Depressão, preconceito e Elias

 

18 de outubro de 2010

(Escrevi esse texto como base para uma palestra apresentada no dia 17/10/10, numa reunião das Mulheres Cristãs em Ação – MCA, da Igreja Batista em Praia do Suá, Vitória,ES. Essa palestra não tem uma finalidade objetivamente teórica ou expositiva da teoria junguiana)

O tema de nossa palestra é “Depressão, preconceito e Elias”. Acredito ser importante para discutirmos nas igrejas, para estarmos atentos a depressão, pois é um tema com o qual nos confrontamos todos os dias. Recentemente foi divulgado pela Organização Mundial de Saúde que em 20 anos, isto é, 2030, a depressão será a doença mais comum no mundo e será a que gerará mais gastos em seu tratamento. Hoje estima-se que cerca de 17% da população sofra de depressão.

Esses dados da OMS servem para nos chamar a atenção para essa doença, muitas vezes silenciosa, que vem ocupando cada vezes mais espaços em nosso dia a dia, acredito que todos nós aqui já tivemos contato próximo com pessoas com depressão em nossa família, vizinhança, trabalho ou na igreja.

Apesar de termos muita informação acerca da depressão, muita gente ainda acha que é a depressão é uma bobeira, é fraqueza moral, é preguiça, ou que a depressão é apenas uma longa tristeza. Entretanto, a depressão é uma doença que exige seriedade pois, não só pelo sofrimento pessoal e perdas sociais causadas pela depressão, mas, pelo fato de estar associada a casos de suicídio e, também, ao abandono de tratamentos médicos, o que pode também agravar outras doenças.

Quando falamos da depressão ou de qualquer doença, três aspectos são fundamentais: sintomas, causas e tratamento. Falando de forma geral da depressão, os principais sintomas são:

– Perda de interesse

– Alterações no Sono (dorme demais ou tem insonia)

– Alterações no apetite (come muito pouco ou come muito)

– Dificuldade de concentração

– Lentificação das atividades físicas e mentais (demora a responder aos estímulos)

– Se sente fracassada, culpada, com pensamentos negativos acerca de si.

– Pessimista,

– Indecisão

– Isolamento

– Inquieta, irritadiço

– Ou Chora à-toa ou não consegue chorar.

Os sintomas podem variar de pessoa para pessoa.

Na depressão há um esvaziamento da vida, cada vez mais a vida vai se tornando sem sentido, cada experiência que a pessoa tem se torna frustrante, ela não consegue ter prazer em nada, não conseguindo ter uma visão ou perspectiva de futuro. Mas, não podemos confundir isso com tristeza, a tristeza dá e passa, tem um motivo, a depressão é um estado persistente, que atravessa os dias e as semanas.

A depressão é uma doença silenciosa, ela vai se construindo lentamente, muitas vezes só nos damos conta quando estamos em meio a uma crise depressiva. Não há uma causa específica, são várias as causas que podem levar a uma pessoa a desenvolver uma depressão, desde uma predisposição genética, perdas profundas (como de um familiar, amigo, ou mesmo emprego), uma vida de pura rotina, muitas vezes sem sentido, apenas repetição; dificuldades para lidar com a frustração, mudanças drásticas na vida, isolamento/solidão, isso sem falar em alterações de ordem fisiológicas como variações hormonais na menopausa. São vários os fatores que podem se somar no processo de depressão.

O ideal para o tratamento da depressão é a conciliação entre a medicação e a psicoterapia. Em alguns casos de depressão leve o medicamento sozinho pode ser eficaz, mas, na maioria das vezes, nos caso de depressão moderada e severa a pessoa apresenta uma melhora, mas, fica dependente da medicação, pois não refletiu acerca das mudanças necessárias em sua vida. Isso porque a medicação gera uma estabilidade no individuo, permitindo que ele tome as decisões necessárias em sua vida. Essas questões e decisões serão identificadas num processo psicoterapêutico. Aqui entra no segundo tópico, que sugeri no tema: O preconceito.

Eu acho importante falar do preconceito porque já ouvi algumas pessoas ligadas a igrejas/lideres religiosos falando sobre a depressão e outros transtornos psicológicos, como sendo exclusivamente de ordem espiritual. Algumas dizem (inclusive pastores) que depressão é falta de Deus, ou é fruto de um pecado não confessado, ou que é ação do diabo ou “do inimigo” na vida da pessoa e por isso ela deprimiu. E, que basta orar e buscar a Deus que a depressão ser curada.

Mas, geralmente as pessoas ficam sofrendo no banco das igrejas, achando que tem algum pecado, achando que Deus não as ouve, achando que é o diabo agindo em suas vidas e não procuram ajuda profissional porque acham e ouvem as pessoas dizerem que a depressão é um problema “espiritual”. É importante entendermos que a depressão não é um problema espiritual, mas, pode causar um problema espiritual. Pois, muitos afastam da igreja e de Deus pelo fato se sentirem tão mal por ouvirem os irmãos dizendo que é “só ter fé “ou que o “seu problema é espiritual”, “é só uma provação” ou que “ é ter fé que o diabo vai se afastar”, nisso, a a ida na igreja em vez de ajudar, acaba deixando a pessoa pior.

