Perspectivas Junguianas acerca do Ego – Parte 1

O ego é um conceito fundamental para a psicologia analítica pois é a partir dele que podemos compreender e delimitar a relação com os objetos tanto internos e externos, distinguindo a realidade interna e externa. Compreendendo essa importância e, para provocar a reflexão acerca do ego, em algumas situações eu perguntei provocativamente “Onde está o seu ego?” Tal pergunta era recebida com estranheza, desconfiança e, frequentemente, silêncio. As vezes a resposta se dava numa pergunta titubeante “está na consciência? ” Ou “está na cabeça? ”.  Essas respostas explicitavam o quanto nosso enfoque acerca do inconsciente eclipsava os estudos e desenvolvimentos acerca do ego e dos processos da consciência.

A dificuldade ou falta de clareza a respeito de uma construção de uma teoria acerca do ego é um fato que comentado por diferentes autores.  Para Samuels(1989)

Uma dificuldade ocorre porque Jung usa de forma intercambiável “ego”, “complexo do ego”, “consciência do ego” e “consciência”. Outro problema é seu uso de metáforas ambíguas: o ego tanto pode ser visto como uma pele esticada sobre o inconsciente (CW 18, § 122) e, ao mesmo tempo, o centro da consciência (CW 6, § 706). (SAMUELS, 1989, 77)

Evers-Fahey (2017) concorda com essa falta de clareza e aponta quatro possíveis razões para essa dificuldade em relação ao ego. Em primeiro lugar, ela aponta que Jung não seguia uma definição ou conceituação determinada, antes dava diferentes descrições sobre o ego em sua obra completa assim como em suas cartas; em segundo lugar, o uso dos termos “ego”, “complexo do ego” e “ego consciência” indicavam que a ênfase do Jung era mais voltada para o significado do ego do que para estruturar o conceito.

A terceira razão apontada por ela, é que as ideias de Jung evoluíram correlacionadas a sua vida profissional, muitas das ideias acerca do ego organizadas no período em que Jung ainda colaborava com Freud, após a ruptura a forma como Jung organizou sua compreensão a partir de uma perspectiva relacional e dinâmica do ego. E a quarta razão é que Jung não organizou uma metapsicologia do ego pois seus interesses se dirigiam para outro lugar, especialmente a compreensão dos arquétipos e o Self.

Em todo caso, apesar de não sistematizar uma teoria acercado do ego Jung fez considerações importantes que nos abrem a possibilidade pensar o Ego. Samuels aponta que  

é útil considerar as ideias de Jung sobre o ego sob três aspectos: (a) O ego pode ser visto o como um núcleo arquetípico da consciência, e, portanto, trata-se de um complexo do ego com uma série de capacidades inatas. (b) O ego pode ser visto como um elemento na estrutura psíquica em termos de suas relações com o Self (c) Finalmente Jung ás vezes adota uma perspectiva de desenvolvimento a partir da qual se pode visualizar as exigências mutáveis feitas ao ego nos vários estágios da vida. (SAMUELS, 1989, p. 77)

Assim, devemos pensar o ego em seus aspectos de desenvolvimento, funções e dinâmica.

Formação e Desenvolvimento do Ego

O primeiro aspecto fundamental para pensarmos o ego é compreende-lo em seu processo de formação e desenvolvimento. Esse aspecto, em especial, não encontra uma forma própria na obra de Jung. Os dois teóricos que procuraram preencher essa lacuna foram Erich Neumann e Michael Fordham. Apesar de reconhecer a importância de Neumann, enfatizaremos a compreensão de Fordham sobre o desenvolvimento, focalizando sua compreensão acerca do desenvolvimento do Ego.

No modelo de Fordham não há um ego formado no momento no nascimento, o bebê constitui um self primário ou original. Este é self é uma unidade psicofísica integrada, ou seja, todo potencial de desenvolvimento psicofísico está contido ou integrado no self e será atualizado, liberado na interação com o ambiente( que inclui a mãe, pai, roupas, manejo da criança),. A relação com o ambiente se caracteriza pelas relações objetais, que irão qualificar a experiência com o ambiente e a qualidade da experiência, influenciando nos processos de apego e constituição do ego, por ora focaremos na formação do ego.

O self primário traz consigo a potência do desenvolvimento, experiência da totalidade integrada não pode ser percebida ou representada. O potencial humano arquetípico do self se desenvolve em diferentes níveis: biofisiológico; relacional e representacional. O próprio desenvolvimento biofisiologico possibilita estado propício a apreensão dos estímulos, que levará a atualização ou humanização do potencial arquetípico formando as bases sobre as quais o psiquismo se organizará. 

