, o que existe é uma unidade primária composta da mãe e filho.“ (NEUMANN, 1993, p. 12)

Nessa fase, vide Figura 1, o Ego ainda está contido no Self, este deve ser compreendido como o conjunto de relações e cuidados maternos (nutrição, atenção, higiene, adaptação do ambiente, etc.), por outro lado, a configuração biopsiquica mais básica da criança, denominada por Neumann de Self corporal. O Self da Mãe é fundamental neste momento, pois, seria o veículo para constelação do Self da criança.

Esta Relação Mãe-Criança, denominada por Neumann, de relação Primal, que

funciona para a criança como possibilidade de relacionamento com seu próprio corpo, com seu Self, com o “tu” e com o mundo, tudo ao mesmo tempo. A relação primal é a base ontogenética da experiência de estar-no-próprio-corpo, de estar-com-um Self, de estar-unido, de estar-no-mundo. (NEUMANN, 1993, p. 25)

A relação primal sadia, marcada pela confiança e amor da mãe, vai possibilitar o desenvolvimento de um ego integral positivo assim como o estabelecimento de um eixo ego-self estável. Para Neumann, o “ego integral positivo” seria “um ego capaz de assimilar e integrar as qualidades, até mesmo quando negativas ou desagradáveis, dos mundos interno e externo, tais como privações, dor, etc.” (NEUMANN, 1993, p. 51). O desenvolvimento saudável seria consequência deste ego integral positivo.

Na fase urobórica, a experiência do Self é encarnada pela dinâmica do arquétipo da grande Mãe, onde a experiência da segurança e nutrição são proporcionados pela unidade formada na relação primal mãe-bebê, envolvendo toda a experiência da criança.

O desenvolvimento natural da criança significa um aumento da consciência, inicialmente, esse desenvolvimento se manifesta através das distinções entre sensações do corpo, favorecem a aproximação do indivíduo com a experiências externas à urobóros matriarcal, que daria início a separação do Ego do inconsciente presentado pela fig2.

As experiências como conforto e desconforto, saciedade e fome, calor e frio etc; começam a serem compreendidas de uma forma relativamente consciente gerando uma polarização na esfera psíquica. A experiência da totalidade da Grande Mãe começa a rompida e vivenciada em seus aspectos positivos e negativos. Essa distinção ou ruptura da unidade “mãe-criança” é marcada pela dinâmica patriarcal, que se caracteriza justamente pelas divisões, pelo estabelecimento de limites. Para exemplificar de forma mais simples, o “sim e não” o “pode e não pode” são expressões dessa dinâmica patriarcal presentes desde a mais tenra infância.

A fase patriarcal desenvolveria dos dois anos até a adolescência possibilitando a separação entre a consciência e o inconsciente, assim como o estabelecimento e fortalecimento do ego e do o eixo ego-self (Fig. 3).O desenvolvimento não terminaria na fase patriarcal, o desenvolvimento passaria a uma relação com o outro, pelo amadurecimento e constelação da anima e animus e, posteriormente, individuação.

Para Neumann, o objetivo da primeira etapa da vida é o desenvolvimento do eixo ego-self

Uma personalidade assim sadia é sinônimo de um eixo ego-Self normal e fornece uma garantia de que a relação compensatória entre consciente e inconsciente, que em certos distúrbios graves fica seriamente prejudicada, continuará funcionando em certa medida.(NEUMANN, 1993, p 54)

Neumann não desenvolve muito a conceituação acerca do eixo ego-self, na verdade, o eixo ego-self é um conceito necessário na formulação de Neumann para expressar a importância da relação primal na vida do sujeito.

O eixo Ego-Self em Edinger: A experiência clínica

Edward Edinger(1922-1998) foi um dos mais importantes analistas junguianos norte-americano, membro fundador do Instituto Jung de Nova York. Em sua obra “Ego e Arquétipo” oferece uma importante via de compreensão para eixo ego-self. A diferente de Neumann que visava uma teoria do desenvolvimento, a concepção de Edinger é mais voltada para a prática clínica, mas, sem ignorar o desenvolvimento.

A compreensão de Edinger se destaca por apresentar de forma clara o dinamismo do da relação ego e self., assim como por conciliar a dinâmica descrita por Fordham sobre Self, segundo o modelo de deintegração/reintegração. Segundo Edinger haveria três situações ou estágios possíveis no desenvolvimento da consciência: Inflação, alienação e individuação.

A Inflação

O termo inflação é utilizado no contexto junguiano sempre que o ego encontra-se num estado de identificação com algum elemento da psique coletiva, de modo, que o Ego passa a extrapolar seus limites. Nas palavras de Edinger

“Uso o termo ‘inflação’ para descrever a atitude e o estado que acompanham a identificação do ego com o Si-mesmo. trata-se de um estágio no qual algo pequeno (o ego) atribui a si qualidades de algo mais amplo (o Si-mesmo) e, portanto, está além das próprias medidas. (EDINGER, 1989, p27)

Em sua perspectiva, o desenvolvimento humano começa com um estado de inflação do Ego, isto é, da identificação do Ego com o Self. Esta identificação original é semelhante ao que Neumann descreveu como estagio urobórico. Assim, esta identidade entre Ego-Self se caracteriza pelo fato do ego não ter-se emancipado do Self. O desenvolvimento naturalmente produz a ruptura dessa identificação especialmente pelo processo de educação e socialização.

Na vida adulta é possível encontrarmos esse mesmo fenômeno quando uma instância arquetípica envolve o ego tirando-lhe de sua realidade. Para Edinger “podemos identificar um estado inflação sempre que vemos alguém (inclusive nós mesmos) vivendo um atributo da divindade, isto é, sempre que alguém esteja transcendendo os limites próprios do ser humano.”(EDINGER, 1989,p.36) Todo excesso seria indicativo de inflação, seja de poder, amor, altruísmo, humildade, arrogância Assim,

A motivação para o poder de todos os tipos é sintoma de inflação. Toda vez que agimos motivados pelo desejo de poder, a onipotência está implícita. Mas a onipotência é um atributo que só Deus tem. A rigidez intelectual que tenta igualar suas próprias verdades ou opiniões com a verdade universal também é inflação. É a suposição da onisciência. A luxuria e todas as operações do puro princípio de prazer constituem igualmente inflação. Todo desejo que dê à própria satisfação um valor central transcendente os limites da realidade do ego e, em consequência, assume os atributos dos poderes transpessoais.(EDINGER, 1989, p.37)

A inflação é um fenômeno natural mas, não significa necessariamente patológico, pois, em algumas situações é necessário o irrompimento do potencial arquetípico – geralmente por meio de um símbolo – para potencializar o ego. Como dito acima, todo excesso indica uma inflação. Edinger chama atenção que a inflação também pode se manifestar de forma negativa, isto é, ao invés o individuo se identificar com os atributos da divindade, se identificar com a vítima da divindade – com um sentimento excessivo de culpa e sofrimento. “Vemos isso nos casos de melancolia que exprimem o sentimento de que ‘que ninguém no mundo é tão culpado quanto eu’”(ibid, p. 37)

Como exemplo da inflação na mitologia Edinger cita como exemplos Adão, Prometeu, Faetonte, Ícaro, Ixion. A expressão mítica da inflação é a Hybris na tradição grega ou a idéia do pecado na tradição judaico cristão.

