Evento: CONGRESSO NACIONAL “CLÍNICA JUNGUIANA E ARTETERAPIA: MITOS E TIPOS”

CONGRESSO DE CLÍNICA JUNGUIANA E ARTETERAPIA: MITOS E TIPOS
QUANDO
: Maio, dia 21,22 e 23 de Maio no Rio de Janeiro.
COMO SE INSCREVER: no site www.praticajunguiana.com  pelo email: praticajunguiana@gmail.com .
LOCAL: Universidade Veiga de Almeida.

INSTITUIÇÕES NA ORGANIZAÇÃO: SBPA – RJ, participação de membros da SBPA – SP; Museu de Imagens do Inconsciente; Terapias Expressivas – UFF e Palestrantes de Mitologias diversas e de Tipos Psicolológicos, além de curso introdutório de Psicologia Analítica. Arteterapia e leitura de imagens. Valores especiais para estudantes em geral, e membros da UBAAT. Apoio: Editora Paulus.
VALORES: As modalidades e os valores de inscrição são os seguintes:
Profissionais – R$260,00 até 20 de Abril e R$360,00 até o dia do congresso
Profissionais da UBAAT – AARJ – R$ 200,00 até 20 de Abril e R$ 320,00 até o dia do congresso
Estudantes de graduação e de pós-graduação – R$180,00 até 20 de Abril e 260,00 até o dia do congresso
Descontos de estudantes da UBAAT – AARJ e Descontos de alunos de graduação e pós-graduação da Universidade Veiga de Almeida; da FAMATH, alunos do curso de Terapia Expressivas – UFF e estagiarios oficiais da Casa das Palmeiras e do Museu de Imagens do inconsciente – R$160,00 até 20 de Abril e 240,00 até o dia do congresso.

Um Minicurso – R$90,00 até 20 de Abril e R$140,00 até o dia do congresso
Desconto para quem vai fazer 03 Minicursos: 200,00 e 250,00 no dia do congresso.

EM BREVE: nome de Palestrantes confirmados!
INSCRIÇÃO DE TRABALHOS: LINHAS TEMÁTICAS
Clínica Junguiana: supervisão e formação
Psicologia Junguiana e Tipos Psicológicos
Pensamento Mítico e Clínica Junguiana
Clínica Junguiana e Arteterapia
Arteterapia e a Mitologia
Arteterapia e Artes Visuais
Arteterapia e Tipologias
Fundamentos Epistemológicos da Psicologia Junguiana e Arteterapia

Considerações Gerais sobre “Sintoma” na Psicologia Analítica

Em psicologia analítica chamamos de sintoma toda manifestação do inconsciente que possa perturbar a atividade da consciência, como um sonho, pensamentos, reações psicossomáticas, lapsos de fala, dentre outros. Apesar de ser mais comum relacionamos os sintomas a uma psicopatologia, os sintomas são expressões ou funções naturais que assumem um outro significado, gerando instabilidade ao Ego, que é percebida como dor, sofrimento, ansiedade, dentre outras.

Jung compreendia que o sintoma neurótico era um componente fundamental da atividade autorregulatória da psique. Ou seja, a psique produziria meios para se reorientar, os sintomas seriam um desses meios. Contudo, por ser uma atividade própria de cada indivíduo, o sintoma refletiria a existência do individuo – por mais que os sintomas pudessem ser similares, deveriam ser compreendidos individualmente, como um caso único. De tal forma que o que poderia ser um sintoma neurótico para um indivíduo, não seria para outro. Por exemplo, para um indivíduo o habito de limpeza pode ser uma característica pessoal, para outro o mesmo habito pode ser um sintoma “obsessivo-compulsivo”. A diferença estaria no prejuízo que o indivíduo tem com essa atividade, como não conseguir cumprir suas obrigações por ter de limpar ou organizar seu ambiente, ou mesmo ter problemas de relacionamento por executar exageradamente tais atividades. Segundo Jung,

(…)O sintoma é como que o broto que surge na superfície da terra, mas a planta mesma se assemelha a um extenso rizoma subterrâneo (raizame). Este rizoma é o conteúdo da neurose, a terra nutriz dos complexos, dos sintomas e dos sonhos. Temos boas razões, inclusive, para supor que os sonhos refletem com fidelidade os processos subterrâneos da psique. E se conseguirmos penetrar no rizoma, teremos alcançado, literalmente, a “raiz” da enfermidade. (JUNG, 1999. p.28)

Desta forma, Jung não enfocava o sintoma em si, na verdade, pouco ou quase nada ele escreveu sobre sintomas ou mesmo sobre a “natureza das neuroses”, isto porque, Jung não valorizava a doença, pois, era enfático ao afirmar “Prefiro compreender as pessoas a partir da saúde” (JUNG,1989, p.325), isso significava compreender o indivíduo em sua totalidade, sem reduzi-lo ao aspecto doentio. Sob certo aspecto, isso significava dignificar a vida e o sofrimento humano, pois, o sofrimento tinha significa e função e deveria ser compreendido a partir de seu objetivo, não apenas por sua causa.

Por representar a complexidade da existência humana, Jung situava a neurose (e, assim, o sintoma) associado aos processos adaptativos. Pois,

Nosso intento é compreender a vida da melhor maneira possível, tal como ela se manifesta na alma humana. A lição que tiramos desse conhecimento — e esta é minha sincera esperança — não deverá petrificar-se sob a forma de uma teoria intelectual, mas deverá tornar-se um instrumento de trabalho, que aperfeiçoará suas propriedades pela aplicação prática, de modo a poder cumprir a sua finalidade da melhor maneira possível. Esse intento consiste na adaptação mais adequada do modo de levar a vida humana; e essa adaptação ocorre em dois sentidos distintos (pois a doença é adaptação reduzida). O homem deve ser levado a adaptar-se em dois sentidos diferentes, tanto à vida exterior — família, profissão, sociedade — quanto às exigências vitais de sua própria natureza. Se houve negligência em relação a qualquer uma dessas necessidades, poderá surgir a doença. Ainda que uma pessoa, cuja falta de adaptação atinja grau mais elevado, se torne doente e por isso também acabe fracassando na vida exterior, nem por isso todos se tornam doentes por não estarem à altura das exigências da vida exterior, mas sim por não terem sabido valer-se de sua falta de adaptação externa para conseguir abrir caminho para o seu desenvolvimento pessoal e mais íntimo. Compreende-se então facilmente como devem ser diferentes as formulações psicológicas, para que possam ser aplicadas a essas diferenças diametralmente opostas. Nossa psicologia examina as razões que provocam a diminuição da capacidade de adaptar-se e assim causam a doença.(JUNG, 2006, p. 97-8)

Ao considerar a doença como uma falha no processo adaptativo (interno ou externo), Jung buscou sanar uma falha comum nas psicoterapias que tiveram como base a prática médica, marcadas por sua origem que era a ênfase na doença e foco no combate ao sintoma.

A psicoterapia também começou combatendo o sintoma, como a medicina de um modo geral.(…) Mas aí ela percebeu, que o combate ao sintoma ou – como passou a chamar-se agora – a análise dos sintomas, era incompleta, era preciso tratar o homem psíquico inteiro. (JUNG,1999b, 85-6)

Jung inaugura uma perspectiva na qual o sintoma não deve ser combatido, mas, estudado. O sintoma é a expressão da vida psíquica buscando se reorganizar, isto é, o sintoma é uma expressão da vida, da autorregulação da psique. O sintoma neurótico era uma parte viva, atuante e cheia de significado, assim, compreendido como um símbolo vivo e natural.

Ao identificar o sintoma como símbolo, Jung oferece uma mudança importante na perspectiva da compreensão da dinâmica psíquica, pois, o símbolo é por natureza integrador, integrando as instâncias psíquicas tanto psique – corpo, quanto consciente – inconsciente. O símbolo/sintoma é um terceiro elemento nessas relações, possibilitando a integração dos sistemas. A neurose é compreendida uma divisão interna, o sintoma, por sua vez, a parte perceptível da neurose, a tentativa de superar essa divisão. Desde modo, Jung assume uma postura que diferia de seus pares em sua época ao afirmar,

Não se deveria procurar saber como liquidar uma neurose, mas informar-se sobre o que ela significa, o que ela ensina, qual sua finalidade e sentido. Deveríamos aprender a ser-lhe gratos, caso contrário teremos um desencontro com ela e teremos perdido a oportunidade de conhecer quem somos. Uma neurose estará realmente “liquidada” quando tiver liquidado a falsa atitude do eu. Não é ela que é curada, mas ela que nos cura. A pessoa está doente e a doença é uma tentativa da natureza de curá-la. (JUNG, 2000, p. 160-1)

A confiança no inconsciente e na vontade da vida em viver são marcas características da compreensão junguiana acerca do adoecimento. Pois, não basta identificar ou classificar a doença/sintoma é necessário perceber a sua função na vida do indivíduo, ou melhor, o seu papel no processo de desenvolvimento, isto é, no processo de individuação. Assim, sintoma se torna indicativo importante para onde o processo deve seguir. O sofrimento neurótico, a dor, se baseia na dificuldade do indivíduo em confrontar-se com o seu próprio processo de individuação, com seu vir-a-ser. O desafio maior do doente é se colocar diante do futuro, abrindo-se ao novo, contudo, a tendência do ego é o fechamento, se apegando ao que é conhecido, supostamente seguro tentando se prender com todas as suas forças ao um passado em que ele acredita que foi “bom” ou “melhor” que o momento atual. Essa negação em relação ao fluxo da vida, que sempre aponta em direção ao futuro, fortalece o sintoma. Pois,

Na verdade, a neurose contém a psique da pessoa ou, ao menos, parte muito importante dela. (…) pois, na neurose está um pedaço ainda não desenvolvido da personalidade, parte precisa da psique sem a qual o homem está condenado a resignação, amargura e outras coisas hostis a vida. (JUNG, 2000, p. 158)

O sintoma ou neurose é de vital importância para o indivíduo e sua supressão quer por técnicas terapêuticas ou mesmo por medicações pode aliviar a dor, o sofrimento ou ansiedade e tornar o indivíduo “produtivo” mas, não restitui o sentido da vida. Haverá sempre uma sombra que rondará o individuo, a sombra da vida não vivida. De fato, a função autorregulatória da psique visa não o “ vida produtiva” como determinada em nossa sociedade capitalista, mas, a vida significativa, simbólica – notadamente marcada pela abertura ao futuro e pela segurança pautada na experiência interior (e não no ego). O sentido é delimitado pelo devir e não pelo passado.

A integração do sintoma é obtida com o fim da unilateralidade da consciência, que pode ser compreendida como uma situação onde o ego “acredita ser apenas aquilo que gostaria de saber a respeito de si mesmo” (JUNG, 2000a, p. 145), como consequência imediata, ocorre uma ampliação da consciência, possibilitando que o faça novas escolhas possibilitando o desenvolvimento psíquico que havia sido impedido. É claro, que sempre há a possibilidade do Ego, temeroso, se apegar ao medo, a segurança fictícia do passado e se recusar a abertura, o desenvolvimento e a saúde. Mesmo sob essas circunstancias a vida interior, desconectada do ego adoecido, busca e se impõe até mesmo através de símbolos e pensamentos de morte. A necessidade de ir a adiante, uma nova etapa deve ser começada, sustenta o conflito, isto é, o sintoma. O movimento que visa reintegrar a psique pode ser vivido muito sofrimento, como perda ou despedaçamento – isto, tomando como ponto de vista, o apego infantil e desesperado do Ego – pois, o Self “que incita a este movimento para diante, e, se necessário, o realiza com força inexorável”. (NEUMANN, 2000, p.228). Esse é o sofrimento é descrito muitas vezes como “crise de individuação”. O sintoma, em sua ambiguidade, sempre aponta, por um lado, para a neurose, por outro, para a individuação.

Jung, O DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE, Petrópolis: Vozes, 2006

JUNG, Civilização em Transição,Petrópolis: Vozes, 2000.

JUNG, Natureza da Psique, Petropolis: Vozes, 2000ª.

JUNG, C.G. Freud e a Psicanálise. Petrópolis: Vozes, 1989.

