18 de Maio – Dia da Luta Antimanicomial : uma homenagem a Nise da Silveira

 

(17 de maio de 2011)

No Brasil, o dia 18 de maio é comemorado o dia da luta antimanicomial, um dia onde profissionais da área de saúde mental, estudantes, pacientes e familiares promovem  discussões e manifestações buscando promover  a valorização da vida, cidadania, dignidade e respeito aos portadores de transtornos mentais; e combater o modelo de internação psiquiátrica que promove a segregação e estigmatização dos pacientes, que ainda persiste em nosso país.

Frente a importância e a mobilização deste dia 18 de maio, eu acredito ser importante relembrar e prestar uma homenagem a uma importante personagem da luta pela vida e dignidade dos pacientes psiquiátricos que foi a  Dra.Nise da Silveira.clip_image001

Duas palavras nos ajudam a caracterizar seu trabalho  : Amor e Pioneirismo.  O amor foi a tônica de sua vida, facilmente percebido pela dedicação aos pacientes, que a levou a um pioneirismo sem precedentes em nosso país. Mais de 50 anos antes do “Movimento dos Trabalhadores de Saúde Mental” em 18 de maio de 1987 (marco da luta antimanicomial no Brasil), e cerca de 20 anos antes do inicio do trabalho de Franco Baságlia, a dra.Nise da Silveira iniciou seu caminho na luta pela dignidade e cidadania dos pacientes psiquiátricos.

 

uma lição de vida

Nise da Silveira nasceu em 15 de fevereiro de 1905, em Maceió, Alagoas. Seu pai, Faustino Magalhães Silveira, era professor e jornalista, sua infância foi marca pela presença de artistas e intelectuais em sua casa.

Aos 15 anos, em 1920,  Nise da Silveira ingressou na Faculdade de Medicina em Salvador, Segundo Motta(2005), ela era a única mulher numa turma de 157 homens além de ser a mais nova.

Após a morte do pai em 1927, Nise da Silveira mudou-se para o Rio de Janeiro, onde teve contato com pessoas importantes de nossa história, como Manuel Bandeira, e ingressou no partido comunista brasileiro.

Em 1933 iniciou sua carreira como psiquiatra no Hospital Pedro II. Em março de 1936, Nise da Silveira não era mais filiada ao partido comunista, mas, seu envolvimento com a ideologia socialista, presente em textos que se encontravam em seu quarto fez com que uma enfermeira do hospital a denunciasse.

Nise passou um ano e meio na prisão. Ficou presa com prisioneiras politicas como Olga Benário Prestes, Maria Werneck e Beatriz Bandeira. Apesar de não ter sido torturada, muitas de suas companheiras de prisão foram. Nise viveu o horror da prisão.

Em 1937, Nise foi libertada, temendo ser presa novamente, fugiu do Rio, passando pela Bahia, Pernambuco, Alagoas, e por fim Manaus, onde foi se encontrar com seu companheiro Mario Magalhães.

Somente em 1944, que Nise da Silveira pode voltar ao Rio e retomar o seu trabalho, “Nise foi readmitida no serviço público em abril de 1944 no Hospital Pedro II, do antigo Centro Psiquiátrico Nacional, no Engenho de Dentro”(MOTTA, 2005, p. 65)

Nesse período, além das experiências na prisão, outro fato marcou sua trajetória. Nise tomou conhecimento de um fato ocorrido após sua prisão.

Quando Nise trabalhava no Hospício Pedro II, na Praia Vermelha, ela recebia todas as manhãs uma paciente, chamada Luíza, que vinha lhe servir o café. Nise tinha muita dificuldade para entender o que era dito por aquela que a servia, devido ao quadro de esquizofrenia, caracterizado pela indiferença e embotamento afetivo, segundo os manuais da psiquiatria descritiva. Luíza ao saber da prisão da doutora para quem levava café todas as manhãs, deu uma surra na enfermeira que havia feito a denúncia contra Nise, demonstrando  sua capacidade de discernimento e manifestação de afeto, que contrariavam a nosologia  psiquiátrica tradicional. “Assim aprendi outra lição, que desmentia o que afirmavam os livros de psiquiatria
sobre os doentes mentais…os esquizofrênicos eram indiferentes e sem afeto…Eu não entendia nada do que ela falava, mas ela estava entendendo o que se passava” disse Nise sobre esse episódio (MOTTA, 2005, p.64)

Ao retomar seu trabalho, Nise descobriu que havia “novidades” no campo da psiquiatria. Motta nos relata que,

Em depoimento a este autor Nise conta que, durante seu afastamento do serviço público,

algumas coisas tinham se modificado e nesse meio tempo surgiu o que se dizia como a grande descoberta no tratamento para doenças mentais, o eletrochoque. Prontamente o doutor a quem eu acompanhava em visita ao hospital disse, com muita disposição, que iria me ensinar a grande novidade. Chamou um paciente e, dizendo que eu aprenderia com facilidade aquela  simples e revolucionária operação, acionou o aparelho. Eu não havia sido torturada nos meus tempos de cárcere, mas pude ouvir os gritos de sofrimento de vários companheiros. O médico chamou então outro paciente e disse para mim:
– Viu Nise como é fácil! É só apertar o botão.
Eu havia visto o sofrimento do paciente na primeira demonstração. Olhei para o psiquiatra e disse que não faria aquilo. Ele ainda tentou me convencer das maravilhas daquela engenhoca, mas firmemente eu recusei.
(Motta, 1995)
Nise chegou a fazer uso de um dos novos recursos da psiquiatria, quando aplicou um choque de insulina em uma  paciente e relata  que “a mulher não acordava. Aflita, apliquei-lhe soro glicosado na veia e nada da mulher acordar. Tentei de novo, até que consegui. Aí disse – Nunca mais.”(…) (MOTTA, 2005, p. 66-7)

Contraria as práticas que estavam se popularizando na psiquiatria, Nise da Silveira foi conversar com o diretor do hospital, Paulo Elejalde, que propôs  o Serviço de Terapêutica Ocupacional para Nise, Segundo ela,

“Aceitei a indicação do doutor Elejalde, mas antes que ele saísse, interrompendo no ar o seu movimento de meia volta, disse-lhe com o dedo em riste e um brilho maroto  nos  olhos:  –    Eu  irei  para o Setor de Terapêutica Ocupacional mas…ele vai mudar!” (Motta, 1995).

Sob a orientação de Nise, iniciaram as primeiras oficinas de bordado e costura. Em 1946, iniciaram as oficinas de pintura e desenho, e, já em 1947, ocorreu a primeira exposição dos artistas internos de Engenho de Dentro. A segunda exposição veio a ocorrer em 1949, com trabalhos slecionados por Leon Degand, diretor do Museu arte moderna de são paulo.clip_image002

No início dos anos 50, Nise da Silveira fundou o “Museu Imagens do Inconsciente” para poder reunir o trabalho dos pacientes e poder estuda-los.  Seu  trabalho e suas pesquisas a aproximam da obra de C.G.Jung, em especial do livro “Psicologia e Alquimia”, que fora publicado em 1943. Comparando as mandalas reproduzidas no livro  com as mandalas produzidas pelos pacientes. Nise da Silveira optou por enviar uma carta, em 1954, a Jung, com fotos das produções dos pacientes. Jung respondeu a carta, muito interessado e perguntava informações sobre os autores. Em 1956, Nise da Silveira buscou informações sobre a possibilidade de participar de cursos em Zurique, recebeu a seguinte mensagem:

Senhores, O professor C.G. Jung convida a doutora Nise da Silveira a fazer parte, no semestre de verão  de 1957, do Instituto C.G. Jung de Zurique. Os cursos, os seminários e o contato com meus colaboradores serão de grande importância para  a preparação da exposição de arte psicopatológica, que deverá ser organizada em ocasião do Congresso Internacional de psiquiatria que se realizará em Zurique no ano de 1957. Eu ficaria contente se através da visita da doutora Nise da Silveira, o contato entre os profissionais do Brasil e da Suíça pudesse se aprofundar. Certamente esse encontro será importante par ao futuro da psicologia e da psiquiatria. (em MELLO apud MOTTA  2005, p. 72).

Assim, Nise da Silveira iniciou seu percurso com pioneira da psicologia analítica no Brasil. A partir de seu grupo de estudo, a psicologia analítica começou a se desenvolver no Brasil.