A inflação do ego aponta para uma relação inadequada com inconsciente, tomado por um conteúdo do inconsciente, o ego é levado pelo impulso inconsciente.

A Alienação do Ego

A Alienação do ego corresponde a um segundo momento no processo de desenvolvimento da personalidade. Se a inflação corresponderia ao estágio original, onde o ego estaria identificado com o Self, a alienação ocorre a perda de contato entre o ego e o self. Assim, processo de alienação é mais preocupante significaria uma ruptura, mesmo que temporária, do da relação entre o ego e o self, é preocupante poi,s o “ eixo ego-si-mesmo representa a conexão vital entre o ego e o Si-mesmo, a qual deve estar relativamente intacta se se pretende que o ego suporte as tensões e cresça.”(ibid, p.67).

Apesar de preocupante, o processo de desenvolvimento naturalmente contribui com a alienação do ego. As relações com o meio, a experiência de limite, a experiência com os pais que naturalmente recebem a projeção do Self, desencadearia um processo de alienação, pois, a criança estabeleceria um crescente contato com a realidade no qual a criança começaria a se perceberia em seu próprio limite, em sua própria realidade. É importante frisar que essas experiências não são patológicas em si, o treinamento da criança e a disciplina possibilitam o desenvolvimento e uma relação adequada com o meio. Nesse contexto de desenvolvimento, o perigo não estaria na projeção do Self nos mais, mas, numa possível projeção da sombra dos pais na criança que poderia danificar a relação do ego com o self, pois, com esta projeção as expectativas lançadas sobre a criança ultrapassam a exigência humana. O ego da criança experimentaria um sentimento de rejeição, incapacidade e continua inferiorização como se vindo do próprio Self, este seria um caso mais grave na infância.

Edinger sugere que inevitavelmente ocorrerão momentos de alienação do ego, contudo, o ideal seria que essa alienação não danificasse ou rompesse o eixo ego-self, pois, quando a conexão se rompe o “resultado é o vazio, desespero, falta de sentido e, em casos mais extremos, a psicose ou o suicídio” (p.72). A falta de relação com o Self promove no ego uma postura defensiva em relação a vida, pois, o individuo vive a sensação do desamparo. Isso ocorre porque

O Si-mesmo, na qualidade de centro e totalidade da psique, capaz de conciliar todos os opostos, pode ser considerado o órgão de aceitação par excellence. Como inclui a totalidade, ele deve ser capaz de aceitar todos os elementos da vida psíquica, por mais antitéticos que possam ser. O sentimento de ser aceito pelo Si-mesmo dá ao ego força e estabilidade. Esse sentimento de aceitação é o veiculado para o ego através do eixo ego-Si-mesmo. Um sintoma de danificação desse eixo é a falta de auto-aceitação. O individuo sente que não merece viver ou ser o que é. A psicoterapia oferece à pessoa que passa por isso uma oportunidade de enfrentar a aceitação. Em casos bem-sucedidos, essa experiência pode equivaler a um reparo do eixo ego-Si-mesmo que restabelece o contato com as fontes internas de força e de aceitação – o que deixa o paciente livre para viver e crescer. (ibid, p. 69.)

A incapacidade do individuo em se aceitar, em estabelecer uma relação saudável consigo mesmo é compensada através de uma persona rígida, profissional, para compensar o vazio e a não aceitação interior. Tão natural quando o processo de alienação é o processo de reparação do eixo. Em situações não extremada, a própria dinâmica psíquica seria capaz de reparar a relação do eixo ego-self – seja através de relações pessoais (amigos, família) ou de experiências arquetípicas de reparação (como as experiências religiosas). Outros casos mais extremados, que são os que geralmente chegam a clínica psicológica, Edinger aponta que a postura do acolhimento por parte do terapeuta/analista é o passo fundamental para a reparação do eixo ego-self. A aceitação/acolhimento abre a possibilidade do individuo para o estabelecimento da transferência que em si mesma já se manifesta como uma tentativa de reparação, isto é, uma projeção do self que numa condição saudável pode restaurar a relação do ego com o self.

Esse estado de alienação é representado na literatura e mitologia através da solidão, desamparo, de imagens como o deserto. São João da Cruz a descreve como a noite escura da alma. De forma geral, o processo de alienação deve ser seguido pela reparação.

Individuação

O processo de inflação e alienação se sucedem ao longo da vida. Quando não ocorre um transtorno patológico, a inflação “leva a uma queda e, portanto, à alienação. A condição alienada, da mesma maneira, leva, em condições normais, a um estado de cura e restauração.” (ibid.p. 98). Tanto a inflação quanto a alienação, que sob um certo aspecto se complementam, podem representar um risco ao desenvolvimento da personalidade. Esse risco tende a ser contrabalançado na cultura, mas, propriamente na experiência das religiões. O respeito ao sagrado, hábitos como dizer “se Deus quiser”, os tabus, dentre outras; são formas de proteger o ego do risco da inflação. A projeção do Self nas figuras divinas nas religiões são uma forma possibilitam o processo de restauração do eixo ego-self. Contudo,

Em determinado ponto do desenvolvimento psicológico, normalmente após uma extensa experiência de alienação, o eixo ego-Si-mesmo, de repente, passa à consciência. (…) O ego torna-se consciente, em termos de experiência, da existência de um centro transpessoal a que está subordinado. (ibid p. 106-8)

A irrupção do eixo ego-self na consciência pode ser descrita, nas palavras de Otto, como um mysterium tremendum et fascinans, isto é, um mistério terrível pois, impõe ao ego a dimensão de sua limitação. Por outro lado, é um mistério fascinante pois atrai o ego. A consciência do ego acerca deste “eixo ego-self”, isto é, da percepção de uma realidade distinta em si mesmo, supraordenada, implica na possiblidade de diálogo entre a consciência e o inconsciente sem que o ego esteja identificado com Self.