JUNG, C.G. Psicologia da Religião. Petrópolis: Vozes, 1999a

JUNG, C.G. A Prática da Psicoterapia. Petrópolis: Vozes, 1999b

NEUMANN, E., O Medo do Feminino – E outros ensaios sobre a psicologia feminina, São Paulo: Paulus, 2000.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

www.psicologiaanalitica.com

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Acompanhamento Terapêutico na abordagem Junguiana : Símbolos e Reflexões

(Publicado no site em 05 de julho de 2013)

Kelly Guimarães Tristão

Psicologa Clĩnica Junguiana – CRP 16/1498

Mestre em Psicologia UFES

Especialista em Teoria e Prática Junguiana- UVA/RJ

Especialista em Psicologia Clĩnica e da Família -Saberes/ES

Este texto corresponde a uma parte da monografia “Acompanhamento Terapeutico a pacientes psiquiátricos na abordagem junguiana” apresentada ao Programa de Pós-Graduação — Especialização lato sensu em “Teoria e Prática Junguiana” da Universidade Veiga de Almeida – RJ, como requisito obrigatório para a obtenção do certificado, em 2008, sob a orientação da Prof. Carla Maria Portella Bezerra.

Neste fragmento apresentamos o capitulo 3 e a Conclusão.

“ 3. O SIMBOLISMO DO ANDAR

3.1. A experiência do andar

Andar é uma experiência humana por excelência. O andar se configura como um dos aspectos fundamentais no processo de “torna-se homem”. A postura ereta foi uma adaptação necessária ao bipedismo (o movimento de andar sobre os dois pés), que possibilitou que o homem “liberasse” suas mãos para outras ações, diferenciando-o mais dos demais animais.

A aquisição do andar bípede é um marco em nossa espécie, que ao longo de nossa evolução foi sendo notada pelas migrações que levaram nossa espécie a se espalhar por todo mundo.

O andar bípede imprimiu em nossa constituição essa tendência ao movimento ereto, essa característica é percebida como o reflexo de marcha na criança. Talvez pudéssemos dizer que a experiência do andar

[…] arquétipos que poderíamos chamar de arquétipos de transformação. Estes não são personalidades, mas sim situações típicas, lugares, meios, caminhos, etc, simbolizando cada qual um tipo de transformação. Tal como as personalidades, estes arquétipos também são símbolos verdadeiros e genuínos que não podemos interpretar exaustivamente, nem como σηµεϊα (sinais), nem como alegorias. São símbolos genuínos na medida em que eles são ambíguos, cheios de pressentimentos e, em última análise, inesgotáveis (JUNG, 2002, p. 47).

Esses arquétipos de transformação possibilitam a passagem da energia de uma forma de manifestação para a outra. Isto é, esses arquetípicos possibilitam que a energia psíquica retida em um aspecto da vida psíquica seja redistribuída, favorecendo a mudança de atitude da consciência. Tomemos como exemplo um indivíduo com fixação por trabalho ou dinheiro; em momentos como nascimentos, morte ou mesmo numa conversão religiosa pode ser constelado nessa pessoa tais arquétipos de transformação, possibilitando que esse indivíduo tenha sua energia deslocada de modo que possa equilibrar seu foco de atenção, isto é, dividindo seu interesse entre o trabalho, família ou espiritualidade.

A constelação ou evocação dos arquétipos não ocorre de forma espontânea por si mesma,

[…] a evocação dos arquétipos e a correlativa liberação de desenvolvimentos psíquicos latentes não são processos apenas intrapsíquicos; eles ocorrem num campo arquetípico que abrange o dentro e o fora, e que inclui sempre, e pressupõe, um estímulo interior – um fator proveniente do mundo. […] Quando dizemos que um arquétipo é “ligado” por evocação, queremos dizer que a aptidão arquetípica da psique precisa ser liberada por um fator correspondente no mundo (NEUMANN, 1991, p.68).

A evocação dos arquétipos ocorre pela correspondência existente entre o arquétipo e o fenômeno que o constelará. Dessa forma, sua ativação se dá por um elemento que é familiar, isto é, que lhe é próprio. Por exemplo, o arquétipo materno é ativado ou evocado pela presença de uma criança ou de uma atitude infantil. A imagem de criança ou da atitude infantil são elementos presentes em toda história humana – por mais que o conceito de infância seja um fenômeno cultural, a criança em si subjaz a todo processo cultural. O mundo natural é o mundo dos arquétipos, é nele que os arquétipos encontram sua atualização e se mantém vivos, pois as mesmas situações que levaram à formação dos arquétipos estão presentes e se impõem ao homem contemporâneo. A forma de manifestação mudou, mas sua essência é a mesma.

Os arquétipos, de forma geral, não são ativados isoladamente, mas possuem uma certa inter-relação e muitas vezes são constelados como um sistema. Isto é, quando frente a uma situação arquetípica há uma tendência à constelação de arquétipos correspondentes. Assim, numa dada situação, podem ser ativados um ou mais arquétipos que possuam certa identidade, a tal ponto de se ativarem mutuamente formando um sistema arquetípico.

Guggenbuhl-Craig em seu livro Abuso do Poder, aponta para o fato de os arquétipos, mesmo guardando uma identidade que nos permite, de forma geral, compreende-los isoladamente em sua unidade, serem na verdade pólos de um mesmo arquétipo. Segundo ele,

Talvez não devêssemos falar de um arquétipo materno, paterno ou do filho, mas de um arquétipo mãe-filho ou pai-filho. Levando a diante esse raciocínio, eu sugeriria que não há um arquétipo especial de terapeuta ou paciente. Ambos são aspectos da mesma coisa. Quando uma pessoa fica doente o arquétipo de terapeuta-paciente se constela. O enfermo procura um terapeuta exterior, mas ao mesmo tempo se constela o terapeuta intrapsíquico (GUGGENBUHL-CRAIG, 1979, p. 98).

Dessa forma, Guggenbühl-Craig aponta para a necessidade de compreendermos os arquétipos em seu eixo de constelação, não apenas em sua polaridade aparente. Uma diferenciação possível que poderíamos fazer entre o sistema arquetípico que nos referimos e a proposta de Guggenbuhl-Craig, é de que a compreensão deste autor, que utilizaremos mais adiante, contempla sobretudo o que Jung chamou de “arquétipos personalidade”, e ao que Neumann também chama de “arquétipos humanos” (NEUMANN, 1991, p.68-70) que segundo Neumann, tem como fator constelador outro ser humano, ao passo que os arquétipos de transformação estão intimamente ligados ao mundo exterior.

Essa diferenciação é necessária para compreendermos que a dinâmica arquetípica constelada no acompanhamento terapêutico compreende tanto os arquétipos de transformação, relacionados ao movimento do andar e do encontro com o mundo, quanto como os arquétipos humanos constelados pela relação com o acompanhante terapêutico. São dois processos complementares que se desenrolam durante o acompanhamento, a relação Eu-Mundo e Eu-Outro.

A dinâmica do arquétipo do andar é melhor compreendida quando podemos pensa-los relacionados a outros arquétipos, como por exemplo, o do caminho. Como imagem arquetípica do caminho, podemos pensar na estrada que se perde no horizonte, na rua, nas trilhas nas florestas, nos trilhos do trem. Esse arquétipo contempla, em sua essência, o “processo”, o meio necessário para a transformação. Seja numa psicoterapia, numa experiência religiosa o caminho se manifesta como o processo que está em curso ou que deve ser seguido. Dependendo como essa imagem arquetípica constele, seja no sonho ou na imaginação ativa, poderemos ter uma noção do processo que se desenvolve no indivíduo. Por exemplo, o caminho numa montanha ou que leva a uma montanha, pode estar vinculado a um processo de desenvolvimento da espiritualidade; o caminho que segue por florestas ou por planícies pode estar relacionado com uma jornada interior; quando pensamos na imagem do caminho que leva a povoados ou cidades, ou mesmo a rua podemos compreender como a necessidade do encontro com o outro, de socialização.

O andar enquanto imagem de transformação é a possibilidade de movimento da energia psíquica de forma ordenada. O sistema arquetípico constelado andar-caminho-guia possibilita o estabelecimento de laços afetivos mais saudáveis. O processo gerado pelo andar no Acompanhamento Terapêutico é um símbolo importante para o paciente psicótico lidar com o desconhecido – isto é, inconsciente – tanto interno quanto externo. Por isso que os antigos alquimistas diziam que Habentibus Symbolum facilis est transitus (Havendo o símbolo, a travessia é fácil)

3.2. O simbolismo do andar junto

Todo processo terapêutico é um acompanhamento, um andar junto. É interessante pensar que a palavra terapia, vem do grego therapéia, que pode significa assistir, cuidar, tratar, em outras palavras, estar junto. O Acompanhamento Terapêutico torna literal o “acompanhar” o cliente, em especial, possibilitando que ele enfrente o mundo de forma positiva.

É pelos espaços do cotidiano do acompanhado, que este e o acompanhante vão tecendo, produzindo em conjunto, revendo limitações, fortalecendo vínculos e reavaliando o pessimismo acerca da doença. O fato de ir para a rua implica em se defrontar com as questões a cerca da loucura e suas implicações socioculturais.

Estar na vida, […] passear no parque, enfim, circular pelo mundo são anseios manifestos quando o paciente começa a perder a paciência, e o que se torna patente é o quanto a sociedade se acha pouco preparada para receber o indivíduo que percorreu os lugares insólitos da loucura (MOTTA, 1997, p.33).

O acompanhar, andar junto, o estar com o paciente é o processo de favorecer o desenvolvimento do indivíduo. O terapeuta não é o responsável, mas ele protege, acolhe e estimula o desenvolvimento do individuo. Muitas vezes, no senso comum, usa-se o termo “cura” para representar o processo de desenvolvimento psíquico ou superação de uma neurose. Nesse sentido, o terapeuta não cura, mas, “[…] ele ativa o processo de cura no inconsciente do paciente” (STEINBERG, 1990, p. 32). No caso do paciente psicótico, não falamos de cura, mas de uma adaptação ao seu universo que compreende tanto o mundo interior quanto exterior, nesses casos o terapeuta é aquele que ajuda a superar a desordem, a restabelecer o equilíbrio psíquico por mais tênue que seja, para que assim esse indivíduo tenha qualidade de vida.

O acompanhante terapêutico está junto com o paciente, experimentando aquelas situações em que este costuma se sentir coagido, testado nos próprios limites, e dessa proximidade nasce a possibilidade de reagir de maneira diferente, de se impor como sujeito da própria história.

Assim como pensamos no andar como um processo arquetípico, devemos também considerar o encontro ou o “andar junto” como um processo arquetípico. Conforme dissemos acima, os arquétipos humanos dependem da relação humana para serem constelados. A relação humana é fundamental desde os primeiros momentos de vida do indivíduo que vão ser importantes na estruturação do Ego. É no encontro da mãe com a criança que o arquétipo do Self se constela (a partir do Self corporal) -, possibilitando o desenvolvimento psíquico. As referencias arquetípicas necessárias ao desenvolvimento do ego estão vinculadas aos arquétipos humanos, como o materno, paterno, fratria. “O ser humano não-relacionado carece de totalidade, pois ele só pode obter totalidade através da alma, e a alma não pode existir sem o seu outro lado, que é sempre encontrado no outro”. (JUNG apud STEINBERG, 1990, p. 15)

O andar junto ou acompanhar o cliente é uma reatualização do processo de constituição do Ego. A totalidade psíquica que se constela no encontro vai possibilitar uma reorganização psíquica. Assim, como o Self materno propicia a constelação do Self da criança, possibilitando o desenvolvimento do Ego. A relação terapêutica possibilita uma reorganização do ego, por poder constelar em certes momentos as mesmas energias arquetípicas que formaram e estruturam o Ego. No caso da neurose, essas energias se manifestam mais claramente nos símbolosconstelados na transferência. Na psicose a fragilidade do Ego faz com que esse processo seja sempre parcial, a transferência é uma tentativa de estabelecer contato com o mundo exterior e resistir ao impulso do inconsciente.

Todo encontro humano pode ser compreendido pela esfera arquetípica. Devemos, assim, nos perguntar “em qual o acompanhante terapêutico reviveria?” ou “sobre qual mito repousaria a esta atividade terapêutica?” Encontramos as principais características que nos auxiliam a compreender a função terapêutica do acompanhante terapêutico mito de Chiron.