O processo de atualização e humanização arquetípico se desdobra num processo continuo e rítmico que Fordham denominou de deintegração e reintegração. A deintegração implica na ativação do self, isto é, ou partes do self que frente aos estímulos apresentam um estado de “prontidão para a experiência, uma prontidão para perceber, uma prontidão para agir instintivamente, mas não uma percepção ou ação real”. (Fordham, 1957, p.127). Os deintegrados representam a possibilidade de resposta ou reação aos estímulos, a experiência é reintegrada e gradativamente formando as primeiras experiências do bebê. Através do processo de deintregração-reintegração o self desdobra-se, transformando de um self integrado, atemporal, para um self relacional, presente e representacional.

Para exemplificar, na primeira infância a deintegração do self ocorre inicialmente através estímulos sonoros, táteis, luz, orais – que ativam diferentes partes do self. Notemos, nesse momento as experiências estão intimamente relacionadas ao self primário integrado que é psicossomático, por isso não falamos de imagens, símbolos ou consciência pois, ainda não se diferenciaram. Todos esses processos são arquetípicos, por excelência, pois os arquétipos são os padrões basais de organização psíquica, assim Fordham não nomeou este ou aquele padrão arquetípico – pois, nos referimos a um momento pré-egoico e pré-simbólico. Essas experiências são reintegradas, atualizadas ao self no sono, no descanso do bebê.

A relação afetuosa do bebê e sua mãe possibilita segurança para manutenção desse processo de deintegração e reintegração. Na etapa inicial do desenvolvimento não há distinção entre consciente, inconsciente, realidade interior ou exterior. A deintegração exprime uma dinâmica da energia que se dirige aos estímulos, e retorna ao self sendo reintegrada. Os deintegrados do self formam os primeiros objetos do self. Quando falamos de objetos, nos referimos qualquer coisa, ideia ou situação para onde a energia se dirige.

Embora ao nascer o bebê se caracterize por relações objetais, parece evidente que a natureza de seus objetos seja composta. Algumas de suas percepções são objetivas, mas o grosso delas está fortemente carregado de energia proveniente do deintegrado do self. Essa energia organiza a percepção de forma que o objeto se toma algo que poderia ser chamado de objeto do self (FORDHAM, 2001, p.92)

Devemos observar que o self se relaciona de uma forma fragmentaria com a realidade e essa relação se baseia em aspectos primários, sensoriais. Essa relação se dá em termos simples baseado em satisfação e insatisfação, conforto e desconforto, visando um o estado de estabilidade e segurança para o desenvolvimento. As relações com o ambiente/mãe e suas transformações (satisfação-insatisfação; conforto-descontorto, prazer-desprazer etc) possibilitam o inicio da distinção de self e não-selt, ou seja, possibilitando contornos que diferenciem os objetos externos e os objetos do self. 

Os objetos do self possibilitam que a energia dirigida e atualizada na relação com o ambiente formem centros de consciência, que expressam parcialmente o self, que são as representações do self. Estas representações que formam as bases de uma consciência de si mesmo, sentido de continuidade, de fronteiras que distinguem o self do não-self  de uma auto-percepção que levará a formação de uma imagem corporal e um senso de integridade. As representações do self, como aspectos parciais do self que foram deintegrados, formam os “fragmentos” ou “núcleos do ego” que vão ser integrados pela atividade integradora do self.          

Na formação do ego se dá através de pequenos núcleos, resultantes da deintegração, que logo se ligam para que se possa falar de um centro de consciência como nos escritos de Jung. Nesse processo, função integrativa do self desempenha um papel essencial. O corpo principal do ego, às vezes chamado de ego central, tem uma relação especial com o arquétipo do self. Esse arquétipo central pode ser pensado em um organizador do inconsciente: contribui significativamente para a formação do ego central em que encontra expressão, especialmente em experiências conscientes de individualidade. (FORDHAM, 1985, p.32 – tradução nossa)[1]

Deve-se notar que este não é um processo linear. Afirmamos no início, que não há um ego constituído no nascimento, contudo, toda atividade deintegrativa-reintegrativa visa a formação e desenvolvimento do ego.

Geralmente é sustentado, na visão clássica, que durante a individuação o ego dá lugar ao self,o qual, no entanto, se reflete cada vez mais claramente no ego; em contraste, na primeira infância e ao longo da infância, o organismo visa estabelecer o ego em relação ao mundo da realidade material, os arquétipos e também o self. (FORDHAM, 1976, p.14-5 – tradução nossa[2])

A partir dos 4 meses, as relações objetais se tornam cada vez mais perceptíveis, toda dinâmica do self visa a estabilidade e segurança para que o ego possa lenta e continuamente possa se configurar, este movimento na infância é compreendido também como processos de individuação. Aproximadamente com dois anos notamos um ego estável, contudo, assim como o organismo ele está apenas no início de seu amadurecimento.

