Curso : Jung e sua Obra

 

Abaixo segue a divulgação e do curso de extensão na Paulus – RJ.

 

Café e Debate é um projeto cultural que proporciona cursos de aperfeiçoamento pessoal e profissional promovido pela Paulus.

Curso de Extensão: Livros de C.G. Jung, Estudos Clínicos e Livros Atuais.

Apresentação do Curso:

A psicologia junguiana é pouquíssimo divulgada nas universidades. Atualmente com o movimento da internet está havendo possibilidades de trocas e divulgação por meios não acadêmicos de sua obra. Temos na Paulus vários livros importantes sobre o tema da Psicologia Junguiana e paralelos entre estes e a obra de Jung. Muitos livros ainda não foram traduzidos e é fundamental a leitura dos mesmos, pelo menos a introdução dos temas abordados. Tudo vai facilitar o trabalho com as práticas, bem como divulgar os outros estudiosos da psicologia junguiana em geral.

Curso de Jung e sua Obra
Divulgamos o próximo curso que oferecemos em parceria com a livraria Paulus, na Rua México , 111.
O curso completo (9 palestras) será R$220,00. Aulas avulsas – Quarta R$25,00 / Sábado R$30,00.
Horário: Quarta-Feira de 15h às 17h30 / Sábado 9h30 às 11h30
Inscrições na Livraria! Podem divulgar!

Cronograma curso:
Parte 1 – Introduzindo a Obra de C. G. Jung
08 ABRIL – Quarta – 15h às 17h30
I – A Academia e a Obra de C. G. Jung e a Formação de Analistas – Cynthia Lira e Maddi Damião Junior –
Parte 2 – fundamentos, temas dos livros de Jung e a clínica
18 ABRIL – Sábado – 9h30 às 11h30
I – Jung e Alquimia – Mysterium Coniunctionis e a questão das polaridades – Edinger e Jung – Elizabeth C. Cotta Mello
29 de ABRIL – Quarta – 15h às 17h30 II – Jung e a Imaginação ativa – Livro – Maddi Damião Junior
4 DE JULHO – Sábado – 9h30 às 11h30
III – Sonhos – Priscila Martins e Flávia Medina
Parte 3 – Vivências e discussões teóricas e práticas
8 DE AGOSTO – Sábado – 9h30 às 11h30
I – Arteterapia Junguiana: Leitura de imagens pela arte e Pela Psicologia – Elizabeth Christina Cotta Mello
2 DE SETEMBRO – Quarta – 15h às 17h30
II – Vivência de Arteterapia – Arte e Psicologia Junguiana – Denise Nagem
3 DE OUTUBRO – Sábado – 9h30 às 11h30
III – Recursos expressivos e vivência de Psicologia Junguiana – Clínica e recursos expressivos – Nilce Pinto de Oliveira
18 DE NOVEMBRO – Quarta – 15h às 17h30
IV – Mandala e Cores – Damáris Novo
2 DE DEZEMBRO – Quarta – 15h às 17h30
V – Prática de Psicoterapia – Maddi Damião Junior

Evento: CONGRESSO NACIONAL “CLÍNICA JUNGUIANA E ARTETERAPIA: MITOS E TIPOS”

CONGRESSO DE CLÍNICA JUNGUIANA E ARTETERAPIA: MITOS E TIPOS
QUANDO
: Maio, dia 21,22 e 23 de Maio no Rio de Janeiro.
COMO SE INSCREVER: no site www.praticajunguiana.com  pelo email: praticajunguiana@gmail.com .
LOCAL: Universidade Veiga de Almeida.

INSTITUIÇÕES NA ORGANIZAÇÃO: SBPA – RJ, participação de membros da SBPA – SP; Museu de Imagens do Inconsciente; Terapias Expressivas – UFF e Palestrantes de Mitologias diversas e de Tipos Psicolológicos, além de curso introdutório de Psicologia Analítica. Arteterapia e leitura de imagens. Valores especiais para estudantes em geral, e membros da UBAAT. Apoio: Editora Paulus.
VALORES: As modalidades e os valores de inscrição são os seguintes:
Profissionais – R$260,00 até 20 de Abril e R$360,00 até o dia do congresso
Profissionais da UBAAT – AARJ – R$ 200,00 até 20 de Abril e R$ 320,00 até o dia do congresso
Estudantes de graduação e de pós-graduação – R$180,00 até 20 de Abril e 260,00 até o dia do congresso
Descontos de estudantes da UBAAT – AARJ e Descontos de alunos de graduação e pós-graduação da Universidade Veiga de Almeida; da FAMATH, alunos do curso de Terapia Expressivas – UFF e estagiarios oficiais da Casa das Palmeiras e do Museu de Imagens do inconsciente – R$160,00 até 20 de Abril e 240,00 até o dia do congresso.

Um Minicurso – R$90,00 até 20 de Abril e R$140,00 até o dia do congresso
Desconto para quem vai fazer 03 Minicursos: 200,00 e 250,00 no dia do congresso.

EM BREVE: nome de Palestrantes confirmados!
INSCRIÇÃO DE TRABALHOS: LINHAS TEMÁTICAS
Clínica Junguiana: supervisão e formação
Psicologia Junguiana e Tipos Psicológicos
Pensamento Mítico e Clínica Junguiana
Clínica Junguiana e Arteterapia
Arteterapia e a Mitologia
Arteterapia e Artes Visuais
Arteterapia e Tipologias
Fundamentos Epistemológicos da Psicologia Junguiana e Arteterapia

“Individuação Dói”–Reflexões sobre o processo de individuação e “novo nascimento”

(5 de maio de 2012)

Há pouco tempo, encontrei minha querida amiga Carolina A. Silva, numa rápida conversa, ela fez um comentário que me mobilizou bastante, ela afirmou que “Individuação doí”. Saí daquele encontro com essas palavras …”individuação dói”.

De fato, a individuação é um processo que pode ser marcado por fortes angústias e, por isso mesmo, é associado a “crise da meia idade”.  Mas, para entendermos um pouco melhor essa “crise de individuação” ou a “dor de individuação” eu gostaria de usar uma experiência pessoal como metáfora.

Quando era pré-adolescente com meus 11 ou 12 anos, eu tive uma leve fratura no tornozelo e precisei engessar, bem, eu não era uma criança não muito “ortodoxa”, assim, fiquei duas semanas com o gesso, chegando a véspera do dia que eu deveria retirar o gesso, eu optei em ir para a garagem da minha casa, enfiei o pé balde d’água e cortei o gesso. O problema foi quando eu coloquei o pé no chão, não conseguia firmar o pé, sentia um pouco de dor, e como se estivesse sem força, como se não conseguisse controlar meu pé. Durante um tempo pensei que era tinha errado, que deveria esperado mais um dia, fiquei com medo do que meu pai diria, foi um turbilhão de pensamentos, sentimentos e e sensação de dor.

Mas, com o passar das horas, com o exercício de tentar pisar. Enfim, “tomei posse” do meu pé. Essa experiência foi muito angustiante.

Acredito que essa experiência pode nos ajudar bastante a compreender nosso tema. Pois, quando falamos em processo de individuação falamos num redimensionamento da persona, no confronto e assimilação da sombra, integração da anima/us e constelação do self. Todo esse processo tomar consciência da persona e confronto com a sombra nos conduz ao conhecimento do que sou, do faço, do que vivo. Por analogia, a crise de individuação se inicia a tomada de consciência do gesso ou da vida engessada. Se por um lado o gesso protege,  por outro ele limita, tira os movimentos.

A dor da individuação começa quando nos damos conta da irrealidade em que vivemos. Quando nos damos conta que precisamos respirar, nos mover, ser. Tão difícil quanto reconhecer o gesso é retira-lo, pois, exige muito esforço. É preciso corta-lo, não dá apenas para flexibiliza-lo.

Quando retiramos o gesso, nos deparamos com uma outra realidade. O membro não “obedece”, não tem força, como se não fosse “nosso”. Ao mesmo tempo, temos a experiência de amplitude e liberdade vem o receio, estranheza… Abrindo as portas para a possibilidade das possibilidades. Acredito que essa seja uma metáfora possível para o encontro com a anima.

Quando pensamos em individuação, estamos falando de um processo de tornar-se indivisível, isto é, um processo de integração total do individuo. Essa integração implica em reconhecer que estou invariavelmente e intrinsecamente relacionado com o mundo (que muitas vezes, nós vemos, mas, não enxergamos) e por outro lado, estou profundamente enraizado em “mim mesmo”. Assim como uma árvore é nutrida pela Terra, o “eu” é nutrido pela “Self”. Note que eu não usei solo, mas, sim Terra. Pois, eu me refiro ao planeta, pois, uma árvore precisa mais do que apenas solo para crescer, precisa da chuva, precisa do ar, dos ciclos das estações do planeta em torno do sol. Da mesma forma, o Self está para muito além da compreensão individual, pois, o Self representa o potencial universal de nos tornarmos o nosso melhor, de nos tornarmos únicos.