Em 1968, Nise da Silveira publicou seu primeiro livro “Jung: vida e obra” um marco na história da psicologia analítica brasileira, sendo considerado até nossos dias uma das melhores introduções ao pensamento junguiano.

Motta nos conta que o cuidado de Nise da Silveira era tamanho com as atividades do museu imagens do inconsciente, que

Aos 70 anos, em 1975, Nise teve a  sua aposentadoria compulsória no serviço público. Apesar da  idade mantinha o espírito alerta de modo que, no dia seguinte, apareceu no Museu apresentando-se como a mais  nova estagiária. Receosa com as ameaças que o acervo do Museu vinha sofrendo, organizou a Sociedade de Amigos do Museu de Imagens do Inconsciente, que em sua primeira iniciativa apoiou o evento do centenário do nascimento de Jung, que foi amplamente comemorado no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Belo Horizonte. O nome  de  Nise  da  Silveira  já  estava  consagrado como a principal divulgadora da psicologia analítica no Brasil (MOTTA, 2005, p. 74)

Nise da Silveria viria a produzir intensamente em suas ultima décadas. Publicando os livros :

Jung Vida e Obra – 1968

Terapêutica Ocupacional – Teoria e Prática, 1979

Os Cavalos de Octávio Ignácio (Organização), 1980 –

Coleção Museus Brasileiros Vol. 2 – Museu de Imagens do Inconsciente, 1980

Imagens do Inconsciente, 1981

Casa das Palmeiras: A emoção de lidar Coordenação e prefácio de uma experiência em psiquiatria, 1986.

A Farra do Boi, 1989

Artaud – a nostalgia do mais, 1989

Cartas a Spinoza, 1990

O Mundo das Imagens, 1992

Gatos: A Emoção de Lidar, 1998

Vários foram os prêmios e homenagens que Nise da Silveira recebeu ao longo de sua trajetória, Motta enumerou esse reconhecimento,

Em 1971 recebe o troféu Golfinho de Ouro do Museu da Imagem e do Som do Estado da Guanabara.

Figura entre as 10 (dez) mulheres do ano em 1973,escolhidas pelo Conselho Nacional de Mulheres do Brasil.

Recebe homenagem do Conselho Regional de Medicina como representante da área de psiquiatria em 19.12.74.

Recebe o Prêmio Personalidade Global Feminina correspondente ao ano de 1974, conferido pelo jornal O GLOBO e REDE GLOBO DE TELEVISÃO.

Em 1975 recebe a medalha do Estado da Guanabara, conferida pelo Governador Chagas Freitas, por serviços prestados à cidade-estado da Guanabara.

1981, Medalha de Mérito Oswaldo Cruz, na Categoria Ouro, concedida pelo Presidente da República João Batista de Figueiredo e Ministro da Saúde Waldir Mendes Arcoverde. Decreto de 14 de abril de 1981.

Comenda Desembargador Mário Guimarães, outorgada pela Assembléia Legislativa do Estado de Alagoas em 1983.

“Benemérito do Estado do Rio de Janeiro”, título concedido pela Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro – 1984.

Ordem do Mérito dos Palmares no grau de Comendador, outorgado pelo Governador do Estado de Alagoas, Grão-Mestre daquela Ordem. – 1985.

Comenda Desembargador Mário Guimarães, concedida pela Câmara Municipal de Maceió – 1987.

Condecorada com a Ordem do Rio Branco no Grau de Oficial, pelo Ministério das Relações Exteriores, em 13 de maio de 1987.139

Homenagem especial da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, em comemoração ao Dia do Médico – 16 de outubro de 1987

Título de Professor “Honoris Causa”, da Escola de Ciências Médicas de Alagoas – 4 de março de 1988

Título de Professor “Honoris Causa” pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) em abril de 1988.

Medalha do Mérito da Fundação Joaquim Nabuco de Recife (PE) em 1989.

Sócia Honorária da Sociedade de Medicina de Alagoas, em 1989

Medalha Peregrino Júnior da União Brasileira de Escritores em 1992.

Prêmio Personalidade do Ano de 1992, da Associação Brasileira de Críticos de Arte.

Medalha Chico Mendes outorgada pelo grupo Tortura Nunca Mais, em 1993.

Ordem Nacional do Mérito Educativo no grau de Comendador, pelo Ministério da Educação e do Desporto da Presidência da República em 1993.

Prêmio Hors Concours (gênero ensaio) do Concurso Prêmio Alejandro José Cabassa da União Brasileira de Escritores, em 1994.

Prêmio Carmem da Silva – Colóquio das Mulheres Fluminenses, 1995.

Homenagem do Centro Mario Schenberg de Documentação da Pesquisa em Artes – USP – 1996

Associação Médica do Rio de Janeiro – Dia Internacional da Mulher – 1997

Homenagem da Associação Médica de Alagoas – 1997

Homenagem no II Encontro Nacional de Serviço Social e Seguridade. – Porto Alegre, 2000 (MOTTA, 2005, 138-9)

NIse da Silveira faleceu em 30 de outubro de 1999, aos 94 anos.

Sua trajetória foi realmente um exemplo vivo de amor pela vida e respeito pela diferença. Nise compreendeu que os pacientes psiquiátricos eram indivíduos que mereciam respeito e amor. A partir de suas experiências na prisão ela pode sentir na própria pele o que os pacientes sentiam em sua realidade. Nise da Silveira foi uma das primeiras vozes no Brasil a se levantar contra  o Eletrochoque, Lobotomia e choque insulínico e propor uma alternativa que valorizava a vida dos pacientes.

Em 1956, Dra. Nise da Silveira funda a Casa das Palmeiras, uma instituição pioneira,  aberta, voltada para oferecer um espaço humanizado onde os clientes podem realizar espontamente trabalhos expressivos, de forma a facilitar sua relação com os vários aspectos de sua vida.

Nise da Silveira é um exemplo de vida e de luta. Sua militância no campo da saúde mental é um legado que não podemos esquecer.

Sites importantes para serem visitados:

http://casadaspalmeiras.blogspot.com/  –

http://www.museuimagensdoinconsciente.org.br/

Referências bibliográficas:

MOTTA, Arnaldo Alves Psicologia Analítica no Brasil; contribuições para a sua história, São Paulo: PUC, Tese de mestrado, 2005.

(As informações de Nise da Silveria e outros pioneiros da psicologia analíltica podem ser encontrados no livro “As raízes da Psicoogia analítica noBrasi” de Arnaldo Motta. Casa do Psicólogo, 2009).

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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Algumas Considerações Acerca do livro “Carl Gustav Jung: Uma Biografia” de Frank McLynn

02 de fevereiro de 2011

(pequena revisão realizada em 06/01/2012)

Em 1998 a Editora Record publicou no Brasil o livro “Carl Gustav Jung – uma biografia” de Frank McLynn.  Essa biografia chamou muita atenção por apresentar supostas “revelações” acerca de Jung. Que no geral, eram críticas e afirmações tendenciosas acerca de Jung e sua teoria.

Meu primeiro contato com o livro de McLynn foi em 2002, quando ainda era estudante na UFES e fazia parte do grupo de estudos em psicologia junguiana  com a profa. Dra. Kathy Amorim Marcondes(que hoje é uma querida amiga), que havia ficado responsável por uma parte do estudo acerca da biografia de Jung, que ela me indicou o livro, mas me advertiu dizendo que o livro tinha muitas informações interessantes, mas, oclip_image002 autor era horrível, maldoso.

Passaram alguns anos, e acredito que a consideração feita pela Dra. Kathy Marcondes continua muito pertinente na avaliação do livro, ele possui muitas informações interessantes, mas, o autor faz  inúmeros juízos de valor, com o claro objetivo de denegrir a imagem de Jung.

Essas duas características são interessantes pois, torna o livro um sucesso de vendas (que realmente foi), uma vez que muitas das informações contidas são realmente interessantes aos junguianos, por outro lado, as acusações, juízos de valor,  difamações agradam aos que se opõem ao pensamento junguiano. McLynn consegue a proeza de vender seus livros a “gregos e troianos”.