Um breve comentário sobre relações objetais e defesas

Não cabe aqui uma discussão ampla sobre as relações objetais, contudo, faremos um apontamento de sua importância. Incialmente essa relação se dá em termos simples baseados em satisfação e insatisfação, conforto e desconforto, prazer e dor visando um o estado de estabilidade e segurança para o desenvolvimento. As experiências satisfatórias, de prazer e segurança são nomeadas como objetos bons, já as experiências de dor, insatisfação e desconforto são nomeadas como objetos maus.

A relação com os objetos bons e maus influenciam diretamente a experiência do self e ego em relação ao ambiente. Visto que, diante de um ambiente seguro (com predominância de objetos bons) os processos deintegrativos e reintegrativo (que ocorre em momentos de descanso/segurança) ocorrem mais segura e intensa, possibilitando abertura e interesse pela realidade exterior. Naturalmente, os objetos de frustração e insatisfação fazem parte e são necessários, contudo, seu predomínio produz ansiedade prejudicando os processos relacionais e vinculares com mãe/ambiente.

As tentativas do self em manter objetos bons e afastar/evitar os objetos maus dão origem as defesas primitivas (defesas do self). Essas defesas atuam de forma controlar ou modificar os objetos(como identificação projetiva e introjetiva, algumas formas de acting out e regressão, idealização, somatização dentre outras). Esse fenômeno pode ser percebido no choro, protesto, evacuação e a agressividade são formas de expulsar ou manter ou recupera/manter com os objetos. As defesas do self são protótipos das defesas do ego.  

As defesas visam manter a estabilidade o organismo de modo propiciar o processo de desenvolvimento da forma mais satisfatória possível. Sob essa perspectiva, as defesas compõem o sistema autorregulatório do self que visam regular a relação com o ambiente, propiciando um meio adequado para o desenvolvimento ou amadurecimento.

No processo de desenvolvimento as defesas possibilitam a estabilidade interna necessária para um sentimento satisfatório de integridade. Mesmo as experiências negativas (internalizadas nos complexos) são mantidas afastadas da consciência. Isso é importante para que esses objetos maus não sejam identificados com o ego em seu processo de amadurecimento, pois ao se identificar com objetos de ansiedade a organização/força do ego seria prejudicada e, assim, a capacidade de autopercepção, autoimagem e autoestima (assim como de estabelecer vínculos estáveis/seguros) seriam comprometidos.

(Em breve postaremos a segunda parte – Gostou? Teve dúvidas? Deixe um comentário!)

Referencias Bibliográficas

SAMUELS,Andrew. Jung e os Pós-junguianos, Rio de Janeiro: Imago, 1989.

EVERS-FAHEY, Karen, Towards a Jungian Theory of the Ego, New York: Routledge, 2017.

FORDHAM, Michael, New Developments in Analytical Psychology: London: Routledge and Kegan Paul, 1957.

FORDHAM, Michael, The Self And Autism, London: William Heinemann Medical Books Ltd, 1976.

FORDHAM, Michael, A Criança como Individuo, São Paulo, Cultrix, 2001


[1] when some ego has formed it will be as a number of small nuclei the result of deintegration, which soon become linked together so that one can speak of a centre of consciousness as in Jung’s writings. In that process the integrating function of the self plays an essential part. The main body of the ego, sometimes called the central ego, has a special relation to the archetype of the self. That central archetype can then be thought of an an organizer of the unconscious: it contributes significantly to the formation of the central ego in which it finds expression especially in conscious experiences of selfhood

[2]It is usually held in the classical view that during individuation the ego gives place to the self, which, ehowever, the ego comes to reflect more and more clearly; by contrast, in infancy and childhood the organism aims to establish the ego vis-à-vis the world of material reality, the archetypes and so also the self.

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Fabrício Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Diretor do Centro de Psicologia Analítica do CEPAES. Formação em Hipnose Ericksoniana. Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  desde 2012 Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 99316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@cepaes.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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Contando Histórias – Fragmentos para uma história junguiana no Espirito Santo

Por Fabrício Moraes

Os junguianos são por natureza contadores de histórias sejam por meio de mitos, contos de fadas dentre outras. As histórias nos constituem tanto coletivamente quanto individualmente. A história junguiana capixaba faz parte de minha história pessoal desde o ano 2000 quando me descobri na psicologia junguiana. Nesses poucos mais de 15 anos de história junguiana, participei de várias atividades, conheci várias pessoas e sobretudo ouvi muitas histórias.

