18 de Maio – Dia da Luta Antimanicomial : uma homenagem a Nise da Silveira

 

(17 de maio de 2011)

No Brasil, o dia 18 de maio é comemorado o dia da luta antimanicomial, um dia onde profissionais da área de saúde mental, estudantes, pacientes e familiares promovem  discussões e manifestações buscando promover  a valorização da vida, cidadania, dignidade e respeito aos portadores de transtornos mentais; e combater o modelo de internação psiquiátrica que promove a segregação e estigmatização dos pacientes, que ainda persiste em nosso país.

Frente a importância e a mobilização deste dia 18 de maio, eu acredito ser importante relembrar e prestar uma homenagem a uma importante personagem da luta pela vida e dignidade dos pacientes psiquiátricos que foi a  Dra.Nise da Silveira.clip_image001

Duas palavras nos ajudam a caracterizar seu trabalho  : Amor e Pioneirismo.  O amor foi a tônica de sua vida, facilmente percebido pela dedicação aos pacientes, que a levou a um pioneirismo sem precedentes em nosso país. Mais de 50 anos antes do “Movimento dos Trabalhadores de Saúde Mental” em 18 de maio de 1987 (marco da luta antimanicomial no Brasil), e cerca de 20 anos antes do inicio do trabalho de Franco Baságlia, a dra.Nise da Silveira iniciou seu caminho na luta pela dignidade e cidadania dos pacientes psiquiátricos.

 

uma lição de vida

Nise da Silveira nasceu em 15 de fevereiro de 1905, em Maceió, Alagoas. Seu pai, Faustino Magalhães Silveira, era professor e jornalista, sua infância foi marca pela presença de artistas e intelectuais em sua casa.

Aos 15 anos, em 1920,  Nise da Silveira ingressou na Faculdade de Medicina em Salvador, Segundo Motta(2005), ela era a única mulher numa turma de 157 homens além de ser a mais nova.

Após a morte do pai em 1927, Nise da Silveira mudou-se para o Rio de Janeiro, onde teve contato com pessoas importantes de nossa história, como Manuel Bandeira, e ingressou no partido comunista brasileiro.

Em 1933 iniciou sua carreira como psiquiatra no Hospital Pedro II. Em março de 1936, Nise da Silveira não era mais filiada ao partido comunista, mas, seu envolvimento com a ideologia socialista, presente em textos que se encontravam em seu quarto fez com que uma enfermeira do hospital a denunciasse.

Nise passou um ano e meio na prisão. Ficou presa com prisioneiras politicas como Olga Benário Prestes, Maria Werneck e Beatriz Bandeira. Apesar de não ter sido torturada, muitas de suas companheiras de prisão foram. Nise viveu o horror da prisão.

Em 1937, Nise foi libertada, temendo ser presa novamente, fugiu do Rio, passando pela Bahia, Pernambuco, Alagoas, e por fim Manaus, onde foi se encontrar com seu companheiro Mario Magalhães.

Somente em 1944, que Nise da Silveira pode voltar ao Rio e retomar o seu trabalho, “Nise foi readmitida no serviço público em abril de 1944 no Hospital Pedro II, do antigo Centro Psiquiátrico Nacional, no Engenho de Dentro”(MOTTA, 2005, p. 65)

Nesse período, além das experiências na prisão, outro fato marcou sua trajetória. Nise tomou conhecimento de um fato ocorrido após sua prisão.

Quando Nise trabalhava no Hospício Pedro II, na Praia Vermelha, ela recebia todas as manhãs uma paciente, chamada Luíza, que vinha lhe servir o café. Nise tinha muita dificuldade para entender o que era dito por aquela que a servia, devido ao quadro de esquizofrenia, caracterizado pela indiferença e embotamento afetivo, segundo os manuais da psiquiatria descritiva. Luíza ao saber da prisão da doutora para quem levava café todas as manhãs, deu uma surra na enfermeira que havia feito a denúncia contra Nise, demonstrando  sua capacidade de discernimento e manifestação de afeto, que contrariavam a nosologia  psiquiátrica tradicional. “Assim aprendi outra lição, que desmentia o que afirmavam os livros de psiquiatria
sobre os doentes mentais…os esquizofrênicos eram indiferentes e sem afeto…Eu não entendia nada do que ela falava, mas ela estava entendendo o que se passava” disse Nise sobre esse episódio (MOTTA, 2005, p.64)

Ao retomar seu trabalho, Nise descobriu que havia “novidades” no campo da psiquiatria. Motta nos relata que,