Ocorre a cura de uma divisão dupla quando a individuação é alcançada: primeiro, a divisão entre consciente e inconsciente, que se iniciou por ocasião do nascimento da consciência; em segundo lugar, a divisão entre sujeito e objeto. A dicotomia entre realidade externa e a interna é substituída por um sentimento de realidade unitária. (…) As imagens e atributos do Si-mesmo são experimentados agora como coisas distintas do ego e situados acima dele. Essa experiência traz consigo a percepção de que não se é dono da própria casa. A pessoa toma consciência de que há uma orientação interna autônoma, distinta do ego e, com frequência, antagônica a ele. (ibid. p. 143-4)

A individuação não é uma meta, com um alvo a ser alcançado, mas, um processo continuo, ou melhor, uma relação continua. O ego tem a experiência de algo superior a si. Que pode ser descrita como uma voz interior ou por outro lado, nas religiões é descrita como um encontro com a divindade, com o mestre, ou com um processo de iluminação.

Eixo Ego-Self em Jung

Como dito no inicio, este texto surgiu de uma discussão realizada no grupo Aion, um dos pontos mais importantes daquela discussão foi a dificuldades que algumas pessoas tinham em perceber o arcabouço teórico descrito por Jung na configuração do eixo ego-self. Acredito que seja necessário considerarmos o lugar que o conceito de eixo ego-self ocupa na teoria junguiana. Compreendo que este conceito não indica uma estrutura ou um nível de organização da psique, mas de uma representação sintetizada e didática da dinâmica psíquica que fora descrita por Jung. Assim, para compreender de fato o que “eixo ego-self” apresenta devemos ter uma visão clara da teoria junguiana, caso contrário corremos o risco de ter uma concepção limitada deste conceito, especialmente quando nos aprofundamos na concepção de Edinger, que transcende a perspectiva de desenvolvimento visada por Neumann.

Aproximar o conceito de eixo ego-self de Jung é tornar visível os aspectos teóricos que se ocultam nas entrelinhas. A linha mestra que norteia o todo o desenvolvimento desse conceito está na afirmação de Jung que o “eu está para o ´si-mesmo´ assim como o ‘patiens’ está para o ‘agens’[1], ou com o objeto está para o sujeito, por que as disposições que emanam do si-mesmo são bastante amplas e, por isso mesmo, superiores ao eu” (JUNG, 1991, p. 58). O pressuposto de que o Self é o ponto de partida e a meta a ser realizada no desenvolvimento psíquico toda a visão de Jung.

O desenvolvimento do ego, sua organização e emancipação do inconsciente(self) não foi alvo claro das pesquisas de Jung, mas, foi descrito por Neumann a partir das forças de centroversão e da relação primal ou mesmo descrito pelo Fordham pelo processo de deintegração/reintegração, sendo o “o Ego é o `de-integrado´ mais importante do Si-mesmo”.(SOLOMON, 2002, p. 140). Independente do ponto de vista se Fordham ou Neumann, temos um impulso natural direcionado ao meio externo, o qual Jung descrevia como uma unilateralidade fundamental e inerente ao ego sobre esta afirmou

A unilateralidade é, ao mesmo tempo, uma vantagem e um inconveniente, mesmo quando parece não haver um inconveniente exteriormente reconhecível, existe, contudo, sempre uma contraposição igualmente pronunciada no inconsciente a não ser que se trate absolutamente de um caso ideal em que todas as componentes psíquicas tendem, sem exceção, para uma só e mesma direção. (JUNG, 2000, p. 3)

A unilateralidade descrita por Jung está associada do movimento natural do Ego em direção a consciência e ao mundo exterior. Ao longo da infância, o impulso para o estabelecimento da consciência e a aderência a realidade exterior será possível através da unilateralidade da consciência, assim como com o desenvolvimento da persona – sob certo aspecto, quando mais adequada for o a persona, melhor será a organização e força do ego assim como sua relação com o meio exterior.

Edinger utilizou o termo “inflação” para determinar a identidade entre o ego e o Self, conforme o uso feito por Jung. Por outro lado, a alienação nos fala da unilateralidade da consciência. Em ambos os casos temos uma inconsciência pronunciada tanto em relação ao mundo interior quanto exterior. É necessário levar em consideração os complexos tanto no contexto da alienação quanto inflação.

Devemos pensar um pouco acerca das dimensões apresentadas sobre o Self. Em uma de suas descrições Jung afirma que o Self “[…]não é apenas o ponto central, mas também a circunferência que engloba tanto a consciência como o inconsciente. Ele é o centro dessa totalidade, do mesmo modo que o eu é centro da consciência” (JUNG, 1994,p. 51). Assim, todos os conteúdos psíquicos são, em última análise, manifestações do Self. Contudo, o aspecto do Self expresso no eixo ego-self se refere principalmente ao inconsciente e seus conteúdos. Nesse aspecto podemos falar do Self manifesto através da Sombra, que também é uma imagem representacional do inconsciente.

Outro aspecto que devemos considerar é o “eixo” em si ou nas representações gráficas a linha que une o ego ao self. O eixo é a anima ou animus. Devemos considerar que a anima/animus é, por excelência, “um ´psychopompos´, isto é, um intermediário entre a consciência e o inconsciente, e uma personificação do inconsciente” (JUNG, 1986, p14). Integrar a Anima/Animus é um desafio fundamental que nos conduz a integração dos opostos, possibilitando a individuação. A percepção do Self como um Outro só é possível na medida em que o ego não só conseguir se perceber distinto dos conteúdos do inconsciente, mas, perceber o inconsciente com um Outro. A Anima/animus possibilita essa experiência, viabilizando o dialogo interior.

O processo de inflação e alienação ao longo da vida expressam os dois aspectos fundamentais da individuação. Segundo Jung, a “meta da individuação não é outra senão a de despojar o si-mesmo dos invólucros falsos da persona, assim como do poder sugestivo das imagens primordiais”(JUNG,1999, p.61). É fundamental que o ego tenha uma adaptação adequada ao mundo exterior, sem se deixar alienar pelas exigências da psique coletiva, do mesmo modo é importante conhecer e se perceber na relação com as imagens primordiais, sem se inflar pela identificação com as mesmas, pois, quanto maior a inconsciência do ego maior é o poder dos conteúdos do inconsciente.

Acredito que esses apontamentos sejam importantes para pensarmos a dinâmica que envolve o eixo ego-self ampliando a percepção sobre o mesmo. Dado o enraizamento desse conceito na dinâmica descrita por Jung, é comum que analistas clássicos não utilizem dessa conceituação, justamente por considera-la desnecessária. Penso que o conceito de eixo ego-self é útil didaticamente, mas, não substitui o aprofundamento da teoria junguiana.

Referências Bibliográficas

EDINGER, Edward F. Ego e Arquétipo, SP, Cultrix, 1989

JUNG, C.G. O símbolo da Transformação na missa, Petrópolis: Vozes, 1991.