3.3. Por que falar de mito?

Para Eliade (1992) os mitos relatam não somente a origem do mundo, mas também acontecimentos primeiros que marcam a transformação do homem naquilo que ele é. O mito é, pois, “[…] uma realidade cultural extremamente complexa, que pode ser abordada e interpretada em perspectivas múltiplas e complementares” (1992, p. 34), que trata uma idéia sagrada que teve um lugar no “tempo fabuloso dos começos”.

As histórias arquetípicas, segundo Jung, se originam nas experiências individuais – em sua maioria numinosas – a partir da constelação de algum conteúdo inconsciente em sonhos ou alucinações. Por experiências Numinosas (do latim numem – deus) entendemos experiência “provocadas pela revelação de um aspecto do poder divino” (ELIADE, 1992. p. 24).

Os mitos representam uma forma simples de manifestação arquetípica, e têm um grande valor na busca científica do inconsciente, visto que fornecem pistas claras que tornam mais bem compreensível os processos e estruturas básicas da psique coletiva. Os arquétipos, segundo Jung, não poderiam ser traduzidos em conteúdos teóricos, e para entendê-los melhor, seria necessário um estudo comparativo das imagens arquetípicas que emergem do inconsciente coletivo, e suas associações tomando por base as experiências psicológicas.

Os significados dos mitos, bem como o dos contos de fada estariam contidos em uma “[…] totalidade dos temas que ligam o fio da história” (VON FRANZ, 1990, p. 10); contudo, eles não podem se expressar por si mesmo, assim, um evento conceituado pode se manifestar através dos símbolos e ser “decifrado” a partir deles.

Os mitos procuram representar somente um fato psíquico, que por si só, é tão complexo e proporcionam reflexos diversos de fases da experiência humana. O arquétipo seria um impulso psíquico específico que produziria efeitos em uma direção apenas, ao mesmo tempo em que abarcaria várias direções. Assim, é preciso “escavar” a imagem arquetípica até chegar a uma certa clareza, para isso, há que se aproximar ao máximo dessa especificidade.

Jung procurava apontar o valor energético relacionado às imagens arquetípicas; segundo Von Franz (1990, p. 19):

[…] Uma imagem arquetípica não é somente um pensamento padrão (como um pensamento padrão ela está interligada com todos os outros pensamentos); mas ela é, também, uma experiência emocional – a experiência emocional de um individuo. Só se essa imagem arquetípica tiver um valor emocional e afetivo para o indivíduo ela poderá ter vida e significação.

O mito é um integrante de valor à civilização humana; é uma realidade viva,”[…] não é, absolutamente, uma teoria abstrata ou uma fantasia artística, mas uma verdadeira codificação da religião primitiva e da sabedoria pratica” (MALINOW SKI apud BRANDÃO, 2004b, p. 41)

Assim, pensando a psicose como um episódio onde símbolos deveriam ser integrados àquela individualidade, pode-se pensar um paralelo do Acompanhamento Terapêutico como uma tentativa de reorganização da psique, à mitologia a partir do mito grego de Chirón, o “curador ferido” e mestre-guia de muitos heróis O Mito de Chíron.

3.4. O Mito de Chíron

Chíron, segundo Penna (2005), se apresenta sempre como um personagem secundário nas histórias das figuras mais ilustres. Nos textos de Brandão, por exemplo, Chíron é citado várias vezes, sempre acompanhando divindades e heróis.

O nome Chíron, possivelmente, tem sua origem no vocábulo grego Kheíron, uma forma abreviada de Kheirurgós (cirurgião), que quer dizer aquele que trabalha ou age com as próprias mãos. (BRANDÃO, 2000).

Para a mitologia grega, Chíron era filho de Crono e Fílira, era, assim, um imortal, meio-irmão de Zeus. Em uma das versões para seu nascimento, apontada por Brandão (2000), Crono, temendo os ciúmes de Reia, se transformou em cavalo para possuir Filira, assim nasceu o centauro Chiron, numa combinação de cavalo com um corpo de homem.

Apesar de ser um centauro, Chíron era diferente dos demais que, exceto por Folo, eram “violentos, sanguinários e luxuriosos, habitavam montanhas e florestas, alimentando-se de carne crua” (BRANDÃO, 1991, p. 199). Devido, sua sensibilidade e relação amistosa com os heróis e com os deuses, Chíron foi conhecido como “[…] o mais justo dos centauros” (BRANDÃO, 2004b, p. 26).

É importante notarmos que a peculiaridade de sua natureza, era na verdade tripla. “Esta tripla natureza (animal-humana-divina) simboliza a unidade dos três elementos, representando a força arquetípica que une e integra as polaridades” (PENNA, 2005, p. 159).

Tudo em Chíron, o médico divino e ferido […] o faz parecer a mais contraditória figura de toda a mitologia grega. Apesar de ser um deus grego, sofre de uma ferida incurável. Além disso, a sua figura combina o aspecto animal com o apolíneo, pois apesar do seu corpo de cavalo – configuração pela qual são conhecidos os centauros, criaturas da natureza, fecundos e destrutivos – é ele quem instrui os heróis (KERÉNYl apud GROESBECK, 1983, p. 74).

Chíron foi o tutor de vários heróis, dentre eles Jasão, Hercules, Castor, Pólux, Asclépio e Aquiles, ensinando não apenas métodos de sobrevivência, mas valores culturais e éticos. Segundo Brandão (2004b) sua função de maior nobreza e indispensável sobremaneira aos heróis era a de permitir passar pelos ritos iniciáticos, outorgando-lhes “[…] imprescindível indumentária espiritual, para que pudessem enfrentar a todos e quaisquer monstros.” (BRANDÃO, 2004, p. 27) – internos e externos. Sobretudo, sua função era conduzir os heróis ao destino deles, a encontrarem sua verdadeira potência.

Das habilidades de Chíron, a de curar é a mais comentada e conhecia, tendo em vista seu importante pupilo Asclépio, deus da medicina. Contudo, são esquecidos atributos que foram importantes na formação de outros heróis. As artes de combate, estratégia, diplomacia, música certamente faziam parte dos conhecimentos que possuía e que passou para seus alunos. Por outro lado, ser compreendidas a paciência, persistência, coragem, justiça que são observadas nas ações dos heróis.

Chíron esteve sempre associado aos heróis, talvez poderíamos compreende-lo também como um herói.

Etimológicamente, ηρ ως (héros) talvez pudesse se aproximar do indo-europeu servā, da raiz ser-, de que provém o avéstico haurvaiti, “ele guarda” e do latim seruāvre, “conservar, defender, guardar, velar sobre, ser útil” donde herói seria ‘o guardião, o defensor, o que nasceu para servir’ (BRANDÃO, 2005, p. 15).

Chíron é o melhor modelo mítico de herói, isto é, daquele que nasceu para servir. Pois, seu trabalho é abrir os caminhos para as gerações futuras. Encaminhar cada um de forma que pudessem encontrar o seu destino de forma digna. A história de Chíron possui um aspecto trágico. Segundo a narrativa mítica, quando Hércules ia em busca do javali Erimanto, ele passou pela região de Foloe, onde vivia o Centauro Folo, que o convidou para se hospedar em sua residência. Após a refeição, Heracles, solicitou vinho a Folo que o concedeu,

[…] Os centauros, sentindo o odor do licor de Baco, armados de rochedos, árvores e troncos avançaram contra Folo e seu hóspede. Na refrega, Heracles matou dez dos irmãos de seu hospedeiro e perseguiu os demais até o cabo Mália, onde o Centuro Élato, tendo se refugiado junto Quirão, foi ferido por uma flecha envenenada de Heracles, que, sem desejar, atingiu igualmente o grande educador dos heróis, provocando-lhe um ferimento incurável (BRANDÃO, 1991, p.530).

No mito de Chíron, este sofre dores dilacerantes que o leva a trocar sua imortalidade por Prometeu, que estava preso no rochedo, por meio desta troca, Chíron pode enfim morrer. Zeus, compadecido com seu meio-irmão, o imortaliza nas estrelas, formando a constelação de Sagitário.

A ferida incurável do mestre das curas é um dos temas mais comentados do mito de Chíron, por constelar um tema arquetípico “a ferida divina” no “curador divino”. O arquétipo do “curador-ferido” é um componente fundamental para o processo terapêutico. Que durante o processo terapêutico se constela tanto no cliente quanto no terapeuta.

Guggenbühl-Craig sugere que existe um arquétipo”médico/paciente” que é ativado todas as vezes que uma pessoa fica doente. O doente procura um médico ou doutor externo, mas o fator intra-psíquico, ou “fator curador”, ou ainda o “médico interior” é também mobilizado. Mesmo o médico externo sendo muito competente, as feridas e doenças não poderão ser curadas se não houver a ação do ‘médico interior’ […] (Basta lembrar o grande número de pessoas que ainda morre de pneumonia, muito embora a pneumonia seja uma doença curável.) É freqüente ouvirmos explicações do tipo: “sua resistência interna cedeu” ou “ ele não estava querendo melhorar”. De um ponto de vista arquetípico, era o médico interior que não estava funcionando (GROESBECK, 1983 p. 77).

No cliente a constelação desse arquétipo é caracterizada pela tendência a reordenação psíquica ou uma predisposição psicossomática ao procedimento terapêutico. Um procedimento terapêutico é a busca pelo “fator curador” inerente ao indivíduo. Contudo, este efeito do “fator curador” ou esse “médico interior” depende da disposição da consciência na relação com o inconsciente. E, talvez seja esta a grande questão das terapias: como possibilitar que a consciência tenha um contato transformador com o do pólo curador deste arquétipo constelado no inconsciente.

Podemos compreender a constelação deste arquétipo como o movimento de reorganização inconsciente para suprir as deficiências da relação com a consciência, podendo ser acompanhado pela constelação de outros arquétipos, conforme já discutimos.

No terapeuta essa constelação tende a se manifestar por uma disposição inconsciente de perceber o cliente, por meio das “feridas” do terapeuta. É uma forma de abertura para um encontro em cliente e terapeuta, é por onde se instala as relações de contratransferência. Por outro lado, esse arquétipo está ligado a faculdade de mestria, a paciência e atenção que o terapeuta deve ter ao acompanhar o desenvolvimento do cliente, de modo a não prejudicar desenvolvimento do processo mesmo.

3.5. O Tema do curador-ferido e as Relações com o Acompanhamento Terapêutico

O tema do curador ferido é importante para pensar a relação do acompanhante terapêutico com o processo do paciente. A mestria conforme comentamos no mito de Chíron é um elemento fundamental, pois é justamente o que é exigido do acompanhante, isto é, a paciência, o cuidado, o estímulo e o encorajamento do paciente para que este possa encontrar o seu lugar. Por outro lado, a ferida pode se situar tanto na sua história pessoal quanto na ferida arquetípica, a ferida do curador que está sempre ao lado, e não pode ser o agente da cura, pois a cura é um processo pessoal.

Essa ferida da impossibilidade é uma ferida arquetípica no narcisismo natural de cada um de nós. O terapeuta apenas conduz, estimula e testemunha o processo do cliente. Se o terapeuta se identifica com a “cura do cliente” o terapeuta se torna vitima de seu próprio narcisismo. A ferida do curador é a marca da humildade necessária ao encontro criativo. A ferida é a possibilidade de cura, tanto para o cliente quanto do terapeuta.

Curar, em alemão vem de Heilen, cuja raiz provém de Heilag – total, completo (GUGGENBUHL-CRAIG, 1983, p. 98). A palavra Saúde, tem a mesma origem, por tanto, quando falamos de cura para nossos pacientes, falamos de se tornarem completos. Segundo Jung (1999b) cura quer dizer transformação, cuja proposta da psicologia analítica é a transformação da personalidade como um todo, possibilitando que o paciente se torne aquilo que de fato é.

Penna aponta que o papel do analista junguiano é “[…] fazer junto com o paciente, não se trata de fazer para ou fazer pelo paciente” (2005, p. 152). Desta forma, cabe ao terapeuta estar junto com o paciente, envolvendo-se integralmente na tarefa de compreensão de suas feridas, buscando, assim, possibilidades de transformação.

A transformação que propomos acontece a partir da reunião da polaridade oposta à que foi colocada em ênfase, reativando a possibilidades de promoção de cura encontradas apagadas na psique do paciente.