Algumas vezes eu contei essas histórias para o Grupo Aion por considerar fundamental conhecer e nos reconhecermos parte dessa história. Contudo, há bem pouco tempo atrás eu me dei conta que não havia escrito nada acerca dessas histórias… assim, acho oportuno falar do movimento junguiano no Espirito Santo, não como uma historiografia, mas, contando um pouco dessas histórias. De antemão peço desculpas e aviso: estes são apenas fragmentos… apenas histórias que ouvi e passo adiante.

Primórdios anos 70 e 80

A psicologia junguiana no Espirito Santo tem suas raízes entrelaçadas com o desenvolvimento da psicologia em nosso estado, nos anos 70, nessa época não só não havia o curso de psicologia da UFES, como os poucos psicólogos vinham de outros estados. Nesse período eu dois nomes se destacam: Helvécio Siqueira da Silva e Solange Missagia de Mattos.

O professor Dr. Helvécio da Siqueira e Silva, foi um dos fundadores do curso de psicologia da Universidade Federal do Espirito Santo, em 1979, se formou em psicologia em Minas Gerais, realizando doutorado na Universidade católica de Louvain, na Bélgica, em 1975[1]. Após retornar ao Brasil, ele criou um projeto social na região de Domingos Martins, com jovens em situação de risco, chamado Gritza que significava burburinho, que envolveu estudantes de diferentes cursos, até que em meados da década de 80, o Gritza chegou a o fim, sua experiência foi em parte relatada no livro “Joca Pivete – o menor violentado”, do prof.Dr. Helvécio publicado em 1987. Ele escreveu,

Gritza – Comunidade Agrícola – é uma sociedade civil sem finalidades lucrativas. Localiza-se no antigo povoado de Panelas, hoje despovoado! Junto à sede (Campinho) do município de Domingos Martins, ES. Fundada em 1977, encerrou parcialmente suas atividades no início de 1985. Nunca tendo urbanizado as crianças que lhe foram confiadas, temendo violenta-las, não encontra mais motivação para continuar ajudando-as de agora em diante: a roça, com o descalabro com que as autoridades tratam a agricultura, agoniza nesses povoados! Nossas crianças tornando-se adultas, devem voltar para as cidades, onde recomeça o circulo infernal que elas conheceram : marginalização – criminalidade… (SILVA, 1987,p.181)

Sabemos que ao longo anos 80, Helvécio ofereceu cursos junguianos, psicoterapia de grupo e individual na abordagem junguiana. A respeito do prof. Helvécio, a psicóloga Sueli Martins, me cedeu o seguinte relato

Helvécio era a pessoa que mais dominava a teoria e a pratica junguiana que conheci. Mas conhecia muito de outras teorias também. Um cara muito inteligente, diferenciado, fora da curva mesmo. Ao mesmo tempo muito rebelde

Talvez por isso despertasse sentimentos extremos nas pessoas, colegas, alunos, discípulos. Ou era amado ou odiado. Um cara a frente de seu tempo.

Inicialmente criou a Gritza para atender a comunidade carente do interior, onde morava. Depois passou a atender em uma base em Vitoria, onde passou a promover a formação em psicologia analítica, psicanálise e ludoterapia e nós os formandos fazíamos os atendimentos sob sua supervisão.

Em paralelo também fui paciente dele em sessões de grupo que não se restringiam aos formandos. A princípio tudo isso pode parecer no mínimo estranho, mas era uma situação que ele administrava muito bem.

Com seu falecimento algumas pessoas ainda tentaram dar continuidade ao projeto que infelizmente não vingou. Mas vale lembrar que de alguma forma ele mesmo já tinha tomado algumas ações, como por exemplo, algumas altas de pacientes, redirecionamento de outros para outros profissionais etc…

O Prof. Helvécio foi o primeiro junguiano e o precursor da psicologia no Espirito Santo. Infelizmente, em 07 de julho de 1990, o prof. Helvécio veio a falecer num acidente de carro.

Ainda nos anos 70, temos a experiência de Solange Missagia Mattos, psicóloga, uma das pioneiras em saúde mental em nosso estado, que trouxe um pouco de Nise da Silveira para o ES. Abaixo, segue um relato que a mesma solicitamente me cedeu

Fiz o Curso de Psicologia na PUCMG onde obtive o título de Bacharel em Psicologia em 1974 e Psicóloga em 1975. Naquela ocasião a psicologia clínica era pautada na teoria do comportamento, psicoterapia rogeriana e psicologia existencialista – O psiquiatra que ministrava psicopatologia era freudiano. A psicanálise, naquela ocasião, era restrita apenas aos médicos. Mas tive a oportunidade de ler algo sobre Jung através dos jesuítas de BH.