Uma das resenhas que ainda se encontram na internet possui o titulo de “BIOGRAFIA REVÊ CONTRADIÇÕES DE JUNG” do jornalista Carlos Haag, publicado em 1998 no jornal O Estado de São Paulo. A resenha de Haag torna explicita a principal característica do trabalho de Mclynn, um sem fim de acusações a Jung. o dois parágrafos se seu texto nos dá uma boa idéia do perfil do livro,

Freud não explica, mas agradece. Carl Gustav Jung (Record, 641 págs., R$ 50,00), biografia de Frank McLynn, faz um novo retrato – nada agradável – do profeta do inconsciente, por anos visto como pobre vítima do dogmatismo freudiano. “Ele era um homem egoísta que se interessava apenas em sua salvação, atacando Freud porque o via como rival à sua ambição de fundar o próprio movimento psicanalítico”, revela o autor. Não é só. O místico e sonhador Jung também era um tirano que se casou por dinheiro, obrigou a mulher a suportar seus inúmeros casos (e envolveu-a num ménage-à-trois), seduziu pacientes, brigou com todos os amigos, glorificou o nazismo e odiava negros, índios e judeus.

(…)

“Esse, no entanto, não é o caso, pois não há evidências científicas em suas teorizações que devem ser aceitas apenas como sistema metafísico, ainda que ele desejasse o oposto disso, sempre em busca de reconhecimento por parte de instituições que considerava dignas de respeito”, avalia McLynn.  (HAAG, 1998.)

Vamos pensar em algumas dessas afirmações, que são emblemáticas e nos permitem ter alguma idéia acerca do livro.

Ele era um homem egoísta que se interessava apenas em sua salvação, atacando Freud porque o via como rival à sua ambição de fundar o próprio movimento psicanalítico”, revela o autor

Essa afirmação é bem interessante. Especialmente quando se contrasta com o movimento junguiano. Pois, Jung rompeu com Freud e com a psicanálise definitivamente em 1914, contudo, ele não deu inicio a um instituto nem uma sociedade profissional com intuito de expandir a psicologia analítica. Deve-se notar, que em 1916, Jung iniciou o “Clube de Psicologia de Zurique”, que não tinha um objetivo de formação, mas, propiciar uma referencia social aos interessados em aprender a psicologia de Jung, isso considerando que muitos eram estrangeiros e tinham dificuldades em relação ao idioma(que era no geral, um dialeto do alemão) e a cultura local.

Nesse clube, Jung fez vários seminários no geral direcionados a poucas pessoas, mais próximas. Esse foi um motivo porque a psicologia analítica não se difundiu tanto como a psicanálise. Afinal, ao contrario do que é dito por McLynn, se Jung fosse tão ávido por fundar um movimento psicanalítico próprio, porque ficou restrito a um pequeno grupo? Deve-se notar que na década de 1930, Jung foi eleito vice-presidente, e posteriormente, assumiu a presidência da Sociedade Internacional Médica de Psicoterapia, porque ele não usou da  Sociedade para expandir seu movimento?  Ou porque somente em 1948 surgiu o primeiro instituto de formação em psicologia analítica 34 anos depois do rompimento de Jung com Freud?

Um outro dado deve ser considerado, como nos conta Maggy Anthony,

(…) em 1946, a Dra Jacobi, extrovertida oficial junguiana, havia pressionado o Dr. Jung a dar inicio a um instituto. Jung ficara horrorizado com a idéia. A Dra. Jacobi sabia que, de qualquer maneira, após a morte de Jung, tal instituto iria acabar se tornando realidade. Argumentou com ele que, se esperassem demais, ele não poderia exercer sua influencia para construí-lo de acordo com as linhas que considerasse apropriadas.

Assim Jung capitulou. (ANTHONY, 1998 p. 41)

Me parece que se fosse verdadeira essa afirmação a psicologia analítica seria muito mais difundida do que é hoje.

Outra afirmação que merece atenção,

“Jung também era um tirano que se casou por dinheiro”

Essa afirmação é outra complicada. Afinal, qual é a referencia que é usada para ser “tirano”? Não podemos perder de vista, em primeiro lugar, que Jung nasceu no ultimo quarto do século XIX, em 1875.  Domesmo modo, falar que ele casou por dinheiro, é uma afirmação que, em primeiro lugar,  não se pode comprovar efetivamente, em segundo lugar parte do preconceito que todo e qualquer homem que se casasse com uma mulher rica se casaria por interesse. Deve-se notar, que se esquece que Emma era uma jovem muito bonita e com uma formação refinada em colégio interno na França. Afirmar, que Jung se casou apenas por dinheiro, é desmerecer Emma.               

obrigou a mulher a suportar seus inúmeros casos (e envolveu-a num ménage-à-trois),

Acerca da afirmação dos “inúmeros casos” de Jung, tudo indica verdade, entretanto, quando se observa que na cultura machista e patriarcal no final do século XIX e inicio do XX. Por mais censurável que seja em nossos dias essa atitude, naquela época era uma prática tolerável e comum. O que é realmente condenável (seja em nossos dias quanto nos dias de Jung) era seu triangulo com Emma e Toni Wolff.

Mas, e preciso esclarecer esse termo “ménage-a-trois” utilizado pelo autor. Em seu sentido original, indicava uma casa que era habitado por três pessoas, posteriormente, o termo passou a ser usado (e compreendido) como uma relação sexual à três pessoas. O problema do uso desse termo é que para muitos parece que Jung obrigou a Emma a dividir a cama com Toni. De fato, Jung obrigou Emma a conviver seja na própria casa ou socialmente com Toni.

O que causava espanto não era o fato de Jung ter uma amante, mas, fazer com que ela convivesse com sua esposa.

glorificou o nazismo e odiava negros, índios e judeus.

Essa sem dúvida é a afirmação mais equivocada e absurda. Em primeiro lugar, Jung foi um  crítico de Hitler e do Nazismo, inclusive, em biografia posterior ao do McLynn, a escrita pro Deirdre Bair, afirma-se que Jung foi colaborador dos Aliados, contra o eixo.

(…)Jung passou a ser o “Agente 488” nos relatórios de Dulles para os oficiais em Washington e Londres, e os despachos do 488 eram considerados fatos e apareciam com destaque nas políticas operacionais dos agentes. O que realmente “fisgou” Dulles para consultar Jung sobre outros assuntos, além da situação da Alemanha, foi a análise que fez da política da suiça.(…) Dulles investigou as afirmações de Jung de como a impressa suíça limitava e de algum modo controlava as ações pró-nazista de Pilet-Golaz, e verificou o quanto de verdade havia na análise. (BAIR, 2006, p.179)

Devemos lembrar também, que apesar de alguns erros administrativos na direção da Sociedade Médica Internacional de Psicoterapia(SMIP), Jung primou sua administração para livrar a sociedade da influencia nazista. A SMIP, tinha sede em Berlim. Assim, eram muitas as pressões para a sociedade apoiar o partido nazista. Ao assumir a direção, em 1933, um dos primeiros atos de Jung foi dar autonomia aos países membros, de modo, a garantir que os membros judeus da sociedade, em países ocupados ou nos demais, tivessem seus direitos garantidos.

Sobre os índios e negros, afirmar que ele os “odiava” é estranho, até porque as teorias de Jung afirmam justamente que independente da cultura, etnia ou cor da pela, todos nós possuímos a mesma matriz de organização psíquica! Somos todos igualmente humanos. Jung poderia ser acusado de xenofobia? talvez sim. Afinal, ele era europeu, nascido no final do século XIX. Mas, não ao ponto de odiar quem quer que seja. Seria estranho também, também, se Jung odiasse os índios ele não citaria bom contato que teve com com Antonio Mirabal, também conhecido Ochwiay Biano ou Lago da Montanha.Nem teria se empenhado para aprender os fundamentos de suaíli para tentar se comunicar diretamente com os negros na África.

O que me parece forte nas críticas atribuídas a Jung, é justamente reflexo do choque cultural, devemos lembrar que na América, por exemplo, Jung era estrangeiro lá, ou seja, sua cultura suiça (e seus traços introvertidos) em alguns momentos entravam em choque com a cultura americana dos norte americanos brancos, assim como com os nativos norte americanos. O mesmo pode dizer na África. Mas, afirmar que “Jung odiava negros e índios” me parece fora de sentido.

Sobre as afirmações de “anti-semitismo”,ou odiar judeus, não podemos esquecer que essa afirmação era feita por Freud e perpetuada por freudianos durante muito tempo. Essa afirmação, resquício do rompimento de Freud com Jung é totalmente absurda, pois, afinal, se ele fosse anti semita, porque ele teria aceitado em seu circulo de amigos e discípulos judeus, como Erich Neumann, Jolande Jacobi, assim como o editor de suas obras completas Gerard Adler. Devemos lembrar, que com a fundação do instituto C.G.Jung de Zurique, Jung impôs o nome de Jolande Jacobi na diretoria, mesmo muitos sendo contrários a “indicação”.

