Amor, traição e processo de individuação

(11 de junho de 2016)

Fabricio Fonseca Moraes

 

O que é o meu Amor? senão o meu desejo iluminado
O meu infinito desejo de ser o que sou acima de mim mesmo

Viva Vivida, Vinicius de Moraes (1938)

 

Nota: Este texto foi produzido como base para a palestra na I Jornada Junguiana da Multivix, com o tema “Psicologia Analítica e suas implicações na contemporaneidade.

Bom dia! Gostaria de agradecer e parabenizar a faculdade Multivix, sua coordenadora Kirlla Cristhine Almeida Dornelas e ao professor Raphael do Amaral Vaz pela organização desta jornada. Foi nos proposto o desafio de falar sobre Amor, Traição e Processo de Individuação.

Começando pelo amor, é necessário dizer que o amor é mistério.  Jung afirmou em suas memórias que “Tanto minha experiência médica como minha vida pessoal colocaram-me constantemente diante do mistério do amor e nunca fui capaz de dar-lhe uma resposta válida” Jung, 1975, 305). O fato de não haver uma resposta válida, pode significar que muitas respostas são possíveis e válidas. Assim, não tentarei definir ou conceituar de forma estrita, mas, pensar no amor como um fenômeno, que se manifesta, que percebemos, mas, que não se dobra a linguagem objetiva.

Quando falamos de Amor ou Eros (como é mais comum na linguagem psicológica) somos “quase que” obrigados a visitar a Platão, em seu simpósio ou “banquete”, ele afirma pela boca de Sócrates, citando Diótima, diz que o Amor é um daimon que intermedia a relação entre mortais e imortais (deuses).

Essa compreensão de Platão é interessante pois, expressa de forma mítica uma das características mais basais e fundamentais desse fenômeno que denominamos Amor:  é uma função de integração psíquica que, não só intermedia, mas possibilita a relação Ego-Self (ou Ego-Si-mesmo) assim como a relação Ego-Outro. O amor se manifesta como uma função do self que une, integra e centraliza a dinâmica psíquica – seja ela relacionada com a realidade interior ou a realidade exterior.

Nessa mesma perspectiva, Adolf Guggehnbul-Craig, no livro “Eros on Crutches” – que posteriormente foi relançado com o titulo “The Empty Soul” –   nos chama atenção para um o fato de que Eros “humaniza os arquétipos” temperando suas qualidades absolutas ele afirma

O guerreiro sem Eros é um mercenário brutal, um absurdo assassino em massa , um exterminador demoníaco . Com Eros, o guerreiro luta para defender os valores que são importantes para ele, estando pronto para dar a sua vida pelos outros ou por ideais mais elevados . O Trisckster sem Eros é apenas um enganador e mentiroso, um impostor. Com Eros, o trisckster é surpreendente, estimulante , não preso a conveções e rotinas, mas continuamente revelando novas faces de si mesmo e abrindo possibilidades inexperadas para aqueles que o rodeiam . Ele é brincalhão e encantador.(Guggenbhul-Craig, p.27- tradução nossa) [1]

Acredito que falar do Trickster pode gerar algumas dúvidas, pois, não temos um termo adequado para Trickster, mas, duas representações bem conhecidas em nossa cultura são o gato de Cheshire e o Capitão Jack Sparrow.

Eros ou Amor humaniza os arquétipos, ele os humaniza na medida que integra e harmoniza suas dinâmicas arquetípicas às necessidades do Ego, de forma saudável e construtiva. Essa humanização torna o ujhamor muito próximo a outro arquétipo, ou dinamismo arquetípico, que é a alteridade[2] – que geralmente é percebida a partir da concepção clássica Anima e Animus, que desde os anos 70 e 80 vem sendo repensados, pois, o aspecto contrassexual expressa na verdade o “totalmente outro ou diferente” da identidade do Ego.  mas, na verdade é uma função que possibilita a compreensão integra o polo “Outro” seja ele interno (como a dinâmica do Self) ou externo (como a compreensão mais adequada da realidade do Outro).

A relação Eros e Alteridade é tão intensa que quando projetada, a experiência de lidar com o outro se torna como lidar com a própria alma. Por isso, o a projeção da “anima/animus” como vemos classicamente é revestida de um brilho especial, como se o outro fosse de fato, parte de nós mesmos.

Muitas vezes pensamos na relação amorosa como condicionada pela projeção da anima/us. E, de fato, em algumas situações é (geralmente mais exageradas e incontroláveis), mas, não é possível condicionar o amor a uma projeção. Como disse anteriormente, o Amor integra os elementos da vida psíquica, ou seja, integra tanto os objetos internos quanto os objetos externos, atribuindo um sentido afetivo próprio. Quando retiramos a projeção podemos amar o objeto e integra-lo a nossa realidade pelo que ele é. Até nesse ponto, falamos de uma perspectiva, olhando o psiquismo pela via da dinâmica psíquica, quando pensamos pela via da experiência do Ego, da vivência do amor, outros aspectos interessantes que eu gostaria de pensar um pouco com vocês.

– O amor nos coloca diante de um dilema moral, pois, elimina a fronteira do bem e do mal. Aldo Carotenuto, no livro Eros de Pathos, fala que o “amor é portanto uma centelha do divino – e com esse termo entendo uma força que encerra em si ambos os pólos da dicotomia maniqueísta bem-mal”(Carotenuto, p. 22). Não é incomum pessoas “mentirem” ou “enganarem” outras por amor. Em outras situações, é possível termos crimes mais graves como roubos e até homicídios em nome do Amor. Sob certos aspectos, poderíamos dizer que o amor infla o Ego, colocando-o para além de suas possibilidades. (Vide Anakin, que escolheu o lado negro da força por amor a padmé) Mas, devemos tomar muito cuidado em não confundir as escolhas guiadas pelo amor das escolhas feitas pelo poder. Tratar uma mulher como propriedade, posse – agredindo ou mesmo chegando a morte –  não faz parte da dinâmica do amor, mas, do poder. Nesse sentido, os relacionamentos sem amor, são mais próximos da psicopatia. Infelizmente, confundimos muito as relações de poder com amor, essa confusão se dá por nossa cultura machista, patriarcal que durante séculos subjugou a mulher colocando-a num lugar de propriedade do homem. O machismo e o sexismo são exercícios de poder, cada que somos machistas ou sexistas(ou com outros tipos de preconceitos) nos distanciamos do amor, nos desencontramos do amor e de uma relação integradora e saudável com o, e nos colocamos numa posição de domínio que tende sempre a degradar a outra parte.