Quando nascemos temos todo o potencial para nos tornarmos humanos. Isto é, viver como humanos, falar como humanos, nos relacionar como humanos, amar como humanos etc… no geral, a cultura nos torna humanos, molda nossa linguagem, molda a forma de nos relacionar, molda nossa moral e a forma de ser no mundo. Tudo isto é dado pela cultura. No “processo de individuação” não somos mais lançados na humanidade, mas, sim, podemos assumir a nossa humanidade e o potencial de ser “além do homem”, saindo do genérico para o único.

A individuação dói por ser um novo nascimento. Dói porque é um “libertar-se” de um gesso existencial. Dói o processo de integração e de tornar-se si-mesmo, isso implica em fazer escolhas e assumir a responsabilidade pela vida. A temática do “novo nascimento” ou “renascimento” indica exatamente o processo de individuação. Vejamos, um pouco desta esta dinâmica arquetípica

Dimensão arquetípica do renascimento.

Para pensarmos o renascimento ou novo nascimento, vamos usar para referência duas tradições que nos são próximas a cristã e a afrobrasileira, do candomblé.

Assim, na tradição cristã, um dialogo que excepcionalmente interessante em nosso contexto,

Em resposta, Jesus declarou: “Digo-lhe a verdade: Ninguém pode ver o Reino de Deus, se não nascer de novo”.
Perguntou Nicodemos: “Como alguém pode nascer, sendo velho? É claro que não pode entrar pela segunda vez no ventre de sua mãe e renascer! ”
Respondeu Jesus: “Digo-lhe a verdade: Ninguém pode entrar no Reino de Deus, se não nascer da água e do Espírito.
O que nasce da carne é carne, mas o que nasce do Espírito é espírito.
Não se surpreenda pelo fato de eu ter dito: É necessário que vocês nasçam de novo.
João 3:3-7 (NVI)

Na tradição cristã, esse dialogo se constitui fundamental para se compreender aconversão(metanóia) que tem como principal marco o batismo, o novo nascimento, que vai abrir as portas para o “reino de Deus”. Apesar de todas as denominações cristãs reconhecerem a importância do batismo, cada um atribui um significado para o rito, que segundo algumas tradições simboliza a morte do velho homem e o nascimento do novo homem em Cristo.

Assim, novo nascimento ou nascimento espiritual indica simbolicamente a integração do individuo a uma realidade superior, uma integração com Deus, o homem deixa de ser criatura para ser filho. Uma vez que este passa a ser filho de Deus, podendo assim, também, participar da comunidade cristã, isto é, da Igreja de Cristo.

Por outro lado, na tradição afro-brasileira do candomblé, temos uma referência similar, pois, a iniciação não só integra o individuo ao “povo-de-santo” ou “família-de-santo”.

A iniciação, cumprindo a formalização do contrato entre individuo e divindade, marca diacriticamente o ser social em formação, uma vez que a relação estabelecida é única e individualizada. (…)

Isto se refere as etapas preliminares da “lavagem de contas”, o recebimento do colar sacralizado cujas contas são da cor da insígnia do seu orixá, ou a rituais como o bori, cerimônia mais complexa destinada a reforçar a cabeça do iniciante, que supõe um período de recolhimento e descanso do corpo, e ainda ao “assentamento do santo” quando é construída ritualmente uma representação e são sacralizados objetos que representam o orixá associado ao fiel.

Entendemos que a construção social da pessoa no candomblé expressa, dessa forma, tanto o processo de individuação como o de integração social. (BARROS e TEIXEIRA, 2000, p.110-112)

No candomblé a iniciação é um processo longo, onde tudo na vida do iniciado será mudado, inclusive seu nome como será conhecido pelo povo-de-santo. Devemos observar que na iniciação do candomblé o fiel e passará a ter uma série de obrigações com seu orixá e com a casa onde ele passará a pertencer.

Tanto no cristianismo como no candomblé o novo nascimento no desenvolvimento de uma relação vertical ( isto é, com a divindade) e uma relação horizontal (com a comunidade dos fiéis). Acredito que esses dois elementos – a relação com o divino e com o social – são fundamentais, pois, implicam numa mudança ou transformação da atitude do individuo tanto em sua intimidade (na relação com o divino) quanto no aspecto público. No candomblé isso é ainda mais visível, pois, após a iniciação o yàwó deve respeitar uma série de restrições alimentares, sexuais, da cor da roupa. Ao devoto as mudanças ou a transformação que ele atravessa pode não ser interpretada de como sofrimento, dado o significado interior, contudo, para quem não participa desse símbolo, percebe há um sofrimento envolvido. Por outro lado, no cristianismo, não é sem razão que Cristo afirma “Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”. Mt 16:24

Destaquei, esses dois ritos ou símbolos do cristianismo e do candomblé. Justamente porque em nossa cultura brasileira somos atravessados por essas duas matrizes. Conscientemente, somos cristãos, agimos, sentimos, pensamos como cristãos. Contudo, inconscientemente, estamos irremediavelmente imbuídos da tradição negra (ou vice-versa) Mesmo que nunca tenhamos pisado ou sonhado em pisar num terreiro, a força e o ímpeto negro de preservar sua identidade cultural (que formou candomblé) chega até nós através de nossa música, literatura, nossa língua, nossa culinária, nossas festas. E, até mesmo, na forma como cultuamos no cristianismo. Somos atravessados pelo sincretismo.

Vida Significativa e Vida Simulada

No contexto das religiões citadas, o batismo e a feitura de cabeça são rituais de passagem de uma vida profana, vulgar para uma vida significativa, espiritual em contato com uma realidade maior. Onde tudo é significativo.

No contexto do processo de individuação saimos de uma vida simulada, isto é, uma vida falseada seja pelos medos, seja pelas exigências externas – o “ter que agradar os outros” – para um vida significativa, onde, o individuo está inteiro em cada ação. Esta integração abrange tanto a relação do individuo consigo mesmo quanto a relação com o mundo externo, sendo marcada por uma profunda coerência.

O processo de individuação não termina. É uma constante. Escolher muitas vezes gera angústia. E, isso dói. Contudo, a dor, a tristeza, o medo e a saudade fazem parte da vida. A diferença que quando falamos de individuação, falamos em atravessar a dor e não em ficar presos na mesma, são apenas momentos existênciais, que já não podem ser negados.

Quem pensa por si mesmo é livre
E ser livre é coisa muito séria
Não se pode fechar os olhos
Não se pode olhar pra trás
Sem se aprender alguma coisa pro futuro

(Renato Russo, L´Aventura)

Referências bibliográficas

BARROS, José Flávio Pessoa de; TEIXEIRA, Maria Lina Leão. O código do corpo: inscrições e marcas dos orixás. In: MOURA, Carlos Eugênio Marcondes de (org.).Candomblé:religião do corpo e da alma: tipos psicológicos nas religiões afro-brasileiras. Rio de Janeiro: Pallas, p. 103-38, 2000

Nota : Apesar de não ter feito uma citação explicita, indico sobre o candomblé o blog “Candomblé – o mundo dos Orixás”http://ocandomble.wordpress.com/  , do qual sou leitor e admirador. Lá você poderá encontrar informações excelentes acerca desta religião.

——————————————————–

Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

www.psicologiaanalitica.com

mandala

Algumas Notas sobre “Medo” e “Ansiedade”

 

(2 de agosto de 2010)

O medo e a ansiedade são duas palavras que fazem parte de nossas vidas. Na medida que nosso cultura se vê assolada pelo terror, que se manifesta com diferentes faces, como o assalto repentino, o fantasma do desemprego, a violência doméstica,  o abuso do poder, epidemias, desastres naturais, ataques terroristas, dentre outras, torna nossa cultura uma cultura do medo(e da ansiedade). Em nosso dia a dia, somos bombardeados por esse terror nas várias as formas de mídia, entretanto, a cultura impõe que devemos enfrentar o medo e ansiedade a todo custo, como se todo medo e a ansiedade fosse patológico.

Essa patologização do medo/ansiedade junto com o excesso de informação duvidosa que circula na internet agrava o problema, pois, muitas pessoas se identificam com os relatos e acabam por ficar mais ansiosas achar que tem algum transtorno, quando na verdade pode estar em um nível de ansiedade dentro da normalidade. (Eu chamo de “normal” ou de “normalidade” uma ansiedade que corresponda a realidade ou ao estresse que o individuo de fato atravessa.)

Nesse contexto, é importante percebermos que ansiedade e o medo são funções naturais do psiquismo, intimamente relacionados a uma função de preservação da vida, por meio de ambos, evitamos ou nos preparamos melhor para situações de pode representar risco a integridade tanto física quanto psíquica do individuo. Mas, qual a diferença entre eles?

Ansiedade, Angustia e Medo

Percebemos o  Medo como uma reação  a um objeto bem definido que represente um risco real ou imaginário ao individuo. Frente a essa situação automaticamente o individuo produzirá a resposta de medo que prepara o individuo para lutar ou fugir, que podemos perceberemos em nosso corpo como  taquicardia, suores, alteração respiratória dentre outras. Para ilustrar, podemos imaginar uma pessoa está andando por uma rua estreita quando se depara com um pit bull sem coleira, a resposta imediata é o medo.