Quando cheguei em Vitória ( 1977), meu primeiro emprego foi no Hospital Adauto Botelho. Alguns psiquiatras conheciam a Dra Nise por terem sido alunos do psiquiatra Adauto Botelho, colega de Profissão de Drª Nise no Hospital Pedro II do Rio de Janeiro. O Hospital de Cariacica, pertencente à então Fundação Hospitalar do Espírito Santo, recebeu o nome de Hospital Adauto Botelho, em homenagem ao referido colega de Drª Nise e professor de psiquiatria dos primeiros psiquiatras de Vitória. .

Em vista disso, tive “carta branca” do Drº César Mendonça e Drº Alcides Pereira da Silva, então diretores da Fundação Hospitalar do Espírito Santo, para um estágio de 15 dias na Casa das Palmeiras. Quem me apresentou esse lugar, em 1978, foi um estudante de psicologia e seminarista jesuíta, Álvaro de Pinheiro Gouvea, que hoje é professor do Curso de Especialização em Jung na PUC-RJ.

Para realizar o trabalho de Praxiterapia[2] implantado no Hospital Colônia Adauto Botelho, entrei em contato com a Universidade do Espírito Santo a fim de divulgar e abrir estágio para os alunos de Belas Artes e Educação Física[3]. Os estagiários do Curso de Belas Artes e Educação Física eram remunerados pela Fundação Hospitalar do Espírito Santo, seguindo as normas dos estagiários de medicina.

Quando Helvécio chegou na UFES, tornamos amigos. Além da sintonia junguiana, ele tinha sido formado na PUC MG, mesma faculdade que eu estudei. Conversamos em diversas ocasiões sobre seu trabalho com os meninos em seu sítio em Campinho, um trabalho alternativo ao da instituição estatal.. Nessa ocasião, convidou-me para assumir uma cadeira no Curso de Psicologia da UFES, mas eu não tive coragem de renunciar ao trabalho de Praxiterapia no Hospital Adauto Botelho.

Além do estágio na Casa das Palmeiras, continuei indo ao Rio de Janeiro, participando de grupos de estudos na residência da Drª Nise em Botafogo. Nada havia em Vitória antes de minha chegada, pelo menos que eu tivesse conhecimento.

A história de Jung no Espírito Santo iniciou então com a história da Psicologia Clínica no estado. Quando cheguei em Vitória, fiz parte de um pequeno grupo de psicólogos clínicos. Na Fundação Hospitalar do Espírito Santo não havia quadro de psicólogos. Só em 1978 é que foi incluído.

Nos anos 80 Helvécio reunia com alguns psicólogos e alunos de psicologia da UFES em se sítio em Campinho e em seu consultório no centro de Vitória, à Rua do Rosário, 244 sala 301 – centro de Vitória, ES.

Nos anos 90 havia um psicólogo chamado Irâ ?, ligado à Educação na UFES que soube ser de linha Junguiana, mas nada mais posso informar. Percebo que tudo muito isolado.

Quando surgiu o Instituto Brasileiro de Psicologia e Psicossomática, fiquei feliz por poder retornar aos estudos junguianos. Havia bons professores, vindos do Rio, pertencente ao Instituto Junguiano do Rio de Janeiro, filiado à AJB e IAAP. Mas não conseguiram dar continuidade.

Após se aposentar do serviço público no ES, no início da década de 2000, Solange Missagia de Mattos retornou a Belo Horizonte, onde realizou sua formação de analista junguiana pelo Instituto C.G.Jung de Minas Gerais, membro da Associação Junguiana do Brasil(AJB) e da International Association for Analytical Psychology(IAAP), junto a Carlos Alberto Correa Salles(falecido ano passado), e atualmente é doutoranda na UFMG. Apesar de residir em Belo Horizonte, Solange Missagia nunca deixou de atender no ES, vindo regularmente ao ES, sendo a única analista junguiana vinculada a IAAP em nosso Estado.

Anos 90: Reinícios

Conforme dissemos acima, os anos 90, começaram com a morte do prof. Helvécio e uma desmobilização dos alunos que o acompanhavam, assim, muito de seu trabalho se perdeu.

Outros movimentos e pessoas surgiram no cenário junguiano daqueles dias e se mantiveram até hoje, outros viveram intensamente aquele momento e se dispersaram. Desses, eu gostaria de citar surgiram profissionais inicialmente isolados como Joel Fernando Brinco Nascimento, Luis Fernando Gomes Magalhães e Fernando Antônio Furieri e Kathy Amorim Marcondes.