Esse, no entanto, não é o caso, pois não há evidências científicas em suas teorizações que devem ser aceitas apenas como sistema metafísico, ainda que ele desejasse o oposto disso, sempre em busca de reconhecimento por parte de instituições que considerava dignas de respeito”diz McLynn,

O que mais me chamou atenção nessa ultima afirmação é o fato que McLynn é jornalista e biógrafo. Que conhecimento efetivo da prática da psicoterapia ele possui para julgar a teoria de Jung? Estaria ele correto e todos os profissionais(psicólogos e médicos) que trabalham com a psicologia analítica e clientes que se viram beneficiados pela teoria e métodos junguianos, desde os tempos de Jung,  errados?

Por outro lado, é negativo que um profissional busque reconhecimento? Diga-se de passagem, em 1936 Jung recebeu o titulo de doutor in honoris causa  pela universidade de Harvard, e em 1938 recebeu o mesmo reconhecimento pela universidade Oxford. Caso Jung e sua teoria fossem tão equivocadas ou condenáveis, tais instituições não lhe dariam tal reconhecimento.

Como eu disse no inicio, o livro possui muitas informações interessantes, contudo, deve-se fazer uma leitura atenta para os “excessos” de Mclynn, que em alguns momentos parece que ele está escrevendo para algum jornal ou tablóide sensacionalista tão comuns na Inglaterra(sua terra natal), que adoram denegrir a imagem das celebridades.

Na minha opinião, caso alguém queira estudar a biografia de Jung, eu indico como o melhor biografia que eu já li,os dois volumes do “Jung: uma biografia” de Deirdre Bair. Isto além, do Memórias, sonhos e reflexões, é claro!

Referencias Bibliográficas

ANTHONY, Maggy.  As mulheres na vida de Jung.  Rio de Janeiro : Rosa dos Tempos, 1998. 

BAIR, Deirdre, JUNG – Uma biografia V. 2; São Paulo: Ed. Globo, 2006.

HAAG, Carlos “BIOGRAFIA REVÊ CONTRADIÇÕES DE JUNG”no site Pensar, disponível em : http://reocities.com/Athens/acropolis/6634/jung.htm. Acessado em 27 de janeiro de 2011. 1998.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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O Livro Vermelho de Jung

 

(16 de julho de 2010)

Na próxima semana, está previsto o lançamento do “LIVRO VERMELHO” de Jung, uma obra lendária, pode-se dizer que é verdadeiro um sonho de consumo dos estudiosos em psicologia analítica. Apesar de toda festa que está sendo preparada para receber essa pérola, eu confesso que minha preocupação é maior que minha ansiedade. Isso porque  penso que se o livro em inglês vem gerando criticas mordazes, e já vemos isso matérias extremamente depreciativas em algumas revistas e jornais, em português a coisa deve ser muito pior…

Não me incomoda a  critica em si (todo junguiano já está acostumado com essas críticas), mas, a desinformação que essas criticas geram no publico em geral. É interessante como as criticas que eu tenho lido são tão infantis e pecam por uma coisa básica, esquecem que o livro vermelho foi uma tentativa de elaborar as experiências de imaginação ativa  de Jung. O que ele fez de forma cuidadosa e atenta, produzindo imagens belíssimas, e as narrativas (em algumas partes) em  caligrafia gótica, ao longo de 16 anos.E não podemos perder de vista, que as experiências da imaginação ativa devem fazer sentido para quem as vive, logo, é inútil criar conjecturas e julgamentos acerca de Jung e sua “sanidade” a partir do livro (que na realidade estava mais para diário), pois que a “chave de compreensão” do livro vermelho deixou de existir em 1961.

Por outro lado, muitos ignoram (ou preferem ignorar) que o inicio da psicanálise foi traumático para grande parte do circulo psicanalítico – próximo de Freud – segundo o levantamento histórico feito pelo dr. Isaias Paim (2001) 13(treze) dos pioneiros da psicanálise cometeram suicídio (foram eles: Wilhelm Stekel, Victor Tausk, Paul Federn,  Herbert Silberer, Otto Gross, Max Kahane, Karl Schrötter, Eugénie Sokolnicka, Karin Stephen, Tatiana Rosenthal, Monroe Meyer, Martin Willian Peck, Johann Jakob Honegger), outros tiveram destino tragico, como Karl Abraham que insistiu em fazer uma cirurgia da qual sabia não haveria chance de sair com vida, Hermine von Hug-Hellmuth, foi assassinada por um ex-paciente (que também era seu sobrinho do qual foi analista); Ruth Mack Brunswick se tornou dependente de morfina, e outros 8(oito) desses pioneiros terminaram a vida em surto psicótico (foram eles Sándor Frerenczi, Wilhelm Reich, Otto Rank, Gregory Zilboorg, Jenö Harnik, Ernest Jones, Otto Finichel e Horace W. Frink).

Muitos dos pioneiros da investigação do inconsciente sucumbiram, Jung por sua vez, suportou e pode ser produtivo, e viver uma vida longa (86 anos). Eu gostaria de citar duas outras pessoas que conheceram Jung, e nos possibilitam uma visão acerca dele. Em conversa com Miguel Serrano, acerca de símbolos e falando de Jung,   Hermann Hesse (premio Nobel de literatura, autor do “O jogo das contas de Vidro”, “ O lobo da Estepe”, “Sidarta”, “Demian” dentre outros) disse

“(…) Mas, voltando a Jung, creio ele tem o direito de interpretar os símbolos. E sabe por quê? Por que Jung é uma montanha ime’’nsa, um gênio extraordinário…Ele esteve doente recentemente… conheci-o através de um amigo comum que também se interessava pela interpretação dos símbolos. Faz anos que não o vejo. Se voltar a encontra-lo, dê-lhe lembranças do Lobo da Estepe.

E sorriu alegremente”  

(SERRANO, 1973,.p28)

Outra fala que me chamou a atenção, foi de Mircea Eliade, no livro de entrevistas “ A prova do Labirinto”, ele diz

—Sinto uma grande admiração pelo Jung, pelo pensador e pelo homem que foi. Conheci-lhe em 1950, com motivo das «Conferências Eranos» de Ascona. depois de meia hora de conversação, parecia-me que estava escutando a um sábio chinês ou a um velho aldeão da Europa oriental, ainda enraizado na Terra Mãe, mas já muito perto do céu. Fascinava-me a admirável simpatia de sua presença, sua espontaneidade, a erudição e o humor de sua conversação. Na época tinha setenta e cinco anos.
Depois voltei a ver-lhe quase todos os anos, em Ascona, ou em Zurique; a última vez, um ano antes de sua morte, em 1960. A cada encontro sentia profundamente impressionado pela plenitude, a «sabedoria» atrevo-me a dizer, de sua vida.

Acredito que o livro vermelho mostra, sobretudo, a seriedade com qual Jung lidava consigo mesmo. O trabalho que teve com o próprio inconsciente – e o cuidado de elaborar suas experiências no livro vermelho, mostra sua coerência, pois, o que ele sugeria aos clientes ele mesmo fazia. Apesar de classificarem as experiências de Jung como doentias ou fruto de uma psique doente, ele nos dá uma perspectiva fundamental para compreendamos suas experiências, ele diz “ o que o médico não suporta, o paciente também não vai suportar”(JUNG. 1999. p.122) O livro vermelho é uma testemunha do que Jung suportou, e nos ajuda a compreender porque  ele é tão respeitado.

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abaixo estão os dados da vozes para quem quiser compra-lo.

“O livro inacabado de Jung, que apenas os amigos mais próximos tiveram acesso,conta com um caderno iconográfico com imagens do manuscrito original,assim como pinturas feitas pelo próprio Jung, e tradução com referências e notas do editor.

404 páginas / acabamento com capa dura e sobrecapa.
Lombada de 5 cm / peso: 4.200 gramas

Preço normal: R$ 480,00
Preço promocional de pré-venda : R$ 384,00

www.universovozes.com.br

Referências:

SERRANO,M. O circulo Hermético, Brasiliense: São Paulo, 1973

JUNG, C.G., Ab-reação, análise de sonhos, transferência, Vozes: Petrópolis, 4 ed. 1999

PAIM, I. Luz e Trevas,  Editora UFMS: Campo Grande., 2001.