Por outro lado, percebemos a ansiedade é uma reação semelhante ao medo, contudo não há uma definição do objeto. Por exemplo, um individuo passa por uma rua, onde ele ouviu dizer que ronda um pitbull, mesmo sem ver o cão, seu organismo emite um sinal(ou reação) de alerta para o  “possível” encontro, o corpo já entra em estado de estresse mesmo se ocorrer o encontro.  A ansiedade não possui um objeto claro, é um medo sem foco, o que faz com que seja persistente.

Tanto no medo quanto na ansiedade as sensações corporais(cansaço, insônia, sensação de sufoco, tensão muscular, tremores, dificuldade de se alimentar, taquicardia/palpitações, por exemplo) e psicológicas (pensamentos de inferioridade, a crença que não vai “dar conta”, fantasias de que “tudo vai dar errado”, ou que vai ser insultado, abandonado pelos amigos,  superdimensionado os problemas, por exemplo) se tornam freqüentes ou mesmo  permanentes. O que gera uma série de problemas físicos(doenças)  e sociais para o individuo.

Por outro lado, temos ainda o termo angústia, que muitas vezes, gera alguma confusão.

Tal problema não se coloca – ou pelo menos não é tão agudo – no inglês e no alemão e nas línguas a estas aparentadas. Pichot lembra que os termos latinos correspondentes à angustia e à ansiedade derivam do verbo grego agkhô: eu aperto, eu estreito. Dele, surgem, no latim, os verbos ango e anxio, que significam respectivamente aperto, constrição física e tormento. (…) No português, como no francês e nas linguas românticas em geral, surgem dois termos técnicos : “angustia” e “ansiedade”. Em inglês, tem-se apenas anxiety(o termoanguish tem uso quase exclusivamente literário, sem significação técnica); no alemão, aparece apenas Angst, do qual deriva o adjetivo ängstlich. (PEREIRA, 2003, p.87)

Durante algum tempo, tentou-se convencionar angústia para os sintomas físicos e a ansiedade para os sintomas psicológicos.  Mas, por fim concluiu-se que não dá para fazer esta separação, de modo que a psiquiatria/psicologia passou a considerar ansiedade e angústia como sinônimos.  

Medo, Ansiedade, Complexos

O medo e ansiedade se manifestam como uma defesa a um risco em potencial ao Ego.  Esse risco pode ser um risco externo e objetivo (uma longa viagem, p. ex.) ou uma ameaça interna e subjetiva (pensamentos obsessivos). No modelo junguiano da psique, o Ego é o mais importante dos complexos, que atua mediando as relações do individuo com o meio externo,  sendo o centro da consciência. Duas características que distinguem o Ego dos demais complexos são a sua energia psíquica diferenciada e sua capacidade de auto-reconhecimento.

A energia diferenciada do Ego permite que o mesmo crie um “campo de referencia” em torno de si, isto é, um campo energético que funciona como uma “membrana semipermeável” que permite a relação do Ego com conteúdos que lhe são próprios e salutares como elementos de identidade e conteúdos externos direcionados ao Ego e símbolos; e repele conteúdos que apresentem algum risco ao Ego como conteúdos do inconsciente ou mesmo do meio externo, essa função protetora é justamente desempenhada pelos mecanismos defesa que foram descritos por Freud.

O autorreconhecimento é a capacidade de se remeter a si mesmo. O Ego é o único complexo capaz se reconhecer como algo distinto tanto dos conteúdos psíquicos quanto do mundo externo. Reunindo, assim, as características imediatas do indivíduo que chamamos de identidade, isto é, a possibilidade de diferenciar entre “o que me pertence” e o que “não me pertence” ou do que “sou” ou “não-sou”.

De forma geral, o Ego possui duas fontes de referência que permitem que ele se adapte e enfrente as situações são elas: os complexos e a persona.

Os complexos podem ser compreendidos como um conjunto de representações (idéias, lembranças) unidas por uma forte carga afetiva/energética. Na dinâmica psíquica, os complexos funcionam aglutinando as memórias, percepções etc.  em torno de um núcleo arquetípico comum.

Podemos dizer que um complexo funciona como um magneto, que atrai vivências similares, relacionadas a situações arquetípicas. No complexo materno, por exemplo, as vivências se relacionam com a experiência e a imagem da mãe. (SAIANI, 2000, p.51)

Os complexos possuem um caráter dinâmico e histórico, que agrega as informações acerca da história pessoal do individuo, disponibilizando-as ao servir ao Ego, essas referencias são necessárias a enfrentar as vicissitudes da vida. Entretanto, como foi dito, os complexos são estruturas dinâmicas, isto é, são dotados de uma certa autonomia,  que só os percebemos quando estes estão em “descompasso” com a dinâmica psíquicada consciência, ou seja, estão dissociados da estrutura psíquica, atuando de forma independente e, às vezes, contraria ao Ego. Segundo Jung, são dotados

(…) de poderosa coerência interior e tem sua totalidade própria e goza de um grau relativamente elevado deautonomia, vale dizer: está sujeita ao controle das disposições da consciência até um certo limite, e, por isto, se comporta, na esfera do consciente, como um corpus alienum [corpo estranho], animado e de vida própria. (…)

Regra geral, há uma inconsciência pronunciada a respeito dos complexos e isto naturalmente lhes confere uma liberdade ainda maior. Em tais casos, a sua força de assimilação se revela de modo todo particular, porque a inconsciência do complexo ajuda a assimilar inclusive o eu, resultando daí numa modificação momentânea e inconsciente da Personalidade, chamada identificaçãocom o complexo. (JUNG, 2000b, p. 31-3)

Dependendo da capacidade do Ego em lidar com a com o inconsciente/complexos poderá ou não se instaurar para o desenvolvimento de uma patologia. Considerando um individuo com uma estruturação egóica saudável (isto é, que não psicótico ou limítrofe) os complexos podem gerar ansiedade por duas vias distintas:

1 – Unilateralidade da Consciência: A psicologia analítica compreende que a unilateralidade da consciência uma atitude do Ego voltada unicamente para o mundo exterior. Na medida que o Ego se identifica com os valores do mundo exterior, ignorando as necessidades interiores, o inconsciente age de forma compensatória de modo a reorganizar/equilibrar a relação entre a consciência e o inconsciente. Nesse processo o inconsciente pode se manifestar através de sonhos (pesadelos), pensamentos obsessivos,  visões, atos falhos, esquecimentos, somatizações. Todas essas manifestações tendem a prejudicar a adaptação do Ego e a realidade exterior, quanto maior for as tentativas do Ego negar, ou se defender dessas manifestações do inconsciente, maior serão as reações contrarias do inconsciente, gerando o sentimento de ansiedade/angústia.

O ego tende a reconhecer o inconsciente como algo grande e poderoso que se impõe, esse grande desconhecido ameaçador chamamos de Sombra. Essas reações são naturais, correspondendo ao principio de entropia, onde a dinâmica psíquica se desenvolve em busca de um equilibro sistema psíquico.  A unilateralidade da consciência corresponde sobretudo a uma relação inadequada com o mundo interno, gerando uma situação neurótica.

2 –  Experiências vividas: Esse segundo aspecto não corresponde necessariamente a uma atitude patológica ou neurótica. Por um lado, muitas pessoas desenvolvem ansiedade ou são “medrosas” simplesmente porque aprenderam assim. Muitos pais excedem em sua proteção e cuidado privando os filhos de experiências que vão se possibilitar o desenvolvimento da auto-segurança dos filhos. assim, os filhos se tornam inseguros e aprendem a temer o mundo. Essainsegurança pode se mascarar através de relações de dependência (seja dos pais, dos amigos, namorada), muitas vezes a ansiedade só se manifesta quando eles se percebem numa situação que depende deles. Toda vez que individuo se vê numa dada situação ele não possui referências de enfrentamento, nesse caso, seu complexo de poder se manifestará pela a inferioridade, indicando que o individuo “não é capaz” ou “não dá conta” de enfrentar as adversidades. Impondo sempre a mesma resposta de evitação e fuga. A ansiedade é uma expressão desse “despreparo” frente a vida.

Patologia e Psicoterapia

Na grande maioria das vezes, nos grande parte das pessoas tentam conviver com a ansiedade, vivendo num estado de apreensão constante, buscando nos antecipar em tudo, se prevenindo todas as formas contra a possibilidade de um futuro negativo ou mergulhados em insegurança e dúvidas, se apoiando em pessoas próximas.

Como dissemos no inicio, a nossa cultura ou nossa vida cotidiana propiciam o medo e a ansiedade. O problema se agrava por nossa cultura não nos oferecer os elementos necessários para enfrentarmos essa ansiedade. A ansiedade se torna patológica quando há uma perda de controle, isto é, a ansiedade passa a dominar a vida. O individuo perde a liberdade se tornando escravo da ansiedade ou do medo.