Para que o cliente restabeleça essa experiência integral da imagem arquetípica do curador, é preciso que o terapeuta mostre-lhe o caminho. Mesmo se o médico externo for muito competente, as doenças e feridas só poderão ser curadas mediante a ação do medico interno. Assim, não é o terapeuta quem cura o paciente, mas a relação de vínculo possibilitará que seja ativado neste o processo de cura; não significa que as feridas serão fechadas, mas que o individuo terá o ego fortalecido a fim de aprender a conviver com as cicatrizes deixadas, se responsabilizando pelo próprio cuidado, sem colocar a culpa nas outras pessoas.

No que tange à clínica do acompanhamento terapêutico, é preciso que o paciente em sofrimento psicológico aprenda a lidar com suas feridas, e isso se dará a partir do contato com o mundo externo, que outrora fora lhe “arrancado”.

É importante notar outros pontos de intercessão do mito com essa clínica; pois o profissional de Acompanhamento Terapêutico, assim como Chíron, atua sempre como coadjuvante na construção da história do acompanhado; sendo colocado, por diversas vezes, na função de mestria a fim de permitir que o paciente encontre o próprio destino. Através da re-conexão dos aspectos inconscientes e o Ego – tal como a figura de Chíron, homem-cavalo.

CONCLUSÃO

A clínica do Acompanhamento Terapêutico é um importante avanço no tratamento de pacientes psiquiátricos por possibilitar um reencontro com a vida comum e a dignidade. O acompanhante terapêutico fornece ao paciente uma referência corporal e psíquica possibilitando ao mesmo tempo interagir com espaços que lhe foram interditados seja pela doença, seja pela incompreensão e preconceito que a sociedade ainda apresenta em relação ao paciente psiquiátrico.

O Acompanhamento Terapêutico é, sobretudo, uma busca pelo potencial criativo que cada indivíduo possui de recriar suas relações com o meio e consigo mesmo. A doença mental se impõe como um problema em nossa sociedade, justamente, por nossa incapacidade de olhar através dela e perceber que a doença mental é um estado do ser, uma forma diferente de se fazer no mundo.

C.G. Jung foi um dos primeiros psiquiatras a olhar através dos invólucros pessoais da doença mental. Em seus anos de atividade no Hospital Burgholzli, Jung teve contato com o universo de imagens que os pacientes lhe apresentavam por meios de delírios e sonhos. A fragilidade egóica desses pacientes impedia que o contato com essas imagens fosse restaurador. O contato com a psicose foi um ingrediente fundamental para o desenvolvimento posterior da Psicologia Analítica, pois foi justamente olhando através da psicose (e não para a psicose) que Jung percebeu que há uma dinâmica inconsciente que se desenrola para além do caos e da fragilidade pessoal.

A psicologia junguiana com sua perspectiva energética nos permite compreender a dinâmica do adoecimento psíquico não apenas por sua causa, mas por sua finalidade, isto é, o sentido do sintoma e do delírio. Para Jung, o adoecimento é um processo que visa restabelecer a saúde psíquica. No caso da neurose o sintoma busca reorientar o ego.

No caso do paciente psicótico, existe uma energia muito forte no âmbito do inconsciente, provocando uma rigidez na dinâmica energética do psiquismo, levando a invasão da consciência. Nesse processo, o ego é tomado pelo inconsciente, tornando-o cada vez mais frágil. Com essa fragilidade, o ego se torna inseguro, tanto no que diz respeito aos conteúdos conscientes quanto inconscientes. Assim, não sendo possível agir diretamente na consciência, a prática com psicóticos indica acessar o inconsciente através de meios objetivos, como o andar junto no caso do Acompanhamento Terapêutico. Lidando com a realidade, o paciente traz pra fora o que está preso no inconsciente, diminuindo sua intensidade e permitindo que a dinâmica psíquica se restabeleça. O Acompanhamento Terapêutico é um importante meio para propiciar a aderência do ego à realidade, visto que, o sujeito passando a sentir-se parte do meio, e interferindo neste, pode atingir uma estabilidade maior, diminuindo a necessidade e freqüência de internações.

Por outro lado, a psicologia junguiana com o conceito de arquétipo nos oferece um modelo de compreensão do psiquismo que nos leva para além da esfera pessoal. Os arquétipos, padrões temáticos de organização psíquica, são estruturas psíquicas coletivas que se fazem apresentar como um potencial criativo e saudável, mas no caso de pacientes psicóticos é necessário um suporte para que a consciência possa se valer positivamente dessa possibilidade.

Ao pensarmos a referência arquetípica para o processo de Acompanhamento Terapêutico, podemos observar que o caminhar como forma de reorientação psíquica está presente no homem desde temos imemoriais até os dias de hoje, como as romarias e peregrinações. Isso é um fato importante pois os arquétipos são ativados por analogia ou correspondência, isto é, é necessário que haja uma situação correspondente ao arquétipo para ativa-lo, assim podemos considerar que o processo de Acompanhamento Terapêutico, o andar junto, é um processo que ecoa no inconsciente possibilitando uma passagem de energia para a consciência de forma sadia, por estar vinculado a objetos reais.

Do mesmo modo, o Acompanhamento Terapêutico possui um respaldo no elemento arquetípico; pois o ato de caminhar vai favorecer a aderência do indivíduo, por conta da simbolização do Acompanhamento Terapêutico. Tomamos como referência mítica o personagem centauro Chíron. Este frequentemente associado com o padrão arquetípica do terapeuta, também corresponde à figura do acompanhante, pois Chíron não era apenas um médico (curador), mas um mestre que guiava seus discípulos (os heróis gregos) por diferentes artes, dando-lhes segurança e conhecimento para que pudessem perseguir o seu destino.

Assim, a concepção de Jung acerca da psique possibilita um olhar sadio, objetivando não a doença, mas a pessoa que está doente. Os estranhos conteúdos e delírios e movimentos são, muitas vezes, reduzidos e rotulados de “loucura” como sendo um processo desprovido de sentido. Para o olhar junguiano, essa loucura é uma expressão legitima da psique, isto é, da própria vida.

A palavra loucura em alemão deriva de Wahn, que possui a mesma raiz que Wähnen, que significa “supor” ou “fantasiar”. Assim, loucura seria a palavra alemã para fantasia. Segundo o analista junguiano Heinrich Fierz, para a sociedade, reconhecer a loucura significa conhecer a fantasia, a fantasia criativa.

Significaria que o encontro com a fantasia criativa não é incumbência de uns poucos escolhidos, mas sim que todos teriam essa possibilidade e responsabilidade. Sendo esse o caso, seria ideal que não descartássemos irrefletida e negligenciada algo como absurdo, simplesmente porque não o compreendemos. A aceitação da loucura pela sociedade pode nos ajudar a enxergar o elemento criativo na comunidade e a permitir que ele se desenvolva (FIERZ, 1977, p. 231).

A “empreitada” de acompanhar esse indivíduo em sofrimento a estar atravessando o período difícil que vive, ultrapassa o reconhecimento do quadro psiquiátrico por si só. Trata-se, sobretudo, de trabalhar em real parceria com esse sujeito, para que este reconheça que seu estado encerra um certo significado e, por isso, seria imprescindível ser aceito como parte relevante de sua vida, para então poder buscar as metas necessárias para que seu caminho prossiga. Entretanto, de que forma isso se dará, poderá ser decidido à luz dos desdobramentos posteriores. […] toda a vida da pessoa atinge um ponto crítico. É preciso entender que Uma transformação fundamental da personalidade está sendo preparada. (FIERZ,1977,p. 239)

REFERÊNCIAS

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

www.psicologiaanalitica.com

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Algumas considerações acerca dos Sonhos na Abordagem Junguiana – Parte I

A psicologia dos sonhos é uma área fundamental dentro da psicologia do inconsciente. Dessa forma, compreender os sonhos e o seu papel na psique é fundamental para todo aquele que se interessa pelo inconsciente, seja por motivos profissionais ou por motivos pessoais, como autoconhecimento. O que chamamos de “psicologia dos sonhos” se refere ao estudo ou a ocupação científica com os sonhos, contudo, não podemos perder de vista que em todos os tempos os humanos sempre se ocuparam dos sonhos, compreendendo neles a possibilidade de descobrir a vontade dos deuses ou mesmo para compreender e tratar doenças.

A psicologia dos sonhos se configura efetivamente no contexto científico com Freud, através de seu impressionante trabalho “A interpretação dos Sonhos” (1900). Com esse trabalho, Freud inaugurou, por assim dizer, a psicanálise. A importância da teoria dos sonhos era tamanha que, em 1932, em suas novas conferências introdutórias ao falar acerca de sua teoria dos sonhos Freud afirmou que Esta ocupa um lugar especial na história da psicanálise e assinala um ponto decisivo; foi com ela que a psicanálise progrediu de método psicoterapêutico para psicologia profunda. (FREUD, 1996, p.17)

A concepção de Freud acerca dos sonhos estava intimamente relacionado com sua teoria sexual. De tal forma que, para Jung, se tornava impossível sustentar o método freudiano de interpretação dos sonhos. Assim, concepção acerca dos sonhos começou a se configurar com a após a ruptura com a psicanálise. Segundo Jung,

Depois da ruptura com Freud, começou para mim um período de incerteza interior, e mais que isso, de desorientação. Eu me sentia flutuando pois ainda não encontrara minha própria posição. O que mais almejava nesse momento era adquirir uma nova atitude em relação aos meus doentes. Em primeiro lugar decidi confiar incondicionalmente naquilo que contassem de sobre eles mesmos. Pus-me, então à escuta do que o acaso trazia. Constatei logo que relatavam espontaneamente seus sonhos e fantasias; eu apenas formulava algumas perguntas, tais como “o que pensa disso?” ou: “Como compreende isso? De onde vem essa imagem?” Das respostas e associações apresentadas por eles, as interpretações decorriam naturalmente. Deixando de lado qualquer ponto de vista teórico, apenas os ajudava a compreender por si mesmos suas imagens.

Logo percebi que era correto tomar, como base de interpretação, os sonhos tais como se apresentam. Eles são o fato do qual devemos partir. Naturalmente meu “método” engendrou uma variedade de aspectos quase inabrangível. A necessidade de um critério tornou-se cada vez mais premente, ou melhor, a urgência de uma orientação inicial pelo menos provisória. (JUNG, 1975, p.152)

Assim, como veremos, a concepção de Jung acerca dos sonhos não deriva da psicanálise ou da relação com Freud, muito pelo contrario, foi justamente o afastamento da psicanálise que permitiu Jung ter uma compreensão dos processos oníricos a partir dos próprios pacientes. Neste texto, procurarei discutir, em linhas gerais, o desenvolvimento a concepção junguiana do sonho assim como alguns aspectos a compreensão dos símbolos e análise dos sonhos.

Os sonhos

No geral, não há uma conceituação ampla e unívoca acerca dos sonhos. Os conceitos ou definições variam de abordagem, ou mesmo de autor para autor. Dessa forma, para nortearmos nosso texto, gostaria de usar duas noções acerca dos sonhos que considero fundamentais.

“o sonho é uma vivência impressionante que ocorre durante o sono(…) ele é uma vivência que provoca mudanças”(KAST, 2010, p.35)

“sonho é uma auto-representação, em forma espontânea e simbólica, da situação atual do inconsciente”(JUNG, 2000, p. 201).

Essas duas noções nos servem de norte para pensarmos os sonhos, pois, o sonhos são vivencias interiores, que provocam mudanças, justamente por nos colocar diante de nossa verdade mais profunda. Assim, os sonhos nos oferecem uma possibilidade de olharmos para nossa vida por uma outra perspectiva, sem as limitações da consciência.

O enfoque de Jung sempre esteve relacionado com a aplicação prática da analise dos sonhos, assim, não foi realizada uma sistematização geral dos sonhos. Assim, indicaremos algumas tentativas realizadas por Jung para clarear a teoria que fundamenta a analise dos sonhos. De forma geral, apresentarei elementos que nos auxiliam como pano de fundo para o processo de analise dos sonhos.

O que causa os Sonhos?

Em seus “seminários sobre sonhos de crianças”, Jung propõe alguns fatores que podem causar sonhos, esses fatores não são exclusivos ou definitivos, mas, nos permitem ampliar, avaliar e direcionar nossos questionamentos acerca do sonho. Assim, segundo Jung, os sonhos podem ter sua origem relacionados a:

1- Fontes somáticas: “percepções corporais, estados patológicos ou indiposições físicas. Pode tratar-se de manifestações corporais que, por sua vez, são ocasionadas por processo psíquico totalmente inconsciente.”(JUNG, 2011, p.20).