Frente a essas idéias, esses preconceitos, podemos perguntar o que a bíblia diria acerca da depressão?Sempre que eu ouço alguém falando que se uma pessoa está deprimida ou é porque tem pouca fé, ou tem que orar mais, ou está em pecado, eu sempre pergunto, você já ouviu falar de Elias?

Elias foi o maior profeta do antigo testamento. No capitulo 19 de I Reis, temos um relato interessante sobre a situação dele. Vejamos o que diz o texto,

3 – Elias teve medo e fugiu para salvar a vida. Em Berseba de Judá ele deixou o seu servo

4 – e entrou no deserto, caminhando um dia. Chegou a um pé de giesta, sentou-se debaixo dele e orou, pedindo a morte. “Já tive o bastante, Senhor. Tira a minha vida; não sou melhor do que os meus antepassados. ”

5 – Depois se deitou debaixo da árvore e dormiu. De repente um anjo tocou nele e disse: “Levante-se e coma”.

6 – Elias olhou ao redor e ali, junto à sua cabeça, havia um pão assado sobre brasas quentes e um jarro de água. Ele comeu, bebeu e deitou-se de novo.

7 – O anjo do Senhor voltou, tocou nele e disse: “Levante-se e coma, pois a sua viagem será muito longa”.

8 – Então ele se levantou, comeu e bebeu. Fortalecido com aquela comida, viajou quarenta dias e quarenta noites, até que chegou a Horebe, o monte de Deus.

9 – Ali entrou numa caverna e passou a noite. E a palavra do Senhor veio a ele: “O que você está fazendo aqui, Elias? ”

10 – Ele respondeu: “Tenho sido muito zeloso pelo Senhor, Deus dos Exércitos. Os israelitas rejeitaram a tua aliança, quebraram os teus altares, e mataram os teus profetas à espada. Sou o único que sobrou, e agora também estão procurando matar-me”.

11 – O Senhor lhe disse: “Saia e fique no monte, na presença do Senhor, pois o Senhor vai passar”. Então veio um vento fortíssimo que separou os montes e esmigalhou as rochas diante do Senhor, mas o Senhor não estava no vento. Depois do vento houve um terremoto, mas o Senhor não estava no terremoto.

12 – Depois do terremoto houve um fogo, mas o Senhor não estava nele. E depois do fogo houve o murmúrio de uma brisa suave.

13 – Quando Elias ouviu, puxou a capa para cobrir o rosto, saiu e ficou à entrada da caverna. E uma voz lhe perguntou: “O que você está fazendo aqui, Elias? ”

14 – Ele respondeu: “Tenho sido muito zeloso pelo Senhor, Deus dos Exércitos. Os israelitas rejeitaram a tua aliança, quebraram os teus altares, e mataram os teus profetas à espada. Sou o único que sobrou, e agora também estão procurando matar-me”.

15 – O Senhor lhe disse: “Volte pelo caminho por onde veio, e vá para o deserto de Damasco. Chegando lá, unja Hazael como rei da Síria.

16 – Unja também Jeú, filho de Ninsi, como rei de Israel, e unja Eliseu, filho de Safate, de Abel-Meolá, para suceder a você como profeta.

17 – Jeú matará todo aquele que escapar da espada de Hazael, e Eliseu matará todo aquele que escapar da espada de Jeú.

18 – No entanto, fiz sobrar sete mil em Israel, todos aqueles cujos joelhos não se inclinaram diante de Baal e todos aqueles cujas bocas não o beijaram”. (BIBLIA, I Reis 19:3-18, 2000),

Para entendermos esse capitulo da vida Elias, devemos lembrar rapidamente o que aconteceu no capitulo anterior, nele, Elias fez um desafio a 450 profetas de Baal, o deus que respondesse o holocausto com fogo, seria o Deus verdadeiro, após meio dia de suplicas os profetas de Baal nada obtiveram, Elias ao orar teve uma resposta imediata, onde fogo caiu do céu. Logo após, o povo que estava ali presente ficou maravilhado e matou os 450 profetas.

Mesmo acontecendo esse milagre, Elias não viu a conversão em massa que provavelmente ele esperava. Muito pelo contrário, a notícia que ele teve foi justamente que a rainha Jezabel queria vê-lo morto. Assim, começa dizendo que

3 – Elias teve medo e fugiu para salvar a vida.

4 – e entrou no deserto, caminhando um dia.

Elias teve medo e fugiu, se isolou, foi para o deserto, isto é, foi para uma região árida, infrutífera, vazia, que certamente refletia o que ele estava se sentindo por dentro. Assim, olhando para esse inicio poderíamos começar a identificar como sintomas de depressão o isolamento, mas, um sintoma não é suficiente para falar depressão, vamos continuar vendo o texto,

Chegou a um pé de giesta, sentou-se debaixo dele e orou, pedindo a morte. “Já tive o bastante, Senhor. Tira a minha vida; não sou melhor do que os meus antepassados. ”

Encontramos outros sintomas aqui, o desejo de morrer e os pensamentos negativos sobre si, como ele diz, que não é melhor que os antepassados. No versículo seguinte temos outro sintoma,

5 – Depois se deitou debaixo da árvore e dormiu

Uma dos sintomas comuns na depressão é a alteração do regime de sono (uns dormem demais, outros sofrem de insônia). É importante notar que o texto continua dizendo que Deus cuidava de Elias, tanto que o anjo veio por duas vezes para alimentá-lo. Elias estava num processo depressivo, mas, Deus não o abandonou, não viu pecado nele, nem o julgou. No versículo 8, temos outro dado

8 – Então ele se levantou, comeu e bebeu. Fortalecido com aquela comida, viajou quarenta dias e quarenta noites, até que chegou a Horebe, o monte de Deus.