Desses nomes, Joel Fernando Brinco Nascimento, esteve ligado aos trabalhos de Helvécio no Gritza, tentou de certa forma dar continuidade as atividades oferecendo desde os anos 90 cursos, grupos de estudo, seminários e palestras, além das atividades clinicas, apesar de suas tentativas de desenvolver atividades(como a tentativa de trazer congressos e pós-graduações para o ES) não obteve sucesso nessas empreitadas, veio a se destacar no trabalho individual especialmente a partir da década de 2000, com estudos vinculados a psicologia arquetípica e imaginal, que o tornaram mais reconhecido no cenário nacional, que no estado do ES.

Outro nome, que entrou no cenário junguiano capixaba foi o de Luiz Fernando Gomes Magalhães, psicólogo de Minas Gerais, que veio para o Espirito Santo no inicio dos anos 90. Luis Fernando se dedicou sobretudo a prática clínica, com grupos de estudo e supervisão e cursos ministrados especialmente na área de introdução a psicologia analítica e sonhos.

No incio dos anos 90, um grupo de estudantes de psicologia da UFES(Flávia de Macedo, Alessandra Jantorno, Marcus Welby (in memorian), Gabriela Andrade e Luciana Aquino Vidigal) que eram muito interessados em psicologia analítica, participando de atividades(congressos) e cursos fora do estado, estudaram Jung de forma independente e posteriormente procuram o psicólogo junguiano Luis Fernando Gomes Magalhães para supervisão e orientação, este grupo durou de 1991 a 1999, e foi dissolvido por divergências internas. Acho importante mencionar este grupo, pois, foi um grupo independente de estudantes cuja iniciativa foi reconhecida e comentada por muitos anos.

Em 1995, surgiu o programa de Extensão “Portas – apoio psicológico ao paciente renal crônico” integrado a equipe da Enfermaria de Nefrologia do Hospital da Associação dos Servidores Públicos em Vitória (ES), realizando o acompanhamento psicológico de pacientes com Insuficiência Renal Crônica (IRC) que são assistidos pelo Instituto de Doenças Renais (IDR).[4] Esse projeto foi organizado pela Professora Kathy Amorim Marcondes atendendo a solicitação do dr. Michel S. Zouain Assbú para atender as crianças submetidas ao tratamento de hemodiálise durante o processo de hemodiálise, com o tempo, o projeto se expandiu para todos os pacientes da enfermaria. Foram trabalhadas técnicas psicopedagógicas, hipnose ericksoniana e projetos diversificados. Concomitante ao desenvolvimento do projeto, a prof. Kathy realizou um projeto de pesquisa chamado “Modelos Epistemológicos da Psicologia”, concluída em 1998, onde estudando física quântica se deparou com inúmeras referências a Carl Gustav Jung e, a partir desses estudos, a professora Kathy iniciou seus estudos em psicologia junguiana, criando um grupo, em 1998, chamado de “Grupo da Sexta-feira”. Simultaneamente, a prof. Kathy passou a ministrar a disciplina “Psicologia da Personalidade III” cuja ementa psicologia analítica.

Juntamente com os estudos deste grupo, o programa portas foi assumindo um caráter junguiano. Se tornando, uma referência para os interessados em psicologia analítica na UFES.

Nos finais dos anos 90, o médico psiquiatra Fernando Antônio Furieri, um médico visionário especialista em acupuntura e homeopatia, sempre disposto a trabalhar com novas tecnologias e buscando formas integrativas, foi sócio de uma instituição chamado “Instituto Brasileiro de Psicologia e Psicossomática”, que nos finais dos anos 90 e inicio dos anos 2000, ofereceu cursos de saúde na área de homeopática, psicossomática, acupuntura vinculados a Facis Ibehe, trazendo nomes como do prof. Waldermar Magaldi para ministrar aulas no ES– chegou oferecer o curso de especialização em psicologia junguiana, mas, não abriu turma – e ofereceu uma formação livre em psicologia analítica, que só abriu uma turma. Houve uma tentativa de aproximação do instituto C.G.Jung do Rio de Janeiro, mas, não foi adiante.

Anos 2000: Ocupando espaços

A década de 2000, foi marcada por uma consolidação da psicologia junguiana no ES, conforme comentamos acima, no final dos anos 90, o Instituto Brasileiro de Psicologia e Psicossomática abriu uma formação em psicologia analítica, que teve apenas uma turma entre 2000/2001. Nessa mesma época, a professora Kathy passou a desempenhar um papel mais ativo na psicologia junguiana, com cursos de introdução a psicologia analítica(tanto na UFES quanto fora) e, a partir de 2002 quando, a pedido de uma turma de alunos finalistas, a professora Kathy abriu estágio clinico supervisionado na abordagem junguiana, na UFES. Dessa forma, a professora Kathy se tornou uma referência para todos os alunos da UFES interessados em Jung.