 

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

www.psicologiaanalitica.com

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Psicologia Analítica e Religião

 

15 de maio de 2010

No post “Subjetivismo, realidade psíquica e esoterismo” eu comentei acerca dos motivos pelos quais Jung é rotulado como esotérico. Entretanto, não podemos negar que a importância dos estudos de Jung acerca da religião. Sua compreensão acerca da Religião fez com que fosse taxado, por muitos estudiosos como hermética (ou mesmo confusa, por considerarem seus conceitos não eram claros ).

O interesse de Jung pela religião pode-se dizer vinha de berço. Pois, toda sua família  amplamente arraigada no protestantismo (seu pai, o avô, 7 de seus tios era pastores). E, as discussões teológicas que acompanhou na infância e juventude geraram esse interesse especial pelo estudo da religião. Em especial sobre o modo como a religião atuaria na psique do individuo.

Apesar de ser de origem protestante, Jung não se restringia nem ao protestantismo nem ao cristianismo para falar de religião. Ele compreendia as religiões como a expressão uma expressão psíquica fundamental, não defendia uma ou outra religião, mas as tratava com a mesma dignidade. Para Jung, a verificação se o conteúdo da religião ou sua teologia era correta ou não, caberia aos teólogos, não ao psicólogo, pois,

Quando a Psicologia se refere, p. ex., a concepção virginal, só se ocupa da existência de tal ideia, não cuidando de saber se ela é verdadeira ou falsa, em qualquer sentido. A ideia é verdadeira, na medida em que existe. (JUNG, 1999a, p.8)

O psicólogo, que se coloca numa posição puramente científica, não deve considerar a pretensão de todo credo religioso: a de ser possuidor da verdade exclusiva e eterna. Uma vez que trata da experiência religiosa primordial, deve concentrar sua atenção no aspecto humano do problema religioso, abstraindo o que as confissões religiosas fizeram com ele. (Jung, 1999a, p.11)

Jung compreendia o fenômeno religioso como um fenômeno natural, inerente a natureza humana, desde modo, ao falar da religião Jung não propõe nada de metafisico, pois, seu  foco recai sempre sobre o individuo, sobre a cultura e o inconsciente coletivo.

Um dado que não podemos perder de vista é que Jung era sobretudo um clínico. Por mais que em alguns textos (como no Presente e Futuro) ele fale de uma função social da religião ou da religião sob uma perspectiva social, seu olhar era de um clínico.

Religião para Jung

a) Confissão Religiosa e Religião

Para pensarmos religião para a psicologia analítica, devemos primeiro distinguir confissão religiosa de Religião.

Jung utilizava o termo “confissão religiosa” compreendendo que

A confissão admite uma certa convicção coletiva, ao passo que a religião exprime uma relação subjetiva com fatores metafísicos, ou seja, extramundanos. A confissão compreende, sobretudo, um credo voltado para o mundo em geral, constituindo, assim, uma questão intramundana. (Jung, 1999b, p.9)

A confissão coincide com a Igreja oficial ou, pelo menos, se constitui como uma instituição pública, à qual pertencem não apenas os fiéis mas também um grande número de pessoas indiferentes à religião, que se integram por simples hábito. Aqui torna-se visível a diferença entre confissão e religião.  Pertencer a uma confissão, portanto, nem sempre implica uma questão de religiosidade mas, sobretudo, uma questão social que nada pode acrescentar à estruturação do indivíduo. (ibid, p.10)

Todos os aspectos sociais que envolviam a religião/religiosiade   Jung compreendia como “confissão religiosa”. Isso se devia ao fato de Jung utilizar a compreensão clássica do termo Religio que “[…] os vocabulários latinos atribuem, em geral, significados correntes entre os autores clássicos: ‘escrúpulo’, ‘consciência’, ‘exatidão’, ‘lealdade’ e outros afins.” (FILORAMO et PRANDI, 1999, p. 255).  A compreensão de Religio como relacionada ao verbo Religare (religar, reatar) surgiu posteriormente, no século IV, com Lactâncio, grande erudito que era chamado de o “Cicero cristão”, que adequou o uso do termo já era utilizado no mundo latino à teologia cristã. Deste modo, Jung compreendia

a religião como uma atitude do espírito humano, atitude que de acordo com o emprego originá-rio do termo: “religio”, poderíamos qualificar a modo de uma consideração e observação cuidadosas de certos fatores dinâmicos concebidos como “potências”: espíritos, demônios, deuses, leis, idéias, ideais, ou qualquer outra denominação dada pelo homem a tais fatores; dentro de seu mundo próprio a experiência ter-lhe-ia mostrado suficientemente poderosos, perigosos ou mesmo úteis, para merecerem respeitosa consideração, ou suficientemente grandes, belos e racionais, para serem piedosamente adorados e amados.(JUNG, 1999a,p10)

Nesta citação de Jung, devemos observar que essas “potencias” são expressões da dinâmica psíquica que se fazem perceber através do sistemas simbólicos oferecidos pela cultura(as confissões religiosas). E, assim podemos entender quando a afirmação de que “os deuses se tornaram doenças”(JUNG, 2003, p. 43). Essas potencias psíquicas que não encontram mais expressão por vias culturais se somatizam.

As religiões, desse modo, são sistemas simbólicos que, através da mediação das potencias metafísicas ( deuses, anjos etc..), podem favorecer a relação do individuo consigo mesmo, contribuindo com seu desenvolvimento. E, isso poderia ou não coincidir com as confissões religiosas.

Nós diferenciamos a confissão religiosa de religião. Contudo, essa caracterização usada por Jung não é comum em nossos dias o que gera confusão para quem começa estudar a psicologia analítica. ao que ele chamou de confissão religiosa compreende o que chamamos de religião institucional, e ao que ele denomina religião engloba tanto a religiosidade quanto a espiritualidade.

b) Função Religiosa

Jung indicava a função religiosa como um dos pontos de divergência da psicanálise, segundo ele,

Este ponto de vista é a terceira característica que diferencia minhas concepções das de Freud. E por isso me acusam de misticismo. Contudo, não sou responsável pelo fato de o homem espontaneamente ter desenvolvido, sempre e em toda parte, uma função religiosa e que, por isso, a psique humana está imbuída e trançada de sentimentos e ideias religiosos desde os tempos imemoriais. (Jung, 1989, p. 328)

A definição de função religiosa não é clara, talvez, podemos dizer que Jung aponta a existência da função religiosa mas não a definiu formalmente. A função religiosa é uma função natural da psique (inerente a psique humana) que se caracteriza pela atribuição de um significado numinoso a quaisquer elementos pessoais, culturais ou da natureza que possibilite tal relação. (cf nosso artigo sobre o numinoso).

Numinoso foi o termo utilizado por Rudolf Otto para se referir ao elemento fundamental e irracional da experiência religiosa que poderia ser percebido como “divino” – esse divino se apresentaria ao individuo como algo misterioso (fora da realidade humana ou diferente da realidade humana), poderoso ou tremendo (geraria temor, dando ao homem a sensação de criatura, dado seu poder e majestade) e Fascinante (por emanar pureza e perfeição, impelindo o individuo a adoração, reverência ou respeito).O Numinoso descrito por Otto, estaria intimamente relacionado com a experiência religiosa. Jung compreendeu a importância do estudo de Otto e transportou esse termo para a psicologia, adequando-o ao contexto da psique, retirando seu aspecto sobrenatural ou metafísico.

Como exemplo, podemos vislumbrar a função religiosa, como atribuição de sentido numinoso, como o temor irracional que algumas pessoas tem do som do trovão. Mesmo reconhecendo racionalmente que o som do trovão não oferece perigo, ou estando em local seguro, algumas pessoas são tomadas por um temor e tremor. Jung diria que o “homem de um milhão de anos” de mexeu dentro dela. Pois, o trovão em todos os temos foi uma expressão da presença ou vontade divina, mesmo que racionalmente não reconheçamos como tal, o inconsciente reconhece e o significa como tal.

Como dissemos  a função religiosa atribuirá um significado simbólico que indicará algo maior ou superior ao individuo (isto é, ao Ego). Que impõe ao individuo (ego) uma transformação ou mudança de atitude da consciência – frequentemente observada nas conversões religiosas.