As principais formas de transtornos de ansiedade  são:

Transtorno de Ansiedade Generalizada : Se caracteriza, basicamente, pelo excesso de preocupação com as diversas situações da vida. No geral, a preocupação é desproporcional a realidade do problema. Isso gera uma série de sintomas físicos como tensão e dores musculares; boca seca; suor excessivo; náusea e diarréia; freqüência urinária aumentada; dificuldade para engolir dentre outros; e psíquicos como inquietação, irritabilidade, nervosismo,  falta de concentração dentre outros.

Síndrome do Pânico:Se caracteriza por ataques(ou crises de pânico), que é um estado/periodo extrema ansiedade, que se manifestam de forma repentina.Alguns sintomas presentes no ataque tremores, calafrios,  despersonalização, confusão, dificuldade em respirar, palpitações do coração, sensação de morte iminente,  tontura. Uma crise não caracteriza a síndrome.

Transtorno Obsessivo-compulsivo: Se caracteriza pela presença de obsessões e compulsões. As obsessões são pensamentos, idéias ou imagens que invadem o individuo. Geralmente, esses pensamentos/idéias/imagens são relacionados a situações ruins (doenças, contaminação, dúvidas, agressividade, dentre outras), que geram ansiedade. Essas obsessões, tendem a gerar as compulsões que são comportamentos/ações repetitivos (como lavar as mãos, ordenar, verificar, rezar, dentre outras)  e excessivos. As compulsões tem como objetivo aliviar a ansiedade e evitar as obsessões. As compulsões podem ou não ter uma relação lógica com as obsessões.  

Fobia Social: Se caracteriza por um extremo desconforto em situações sociais e um excesso de preocupação com o julgamento dos outros(que imagina que sempre será negativo). Isso faz com que o individuo se esquive de situações comuns como beber, ler, conversar em público.

Fobias específicas: Se caracteriza por uma reação de extremo medo a determinados objetos, animais/insetos e situações. O individuo sabe que sua reação é excessiva, mas, não consegue controlar. 

Estresse Pós-traumático: Esse transtorno ocorre como conseqüência de uma situação que ofereceu um risco a integridade física ou a vida do individuo(como violência física/sexual, assaltos, acidentes). Alguns dos sintomas são: ansiedade/temor que o evento se repita; reexperimentação do evento traumático (como lembranças, pesadelos); irritabilidade, dificuldade em se concentrar, distúrbios do sono,

A terapia junguiana não tem por finalidade “apagar” ou “ignorar” as experiências passadas do individuo, mas, possibilitar que o individuo  se afirme frente a doença, para que enfrente tanto os aspectos históricos que contribuíram para o desenvolvimento da doença quanto os fatores que mantém que a ansiedade na atualidade. De modo a favorecer que o individuo se permita novas experiências, criando novos parâmetros  que possibilitem que ele enfrente o futuro, para que seja desenvolvido a segurança necessária para uma vida saudável.

A psicoterapia  compreende tanto um processo de auto-conhecimento, de avaliação das escolhas feitas, dos caminhos que levaram ao desenvolvimento do transtorno quanto um processo prático de aprendizado do enfrentamento da ansiedade(e da própria vida), do modo a iniciar de uma nova relação consigo mesmo e com o mundo.

REFERÊNCIAS

PEREIRA, M.E.C. PSICOPATOLOGIA DOS ATAQUES DE PÂNICO, Editora Escuta: São Paulo, 2003.

JUNG, C.G. O DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE, Vozes: Petrópolis, 2006

______________. A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes, 5. Ed. 2000b.

SAIANI, C. Jung e a Educação: Uma análise da relação professor/aluno. São Paulo: Escrituras, 2000.

 

——————————————————–

Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

www.psicologiaanalitica.com

mandala

Algumas palavras sobre Símbolos

 

( 8 de maio de 2010 )

Um conceito importante para a psicologia analítica é o “símbolo. É quase impossível falar qualquer coisa em psicologia analítica sem tocar direta ou indiretamente em símbolos.  Isso faz com que vejamos o uso do termo de uma forma, muitas vezes, equivocada. Vamos pensar alguns aspectos dos símbolos:

1) Etimologia de Símbolo

A palavra símbolo vem do termo grego symbolon , que por sua vez estava relacionado com o verbo symballein que era “lançar com”, “lançar junto” ou fazer coincidir. O termo significava união, pacto, amizade. Símbolo na antiga Grécia representava um compromisso entre duas pessoas. Era comum, por exemplo, a divisão ao meio de uma moeda na ocasião da separação de dois amigos ou de duas pessoas que tinham um compromisso entre si, para que quando no futuro elas se reencontrassem a moeda partida seria símbolo do compromisso do passado.

Na Ilíada de Homero, no Canto VII, temos um exemplo interessante do sentido do símbolo. Nesse canto é relatado uma pausa na batalha entre os exércitos, sendo então proposta uma luta entre o melhor dos Aqueus e o melhor dos troianos. Assim Ájax, o melhor dos Aqueus, e Hector (ou Heitor) o melhor dos troianos iniciaram um combate feroz, e quando era chegada a noite, hora que era proibida pelos deuses de haver combate,  eles discutem o fim de seu combate. Heitor, diz:

“(…) Vamos por fim ao combate e à luta, por hoje. Mais adiante, à luta voltaremos até que faça a escolha, entre nós, o demônio da fortuna e a vitória caiba a um dos dois. Já cai a noite; cumpre guardar a noite. (…) Troquemos, pois, dons memoráveis, para que alguém, Troiano ou Grego, possa vir a dizer: `Combateram-se os dois na peleja devora-corações. Separaram-se amigos.`” Falou. E deu sua espada ao Dânao, cravejada em prata, com talim bem trabalhado e bainha; Ájax o cinturão – púrpura fulgurante – lhe ofertou. Separaram-se então. Aos Aqueus um se dirigiu; outro, à multidão troiana. (HOMERO, 2002, pág. 282-3)

Nesse fragmento da Ilíada devemos observar a frase “separaram-se amigos”. Olhando o contexto percebemos claramente que “amigos” como aparece no texto em nada se relaciona com o conceito de amigos que temos nos dias atuais. Essa amizade dita por Homero, tem como símbolo ou marca de reconhecimento os “dons memoráveis”, a espada e o cinturão. A troca desse presentes é o símbolo o reconhecimento e respeito mútuo, reconhecimento que seria cantado tanto por gregos e troianos.

O símbolo indica o reconhecimento, aponta para este algo em comum. Heitor e Ájax mesmo em lados opostos estavam unidos pela batalha travada, e simbolizada pela troca de armas.

Outro exemplo, mais próximo e conhecido é o símbolo do peixe utilizado pelos cristãos dos primeiros séculos para se reconhecerem, quando se encontravam, um fazia um risco curvilíneo e o interlocutor completava o desenho com outro risco curvilíneo formando um peixe (símbolo do peixe estava relacionado a palavra ICHTHYS, peixe em grego,  cujas letras que eram consideradas como acróstico para Iesous Christos Theou Hyous Soter – Jesus Cristo, de Deus o filho, Salvador). eles se reconheceriam como cristãos. Em outras versões, uma pessoa escrevia no chão a letra grega alfa (a), que guarda similaridade com o peixe, e o interlocutor apagaria o desenho, de igual modo eles se reconheceriam como cristãos reconhecendo-se como “cristãos”.

O símbolo historicamente representa a união, um elo que une entre dois iguais que foram separados, indicando uma identidade entre ambos.

2) Símbolo na Psicologia Analítica

Os junguianos muitas vezes são questionados sobre “significado” de símbolos, ou de forma caricata são aqueles que reconhecem símbolos em tudo. Por isso, devemos ter cautela no estudo de símbolos.  O primeiro passo para pensarmos o símbolo na psicologia analítica é fazermos a diferenciação entre sinal e símbolo, pois eles possuem uma relação muito próxima.

Os sinais indicam/informar convenções ou relações naturais. No geral, possuem um significado determinado.  Por outro lado, o símbolo possui vários significados. Devemos compreender que osímbolo ser expresso por um sinal, isto é, uma marca ou ícone, entretanto, o significado ou sentido do símbolo será sempre subjetivo. O sinal por sua vez, tende a apontar a um significado objetivo, determinado pela cultura. Assim, todo símbolo é um sinal, mas, nem todo sinal é um símbolo. Deste modo, para a psicologia analítica compreende que os símbolo indica algo que não pode (pelo menos não momentaneamente) ser expresso pela linguagem comum, indicando para algo desconhecido.

Colocando em outros termos, o símbolo possui um icone (ou sinal) que está relacionado com a consciência (ou seja, é percebido ou representado na consciência) e outro aspecto que é sua indeterminação corresponde a sua relação com o inconsciente. Assim, os símbolos possuem uma natureza intermediária ou transcendente, constituindo uma outra realidade. No símbolo a consciência e o inconsciente estão integrados.