JUNG, Carl Gustav. Psicologia e Alquimia. Petrópolis: Vozes, 3. ed. 1994.

JUNG, C.G. Aion – Estudos sobre o simbolismo do Si-mesmo, Petrópolis: Vozes, 1986.

JUNG, Carl Gustav. O eu e o inconsciente. Petrópolis: Vozes, 1999

NEUMANN, Erich. A Criança, SP, Cultrix, 1991

SOLOMON, Herter McFarland,, A Escola Desenvolvimentista, inYOUNGEisendrath, Polly, DAWSON, Terence, Manual Cambrigde Para Estudos Junguianos, Porto Alegre: Artmed Editora, 2002


[1]Em citações de outros autores temos a seguinte tradução o “ego está para o Self como o que é movido está para o que move”.

 

 

——————————————————–

Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

www.psicologiaanalitica.com

mandala

O tempo e Maya : Algumas Reflexões sobre o Tempo na Psicoterapia a partir de um conto Hindu

(23 de março de 2015)

Nota: Este texto foi publicado pela primeira vez com o título “O tempo na Psicoterapia: Algumas Reflexões sobre o Tempo a partir de um conto Hindu” em 10 de setembro de 2012. Como o tema do tempo retornou as discussões do grupo Aion, resolvi revisar o texto que culminou em muitas mudanças no texto original(que foi substituído no site).

O tempo é uma questão importante para a psicoterapia. Seja por parte do paciente que, muitas vezes impaciente, questiona o acerca de quanto tempo durará a psicoterapia/análise. Por outro, psicoterapeutas iniciantes se cobram por resultados e ficam angustiados com o tempo, pois, esperam o resultado para se sentirem mais confiantes. Compreender e lidar com o tempo é uma tarefa fundamental para o psicoterapeuta.

Uma das dificuldades para lidarmos com o tempo é que em nosso idioma temos apenas uma palavra para descreve-lo. Acabamos flexionando o tempo em expressões como “o tempo Deus”, mas, que ainda é insuficiente para nos dar mais perspectivas acerca do tempo. No grego antigo haviam três possibilidades de pensar o tempo o Chronos, o kairós e o aion. O Cronos seria o tempo sequencial, o tempo associado a métrica, medida, a linearidade do inicio meio e fim – poderíamos dizer, que o tempo cronos é o tempo associado aos processos da consciência, que também se caracteriza por criar um elo sequencial entre os eventos possibilitando a percepção de continuidade. O tempo Kairós é associado ao tempo oportuno, não representa um período de tempo, mas, um momento significativo – poderíamos pensar o Kairós associado a sincronicidade. O Aion se remete ao tempo que não pode ser mensurado, ao tempo sagrado, mítico, intimamente relacionado atemporalidade, ao eterno – o Aion é o tempo do inconsciente.

Acredito que seria interessante ampliarmos a compreensão acerca do tempo pensando um pouco acerca do conceito hindu de maya. Para nos aproximarmos desse conceito iremos utilizar um pequeno conto hindu narrado pelo Mircea Eliade

Um asceta ilustre chamado Nârada, tendo obtido a graça de Visnu pelas suas inúmeras austeridades, vê aparecer-lhe o deus, o qual lhe promete cumprir qualquer desejo por ele emitido. “Mostra-me a força mágica da tua mâyâ” — pede-lhe Nârada. Visnu acede e faz-lhe sinal para que o siga. Pouco tempo depois, tendo chegado a um caminho deserto e ensolarado, sentindo sede, Visnu pede-lhe para andar umas centenas de metros até uma pequena aldeia que se avista e trazer-lhe água. Nârada precipita-se e bate à porta da primeira casa que encontra. Uma bela rapariga abre-lhe a porta. O asceta olha-a demoradamente e esquece o motivo que ali o levou. Entra na casa e os pais da jovem recebem-no com o respeito devido a um santo. O tempo passa. Nârada acaba por casar com a rapariga e conhece as alegrias do casamento e a  duração de uma vida de camponês. Passam-se doze anos: Nârada tem agora três filhos e após a morte do sogro torna-se proprietário da quinta. Mas no fim do décimo segundo ano, chuvas torrenciais acabam por inundar a região. Numa só noite os rebanhos perecem afogados e a casa desmorona-se. Segurando com uma das mãos a mulher, com a outra dois filhos e levando o mais pequeno ao ombro, Nârada caminha com dificuldade através da água. Mas o fardo é por demais pesado.

Escorregando, o pequeno cai na água. Nârada larga os outros dois e faz tudo para o encontrar. Demasiado tarde: a corrente levou-o para longe. Enquanto procurou o mais pequeno os outros desapareceram tragados pelas águas; pouco tempo depois a mulher tem a mesma sorte. O próprio Nârada cai e a corrente arrasta-o, inconsciente como um pedaço de madeira. Quando desperta atirado sobre uma rocha, lembra-se das suas infelicidades e rompe em soluços. Mas, de repente, ouve uma voz familiar: “Filho, onde está a água que devias trazer-me? Espero-te há mais de meia-hora!” Nârada volta a cabeça e olha. Em lugar da cheia que tudo destruíra, vê campos desertos, brilhando ao sol. “Compreendes agora o segredo do meu mâyâ?” —pergunta-lhe o deus.

Evidentemente que Nârada não podia afirmar que tinha compreendido tudo; mas aprendera uma coisa essencial: sabia agora que a Mâyâ cósmica de Visnu se manifesta através do tempo.(ELIADE, 1978, p.69-70)

Neste conto, ao ensinar sobre sua Maya cósmica, Visnu ensina acerca do tempo e da existência. Todo o período de 12 anos experimentado por Narada, não passou de poucos minutos para Visnu, toda a experiência de vida de Narada, se dissolveu. A maya de Visnu se manifesta no tempo e na experiência da realidade. Acerca da Maya Heinrich Zimmer comenta

O substantivo  mâyâ relaciona-se etimológicamente com ´medida´. É formado pela raiz mâ, que significa medir ou traçar (como por exemplo, a planta de uma construção ou esboço de um desenho), produzir, dar forma ou criar,  revelar.Mâyâ é a medição, criação, ou manifestação das formas; é qualquer ilusão, artificio, ilusionismo, fraude, embuste, sortilégio ou obra de feitiçaria; aparição ou imagem ilusória, fantasmagoria, ilusão de ótica; é também qualquer estratagema diplomático ou artifício político cuja a intenção seja enganar. A mâyâ dos deuses é o poder que têm de assumir diversas formas, exibindo, segundo sua vontade, vários aspectos de sua essência sutil. Mas são, os próprios deuses, a produção de uma mâyâ maior: a espontânea autotransformação de uma substância de origem indiferenciada, divina e onigeratriz. Essa mâyâ maior não produz apenas os deuses, mas o universo em que atuam. (…)