Em depoimento a este autor Nise conta que, durante seu afastamento do serviço público,

algumas coisas tinham se modificado e nesse meio tempo surgiu o que se dizia como a grande descoberta no tratamento para doenças mentais, o eletrochoque. Prontamente o doutor a quem eu acompanhava em visita ao hospital disse, com muita disposição, que iria me ensinar a grande novidade. Chamou um paciente e, dizendo que eu aprenderia com facilidade aquela  simples e revolucionária operação, acionou o aparelho. Eu não havia sido torturada nos meus tempos de cárcere, mas pude ouvir os gritos de sofrimento de vários companheiros. O médico chamou então outro paciente e disse para mim:
– Viu Nise como é fácil! É só apertar o botão.
Eu havia visto o sofrimento do paciente na primeira demonstração. Olhei para o psiquiatra e disse que não faria aquilo. Ele ainda tentou me convencer das maravilhas daquela engenhoca, mas firmemente eu recusei.
(Motta, 1995)
Nise chegou a fazer uso de um dos novos recursos da psiquiatria, quando aplicou um choque de insulina em uma  paciente e relata  que “a mulher não acordava. Aflita, apliquei-lhe soro glicosado na veia e nada da mulher acordar. Tentei de novo, até que consegui. Aí disse – Nunca mais.”(…) (MOTTA, 2005, p. 66-7)

Contraria as práticas que estavam se popularizando na psiquiatria, Nise da Silveira foi conversar com o diretor do hospital, Paulo Elejalde, que propôs  o Serviço de Terapêutica Ocupacional para Nise, Segundo ela,

“Aceitei a indicação do doutor Elejalde, mas antes que ele saísse, interrompendo no ar o seu movimento de meia volta, disse-lhe com o dedo em riste e um brilho maroto  nos  olhos:  –    Eu  irei  para o Setor de Terapêutica Ocupacional mas…ele vai mudar!” (Motta, 1995).

Sob a orientação de Nise, iniciaram as primeiras oficinas de bordado e costura. Em 1946, iniciaram as oficinas de pintura e desenho, e, já em 1947, ocorreu a primeira exposição dos artistas internos de Engenho de Dentro. A segunda exposição veio a ocorrer em 1949, com trabalhos slecionados por Leon Degand, diretor do Museu arte moderna de são paulo.clip_image002

No início dos anos 50, Nise da Silveira fundou o “Museu Imagens do Inconsciente” para poder reunir o trabalho dos pacientes e poder estuda-los.  Seu  trabalho e suas pesquisas a aproximam da obra de C.G.Jung, em especial do livro “Psicologia e Alquimia”, que fora publicado em 1943. Comparando as mandalas reproduzidas no livro  com as mandalas produzidas pelos pacientes. Nise da Silveira optou por enviar uma carta, em 1954, a Jung, com fotos das produções dos pacientes. Jung respondeu a carta, muito interessado e perguntava informações sobre os autores. Em 1956, Nise da Silveira buscou informações sobre a possibilidade de participar de cursos em Zurique, recebeu a seguinte mensagem:

Senhores, O professor C.G. Jung convida a doutora Nise da Silveira a fazer parte, no semestre de verão  de 1957, do Instituto C.G. Jung de Zurique. Os cursos, os seminários e o contato com meus colaboradores serão de grande importância para  a preparação da exposição de arte psicopatológica, que deverá ser organizada em ocasião do Congresso Internacional de psiquiatria que se realizará em Zurique no ano de 1957. Eu ficaria contente se através da visita da doutora Nise da Silveira, o contato entre os profissionais do Brasil e da Suíça pudesse se aprofundar. Certamente esse encontro será importante par ao futuro da psicologia e da psiquiatria. (em MELLO apud MOTTA  2005, p. 72).

Assim, Nise da Silveira iniciou seu percurso com pioneira da psicologia analítica no Brasil. A partir de seu grupo de estudo, a psicologia analítica começou a se desenvolver no Brasil.

Em 1968, Nise da Silveira publicou seu primeiro livro “Jung: vida e obra” um marco na história da psicologia analítica brasileira, sendo considerado até nossos dias uma das melhores introduções ao pensamento junguiano.

Motta nos conta que o cuidado de Nise da Silveira era tamanho com as atividades do museu imagens do inconsciente, que

Aos 70 anos, em 1975, Nise teve a  sua aposentadoria compulsória no serviço público. Apesar da  idade mantinha o espírito alerta de modo que, no dia seguinte, apareceu no Museu apresentando-se como a mais  nova estagiária. Receosa com as ameaças que o acervo do Museu vinha sofrendo, organizou a Sociedade de Amigos do Museu de Imagens do Inconsciente, que em sua primeira iniciativa apoiou o evento do centenário do nascimento de Jung, que foi amplamente comemorado no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Belo Horizonte. O nome  de  Nise  da  Silveira  já  estava  consagrado como a principal divulgadora da psicologia analítica no Brasil (MOTTA, 2005, p. 74)

Nise da Silveria viria a produzir intensamente em suas ultima décadas. Publicando os livros :

Jung Vida e Obra – 1968

Terapêutica Ocupacional – Teoria e Prática, 1979

Os Cavalos de Octávio Ignácio (Organização), 1980 –

Coleção Museus Brasileiros Vol. 2 – Museu de Imagens do Inconsciente, 1980

Imagens do Inconsciente, 1981

Casa das Palmeiras: A emoção de lidar Coordenação e prefácio de uma experiência em psiquiatria, 1986.