Eu me recordo de ter lido há alguns anos uma matéria num jornal local, um história de um homem que sonhou que havia caído e ferido a cabeça, o sonho o deixou tão impressionado que ele buscou um médico, solicitou exames e verificou que ele possuía um tumor no cérebro, que estava em fase inicial, e pode realizar o tratamento. Na antiguidade os sonhos eram considerados como fonte de diagnósticos e indicavam o tratamento para problemas somáticos. Assim, não podemos perder de vista que não há separação entre corpo e a psique, esses sonhos são especialmente importantes quando trabalhamos com uma perspectiva psicossomática.

2- “Outros eventos físicos – que não ocorrem no próprio corpo, e sim, no meio ambiente – podem influenciar o sonho: ruídos, estímulos luminosos, frio e calor.” (JUNG, 2011, p.21)

Passei por uma experiência recente que ajuda a pensar nessa afirmação de Jung, há alguns dias tive um sonho com meu filho recém nascido, e, em meio a este sonho, acordo e vejo que ele estava chorando. Não estamos querendo que os sonhos são condicionados pelos eventos físicos, mas, que determinados sonhos podem ser infuenciados pelos estímulos externos justamente por que o inconsciente não dorme. Assim, esses estímulos podem se associar aos conteúdos inconscientes produzindo um sonho. Alguns sonhos podem parecer longos, mas, de fato pode durar alguns segundos.

3 – Acontecimentos psíquicos externos ao paciente –

“Os sonhos não são causados somente por fatores físicos, e sim, também, por fatores psíquicos. Por vezes ocorre de determinados acontecimento psíquicos no meio ambiente serem percebidos pelo inconsciente.

Entre os sonhos que colecionei, há um caso onde uma criança de três a quatro anos onde sonha com a vinda de dois anjos e que levantavam algo do chão e o transportavam para o céu – Na mesma noite um irmãozinho dessa criança morre.

Outra criança sonha que a mãe deseja suicidar-se. Entra gritando no quarto da mãe que já está acorda e prestes a cometer suicídio.

Desse modo acontecimentos psíquicos importantes no meio ambiente podem ser percebidos. Certas atmosferas, certos segredos também podem ser plenamente farejados de maneira inconsciente. Nesses casos não sabemos como o inconsciente consegue absorver algo assim.(JUNG, 2011, p.25)

A capacidade do inconsciente entrar em sintonia com o inconsciente de outra pessoa, já era conhecida e discutida por Jung desde 1909, quando apresentou uma preleção na Universidade Clark, nos EUA, depois publicada sob o titulo de “Constelação Familiar” (OC II) , nesse trabalho ele apresenta o resultado de um estudo com teste de associação de palavras com famílias, onde foi observado em alguns casos as associações de membros da família, apresentavam um índice elevado de similaridade, que indicavam uma identidade psíquica, p.ex., a filha estava identificada com a mãe que repetiria as escolhas e comportamentos da mãe, vivendo os complexos da mãe, numa verdadeira maldição familiar. Para dar um exemplo, certa vez, atendi um rapaz que me procurou com alguns sintomas de depressão, contudo, a rotina e as atividades e sua disposição para enfrentar e realizar mudanças não condiziam a depressão, na verdade, a questão estava com a mãe do paciente que possuía uma depressão servera e crônica. O paciente era filho único, responsável pela mãe, assim, inconscientemente ele era “contaminado” pela mãe. Apos trabalharmos essa relação inconsciente com a depressão da mãe o paciente melhorou. Por isso mesmo, que pessoas que convivem ou mesmo cuidam de pessoas com doenças como depressão e Alzheimer (dentre outras), devem ficar atentos com sua própria saúde, pois, correm franco risco de adoecerem.

Assim, a faculdade do inconsciente “absorver” a realidade circundante nos coloca diante da relação do individuo frente ao meio externo. Assim, o sonho ofereceria chaves de compreensão da realidade atual, objetiva e externa a esfera psíquica do sonhador. Deste modo, alguns sonhos permitem ao sonhador ver contexto psíquico no qual ele se encontra inconscientemente imerso.

4 – Acontecimentos passados :

Acontecimentos passados, porém, podem igualmente entrar nos sonhos. Caso os senhores se deparem com algo assim , deverão leva-lo a sério. Quando um nome histórico que pode ter algum significado maior surge nos sonhos, costumo pesquisar o real significado do nome. Pesquiso que tipo de pessoa foi designado por este nome e em que contexto vivia, pois desse modo podemos explicar o sonho.

Os acontecimentos passados, personagens históricos, podem não estar claramente relacionados com o cotidiano, quando examinados, verificadas a relações poderemos ter as associações necessárias para compreender a mensagem sonho. Os arquétipos constituem padrões basais de comportamento que podem se representar através de imagens universais.

5 – Causas futuras

O último grupo de causas, os senhores encontraram entre os sonhos que antecipam conteúdos psíquicos futuros da personalidade que não são reconhecidos tais no momento presente. Trata-se desse modo de acontecimentos futuros que ainda não passíveis de serem reconhecidos no momento presente.

Estes conteúdos apontam para ações ou situações futuras do sonhador que não se baseiam em absoluto na psicologia atual do paciente. (JUNG, 2011, p.29)

Este último grupo é interessante por apontar a tendência natural do inconsciente em se direcionar para o futuro ou a etapa posterior do desenvolvimento. Jung já afirmava que “não é apenas o passado que nos condiciona, mas também o futuro, que muito tempo antes já se encontra em nós e lentamente vai surgindo a partir de nós mesmos.(JUNG, 2006, p.115) Esses sonhos indicam possibilidades futuras ou mesmo intuições que acerca do futuro. O inconsciente, até onde podemos compreender, não é condicionado pelo tempo.

Uma classificação dos Sonhos

No texto “Aspectos Gerais da Psicologia do Sonho” Jung faz uma discussão acerca da possibilidade de classificar os tipos de sonhos, de fato, não devemos considerar como uma classificação definitiva, mas, um esboço que nos permite compreender algumas diferenciações entre os tipos de sonhos.

Segundo Jung, teríamos,

sonhos típicos ou arquetípicos:

Mas estes sonhos não são muito frequêntes e, sob o ponto de vista final, perdem muito de sua importância que a interpretação causal lhe atribui em razão de sua significação simbólica fixa. Parece-me que os motivos típicos nos sonhos são de capital importância, porque eles permitem comparações com os motivos mitológicos. (JUNG, 2000, p. 185)

Os sonhos arquetípicos, isto é, cujo conteúdo é essencialmente marcado pelos arquétipo, de tal modo, que as associações pessoais não são suficientes para compreende-los, nem mesmo o ponto de vista final ou causal, justamente, por possuírem um fundo coletivo, isto é, impessoal. Os chamados “motivos típicos” são referentes às temáticas oriundas das experiências universais humanas, por isso mesmo, podem ser reconhecidas (e compreendidas) nas mitologias, nas narrativas religiosas, nos contos de fadas.

Geralmente, os sonhos arquetípicos possuem um carga energética superior, de tal forma, que tendem a promover mudanças significativas na atitude da consciência.

– sonhos compensatórios: Na verdade, esta “categoria” corresponde a grande maioria dos sonhos. São denominados compensatórios por visar a correção ou mudança da atitude da consciência.

É verdade que, na minha opinião, todos os sonhos têm um caráter compensador em relação aos conteúdos conscientes, mas longe de mim pensar que a função compensadora se apresente com tanta clareza em todos os sonhos como neste exemplo. Embora o sonho contribua para a auto-regulação psicológica do indivíduo, reunindo mecanicamente tudo aquilo que andava recalcado, desprezado, ou mesmo ignorado, contudo, o seu significado compensador muitas vezes não aparece imediatamente, porque apenas dispomos de conhecimentos imperfeitíssimos a respeito da natureza e das necessidades da psique humana.(JUNG, 2000, p.188)

A compensação caracteriza-se pelo confronto da atitude da consciência com os conteúdos do inconsciente. Desde modo, para compreender a função compensatória do sonho faz-se necessário compreender a atitude da consciência e qual aspecto pode estar sendo compensado. A compensação pode ser,

a) Redutora: Esta compensação se característica por ser uma função negativamente compensadora, isto é, sua manifestação visa reorientar a consciência explicitando os aspectos negativos opostos a consciência. Um exemplo, seria um individuo que leva uma vida notadamente religiosa, tem sonhos onde se encontra bêbado em prostíbulos.

O sonho redutor tende, antes, a desintegrar, a dissolver, depreciar, e mesmo destruir e demolir. Evidentemente, isto não quer dizer que a assimilação de um conteúdo redutor tenha um efeito inteiramente destrutivo sobre o indivíduo como um todo. Pelo contrário este efeito é muitas vezes altamente salutar, porque afeta apenas a atitude e não a personalidade total. (JUNG, 2000, p.195)

b) Prospectiva : Esta forma de compensação se caracteriza pela capacidade do inconsciente em retornar à consciência todos os elementos que passaram desapercebidos pela consciência ou mesmo, não conseguiram retornar a consciência. Essa compensação complementa na consciência.

em primeiro lugar, que o inconsciente, na medida em que depende da consciência,acrescenta à situação consciente do indivíduo todos os elementos que, no estado de vigília, não alcançaram o limiar na consciência, por causa de recalque ou simplesmente por serem demasiado débeis para conseguir chegar por si mesmo até à consciência. A compensação daí resultante pode’ ser considerada como apropriada, por representar uma auto-regulação do organismo psíquico. (JUNG, 2000, p.193)

Dessa função compensatória, temos como exemplo o célebre sonho do químico alemão Kekulé (Friedrich August Kekulé Von Stradonitz) . Kekulé estava pesquisando a formula do benzeno, em especial acerca de sua representação gráfica, e o trabalho não estava progredindo. Ele adormeceu e sonhou com uma cobra que engolia o próprio rabo, a partir desse sonho ele considerou a formula hexagonal do benzeno.

Esses sonhos reintegram a consciência elementos que complementam e possibilitam uma reorganização da percepção, assim como a resolução de questões.

– sonhos reativos: Estes sonhos são frutos de situações traumáticas ou de grande violência. São sonhos que expressam uma tentativa inconsciente de lidar com tal situação. A principal característica é que esses sonhos são refratários a análise e a interpretação.

“os mesmos sonhos reativos, sobretudo, em condições físicas patológicas, em que dores violentas influenciam decisivamente o desenrolar do sonho. Em minha opinião, os estímulos somáticos só excepcionalmente têm uma significação determinante. Geralmente esses estímulos se integram completamente na expressão simbólica do conteúdo inconsciente do sonho, ou, dito de outro modo: são utilizados como meio de expressão.”(JUNG, 2000, p.199)

Sonhos telepáticos : são sonhos onde um “acontecimento particularmente afetivo é antecipado “telepaticamente” no tempo e no espaço” (JUNG, 2000, p. 200) p.ex. uma mãe sonha que acontece algo como filho, acorda desesperada. Mas, tarde chega a noticia da morte do filho. Jung considerava que os sonhos telepáticos apontavam para peculiaridades do inconsciente, como o fato do mesmo, aparentemente, não ser determinado pelo tempo ou mesmo espaço – estes são determinantes fundamentais para a consciência. O inconsciente, por sua vez, não faz distinção entre passado, presente e futuro, como notamos por nos sintomas, memórias e nos sonhos. Acerca desses sonhos, Jung afirma

Naturalmente, nunca professarei que as leis que os regem sejam alguma coisa de “sobrenatural”. Apenas afirmo que eles escapam ao alcance de nosso saber meramente acadêmico. Assim, os conteúdos telepáticos contestáveis possuem um caráter de realidade que zomba de qualquer expectativa de probabilidade. Embora sem me arriscar a uma concepção teórica a respeito desses fenômenos, creio, todavia, que é correto reconhecer e sublinhar sua realidade”(JUNG, 2000, p.201)

Sonhos e a Dinâmica Psíquica

Os sonhos desempenham um papel importante no processo de autorregulação psíquica, Jung especificou quatro possibilidades de significação dos sonhos na dinâmica psíquica, seriam elas,

“1) O sonho representa a reação do inconsciente frente a uma situação da consciência(…)” (JUNG, 2011, p. 18) – No primeiro caso o sonho expressa o inconsciente, podendo ser favorável a postura da consciência, onde, o sonho complementaria a realidade vivida, ou poderia ser desvarável a posição do inconsciente, sendo . Assim, frente a uma escolha ou ação da consciência, o inconsciente pode se expressar por meio do sonho, este podendo ser complementar ou compensatório a atitude da consciência. Estando intimamente ligado aos acontecimentos recentes.