O sofrimento Elias continuava, e ele caminhou pelo deserto durante 40 dias e 40 noites, até chegar em Horebe, no Egito. E chegando lá, ele entrou numa caverna, quando Deus fala com ele, e o responde dizendo justamente o que ele percebia da realidade, segundo ele, todo o povo de Israel havia abandonado a Deus, e só restava ele, sozinho.

10 – Ele respondeu: “Tenho sido muito zeloso pelo Senhor, Deus dos Exércitos. Os israelitas rejeitaram a tua aliança, quebraram os teus altares, e mataram os teus profetas à espada. Sou o único que sobrou, e agora também estão procurando matar-me”.

Na fala de Elias percebemos como ele se sentia frustrado como profeta, como ele sentia que havia fracassado um profeta que não conseguiu converter o povo de seus maus caminhos. Deus manda Elias sair da caverna, que ele iria passar, conforme o texto,

11 – O Senhor lhe disse: “Saia e fique no monte, na presença do Senhor, pois o Senhor vai passar”. Então veio um vento fortíssimo que separou os montes e esmigalhou as rochas diante do Senhor, mas o Senhor não estava no vento. Depois do vento houve um terremoto, mas o Senhor não estava no terremoto.

12 – Depois do terremoto houve um fogo, mas o Senhor não estava nele. E depois do fogo houve o murmúrio de uma brisa suave.

Elias conhecia bem a Deus, e não viu sua presença nem na tempestade, nem no terremoto, nem no fogo. Ou seja, as vezes a gente espera coisas grandiosas, milagres enormes, mas, Deus se manifestou na brisa, no suave murmúrio da brisa, e Elias o reconheceu ali.

Por isso, eu insisto em dizer que mesmo segundo a bíblia não tem como afirmar que a depressão é um problema espiritual. A depressão pode causar um problema espiritual, pode causar um afastamento de Deus, mas ela em si não deve ser vista como um problema espiritual.

Elias estava deprimido, mas, mesmo assim sua relação com Deus não mudou. Ele reconhecia a presença e a manifestação a Deus, e por outro lado, o próprio Deus falava com ele. É interessante a gente notar, que Deus mandou ele voltar pelo mesmo caminho e ir até o deserto de Damasco, ou seja, ele teria que viajar pelo deserto (por outros quarenta dias), onde ele caminhando ainda nesse vazio, mas, Deus afirma que mesmo estando com essa depressão ele não estaria sozinho, pois, no caminho dele ele encontraria ajuda.

Nesse ponto encontramos um segundo preconceito tão complicado quanto o primeiro muito complicado, que é o preconceito ao tratamento. Muitas pessoas não procuram tratamento porque alegam que não conhecem algum psicológo cristão ou não há no plano de saúde nenhum psicólogo cristão. E, não percebem que o mais importante é encontrar um bom profissional, mesmo que não seja cristão. Acerca disso, a bíblia nos mostra algumas coisas importantes. Vejamos um ponto importante, no texto.

15 – O Senhor lhe disse: “Volte pelo caminho por onde veio, e vá para o deserto de Damasco. Chegando lá, unja Hazael como rei da Síria.

16 – Unja também Jeú, filho de Ninsi, como rei de Israel, e unja Eliseu, filho de Safate, de Abel-Meolá, para suceder a você como profeta.

17 – Jeú matará todo aquele que escapar da espada de Hazael, e Eliseu matará todo aquele que escapar da espada de Jeú.

Deus mandou Elias ir ungir Hazel, como rei da Síria, que não era do povo de Israel, para ajudar em sua obra, mais adiante vemos que Hazael declarou guerra contra Israel, de forma a combater os inimigos de Elias, segundo a vontade de Deus. Ao longo de toda a bíblia vemos Deus usando pessoas que não eram do povo de Israel para salva-los. Outros exemplos bíblicos, que podemos citar são: Moisés, que Deus usou a filha do Faraó, para protegê-lo de Faraó; Davi que quando perseguido por Saul, ele encontrou abrigo entre filisteus de Gate(I Sm 27), eu seja, Deus usou os inimigos de Israel para dar abrigo a Davi; no período do exílio na Babilônia, Deus usou Ciro, Dario e Artaxerxes reis da Pérsia, para libertar o povo, restabelecer o templo e a reconstruir a cidade de Jerusalém conforme nos narram Esdras e Neemias; outro exemplo, foi o próprio Cristo, quando nasceu, teve de fugir de Herodes e encontrou abrigo no Egito, sendo acolhido numa terra estranha.

Por isso, é importante a gente orientar as pessoas que estão atravessando uma depressão ou qualquer outro transtorno de ordem psicológica a confiar em Deus e procurar um profissional habilitado, isto é, um psiquiatra para ministrar a medicação e um psicólogo para fazer o acompanhamento psicoterapêutico – existem pessoas que fizeram cursos de psicanálise e abrem consultório, eu não indico nem considero confiáveis. Sugiro sempre procurar um psicólogo devidamente registrado no Conselho Regional de Psicologia.