Mâyâ é a Existência: tanto o mundo compreendido por nossa percepção quanto nós próprios que, inseridos nesse meio que se expande e dissolve, também nos desenvolvemos e dissolvemos.(…)

O ego é enredado numa teia num estranho casulo: ´tudo isso à minha volta´ e ´minha própria existência´ – experiência externa e interna – são a urdidura e a trama do tecido sutil. (…) Mâyâ – o mundo, a vida, o ego, aos quais nos agarramos – é fugaz e evanescente como a nuvem e  a névoa. (ZIMMER, 1989, p. 30-1)

Maya é um conceito ou ideia complicado para nós ocidentais.  A tradução mais utilizada é a de “ilusão”, mas, esta não deve ser vista como algo negativo, pois, indica a dimensão da aparência que proporciona delimitações, formas, que nos permitem a experiência da existência. Maya revela a transformação, transitoriedade – por isso mesmo, Zimmer aponta sua fugacidade. Assim, que os deuses se manifestam no mundo dos homens através de sua Maya, isto é, seus inúmeros avatares , que são constituem uma revelação do parcial do deus total. Assim, a Maya nos confronta com o que é parcial e total, aparente e oculto, perene e efêmero. Nosso mundo contemporâneo se tornou escravo do tempo do tempo cronológico, dos 12 anos vividos por Narada, onde, perdendo o contato com a realidade supraordenada, com o tempo fora do tempo, com o tempo mítico, dos sonhos, do sagrado. Devemos frisar que não estamos defendendo concepção religiosa a falar do tempo sagrado mas, apontando que essa dimensão do sagrado e do mito interferem diretamente em nossa psique, pois, estão na mesma ordem da dinâmica do inconsciente.

O tempo efetivo para o desenvolvimento da análise é o tempo do inconsciente. Contudo, não devemos encarar esse fato como se fosse algo extremamente longo, pois, na verdade, a disponibilidade da consciência em lidar ou aceitar os conteúdo do inconsciente também influencia bastante o processo terapeutico. Por mais que existam cobranças acerca dos “meses” ou “anos” de análise/terapia, esse tempo cronológico ou do calendário não afeta o tempo do inconsciente.

O tempo do inconsciente é compreendido como atemporal, ou um tempo fora do tempo. Isto porque as categorias que utilizamos conscientemente não se aplicam ao inconsciente. O passado, presente e futuro (como uma tendência para o futuro) se acham unidos, indistintamente. Devemos ter em vista os complexos ideoafetivos, entorno dos quais nossa história pessoal se organiza, mantém os aspectos mais importantes (positivos ou negativos) ativos e atualizados. Desta forma, elementos da infância com forte carga emocional podem interferir na vida de um adulto ou idoso. Não é algo do passado que afeta, mas, desde o passado que afeta o individuo. A esse respeito Jung afirmou

A verdadeira causa da neurose está no hoje, pois ela existe no presente. Não é de forma alguma um caput mortuum que aqui se encontra, vinda do passado, mas é nutrida diariamente e, por assim dizer, sempre de novo gerada. Somente no hoje e não no ontem será “curada” a neurose. Pelo fato de nos defrontrarmos hoje com o conflito neurótico, a digressão histórica é um rodeio, quando não um desvio, a digressão para milhares de possibilidades de fantasias obscenas ou para desejos infantis não realizados é mero pretexto para fugir do essencial. (JUNG, 2000, p.161-2)

Algumas pessoas tentam determinar o “tempo do sintoma”, isto é, o momento histórico no qual uma possível causa do sintoma tenha ocorrido, como se isso fosse determinante para a cura. Como dissemos acima, o tempo do inconsciente é diferente do tempo do cronológico da vida do sujeito, os acontecimentos passados nos oferecem pistas(muitas vezes valiosas). Mas, não passam de pistas. Descobrir o evento que detonou um crise, nos ajuda a compreender, mas, sem uma mudança de vida, vira apenas um exercício intelectual. Uma maya – uma ilusão- que nos permite vislumbrar um detalhe, mas, não o todo do fenômeno.

Quando falamos do tempo associado ao sintoma, acredito que deveríamos compreendo-lo não termos históricos mas, em termos de mito, isto é, do “mito pessoal” de cada individuo. Mircea Eliade definia o mito como um modelo exemplar, uma referência da daria sentido e legitimidade as ações, segundo o mesmo

O mito conta uma história sagrada, quer dizer, um acontecimento primordial que teve lugar no começo do Tempo, ab initio. Mas contar uma história sagrada equivale a revelar um mistério, pois as personagens do mito não são seres humanos: são deuses ou Heróis civilizadores. Por esta razão suas gesta constituem mistérios: o homem não poderia conhecê-los se não lhe fossem revelados. O mito é pois a história do que se passou in illo tempore, a narração daquilo que os deuses ou os Seres divinos fizeram no começo do Tempo. “Dizer” um mito é proclamar o que se passou ab origine. Uma vez “dito”, quer dizer, revelado, o mito torna-se verdade apodítica: funda a verdade absoluta. “É assim porque foi dito que é assim”, declaram os esquimós netsilik a fim de justificar a validade de sua história sagrada e suas tradições religiosas. O mito proclama a aparição de uma nova “situação” cósmica ou de um acontecimento primordial. Portanto, é sempre a narração de uma “criação”: conta se como qualquer coisa foi efetuada, começou a ser. É por isso que o mito é solidário da ontologia: só fala das realidades, do que aconteceu realmente, do que se manifestou plenamente. (Eliade, 2001, p.84)

O mito pessoal revela a nossa “verdade verdadeira”. A história que nos constitui e, desde sempre, e nos possibilita ser quem somos, por isso, para Jung o sintoma não ocultava, mas, em sua própria linguagem revelava a história significativa e simbólica do sujeito. Ela não está encerrada no passado distante da infância, mas, está no hoje. É um modelo em torno do qual nos orientamos e nossas ações reatualizam este mito, o modelo exemplar que se coloca no hoje, desde aquele tempo. Não é uma repetição vazia ao passado, mas, um movimento que resgata a vida do individuo desde o passado, que se encontra vivo no presente.