Em outra frente, a prof. Ms Angelita Viana Correa Scárdua, no período de 2002 a 2006, deu aulas no “Instituto de Ensino Superior e Formação Avançada de Vitória” (FAVI) no curso de psicologia, onde ministrou disciplinas associada a psicologia analítica e supervisionou estágio clinico na abordagem junguiana, reunindo um bom grupo de alunos interessados em psicologia analítica. Mesmo após sair da FAVI em 2006, a prof. Angelita continuou ministrando cursos junguianos e coordenou uma iniciativa interessante chamada “Grupo Papeando com a Psicologia” de 2008 a 2012, que eram encontros temáticos abertos a qualquer pessoa onde se discutiam os temas de forma acessível e clara a todos os interessados. Após, o término do Grupo Papeando[5], a prof. Angelita continuou ministrando cursos e dando aulas em pós-graduação.

Não podemos deixar de citar o Instituto Fênix, fundado pela artista plástica e Arteterapeuta Glicia Manso. O Instituto Fênix tem como ênfase a especialização/ formação em arteterapia, contudo, sempre ofereceu cursos e atividades junguiana com professores locais e outros vindos de fora, durante os anos 2000, o Instituto Fênix, buscou uma parceria com o Instituto Jung do Rio de Janeiro, para trazer uma especialização em psicologia analítica, que infelizmente não ocorreu. O Instituto fênix, junto com o psicólogo Luiz Fernando Magalhães sempre oferecem cursos de introdução a psicologia analítica e de sonhos.

Em 2006 tivemos um marco importante, com início em Vitória o curso de pós-graduação em “Teoria e Prática Junguiana”, em grande parte ministrada por professores analistas junguianos da IAAP(Alguns da SBPA e outros da AJB), e coordenada pelos professores Dra. Elizabeth Christina Cotta Mello e prof. Dr. Maddi Damião Jr,  vinculado a Universidade Veiga de Almeida(UVA) do Rio de Janeiro. Essa pós-graduação capacitou vários profissionais aqui do ES. A partir dessa especialização, o pensamento junguiano se expandiu para outras faculdades, como a Unilinhares(Atual Pitágoras) com a Prof. Valéria Felisberto Fiorot no município de Linhares. Em Vitória, nas Faculdades Integradas São Pedro (FAESA) com a Prof. Ms Isabelle Santos Eleotério, que passou a ministrar disciplinas junguianas, assim como supervisionar estágio clinico na abordagem junguiana.

Juntamente com a pós-graduação em 2007 alguns alunos da pós-graduação em “teoria e prática junguiana” iniciaram um processo de abertura de uma “Associação Junguiana no Espirito Santo”, incialmente chamada de AJES. Pela associação, foram realizados poucos cursos, mas, como não houve um interesse maior um envolvimento das pessoas, a Associação foi dissolvida em 2011.

Em novembro de 2009 foi realizado pelo Programa Portas e coordenado pela Prof.Dra. Kathy Marcondes, o I Congresso Estadual de Psicologia Analítica, que contou com a participação do Prof. Dr. Maddi Damião Jr, membro da SBPA, e professor da UFF como palestrante. Sob certo aspecto, o ICongresso marcou a consolidação das atividades junguianas no ES.

Anos 2010: Consolidação

Ao longo dos Anos 2000, muitas atividades foram realizadas, muitos profissionais foram amadurecendo e a clinica junguiana começando a ter mais visibilidade.

Em março de 2010, Fabrício Fonseca Moraes criou o blog “Jung no Espirito Santo”, que surgiu do incomodo de ter tantas páginas que associavam Jung ao esoterismo. Assim, o projeto “Jung no Espirito Santo” surgiu como uma opção para se falar de Jung com um viés clássico e respeitando o pensamento junguiano.

Seguindo a iniciativa do Congresso Estadual de Psicologia Analítica, foram realizados o II Congresso Estadual em (2011) na UFES sob a organização da profa. Kathy Marcondes e o III Congresso Estadual em (2014) na FAESA com a organização da profa. Isabele Santos Eleotério.

Novos movimentos surgiram, em 2012 surgiu o grupo de estudos “Aion-Estudos Junguianos”, em atividade até o presente, sob a coordenação de Fabricio Fonseca Moraes, na UFES ocorreram cursos de introdução em psicologia analítica com Rafaela Feijó de Oliveira, psicóloga do Instituto de Doenças Renais e colaboradora do Portas.