Em nossos dias, é muito importante que as igrejas tenham clareza desses preconceitos que cercam a depressão (também outras doenças de ordem psicológica), pois, esses preconceitos impedem um tratamento adequado, e isso promove o agravamento da doença, podendo realmente se tornar numa doença espiritual – quando a pessoa duvida de Deus, se revolta ou se sente abandonada por Ele. A melhor forma de ajudar essas pessoas é estimulá-las confiar em Deus e procurar um tratamento adequado e profissional. Quando mais dizemos que ela “não tem fé”, “só precisa de Deus” ou que “depressão coisa do inimigo” pioramos o estado de saúde delas, quando deveríamos orientarmos as pessoas a procurarem o tratamento adequado e assim, muitas vezes, contribuímos para que elas se afastem de Deus e das Igrejas.

Referencia bibliográfica

– Bíblia Sagrada Nova Versão Internacional. São Paulo: Soc. Bíblica Internacional, 2000.

 

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

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Função Psicológica da Religião

(11 de julho de 2010)

Este post é uma complementação dos posts “Psicologia Analítica e Religião” e “Psicologia Analítica Cristã?”. No primeiro apresentei alguns aspectos acerca de como a psicologia analítica se compreende a religião – fazendo algumas diferenciações entre função religiosa, religião e confissão religiosa. No post “Psicologia Analítica Cristã? ” discuti a relação entre a psicologia(de forma geral) e cristianismo(o que podemos expandir para religião de forma geral), pensando no cuidado que devemos ter para não fazermos misturas que podem prejudicar tanto uma quanto a outra. Contudo, não foi discutido de forma específica a compreensão junguiana da função psicológica da religião.

Quando perguntamos “qual a função psicológica da religião?” a resposta mais correta (sob o prisma junguiano)seria: “Para quem?” ou “ Em que contexto?”, isso porque a religião é um fenômeno de complexo, e não há uma resposta simples que valha para todos os contextos.  Assim,devemos separar o aspecto arquetípico da religião do aspecto pessoal(subjetivo) da religião.

Ao qualificar a religião como arquetípica estamos afirmando que há na psique uma tendência natural a produzir símbolos e a atribuir/reconhecer neles um sentido numinoso. A religião e a arte surgem do mesmo “solo arquetípico”, a diferença esta no fato da arte emergir do espanto do homem frente a natureza e possibilidade transforma-la, imprimindo-lhe significado, dando sentido a vida. A religião, por outro lado, emerge do espanto do homem frente frente as forças incompreensíveis da natureza e frente a morte. a religião é a possibilidade do homem lidar com essas potências invisíveis, atribuindo significado/sentido, especialmente no que diz respeito a morte, se configurando como a possibilidade do homem se afirmar frente o desconhecido, superando o mistério da morte. Através da religião o homem encontra um sentido que o torna capaz de viver e enfrentar a morte Toda religião prepara o individuo para a vida, na medida em que o prepara para morte.

Na vida do “homo religiosus” a religião atravessa os vários campos de sua psique, assim, como o poeta Khalil Gibran, fala em seu belíssimo livro “O Profeta” nos diz,

Então UM VELHO sacerdote disse: “Fala-nos da Religião.” E ele disse:
“Tenho eu falado de outra coisa hoje?
Não é a religião todas as nossas ações e reflexões?
E tudo o que não é ação nem reflexão, mas aquele espanto e aquela surpresa sempre brotando na alma, mesmo quando as mãos talham a pedra ou manejam o tear?
Quem pode separar sua fé de suas ações, ou sua crença de seus afazeres?
Quem pode espalhar suas horas perante si, dizendo: “Esta é para Deus, e essa é para mim; esta é para minha alma, e essa é para meu corpo?

(…)

Vossa vida cotidiana é vosso templo e vossa religião.

Todas as vezes que penetrais nela, levai convosco todo vosso ser” (GIBRAN, 1976, p. 75-6)

Joseph Campbell(2002) nos dá uma boa perspectiva da amplitude da função da religião quando ao discutir a função dos mitos (lembrando que segundo Campbell, “mitologia é como chamamos a religião dos outros”), segundo ele, são quatro as funções básicas da mitologia/religião:

1 – Função Mística ou Metafísica

2 – Função Cosmológica

3 – Função Social

4- Função Pedagógica

A função mística ou metafísica corresponde a abertura ao desconhecido, ao mistério da vida e da morte. Através da religiões o homem amplia sua percepção do mundo, integrando a sua vivência uma realidade que está para além dos percepção sensorial – um mundo eterno, espiritual; libertando a psique humana do condicionamento do tempo e espaço.  Isso é importante, pois, essa função também se reflete como uma  abertura ao inconsciente, a criatividade e imaginação. Que são elementos importantes para o equilíbrio dinâmico da psique.

A segunda, a função cosmológica da religião oferece ao homem uma perspectiva sobre o universo e situa o no mesmo. Essa função geralmente foi mal compreendida afirmando que as mitologias e religiões eram uma proto-ciência, uma tentativa de explicar o mundo. As narrativas sobre a origem do universo, dos deuses, dos homens, de como surgiram os instrumentos, etc…não tinham o objetivo de uma explicação “científica”, mas, sim atribuir sentido e significado ao universo que circunda o homem, colocando-o nessa teia da vida. :Se na primeira função indica que há algo para além da percepção, nessa segunda função o homem toma parte desse mundo sobrenatural, percebendo qual é o seu lugar na existência.