– Todo discurso sobre o amor é sempre um discurso sobre si mesmo(ibid p. 27) O Amor se refere sempre a nossa interioridade, que quem somos de forma mais sincera. Esse é um dos aspectos mais interessantes, no amor e através do amor nós vemos a nós mesmos, não é o amor exatamente pelo Outro em si mesmo, mas, pelo o que o Outro suscita em nós.

Renato Russo na música La Nouva Gioventú expressa essa noção de forma interessante, ele diz “Com você por perto eu gostava mais de mim” – Infelizmente o que acontece é que estamos tão inconscientes da relação com nós mesmos que não percebemos que a relação com o outro está relacionada com a relação que temos com nós mesmos – por isso mesmo, um relacionamento patológico, abusivo, espelha uma relação inadequada do indivíduo consigo mesmo.  Nesse sentido, o mandamento de Cristo “amarás o teu próximo como a ti mesmo” se revela uma verdade psicológica válida.

– O amor altera nossa percepção da realidade – Quando estamos mobilizados pelo amor, nossa percepção do tempo, nossa percepção do objeto amado é alterada. Por isso, a percepção do amor infinito, definitivo, eterno é uma distorção possível, mas, que não se restringe a durabilidade do fenômeno, mas, também percepção da realidade dos objetos – sejam eles pessoas ou coisas – isso se dá pelo direcionamento de nossa atenção, guiada pelo fascínio gerado pelo objeto.

Sob certo aspecto a percepção do objeto de amor se torna parcial, sendo direcionada aos aspectos positivos, belos e aprazíveis – negando os aspectos negativos, produzindo sombra no objeto. A dificuldade de integrar a totalidade do objeto amado, gera o aumento de expectativas e por isso mesmo, aumenta a possibilidade erros de julgamento.

O amor nos impele a totalidade – Essa é uma característica importante porque nos faz sentir-nos incompletos, incapazes e dependentes/. Não podemos perder de vista que o Ego, como principal deintegrado do Self, guarda uma relação fundamental com Self, devemos lembrar que a dinâmica natural do Self, compreende a deintegração e a reintegração, no caso do Ego, não há uma reintegração propriamente dita, há uma relação especial que pode ser compreendida ou nomeada como “processo de individuação” ou “eixo ego-self”. Assim, através do amor o ego tem um vislumbre da totalidade, e se lança desejante desta possibilidade, por isso as palavras de Vinicius de Moraes são tão precisas quando diz que o amor é o “O meu infinito desejo de ser o que sou acima de mim mesmo”, vislumbrando a totalidade somos impelidos nessa busca.

Vamos falar um pouco sobre a traição. Quando falamos de traição devemos ter em mente uma concepção ampla – que envolve tanto relacionamentos com outras pessoas quanto com instituições, valores. Do mesmo modo, a traição obviamente deve ser percebida sob dois aspectos fundamentais : um social e outro individual.

Quando me refiro ao social, eu me refiro a uma cultura onde trair se tornou banal. Crescemos vendo traições em novelas, quadrinhos, filmes e séries. Trair a família, amigos, valores ou pessoas amadas se tornou uma opção, a traição não tem maiores consequências sociais, em tempos passados a traição tirava a honra de uma pessoa, a trair era um estigma sério (especialmente no que diz respeitos a relação entre amigos, familiares e da mulher com o homem, no caso homem, dada a cultura machista, era permitido trair a mulher). Juntamente com essa banalização temos uma realidade onde os relacionamentos muitas vezes são vistos como temporários, sem o comprometimento real, assim, a cultura sanciona a traição. Mas, não vamos nos estender nesse aspecto.

Quando falamos de traição no contexto da psique do individuo, devemos considerar:

– Poder: Falo tanto do poder, justamente pois, Jung afirmava que psicologicamente, o oposto do amor é poder. O desejo de se afirmar, o desejo se impor, ser alguém frente aos outros. Nessa categoria temos três possibilidades a traição em relacionamentos que se dão na ordem do poder, do domínio, na primeira não há uma consideração efetiva pelo outro, a traição é mais uma conquista, na segunda a traição se dá pela incapacidade do indivíduo enfrentar o termino de um relacionamento, seja por imaturidade, o indivíduo trai por não se sentir capz de um enfrentamento saudável, do termino do relacionamento, nesse caso tomado pelo sentimento de inferioridade, o indivíduo busca um apoio. Uma terceira possibilidade, também interessante mais, é quando o poder compete com o amor. É numa relação onde no relacionamento há amor, mas, na relação do indivíduo consigo mesmo, ele trai como uma forma de lidar com o próprio sentimento de inferioridade e outros. Nesse caso a traição ou traições são acompanhadas por sentimento de culpa.

A traição de si mesmo: Talvez esse seja o aspecto mais pertinente para pensarmos a traição. Muitas vezes o indivíduo em suas escolhas e ao longo da sua vida se traiu de tal forma, se identificando com exigências externas e se desligando de si mesmo, nesse caso, essa traição interior, essa alienação de si-mesmo. Esse estado de alienação se dá muitas vezes, pela adoção de uma atitude da consciência unilateralmente rígida, onde, o indivíduo se prende num relacionamento, numa instituição, num grupo, e nesses casos pode ser que uma traição exterior se faça necessária como uma forma de libertação, a traição do outro (seja uma pessoa, instituição ou valores) seria um caminho para sanar a traição interior.

Não podemos perder de vista, o fato que trair nas situações que nos referimos, no geral, tem um aspecto de positivo, uma necessidade. Contudo, não podemos perder de vista que há sempre o traído, há sempre sofrimento envolvido na traição ou mesmo para quem trai.

Onde que entraria o processo de individuação? O processo de individuação é um processo de desenvolvimento que começa desde que nascemos e se estende até nossa morte. Jung descreve a individuação como “torna-se si mesmo”, e este processo de se tornar quem se é, é em si um processo amoroso,  um processo de integração, de honestidade e consideração profunda consigo mesmo e com a realidade circundante, isto é com os outros.