A Farra do Boi, 1989

Artaud – a nostalgia do mais, 1989

Cartas a Spinoza, 1990

O Mundo das Imagens, 1992

Gatos: A Emoção de Lidar, 1998

Vários foram os prêmios e homenagens que Nise da Silveira recebeu ao longo de sua trajetória, Motta enumerou esse reconhecimento,

Em 1971 recebe o troféu Golfinho de Ouro do Museu da Imagem e do Som do Estado da Guanabara.

Figura entre as 10 (dez) mulheres do ano em 1973,escolhidas pelo Conselho Nacional de Mulheres do Brasil.

Recebe homenagem do Conselho Regional de Medicina como representante da área de psiquiatria em 19.12.74.

Recebe o Prêmio Personalidade Global Feminina correspondente ao ano de 1974, conferido pelo jornal O GLOBO e REDE GLOBO DE TELEVISÃO.

Em 1975 recebe a medalha do Estado da Guanabara, conferida pelo Governador Chagas Freitas, por serviços prestados à cidade-estado da Guanabara.

1981, Medalha de Mérito Oswaldo Cruz, na Categoria Ouro, concedida pelo Presidente da República João Batista de Figueiredo e Ministro da Saúde Waldir Mendes Arcoverde. Decreto de 14 de abril de 1981.

Comenda Desembargador Mário Guimarães, outorgada pela Assembléia Legislativa do Estado de Alagoas em 1983.

“Benemérito do Estado do Rio de Janeiro”, título concedido pela Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro – 1984.

Ordem do Mérito dos Palmares no grau de Comendador, outorgado pelo Governador do Estado de Alagoas, Grão-Mestre daquela Ordem. – 1985.

Comenda Desembargador Mário Guimarães, concedida pela Câmara Municipal de Maceió – 1987.

Condecorada com a Ordem do Rio Branco no Grau de Oficial, pelo Ministério das Relações Exteriores, em 13 de maio de 1987.139

Homenagem especial da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, em comemoração ao Dia do Médico – 16 de outubro de 1987

Título de Professor “Honoris Causa”, da Escola de Ciências Médicas de Alagoas – 4 de março de 1988

Título de Professor “Honoris Causa” pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) em abril de 1988.

Medalha do Mérito da Fundação Joaquim Nabuco de Recife (PE) em 1989.

Sócia Honorária da Sociedade de Medicina de Alagoas, em 1989

Medalha Peregrino Júnior da União Brasileira de Escritores em 1992.

Prêmio Personalidade do Ano de 1992, da Associação Brasileira de Críticos de Arte.

Medalha Chico Mendes outorgada pelo grupo Tortura Nunca Mais, em 1993.

Ordem Nacional do Mérito Educativo no grau de Comendador, pelo Ministério da Educação e do Desporto da Presidência da República em 1993.

Prêmio Hors Concours (gênero ensaio) do Concurso Prêmio Alejandro José Cabassa da União Brasileira de Escritores, em 1994.

Prêmio Carmem da Silva – Colóquio das Mulheres Fluminenses, 1995.

Homenagem do Centro Mario Schenberg de Documentação da Pesquisa em Artes – USP – 1996

Associação Médica do Rio de Janeiro – Dia Internacional da Mulher – 1997

Homenagem da Associação Médica de Alagoas – 1997

Homenagem no II Encontro Nacional de Serviço Social e Seguridade. – Porto Alegre, 2000 (MOTTA, 2005, 138-9)

NIse da Silveira faleceu em 30 de outubro de 1999, aos 94 anos.

Sua trajetória foi realmente um exemplo vivo de amor pela vida e respeito pela diferença. Nise compreendeu que os pacientes psiquiátricos eram indivíduos que mereciam respeito e amor. A partir de suas experiências na prisão ela pode sentir na própria pele o que os pacientes sentiam em sua realidade. Nise da Silveira foi uma das primeiras vozes no Brasil a se levantar contra  o Eletrochoque, Lobotomia e choque insulínico e propor uma alternativa que valorizava a vida dos pacientes.

Em 1956, Dra. Nise da Silveira funda a Casa das Palmeiras, uma instituição pioneira,  aberta, voltada para oferecer um espaço humanizado onde os clientes podem realizar espontamente trabalhos expressivos, de forma a facilitar sua relação com os vários aspectos de sua vida.

Nise da Silveira é um exemplo de vida e de luta. Sua militância no campo da saúde mental é um legado que não podemos esquecer.

Sites importantes para serem visitados:

http://casadaspalmeiras.blogspot.com/  –

http://www.museuimagensdoinconsciente.org.br/

Referências bibliográficas:

MOTTA, Arnaldo Alves Psicologia Analítica no Brasil; contribuições para a sua história, São Paulo: PUC, Tese de mestrado, 2005.