A função social da religião se relaciona com o grupo social. Toda religião vai indicar certas regras de convívio social, geralmente, justificando e reforçando os conceitos morais e organizacionais de um grupo, visando a sobrevivência do mesmo, a religião se constitui um elemento de identidade, dando coesão ao grupo

A quarta, é função pedagógica. A religião se apresenta como pedagógica na medida que orienta as ações e comportamentos dos indivíduos em cada etapa da vida. As narrativas religiosas oferecem ao individuo referencias para se organizar frente ao mundo e as dificuldades, para fazer suas escolhas e tomar suas decisões. Em cada etapa da vida, o individuo é cercado por referências (narrativas/mitos) que o prepara para a vida e para morte. As quatro funções são interligadas, pois, uma leva a outra, oferecendo um solo relativamente firme sobre o qual o individuo pode se organizar e viver.Essas quatro funções nos auxiliam a perceber como a  religião pode atuar psique.

A religião é uma importante fonte de símbolos que possibilita que o homem tenha um contato diferenciado com sua realidade interior. Os símbolos religiosos foram elaborados/refinados pela consciência coletiva/cultura, de modo a possibilitar que a consciência tenha contato com a esfera dos arquétipos  sem que isso ofereça risco à integridade da consciência. Através dos símbolos, a energia psíquica inconsciente contribuem para a estruturação do Ego, dando energia e condições para enfrentar as dificuldades do dia a dia.

Por meio do símbolo, o mundo dos arquétipos penetra, através do homem criador, na esfera da cultura e da consciência. O mundo das profundezas fecunda, transforma e amplia, dando à vida do coletivo e do individuo o fundo único que torna a existência plena de sentido. O significado da religião e da arte é positivo e sintético, não penas para as culturas primitivas, também para nossa cultura e para nossa consciência superacentuadas, justamente porque elas oferecem um canal de saída para conteúdos e componentes emocionais cuja supressão foi demasiado rigorosa. Tanto em relação ao detalhe, como também em relação ao todo, o mundo patriarcal da cultura, com a sua primazia da consciência, forma apenas um segmento. As forças positivas do inconsciente coletivo que foram excluídas lutam, no homem criador, por se manifestarem e, através dele fluem para a comunidade. São em parte forças “antigas”, excluídas pela ultradiferenciação do mundo cultural e, em parte, forças novas, nunca presentes antes, destinadas a dar forma à face do futuro.(NEUMANN, 1995,p.269)

Apesar da concepção junguiana compreender que função psíquica da religião é naturalmente positiva, não se nega ou se ignora o fato de que a religião possa ser utilizada por grupos ou lideres religiosos de forma “inadequada”, em alguns casos corroborando com o pensamento de Marx, de que a religião seria o opio do povo. Ou mesmo, o individuo pode ser esmagado pelos dogmas da instituição religiosa (não tendo a vivência saudável da religião), se vendo mergulhado num oceano de culpa, assim, vivendo a religião como uma busca incansável por expiação, se constituído como uma neurose obsessiva, como Freud  sugeria.

Por esse motivo eu apontei acima, que para pensar a função da religião devemos conhecer o primeiro contexto para visualizarmos sua função. A religião não é positiva ou negativa, ela pode funcionar ou atuar de modo positivo ou negativo, dependendo de como for vivida ou manipulada. A religião pode ser veiculo de saúde (como vemos pessoas que realmente superam doenças, drogas, luto etc,), mas, por outro lado,  também pode veiculo de manutenção dos mais diversos preconceitos e estimulando muitas vezes o ódio e a violência. Como disse, tudo depende o uso que é feito da religião.

Nós falamos da religião num prisma coletivo,no campo individual, devemos ter atenção para observar como o individuo se relaciona com a religião. Apesar dessas funções citadas acima atuarem sobre o individuo, o individuo pode se valer da religião de forma patológica – perpetuando culpas ou preconceitos. Acredito que o psicólogo deva condenar e combater abertamente todo e qualquer preconceito ou injustiças cometidas contra qualquer ser humano promovidos por religiões, grupos, seitas ou instituições. Entretanto, quando se trata do individuo, devemos ter cuidado para não atacarmos o individuo perdendo de vista a os fatores que o levaram a essa atitude patológica ( seja o preconceito ou o fanatismo), como diz o ditado “não devemos jogar o bebê fora junto com água do banho”. Se a religião for um fator constitucional fundamental para aquele individuo, devemos leva-lo a questionar aquela atitude ou sua crença patológica, não julgando todo o sistema religioso, para  não promover uma “amputação psíquica”. Mas, isso necessitaria que o psicólogo possuísse um certo conhecimento do sistema religioso do cliente. Jung tinha uma opinião interessante(e controversa) a esse respeito, segundo o mesmo,

Minha posição neste assunto é a seguinte: Enquanto um paciente é deveras membro de uma Igreja, deve levar isto a sério. Deveria ser real e sinceramente um membro daquela Igreja e não ir ao médico para resolver seus conflitos quando acredita poder fazer isso com Deus. Quando, por exemplo, um membro do Grupo Oxford me procura para tratamento, eu lhe digo: “Você pertence ao Grupo Oxford; enquanto for membro dele, resolva seus assuntos com o Grupo. Não posso fazer nada melhor do que Jesus”.