A maior parte dos efeitos, vamos dizer, “negativos” do amor, do poder e traição se relacionam a inconsciência que o indivíduo em relação a si mesmo. Ou seja, quanto mais inconsciente ou alienado de si mesmo, mais vulnerável o indivíduo se torna às dinâmicas do inconsciente ou a relações abusivas.

Poderíamos falar de individuação como um processo de amadurecimento, onde através da integração dos polos persona-anima, assim como da sombra, torna-se possível a percepção das dinâmicas inconscientes, possibilitando o indivíduo experimente o amor de forma construtiva, deixando de ser apenas levado pela intensidade desse amor que se impõe inconsciente, mas, se tornando responsável pelo amor – tanto de si mesmo quanto pelo amor em relação ao outro.

A individuação exige conhecimento, autoconhecimento e isso só se adquire vivendo, amando, sofrendo e voltando a amar. Em todas as experiências que vivemos, uma parte do quebra-cabeça que somos se revela.  Como dizia o Poeta,

Quem já passou

Por esta vida e não viveu

Pode ser mais, mas sabe menos do que eu

Porque a vida só se dá

Pra quem se deu

Pra quem amou, pra quem chorou

Pra quem sofreu, ai

 

Quem nunca curtiu uma paixão

Nunca vai ter nada, não.

(Vinicius de Moraes)

 

Referências

CAROTENUTO, Aldo. Eros e Pathos: amor e sofrimento. São Paulo, Paulus Editora, 1994.
Guggenbühl-Craig, Adolf. Eros on crutches – on the nature of the psychopath, Dallas, Spring Publications, 1986.

JUNG, C. G., Memórias Sonhos e Reflexões, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975

 

 

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[1]The Warrior without Eros is a brutal mercenary, a senseless massmurderer, a demoniac exterminator. With Eros, the warrior fights to defend values which are important for him, ready to lay down his life for others or for higher ideals. The Trisckster with Eros is but a commom cheat and liar, an imposter, a con-artist. With Eros, the trisckster is surprising, stimulanting, not bogged down in convention ou routine, but continually revealing new sides of himself and openning unexpected vistas to those around him. He is playful and charming.

[2] Vide Anima, Animus e Alteridade – Revisão do texto de 05/04/2010

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana. Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 99316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

www.psicologiaanalitica.com

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Alguns comentários introdutórios ao estudo do livro “Psicologia e Alquimia” de C. G. Jung

No mês de agosto de 2015, iniciamos o estudo do livro “Psicologia e Alquimia” do Jung no Grupo Aion. Em nosso primeiro encontro fiz alguns comentários sobre a importância da alquimia, especialmente no que tange a relação dos estudos de alquimia com o uso de técnicas expressivas, associando com a nossa prática clínica cotidiana. Assim, neste texto, eu gostaria de desenvolver um pouco do que conversamos nesse encontro, fazendo alguns comentários que foram feitos no grupo e acrescentando outros de forma a fazer uma aproximação ao “Psicologia e Alquimia”.

A alquimia de desenvolveu no ocidente a partir da aproximação da mística arte da metalurgia – relacionada com a mitologia celeste devido os meteoritos que foram encontrados e trabalhados ao longo da história humana – com a mística helenística, onde se encontravam diferentes tradições sejam elas cristãs, egípcias, gregas e muçulmanas. O termo Alquimia viria do grego Kemia , o negro associada com o prefixo Al, que indicava o Egito(chamado pelos gregos de país negro) como sua origem. Por isso a alquimia era chamada também de “arte negra”.

Durante um longo período da idade média, muito do conhecimento da antiguidade desapareceu do ocidente, vindo a ser redescoberto posteriormente – esse conhecimento foi preservado pelos muçulmanos, posteriormente, que posteriormente foi sendo traduzido para o latim. Na medida em a base empírica foi se separando da base espiritual, isto é, a alquimia foi se tornando química, a alquimia foi perdendo espaço.

Na perspectiva da psicologia do inconsciente o primeiro a perceber na alquimia como um material rico de estudo foi Herbert Silberer, um psicanalista vienense que publicou o livro “ “Probleme der Mystik und ihrer Symbolik” em 1914, onde analisava a alquimia e outras tendências místicas, pelo viés da psicanálise. Silberer relata que teve contato com um texto alquímico “A Parabola” e percebeu que era semelhante aos mitos e sonhos. Jung teve contato com esta obra de Siberer, contudo, o primeiro contato efetivo com a alquimia foi em 1928 , quando recebeu o livro “O Segredo da Flor de Ouro” traduzido por Richard Wilhelm que apresentava um texto de alquimia chinesa. Wilhelm solicitou que Jung fizesse uma introdução psicológica ao texto.

Jung relata em suas memórias que em 1930 solicitou ao um livreiro de Munique livros de alquimia, cujo contato inicial foi bem difícil. Posteriormente, a coleção de Jung de livros de alquimia veio a se tornar a maior coleção particular de livros de alquimia. Vale a pena ressaltar a psicologia analítica já estava consolidada em seus aspectos teóricos fundamentais quando Jung começou seu contato com a alquimia, ou seja, os conceitos junguianos não derivaram da alquimia, mas, foi justamente a similaridade dos estudos de Jung com o que ele encontrou na alquimia que o fascinou. Assim, estudo da alquimia se desenrolou a partir da década de 30 e representou uma ampliação da compreensão que Jung tinha da psique coletiva. A alquimia ofereceu a Jung um material rico, diverso e objetivo com o qual ele poderia confrontar suas observações sobre inconsciente com estes registros históricos.

Em suas memórias, Jung afirmou

Vi logo que a psicologia analítica concordava singularmente com a alquimia.  As experiências dos alquimistas eram minhas experiências, e o mundo deles era, num certo sentido, o meu. Para mim, isso naturalmente uma descoberta ideal, uma vez que percebi a conexão histórica com a psicologia do inconsciente. (…) Estudando os velhos textos, percebi que tudo encontrava seu lugar: o mundo das imagens, o material empírico que colecionara na minha prática, assim como as conclusões que disso havia tirado. (JUNG, 1975, p. 181)

Acredito que, talvez, a maior dificuldade no estudo da psicologia da alquimia seja compreender a afirmação “as experiências dos alquimistas eram as minhas experiências” e identifica-las como nossas experiências. Sim, acredito que seja fundamental compreendermos que a alquimia é uma impressão da psique na história, codificada em símbolos e narrativas elaboradas, e que os mesmos processos arquetípicos que impulsionam os alquimistas são os mesmos que continuam ativos no homem contemporâneo, isto é, em nós.  Assim, as experiências dos alquimistas são também nossas experiências. Sim acredito que nossas preocupações como psicólogos e analistas junguianos são, por analogia, as mesmas que norteavam os antigos alquimistas. Vamos ver três pontos fundamentais nessa relação

a) A relação espirito-matériamercurius

Os alquimistas buscavam libertar o “espirito da matéria” normalmente designado por “Mercurius”(FRANZ, 1992) para tanto lançavam mão de uma série de operações. Hoje compreendemos que eles vivenciavam seu próprio inconsciente projetado na matéria, os fenômenos observados na matéria correspondiam a dinâmica psíquica inconsciente. A matéria era tão desconhecida do alquimista que possibilitava seu preenchimento ou sua mudança de significado dada a projeção.