“2) O sonho representa uma situação que é fruto do conflito entre a consciência e o inconsciente(…)”( Ibid) Neste caso, independente o acontecimento recente da consciência, o sonho expressa a ação espontânea do inconsciente, que difere de tal modo da atitude da consciência.

3”) O sonho representa a tendência do inconsciente cujo objetivo é uma modificação da atitude da consciência(…)”(ibid) Esses sonhos indicam o movimento do inconsciente em direção a consciência. Esses sonhos são significativos, pois, muitas vezes, indicam o curso para onde o desenvolvimento “deve seguir.

4) O sonho representa processos inconsciente que não evidenciam uma relação com a situação inconsciente ” (Ibid) – Neste caso, os sonhos emergem do inconsciente apresentando um caráter numinoso. São chamados de “Grandes Sonhos”, por serem experimentados como uma iluminação. Indicam um processo de desenvolvimento psíquico a partir do inconsciente arquetípico, contudo, sem ser condicionado pelos processos da consciência.

Neste texto, apresentamos alguns aspectos teóricos importantes pensarmos a analise de sonhos, por constituírem um pano de fundo importante. Em breve, estaremos publicando a segunda parte deste texto, onde discutiremos alguns aspectos da interpretação dos sonhos.

Referências Bibliográficas

FREUD, S. Conferência XXIX: Revisão da teoria dos sonhos. In: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago. v. XXII, 1996.

JUNG, C. G., Memórias Sonhos e Reflexões, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975

JUNG, C.G., Natureza da Psique, Petrópolis:Vozes, 2000.

JUNG, C.G. Seminários sobre sonhos de crianças, Petrópolis: Vozes, 2011.

 

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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Resposta a um comentário de Aldo Costa: Sobre o que é ser um “analista junguiano”

(13 de março de 2012)

Há algumas semanas  Aldo Costa, um leitor que participa ativamente de nosso blog, postou um comentário muito interessante. Ele comentou:

Prezado Fabrício, 

Por que Analista Junguiano não é profissão regulamentada? Nesse sentido, existe diferença entre o Brasil e outros países?
Uma outra dúvida é: quando o psicólogo se autointitula Analista Junguiano, sem ter frequentado um Instituto/Sociedade vinculada à IAAP, aprendendo a teoria de Jung e a sua Psicologia Analítica somente por seus próprios estudos, ele (psicólogo) pode fazer isso?(se autointitular Analista Junguiano, mesmo sem ter frequentado instituições vinculadas à IAAP?).
Esses questionamentos vieram para mim há algumas semanas quando você postou em seu blog um trecho do livro Ser Terapeuta onde citou uma fala do analista junguiano Léon Bonaventure, onde este, ao ser indagado, reponde o que é ser analista junguiano e diz dentre outras informações que: (Ser analista junguiano) “É ter a coragem de viver a individuação”, dizendo categoricamente que para ele, hoje, a formação, os diplomas, “ser membro da Sociedade” nada tem a ver com a identidade de ser analista junguiano.
E, finalizando, o Conselho Federal de Psicologia (ou os CRP´s) autorizam que o psicólogo, no caso acima exposto, permite o psicólogo (sem curso em instituições vinculadas à IAAP) se autointitular Analista Junguiano e divulgar para seus pacientes?
Qual a sua opinião?

Muito obrigado.

Confesso que gostei muito dos questionamentos levantados pelo Aldo, ainda mais, por acreditar que ele deu voz a inúmeras outras pessoas que tem essas mesmas dúvidas. Até porque são questões complexas, que tentarei responde-las da melhor forma possível. Caminhemos um passo de cada vez,

Por que Analista Junguiano não é profissão regulamentada?

No Brasil, nenhuma abordagem psicoterapêutica é considerada profissão regulamentada. Isto é, não há nenhuma lei que cria e regulamenta seja a profissão de “analista junguiano”, “analista bioenergético” ou de psicanalista.

No inicio da década passada, houve uma tentativa de regulamentação da profissão de psicanalista. Na época, as principais entidades de referência da psicanálise, apoiadas pelo Conselho Federal de Psicologia, Conselho Federal de Medicina e pela Associação Brasileira de Psiquiatria, dentre outras, se organizaram contra essa regulamentação, participando de audiências e produzindo documentos expondo os motivos, desde os apontamentos nos textos de Freud até a situação contemporânea da psicanálise, para não se regulamentar a profissão de psicanalista.

Essa oposição pela regulamentação da psicanálise estava pautada sobretudo no critério de formação. Pois, uma regulamentação padronizaria o exercício profissional e delimitaria um currículo e tempo de formação. Num texto sobre essa questão da regulamentação da psicanalise, BALEEIRO apresenta um esboço daquela proposta de regulamentação

O Projeto n.º 3.944 é composto de seis capítulos. Inicialmente, faz algumas considerações, justificando assim a sua necessidade. No geral, trata da regulamentação da seguinte forma:

Cap. I. – define quem é e de quem trata o psicanalista e onde atua – Psicanalista é a profissão e o título é de psicanalista clínico – trata de pacientes portadores de distúrbios psíquicos de natureza inconsciente;

Cap. II – quem forma – as sociedades serão registradas, reconhecidas e vinculadas ao MEC que irá definir: currículo mínimo, matérias complementares, estágio, obrigatoriedade da análise didática;

Cap. III – reconhece as sociedades existentes antes da vigência da lei – no entanto fixa critérios para as próximas e regulamenta as existentes, ligando-as ao MEC;

Cap. IV – quem fiscaliza e registra as entidades – o Conselho Federal e os Estaduais de Medicina.( BALEEIRO, 2002)

A regulamentação da psicanálise significaria, por um lado, a definitiva mercantilização da psicanálise (ainda presente em função de cursos de formação de 2 anos) por outro, essa regulamentação abriria a possibilidade que qualquer instituição que atendesse os critérios do MEC, poderia direcionar a psicanálise de acordo com os próprios interesses, como instituições religiosas. Não há nenhuma duvida de que se a psicanálise fosse regulamentada, esta se tornaria em larga escala posse de instituições religiosas – usando-a para justificar seu próprio sistema. Como já vemos, na chamada psicanálise cristã.

Mas, porque eu insisti tanto em falar da psicanálise? Justamente porque a análise junguiana não possui a representatividade  da psicanálise, desta forma, os acontecimentos dessa abordagem serviria como um paradigma para pensar os desdobramentos das demais abordagens que lidam com o inconsciente.

Em nossos dias é comum vermos junguianos adotando o titulo de “psicanalistas junguianos”. Isso nos dá um bom indicativo de que se a psicanálise fosse regulamentada, seriam oferecidos cursos de psicanálise freudiana, psicanálise junguiana dentre outros. É sabido que alguns misturam a psicologia analítica com suas crenças religiosas, havendo essa regulamentação, daria o respaldo oficial para essa mistura. De certa forma, ainda há a possibilidade de um certo controle da comunidade profissional para evitar a mercantilização e o domínio ideológico da abordagem, pois,  cabe as instituições e os profissionais delimitarem as diretrizes, selecionar os candidatos que se adeqúem as exigências pessoais e éticas ao exercício da analise.

Deste modo, a regulamentação é algo que é combatido pela comunidade profissional, pois,  abriria uma possibilidade de deturpar a análise junguiana, ou qualquer outro tipo de análise.

Nesse sentido, existe diferença entre o Brasil e outros países?

Infelizmente, não tenho informações sobre a regulamentação em outros países, assim, fico devendo esta resposta.

Uma outra dúvida é: quando o psicólogo se autointitula Analista Junguiano, sem ter frequentado um Instituto/Sociedade vinculada à IAAP, aprendendo a teoria de Jung e a sua Psicologia Analítica somente por seus próprios estudos, ele (psicólogo) pode fazer isso?(se autointitular Analista Junguiano, mesmo sem ter frequentado instituições vinculadas à IAAP?).

Essa é uma questão bem polêmica.  Veja bem, no Brasil, os cursos de formação de analistas junguianos são cursos livres , isto é, não possuem um caráter oficial, não reconhecidos pelo MEC. Por mais que tenham uma carga horária alta (cerca de 750 h), não possuem um valor efetivo enquanto titulação. O fato de ser em uma instituição respeitada como a SBPA ou a AJB, que são vinculadas a IAAP, nos informa acerca da qualidade do curso, mas, não altera muito a questão da titularidade que, como disse, é de curso livre.

Quero deixar claro que em hipótese alguma quero desmerecer a formação vinculada a SBPA, AJB ou qualquer instituição vinculada a IAAP, cuja qualidade e profundidade são inquestionáveis.

Entretanto, na minha opinião, o que acontece é que de fato,  como não há regulamentação, a designação “analista junguiano” se torna uma identidade teórica. Assim, o psicólogo que se identifica com a psicologia analítica ou com a análise junguiana se assuma “analista junguiano”. Do mesmo modo que um psicólogo que estuda psicanálise se apresente como “psicanalista”, não indicando necessáriamente uma formação, mas, uma identidade teórica ou de abordagem.

Esses questionamentos vieram para mim há algumas semanas quando você postou em seu blog um trecho do livro Ser Terapeuta onde citou uma fala do analista junguiano Léon Bonaventure, onde este, ao ser indagado, reponde o que é ser analista junguiano e diz dentre outras informações que: (Ser analista junguiano) “É ter a coragem de viver a individuação”, dizendo categoricamente que para ele, hoje, a formação, os diplomas, “ser membro da Sociedade” nada tem a ver com a identidade de ser analista junguiano.

A afirmação do Dr. Léon Bonaventure deve ser compreendida à luz de sua história. Vale apena recordar que Dr. Léon Bonaventure foi o primeiro analista junguiano reconhecido pela IAAP a vir para o Brasil, em 1967.  Ele foi um “ativista junguiano” muito importante, sendo um dos responsáveis pelo projeto da tradução das obras completas. Segundo Arnaldo Motta (2005) nos finais da década de 70, muitos médicos e psiquiatras buscaram do Dr. Bonaventure para realizar análise didática, criando em torno dele um grupo de pessoas interessadas em criar um instituto de formação em psicologia analítica aberto a diversos profissionais, essa proposta de Dr. Bonaventure encontrou resistência do Dr. Carlos Byington, que defendia a restrição da função de analista a psicólogos e médicos.

Após um periodo desgastante, Dr. Léon Bonaventure se afastou do grupo por ele criado. Este grupo, vinculando-se a liderança do Dr. Carlos Byinton deu origem a Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, em 1978. Apesar de seu importante papel, ele não foi convidado para compor ou participar da SBPA que nascia. Outros pioneiros junguianos de importância inquestionável na psicologia analítica brasileira, como Dr. Petho Sandor e a Dra. Nise da Silveira também não fizeram parte da sociedade, por ocasião de sua fundação.

Com essas informações, podemos compreender que fazer parte de uma Sociedade ou Associação, muitas vezes implica num movimento político. E, fazer parte ou não de uma instituição não significa que o individuo não será um bom analista junguiano. Outro exemplo, é Roberto Gambini, analista junguiano formado em Zurique, não é membro da SBPA ou da AJB.

E, finalizando, o Conselho Federal de Psicologia (ou os CRP´s) autorizam que o psicólogo, no caso acima exposto, permite o psicólogo (sem curso em instituições vinculadas à IAAP) se autointitular Analista Junguiano e divulgar para seus pacientes?

Bem Aldo, acredito que essa pergunta já foi contemplada, né? De certa forma, analista junguiano pode ser compreendida como uma identidade teórica. Compreendendo também, que o curso de formação de analista  não é exclusivo de instituições vinculados a IAAP.

Você também me pediu minha opinião, ok. Pessoalmente, eu respeito profundamente os analistas vinculados a IAAP, tive vários professores da SBPA. De igual modo, respeito profundamente tanto a SBPA quanto a AJB. Mas, acredito supervalorizamos a psicologia analítica “institucional”. No Brasil, temos vários grupos independentes que estudam e trabalham seriamente divulgando o pensamento junguiano. Devemos dar mais valor a esses movimentos.