Trata-se, em suma, de um regresso ao Tempo de origem, cujo fim terapêutico é começar outra vez a existência, nascer (simbolicamente) de novo. A concepção subjacente a esses rituais de cura parece ser a seguinte: a Vida não pode ser reparada, mas somente recriada pela repetição simbólica da cosmogonia, pois, como já dissemos, a cosmogonia é o modelo exemplar de toda criação. (Eliade, 2001, p. 74 – grifos do autor)

O passado não pode ser reparado ou modificado, mas, uma vez que o mito (pessoal) é integrado torna-se possível recriação, uma ressignificação da experiência da realidade. O tempo de assimilação e ressignificação vai variar de individuo para individuo. Assim, julgar o “tempo de terapia” apenas pelo calendário não só equivocado como é injusto com cada individuo. Apesar do tempo ser um fator importante, não é ele que vai determinar o avanço da psicoterapia. Isso exige serenidade do terapeuta tanto para aceitar o tempo de cada um como lidar com as cobranças em função do tempo.

A particularidade do tempo de cada um é um aspecto de sua realidade psíquica. Quando estão muito dissociadas de seu mundo interior algumas pessoas não conseguem se compreender em seu processo de desenvolvimento. Isto é, aprisionadas na perspectiva seu mito pessoal, não conseguem se perceber em sua própria história, ignorando muitas de suas realizações. Isso se reflete na terapia como a dificuldade do paciente em perceber as mudanças que lhe ocorrem ao longo do processo terapêutico, julgando todo o processo pelas dificuldades que enfrentam no “momento atual” da terapia, afirmando “continuam no mesmo lugar”.  A dificuldade de integrar o “passado e presente” implica na dificuldade se criar o futuro – isto é, de se permitir uma nova possibilidade. Seu mito pessoal, torna-se como um labirinto. Assim, se sentem continuamente dependentes, temerosos ou fragilizados frente aos novos desafios da vida. Somente com a serenidade e paciência, o analista, poderá segurar pelo tempo necessário o fio de Ariadne que conduzirá o paciente para fora de seu próprio labirinto.

O tempo é maya, somente com a compreensão de que o tempo da realidade psíquica de cada um é impar, a transformação pode acontecer. O tempo é maya, não no sentido comum de “ilusão”, mas, da existência que se transforma. Compreender o tempo na psicoterapia como uma das faces do processo contínuo de vir-a-ser, é um passo para integrarmos nossa própria maya.

Referências bibliográficas

ELIADE, M. Imagens e Símbolos, Lisboa:Ed. Arcádia, 1978.

ELIADE M, O Sagrado e o Profano, São Paulo: Martins Fontes, 2001

JUNG, Civilização em Transição,Petrópolis: Vozes, 2000.

ZIMMER, H. Mitos e Símbolos na Arte e na Cultura da Índia, São Paulo:Ed. Palas Athena, 1989.

——————————————————–

Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

www.psicologiaanalitica.com

mandala

Anima, Animus e Alteridade – Revisão do texto de 05/04/2010

 

Nota:Revisão do texto de 05/04/2010 Em 05 abril de 2010, escrevi um texto que ainda se encontra no site – chamado “Anima e Animus”, este texto destoa dos demais textos posteriores, justamente, por pertencer a um “primeiro ciclo de textos” caracterizado por uma escrita livre, sem preocupação com a formalização do texto, priorizando uma visão pessoal e particular do pensamento junguiano. Essa ideia original foi abandonada pouco depois. Esse texto sobre a “anima e animus” (como o da Persona) não foi devidamente elaborado, sendo muito informal e com muitas ideias pouco desenvolvidas que merecem ser revistas e ampliadas. Para mim, vejo nesse texto de 2010 um importante valor histórico(da minha história pessoal e do site, por ter sido um dos primeiros), desta forma, opto por escrever um novo texto e não apenas em revisa-lo e substuí-lo.

Um mesmo arquétipo

Quando nos referimos a Anima e Animus é importante termos clareza que estamos falando de uma mesma configuração arquetípica. Ambos os termos (Anima e Animus) correspondem a forma latina de alma. Jung, optou pela utilização do termo latino Anima (forma latina feminina de alma) para a configuração feminina deste arquétipo na psique do homem e a animus(forma latina masculina de alma) para a configuração masculina na psique da mulher. Apesar de possuírem características diferentes, ambos os arquétipos se referem ao mesmo princípio arquetípico. Para compreendermos essa função, acredito que devemos trilhar por caminhos distintos. Um caminho clássico e um contemporâneo.

A via Clássica

O que que se passa com a masculinidade? Sabes quanta feminilidade falta ao homem para seu aperfeiçoamento? Sabes quanta masculinidade falta à mulher para seu aperfeiçoamento? Vós procurais o feminino na mulher e o masculino no homem. E assim há sempre apenas homens e mulheres. Mas onde estão as pessoas? Tu, homem, não deves procurar o feminino na mulher, mas, deves procurá-lo e reconhecê-lo em ti, pois tu [o] possuis desde o começo. Mas gostas de desempenhar o papel da masculinidade, porque isto flui pelo caminho desimpedido do tradicional. Tu, mulher, não deves procurar o masculino no homem, mas deves aceitar em ti o masculino, pois tu o possuis desde o começo. Mas isto te diverte e é fácil fazer o papel de mulherzinha, por isso o homem te despreza, pois ele despreza o feminino. Mas a pessoa é masculina e feminina, não é só homem ou mulher. De tua alma não sabes dizer de que gênero ela é. Mas se prestares bem atenção, verás que o homem mais masculino tem alma feminina e que a mulher mais feminina tem alma masculina. (JUNG, 2013, p.203)

Nesse fragmento do Livro Vermelho temos a ideia central acerca desse arquétipo, na concepção clássica. No homem a Anima se configura a partir pelo do coletivo feminino no inconsciente do homem. E o Animus se configura a partir do coletivo masculino no inconsciente da mulher, de tal forma, que em ambos os casos é necessária a integração desses pólos para o processo de individuação (ou como está no texto, para o aperfeiçoamento).

A configuração da Anima e do Animus ocorre simultaneamente ao desenvolvimento do Ego e da Persona. No processo de desenvolvimento, no caso do menino, os atributos coletivos vinculados ao gênero são reforçados para serem identificados com o Ego e a Persona, de modo que o indivíduo constitua uma identidade de gênero de acordo com os ditames coletivos. Os atributos contrários, isto é, no caso do menino, femininos são reprimidos fornecendo, assim, o aspecto fundamental para a configuração da Anima. Segundo Neumann,