Na prática clinica, por um lado o problema espirito-matéria é vivenciado em alguns casos de fobia, em casos de TOC, em somatizações e mesmo no consumismo (dentre outros).Nesses casos vemos como a psique fecunda a matéria tornando-a ou amedrontadora, ou portadora de segurança ou mesmo alterando o funcionamento natural. Assim, seja na projeção ou somatização (lembrando que a alquimia indiana se fundiu com algumas formas de yoga, se caracterizando pelas operações que lidavam com o processo corporal).

 Por outro lado, temos no fenômeno da projeção que é fundamental nas técnicas expressivas, sandplay, dentre outras, que possibilita que conteúdos psíquicos sejam elaborados na matéria.

 

b) A Opus

Na prática a Opus, a Obra, era o centro do trabalho do alquimista, pois, era através da Opus que ele atingiria seus objetivos. A Opus era um trabalho árduo, o texto alquímico Turba Philosophorum, diz que Todos os que buscamos seguir essa arte não podemos atingir resultados úteis senão com uma alma paciente, laboriosa e solícita, com uma coragem perseverante e com dedicação contínua” (EDINGER, 2005, p.25). Os estágios da Opus(nigredo-albedo-rubedo),  assim como as operações( Calcinatio (calcinação) Solutio (solução) Elementorum separatio (separação dos elementos), Putrefactio / Mortificatio (putrefação) Coagulatio (coagulação), Sublimatio (sublimação) Coniunctio (conjunção)) realizadas de fato na matéria, mas, com um significado psíquico profundo análogos ao processo de individuação.

A respeitos das etapas da alquimia Marie-Louise von Franz comenta1

Na primeira fase, nigredo, o material inicial (prima matéria) é dissolvido, calcinado, pulverizado e lavado ou purificado. Trata-se de um estágio perigoso, em que costumam desenvolver-se vapores venenosos, bem como ocorrer envenenamentos por chumbo ou mercúrio ou explosões. Segundo antigos textos, vive no chumbo “um demônio impudico que pode causar uma enfermidade do espírito, ou alienação mental”. O operador sente-se confuso, desorientado, sucumbindo a uma profunda melancolia ou sentindo-se transportado à camada mais profunda do inferno. O nigredo tem seus paralelos no processo de individuação, no confronto com a sombra.(…)

No trabalho alquímico, o nigredo é seguido pelo albedo. Esse estágio corresponde, no processo de individuação, à integração dos componentes contrassexuais interiores, a anima no caso do homem, e o animus no da mulher. (Como quase todos os textos alquímicos foram escritos por homens, o albedo costuma ser descrito como o estágio “em que a mulher reina e a luz da lua aparece”. (…)

No procedimento alquímico, rubedo ou citrinitas (avermelhamento ou cor de ouro) segue o albedo. Nessa fase, o trabalho chega ao fim, a retorta é aberta e a pedra filosofal começa a irradiar o efeito de cura cósmico. Ele une todos os opostos em si e junta os quatro elementos do mundo.32 Também o self, que se faz realidade no processo de individuação, é o homem mais amplo, o homem interior, que direcionado para a eternidade, o anthropos descrito como esférico e bissexual e que “representa a mútua integração do consciente e do inconsciente”. (FRANZ, 1992, p. 181-3)

As operações foram cuidadosamente comentadas por Edward F. Edinger no livro Anatomia da Psique, onde ele faz um comparativo do processo de psicoterapia e as operações alquímicas. Não há a menor dúvida de que as operações alquímicas, como símbolos e metáforas, nos possibilitam uma melhor compreensão dos processos simbólicos do inconsciente.

Compreender a simbologia alquímica das fases e operações nos possibilita compreender as narrativa, sensações e sintomas – igualmente simbólicos. Notamos que muitos se perdem ao longo da analise justamente por não exercitar o estudo de simbolismos – vale lembrar que estudar os trabalhos de alquimia nos conduz ao estudo do simbolismo religioso presente na mesma.

c) A pedra filosofal

A pedra filosofal ou elixir da vida eram a meta dos alquimistas. A pedra filosofal tinha um lugar importante no imaginário dos alquimistas, pois, nela estariam reconciliados todos os elementos e, por isso, frequentemente é associada as “núpcias químicas” ou o “casamento real”.  Psicologicamente a pedra filosofal é associado ao Self. Segundo Jung, o Self era o ponto de partida e a meta a ser alcançada no processo de individuação

o trabalho chega ao fim, a retorta é aberta e a pedra filosofal começa a irradiar o efeito de cura cósmico. Ele une todos os opostos em si e junta os quatro elementos do mundo. Também o self, que se faz realidade no processo de individuação, é o homem mais amplo, o homem interior, que direcionado para a eternidade, o anthropos descrito como esférico e bissexual e que “representa a mútua integração do consciente e do inconsciente”.(FRANZ, 1992, p.182)

A pedra filosofal como expressão do self indica a meta do desenvolvimento psíquico, a integração dos opostos.

***

Compreender a dinâmica e simbolismo alquímico é importante para uma compreensão profunda da psicologia junguiana. Como disse no inicio, considero fundamental compreendermos, assim como Jung, que as experiências dos alquimistas são as nossas.

labor

Referências

EDINGER, E. F, Anatomia da Psique, Cultrix, São Paulo,4ed. 2005.