Concordo com Dr. Léon Bonaventure, a identidade junguiana não está em certificados ou em carteirinhas de sociedades, mas sim, em viver a individuação. Penso que muitas vezes, a formação não é pensada como um treinamento profissional, mas, como uma autoafirmação profissional. Atendendo a necessidade de fazer parte de algo maior, um grupo.

Roberto Gambini, em seus últimos parágrafos do livro “A Voz e o Tempo”, nos diz,

(…)A psicologia junguiana não poderá jamais ser reduzida a uma técnica de exercício profissional ou de manejo de transferência no setting terapêutico, nem muito menos confinada a um código acadêmico, exatamente por ser um modo de observar, pensar e fazer no qual se fundem objetividade e arte, ciência e poesia, formação e iniciação. A objetividade que praticamos é e deve ser contaminada pela alma, pois sem sua mediação no mundo, tanto interior como exterior, nos é incompreensível. Nunca usaremos aventais brancos nem trabalharemos com instrumentos de precisão, sejam testes ou diagnósticos – assim como nunca seremos neofreudianos.

Digo outra vez: sentimentos de inferioridade profissional podem ser uma defesa que impede o contato com o Self.Nós junguianos temos um complexo de herança – ainda não aprendemos a herdar com serenidade. Alarmamo-nos com a idéia de que a herança possa ocultar um problema paterno, ou que ameace nossa liberdade criativa.

Ninguém é dono de Jung. Mas, podemos coletar as pepitas de ouro que encontramos pelo caminho e nos tornarmos a árvore única que cada um, desde o começo, está fadado a ser. (GAMBINI, 2008, p. 214)

Espero ter respondido as questões. Aldo Costa, muito obrigado por sua contribuição!!!

Referências bibliográficas

BALEEIRO, Maria Clarice. Sobre a regulamentação da psicanálise.Cogito,  Salvador,  2002 .   Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-94792002000100013&lng=pt&nrm=iso>. acessos em  13  mar.  2012.

GAMBINI, R. A voz e o tempo: reflexões para jovens terapeutas. São Paulo: Ateliê Editorial, 2008.

MOTTA, Arnaldo Alves Psicologia Analítica no Brasil; contribuições para a sua história, São Paulo: PUC, Tese de mestrado, 2005.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

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Algumas Reflexões sobre a vida vivida, teoria e prática

6 de março de 2012

Esse post começou a surgir durante o desfile das escolas de samba de Vitória, pois, até bem poucos anos atrás eu não compreendia o carnaval, nem mesmo fazia sentido para mim. Confesso que continuo sem compreende-lo, mas, por outro lado, hoje ele é pleno em sentido e significados.

Como disse, esse post começou a surgir durante o desfile das Escolas de Samba de Vitória (dia 11/02), que ocorre uma semana antes do carnaval nacional; o longo desta semana me vinham pensamentos acerca deste tema, até que na sexta-feira de carnaval tive um sonho, meio vago, que, por fim, definiu este post. Eu estava numa sala, que se parecia com um amplo camarote, haviam algumas pessoas, uma mesa no centro. E eu sambava por todo aquele espaço, de um lado a outro, contornado a mesa, enquanto as pessoas me olhavam.”

Eu cresci e vivi durante um longo tempo num meio religioso onde o carnaval “não era bem visto” (para não dizer que era algo do diabo). Assim, sempre fui estranho ao carnaval. De 2010 para cá, acabei por me permitir a experiência do carnaval, e a cada ano venho descobrindo mais o carnaval. E o que posso afirmar é que o carnaval é uma experiência que não se deve verbalizar, mas, viver.

Isso porque existe um campo de nossa existência que não se apreende nos livros nem mesmo nas quatro paredes de um consultório. Esse campo só se manifesta através da vida vivida. Jung afirmou que

Portanto, quem quiser conhe­cer a psique humana infelizmente pouco receberá da psicologia experimental. O melhor a fazer seria [pendurar no cabide as ciências exatas, despir-se da beca professoral, despedir-se do gabinete de estudos e caminhar pelo mundo com um coração de homem: no horror das prisões, nos asilos de alienados e hospitais, nas tabernas dos subúrbios, nos bordéis e casas de jogo, nos salões elegantes, na Bolsa de Valores, nos “meetings” socialistas, nas igrejas, nas seitas predicantes e extáticas, no amor e no ódio, em todas as formas de paixão vividas no pró­prio corpo, enfim, em todas essas experiências, ele encontraria uma carga mais rica de saber do que nos grossos compêndios.

Então, como verdadeiro conhecedor da alma humana, tomar-se-ia um médico apto para ajudar seus doentes. Poder-se-ia perdoar-lhe o pouco respeito pelas assim chamadas “pedras angulares” da psicologia experimental. Pois entre o que a ciência chama de “psicologia” e o que a práxis da vida diária espera da “psicologia” “há um abismo profundo”. (Jung, Psicologia do Inconsciente, p. 112-3)

Jung publicou essa afirmação em 1912, isto é, há 100 anos atrás, e,  suas palavras continuam muito atuais. Certamente, devemos ter uma certa cautela em não “desprezar a psicologia experimental”, pois, não é disso que ele fala, mas, em viver uma vida real e plena e não uma vida de “ouvir falar”.

Quando nos permitimos essas experiências abrimos a possibilidade de um vivência única, plena e que rompe e fertiliza nossa vida comum. Nos elevando para além, da experiência comum. No carnaval de Vitória, o refrão da Boa Vista, escola campeã, soou quase como um mantra,

Na batida do congo, o tambor
Se você me chamar, eu também vou
Canta, canta Madalena
Bota a saia pra girar, ninguém resiste
Ser Capixaba também é chique!

A história de vida de Elisa Lucinda, homenageada pela Escola, se tornou um pouco da história de cada um. Por alguns instantes, todos, num só coro, se tornavam um.

Como definiria essa experiência? Assombrosa e Fascinante.

Outra história relativamente parecida, que me vem a mente, aconteceu há alguns anos, acredito que em  2006, muito antes de sequer pensar em carnaval, eu tive uma experiência muito parecida com essa. Era um domingo de maio, mês de Maria, eu estava assistindo a missa na Igreja Católica, como já disse venho de uma tradição protestante evangélica, deste modo, nunca compreendi ou mesmo fez sentido para mim a devoção a Maria. Nesse dia, havia muita comoção na igreja, muitas pessoas choravam, eu apenas olhava um pouco entediado, tentando entender aquela “catarse” coletiva, pois, não havia ocorrido nada que para mim ( tipo pensamento introvertido) justificasse aquilo. Foi quando de repente senti um estranho arrepio por todo o corpo. Então, eu percebi que não estava alheio a tudo, como imaginava, mas, estava dentro daquele mistério e não era apenas uma “catarse coletiva”. Confesso que continuo sem compreender a devoção mariana, mas, consigo vislumbrar o seu sentido.

Como definiria essa experiência? Assombrosa e Fascinante.

Os adjetivos “Assombroso” e “Fascinante” não foram ao acaso. Pois, esses adjetivos foram utilizados por Rudolf Otto para descrever onuminoso, aspecto fundamental do sagrado, Jung compreendeu como sendo uma característica fundamental da manifestação arquetípica.

Vou tentar sintetizar alguns aspectos que pude aprender que envolvem essas experiências:

1 – Aspecto teórico:

Essas experiências me permitiram compreender melhor a dinâmica psicológica que se manifesta nessas situações. Foi justamente na experiência que tive nessa igreja, que pude compreender com maior clareza a dimensão de símbolo e do conceito de self grupal.

O conceito de símbolo é fundamental para a compreensão da dinâmica psíquica para a abordagem junguiana. Nessas experiências, em especial na experiência da igreja, pude me tornar mais atento que constelação símbolo, que a rigor é uma produção do inconsciente, atinge a consciência também pela via corporal, isto é, o símbolo se expressa pela vivência do corpo, quando a referência consciente do individuo não possui um repertório imagético para receber essa manifestação, ela se expressará através do corpo. O que estou dizendo, é semelhante ao processo de somatização. Entretanto, ao invés de formação do sintoma, prevalece a sensação numinosa, como um certo desconforto, agitação, espanto.

Por outro lado, para as pessoas que participavam integralmente desse fenômeno, podia se perceber que após, a comoção no período ritual, havia a expressão de tranquilidade ou mesmo de uma renovação e fortalecimento egóico.

Essa situação me ajudou a compreender melhor a amplitude da manifestação arquetípica, que mesmo a história individual não houvesse um continente apropriado para o símbolo, este se constelaria na através do corpo, se impondo a consciência, quer por um símbolo que engolfe a consciência ou por sensações corporais.

Para compreender esse fenômeno coletivo de constelação simbólica é necessário nos voltar a um conceito que é, na minha opinião, pouco utilizado, o conceito de self grupal. Segundo Byington O Self Grupal “expressa a totalidade das forças conscientes e inconsciente, subjetivas e objetivas atuando num grupo e sendo coordenadas pelos mesmos arquétipos do self individual” (BYINGTON, 1996, p.29-30).

Apesar de não encontrarmos na obra de Jung os conceitos de Self grupal (que foi introduzido primeiramente por Neumann) e o conceito de Self Cultural (que foi introduzido por Byington), podemos observar nos artigos dos “Aspectos do Drama Contemporâneo” e no prefácio do Psicologia do Inconsciente

A psicologia do indivíduo corres­ponde à psicologia das nações. As nações fazem exatamente o que cada um faz individualmente; e do modo como o indivíduo age, a nação também agirá. (Jung, 2001, p. VIII)

As considerações acerca da psicodinâmica coletiva oferecida por Jung, Neumann e Byington são importantes para compreendermos os fenômenos coletivos sem os taxarmos precipitadamente de patológicos ou, muitas vezes, como histeria coletiva. Na semana posterior ao carnaval, eu ouvi uma relato muito interessante, uma pessoa que foi assistir ao desfile das escolas de samba do rio de janeiro. Seu interesse maior era ver o desfilo  do Salgueiro, que é sua escola de coração, por outro lado, o desfile que menos importava era da Mangueira, segundo ela nunca gostou dessa escola, contudo, mesmo após cantar e dançar durante todo o desfile do Salgueiro, quando começou o desfile da Mangueira, ela contou que mesmo cansada e não gostando da Mangueira, ela não conseguiu deixar de cantar,  pular e dançar com o desfile da mesma, ela dizia é “realmente, a Mangueira é uma escola que tem algo diferente”. 

Mas, como compreender isso? Podemos supor que numa constelação da psique coletiva, a identidade do ego desloca-se para o grupo, isto é, para o self grupal. Assim, quer na igreja ou quer no sambódromo a experiência numinosa se manifesta, pois, subjacente a percepção consciência, a dinâmica arquetípica envolve o ego.

2 – Aspecto Clínico:

Como clínico junguiano eu tenho clareza que todas as experiências que me atravessem e me compõem de uma forma ou de outra vão se manifestar em minha prática clínica. Pois, quando estou na frente de um cliente, estou ou busco estar em minha totalidade. O que cada cliente fala vai ressoar de modo diferente em mim, onde me toca, a lembrança que me traz, a sensação, me auxilia a compreender o que ele me diz, a entender o que me comunica para além das palavras. Para perceber qual o caminho que deve ser trabalhado, possíveis sentimentos, sensações, que pode estar inacessíveis ao cliente.

Por isso, Jung afirmou na citação acima, que para compreender a alma humana e seu sofrimento é necessário.

caminhar pelo mundo com um coração de homem: no horror das prisões, nos asilos de alienados e hospitais, nas tabernas dos subúrbios, nos bordéis e casas de jogo, nos salões elegantes, na Bolsa de Valores, nos “meetings” socialistas, nas igrejas, nas seitas predicantes e extáticas, no amor e no ódio, em todas as formas de paixão vividas no pró­prio corpo, enfim, em todas essas experiências, ele encontraria uma carga mais rica de saber do que nos grossos compêndios.

A vida e a psicoterapia não se faz na teoria ou de teoria.

A Vida Vivida

Acredito o ponto fundamental desse post é a dimensão da vida vivida. Jung foi um exemplo bem claro dessa dimensão, suas viagens, encontros, sempre que leio biografias de Jung, eu o vejo como alguém que viveu bem a vida, viveu bem os erros e acertos, as contradições.