(As informações de Nise da Silveria e outros pioneiros da psicologia analíltica podem ser encontrados no livro “As raízes da Psicoogia analítica noBrasi” de Arnaldo Motta. Casa do Psicólogo, 2009).

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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Aspectos Gerais da Psicoterapia e Análise Junguiana – Parte II : A sombra do analista

(2 de Maio de 2011)

Há alguns meses venho gestando este post, pois, a formação de novos psicoterapeutas vem se tornando um tema que tem me feito pensar nos últimos tempos. Muitas vezes, ao falar da formação do psicoterapeuta ou analista, enfatizamos os aspectos necessários a prática e constituição da persona profissional. Contudo, muitas vezes não falamos acerca da sombra que pode envolver esse processo.

O tema da sombra do analista é uma constante em meus pensamentos deste que eu li o livro de Adolf Guggenbühl-Craig, analista junguiano e ex-presidente da IAAP, falecido em 2008, “O Abuso do Poder na Psicoterapia…” no qual o autor discute acerca a sombra dos profissionais que trabalham com “ajuda”.

Não pretendo fazer uma resenha do livro, apenas ressaltar alguns aspectos que me chamam atenção, mas, que certamente servem para indicar a leitura desse importante livro.

Guggenbhül-Craig traça alguns paralelos entre as profissões que visam “ajudar” os indivíduos. Devemos considerar que o oficio ou exercício dessas “profissões de ajuda” emergem de um mesmo solo arquetípico. Para traçar alguns aspectos da sombra do analista, ele, faz um paralelo do analista com o sacerdote, ele afirma que

A sombra do analista se amplia ainda mais devido ao denominador comum existente entre seu oficio e o do sacerdote. Nós analistas, qualquer seja nossa orientação, não defendemos uma fé específica ou uma religião organizada; mas, como o sacerdote, quase sempre recomendamos uma atitude básica frente a vida. Não representamos uma filosofia, mas uma psicologia que abraçamos por convicção, visto que tanto em nossa vida como em nossa própria análise tivemos experiências que nos persuadiram e nos formaram em termos dessa psicologia. O analista junguiano, por exemplo, é alguém que viveu um profundo abalo produzido pela confrontação com o irracional e o inconsciente. Entretanto, poucos insights psicológicos podem ser estatisticamente provados no sentido empírico, só podendo ser confirmados pelo testemunho honesto e sincero dos que se empenham na mesma busca. (…) Sob este aspecto, encontramo-nos em posição similar à do sacerdote. Mas essa extremada confiança na própria experiência pessoal ou alheia, inevitavelmente dá margem a sérias dúvidas. (…) Será que somos capazes de admitir essas dúvidas para nós mesmos e para o resto do mundo? Ou será que nós psicoterapeutas fazemos com nossas próprias dúvidas e medos o que faz o sacerdote, suprimindo-os e pondo uma pedra em cima?

Da mesma forma que o sacerdote, trabalhamos com nossa alma, nosso ser; os métodos, as técnicas e o aparato utilizado são secundários. Nós, nossa honestidade e autenticidade, nosso contato pessoal com o inconsciente e o irracional – são esses nossos instrumentos. É grande a pressão que sofremos para apresentá-los melhores do que são; mas nesse caso, tornamo-nos vitima da sombra do psicoterapeuta(p. 37-38)

O texto de Guggenbuhl-Craig toca num aspecto delicado, que é a perspectiva epistemológica, pois, muitos críticos do pensamento junguiano ou mesmo das práticas analíticas em geral, criticam o fato de a análise não pode ser considerada científica. Não perderei tempo entrando em discussões epistemológicas, afinal, todo e qualquer pessoa que já se submeteu ao processo psicoterapêutico ou mesmo exerce a psicoterapia, tem clareza que há mais envolvido no processo do que puramente o uso de “técnica” científica. A prática da psicoterapia exige muito mais que um conhecimento técnico exige a pessoa do analista por inteiro. Assim como na antiga alquimia, os alquimistas já declaravam que “ars totum requirit hominem” a arte exige o homem inteiro, a psicoterapia faz a mesma exigência.

Os conceitos acerca do inconsciente se baseiam no princípio da experiência imediata com os fenômenos inconscientes, isto é, na descrição metodológica e sistemática dos fenômenos inconscientes. A esse respeito, Jung, em 1938, na conferência acerca da vida simbólica ele afirma “Nossa ciência é fenomenologia. No século XIX a ciência trabalhava na ilusão de que ela podia estabelecer uma verdade. Nenhuma ciência pode estabelecer uma verdade.” (JUNG, 2000, p.) No máximo podemos fazer aproximações ao fenômeno, através de descrições o mais honestas possíveis. Neste ponto, temos o elemento fundamental que une a construção teórica e a prática clínica : honestidade.