Dada a importância da função religiosa, como elemento de significação e transformação do individuo, não podemos ignorar sua intima relação com o Self, que impele o individuo ao desenvolvimento ou amadurecimento psíquico. Neumann, nos chama atenção para o fato de que

o Self sempre se “disfarça” ou se “veste” como o arquétipo da fase para qual o progresso deve avançar. Ao mesmo tempo, o arquétipo dominante anteriormente é constelado de tal modo que seu lado “negativo” aparece. (NEUMANN,2000, p. 229)

Assim, podemos dizer que a função religiosa é uma expressão eixo ego-Self, onde a função religiosa se manifestaria orientando e compensando as atitudes do Ego, favorecendo o equilíbrio e desenvolvimento psíquico. Por isso, Jung compreende que os sistemas religiosos podem ser benéficos aos indivíduos. Através das religiões o individuo poderia desenvolver uma atenção conscienciosa aos seus processos internos, por meio das imagens impessoais presentes no conjunto simbólico que compõe cada sistema.Um exemplo dessa relação da religião com os processos psiquicos são os sonhos. Os sonhos sempre foram objeto das religiões, pois, através deles, o divino se manifestava na esfera humana, orientando as ações tanto dos indivíduos quanto dos grupos.

O inconsciente coletivo é uma função dinâmica e o homem deve manter-se em contato com ele. Sua saúde espiritual e psíquica depende da cooperação das imagens impessoais. Essa é a razão principal por que o homem sempre teve as suas religiões.

O que são as religiões? São sistemas  psicoterapêuticos. E o que fazemos nós, psicoterapeutas? Tentamos curar o sofrimento da mente humana, do espírito humano, da psique, assim como as religiões se ocupam dos mesmos problemas. Assim, Deus é um agente de cura, é um médico que cura os doentes e trata dos problemas do espírito; faz exatamente o que chamamos de psicoterapia. Não estou fazendo jogo de palavras ao chamar a religião de sistema psicoterapêutico. É o sistema mais elaborado, por trás do qual se esconde uma grande verdade prática. (JUNG, 2000c, p. 167-8)

– Algumas considerações pessoais…

Ao comentarmos sobre a psicologia analítica e religião, não podemos deixar de fazer um comentário que é pessoal. No geral, as pessoas que não conhecem a teoria junguiana tendem a considerar Jung de religioso ou esotérico. O padre Victor White, que trocou longa correspondência com Jung, tinha um ponto de vista interessante, ele dizia que,

Creio que a amizade de Jung apresenta um desafio muito mais sério e radical à religião tal como a conhecemos do que um dia o fez a hostilidade de Freud. (WHITE apud PALMER, 2001, p.214)

Os que consideram Jung como esotérico ou religioso, desconhecem na verdade que ele era rejeitado pelos teólogos por possuir uma postura subjetivista e considerar que as manifestações religiosas como manifestações psíquicas – o que lhe rendia a acusação de psicologismo.

Acredito que deveríamos julgar a teoria junguiana em seu próprio contexto, isto é, como uma teoria psicológica. Eu já conheci pessoas que inicialmente se interessaram pela psicologia analítica, por Jung respeitar a religião, mas depois  ao compreender que o pensamento junguiano não era religioso, o rejeitaram. É importante compreendermos a seriedade com que Jung pesquisava e trabalhava. Ele tinha como foco a compreensão dos processos psíquicos, para assim, poder contribuir com seus pacientes.  Sua teoria expressa justamente essa preocupação.

Jung e a psicologia analítica não se ocupa de aspectos teológicos, soteriológicos ou escatológicos da religião, isso cabe ao teólogo e ao ministro religioso.  Como teoria e dentro do campo da psicologia a contribuição de Jung é importante por compreender a religião/religiosidade como um elemento natural e próprio do ser humano, isto é, a religião, assim como a arte,  emerge de uma esfera psíquica (arquetípica) saudável, que visa o desenvolvimento ou amadurecimento do homem. A religião se tornaria neurótica na medida que expressasse a neurose de seus lideres, em dogmas e doutrinas.

O respeito que Jung tinha em relação a religião, se estendia a vivência religiosa tanto dos pacientes quanto dos psicólogos/analistas junguianos. Pois, a  vivência saudável da religião/religiosidade expressa o processo de individuação de cada um. 

Referencias:

FILORAMO,G.; PRANDI, C. As Ciências das Religiões, São Paulo: Paulus, 1999.

JUNG,C.G. Psicologia e Religião, Petrópolis,: Vozes 1999a.

JUNG,C.G. Presente e Futuro,  Petrópolis: vozes, 1999b.

JUNG,C.G. Vida Simbólica Vol. I , Petrópolis,: Vozes 1999a.

JUNG,C.G. Freud e a Psicanalise , Petrópolis,: Vozes 1989.

JUNG,C.G. Estudos Alquímicos, vozes: Petrópolis, 2003.

NEUMANN, E. O Medo do Feminino – E outros ensaios sobre a psicologia feminina, São Paulo: Paulus, 2000.

PALMER, M. Freud e Jung – sobre a religião, São Paulo, Edições Loyola, 2001.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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A Psicologia Analítica de C. G. Jung

A Psicologia Analítica de C. G. Jung[1]

A Psicologia Analítica é uma das mais antigas escolas de psicologia contemporânea. Surgindo da interação e divergência do trabalho de Carl Gustav Jung com a psicanálise de Sigmund Freud.

Jung utilizou a expressão “Psicologia Analítica” primeira vez em 1913, no “IV Congresso Internacional de Psicanálise”, em Viena, explicitando que sua forma de compreender tanto a dinâmica psíquica quanto pratica psicoterápica eram diferentes da psicanálise que Freud propunha. Este evento marcou o fim definitivo das relações de Jung com Freud.

Com a separação da psicanálise, Jung conciliou a sua prática clínica com seus estudos em diversas áreas[3] do conhecimento, fornecendo a Psicologia Analítica uma variada fonte de referenciais e fundamentações que fizeram da mesma uma teoria interdisciplinar em sua essência.

2.1 – Uma breve introdução biográfica

“Nosso modo de ser condiciona nosso modo de ver”

(JUNG, 1989, p.324)

Carl Gustav Jung nasceu em 26 de julho 1875 em Kesswill, uma pobre vila de pescadores no cantão da Thurgau, na Suíça. Sua família possuía poucas condições financeiras, pois seu pai era um pastor de um pequeno presbitério na zona rural, sua infância foi marcada pela religião e por discussões teológicas, pois além de pai, sete tios e o avô paterno eram pastores.

Apesar da pobreza financeira, Jung cresceu num ambiente intelectualmente rico, pois seu pai era doutor em filologia e possuía uma biblioteca relativamente rica, onde o jovem Jung passava longas horas. Devemos notar que, já no século XIX, a Suíça tinha um sistema educacional[4] exemplar, no ensino secundário, Jung aprendeu grego, latim, inglês, elementos de álgebra, trigonometria e cálculo e história da civilização. No período de adolescência, Jung se tornou um leitor voraz, se aproximando de Platão, Aristóteles, Kant e Schopenhauer.

Em 1895, aos 20 anos, ingressou na faculdade de medicina da Universidade da Basiléia. Jung demonstrava o maior interesse em “teoria evolucionária” e anatomia comparada, aos domingos dedicava-se ao estudo de Kant, von Hartmann e Nietzsche. Ingressou na Fraternidade Estudantil Zofingia, onde participava de debates e pronunciava conferências no campo da filosofia e teologia. “[…] As conferências pronunciadas em Zofingia revelaram sua fascinação pela filosofia não partilhada por outros psicanalistas eminentes, Freud em especial.” (McLYNN, 2002, p. 59).

Logo ao se formar em 1900, Jung foi trabalhar no Hospital Psiquiátrico Burghözli, sob a orientação de Eugen Bleuler. No Burghözli, Jung desenvolveu pesquisas sobre a, então chamada, dementia praecox, e pesquisas sobre associações de palavras que culminaram na teoria dos complexos de tonalidade afetiva em 1904. Seus estudos sobre complexos o aproximaram dos trabalhos de Freud, pois Jung encontrou elementos que corroboravam a teoria de Freud sobre a repressão, deslocamento, simbolismo e amnésia sistemática.

Jung reconhecia as descobertas de Freud no campo das neuroses, embora não concordasse totalmente com o fato de ser sexual o pano de fundo das neuroses. A característica afetiva ou emocional dos complexos estava mais relacionada a uma “energia” psíquica, que não se podia afirmar ser sexual. Essa concepção nunca se perdeu em Jung, embora somente 1912 ela foi claramente retomada.