Essa é a condição necessária para a individuação, viver as oportunidades que a vida oferece. Frequentemente usamos a máxima, “o cliente só vai até aonde o analista foi”. Essa máxima se refere ao desenvolvimento individual do terapeuta, não apenas das horas de análise pessoal, mas, como ele aplica a análise pessoal em sua própria vida.

Concluo esse post, com os versos de Vinicius de Moraes,

Quem já passou por essa vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu
Ah, quem nunca curtiu uma paixão nunca vai ter nada, não
Nao há mal pior do que a descrença
Mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão
Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair
Pra que somar se a gente pode dividir
Eu francamente já não quero nem saber
De quem não vai porque tem medo de sofrer
Ai de quem não rasga o coração, esse não vai ter perdão

Referências,

BYINGTON, Carlos A. B. Pedagogia Simbólica – A Construção Amorosa do Conhecimento de Ser. São Paulo: Rosa dos Tempos, 1991

JUNG, C.G. Psicologia do Inconsciente, Vozes: Petrópolis, 2001

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

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O Canto do Cisne: um breve comentário a comentários acerca do filme “Cisne Negro”

25 de março de 2011

Agradeço a colaboração de Kelly Guimarães Tristão (psicóloga, Mestranda em Psicologia/UFES, Especialista em “Teoria e Prática Junguiana” e em “Psicologia Clínica e da Família) que com seu conhecimento e experiência no campo da saúde mental contribuiu bastante para a elaboração das idéias deste post.

Após muitos contratempos, finalmente, consegui assistir ao filme “Cisne Negro”. Realmente, a atuação de Natalie Portman é brilhante. Sobre o filme, eu posso dizer apenas que é um filme mediano e, se não fosse a maravilhosa atuação de Natalie Portman, seria fadado ao esquecimento. Antes mesmo de ver o filme, eu cheguei a ler vários comentários acerca do filme abordando o mesmo pelos mais diferentes ângulos, muitos eram pautados na teoria junguiana. Confesso que alguns comentários me causaram profunda estranheza, pois focalizavam aspectos simbólicos que, de certa forma, distorcia o que era expresso no filme, chegando a comparar o processo psicótico apresentado no filme com o processo de individuação. Assim, o objetivo desse post é uma reflexão indireta e teórica do filme a partir de outros comentários.

Algumas pessoas podem objetar dizendo que um filme é um conteúdo simbólico, que pode ser abordado por diferentes ângulos e pontos de vista, tal qual um sonho. Por mais que eu concorde que não devamos ser radicais, eu prefiro a cautela, e me manter ao que é apresentado pelo filme, e não ao que “poderia ser” se observarmos os símbolos isoladamente, pois é como Jung afirma acerca dos sonhos,

“a imagem manifesta do sonho é o próprio sonho e contém o sonho por inteiro. Quando encontro açúcar na urina, é açúcar mesmo, e não uma “fachada” , um disfarce para albumina.(…) Sendo assim, não temos de interpretar o que poderia existir por trás, apenas temos que aprender a lê-lo primeiro. (JUNG, 1999, p. 20)

Assim vou me deter em apenas dois pontos: a questão psicose de Nina e a função da dança.

A Psicose de Nina

O filme retrata o processo de abertura do surto psicótico de Nina, quando esta é confrontada com uma realidade que excede seus limites, que é ser a protagonista do “Lago dos Cisnes”, interpretando tanto o Cisne Branco quanto o Cisne Negro. Contudo, devemos notar alguns detalhes, prévios que somados ao delírio e as alucinações nos permitem pensar que Nina, seria uma personagem psicótica.

– Relação familiar: A relação de Nina e sua mãe  apresenta características típicas e favoráveis à psicose, uma relação simbiótica e extremamente rígida e ambivalente. Nos primeiros minutos do filme percebemos como a mãe de Nina, “domina” a vida da filha, inclusive  “vestindo” a filha como se fosse uma criança. Ao longo do filme, podemos ver como ela pode ser simultaneamente “cuidadosa” e cruel (com suas exigências e cobranças ).

– Antes da crise se manifestar explicitamente, o filme mostra que Nina era uma jovem de 28 anos que vive num mundo infantilizado (como podemos observar no seu quarto), por outro lado, podemos notar que não há uma clareza a respeito  da identidade sexual, não me pareceu que  Nina possua dúvidas acerca de sua sexualidade, mas, que não foi desenvolvido.

A crise se manifesta justamente quando ela está sob forte pressão, da mãe, do diretor, dela mesma.  Que é consoante ao que geralmente acontece em casos de esquizofrenia , onde o surto se manifesta num momento de forte tensão emocional, como rompimento de relacionamento, vestibular, casamento, nascimento de filho.

O processo de Nina é condizente com um quadro de esquizofrenia paranóide, com sintomas positivos de alucinação visual e cenestésica.

Mas, por que pensar no quadro psicopatológico de Nina? Justamente, porque não podemos falar de conceitos de psicologia analítica sem considerar “a quem” estamos relacionando esse conceito. Especialmente quando falamos de processo de individuação.

Particularmente, eu acho que há um pouco de confusão no diz respeito do processo de individuação e a psicose. Em primeiro lugar, eu compreendo que o processo de individuação comporta dois níveis de compreensão:

a) o primeiro é o basal e compreende a dinâmica do Self, que visa a integração e auto-regulação psíquica. Este aspecto corresponde a manutenção da vida psíquica. E ocorre independente dos processos da consciência, podendo ser observado claramente através na busca da integração e organização mesmo em pacientes psicóticos.

b)  O segundo é um processo que envolve diretamente o desenvolvimento da personalidade, que podemos compreender como alinhamento do eixo ego-Self.  Nesse âmbito, falamos que envolve o confronto com o inconsciente e o desenvolvimento do potencial individuo.

Fazendo essa diferenciação, podemos dizer que, no geral, quando nos referimos ao processo de individuação, especialmente na vida adulta, estamos falando do processo de desenvolvimento da personalidade, onde, o Ego é confrontado tanto com a realidade interior quanto exterior. O desenvolvimento se dá, justamente quando o Ego tem força suficiente para suportar a tensão entre os opostos (mundo interior x mundo exterior; inconsciente x consciência ) de modo a atingir um equilíbrio dinâmico entre essas instâncias. No caso do individuo psicótico, a fragilidade do Ego impede esse desenvolvimento ocorra, justamente, por não ser capaz de suportar essa tensão, que geralmente ocasiona a invasão de conteúdos do inconsciente e/ou a ruptura com a realidade exterior.

Von Franz no diz, no livro Psicoterapia, “[…] o ego é como o olho do Si-mesmo,somente ele é capaz de ver e vivenciar como o Si-mesmo nasceu” (FRANZ, 1999, p.232).

Assim, no processo de individuação o Ego é elemento fundamental.

No filme, podemos perceber os elementos que geralmente discutimos acerca da individuação, como a persona, sombra, animus. Obviamente eles estão presentes porque a Nina é humana. Contudo,devemos observar sua função. Por exemplo, podemos falar que o Cisne Branco, como uma persona de Nina, sim, poderia ser uma representação da persona, contudo, devemos notar que a persona possui o papel de intermediar as relações do individuo com o meio exterior, de modo que, simultaneamente, auxilia o Ego na adequação as demandas sociais e protege o Ego dessas exigências do meio, pois, as exigências não são feitas ao Ego, mas, ao papel que este representa. No caso da Nina, a persona não era  inadaptada, pois há uma identificação com o papel/função de bailarina, quanto essas exigências afetam diretamente o Ego, que fica profundamente abalado com “necessidade” ser a bailarina perfeita.

Outro aspecto, é a sombra. A sombra também comporta diferentes níveis de compreensão, podendo ser a “sombra do Ego”, isto é, vislumbrando os aspectos não desenvolvidos relacionados a identidade do Ego, pode ser a “sombra enquanto personificação do inconsciente”, e, comporta uma compreensão arquetípica, como personificação do Mal.

No caso da Nina, não consigo compreender uma sombra pessoal, derivada dos aspectos não desenvolvidos do Ego, visto que a identidade dela é comprometida pela relação simbiótica com a mãe. Devemos notar, também, que quando a personagem Lily se torna a “rival”, não há uma projeção da sombra, pelo contrário, há uma introjeção da imagem Lily, que passa ser ativa no delírio e nas alucinações de Nina, não como uma projeção mas, como uma personificação da sombra, pois Lily, somente é uma ameaça no delírio de Nina.

É importante termos em mente que o processo da função transcendente, isto é, da integração da consciência e do inconsciente por meio dos símbolos, depende do Ego como referência na consciência, para elaborar e assimilar os símbolos que emergiram do inconsciente.

A função da Dança

Alguém poderia perguntar “Porque ela não surtou antes”. Uma possível resposta é porque a dança contribuia para o manter estável a delicada relação de Nina com seu inconsciente e com o mundo exterior.

A dança fornecia a Nina uma relação concreta com corpo, que permitia uma sensação de continência e limite necessários para manter sua organização e aderência a realidade. Por outro lado, a dança possibilitava que os desejos da mãe fossem satisfeitos de forma a não se tornarem mais um peso sobre Nina.

Podemos compreender que a dança era um símbolo para Nina, que permitia a relação entre o inconsciente e a consciência, de modo a dissipar o excesso de energia que pudesse potencializar os conteúdos inconscientes. Isso quer dizer, que Nina podia dar forma e expressar a tensão interior através da dança.

De forma geral, todas as expressões artísticas tem a capacidade de viabilizar/intermediar a relação entre consciência e o inconsciente, de modo a propiciar um mínimo de organização.  O trabalho de Dra. Nise da Silveira é o melhor exemplo de como a arte pode ser estruturante e organizadora para pacientes psiquiátricos.

Concluindo…

A psicologia analítica compreende o homem como um ser em contínuo desenvolvimento. A dinâmica da psique visa sempre a manutenção da vida. Contudo, devemos ter clareza e cuidado para não nos deixarmos levar pelo “otimismo junguiano” e, aplicar os conceitos junguianos sem se adequar a realidade a qual se aplica.

No caso da psicose, como é apresentada no filme, é necessário ter um cuidado a mais, pois, o paciente psicótico não experimenta o inconsciente como uma realidade simbólica, mas, como uma realidade objetiva. Isso significa, que devemos ter atenção, cuidado e respeito com o paciente em sua própria realidade. Para muitos, o final do filme foi uma incógnita se “Nina morre ou não”. Para mim, Nina morre – não como uma morte simbólica – mas, uma morte real. Não há uma “transformação” do Ego.

Devemos ter em mente que o paciente psicótico por vivenciar a realidade interior de forma objetiva, não fazendo uma distinção da realidade exterior, não percebe as situações como metáforas, mas, como realidade concreta. Dessa forma, a transformação de Nina no cisne negro, denuncia isso, ela era o cisne negro, do mesmo modo que ela era o cisne branco.  A perfeição que ela almejava no cisne negro, se constituiu no delírio onde era se tornou o cisne. No caso do cisne branco, que morre no final, para ser perfeito, o mesmo deveria ocorrer.

A psicose muitas vezes se constitui como uma defesa de uma realidade exterior que é hostil, inviabilizando uma relação saudável para o ego, o que leva a uma interação (algumas vezes uma fusão) com o mundo interior. No caso de Nina, a identificação com o cisne, pode nos indicar um movimento em busca de liberdade. Não podemos esquecer que Odete, o cisne branco, também era um ser aprisionado. E, a morte era também uma libertação. Aqui se impõe uma diferenciação necessária:

A identificação de uma pessoa sadia ou mesmo neurótica se dá nos termos : eu sou como Odete

No caso do paciente psicótico a identificação se dá como : Eu sou Odete.

Por isso, por mais que possamos até compreender o delírio e alucinações como necessidade de liberdade e  respeito – especialmente no que diz respeito a relação materna, lembrando que a mãe é agredida no surto, como uma imposição forçada de espaço. Essa leitura simbólica tem sua validade quando feita respeitando a realidade do paciente psicótico, justamente para auxiliar no tratamento, oferecendo ao paciente as condições necessárias para lidar com sua realidade, e oferecer a família as orientações para garantir uma qualidade de vida ao paciente.

Referências bibliográficas

FRANZ, Marie-Louise von, Psicoterapia, São Paulo: Ed. Paulus , 1999.

JUNG, C.G., Ab-reação, análise de sonhos, transferência, Vozes: Petrópolis, 4 ed. 1999

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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