A honestidade é fundamental no processo psicoterapêutico. Entretanto, devemos ter clareza que a honestidade, que fundamenta a ética profissional, começa na pessoa do analista ou psicoterapeuta, isto é, a honestidade começa na relação pessoal do analista/terapeuta com ele mesmo. Assim, é fundamental que o analista seja capaz de suportar suas próprias contradições, tensões internas, dúvidas de forma sincera e consciente, pois, se o analista não suportar em si a tensão dos opostos que nos constituem, como ele poderá auxiliar o cliente nessa empreitada?

De forma geral, os psicólogos são exigidos socialmente a uma persona de compreensão, clareza, solicitude, bondade. Sendo exigido, na maioria das vezes, “ser” ou tentar “ser melhor do que se é” ou “se apresentar de modo diferente do que se é”. O que se configura uma enorme armadilha.

Como sempre repetia C.G.Jung, sempre que um conteúdo luminoso se instala na consciência, seu oposto se constela no inconsciente e procura atrapalhar a partir dessa posição estratégica. O médico se torna um charlatão exatamente por querer curar o maior número possível de pessoas; o sacerdote se torna um hipócrita por querer converter as pessoas à verdadeira fé; o psicoterapeuta se torna um charlatão e um falso profeta apesar de trabalhar dia e noite para ampliar sua consciência. (p. 42)

Pode até parecer pessimismo, contudo, o fundamental é compreender que este risco de ser “tomado pela sombra”, está relacionado idealização ou inflação da persona de analista. Isso não significa que o analista não deva buscar seu desenvolvimento, muito pelo contrario. Mas, o desenvolvimento do analista passa necessariamente pelo reconhecimento de suas imperfeições. Conhecer a si mesmo, crescer internamente, significa, sobretudo, viver a própria vida em toda sua extensão.

Pode até parecer bobo ou óbvio, contudo, um fato que se torna um grande peso para os que optam pelo caminho da clínica psicológica é a solidão ou o isolamento. As exigências da vida profissional, podem, pouco a pouco, limitar a vida do profissional e deixa-lo cada vez mais submerso na em sua inconsciência de sua persona profissional.

Talvez o analista se absorva por completo no trabalho com seus pacientes, o que à primeira vista parece ótimo. Sua própria vida privada fica em segundo plano diante dos problemas e dificuldades das pessoas com quem trabalha. Mas isso pode levar a um ponto em que os pacientes, por assim dizer, passam de fato a viver pelo analista, o qual espera que estes preencham o vazio criado por sua perda de contato com o calor e dinamismo da vida. O analista já não tem seus próprios amigos; as amizades e inimizades dos pacientes são como que também suas. Sua vida sexual pode ficar raquítica, encontrando substituto nos problemas sexuais dos pacientes. Tendo escolhido uma profissão tão exigente, vê-se impedido de atingir uma posição política influente; sua energia é investida toda nas lutas politicas pelo poder de um paciente político. Desse modo, pouco a pouco deixa de viver uma vida própria, passando a contentar-se com a de seus pacientes. (p. 64-65)

Os exemplos do “deixar a própria vida” podem se multiplicar, como ignorar os rumos do próprio relacionamento, negligenciar sua própria realidade espiritual, evitar ambientes que possam “encontrar” pacientes dentre outros,a falta da vida real do analista vai gerar a necessidade de compensação no inconsciente, essa compensação é justamente por meio dessa contratransferência, onde, o analista passa a viver a vida dos pacientes. Imerso numa sombra nutrida por sua inconsciência acerca de sua própria persona de analista.

Antes de mais nada, esse tipo de situação é extremamente perigoso para o próprio analista. Seu desenvolvimento psíquico estanca. Mesmo em sua vida não-profissional, ele só poderá falar de seus pacientes e dos problemas que o afligem. Já não será capaz de amar e odiar, de investir a si próprio na vida, de lutar, ganhar ou perder. Sua própria vida afetiva torna-se um substituto. Agindo assim como um charlatão que sobrevive às custas de sues pacientes, o analista pode dar a impressão momentânea de estar florescendo psiquicamente. Mas, na verdade, estar perdendo a vitalidade e a originalidade criativa. (p. 65).

O esvaziamento da própria vida faz com que o profissional se esconda atrás da teoria. Racionalizando e teorizando a própria existência. De qualquer modo, se torna prejudicial ao cliente na medida que, inconscientemente, precisa dele, tornando-se incapaz de investir verdadeiramente no desenvolvimento do paciente. Sua ajuda será sempre insuficiente na medida em que não conseguir integralmente conceber o processo de desenvolvimento do cliente. Simplesmente, porque ele precisa do paciente. Nesse processo, consciente ou inconscientemente, pode reter o paciente em terapia por uma necessidade pessoal – que não podemos reduzir a necessidade financeira.