Nessa perspectiva um simbolo pode ser uma imagem(icone), local, situação, musica, sensações e etc… todos os elementos sobre os quais o inconsciente possa se projetar atribuindo significado pode se tornar simbólico. Os símbolos são sempre formados a partir do inconsciente, a consciência não cria símbolos, mas sinais.   

a) Símbolos  Culturais

Os símbolos culturais são representações arquetípicas que orientam a cultura. Os símbolos culturais estão relacionados geralmente relacionados com as religiões. Devemos lembrar que  uma religião não é Um simbolo, mas um sistema simbólico. Quando uma religião subjulga outra, o símbolos são substituídos(ou absorvidos) por outros da matriz arquetípica correspondente. Outros, podem se manter como contos de fada ou nos mitos. 

b) Símbolos  Individuais

Os símbolos pessoais são formações que eclodem do inconsciente, intimamente relacionado com o momento do qual um individuo vive. O símbolo muitas vezes se constela como uma resolução de conflito. É um elemento integrador, que supera um possivel conflito possibilitando o funcionamento da dinâmica psíquica.  Um aspecto fundamental, é considerar que um símbolo somente é para quem o percebe, “depende da atitude da consciência que observa se alguma coisa é simbolo ou não(…)” (JUNG, 1991, p.445)

c) Transformadores de Energia

Jung se referia aos símbolos como transformadores de energia, pois tinham a função de transmitir a energia entre a consciência e o inconsciente. Isso significa dizer que os símbolos possuem a função de nutrir a consciência e o ego. Os símbolos canalizam a energia do inconsciente para a consciência, aglutinando a energia e deixando disponível para a ego. Isso especialmente importante, pois, quanto maior a energia disponível ao ego, maior o potencial de ação ou ao exercício da vontade.

d) Função Transcendente

Função Transcendente foi o conceito que Jung adotou (importando da matemática) para expressar a tendência da consciência e do inconsciente em se unir.Toda vez que falamos de símbolos estamos falando de função transcendente, ou melhor, esta se exprime ou se manifesta pelos simbolos. O que é importante para pensarmos a psicoterapia. Pois, a mudança da atitude da consciência ocorre na medida que a que a função transcedente se manifesta, como expressão da resolução do conflito. No texto intitulado “A Função Transcedente” Jung também relaciona a função transcendente com a transferência, pois, esta é uma tentativa do inconsciene em mudar a atitude da consciência (superação do conflito) através da projeção de conteúdos inconscientes no terapeua/analista que favoreceria essa mudança. Assim, a relação terapêutica seria simbólica, isto é, constituiria um símbolo para o cliente.

Por isto, na prática é o médico adequadamente treinado que faz de função transcendente para o paciente, isto é, ajuda o paciente a unir a consciência e o inconsciente e, assim, chegar a uma nova atitude. Nesta função do médico está uma das muitas significações importantes da transferência: por meio dela o paciente se agarra à pessoa que parece lhe prometer uma renovação da atitude; com a transferência, ele procura esta mudança que lhe é vital, embora não tome consciência disto.(JUNG, 1998, p. 74)

Referências

JUNG, C.G. A DINAMICA DO INCONSCIENTE, Ed. Vozes, Petrópolis, RJ, 1998.

JUNG, C.G. TIPOS PSICÓLOGICOS  Ed. Vozes, Petrópolis, RJ, 1991.

HOMERO, ILIADA– tradução Haroldo Campos; 3 ed.; São Paulo: Arx, 2002.

 

 

——————————————————–

Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

www.psicologiaanalitica.com

mandala

Arte e Psicoterapia: uma quase apologia[1]

 

(25 de março de 2010)

O uso da arte como instrumento terapêutico já era difundido desde a Antiguidade. Já era conhecida e documentada pelos gregos desde o século V a.C. Na tradição judaico-cristã o uso da arte como instrumento terapêutico é relatado na Bíblia[2], aproximadamente no século X a.C. Contudo, a arte como instrumento de ordenação da realidade já era utilizado desde a pré-história, como podemos observar nas pinturas rupestres. O uso contemporâneo da arte como instrumento terapêutico começou a ser sistematizado a partir dos anos de 1940. Desde então técnicas inspiradas nas expressões artísticas vem ganhando cada vez mais espaço entre os psicólogos.

A arte é um fenômeno humano transdisciplinar, que envolve os mais diversos campos do saber. Na psicologia essa transdisciplinaridade é percebida pelo uso da arte por diferentes abordagens psicoterápicas. Como a psicologia comportamental psicanálise, psicologia transpessoal, psicoterapia corporal, psicologia analítica, gestalt-terapia dentre outras.

Aqui utilizaremos o enfoque da psicologia analítica junguiana para pensarmos o uso desse fenômeno. Jung foi um dos pioneiros da psicologia contemporânea a utilizar o potencial da arte como instrumento da prática psicoterápica, no ensaio “A Função Transcendente”[3] de 1916,  Jung já sugeria que seus pacientes pintassem as imagens sejam de sonhos ou quaisquer que lhes ocorressem.

A arte, arquétipos e Símbolos

A arte é a grande testemunha da história humana.  A capacidade de interação e transformação da realidade foi documentada pela expressão artística. E, talvez, podemos dizer que a arte foi o veiculo pelo qual o homem pode se tornar homem.  O homem e a arte são elementos indissociáveis.

A consciência é estruturada simbolicamente, isto é, pela união de elementos que são próprios do homem e elementos que são próprios do meio.  A capacidade humana de produzir símbolos propiciou uma relação diferenciada com o meio, onde um gesto deixaria de ser apenas um movimento corporal e se tornaria algo a mais, seria um movimento corporal pleno de significado. A emergência da consciência simbólica do homem foi documentada por meio das pinturas rupestres.

As pinturas rupestres juntamente com a produção de artefatos (pontas de lanças, machados, esculturas) são os mais antigos documentos/evidencias de ordenação psíquica. Esses documentos históricos nos narram o processo de como o homem foi interferindo no meio através do desenvolvimento de instrumentos e técnicas e, assim, de como foi descobrindo, a si mesmo e ao outro, e se diferenciando dos demais animais.  As pinturas como a de Lascaux ou esculturas como a “vênus de Willendorf” nos mostram que o homem há cerca de 30 mil anos, já olhava para uma pedra ou para as paredes e via mais do que elas eram.  A arte é alma humana em movimento na história.

Para pensar a arte e sua relação com a psicologia, devemos ser cuidadosos para não cairmos no reducionismo psicológico. Jung (1991) compreendia que para falar da arte ou da obra de arte deveríamos nos abster de uma categorização psicológica da arte/obra de arte. Para a psicologia deveria se “contentar” com o processo criativo que se manifesta no indivíduo.

O processo criativo não é “algo” que pertença a um individuo. Mas que atravessa o indivíduo. Talvez, nesse momento,  fosse mais correto chamar de impulso e não de “processo” criativo. O impulso criativo atravessa o indivíduo, assim como atravessa a cultura e os séculos.

Jung compreendeu que esse impulso criativo como sendo próprio do psiquismo humano.  Ao impulso de criação que se manifestaria de forma típica organizando o psiquismo e possibilitando o desenvolvimento do mesmo Jung chamou de arquétipos.

Os arquétipos são os processos de organização simbólica humana que a consciência humana apreende como imagens plenas e prenhes de sentido.  Os arquétipos são apreendidos pela consciência por meio dos símbolos, ou seja, pelas formas psíquicas que possuem uma representação consciente, mas cujo significa do não é claramente definido.

Quando são utilizadas “técnicas artísticas” como pintura, modelagem, composição, desenho, colagem, literatura eles propiciam o contato com o ímpeto criativo que, através do fazer artístico, propicia a produção de símbolos. Revitalizando e reorganizando a consciência daquele indivíduo, isto é, o modo como ele experimenta o mundo interno e externo.

Segundo Jung, “o processo criativo consiste (até aonde nos é dado segui-lo) numa ativação inconsciente do arquétipo e numa ativação inconsciente do arquétipo e numa elaboração e formalização na obra acaba” (JUNG, 1991, p.71).  Cabe aqui pensarmos as relações entre o processo criativo e impulso criativo. Para compreender melhor a diferença podemos fazer a seguinte metáfora: o impulso criativo é como um rio subterrâneo que corre nas profundezas. O processo criativo são os meios de captar e aproveitar as águas desse rio.

Assim, nos artistas esse rio está muito próximo superfície e, muitas vezes, corre livremente na superfície tornando extremamente férteis suas margens – embora o risco de “inundações” sejam maiores. Em pessoas saudáveis esse rio subterrâneo alimenta superfície como pequenos riachos.  Em pessoas neuróticas esse rio não chega à superfície. O neurótico tem que buscar outros meios para lidar com esse empobrecimento psíquico. Nesse contexto o processo artístico entra como a possibilidade de “criar poços” e através destes poços fertilizar a superfície da consciência.  Esses poços são os símbolos.  O símbolo “aglutina a energia psíquica e redistribui de maneira a transformar os processos inconscientes em conscientes e vice-versa(…)” (BYINGTON, 1983, p. 10).

Não podemos perder de vista que ao falarmos da arte, falamos de é um fenômeno natural, inerente ao ser humano. Todas as culturas produzem formas artísticas de expressão. A arte, assim como os símbolos, não é produzida de modo puramente consciente (ou artificial).   Para pensarmos a relação entre arte e psicoterapia devemos pensar um pouco sobre a psicoterapia.