Franz, M-L, von , C.G.Jung – Seu mito em nossa época, Cultrix: São Paulo, e1992

JUNG, C. G., Memórias Sonhos e Reflexões, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975

Entorno da anima e animus – algumas reflexões sobre machismo e atualidade

Nota: Esse texto pode ser visto como complementar ao texto Anima, Animus e Alteridade – Revisão do texto de 05/04/2010

Recentemente, nos estudos no Grupo Aion nos debruçamos sobre o conceito de Anima e Animus a partir da leitura do texto “O Eu e o Inconsciente” do Jung. A discussão tocou em pontos importantes como em torno do machismo presente na apresentação do conceito e acerca da atualidade dos conceitos de anima e animus. Gostaria de trazer um pouco dessa discussão. Comecemos por uma questão importante:

Jung era machista?

Sim! Jung era machista. Não quero justificar esse fato ou minimizar essa afirmação, pois, acredito que é uma informação importante para termos uma crítica histórica da psicologia analítica. Mas, para termos essa visão mais clara, devemos considerar que Jung foi um homem nascido em 1875, como se não fosse suficiente viver numa sociedade conservadora como a suíça, era filho de pastor e tinha vários outros pastores na família. Assim, Jung era tão machista quanto a média das pessoas de sua sociedade. Apesar de termos cerca de pouco mais 200 anos de ações e discussões em prol de uma igualdade de gênero, no início do século XX, quando Jung escreveu o “O Eu e o Inconsciente” (a primeira versão foi de 1916 e a última revisão foi 1934) o movimento feminista ainda estava conseguindo suas primeiras vitórias em torno do direito do voto e das primeiras legislações em prol da igualdade de gênero.

Reconhecer o machismo de Jung é importante para não torná-lo um “machismo junguiano”. É fato que em muitos escritos de Jung transparecem o machismo e o patriarcalismo de sua época. Contudo, não devemos confundir isso com misoginia. Jung foi conhecido por ter em torno de si um grupo fiel e super capacitado seguidoras, mulheres geniais que conheceram e compreenderam sua psicologia de forma impar. Maggy Anthony no livro “As mulheres na vida de Jung” busca resgatar um pouco da história e da importância dessas mulheres para o desenvolvimento da psicologia analítica que foram interlocutoras, analistas, pesquisadoras, professoras e pioneiras fundamentais para o desenvolvimento junguiano. Mulheres como Toni Wolff, Marie-Louise von Franz,(que foi a mais importante das colaboradoras de JUNG), Jolande Jacobi (que foi uma as responsáveis pela abertura do Instituto C.G.Jung de Zurique), Mary Esther Harding, que foi uma pioneira junguiana no EUA, Olga Frobe-Kapteyn criadora das Conferências Eranos, Barbara Hannah, Emma Jung e muitas outras colaboraram com Jung e, de certa forma, possibilitaram toda a organização da psicologia analítica.

Imagens da Alteridade

A expressão mais evidente desse machismo no contexto junguiano são os conceitos de Anima e Animus. Não que os conceitos fossem deliberadamente criados na forja do machismo patriarcal, mas, Jung desenvolveu esses conceitos sem uma crítica ao sistema machista no qual ele mesmo estava imerso. Não quero dizer que o conceito seja machista, mas, que ele expressa um machismo cultural. Devemos lembrar que Jung partiu de sua experiência pessoal e clínica para codificar seus conceitos e, deste modo, por estarem todos (Jung e seus pacientes) imersos numa sociedade conservadora, machista e patriarcal as representações coletivas desse arquétipo se manifestavam de acordo nesse referencial cultural.

Para nos recordarmos do conceito de anima e animus, em seu processo de constelação, vejamos como Erich Neumann descreve esse processo de forma muito perspicaz.

Enquanto a disposição natural de todo indivíduo o inclina a uma bissexualidade física e psíquica, o desenvolvimento diferencial da nossa cultura força-o a deslocar o elemento contra-sexual para o inconsciente. como resultado, a consciência só aceita o tipo de caráter que a valoração coletiva considera correspondente às características sexuais externas. Assim é que as características “femininas” e “relativas à alma” são consideradas indesejáveis num garoto, pelo menos na nossa cultura. Tal acentuação unilateral da sexualidade específica de cada pessoa termina por constelar o elemento contra-sexual no inconsciente, na forma da anima, nos homens, e do animus, nas mulheres; a anima e o animus, sendo figuras parciais que permanecem inconscientes, dominam a relação do inconsciente com a consciência. Esse processo é apoiado pelo coletivo e, como a repressão do lado contra-sexual é frequentemente difícil, a diferenciação sexual é de início acompanhadas pelos modos típicos de antipatia com relação ao sexo oposto. Também esse desenvolvimento obedece ao princípio geral da diferenciação, que pressupõe o sacrifício da totalidade, aqui representada pela figura do hermafrodita.(NEUMANN, 1995, p.386)

Acredito ser fundamental observar nesse texto, a influência da consciência coletiva, ou dos valores culturais, na formação da Anima e Animus – definindo sua forma de manifestação. Essa concepção considera  a cultura de forma homogênea e com os papéis de feminino altamente diferenciados, ou seja, acaba sendo um recorte de um dado período.

Nesse contexto, a anima foi associada a afetividade e atributos do feminino e o animus associado ao princípio do Logos, da razão e masculinidade. Gerando uma dicotomia que poderia ser expressa dizendo que na consciência do homem estariam plenamente desenvolvidos e adaptados os valores coletivos da masculinidade, assim como na mulher todos os valores do feminino estariam plenamente desenvolvidos e adaptados. O fato é que na prática isso não se comprova. Essa concepção deriva de uma cultura machista e sexista. Segundo Samuels,

É importante levar em consideração o que sabemos da experiência clínica: imagens relativas à masculinidade, que estavam inconscientes, são frequentes no material analítico dos homens. Do mesmo modo, a feminilidade não é uma questão puramente consciente para a própria mulher, como Jung o afirma. Jung, aqui, foi vítima de sua própria posição de oposicionismo; nesse caso, entre consciência e inconsciência. Mulheres e homens têm, respectivamente, uma feminilidade e uma masculinidade inconscientes. (Samuels, 1989, p. 255)

A percepção do machismo que atravessa a concepção da anima e animus não invalida o conceito, mas, exige uma reflexão mais profunda e uma adequação às exigências da contemporaneidade, ou seja, as mudanças em nossa sociedade, por exemplo, se considerarmos a mulheres responsáveis pela família, que segundo analises do último senso demográfico de 2010, correspondem a 37,30 % das famílias nucleares brasileiras (IBGE, 2014), esse número se eleva para 87,40% das famílias monoparentais. Poderíamos citar também o movimento LGBT que vem ganhando espaço em nossa cultura. Nós temos um cenário muito diferente daquele que Jung conheceu, apesar de muitas dessas mudanças terem início nos dias de Jung – vide suas colaboradoras.