Nesse caso, o analista identificado com sua persona, onde ele equivocadamente se coloca no papel de “agente da saúde” ou da “cura”, irradiando uma “autoridade” e perfeição, que só pode ressaltar no paciente os aspectos mais frágeis de dependentes da personalidade do mesmo.

Mas, isso seria uma condenação? O exercício da psicoterapia seria destinado a essa experiência? Não. Em primeiro lugar, é importante frisar que o que foi dito aqui, não é uma regra, apenas, uma possibilidade que pode se colocar no caminho do psicoterapeuta. Devemos ter clareza que na posição de psicoterapeutas, somos nosso próprio instrumento. A totalidade de nosso ser é nosso instrumento.

Em muitos casos, o analista ainda é capaz de apreciar e sofrer devido ao dinamismo de sua própria vida chega a sentir a consciência pesada, achando que deveria interessar-se mais por seus pacientes. Mas, na verdade, a longo prazo, somente o analista apaixonadamente envolvido em sua própria vida poderá ajudar seus pacientes a encontrarem seu caminho. Nesse sentido é bastante verdade, como diz Jung, que o analista só pode dar a seus pacientes aquilo que possui. (p. 66)

Seria importante que cada estudante que se proponha ser “analista”, “psicoterapeuta” ou “psicólogo clínico”, compreenda que no processo de formação o estudo sistemático e a psicoterapia/analise individual, não pode estar dissociado com o dia a dia, com a vida vivida. Não se deve ver a análise ou o estudo como “burocracias” necessárias, mas, como elementos importantes para o desenvolvimento individual. Pois, como dizia Jung,”somente o que realmente somos tem o poder de curar-nos”, ao que eu acrescentaria, e de nos ajudar no processo de cura nossos clientes.

Referências bibliográficas

Guggenbuhl-CRAIG, Adolf. O abuso do poder na psicoterapia e na medicina, serviço social, Sacerdócio e Magistério. RJ, Achiamé, 1978.

JUNG, C.G. Vida Simbólica, Vozes, Petrópolis, 2000.

 

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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Algumas Reflexões acerca da Morte e seu simbolismo

 

27 de fevereiro de 2011

A Morte é um dos maiores mistérios da vida. Justamente por ser mistério, ela é temida pela grande maioria das pessoas. A temática da morte está presente em todas as formações religiosas, devido a numinosidade que a envolve.

Para pensarmos na morte, devemos ter em vista que a mesma comporta vários níveis de interpretação/compreensão desde o mais básico, como o biológico quando um ser vivente atinge um nível de desorganização em que ocorre a cessação dos processos vitais, passando pela simbólica podendo ser sociocultural, envolvendo o processo morrer, até a morte no sentido mais metafísico que é a morte espiritual.

No que tange a nosso post, devemos focalizar o aspecto da morte que nos fala mais diretamente, que é Morte como um símbolo, que eclode do inconsciente, invadindo a consciência pessoal, quer por meio de sonhos ou por meio de sensações, que promove a sensação de finitude, pequenez, e impossibilidade. (Lembro que há alguns anos, num Ciclo de Debates em Psicologia Hospitalar na UFES, o prof. Dr. Fernando Pessoa, do dept. de Filosofia da UFES, fez uma palestra brilhante, que me marcou profundamente, onde ele discutiu sobre a morte como a “impossibilidade das possibilidades”).

Sob a ótica junguiana, compreendemos que todos nós trazemos em nós esse “principio de desagregação”, sob o conceito de arquétipo. É importante lembrarmos que para a psicologia analítica, os arquétipos são fruto da experiência humana ao longo da evolução, isto é, as experiências típicas/comuns humanas imprimiram na psique , ao longo das centenas de milhares de anos, um registro residual dessas experiências, de modo que forneceriam ao individuo padrões de organização psíquica necessários para sua vida psíquica/simbólica.

Há tantos arquétipos quantas situações típicas na vida. Intermináveis repetições imprimiram essas experiências na constituição psíquica, não sob a forma de imagens preenchidas de um conteúdo, mas precipuamente apenas formas sem conteúdo, representando a mera possibilidade de um determinado tipo de percepção e ação, Quando algo ocorre na vida que corresponde a um arquétipo, este é ativado e surge uma compulsão que se impõe a modo de uma reação instintiva contra toda a razão e vontade, (JUNG, 2000a, p. 58)

Assim, podemos falar da Morte sob um aspecto arquetípico, contudo, devemos tomar cuidado ao lidarmos com esse arquétipo, para não incorrer num reducionismo teórico. Pois, quando falamos de um “arquétipo da Morte”, estamos fazendo uma cisão numa dinâmica arquetípica muito maior, que é do arquétipo de vida/morte. A morte representa um pólo dessa dinâmica arquetípica. De outra forma, podemos dizer que a vida e a morte constituem as faces de uma mesma e única moeda, não podemos perder de vista que a morte é parte da vida. Não há vida sem morte, nem  morte sem vida. É justamente ao nos confrontarmos com o horizonte da morte, finitude e limitações,  que tomamos consciência de nossa vida.