Enquanto a disposição natural de todo indivíduo o inclina a uma bissexualidade física e psíquica, o desenvolvimento diferencial da nossa cultura força-o a deslocar o elemento contra-sexual para o inconsciente. como resultado, a consciência só aceita o tipo de caráter que a valoração coletiva considera correspondente às características sexuais externas. Assim é que as características “femininas” e “relativas à alma” são consideradas indesejáveis num garoto, pelo menos na nossa cultura. Tal acentuação unilateral da sexualidade específica de cada pessoa termina por constelar o elemento contra-sexual no inconsciente, na forma da anima, nos homens, e do animus, nas mulheres; a anima e o animus, sendo figuras parciais que permanecem inconscientes, dominam a relação do inconsciente com a consciência. Esse processo é apoiado pelo coletivo e, como a repressão do lado contra-sexual é frequentemente difícil, a diferenciação sexual é de início acompanhadas pelos modos típicos de antipatia com relação ao sexo oposto. Também esse desenvolvimento obedece ao princípio geral da diferenciação, que pressupõe o sacrifício da totalidade, aqui representada pela figura do hermafrodita.(NEUMANN, 1995, 386)

No processo de desenvolvimento, a necessidade de diferenciação da consciência exige a ruptura da totalidade, separando os sistemas Consciente e Inconsciente. A separação da sizígia Masculino-Feminino é necessária para o desenvolvimento, contudo, essa própria separação já pressupõe um processo de integração posterior, que vai ser justamente a função deste arquétipo viabilizar o diálogo entre os opostos. Nesse sentido Neumann utiliza a imagem do Hermafrodita, que poderíamos ampliar no Andrógino de Platão e as pessoas de dois-espiritos, dos nativos norte-americanos, todas essas imagens arquetípicas remetem a união de opostos, ou opostos coabitando.

Na experiência pessoal, a anima/us possuem uma função diferenciada dos demais arquétipos. Segundo Emma Jung,

Dentre os arquétipos há sobretudo dois investidos de grande significado, pois, pertencendo por um lado à personalidade, e por outro estando enraizados no inconsciente coletivo, eles constroem uma espécie de elo de ligação ou ponto entre o pessoal e o impessoal, bem como entre o consciente e o inconsciente. Essas figuras – uma é masculina e outra feminina – foram denominadas de animus e anima por Jung. Ele entende aí um complexo funcional que se comporta de forma compensatória em relação à personalidade externa, de certo modo uma personalidade interna que apresenta aquelas propriedades que faltam à personalidade externa, consciente e manifesta. São características femininas no homem e masculinas na mulher que normalmente estão sempre presentes em determinada medida, mas que são incomodas para a adaptação externa ou para o ideal existente, não encontrando espaço algum no ser voltado para o exterior.

O caráter dessas duas figuras não é, entretanto, determinado apenas pela respectiva estruturação no sexo oposto, sendo condicionado ainda pelas experiências que cada um traz em si do trato com indivíduos do sexo oposto no decurso de sua vida e através da imagem coletiva que o homem tem da mulher e a mulher do homem. Estes três fatores condensam-se numa grandeza que não é apenas a imagem nem somente experiência, e sim muito mais uma espécie de essência cuja ação se dirige não às demais funções anímicas, mas que se comporta ativamente e que intervém na vida, individual mais ou menos como um estranho, às vezes prestativo, mas às vezes também incômodo e até mesmo destrutivo.(JUNG, 2005, p 15-16)

Estando no limiar entre o pessoal e o coletivo, a anima/us, nos lança sempre para além de nós mesmos, pois, devemos não só compreender o que passa pelo pessoal, mas, na dinâmica na qual o indivíduo se desenvolveu. Por isso mesmo Jung dizia que não deveríamos chamar “minha anima” ou “meu animus”, mas, a Anima ou o Animus, de forma impessoal. Na primeira metade da vida, essas configurações se manifestam normalmente projetado no meio exterior, em figuras do sexo oposto. Essas projeções podem gerar vinculações inadequadas, paixões arrebatadoras, casamentos entre pessoas extremamente diferentes, situações que frequentemente são exploradas pelo cinema a literatura.

Nesses casos onde anima/us atua de modo desorganizador, incomodo ou mesmo nocivo referimos a uma situação onde esse complexo funcional está inconsciente, de modo que se manifesta pela projeção ou mesmo por momentos em que possui ou engolfa o ego. Vamos explicar melhor, a projeção é a forma preferencial da manifestação do inconsciente, no caso da projeção da anima, inicialmente se dá na figura materna, posteriormente, na professora na escola, posteriormente numa namorada/esposa essa projeção se caracteriza por um vínculo intenso e inconsciente com a pessoa que recebe a projeção. Em alguns casos, essa projeção é funcional, isto é, quando ocorrer uma projeção mutua num casal, e se estende ao longo da vida, dando a relação uma dimensão de completude e de equilíbrio, nesses casos, não é incomum que por ocasião da morte de um dos cônjuges, o outro morra algum tempo depois.

Uma outra situação, como citamos acima, é a “possessão” pela anima ou pelo animus, neste caso,

A possessão pela anima ou pelo animus transforma a personalidade de modo a dar proeminência àqueles traços que são considerados psicologicamente característicos do sexo oposto. Em um ou outro caso, uma pessoa perde a individualidade, antes de tudo, e, conseqüentemente, tanto o encanto como os valores. Em um homem, ele fica dominado pela anima e pelo princípio de EROS com conotações de inquietação, promiscuidade, mau humor, sentimentalidade – o que quer se possa definir como uma emocionalidade irreprimida. Uma mulher sujeita à autoridade do animus e do LOGOS é controladora, obstinada, cruel, dominadora. Ambos tornam-se unilaterais. Ele é seduzido por pessoas inferiores e forma ligações pouco significativas; ela, sendo absorvida por um pensamento de segunda classe, marcha à frente sob a égide de convicções que não levam em conta os relacionamentos.(SAMUELS, et al,p. 36)

É importante termos clareza que independente forma de expressão da anima/us seja ela projeção ou possessão, a dinâmica visa a integração da psique pela consideração adequada dele “não-eu” psíquico, o que de fato é vital para o o desenvolvimento psíquico. Pois, age como uma ponte, possibilitando o dialogo objetivo entre o inconsciente e o consciente. Isto é possível, pois, o inconsciente tende a se manifestar através da anima e o animus. O confronto e assimilação da anima/animus/inconsciente é o passo fundamental para o processo de individuação e configuração do self.

Nas últimas décadas, surgiram críticas pertinentes a teorização da anima e animus se seriam ainda condizentes com a realidade em que vivemos. Antes de discutir as críticas, gostaria de passar por outras possibilidades de desenvolvimentos na teoria junguiana possibilitaram uma compreensão mais ampla desse arquétipo na atualidade. Nesse sentido, gostaria de começar passando pela contribuição do Dr. Carlos Byington.