Gostaria de contar-lhes um caso desses. Um alcoólico histérico fora curado pelo movimento desse Grupo, e este o usou como uma espécie de caso-modelo. Mandaram-no viajar por toda a Europa, onde dava seu testemunho e dizia ter procedido mal, mas ter sido curado por esse movimento. Depois de haver contado vinte ou cinqüenta vezes sua história, ficou cheio e recomeçou a beber. A sensação espiritual simplesmente desapareceu. O que fazer com ele? Agora dizem que se trata de um caso patológico e que ele precisa de um médico. No primeiro estágio foi curado por Jesus, no segundo, só por um médico! Tive que recusar o tratamento desse caso. Mandei-o de volta a essas pessoas e lhes disse: “Se vocês acreditam que Jesus curou este homem da primeira vez, ele o fará pela segunda vez. E se ele não o puder, vocês não estão supondo que eu possa fazê-lo melhor do que Jesus, não é?” Mas é exatamente o que pensam: quando uma pessoa é patológica, então Jesus não ajuda, só o médico pode ajudar.

Enquanto alguém acredita no movimento do Grupo Oxford, deve permanecer ali; e enquanto uma pessoa é da Igreja Católica, deve estar na Igreja Católica para o melhor e para o pior, e deveria ser curada através dos meios dela. E saibam os senhores que eu vi que as pessoas podem ser curadas por esses meios – é um fato. A absolvição e a sagrada comunhão podem curá-los, mesmo em casos bem sérios. Se a experiência da sagrada comunhão for real, se o rito e o dogma expressarem plenamente a situação psicológica do indivíduo, ele pode ser curado. Mas se o rito e o dogma não expressarem plenamente a situação psicológica do indivíduo, ele não pode ser curado. (Jung, 1997, p.271-2)

Jung defendia que a religião não só era uma expressão da psique, como parte do mecanismo de autoregulação psíquica. No caso citado acima, a recusa de Jung foi justamente para evitar uma “amputação” da crença daquela pessoa. A recaída ocorreu em função da política que foi feita utilizando a experiência daquele individuo. Podemos acreditar que o atendimento foi negado pelo fato da busca por atendimento ter partido do grupo, o que poderia ferir e enfraquecer a experiência simbólica daquele individuo, que poderia ser terapêutica para ele.

Isso não quer dizer não devamos atender um paciente religioso, mas, que devemos estudar e conhecer as várias dinâmicas religiosas, Jung considerava fundamental o estudo de mitologia e religião comparadas no preparo de novos analistas. O estudo das idéias religiosas é importante para compreender o cliente em seu próprio contexto simbólico, de modo a compreender o individuo em sua totalidade, respeitando suas crenças e, quando necessário, fazer apontamentos para promover uma reflexão acerca de suas crenças, sem que isso signifique uma violência contra o individuo e suas crenças. Nesse contexto, o ideal seria que quando o paciente estivesse com uma crise de cunho religioso/espiritual (com dúvidas próprias a sua relação com o divino) que o profissional conhecesse dos sistemas religiosos e denominações possuísse contato com bons ministros religiosos (como bons padres ou pastores) que pudessem tirar as dúvidas campo espiritual. Afinal, não é função do psicólogo dizer o que é ou que não é pecado; ou tirar dúvidas acerca de questões “fé”.  Muitas vezes, nós psicólogos, questionamos os ministros religiosos por tratar tudo como “espiritual”, mas, muitas vezes, não percebemos que fazemos o reducionismo oposto, tratando tudo como psicológico.

Por outro lado, para tanto,  o psicoterapeuta deve ter clareza de suas próprias crenças para não se deixar levar por elas, pois, todo e qualquer proselitismo ou tentativa de conversão/evangelismo/catequese durante o processo terapêutico é SEMPRE prejudicial ao mesmo. Isso não só fere o código de ética profissional do psicólogo, como é uma clara violência contra o individuo. E não se trataria de uma conversão autêntica, mas, de um convencimento, uma sedução baixa feita por meio do abuso da relação terapêutica.

Concluindo, a religião tem como função psicológica básica, fornecer símbolos (imagens, narrativas e ritos) que intermediem a relação da consciência com o inconsciente, oferecendo um sistema de referência que promove a segurança e estabilidade do Ego. Essa função já oferece um aspecto terapêutico natural à religião, que pode servir como coadjuvante no processo terapêutico, desde que o terapeuta seja responsável e ético, para respeitar a matriz religiosa de seu cliente.

Referências bibliográficas

GIBRAN, G.K. O Profeta, ACIGI:Rio de Janeiro, 1976

CAMPBELL, Isto é Tu, Landy: São Paulo,SP, 2004

NEUMANN, E. História da Origem da Consciência, SP, Cultrix, 1995

JUNG, C.G. A Vida Simbólica – Vol I, 2 ed Petrópolis, RJ: Vozes, 2000

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

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Psicologia Analítica Cristã?