Na minha experiência bastante longa fiz uma série de observações com pessoas cuja atividade psíquica inconsciente eu pude seguir até imediatamente antes da morte. Geralmente a aproximação do fim era indicada através daqueles símbolos que, na vida normal, denotavam mudanças no estado psicológico — símbolos de renascimento, tais como mudanças de localidade, viagens e semelhantes. Muitas vezes pude acompanhar até acima de um ano antes os indícios de aproximação da morte, inclusive naqueles casos em que a situação externa não permitia tais pensamentos. O processo tanatológico começara, portanto, muito antes da morte real. Aliás, observa-se isto, freqüentemente, também na mudança peculiar de caráter que precede de muito a morte. Globalmente falando, eu me espantava de ver o pouco caso que a psique inconsciente fazia da morte. Pareceria que a morte era alguma coisa relativamente sem importância, ou talvez nossa psique não se preocupasse com o que eventualmente acontecia ao indivíduo. Por isto parece que o inconsciente se interessa tanto mais com saber como se morre, ou seja, se a atitude da consciência está em conformidade ou não com o processo de morrer. Assim, uma vez tive de tratar de uma mulher de sessenta e dois anos, ainda vigorosa, e sofrivelmente inteligente. Não era, portanto, por falta de dotes que ela se mostrava incapaz de compreender os próprios sonhos. Infelizmente era por demais evidente que ela não queria entendê-los. Seus sonhos eram muito claros, mas também desagradáveis. Ela metera na própria cabeça que era uma mãe perfeita para os filhos, mas os filhos não partilhavam desta opinião, e os seus próprios sonhos revelavam uma convicção bastante contrária. Fui
obrigado a interromper o tratamento, depois de algumas semanas de esforços infrutíferos, por ter sido convocado para o serviço militar (era durante a guerra). Entrementes a paciente foi acometida de um mal incurável que, depois de ;alguns meses, levou-a a um estado agônico o qual, a cada momento, podia significar o fim. Na maior parte do tempo ela se achava mergulhada numa espécie de delírio ou sonambulismo, e nesta curiosa situação mental ela espontaneamente retomou o trabalho de análise antes interrompido. Voltou a falar de seus sonhos e confessava a si própria tudo o que me havia negado antes com toda a obstinação possível, e mais uma porção de outras coisas. O trabalho de auto-análise se prolongava por várias horas ao dia, durante seis semanas. No final deste período, ela havia-se acalmado, como uma paciente num tratamento normal, e então morreu. 
Desta e de numerosas outras experiências do mesmo gênero devo concluir que nossa alma não é indiferente, pelo menos ao morrer do indivíduo. A tendência compulsiva que os moribundos freqüentemente revelam de querer corrigir ainda tudo o que é errado, deve apontar na mesma direção.’(JUNG, 2000b, p.363-4) (grifo meu)

Para pensarmos acerca do simbolismo da morte, em seu caráter coletivo, isto é, arquetípico, devemos recorrer as formações/expressões  culturais que lidam com a morte através dos séculos. Talvez, seja importante esclarecer que o método junguiano de estudo do simbolismo é o método hermenêutico, ou seja, para se compreender um símbolo, devemos proceder como um tradutor procede para apreender o significado de uma palavra, que busca o termo em diferentes textos e contextos para assim compreender seus possíveis significados, assim também devemos buscar as ocorrências dos símbolos produções culturais através dos séculos, comparando sua ocorrência em diferentes culturas e tradições para assim, podermos nos aproximar da complexidade do símbolo.

Para compreendermos as relações com a morte é fundamental buscarmos as religiões/mitologias para compreendermos a Morte. isso por que, em primeiro lugar, as mitologias, segundo Campbell, começam a se desenvolver há cerca de 100 mil a.C, isto é, começamos a ter os primeiros indícios de um pensamento mítico, associados aos “enterros cerimoniais”. Esses enterros cerimoniais, indicam que já havia uma crença numa vida após a morte (ou vida após a vida). Isso é importante justamente, para compreendermos um ou “o” papel mais importante das religiões que é a preparação do individuo (e de seu grupo) para a morte e o morrer.

Na maior parte das religiões o “eterno retorno” é a marca crucial, isto é, a vida flui sempre e continuamente, sendo pontuada pela morte, que assinala a transformação da vida. Mesmo as religiões oriundas do judaísmo, que inaugura uma perspectiva linear da historia, onde há um inicio e um fim da “história humana”. Com o cristianismo, essa linearidade se expandiu assumindo uma “vida eterna” e o surgimento de um “novo ciclo” (os “novos céus e nova terra”).