Um olhar contemporâneo: Arquétipo da Alteridade

A compreensão da Anima/animus pela via da alteridade não é uma prerrogativa do Dr. Carlos Amadeus Botelho Byington, contudo, vou começar essa discussão me pautando em se’u trabalho, pelo fato do mesmo ser inquestionavelmente um dos mais importantes pensadores junguianos do Brasil, que em neste anto 2015 completa 50 anos desde sua formação como analista junguiano no Instituto C.G.Jung de Zurique, Byington desenvolveu uma forma particular de pensar a teoria junguiana a qual denominou “Psicologia Simbólica Junguiana”.

Em sua obra, Byington compreendeu que a presença dos elementos masculinos e femininos não seriam uma prerrogativa da Anima e Animus, mas, já estariam presentes e constituiriam o indivíduo (independente se homem ou mulher) através dos arquétipos Matriarcal (ampliação do arquétipo da Grande Mãe) e Patriarcal (ampliação do arquétipo do Grande Pai). Assim, Byington englobou a dinâmicas de Anima e Animus na dinâmica que denominou de Arquétipo da Alteridade, centrando a principal característica da Anima e Animus, que seria de mediar a relação entre os opostos (no caso, da concepção clássica, a anima/animus seria mediariam a relação entre a consciência e o inconsciente).

O Arquétipo da Alteridade inclui a fenomenologia dos arquétipos Anima(no homem) e do Animus(na mulher), descritos por Jung e aqui concebidos como bipolares (Byington, 1986a). Jung percebeu estas características dos arquétipos da Anima e do Animus, quando os descreveu como os arquétipos mediadores da polaridade consciente-inconsciente (Jung 19941/1944/1951/1955) O arquétipo da alteridade é o arquétipo que propicia à Consciência o encontro dialético com os opostos, através do qual a elaboração simbólica pode alcançar sua capacidade plena. Dialética aqui significa que os pólos de todas as polaridades podem se relacionar em oposição, mas também em harmonia, dependendo do contexto. Trata-se da relação de um encontro pleno entre o Ego e o Outro, no qual os símbolos podem ser elaborados até o máximo de seu potencial metafórico, e portanto necessitam a extensão plena da elaboração simbólica permitida pelo princípio de sincronicidade. (BYINGTON, 2002, p. 26)

Essa compreensão de Byington é de grande valor, pois, nos ajuda a pensar melhor a função primordial da Anima e Animus, mediação de opostos, psicompompo, e não apenas na polaridade masculino-feminino, que é uma das regências desse arquétipo. Assim, a dinâmica da alteridade possibilita ao ego não só considerar a posição do Outro, o “não-Eu”, mas, assimilar todas as polaridades, integrando os opostos. Essa compreensão é fundamental, de modo que não devemos fixar a compreensão superficial dos arquétipos da Anima/us como função contrassexual, mesmo que esta última seja muito importante e presente em sua fenomenologia.

Acredito que a ampliação da compreensão da Anima e Animus oferecida por Byington, nosajuda a pensar melhor a dinâmica desse arquétipo, assim como refletir algumas críticas ou insuficiências relacionadas a teoria original da anima/animus. As críticas se relacionam ao fato da visão clássica atribuir ou fixar determinas características de gênero, isto é, o que são caraterísticas próprias a homens e próprias a mulheres. Características plenamente possíveis e viáveis numa sociedade machista, sexista e patriarcal (como era de Jung). Não que a nossa não seja, contudo, é inegável que houve uma diferenciação daquele modelo do ínicio do século XX. Isso significa considerar que a compreensão do a Anima/animus deva ser relativizada. Samuels, comenta que

(…) Anima e animus provocam imagens que representam um aspecto inato de homens e mulheres – aquele aspecto deles que é, de certa forma, diferente do modo como funcionam conscientemente; um outro, estranho, talvez misterioso, porém certamente cheio de possibilidades e potencialidades. Mas, porque a ênfase no “sexo oposto”? Por que o homem irá, muito mais naturalmente, imaginar o que é seu “outro”, para ele, sob a forma simbólica de uma mulher – um ser com outra anatomia. A mulher irá simbolizar o que é estranho, ou misterioso para ela, em termos do tipo de corpo que ela mesma não tem. Na verdade a sexualidade do oposto implica na psicologia do oposto; a sexualidade é uma metáfora para isso” (SAMUELS, 1985, p. 252

E, continua,

Também podemos observar que uma interpretação moderna do animus e da anima tem silenciado bem mais seus opositores. Animus e anima são maneiras de comunicar a alteridade, a diferença, aquilo que momentaneamente está indisponível devido ‘a inconsciência. Animus e anima falam, então, do inesperado, daquilo está “fora de ordem”, que ofende à ordem dominante. (SAMUELS, 1989, p.254)

É necessário compreendermos que para além da função de psicopompo, isto é, a intermediação da relação com o inconsciente, é uma muito importante, mas, a alteridade não se reduz a esta função. Alteridade desloca o indivíduo em direção ao outro, isto é, possibilita uma experiência profunda da relação com o Outro, a integração da realidade interior com a exterior, de tal forma que a experiência com o outro pode se tornar uma experiência de desenvolvimento(individuação) para o indivíduo. A integração dos opostos é um dos maiores desafios da individuação – por isso mesmo, a projeção desse arquétipo faz com que o indivíduo seja absorvido pela relação com o Outro.

Reconhecer o Outro e integrar sua diferença em nossa realidade psíquica é uma atividade heroica. Nos coloca entre Caríbdis e Cila, por um lado temos Sombra, que sempre nos aponta para nós mesmos, para nossa história e individualidade, por outro temos a Anima/Animus/Alteridade que nos coloca diante da integração do “Não-eu”, do mundo e do “Outro”. O ato heroico de individuação é passar por esse estreito sem sucumbir a qualquer um dos, mas, integrando-os funcionalmente. Através do dinamismo arquetípico da alteridade podemos elaborar criativamente dos opostos, possibilitando integrar e desenvolver os elementos que até então estavam inconscientes.

Acho importante frisar que a compreensão contemporânea da Anima e Animus como Alteridade deve ser compreendida no contexto da obra de Jung. É um desenvolvimento posterior cujas raízes estão fixadas nos trabalhos de Jung sobre a Anima e Animus

Referências bibliográficas

BYINGTON, C.A.B. O arquétipo da Vida e da Morte – Um Estudo da Psicologia Simbólica, São Paulo: 2002.

NEUMANN, Erich História da Origem da Consciência, São Paulo: Cultrix Editora, 1995.

JUNG, C.G, O Livro Vermelho, Petropolis: Vozes, 2013.

JUNG, E. Animas e Animus, São Paulo: Pensamento-Cultrix, 2005

SAMUELS, Andrew; SHORTER, Bani; PLAUT, Fred. Dicionário Crítico de Análise Junguiana. RJ: Imago, 1988.

SAMUELS, Andrew, Jung e os Pós-junguianos, Rio de Janeiro: Imago Ed., 1989.