Pensando a Psicoterapia

A psicoterapia ou a psicologia clínica é um fenômeno contemporâneo, nascendo no final do século XIX. Contudo suas raízes se perdem na história quando a relacionamos com as práticas mágico-religiosas de cura que ao longo da história vem se ocupando dos fenômenos da alma.

A dificuldade que podemos encontrar na relação entre as práticas mágico-religiosas de cura e os métodos contemporâneos de psicoterapia está o processo histórico de formação do saber científico. A ciência moderna se desenvolveu resistindo e se opondo ao dogmatismo religioso, influenciada pelo iluminismo e pelo positivismo compreendendo o mundo por suas próprias categorias, desvalorizando ou mesmo negando o saber que antes era relacionado à religião ou à “sabedoria mítica popular”.  Esse processo levou, inicialmente, a uma visão organicista das doenças da alma, isto é, as doenças da alma, que também eram vistas como ”aflições divinas”, foram reduzidas a um epifenômeno de um organismo doente. O empirismo e materialismo se instauraram como modelo médico, reduzindo, pela visão organicista, a uma disfunção fisiológica. É nesse cenário que, como dizia Jung, os deuses tornaram-se doenças.

Quando nos referimos a passagem de uma divindade a uma doença,  nos referimos a um processo de perda de significado simbólico. Vejamos, quando numa sociedade a doença é fruto de um castigo divino ou de uma intervenção divina, ela implica o indivíduo no processo obter o favor ou o perdão da divindade, seja por meio de reconhecimento de erros, mudança de atitude com outras pessoas (familiares, p. ex.), ou mesmo mudança em sua alimentação. Assim, nas culturas onde a doença é atravessada pelo sagrado, há um imperativo de mudança ou de tratamento que é próprio dos mitos daquela cultura ou religião.  A doença, quando manifesta, tem sempre o caráter de remeter o indivíduo e/ou indivíduos próximos ao sistema mítico ordenador daquele grupo, de forma a obter o favor divino pela cura.  A mudança de atitude é necessária para que o deus infligiu a doença se compadeça e a retire.

A mitologia (ou religião) narra eventos que aconteceram em um tempo sagrado, isto é, num tempo contínuo que é desde sempre e se renova constantemente. Os mitos são “modelos exemplares” que possibilitam a organização da consciência, pessoal e  coletiva, frente a um acontecimento potencialmente desestruturante, fornecendo a mesma orientação e sustentação.

Em outras palavras, os mitos são estruturas coletivas que fornecem uma orientação ao homem, situando-o no seu espaço e tempo, e dando um sentido a sua existência de forma a orientá-lo em suas ações para o futuro. O sagrado é justamente a possibilidade que se impõe ao comum ou natural, isto é, ao profano.  Um depende do outro.  As doenças, sejam elas do corpo ou da alma, eram/são vistas no mundo religioso como provenientes do mundo sagrado das divindades, isto é, as doenças seriam causadas pelo divino e pelo divino seriam curadas. Como exemplo, no mundo grego,

(…) quando alguém se encontrava doente a solução era recorrer a um “médico divino e não a um médico humano”(…). A razão para tal procedimento era que o homem da era clássica via a doença como o resultado de uma ação divina, que só poderia obter a cura através de outra ação divina. Nas clínicas da antiguidade praticava-se, pois, uma forma definida de homeopatia, em que um remédio divino vencia uma doença divina. Conferir tal dignidade à doença acarreta a vantagem inestimável de conferir-lhe também um caráter curativo. A divina afflictio contém, dessa maneira, seu próprio diagnóstico, terapia e prognóstico, desde que, é claro, a atitude correta a ela tenha sido adotada. O que possibilitava a atitude adequada era o culto, que consistia simplesmente a cargo do médico divino toda a arte da cura. Ele próprio era a doença e o remédio também.(GROESBECK, 1983, p. 74)

Numa perspectiva arquetípica a doença e a cura são faces da mesma moeda.  A “doença divina”, isto é, a doença com um sentido ou significado coletivo possibilita o movimento interno de cura. Pensando na prática da psicoterapia contemporânea nos deparamos novamente com a questão do sentido.  Quando Freud, acompanhando Breuer, compreendeu que os sintomas histéricos possuíam um sentido, um significado.  Freud penetrou no âmbito simbólico do sintoma ou das formações do inconsciente, isto é, compreendeu que havia muito mais no sintoma do que era manifesto.

A psicoterapia, na perspectiva junguiana, tem como objetivo o resgate do sentido da doença ou desse sintoma, para que através de uma releitura o individuo possa mudar sua atitude consciente em relação a totalidade psíquica que o envolve. Se fossemos falar de um “processo de cura” este seria um processo onde o indivíduo inicia um relacionamento profundo consigo mesmo, a fim de encontrar em si o agente de cura interior.

Guggenbühl-Craig sugere que existe um arquétipo ”médico/paciente” que é ativado todas as vezes que uma pessoa fica doente. O doente procura um médico ou doutor externo, mas o fator intra-psíquico, ou “fator curador”, ou ainda o “médico interior” é também mobilizado. Mesmo o médico externo sendo muito competente, as feridas e doenças não poderão ser curadas se não houver a ação do “médico interior”.(…) (Basta lembrar o grande número de pessoas que ainda morre de pneumonia, muito embora a pneumonia seja uma doença curável.) É freqüente ouvirmos explicações do tipo: “sua resistência interna cedeu” ou “ ele não estava querendo melhorar”. De um ponto de vista arquetípico, era o médico interior que não estava funcionando. (GROESBECK, 1983 p. 77)

Podemos pensar que a psicoterapia é a busca pelo “fator curador” inerente ao indivíduo. Contudo, este efeito do “fator curador” ou desse “médico interior” depende da disposição da consciência na relação com o inconsciente. E, talvez seja esta a grande questão da psicoterapia: possibilitar que a consciência tenha um contato transformador com o do pólo curador deste arquétipo constelado no inconsciente. Podemos compreender a constelação deste arquétipo como o movimento de reorganização inconsciente para suprir as deficiências da relação com a consciência, podendo ser acompanhado pela constelação de outros arquétipos.

Outro aspecto que Guggenbühl-Craig chama atenção é a possibilidade da cisão do arquétipo.  Segundo o mesmo, essa cisão se daria quando

(…) o paciente, por exemplo, talvez projete o seu terapeuta interior sobre o médico que o trata e este poderá projetar suas próprias feridas no paciente. Essa projeção de um pólo do arquétipo sobre o mundo exterior poderá proporcionar uma satisfação momentânea. Mas, a longo prazo, indica que o processo psíquico está bloqueado.” (GUGGENBÜHL-CRAIG,1978, p.99)

Com a projeção do pólo curativo deste arquétipo no terapeuta, o pólo da doença, com o cliente, este, ao olhar para si, vê apenas impossibilidade.  No contexto analítico, devemos compreender essa projeção como transferência e/ou contra-transferência. Guggenbühl-Craig aponta para a deficiência da relação terapêutica onde o terapeuta favorece polarização o arquétipo saúde-doença. A polarização em si é um fenômeno natural, que leva o cliente a buscar auxílio fora de si mesmo. Contudo, se essa polarização encontra sustento e reforço, pode se tornar uma cisão, diminuindo ainda mais a relação entre a consciência e o inconsciente. Por outro lado, essa contratransferência também fala da incapacidade desse terapeuta em lidar com sua sombra ou suas feridas.

Como dito, a projeção ou transferência desse pólo arquetípico é o que possibilita o inicio de um tratamento. Contudo, o que vai propiciar o desenvolvimento é a capacidade do terapeuta em receber essa projeção, sem se seduzir por ela, e no momento certo devolvê-la ao cliente como a possibilidade dele se organizar.

Mas, como pensar a relação de técnicas artísticas com a psicoterapia de base analítica? E a transferência? Antes de pensarmos em respostas para esse tipo de pergunta, devemos refletir um pouco sobre o paradigma da psicologia clínica.

Repensando o Paradigma

Na história da psicologia aprendemos que a psicologia clinica contemporânea emerge da medicina, a partir dos desdobramentos de trabalhos de pioneiros como Freud, Janet e Jung. Apesar de ter se afastado ao longo dos anos do modelo médico, psicologia clínica guarda alguma identidade com o modelo médico de onde emergiu. Relação que podemos perceber até pelo uso do próprio termo “clinica” vem do grego “kliné” que significa cama ou leito.

Psicologia clínica, em sentido próprio, se refere a uma área da psicologia ou uma área de atuação do psicólogo, na qual exerce a psicoterapia. Entretanto, esses termos nos trazem elementos importantes para pensarmos a questão de paradigma subjaz a termos/conceitos. Nesse processo, é importante buscarmos a imagem que se esconde por trás das palavras ou que deram sentido a essas palavras as quais usamos de forma quase “descuidada”.

Falamos que a Clinica, ou kliné, é a cama ou leito. E, psicologia, em seus termos que formam, seria psyché, isto é, “alma, sopro ou principio vital” e logos “estudo ou discurso”.  Se pudéssemos jogar com as palavras teríamos psicologia clinica como o “estudo ou discurso da alma no leito”. Que nos leva a pensar uma “alma” doente. E, assim, falamos de um modelo médico. O termo Medicina que usamos, vem o termo homônimo latino, cujo significado é remédio, também é associado à arte de ministrar o remédio, que por derivação, a arte de curar.

