Nel Mezzo del Camin de Bilac e o Ponto de Curva

As artes sempre expressaram e deram formas tangíveis a experiência humana de forma plena e criativa. A poesia é uma das formas de arte que através das palavras testemunham afetivamente as vivencias humanas. Uma dessas experiências são os rompimentos de laços afetivos, fim de relacionamentos e/ou mudanças de fases da vida.

Na minha prática clínica, diante dessas situações, eu costumo utilizar uma figura de linguagem “o ponto de curva”, essa é uma expressão que me veio há alguns anos, a partir da leitura desse soneto de Olavo Bilac:

Nel Mezzo del Camin

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma de sonhos povoada eu tinha…

E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.

Hoje, segues de novo… Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.

1884/1887 (1888). Poema integrante da série Sarças de Fogo.

Durante muito tempo fiquei impregnado pela última estrofe, depois, pelo último verso. De tal modo, que incorporei em minha prática como o “ponto de curva”. Longe de ser um conceito, é uma experiência vital, existencial, de nos encontrarmos no limite “extremo” de relacionamentos. Mas, precisamos compor a melhor a imagem.

Costumo dizer aos pacientes, “imagine você saindo de casa, a qualquer momento você pode olhar para trás e ver sua casa, ver seu lar. O ponto da curva, é justamente aquela esquina, a curva onde um passo separa aquele ponto onde se você olhar para trás você não vê mais para sua casa, seu lar”.

O ponto da curva é justamente a esquina da vida, a extrema curva do caminho extrema, é um ponto distante onde um passo separa o que conhecemos de nossa vida ou não. Onde, ao voltar a face e olhar, pode-se ver ou não ver a pessoa que até então o acompanhou no caminho, ou a casa, a infância, enfim, é o ponto limiar onde podemos ver ou não ver a nossa vida pregressa.

 Ao atravessar o limiar da curva extrema, como bem apontou Bilac nem o pranto umedecem os olhos, nem dor da despedida comove. No poema, o narrador viu a pessoa amada virar a curva extrema, vendo seu vulto desaparecer, numa distância que se tornou irreconciliável. 


Às vezes, a dor, a tristeza ou a decepção produz uma distância tamanha que nos faz pensar que estamos na curva extrema do caminho extremo. Mas, o que vemos ao voltar a face? Há uma casa, uma família, uma pessoa, uma vida para onde voltar?, para onde vale a pena voltar? Enquanto não ultrapassamos o ponto de curva, o passo derradeiro ainda não foi dado e pode haver esperança.  

O ponto de curva, a curva extrema fala de distância, fala do silêncio e do espanto ao percebermos a distância que os caminhos tomaram. Não posso deixar de falar de um ato (nada) falho na digitação deste texto, por vezes, digitei o “ponto de curva” como “ponto de cura”. Sim, muitas vezes o ponto de curva também é o ponto de cura – ora como um o regresso, compreendendo significado do que está prestes a se perder, ora é o ponto é necessário dar o próximo passo e seguir em direção ao caminho extremo.

Em todo caso, o ponto de curva (ou de cura) nos conecta com nossa vida, com nosso futuro – quer pelo regresso ou pelo ir adiante. É sempre importante, no caminho extremo, olhar trás para ver a qual distância que estamos daqueles e daquilo que, em algum momento, amamos.



Referência

BILAC, Olavo. Poesias. Posfácio R. Magalhães Júnior. Rio de Janeiro: Ediouro, 197

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico Junguiano, Supervisor Clínico, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Pós-graduando em Acupuntura Clássica Chinesa (IBEPA/FAISP). Formação em Hipnose Ericksoniana. Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos” Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. / e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/

Twitter:@FabricioMoraes /Instagram @fabriciomoraes.psi

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