(08 de junho de 2010)

(foi realizada uma breve revisão em 09/12/2011)

Recentemente, eu estava vendo o mecanismo de estatística do WordPress e ao ver a lista de termos procurados (e que trouxeram visitantes ao Blog) um dos termos me chamou a atenção, e era este “Psicologia Analítica Cristã”.

Eu estudo psicologia analítica de Jung há pouco mais de 10 anos, mas, antes de conhecer Jung, eu já me interessava por tópicos relacionados à psicologia e religião (ou da religião), em especial leituras de Mircea Eliade, importante historiador das religiões, esses estudos favoreceram minha aproximação ao pensamento junguiano, que era frequentemente citado, algum tempo depois, estudando “Psicologia da Personalidade III”, com a Prof. Dra. Kathy Marcondes, pude enfim começar a conhecer a Psicologia Analítica. A interface com a religião sempre me chamou atenção. Apesar de ter me afastado da temática durante alguns anos, a prática clínica sempre nos leva a nos confrontar com fenômenos associados à função religiosa e religiosidade/religião de nossos clientes.

Como interessado pelo estudo da religião, a ideia de uma “psicologia analítica cristã” me causou certa preocupação. Antes de falar de forma específica de religião, devemos considerar alguns pontos…: Em primeiro lugar, quando falamos de uma “psicologia cristã” (ampliando para toda e qualquer abordagem)  estamos também abrindo a possibilidade para pensarmos uma “psicologia neo-pagã”, uma “psicologia budista” ou “psicologia muçulmana” gerando toda sorte misturas entre religião e psicologia que tem como principal consequência  a descaracterização de ambas.

Pessoalmente, acredito que considerar a psicologia e a religião como opostas, inimigas ou mesmo “concorrentes” não só é um erro como é uma concepção ultrapassada.

O fundamental é percebermos que a psicologia lida com fenômenos de ordem natural, a religião com o que é sobrenatural, com o divino. Isso pode parecer óbvio, mas, mas, quando unimos psicologia e religião não nos apercebemos disso. Ao pensarmos uma “psicologia religiosa” não estamos ampliando a percepção para ao divino, mas, estamos submetendo a psicologia à teologia, isto é, a uma dada compreensão doutrinária acerca do divino. O que implicaria não em pensar uma “psicologia cristã”, mas, “psicologia cristã batista”, “psicologia cristã adventista”, “psicologia cristã católica”, psicologia cristã presbiteriana” etc.… Perde-se de vista, que o fundamento ultimo da cristandade é a experiência individual com Cristo, isto é, Deus.

Por outro lado, pensar uma “religião psicologizada” isto é, trazendo elementos da psicologia as práticas religiosas, ou mesmo, que utiliza dos argumentos psicológicos para fundamentar algumas de suas doutrinas. É de causar espanto quantos lideres religioso buscam na ciência (em especial na psicologia e psicanálise) elementos para  melhorar sua “prática”, como se a religião em si não fosse suficiente dentro de seu próprio contexto.

A tentativa de muitos em fazer ou buscar uma psicologia cristã ou uma ciência cristã, me chama atenção, pois, a “teoria (teologia) cristã” muitas vezes se torna mais importante (se sobrepondo) a vivência ou experiência espiritual cristã.

Eu me recordo de Tertuliano, um dos grandes apologistas dos primeiros séculos da cristandade, que utilizava amplamente sua formação filosófica  e jurídica na defesa do cristianismo, não obstante, propunha o questionamento aos cristãos “Quid ergo Athenis et Hierosolymis? Quid academiæ et ecclesiæ?” (“Que têm em comum Atenas e Jerusalém? Ou, a Academia e a Igreja?”), como uma preocupação com a invasão da filosofia na cristandade. Esse questionamento, serve de base para se compreender o célebre “Credo Quia Absurdum Est”(Creio porque é absurdo),  na verdade  Tertuliano nunca pronunciou essa sentença, mas, em seu De Carne Christi, lançou fundamentos para essa frase, segundo ele “O Filho de Deus nasceu: não há vergonha, porque é vergonhoso.E o Filho de Deus morreu: é totalmente credível, porque não é sólido. E, enterrado, ressuscitou: é certo, porque impossível.” Essas afirmações implicam na independência da religião no que tange as lógica e a racionalidade. A essência da religião não está em seu aspecto racional, mas, no irracional, que Rudolf Otto denominou de numinoso – que poderíamos também chamar de “aspecto sobrenatural” – ou mais precisamente, da experiência numinosa que não se dobra a argumentação científica.

Por isso, é necessário tomar cuidado com essas misturas. Seria como misturar água com o vinho. Eles se misturam, mas, nunca num ponto de mantermos as qualidades de ambos, sempre perderemos as melhores características. O “vinho aguado” perderá seu sabor, a “água com vinho” será turva, perderá a clareza. Assim, eu vejo uma “psicologia religiosa”(ou psicologia cristã) perde sua efetividade e amplitude de ação, restringida pelo olhar teológico, a “religião psicologizada” se atém ao humano, se afastando do divino.

Desde o momento em que eu li no wordpress “psicologia analítica cristã” me veio à mente as palavras de Ernst Gombrich, em sua História da Arte, ele começa seu livro dizendo: “UMA COISA QUE realmente não existe é aquilo a que se dá o nome de Arte. Existem somente artistas.”  Em minha opinião, “UMA COISA QUE realmente não existe é aquilo que se dá o nome “Psicologia Cristã”. Existem somente ‘psicólogos que são cristãos’”. Isso significa dizer, que a na experiência pessoal de cada um pode conciliar a profissão de psicólogo com a sua fé.  A questão é como equilibra-las, como “dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, para que não haja perdas nem de um lado nem de outro.