Com base em seus próprios estudos, Jung passou a militar junto a Freud. Em 1906  iniciou a troca de correspondência, culminando no encontro em 1907, que durou cerca de 13 horas, dando inicio a uma amizade que duraria, oficialmente, sete anos.

O rompimento entre Jung e Freud foi lento e gradativo.  Em suas Memórias (1975) Jung afirma que o afastamento com Freud se iniciou em 1909, quando viajaram para os Estados Unidos para as comemorações do ducentésimo aniversário da Universidade Clark, e se tornou definitivo em 1912 com a publicação do artigo Metamorfoses e símbolos da libido[5].  Nos dois anos que se seguiram Jung e Freud já não tinham um relacionamento amistoso, em 1914, Jung se demitiu da presidência da IPA (Associação Internacional de Psicanálise), qual foi presidente desde sua fundação em 1910.

A publicação de Símbolos da Transformação, que foi apenas a ponta do iceberg das divergências entre Jung e Freud, que já se acirravam há algum tempo.  Foram vários os fatores que levaram a esta separação, tanto de ordem pessoal quanto teórica. Dos fatores de ordem teórica, como já citamos, estava a teoria da sexualidade, que Jung aceitava somente em parte. Isto era patente desde a publicação da “Psicologia da Dementia Praecox” de 1906, no qual Jung afirmou no prefácio:

[…]Se admito, por exemplo, os mecanismos complexos dos sonhos e da histeria, não significa, de forma alguma, que atribuo ao trauma sexual da juventude uma significação exclusiva, como Freud parece fazer; muito menos que eu coloque a sexualidade em primeiro plano, acima de tudo, ou lhe confira universalidade psicológica que, como parece, é postulada por Freud, pela impressão do papel poderoso que a sexualidade desempenha na psique. (JUNG, C.G. 1999b, p.2).

Anteriormente em 1909, nas comemorações do aniversário da Universidade Clark, ao ser questionado sobre as experiências infantis e seus efeitos na determinação da Personalidade Jung como resposta apontou o modelo de educação dos pais como um determinante da personalidade, não fazendo qualquer menção às teorias freudianas (MULLHAHY, 1978). Antes do rompimento definitivo, foram vários os momentos em que Jung ou se omitiu ou se posicionou contrário ao pensamento freudiano.  Outro ponto que gerava e discordâncias eram os resíduos arcaicos.

A expressão “resíduos arcaicos” foi cunhada por Freud para expressar as “[…] formas psíquicas cuja existência não pode ser explicada pela experiência pessoal, e que representam formas primitivas, inatas e herdadas pela mente humana” (JUNG, 2000a, p.229), que podem ser encontrados em sonhos e delírios de pacientes psicóticos. Esses resíduos despertavam o interesse de Jung, que sempre fora interessando por história, arqueologia e teologia, que via uma clara relação entre esses resíduos comuns da história humana com o cotidiano tanto de pacientes psicóticos quanto neuróticos. Freud, ao contrário, evitava discussões que iam além de suas postulações.

Concomitante com seus estudos os resíduos arcaicos, Jung tornava pública sua forte discordância de sobre a natureza sexual da libido, que foi expressa no livro “Símbolos da Transformação” , de 1912. Nesse livro, Jung fez a análise de alguns poemas de “Miss Miller”, uma jovem americana que após uma viagem à Europa em 1898 desenvolveu uma “perturbação esquizofrênica”[6] Nessa análise Jung demonstrou a intima relação das fantasias que antecederam o surto esquizofrênico com os chamados “resíduos arcaicos”, e por consequência, com a esfera psíquica inconsciente que apresentava um caráter mitológico.

Na segunda parte Jung se dedicou à discussão do conceito de libido de Freud, questionando claramente sua origem sexual e seu papel nas neuroses.  Afirmava que a “[…] libido era um apetitus em seu estado natural. Filogeneticamente são as necessidades físicas como fome, sede, sono sexualidade, e os estados emocionais, os afetos que constituem a natureza da libido” (JUNG, 1999a, p.123). Jung já expunha suas novas concepções sobre a natureza da libido em palestras, como nos EUA, em setembro de 1912, voltando a fazê-las em março 1913.

Nessas viagens aos EUA, Jung visitou hospitais psiquiátricos com o intuito de estudar os delírios e sonhos de pacientes negros. Constatou que não havia diferenças entre os delírios de negros esquizofrênicos e brancos (McLYNN, 2003). Essa constatação foi especialmente importante em sua postulação de um inconsciente que fosse coletivo, comum a toda a humanidade.

Jung reunia dados que cada vez o afastavam mais de Freud. Os resíduos arcaicos, presentes nos delírios tanto de negros e brancos esquizofrênicos quanto de pacientes neuróticos, tinham um caráter mitológico e que pouco se relacionava aos impulsos sexuais. Com o livro “Símbolos da Transformação” Jung inicia seu caminho próprio, como ele mesmo diz no prefácio à quarta edição.

Assim, este livro se tornou um marco, colocado no lugar onde dois caminhos se separam. Por sua imperfeição e suas falhas, ele se transformou no programa dos próximos decênios de minha vida. (…) Este livro foi escrito em 1911, quando eu contava trinta e seis anos de idade. Esta é uma época crítica, pois representa o inicio da segunda metade da vida de um homem, quanto não raro ocorre uma metanóia,uma retomada de posição nada vida. Eu bem sabia, na ocasião, do inevitável  rompimento com Freud, tanto no trabalho como na amizade (JUNG, 1999a, p. XIV–XVII).

Apesar de duas tentativas frustradas de reencontro por parte de Jung no ano 1938, nunca mais eles se encontraram.  A ruptura com a psicanálise e com Freud foi um choque para Jung.

Depois da ruptura com ele, todos meus amigos e conhecidos se afastaram de mim. Meu livro não foi considerado uma obra séria. Passei por místico e desse modo encerraram o assunto. Riklin e Maeder foram os únicos que ficaram a meu lado. Mas eu tinha previsto a solidão e não me iludi acerca das reações dos pretensos amigos. Muito pelo contrário, refleti profundamente sobre o assunto. Sabia que o essencial estava em jogo e que deveria tomar a peito minhas convicções. Vi que o capítulo “O Sacrifício” representava o meu sacrifício. Isso posto, pude recomeçar a escrever, se bem que soubesse de antemão que ninguém compreenderia minhas idéias (JUNG,1975, p.150).

Jung considerou que a repercussão foi negativa, isto porque, frente a clara dissidência de Jung, um grupo de psicanalistas de diferentes nacionalidades fiéis e próximos a Freud criou um comitê para defender a ortodoxia e refutar quaisquer distanciamentos da obra de Freud. Coube a Sándor Ferenczi  criticar ou refutar o trabalho de Jung. Dessa forma, com essa critica negativa e inúmeros ataques aos seus trabalhos, foi inevitável desligamento de Jung das instituições psicanalíticas e o rompimento da amizade com Freud que o levaram a um período de forte instabilidade pessoal. Contudo, Essa crise foi o crucial para o desenvolvimento pessoal e teórico, podemos dizer que Jung foi queimado pelo fogo com o qual trabalhava. Como mais tarde ele escreveria na introdução de seu livro “Psicologia e Alquimia”: “[…] Ninguém mexe como fogo ou veneno sem ser atingido em algum ponto vulnerável; assim, o verdadeiro médico não é aquele que fica ao lado, mas sim dentro do processo” (JUNG, 1994, p.19).

O confronto de Jung com sua própria vida e história, durou cerca de quatro anos, os mesmos da Primeira Guerra Mundial, esse período de relativo isolamento Jung lançou os fundamentos de seus principais conceitos e técnicas, sobre os quais Jung passaria próximas décadas de sua vida desenvolvendo[7].

O livro “Tipos psicológicos” de 1921 marcou o fim do seu período de reclusão. Neste livro, Jung expôs sua compreensão sobre a dinâmica da consciência e apresentou sua perspectiva epistemológica, propondo que a relação do indivíduo com o mundo, isto é, a forma como um sujeito perceberia o mundo dependeria de cercas características do próprio sujeito, que poderiam ser expressas por seu tipo psicológico.

Em outras palavras, seria o mesmo que afirmar que um grupo de observadores poderia registrar o mesmo fenômeno e os registros serem incompatíveis, sem que isso significasse um erro, pois cada um observou fenômeno sob o aspecto que lhe é peculiar. Dessa forma, não haveria a verdade ou a verdade verdadeira, mas sim verdades.