No que diz respeito ao simbolismo da morte, devemos ressaltar, a Morte de Cristo é o ponto máximo da fé cristã, para não dizer que é o ponto fundante do cristianismo. Pois, foi a forma como Cristo morreu e a sua ressurreição que há a possibilidade de se considerar a vida eterna ou a vitória sobre a morte, esta ultima, se torna um ponto de transição, uma passagem pela qual o crente passa para se encontrar com Cristo.

Entre os Yorubas,na tradição do candomblé, a morte era a passagem para uma outra vida, onde poderia haver ou não retorno ao mundo dos vivos.

Entre os buddhistas tibetanos, a morte é um limiar, uma passagem, uma mudança, como um encerramento de um capitulo. No pós vida o espirito pode se iluminar ou retornar pelo renascimento.

Nos Ritos/mistérios de Elêusis, na Grécia, havia uma crença na vida suplantaria a morte. Sendo um rito vinculado a uma mitologia agrária, indicava que assim como o grão de trigo, caindo e sendo sepultado na terra daria origem a nova vida, do mesmo modo nós também viveremos após sermos sepultados na terra.

Uma outra tradição interessante a ser considerada é a do Tarot, que traz o arcano XIII, uma representação da morte. Apesar de poder significar morte física,  em geral, indica uma transformação ou mudança que pode` se apresentar como positiva ou negativa. Mas, em sua essência traz imagem da transformação.  

Quando vamos buscar em várias e diferentes tradições,  a morte indica uma passagem e transformação. É importante compreendermos que, quando uma pessoa produz um sonho, este, no geral, fala da realidade psíquica daquela pessoa. Assim, quando observamos um símbolo de morte ou ruptura num sonho, p. ex, temos que recorrer as associações do sonhador, pois, somente ele vai poder dar a direção, para compreender, se for o caso, o que precisa morrer ou abrir espaço para que algo novo se configure em sua vida? A chave está sempre com quem produziu o símbolo.

O fundamental é considerar que todos os símbolos são polissêmicos, dessa forma, não podemos considerar um sonho de morte, ou uma sensação de morte iminente num sintoma, como sendo uma morte física que se aproxima. O desespero muitos sentem frente a ideia da morte, ou frente aos símbolos da morte, indica que há muito que repensarmos em nossa própria vida. Pois, a forma como encaramos a morte é um reflexo de como vivemos nossa vida.

Transpondo para termos junguianos, esse desespero ou terror em se pensar na morte, nos permite vislumbrar que há algo de errado no  desenvolvimento do processo de individuação. Isso porque o “horizonte da morte” é um dos fatores que disparam o processso de individuação

Do meio da vida em diante, só aquele que se dispõe a morrer conserva a vitalidade, porque na hora secreta do meio-dia da vida inverte-se a parábola e nasce a morte. A segunda metade da vida não significa subida, expansão,  crescimento, exuberância, mas morte, porque o seu alvo é o seu término. A recusa em aceitar a plenitude da vida equivale a não aceitar o seu fim. Tanto uma coisa como a outra significam não querer viver. E não querer viver é sinônimo de não querer morrer. A ascensão e o declínio formam uma só curva. (JUNG, 2000b.p. 359-60 )

A metáfora que Jung utiliza, comparando a vida humana ao ciclo solar, é importante para compreendermos que ao meio dia da vida, o desenvolvimento se inverte, já não é exterior, mas, se inclina gradativamente ao desenvolvimento interior. Aceitar a possibilidade da morte, a finitude, as limitações da idade, propicia que que o individuo viva cada etapa de sua vida de forma plena.

Muitas vezes, quando os símbolos da morte se manifestam, podemos pensar, também, que há a necessidade de ir a adiante, uma nova etapa deve ser começada. Muitas vezes,esse movimento que busca a continuidade é sentida com muito sofrimento, como a perda ou ruptura, pois, o Self que “incita a este movimento para diante, e, se necessário, o realiza com força inexorável”.(NEUMANN, 2000, p.228)

Quanto maior a desconexão entre a consciência e o inconsciente, melhor representada pelo eixo ego-self, maior será a dificuldade do individuo perceber a dinâmica em seu inconsciente. E, os símbolos constelados tendem a não ser assimilados pela consciência, gerando assim, os sintomas e possíveis quadros neuróticos.

Assim, uma perspectiva para compreendermos a psicologia dos símbolos da morte é compreendermos que a morte é parte da vida e, desta forma, a os símbolos que envolvem a morte são, em ultima instância, símbolos da vida, ou de forma mais específica, da transitoriedade e/ou das transformações que são necessárias ou inerentes a vida. 

Referências bibliográficas

JUNG, C.G. Os arquétipos e o Inconsciente Coletivo, Petropolis: Vozes, 2000a.

______________. A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes, 5. Ed. 2000b.

CAMPBELL, Myths to Live By. Nova York: Penguin Books, 1993.

NEUMANN, E., O Medo do Feminino – E outros ensaios sobre a psicologia feminina, São Paulo: Paulus, 2000.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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