Compreender essa necessidade de mudança implica em tornar mais claras as diferenças entre representação coletiva da anima/animus e sua função psíquica. Para muitos pode parecer óbvia essa distinção, contudo, tenho venho observando que esta distinção não é clara tão assim. Quando consideramos a representação coletiva a descrição clássica compreende que a anima se manifesta no homem como uma figura feminina numinosa, na mulher o animus de manifestaria numa pluralidade de imagens masculinas. Bem, por serrm imagens opostas a identidade de gênero do Ego, complementando esta última, foi considerada uma “função contrassexual”, Samuels (1986) nos chama atenção que a contrassexualidade diz respeito apenas caráter de alteridade – isto é, o inconsciente como um Outro e não a especificidade de gênero em si.

A forma como um arquétipo se constela depende da cultura onde o indivíduo se encontra. A forma de manifestação descrita por Jung é própria de uma sociedade machista e patriarcal. Nos chama atenção que ao longo de nossa história ocidental, as relações do homem com o feminino passavam de em torno mais ou menos linear, num primeiro momento da figura de feminina a mãe, posteriormente, em outro nível a mulher que lhe despertasse o fascínio e o desejo sexual, ou então, a musa inspiradora ou a “mulher amada” exercia influência sobre o homem, mas, de forma privada. No caso da mulher, as relações históricas com o masculino passavam fundamentalmente pela submissão ao pai, irmãos, tios e todos os demais homens. Acredito que esses aspectos devem ser levados em consideração para não identificarmos o momento cultural de representação do arquétipo com o elemento funcional do arquétipo em si.

Numa conversa com a analista Mary Esther Harding, Jung afirmou “ um homem deve adotar uma atitude feminina, enquanto uma mulher deve combater seu animus, uma atitude masculina (…)”  (McGuire, Hull, 1984, p. 42). Me parece que a fala de Jung como uma compensação interna necessária a realidade da consciência coletiva. O homem deveria acolher o feminino que era/é coletivamente desvalorizado e por outro lado, a mulher deve combater essa configuração do masculino que lhe é imposta culturalmente, de modo a valorizar o feminino.  Jung observou que haveria uma tendência natural a integrar e equilibrar os princípios de masculino e feminino que compõem a experiência humana, reforçando a ideia da sizígia (a união do masculino e feminino) como expressão do Self que deveria ser valorizada.

Acredito que por mais que Jung tivesse uma intuição capaz de perceber que o psiquismo visa a sizígia, isto é, essa integração equilibrada do masculino e feminino, o machismo patriarcal da cultura ainda falava alto demais, a tal ponto, que não lhe era possível vislumbrar outros movimentos coletivos. Acredito que ainda temos configurações de anima e animus similares aos dias de Jung, pois, vivemos numa sociedade ainda machista e patriarcal, mas, não podemos desconsiderar novas possibilidades constelações frente as mudanças que estamos vivemos nos últimos 40 anos.

Dessa forma, eu prefiro prefiro adotar a terminologia da alteridade para falar da anima e animus, pois, em seu aspecto fundamental, o inconsciente se personificaria como um Outro (SAMUELS, 1989), totalmente distinto e numinoso. Esta personificação que possibilitaria que, de forma objetiva, houvesse um meio de relação do Ego com as imagens interiores da psique coletiva.  Assim, a função deste arquétipo é possibilitar a relação com o inconsciente de forma mais adequada – que se refletiria também numa relação com a realidade exterior também adequada. É importante ressaltar que para Jung a Anima/us possuem uma função similar e oposta a da persona. Esta última, tem a função de possibilitar uma adaptação mais adequada ao mundo exterior, já a anima/us teriam a função de viabilizar o contato mais adequado com o mundo interior.

Integrando a Anima e Animus

Como um arquétipo em si permanece teoricamente invariável, apenas sua representação se transformaria de acordo com cultura, uma das possibilidades seria considerar o arquétipo em sua totalidade, isto é, tomando como ponto de partida a sizígia.

As mudanças culturais contemporâneas se concentram sobre gênero, sexo e casamento. Há uma nova atmosfera, e talvez as lutas sociais e políticas das mulheres contribuam para isso. Penso que podemos adaptar a idéia de que o animus e a anima existem, igualmente para homens e mulheres, e dizer que vivemos num mundo da anima, num mundo animado. (SAMUELS, 1989, p.270)

Considerar a possibilidade da anima e do animus serem constelados tanto em homens e quanto mulheres podemos acolher de forma mais ampla a autonomia do inconsciente, compreendendo que numa sociedade cada vez mais diversa o inconsciente pode ser manifestar de formas diferentes. Essa possibilidade implica também em considerar uma amplitude de papéis do ego, não mais identificado unicamente ou com o masculino ou com o feminino. Ou seja, esta mudança não diz respeito apenas ao inconsciente, mas, uma mudança no ego, pois, falamos de um processo consciente de integração masculino e feminino, isso não significa uma perda, mas, uma compreensão mais ampla da consciência.

Em essência, o caminho para o homem andrógino não tradicional, que pode aceitar qualidades tradicionalmente femininas, não passa por uma diminuição de sua masculinidade, mas por uma segura autoconfiança naquele papel que lhe permite também sentir-se bem com as qualidades tradicionalmente associadas ao sexo feminino.(STEINBERG, 1992, p108)

Essa ampliação exige do terapeuta uma atenção maior, pois, uma vez que a alteridade pode se manifestar em suas imagens de anima e animus tanto no homem quanto a mulher, devemos ter atenção pois, o mesmo passa a valer em relação a representação da sombra – esta costumeiramente é associada a uma imagem do mesmo gênero do sujeito-  nesse contexto, a sombra também pode ser do gênero oposto, podemos perceber com mais clareza em pessoas que adotam posturas misóginas ou misândricas. O mais importante é perceber a função desempenhada pela imagem, seja de antagonismo ou de alteridade.