Por outro lado, temos a psicoterapia, quase desdobramento necessário da prática clinica. Psicoterapia é um termo formado pelos termos gregos psyché + therapéia que em grego pode ser compreendido como servir, honrar, assistir, cuidar e tratar.  Nessa riqueza de significados, poderíamos pensar a psicoterapia um “servir a alma” ou “cuidar da alma” assim como o “tratar da alma”.

Falta pensarmos a arte vem do termo latino, Ars, que possui sentidos variados como profissão, trabalho, habilidade e num sentido mais amplo “o trabalho que o homem faz”.

Ao pensar nesses significados e nas imagens que nos advém, podemos olhar para o modelo médico e o modelo artístico na psicologia.  No modelo médico falamos de uma psicologia clínica ou um “estudo da alma no leito” de uma alma que carece de um “remédio”.  Por outro lado, falamos de um modelo artístico onde a psicoterapia ou “cuidar da alma” enquanto ela está no seu “fazer” na vida. Talvez a diferença fundamental entre modelo médico para o modelo artístico está na compreensão do estado da psique, em outras palavras é pensar se está ou não a psique no leito? Está ou não a psique doente e impossibilitada?

É necessária a compreensão de que a patologia, do grego de pathos que é sofrimento ou passagem, é um processo muitas vezes necessário e que serve a Saúde.  Heráclito, já afirmava que “De todas as coisas a guerra é pai, de todas as coisas é senhor; a uns mostrou deuses, a outros, homens; de uns fez escravos, de outros, livres”. A guerra, do grego pólemos (de onde temos polêmica), é o conflito ou a tensão necessária para a criação. A psicopatologia ou “discurso do sofrimento da alma”, uma forma de criação.

Pensar a mudança de paradigma que propomos é mudar o olhar sobre a psique.  Pois, caso contrário à inclusão das “artes” como práticas psicoterápicas pode se tornar mais um “medicamento”.  E a “técnica” se tornar mais um “procedimento”. Para pensarmos essa mudança modelo de cuidado e atenção ao sofrimento psíquico seria necessária

a libertação dos fenômenos psíquicos da maldição do espírito analítico. Isso implica uma reflexão sobre o espírito analítico, a compreensão de sua preferência pela psicopatologia e, também do fato de a psicologia ter se tornado um imponente, embora sutil, sistema para distorcer a psique motivando a crença de que há algo “errado” com ela e, em conseqüência, para analisar sua imaginação através de categorias de diagnóstico. Fazer a psique entrar na vida não significa afasta-la de sua enfermidade, mas sim da concepção doentia de si mesma, de sua pretensa necessidade de cura, conhecimento e amor profissional. (HILLMAN, 1984, p. 14)

Uma “mudança de paradigma” não exclui a necessidade de medicamentos, de diagnósticos, mas o ponto central é “servir a alma” em seu processo de transformação ou sofrimento. O modelo médico ou como Hillman denominou “espírito analítico” compreende a psique como um objeto do analista ou do terapeuta, o modelo artístico ou simbólico pressupõe a alma como agente, o analista ou terapeuta ouve a alma e lhe serve os elementos necessários para que ela se crie e recrie. Quando falo de de “ouvir a alma”, não me refiro ao “ego”, mas ao Self, isto é, a totalidade psíquica.  O que implica em anunciar ou denunciar ao ego sua responsabilidade no processo de sofrimento psíquico. É perceber que, antes de tudo, a dor também é um processo de criação.

Compreendendo a dor ou o adoecer como um processo de criação, nos aproximamos novamente das “artes” que são formas da alma se expressar e se fazer na vida.  Toda dor ou doença possui um significado, uma história – assim, nem toda dor deve ou pode ser “curada”.

Sob a égide de Hefesto

A psicoterapia ou analise se mantém ou se torna efetiva por constelar uma dinâmica arquetípica que pode ser apreendida pelo caráter mítico. Dessa forma, devemos pensar qual dinâmica arquetípica o uso da arte na terapia poderia constelar ou, em outras palavras, qual o mito revivido nessa modalidade analítica?

No mundo grego, os deuses emblemáticos do processo de criação são Apolo e Hefesto.  Apolo é o deus das artes, da poesia da música, nele o processo criativo emana naturalmente. Apolo ou Febo Apolo (brilhante Apolo) é uma divindade solar, uma divindade onde a criação brilha e encanta. Em Apolo a arte é se exprime em sua potencia última e saudável.

Hefesto, por outro lado, é o deus “imperfeito”, aleijado.  É uma divindade impar no panteão grego, é filho legitimo dos deuses olímpicos, mas sua deficiência o afastou do Olímpio, mas por sua arte ele pode se religar a casa olímpica. Existem duas versões para sua deficiência física. Na primeira, durante uma discussão entre Hera e Zeus, Hefesto “ousou tomar o partido da mãe. Zeus enfurecido, agarrou-o por um dos pés e o lançou para fora do Olimpo. Hefesto rolou pelo espaço o dia todo e somente no pôr-do-sol caiu na ilha de Lemnos(…) Com o tombo o deus ficou aleijado e maquitolava de ambas as pernas”(BRANDÃO, 1991, p.490)

Em outra versão Hesfesto foi gerado apenas pela mãe, Hera, revoltado pelo nascimento de Atena, gerada apenas por Zeus. Hesfesto teria nascido deformado e coxo. Hera,

humilhada com a fealdade  e deformação do filho, Hera o lançou do alto do Olimpo. Após rolar pelo vazio durante um dia inteiro, o infeliz caiu no mar, onde foi recolhido por Tétis e Eurínome, que o “guardaram” por nove anos numa gruta submarina, o que mostra com clareza o longo período iniciático do deus coxo. Foi nessa gruta que Hefesto fez sua longa aprendizagem: trabalhava o ferro, o bronze o os metais preciosos, tornando-se “o mais engenhoso de todos os filhos do céu”. (BRANDÃO, ibid).

Hefesto, mais que Apolo, é a divindade que traz a arte como possibilidade de superação e mudança de atitude. Hefesto o deus deformado passou nove anos “esquecido” pelos deuses, período no qual trabalhou a si mesmo, assim como trabalhava o metal. Seu trabalho criativo fez com que fosse levado novamente ao Olimpo, mas sua arte com os metais e com o fogo não o limitou a um artesão – sua arte foi apenas a abertura para novas possibilidades. Conta-se que Hefesto também lutou

bravamente contra o gigante Clício e o mata, golpeando-o com barras de ferro em brasa. Em Tróia,(…) quando o rio Escamandro ameaçou a submergir Aquiles, o deus coxo, por solicitação de Hera, avançou com suas chamas e seusopro ígneo sobre as águas do rio e o obrigou a retornar a seu leito. (BRANDÃO, ibid, p. 491)

O mito de Hefesto traz a imagem daquele que cria a si mesmo por meio da arte ou de sua arte. Neste mito temos na arte como a possibilidade de unir o ctônico e ao celeste.  A arte possibilitou que Hefesto assumisse quem ele realmente era, isto sua divindade, direito e dignidade para ir ao Olimpo, para onde foi levado [4]como um igual.

Podemos compreender a arte metalúrgica de Hefesto como uma função transcendente, que se sobrepôs a sua deficiência física, permitindo a união de opostos.

O mito de Hefesto é um mito de sofrimento, rejeição, raiva e, sobretudo, de superação. Apesar de todo o sofrimento, Hefesto que é jogado nas profundezas se ergue. Assim como seu nome diz, “o fogo nascido das águas celestiais”. Hefesto é o fogo que as águas não apagaram.

Podemos considerar Hefesto como o “deus tutelar” da arte a serviço da alma (psicoterapia) assim, a arte na psicoterapia não seria a arte dos artistas. Deveríamos distinguir a arte de Apolo e a arte de Hefesto. A primeira é a arte da expressão da alma na construção de si no mundo, um traço extrovertido, buscando a luz do sol, buscando os olhos que a contemplem, a arte de Apolo serve sobretudo ao coletivo. Já a segunda é a arte de reconstrução da alma no individuo, com um traço introvertido, ele se faz nas forjas do Etna, nas cavernas, escondida e distante dos olhos curiosos. Mas, quando se realiza é bela e digna de admiração por homens deuses.

Arte e Psicoterapia: uma quase apologia

Ao longo deste trabalho discutimos formas de pensar a arte e a psicoterapia.  O processo criativo é, sobretudo, um processo individual, seja na arte ou na psicoterapia o terapeuta é um assistente in lato sensu. Por um lado, testemunha o desvelar da alma daquele indivíduo e por outro lado, ele serve ao processo oferecendo uma possibilidade ou a técnica, como uma resposta a uma solicitação do inconsciente cliente. A contratransferência, a resposta do inconsciente do terapeuta ao cliente, seria um elemento importante para pensar o Kairós da técnica.