Psicologia Analítica e o Cristianismo

Não se pode negar que o Cristianismo desempenhou um papel determinante para a C.G.Jung, filho, sobrinho e neto de pastores, ele cresceu respirando discussões bíblicas e teológicas. Em suas memórias, ele relata como essa vivência era delicada para ele e para sua família – basta lembrar que seu pai, o advertiu que ele poderia seguir qualquer profissão menos a de teólogo (pastor).

Mas, não devemos reduzir as influencias do cristianismo à experiência pessoal de Jung, o cristianismo faz parte da construção de quem somos ocidente. James Hillman, em entrevista a Laura Pozzo, nos oferece um ponto de reflexão interessante:

J.H. (…)Veja, por que foi necessário para Jung – ou Nietzsche ou Kierkegaard – passar toda uma vida trabalhando com o cristianismo, ou para Freud inventar novos mitos como hordas primordiais ou aquela criança gorducha e polimorfa da sexualidade e as três Pessoas Invisíveis da psique: Ego, Id e Superego? eles estavam tentando encontrar saídas para a sobrecarga cristã. Vai nos tomar pelo menos dez horas de papo só pra começar a falar dessa grande questão que é o efeito de dois mil anos de cristianismo nos casos individuais que encontramos em psicologia. Nem você nem eu podemos fazer nada, somos cristãos.

L.P. Nós não somos cristãos praticantes…

J.H. Sim, somos, porque somos cristãos comportamentais, nós nos comportamos como cristãos – sofremos de modo cristão, julgamos de modo cristão, nos encaramos de uma maneira cristã. Temos que enxergar isto, ou permaneceremos inconscientes, e isto significa que nossa inconsciência é fundamentalmente o cristianismo. A psicoterapia não pode modificar nada, ninguém em lugar algum até que ela encare esta inconsciência cristã, e foi por isso que Freud teve de atacar a religião e Jung teve de tentar modificar o cristianismo. Até Lacan disse que se a religião triunfar, e ele acredita que triunfará, será o fim da psicanálise. (HILLMAN, 1989, p.85-86)

Na fala de Hillman, só faltou ele comentar que não só agimos de modo cristão, mas, também criticamos o cristianismo de modo tipicamente cristão, se olharmos a forma como das várias denominações se criticam mutuamente em discussões doutrinárias e teológicas. Hillman toca no ponto fundamental :  o problema da inconsciência do cristianismo.

Um dos grandes problemas que a psicologia analítica traz é a necessidade como conciliar ou integrar os opostos. Na medida que somos inconscientes do cristianismo em nós, nos tornamos indiferenciados, vivemos apenas o peso da cristandade (da culpa, do pecado, angustia do afastamento de Deus) sem a possibilidade de redenção. Não vivemos o mito que nos constitui. No meio acadêmico e científico a inconsciência do cristianismo (ou da religião) produz em alguns uma sombra “fanática”, dogmática cuja crença na efetividade das teorias (isso me refiro especialmente na psicologia)  produz uma atitude que só posso chamar de “religiosa”.

A psicologia analítica surgiu no contexto marcado pelo cristianismo (não podemos esquecer que a Suíça, em especial, Zurique, foi por muito tempo uma cidadela da reforma protestante), o dialogo com a religião (não só a cristã) é uma forma de não cair na armadilha da negação, da inconsciência e unilateralidade (que são três elementos que frequentemente constituem uma atitude neurótica). A psicologia analítica não defende o cristianismo ou qualquer religião, justamente porque não se ocupa do “sobrenatural” ou de “verdades divinas”, mas, apenas dos fenômenos compreendidos na esfera natural e relacionados com a psique humana. Deus e a Religião são compreendidos pela teoria como realidade psíquica, isso não significa um posicionamento teísta ou ateísta, mas, que até aonde a psicologia pode chegar, ideia de Deus e as ideias religiosas produzem efeitos sobre a psique do individuo. As discussões sobre Deus e sua existência e afins ficam a cargo da teologia.

Se a psicologia analítica não está compromissada com o cristianismo, o mesmo não podemos dizer dos profissionais junguianos em sua individualidade. Cada um vivencia sua religiosidade da forma lhe for mais adequada. Frente ao cliente, ele deve ter plena consciência de sua relação com sua própria matriz religiosa, para ter clareza de seus limites e, assim, respeitar o cliente em sua vivência religiosa, sem impor sua própria perspectiva religiosa ao cliente.

Assim, insisto, a Psicologia Analítica em si é religiosamente neutra. Ela estuda e compreende a religião como sendo algo positivo no desenvolvimento humano. Não nega a religião, permitindo que cada profissional tenha a perspectiva que lhe for própria. Isto é, a psicologia analítica não “induz” ninguém a religião, mas, respeita vivência religiosa do profissional, assim como do cliente.

Referencias Bibliográficas

Hillman, J. Pozzo, L. Entre  Vistas: Sumus Editorial: São Paulo, 1999

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Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

www.psicologiaanalitica.com

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