 Acredito que ser não só razoável como necessária essa compreensão que integra a anima e animus tanto na dinâmica do homem quanto na mulher, pois,  a partir dessa ampliação podemos compreender desde o viés junguiano que o “gênero” se refere a “identidade de gênero do ego” e não apenas ao “sexo biológico” ou aos determinantes culturais e que o potencial arquetípico do masculino e feminino atuam tanto no homem quanto na mulher – independente do gênero com o qual o ego se identifica.

Um desafio constante é compreender e praticar a psicologia analítica à luz da contemporaneidade, atualizando sem perder a essência de trabalho de Jung.

Referências Bibliográficas

IBGE, Estatísticas de gênero : uma análise dos resultados do censo demográfico 2010,  Disponivel em http://www.ibge.gov.br/apps/snig/v1/index.html?loc=0&cat=-15,-16,-17,-18,128&ind=4704 , acessado em 25/07/2015

JUNG, C.G, O Livro Vermelho, Petropolis: Vozes, 2013.

________. O Eu e o Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 15ed. 2001

JUNG, E. Animas e Animus, São Paulo: Pensamento-Cultrix, 2005

NEUMANN, Erich História da Origem da Consciência, São Paulo: Cultrix Editora, 1995.

SAMUELS, Andrew, Jung e os Pós-junguianos, Rio de Janeiro: Imago Ed., 1989.
STEINBERG,W. Aspectos Clínicos da Terapia Junguiana, São Paulo: Cultrix, 1992.

McGUIRE, W.; HULL, R.F.C, C.G.JUNG: ENTREVISTAS E ENCONTROS, Cultrix: São Paulo, 1984.

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Epistemologia Junguiana : Algumas indicações de literatura

Não tenho dúvidas que epistemologia não é a matéria mais apreciada nos circulos junguianos. Contudo, ao longo das últimas décadas temos visto um aumento significativo trabalhos acadêmicos (teses, dissertações e artigos) com o enfoque junguiano.  Dessa forma, torna-se necessário conhecer de forma mais clara e ampla a epistemologia junguiana, de forma que possamos apropriar do espaço que vem se configurando no meio acadêmico.

Pensando assim achei que seria interessante apresentar alguns dos livros que considero importantes no contexto da epistemologia junguiana – que se interessar de fato pelo tema, acredito que o conjunto oferece uma excelente possibilidade aprofundamento do tema. Penso que outros livros poderiam e podem ser indicados, mas, deixo aberto para que outras sugestões possam ser realizadas no comentários abaixo.

Em Busca de Jung – Indagações Históricas e Filosóficas

Autor : J.J.Clarke   Ano: 1993   Editora: Ediouro

Desta lista que aqui apresento o do Clarke é o livro mais antigo publicado no brasil, considerando que foi publicado originalmente em 1992,(e no ano seguinte no Brasil).

Clarke contextualiza Jung na história do pensamento científico e filosófico de sua época, amplicando a compreensão tanto o “pensador Jung” quanto da “teoria junguiana” no contexto do pensamento ocidental. Pode-se dizer que este seria um ponto de partida para estudar a epistemologia junguiana.

 

 

 


Questôes Filosóficas na Psicologia de C.G.Jung

Autora: Marilyn Nagy      Ano: 2003        Editora: Vozes

Este livro foi publicado originalmente em 1992. Aborda a psicologia junguiana de uma forma impar. A autora se propõe discutir em três niveis o pensamento de Jung: epistemológico, ontológico e teleológico. E o faz de forma fascinante. Na primeira parte onde discute a epistemologia de Jung, ela apresenta como Jung aborda a possibilidade do conhecimento e a origem do conhecimento – nos permitindo ter quase um “panorama da genealogia” do pensamento do Jung. Sobre o aspecto ontologico, pertencente a segunda parte, a autora nos leva a considerar desde onde o homem se constitui como homem – para tanto ela discute a dimensão do conceito de arquétipo e energia psiquica como eixo de analise. Na terceira parte ela discute a individuação e suas implicações teleológicas.  É um livro muito rico e denso.

  Jung e a Construção da Psicologia Moderna

Autora: Sonu Shamdasani      Ano: 2011 Editora: Idéias e Letras

Shamdasani é sem sombra de dúvidas o nome mais importante do contexto das idéias junguinas. Não é um teórico junguiano, mas, um profundo conhecedor do pensamento junguiano, editor dos seminários, do Livro Vermelho, com passe livre no conselho de Herdeiro de Jung. Neste livro foi publicado originalmente em 2003, Shamdasi propõe algo interessante, ele propõe uma compreensão do pensamento de junguiano, desde Jung, isto é, tomando partindo de Jung, mas, sem se perder em uma biografia. Ele nos dá um perfil de Jung como cientista e pensador. O acesso a biblioteca de Jung, possibilitou que Shamdasani tivesse uma visão diferenciada da perspectiva que Jung adotava. Posteriormente, Shamdasani publicou o livro “ Jung – Uma Biografia em Livros” onde traça um perfil do Jung a partir dos seus livros, isto é, da sua história pessoal contada pelo acervo que ele constituiu..

 

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  Epistemologia e Método na Psicologia de C.G.Jung

Autora: Eloísa M.D. Penna      Ano: 2013  Editora: Educ Fapesp

É dificil falar sobre este livro. É de uma amplitude e clareza inigualáveis. Este livro foi o resultado do mestrado da Prof. Eloísa Penna. Este livro possui uma linguagem clara, leve, objetiva que convida e conduz o leitor (sem qualquer sofrimeno) pela discussão epistemológica junguiana. A autora introduz uma perspectiva do contexto da epistemologia situando o leitor no campo que vai pisar, contextualiza o pensamento junguiano em suas raizes históricas, faz uma leitura interessante da cronologia do desenvolvimento do pensmento junguiano, abrindo caminho para a discussão própria da epistemologia, ontologia e metodo junguiano.

Sobre esse livro eu não diria que é um livro indispensável na biblioteca junguiana, mas, que é um livro que deveria ser de cabeceira.

 

 

  Psicopatologia, Teoria dos Complexos e Psicanálise

Autora: Heloisa Cardoso      Ano: 1993   Editora: Atheneu Cultura

Este livro é o primeiro volume de uma coleção de epistemologia junguiana que não foi concluida. A proposta da autora é fazer uma análise semiótica, com auxílio da análise de conteudo, obra de Jung,

Neste livro, como seria o primeiro da série, são analisados os primeros anos obra de Jung. Situando-o no contexto da psiquiatria e da psicopatologia que se desenvolvia.