O uso da arte no prisma analítico é uma possibilidade de superação de uma possível cisão do arquétipo de saúde-doença. No processo de criação a interação com o material empregado possibilita uma maior relação do cliente consigo mesmo, favorecendo ao desenvolvimento da autonomia em relação ao terapeuta, que passa efetivamente a assistente, in lato sensu, da transformação do cliente. Pois, o processo do fazer envolve o indivíduo como um todo.  Isso quer dizer que em sua dinâmica o indivíduo é a “ativado” no âmbito consciente (ego) e no âmbito inconsciente pessoal (dos complexos, sua história pessoal), e no âmbito arquetípico, que é gera uma dinâmica criativa diferenciada que amplia a possibilidade de compreensão da realidade – por meio dos símbolos. Nessa tripla “ativação” surge a possibilidade de mudança de transformação.

O elemento criativo ou arquetípico é fundamental para o desenvolvimento da personalidade, não precisa ser “explorado” pelas palavras como uma “tradução da obra” ou uma interpretação do que foi feito. O fazer criativo possibilita um novo olhar do indivíduo em relação a si mesmo e em relação ao mundo que o cerca. As palavras tendem a limitar ou aprisionar o símbolo a um conjunto restrito de significados.

A evocação dos arquétipos e a correlativa liberação dos desenvolvimentos psíquicos latentes, não são processos apenas intrapsíquicos; eles ocorrem num campo arquetípico que abrange o dentro e fora, e que inclui sempre, e pressupõe, um estímulo exterior – um fator proveniente do mundo (NEUMANN, 1991, p. 68).

Dessa forma, é necessário que o cliente seja entre em contato com algo que possa evocar essa potencia criativa. Esse contato, pode ser por meio das técnicas expressivas, ou pelo método de “ampliação” de sonhos ou fantasias,  possibilitando o religar o individuo com seu potencial criativo-arquetípico.

A arte pode atuar como um catalisador importante no processo terapêutico.  Um receptáculo para as projeções, que possibilita o indivíduo um confronto especial com o inconsciente. Contudo, a arte não é a panacéia.  A técnica certa pode se tornar ineficiente em alguns casos. Jung usava o provérbio taoísta que exprime bem essa realidade “Se o homem correto(…) usar o meio errado, o meio errado atuará do modo correto.(…) No entanto, se o homem errado usar o meio correto, o meio correto atuará do modo errado”(JUNG et WILHELM, 1988, p132) No caso específico, a técnica é o dialogo, muitas vezes silencioso, entre o terapeuta e o cliente.

É necessária presença ativa (mesmo que silenciosa) do terapeuta, a aposta no potencial inconsciente de cura e desenvolvimento do cliente. Pois, se o terapeuta não confiar e não buscar o “terapeuta/médico interior do cliente” ficará ainda mais difícil para o cliente encontrá-lo. Essa atitude do terapeuta vai para além do campo das palavras ou das intervenções orais. Pois, segundo Jung,

Muito mais forte do que suas frágeis palavras é a coisa que você é. O paciente está impregnado pelo que você é – pelo seu ser real – e presta pouca atenção ao que você diz. (…) Cada passo em frente que o paciente dá pode ser uma nova etapa para o analista. Não se pode estar com alguém sem ser influenciado por essa personalidade, mas o mais provável é que se não se perceba isso; (HULL, McGUIRE, 1984, p. 332)

Assim, faço uma quase apologia da arte ou técnicas artísticas com a psicoterapia. Pois, “tudo depende, como Jung não cansava de repetir, da ‘equação pessoal’, e equação pessoal é o mito próprio de cada terapeuta” (HILLMAN, 1984,p. 23). A técnica ideal é aquela que simboliza o encontro do terapeuta com o cliente, de modo a constelar o potencial de cura necessário ao cliente.

Minha quase apologia se torna também uma quase crítica. Esta quase crítica repousa não na técnica, mas justamente, no terapeuta que usa da técnica. Digo isso pelo risco da técnica se tornar um escudo que separa o cliente do terapeuta, protegendo este ultimo do contato. Do contato com sua própria insegurança, do contato própria história, com seus conteúdos que são ativados pelo contato com o cliente.

O uso de técnicas para “determinados casos” pode valorizar a patologia em detrimento do sujeito. A técnica é um meio, não um fim. O conhecimento da técnica, a experiência com a mesma, não pode substituir o contato único com cada cliente.  Mas, esta quase crítica se torna apenas um ponto de reflexão.

Gombrich, em sua história da arte, dizia que “uma coisa que realmente não existe é aquilo a que se dá o nome de Arte. Existem somente artistas.” (GOMBRICH, 1988,p. 4) Dessa forma, pensaríamos que não existe doença, mas doentes. Nem “Psicoterapias”, mas “psicoterapeutas”. Jung dizia que “o importante já não é a neurose, mas quem tem a neurose. É pelo ser humano que devemos começar para poder fazer-lhe justiça” (JUNG, 1999, p.80).

Referencias bibliográficas

BYINGTON,C.A.B. O DESENVOLVIMENTO SIMBÓLICO DA PERSONALIDADE, in JUNGUIANA – Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, 1983.

BÍBLIA. Português. BÍBLIA SAGRADA: Nova Versão Internacional. Tradução da Comissão de Tradução da Sociedade Bílbica Internacional. São Paulo: Editora Vida, 2000.

BRANDÃO. J. DICIONÁRIO MÍTICO-ETIMOLÓGICO, Vol. I, Ed. Vozes, Petrópolis, RJ, 1991.

GROESBECK, C.J. A IMAGEM ARQUETÍPICA DO MÉDICO FERIDO,in JUNGUIANA – Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, 1983.

GUGGENBÜHL-CRAIG, A. O ABUSO DO PODER NA PSICOTERAPIA e na medicina, serviço social e magistério, Ed. Achiamé, Rio de Janeiro, Rj, 1978.

GOMBRICH, E.H, A HISTÓRIA DA ARTE, Ed. Guanabara, 4.d. Rio de Janeiro, RJ, 1988.

HILLMAN, J. O MITO DA ANÁLISE. Ed. Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1984.

JUNG, C.G. A NATUREZA DA PSIQUE, Ed. Vozes, Petrópolis, RJ, 2000.

JUNG, C.G. A PRÁTICA DA PSICOTERAPIA, Ed. Vozes, Petrópolis, RJ, 1999.

JUNG, C.G. O ESPIRITO NA ARTE E NA CIÊNCIA, Ed. Vozes, Petrópolis, RJ, 1991.

JUNG, C.G. – WILHELM, R. – O SEGREDO DA FLOR DE OURO. Um livro de vida chinês, Petrópolis, Editora Vozes, 1988;

McGUIRE, W.; HULL, R.F.C, C.G.JUNG: ENTREVISTAS E ENCONTROS, Cultrix: São Paulo, 1984.

NEUMANN, E. A CRIANÇA, São Paulo: Cultrix Editora, 1991.


[1] Este artigo é uma adaptação do trabalho apresentado para a disciplina “Técnicas e Intervenções Terapêuticas”, ministrada pela prof. Dra. Kathy A. Marcondes, no curso de pós-graduação/especialização latu sensu em “Psicologia Clínica e da Família”, na Faculdade Saberes em 2007.

[2] Segundo no Livro de I Samuel, 16:23, “Sempre o espírito mandado por Deus se apoderava de Saul, Davi apanhava sua harpa e tocava. Então Saul sentia alívio e melhorava, e o espírito maligno o deixava.” (BIBLIA, p.223, 2000)

[3] Cf. JUNG, 2000

[4] Hefesto foi levado ao Olímpo, como reconhecimento de suas habilidades. “Em sua longa carreira de ferreiro e ourives divino, Hefesto multiplicou suas criações, forjando e confeccionando os mais preciosos, belos e “surpreendentes” objetos de artes que já se viram. Para vingar-se da mãe, fabricou e enviou-lhe um presente magnífico: um trono de ouro, delicado e artisticamente cinzelado. Ao recebê-lo, Hera ficou estupefacta: jamais vira coisa tão rica e tão bela, mas, ao sentar-se nele, ficou presa, sem que nenhum dos deuses pudessem liberta-la, por que só o ourives divino conhecia o segredo de atar e desatar, (…) Foi necessário enviar Dioníso, para levá-lo de volta para o Olimpo. O deus o êxtase e do entusiasmo embriagou Hefesto e, assim, foi possível guia-lo, montado num burro, à mansão divina.” (BRANDÃO, 1991, p.490)

 

 

——————————————————–

Fabricio Fonseca Moraes (CRP 16/1257)

Psicólogo Clínico de Orientação Junguiana, Especialista em Teoria e Prática Junguiana(UVA/RJ), Especialista em Psicologia Clínica e da Família (Saberes, ES). Membro da International Association for Jungian Studies(IAJS). Formação em Hipnose Ericksoniana(Em curso). Coordenador do “Grupo Aion – Estudos Junguianos”  Atua em consultório particular em Vitória desde 2003.

Contato: 27 – 9316-6985. /e-mail: fabriciomoraes@yahoo.com.br/ Twitter:@FabricioMoraes

www.psicologiaanalitica.com

mandala