Outros profissionais ocuparam novos lugares acadêmicos como o prof. Ms Raphael do Amaral Vaz, mestre em Psicologia na PUC-SP, deu aulas na FEAV e atualmente dá aulas na Multivix, oferecendo disciplinas e estágio supervisionado em psicologia analítica.

Vale a pena destacar nesses espaços acadêmicos Profa.Ms Kelly Guimarães Tristão ofereceu disciplina e estágio supervisionado na UNES(atual Multivix) em Cachoeiro de Itapemirim no período de 2011/2013. Posteriomente, em 2015, a Prof.Kelly Tristão se tornou a primeira doutoranda a realizar pesquisa com referencial teórico junguiano no Programa de Pós-graduação em Psicologia(PPGP) da UFES.

Nesse interim, o movimento junguiano vem se desenvolvendo e ganhando vitalidade, temos vários junguianos como alunos nos programas de mestrado e doutorado, alguns são professores como Fernanda Helena Freitas Miranda, que é doutoranda e professora em pós-graduação junguiana que teve inicio em 2014, foi realizada uma pós-graduação em psicologia analítica e terá nova turma confirmada para 2016. E o movimento segue se consolidando.

Palavras finais

Ao fazer esse recorte da história junguiana no ES, sei que pessoas ficaram de fora dessa história e algumas histórias se perderam. Essas são as histórias que ouvi e que vivi. Agradeço a todos que se protinficaram em contar suas histórias, como disse no inicio, esse texto não é um “estudo histórico”, mas, notas, para reconhecermos nossa história.

Acredito ser importante resgatar o nome de Helvécio da Siqueira e Silva, pioneiro da psicologia junguiana no ES, assim como de divulgar a história junguiana capixaba. Em seu livro, “Joca Pivete”, Prof. Helvécio conta que Joca Pivete perguntou

– E quando começou a Comunidade Agricola de Gritza, dr. H.?, quis saber Joca Pivete numa manhã.

– Não sei exatamente, Joca Pivete. É uma longa história. Mas na verdade Gritza sempre existiu em todas as partes do mundo e em todos os tempos. Onde quer haja alguém triste e abandonado, onde quer haja alguém transtornado e perseguido, em seu coração nasce e floresce o desejo de encontrar Gritza. Aqui nesta cidade de Campinho nasceu Gritza, num encontro da brisa e de alguns homens. Você sabe, Joca Pivete, o homem raciocina, planeja, organiza, produz e reproduz, realiza, sabe falar, tomar iniciativas e agir. A brisa, porém, que mal tem forças para balançar a ramagem do alecrim, frágil e desarmada, quer ouvir o tempo e dançar ao ritmo das luzes. Ela sabe viver e deixar viver. Os homens amam a brisa em seu frescor matinal ou ao cair a noitinha. Mas o homem se acha muito sério e quer sem cessar raciocinar, organizar, produzir, reproduzir, realizar, falar, tomar iniciativas e agir. Entretanto, a brisa queria que toda humanidade cantasse com ela. E quando sente que as coisas não vão bem em Gritza, ela sopra um pouco mais furiosa, só pra lembrar (…)isto(SILVA, 1987, p. 49)

Helvécio nos deixou a brisa, com a brisa, um mito fundador.

 

Referências Bibliográficas:

SILVA, Helvécio de Siqueira e, Joca Pivete – o Menor Violentado, Ed.Icone: São Paulo, 1987.

PS: Caso alguém queira fazer algum relato dessa história, ou complementar de alguma forma essa história, me envie o relato para o e-mail fabriciomoraes@psicologiaanalitica.com


[1] O titulo da tese foi “POUR LES ENFANTS DONT L’ECOLE NE VEUT PLUS: UN TRAVAIL EN EQUIPE INTERDISCIPLINAIRE. (HISTOIRE ET BILAN D’UNE EXPERIENCE MEDICO-SOCIO-PSYCHO-PEDAGOGIQUE)” as poucas informações que temos está disponível em http://boreal.academielouvain.be/lib/item/?id=chamo:696773 visitado em 27 de fevereiro de 2016.

[2]Nome que a Drª Nise usava para diferenciá-lo dos trabalhos repetitivos da Terapia Ocupacional da época

[3]Nessa ocasião, o Curso de Psicologia na EFES ainda não tinha sito implantado.

[4] Cf. www.portas.ufes.br

[5] O blog do grupo papeando ainda está disponível. Quem quiser ter uma ideia melhor desse projeto vale a pena visitar https://grupopapeando.wordpress.com/ Acessado em 1 de março 2016.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana. Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 99316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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