Pensar Jung

  Pensar Jung

Autora: Marco Heleno Barreto  Ano: 2012  Editora: Paulus

Confesso que de todos os textos aqui indicados este é o unico livro que ainda não possuo. Sendo uma indicação do caro colega Roberto Burura. Deixo a sinopse que está no site da Paulus:

“O leitor encontrará nesta obra uma reunião de textos que abordam o pensamento do psicólogo Carl Gustav Jung a partir de uma perspectiva filosófica, visando ultrapassar o nível da apresentação das ideias do psicólogo suíço para fazer vir à luz algumas de suas ideias e articulações fundamentais. São analisados o estatuto epistêmico da Psicologia Analítica, sua relação com a sabedoria prática filosófica antiga, a dimensão ética essencial que a define, entre outros aspectos.”

 

imageArquivos Brasileiros de Psicologia – Carl Gustav Jung

Autora: Instituto de Psicologia UFRJ   Ano: 2001 Editora: Imago

Nesta edição dos Arquivos Brasileiro de Psicologia Especial Carl Gustav Jung reúne artigos de importantes pesquisadores junguianos, contemplando especialmente a discussões epistemológicas.

Por ser uma revista, a temática é variada.

 

 

 

 

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Mergulhando no Mar Sem Fundo – Fundamentos da Clínica Junguiana

Autora: Elizabeth Christina Cotta Mello Ano: 2007 Editora: AION

Este livro foi fruto monografia de conclusão do curso de formação de analistas junguianos da SBPA, feito pela autora. Tem a particularidade de buscar fundamentar a clinica junguiana em seu contexto epistemológico, é uma contribuição que amplifica a compreensão da teoria e da clínica  junguiana. É uma obra rica e extremamente importante para o clínico e o pesquisador clinico.

 

 

 

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Experiência do Símbolo no Pensamento de C.G.Jung

Autora: Maddi Damião Jr. Ano: 2007 Editora: AION

Este livro é parte da tese de doutorado do proferssor Maddi Damião Jr, Nesse trabalho o autor parte da dinâmica do símbolo e da função transcendente como elemento norteador da construção da teoria junguiana. Talvez, seria mais correto dizer que este não é um texto de epistemologia, mas, um texto epistemológico que possibilita a compreensão dos fundamentos junguianos a partir da fenomenologia hermeneutica.

 

 

 

 

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@psicologiaanalitica.com.br/Twitter:@FabricioMoraes

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Novo Grupo de Estudos Junguianos em Vitória

Um breve histórico

Em março de 2010 eu criei um blog, que veio a se tornar este site, com o objetivo de divulgar o pensamento junguiano com seriedade, pois, eram poucos os sites e blogs que falavam de Jung dessa forma. Assim, em agosto de 2012 surgiu a proposta de criar um grupo de estudos de junguianos, com orientação clássica, que veio a se charmar “Grupo Aion”.. Nesses quase 3 anos de grupo, cerca de 19 pessoas(e algumas pessoas que nos visitaram por poucos encontros) fizeram parte do Aion, das quais 11 encontram-se atualmente no grupo.  A perspectiva do grupo inicalmente era teórica, gradativamente incorporou o aspecto clínico – de modo a ser um grupo com carater “formativo” e visando o aprofundamento teórico e prático junguiano. Nesse período, muitas pessoas nos procuraram para fazer parte do Aion, contudo, como desde 2014 a rotatividade é muito baixa, assim, a resposta, infelizmente quase padrão, era “por enquanto não temos mais vagas”.

Duas críticas que sempre acompanharam o Aion foram : 1 – ser exclusivo para psicólogos ou estudantes psi. 2 – falta de vagas.

Particularmente, eu concordo e aceito ambas as críticas. Sobre o grupo ser fechado aos psicólogos,  posso citar Gambini afirma em seu livro “A Voz e o Tempo” – “Ninguém é dono de Jung”, de fato, acredito que a teoria no Brasil perde muito por não ser ampla e igualmente divulgada pelos campos do saber. Sei que temos em Vitória pessoas que não são psicólogos, mas, que em suas áreas aplicam o saber junguiano com mais propriedade e conhecimento do que muitos dos psicólogos junguianos e de fato eu teria o maior prazer em estar num grupo de estudos com esses colegas! Se hoje a minha proposta não contempla outras areas não é por menosprezar, excluir ou achar a psicologia superior nada disso. Mas sim o reconhecimento no Espirito Santo temos um défict de clinicos junguianos e, por isso, tento contribuir com essa formação de forma ética e responsável. Acredito que as pessoas de outras areas encontrarão ótimo acolhimento em outros grupos como do Espaço Kairós que é organizado  por colegas que tenho profundo respeito e consideração e que desde março vem realizando encontros. Se faço aqui essa justificativa é por respeito e, como disse, por reconhecer essa critíca, que em tempos futuros espero que eu possa superar.

Acerca da crítica sobre as vagas, bem, esse nossa proposta nesse post é uma resposta a mesma.

A proposta de Grupo de Estudos

Frente ao exposto, nossa proposta é criar um novo grupo de estudos com proposta similar ao do Aion, isto é, um grupo focado nos estudos junguianos, privilegiando a teoria  e a clínica junguiana. A perspectiva teórica passa, principalmente, pela escola clássica junguiana mas, sem ignorar contribuições das demais escolas desenvolvimentista, arquetípica, simbólica, psicofísica.

Nossa proposta realizar um estudo acessível a qualquer um que queira iniciar os estudos em psicologia analítica e gradativamente ir aprofundando os estudos.

Inicio: 02 de junho de 2015

Horário:  Semanalmente, terças-feiras, as 19:30

Valor da Mensalidade: 80 reais

Informações: fabriciomoraes@psicologiaanalitica.com / 027-993166985

Publico Alvo: Psicólogos e Estudantes de psicologia

Local: Av. Nossa Senhora da Penha, 565, Ed. Royal Center, sala 601, Santa Lúcia, Vitória.

Coordenação: Fabrício Fonseca Moraes (CRP 16/1257) Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”(desde 2012).  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Inscrições: Para confirmar  a inscrição é necessário pagar a primeira mensalidade(ref. ao mês ao mês de junho). Preencha o quadro abaixo que entrarei em contato:

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@psicologiaanalitica.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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