A postura epistemológica apresentada por Jung, inicialmente nos tipos psicológicos e desenvolvida ao longo de sua obra, era incompatível com o modelo de ciência vigente na comunidade científica, isto contribuiu com o preconceito de que Jung não era cientificamente sério ou adequado. Somente nas ultimas décadas do século XX, com o desenvolvimento do paradigma da pós-modernidade é que percebemos que Jung a frente de seu tempo, vislumbrando elementos próprios da pós-modernidade.

Durante a década de 20, Jung se lançou ao mundo através de grandes viagens, indo a África mulçumana, a África negra onde pode ver povos pré-letrados e pré-industriais, e posteriormente foi aos Estados Unidos para conhecer os índios pueblo. Nessas viagens Jung pode por avaliar suas formulações teóricas e por meio da experiência direta com esses povos.

No final dos anos 20, Jung conheceu Richard Wilhelm, que era um importante sinólogo, que traduziu obras chinesas importantes, como o I Ching, o Tao Te King e o “O Segredo da Flor de Ouro”. Este último foi enviado a Jung para este fizesse um prefácio psicológico sobre este que era um livro da alquimia taoísta. As relações entre a alquimia e o inconsciente não eram novidade, pois, já haviam sido discutidas pelo o psicanalista Hebert Silberer. Entretanto, os símbolos presentes no livro O segredo da Flor de Ouro impressionou Jung, levando-o a se interessar pela alquimia ocidental. Marcando os desenvolvimentos futuros da psicologia junguiana.

Nos anos 30, Jung iniciou uma criativa amizade com o físico Wolfgang Pauli, que viria a ganhar o Prêmio Nobel de física em 1945. Esta amizade[8] aproximou Jung da física quântica, e contribuindo para que Jung se adequasse ao paradigma científico que surgia com a física quântica.

Com a ascensão de nazismo na Alemanha, em 1933, Jung, então vice-presidente da Sociedade Médica Internacional de Psicoterapia, cuja sede era na Alemanha, se viu na obrigação de assumir a presidência a pedido então presidente Ernst Kretschmer, que renunciou o cargo por temer o avanço do nazismo, uma vez que era judeu. A aceitação do cargo, fez com que surgissem boatos de que Jung fosse simpatizante do nazismo por assumir a sociedade, esses boatos alimentados por incidentes na administração da sociedade e pelo fato dele ter rompido com Freud. As acusações de anti-semitismo não cessariam mesmo depois de sua morte.

Deve notar dois pontos importantes geralmente negligenciados pelos acusadores, o primeiro é a estrutura da teoria junguiana que afirma que todos os indivíduos são iguais em sua matriz psíquica – tanto que em 1940, a obra de Jung foi proibida e queimada pelos nazistas nos países ocupados; e o fato de Jung ter entre seus colaboradores mais proeminentes judeus, como Erich Neumann, Jolande Jacobi e o editor de suas obras Gérard Adler.

Durante os anos 40, apesar de ter sido um período com a saúde debilitada, Jung produziu importantes trabalhos discutindo a dos símbolos tanto na religião quanto na alquimia. Com desenvolvimento da Psicologia Analítica foi fundado em 1948 o “Instituto C.G.Jung de Zurique”, a primeira instituição de formação de analistas junguianos.

Os anos 50 foram os anos do crepúsculo de Jung. Com a saúde debilitada Jung participava cada vez menos de atividades públicas. Em 1955, nas comemorações do 80º aniversário de Jung, foi fundada a “Associação Internacional de Psicologia Analítica”. Nesse mesmo ano, Emma Jung, sua esposa, morreu de câncer – um golpe que afetou o profundamente.

No final dos anos 50, os editores das obras de completas, apresentaram uma proposta para que Jung escrevesse uma autobiografia. Após um período de recusa, Jung aceitou “colaborar” com uma biografia, desde que fosse escrita por sua secretária, a Aniela Jaffé. A biografia foi composta parte por memórias escritas de Jung e parte por compilação feita por Aniela Jaffé a partir de entrevistas feitas por Jung. Como Jung não considerava que este era um livro seu, assim o “Memórias Sonhos e Reflexões”, publicado postumamente, não faz parte das Obras Completas.

Nesse mesmo período, Jung cedeu entrevistas importantes uma para a BBC de Londres e outra para o projeto do Dr. Richard Evans da Universidade de Houston, EUA, que foram chamadas de “Os filmes de Houston”.  A partir da repercussão da entrevista para a BBC, realizada por John Freeman, surgiu a proposta de que Jung escrevesse um livro acessível ao público leigo.   Após recusar a primeira proposta de escrever um livro para leigos, Jung teve um sonho onde ele estava num local público e falava para uma multidão de pessoas que com muita atenção o ouviam e compreendiam o que ele dizia. Após esse sonho Jung compreendeu que era necessário escrever esse livro e  aceitou a tarefa de produzir um livro para o amplo público, mas, em virtude de sua saúde e idade, estipulou que este deveria ser um trabalho coletivo, para o qual Jung convidou alguns seus principais colaboradores Dra. Marie-Louise Von Franz, Dr. Joseph Henderson, Dra. Jolande Jacobi e Sra. Aniela Jaffé.

Apesar de ter planejado o livro, supervisionado e dirigido o trabalho de seus colaboradores, Jung, não chegou a ver concluso seu último trabalho, pois veio a falecer 10 dias após terminar sua parte, em 6 junho de 1961,  Seus colaboradores concluíram este que veio a ser o último trabalho de Jung e uma das principais introduções à Psicologia Analítica.

Referencias bibliográficas

BAIR, Deirdre, JUNG – Uma biografia V. 1; São Paulo: Ed. Globo, 2006a.

BAIR, Deirdre, JUNG – Uma biografia V. 2; São Paulo: Ed. Globo, 2006b.

______________. Freud e a Psicanálise. Petrópolis: Vozes, 1989.

McLYNN, Frank. Carl Gustav Jung – Uma biografia, Rio de Janeiro: Record: 2 ed., 2002.

______________. Psicogênese das doenças mentais. Petrópolis: Vozes, 3. ed. 1999b.

MULLHAHY, Patrick. Édipo: Mito e Complexo – Uma crítica a teoria psicanalítica. 4 ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1978.

JUNG, Carl Gustav, Memórias Sonhos e Reflexões, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975.

______________. A Vida Simbólica v.1.  Petrópolis: Vozes, 2ed. 2000a.

________________. Estudos Experimentais, Vozes, Petrópolis,  1991a.

______________. Símbolos da Transformação. Petrópolis: Vozes, 3. ed.  1999a.

______________. Psicologia e Alquimia. Petrópolis: Vozes, 3. ed.  1994.

[1] Este artigo corresponde ao segundo capitulo da Monografia “O Lugar da Persona” , apresentado como Monografia apresentada ao Programa de Pós-Graduação — Especialização lato sensu em “Teoria e Prática Junguiana” da Universidade Veiga de Almeida .

[2] Fabricio Fonseca Moraes é psicólogo clínico (CRP 16/ 1257), com orientação junguiana, especialista em “Psicologia Clínica e da Família” e especialista em “Teoria e Prática Junguiana”, com formação em Hipnose Ericksoniana.Contato: fabriciomoraes@psicologiaanalitica.com

[3] Como a filosofia, artes, alquimia, física quântica, história das religiões, teologia, mitologia, arqueologia.

[4] Foram utilizados referencias biográficas McLYNN, 2002; BAIR, 2006a ; BAIR, 2006b; JUNG, 1975.

[5] Em 1952, Jung alterou o título de Metamorfoses e Símbolos da Libido para Símbolos da Transformação,  a partir de agora utilizaremos o título atual.

[6] Jung não teve contato com a paciente, mas apenas com os escritos e comentários publicados em 1906 por Flournoy, que também era amigo de Jung. Contudo, em 1918 Jung teve contato com um psiquiatra americano que tratou Miss Miller, este afirmando que Jung teve uma percepção exata da “mentalidade” da paciente.

[7] Em 1916 Jung escreveu dois artigos “A Estrutura do Inconsciente”(cf. JUNG, 2001b) e  a “A função Transcendente” (cf. JUNG, 2000b), podemos dizer que nesses artigos estão os projetos de desenvolvimento de toda a Psicologia Analítica de Jung.

[8] Que durou até a morte de Pauli em 1958.

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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